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Psicologia & Sociedade

versão On-line ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. v.19 n.spe2 Porto Alegre  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822007000500019 

II – Artigos

 

Encontro da psicologia social brasileira com a psicologia soviética

 

The encounter of brazilian social psychology with soviet psychology

 

 

Fernando Luis Gonzalez Rey

Centro Universitário de Brasília, Brasília, Brasil

 

 


RESUMO

O presente trabalho debate a relação da teoria desenvolvida por Sílvia Lane com os autores soviéticos, em particular com Vygotsky e Leontiev. No trabalho se analisam os diferentes momentos do pensamento de Sílvia Lane, especificando suas contribuições para o desenvolvimento de uma psicologia social comprometida com a realidade social brasileira, assim como com a elaboração de categorias e problemas de relevância geral para a psicologia.

Palavras-chave: Psicologia Social; Atividade; Identidade; Subjetividade.


ABSTRACT

The present paper discusses the link between Lane's theory and soviet authors, particularly Vygotsky and Leontiev. In this paper the different moments of Lane's thinking specifying her contributions for the development of a social psycology involved with Brazilian reality as well as the elaboration of categories and problems of general relevance to psychology are analyzed.

Keywords: Social Psychology; Activity, Identity; Subjectivity.


 

 

É impossível começar este artigo sem antes agradecer à professora Bader Sawaia, organizadora deste número especial dedicado à querida professora Sílvia Lane, pelo convite para participar com um artigo e pela delicadeza que tem tido em várias publicações de conceder-me um espaço nessa relação da psicologia social brasileira com a psicologia soviética.

Artigos desta natureza sempre representam uma tarefa difícil, pois passam pela interpretação dos autores e sempre se corre o risco de omitir algum aspecto significativo que possa ter acontecido num espaço em que eu não transitei dentro dessa enorme realidade nacional que o Brasil representa. É por isso que especifico o desenvolvimento deste trabalho naquela parte da psicologia social brasileira que conheço, e da qual tenho sido parte ativa desde muito antes de passar a residir neste país.

Também o título é ambicioso, dada a extrema complexidade e diversidade da psicologia soviética. Mas em relação a este tópico aceitei o tema que me foi proposto, pois me permitiu algumas reflexões sobre essa psicologia e o campo da psicologia social.

Um fato muito importante acontecido no Brasil foi o esforço pioneiro de Sílvia Lane na incorporação de autores relevantes da psicologia soviética, em particular Leontiev e Vygotsky, em uma reflexão crítica sobre o campo da psicologia social e nas condições de seu desenvolvimento no Brasil e na América Latina. Particularmente na reflexão sobre o lugar da psicologia do trabalho, indo muito além da forma existente no Brasil e em muitos outros países. Sílvia e seus colaboradores iniciaram uma reflexão sobre a importância de uma análise crítica da atividade do trabalho que era, ao mesmo tempo, uma psicologia social e uma psicologia geral, encontrando, na psicologia soviética, o desenvolvimento de uma área de conhecimento centrada na elaboração de conceitos teóricos e temas de valor geral para a produção do conhecimento psicológico.

Neste artigo, por questão de espaço, por ser um número dedicado à Sílvia Lane em que participam vários autores, o que implica um esforço de síntese, me dedicarei a analisar como aparece no trabalho de Sílvia o vínculo com a psicologia soviética e as conseqüências desse encontro para o desenvolvimento de sua linha de trabalho. As etapas e o desenvolvimento do trabalho de Sílvia têm sido muito bem trabalhados por Sawaia (2001).

A integração do tema da atividade, desenvolvido na psicologia soviética por A. N. Leontiev, e sua significação para a análise numa outra perspectiva da questão da consciência humana é outro dos núcleos centrais do trabalho de Sílvia, que representou a base teórico-metodológica para seus estudos sobre a atividade do trabalho. A forma em que Sílvia se aproxima ao tema da atividade lhe permitiu sair dos extremos em que a psicologia tradicional hegemonizou o cenário da psicologia latino-americana na segunda metade do século XX. Em um livro que teve forte impacto no Brasil e na América Latina em geral, organizado conjuntamente com W. Codo " Psicologia social o homem em movimento" (1984), Lane afirma:

A desconsideração da psicologia pelo ser humano como produto histórico-social é que a torna, se não inócua, uma ciência que reproduziu a ideologia dominante de uma sociedade, levando-a a descrever comportamentos e, baseada em freqüência, tirar conclusões sobre relação causal, reduzindo-se à descrição pura e simples de comportamentos, ocorrendo em situações dadas. (p. 12).

É esse principio, de reconhecer o ser humano como produto histórico-social um aspecto sensível que une Sílvia à tradição da psicologia soviética, e que a leva a aproveitar de forma criativa o legado de Leontiev e de Vygotsky. Mas a partir daí, Sílvia, junto com seus alunos de doutorado, com os quais sempre formou um grupo essencialmente criativo, orientado a desenvolver fios novos dessa nova postura gerada por ela, foi desenvolvendo de forma simultânea o tema da identidade, da consciência, da ideologia, do caráter mediador da linguagem na consciência humana, das representações sociais etc. Tais temas não apareceram "soltos" , mas num tecido teórico que avançava constantemente numa nova representação sobre os processos psíquicos envolvidos nas diferentes formas de atividade humana, tecido que ia demandando novas construções teóricas, e novas pesquisas de forma permanente, a partir das quais a própria Sílvia foi desenvolvendo diferentes momentos em seu pensamento.

É nesse processo que vai a procura da integração do individual com o social numa nova perspectiva através da apropriação da dialética, que caracterizou seu pensamento até o final de sua vida. Nesse sentido ela escreveu (2000):

Quando tive consciência disso [ está se referindo à contradição entre subjetividade e objetividade que separava os enfoques mais tradicionais da psicologia] pensei que precisava encontrar uma superação. Mead colaborou muito, com suas reflexões, sobre o signo e o outro generalizado. Porém, sem dúvida nenhuma é a dialética que possibilita a superação, pois, sem negar qualquer uma das duas dimensões, considera-as como uma unidade de contrários (p. 5).

Essa preocupação é um dos problemas teóricos essenciais em que se debate o legado da psicologia histórico-cultural. O aspecto subjetivo da psique – algo contraditório no percurso da obra de Vygotsky, que ao meu ver só consegue integrar de forma dialética com a introdução da categoria de sentido no último momento de seu trabalho – já representava para Sílvia um problema, e ela colocava com clareza que a solução não poderia estar na hipertrofia de um desses momentos, ou seja da objetividade e da subjetividade, mas na integração dialética entre eles. Porém esse não foi um caminho fácil, pois entre conseguir reconhecer um principio teórico, o qual é em si mesmo muito complexo, e conseguir concretizá-lo no desenvolvimento de uma linha teórica sustentada numa multiplicidade de pesquisas abertas ao momento empírico – o que foi característico do grupo liderado por Sílvia – se deu em movimento permanente, que foi transitando por diferentes caminhos.

A psicologia soviética tinha consciência dessa necessidade, assim como da necessidade da integração do cognitivo e do afetivo, que foram princípios teóricos explícitos em vários de seus clássicos (Rubinstein, Ananiev, Uznadze, Miasichev, entre outros). Entretanto ela manteve um percurso muito contraditório em seu avanço em relação a esses problemas, em parte pelo imaginário objetivista que a restringia do ponto de vista ideológico, que não aparecia apenas definido pela pressão política do stalinismo, mas pela própria cosmovisão de seus protagonistas. Embora os pioneiros daquela psicologia não tivessem se apropriado do marxismo numa forma dogmática, mas criativa, era muito difícil ir além de princípios muitos impregnados naquele momento no imaginário da sociedade soviética de forma geral, e um dos princípios mais arraigados da época foi o caráter dominante do ser sobre a consciência que, mal interpretado, levou ao caráter secundário da consciência em relação ao ser.

Os temas do objeto, a internalização e o reflexo, representaram, a meu ver, uma tendência de "objetualizar" e "objetivar" a psique, não deixando espaço para construir a questão da subjetividade. Essa tendência, particularmente, se expressou com especial força na Teoria da Atividade de A. N. Leontiev, que foi criticada com muita força na própria história da psicologia soviética, particularmente a partir do ano 1977, como resultado do V Congresso de Psicologia da União Soviética, centrado no tema "O Problema da Atividade na Psicologia Soviética" . A expansão dessas categorias, que se tornaram princípios "quase oficiais" da psicologia marxista, na época de hegemonia da Teoria da Atividade, não deixou espaço para a consideração da dialética entre o objetivo e o subjetivo, sendo decisivo no desenvolvimento de uma psicologia objetiva centrada na atividade e em suas diferentes operações e processos.

Essa dificuldade para reconhecer a questão da subjetividade, também caracterizou a posição de Sílvia num determinado momento de sua obra, o que influenciou seu apego ao tema da identidade, na qual sentia a possibilidade de expressar o subjetivo e o individual, mas em um conceito de clara orientação social, pois mesmo que, tanto Sílvia quanto seu grupo consideraram-na um conceito em desenvolvimento, a identidade representava a expressão direta de uma condição social. A identidade era elaborada em relação à condição social da pessoa e não como uma produção da complexa articulação subjetividade social-individual. Posteriormente, na década de noventa (Sawaia, 2001) vai dar ênfase à mediação da afetividade, e nos finais dessa década, reexamina a questão da dialética entre objetividade e subjetividade à qual se referiu muito tempo antes, como foi colocado acima.

Os temas da personalidade, identidade e subjetividade, foram alvos de discussão e reflexão constante entre mim e Sílvia, e penso que essa discussão influenciou nossos respectivos desenvolvimentos. Conheci Sílvia e Maria do Carmo Guedes na viagem de ambas pela América Latina no ano de 1982. Naquela viagem, revelou-se uma particular sensibilidade pela produção psicológica e pelo desenvolvimento teórico e social da América Latina naqueles anos, o que é particularmente importante se consideramos que a própria psicologia brasileira estava essencialmente orientada pela psicologia européia e norte-americana naquela época. Esse fato evidenciava os princípios que norteavam a atividade intelectual de ambas professoras. Aquele trânsito delas por Havana, me permitiu conversar e aprofundar temas teóricos com ambas, e daí saiu minha primeira publicação no Brasil, que foi o capítulo de um livro meu intitulado La categoria personalidad em la obra de los psicólogos marxistas, que apareceu publicado numa coletânea de autores sobre o tema história da psicologia pela Editora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (EDUC) em 1986.

Já naquele momento iniciou-se um debate em relação ao uso da categoria personalidade na psicologia, apoiado num referencial marxista, ao qual muitos de nós definimos como psicologia marxista. A hegemonia do tema da atividade e da mediação semiótica na psicologia soviética caracterizou apenas um segundo momento da obra de Vygotsky e eles terminaram sendo reificados no imaginário vygotskiano dominante da psicologia ocidental, muito permeado pelas traduções e interpretações de autores norte-americanos (Werstch, Cole, Rogoff, entre outros). No entanto, os conceitos mais orientados à fundação de uma nova representação do mental, como o de personalidade, muito usado por Vygotsky, foram completamente ignorados.

No período em que Sílvia começa a enfatizar o tema das emoções na mediação da consciência, senti que estávamos muito próximos, embora usássemos categorias diferentes. Naqueles anos, eu e Sílvia tivemos uma importante participação num movimento crítico, muito fecundo e articulado na psicologia social latino-americana no qual estavam envolvidos I. Martín Baró, M. Montero, J. M Salazar, B. Jiménez, P. Fernández Christlieb, A. N. Rivera, entre outros. Naquela geração de psicólogos, acho que Sílvia e eu, tanto pela nossa posição em relação ao marxismo, quanto pela influência da psicologia soviética em ambos – mesmo que desta última tenhamos nos apropriado por vias diferentes – tivemos uma especial preocupação pelo desenvolvimento de categorias, que permitiram considerar o individual dentro da psicologia social, possibilitando manter a tensão entre a objetividade e a subjetividade no desenvolvimento da psicologia social.

Essa preocupação fica clara na seguinte afirmação de Sílvia (1995):

Nossas investigações nos levaram a algumas reformulações. Uma delas foi a constatação da impor-tância das emoções na configuração da consciência e da identidade e como a mediação entre essas e a ati-vidade ao lado da linguagem, a partir da tese de Sawaia, uma das preciosas contribuições da pesquisa participante. (p. 78).

O processo de reconhecimento do papel das emoções não representou um fato isolado, mas foi envolvendo a autora em construções cada vez mais complexas sobre os aspectos subjetivos implicados na ação humana. Isso também teve relação com o seu descobrimento do que Vygotsky atribuiu à imaginação e à fantasia, temas que também têm sido passados muito superficialmente na leitura de Vygotsky desenvolvida na psicologia ocidental. Assim em 1997, Sílvia escreve:

Destacamos assim as duas mediações fundamentais na constituição do individuo: a linguagem e as emoções, ambas permitindo a comunicação com o outro, seja ela expressiva, seja ela verbal, elas estão na base da construção do saber, manifestado através de representações sociais, da imaginação e mesmo da fantasia, mas também das ações, de projetos e de suas revisões. (p. 19).

Na citação evidencia-se a significação que Sílvia atribui aos processos da imaginação, as emoções e a fantasia, tanto na comunicação, categoria que foi profundamente descuidada pela Teoria da Atividade de Leontiev, quanto na construção do saber no qual a relação entre o subjetivo e o objetivo consegue sua máxima expressão na obra da autora. Como era típico de Sílvia, esse tema de forma imediata se expressou numa questão de investigação. Ivani Leite, que foi sua orientanda no mestrado, e que participou da equipe de pesquisa do programa dirigido por Sílvia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) escreveu em relação àquela experiência (2002):

Em 1992 recebemos um convite da coordenadora do Programa de Pós-graduação de psicologia social da PUC/SP, professora Sílvia Lane, para integrar a equipe multidisciplinar do programa, com o objetivo de sistematizar teórica e empiricamente dados relativos à esfera motivacional referida ao campo da afeti-vidade. Com objetivos mais abrangentes pretendíamos caracterizar não só as mediações gnosiológicas existentes no processo de apropriação, mas também vinculá-las às mediações emocionais e, portanto, estudar as concepções de motivo de um modo geral e seus enfoques sobre o psíquico, atendendo posições diferentes das principais linhas do pensamento psicológico, para depois relacioná-las com a Teoria da Atividade. (p. 41).

Nesse processo, deu-se inicio a um novo tema em pesquisa que coincidiu com o descobrimento de novos textos de Vygotsky por Sílvia, que a conduziram a novas reflexões sobre a complexidade da organização psíquica, permitindo-lhe avançar além dos limites da categoria de atividade. Nessa última parte de sua obra, quando já muitos de seus alunos de doutorado tinham as suas próprias direções de pesquisa em andamento, os temas da subjetividade, dos afetos e da complexa integração do social com o individual fizeram desta psicologia social inaugurada por Sílvia uma obra preocupada de forma simultânea pelo estudo dos processos sociais, e dos processos psíquicos, associados com as diferentes atividades humanas.

Em um de seus últimos trabalhos publicados, Sílvia expressa (2001):

A subjetividade é construída na relação dialética entre o individuo a sociedade e suas instituições, ambas utilizam as mediações das emoções, da linguagem, dos grupos a fim de apresentar uma objetividade questionável, responsável por uma subjetividade na qual esses códigos substituem a realidade. Assim, objetividade/subjetividade como unidade dialética é mediada por uma estrutura denominada subjetividade social [ aqui faz referência à minha autoria desse termo] a qual através de códigos afetivos e lingüísticos garantem a manutenção do status quo. Como enfrentar esta cilada? ( p. 17).

Essa cilada, essa integração de níveis e questões é um dos grandes desafios atuais, que Sílvia deixa em aberto em uma de suas últimas obras escritas. Nesse parágrafo, o domínio do social e do individual conseguem uma articulação recíproca através de múltiplas mediações que expressam em toda sua complexidade esse sistema complexo que é a subjetividade humana. Sílvia, que começa seu contato com a psicologia soviética com um domínio mais profundo de Leontiev do que de Vygotsky, termina sua obra numa grande proximidade com os temas e desafios que se derivam do posicionamento teórico de Vygotsky em seus últimos trabalhos e que, hoje, nos trazem mais desafios do que certezas.

O trabalho de Sílvia tem marcado o desenvolvimento de muitos grupos e temas diferentes da psicologia social brasileira, e precisamente por não ter sido uma psicologia social que ficasse restrita a uma organização externa ao indivíduo, nem reduzida a uma só categoria, reificada e desligada do sistema social e das ações de grupos e pessoas, tem influenciado uma psicologia social que incorpora temas como o estudo do impacto social das doenças, a aprendizagem, a comunidade, a ideologia e assim por diante. Os princípios da obra de Sílvia, sua maneira sistêmica de integrar o social e o individual, e de articular a pesquisa empírica em núcleos teóricos que vão se articulando entre si, constitui uma aproximação essencial ao "modus operandi" da psicologia soviética, o que expressa um nível criativo dessa relação que está além da incorporação mecânica de categorias "soltas" da obra de Vygotsky que caracteriza muitos espaços de uma apropriação funcionalista e mecanicista de Vygotsky na psicologia atual.

O legado de Sílvia se materializa hoje nas linhas de pesquisa de Bader Sawaia, Antônio da Costa Ciampa na pós-graduação de psicologia social PUC-SP, assim como do grupo de psicologia sócio-cultural da Faculdade de Psicologia da PUC-SP (Ana Bock, Odair Furtado, Maria da Graça M. Gonçalves, Sergio Ozella e Wanda M. Junquera Aguiar entre outros) que integra pesquisadores do núcleo de psicologia social da pós-graduação e da graduação, os trabalhos de psicologia comunitária liderados por Fátima Quintal, as pesquisas sobre emoções na aprendizagem de Denise Camargo, entre outras.

 

Alguns comentários finais

Não gostaria de terminar o presente artigo sem destacar algumas idéias importantes do trabalho de Sílvia e da articulação da psicologia social com a psicologia soviética que esta autora iniciou no Brasil.

Em primeiro lugar, o trabalho de Sílvia nos revelou uma apropriação crítica e criativa de um marco teórico revolucionário e novo, aquele desenvolvido pela psicologia soviética, o qual ainda é profundamente desconhecido na psicologia ocidental, entre outras coisas pela oficialização de uma interpretação monolítica e isolada da obra de Vygotsky que se tem institucionalizado pelo poder da psicologia norte-americana.

Em segundo lugar, gostaria de enfatizar a significação da articulação progressiva dos momentos teóricos e a pesquisa no trabalho de Sílvia e a constituição de um grupo de construção teórica inovadora na psicologia latino-americana, algo que até hoje é difícil ante as reproduções miméticas das teorias ou formas de pesquisa hegemônicas e estabelecidas. A psicologia social definida por Sílvia subverteu uma ordem dominante na psicologia social brasileira com múltiplas conseqüências de desenvolvimento, algumas das quais caracterizam as linhas de continuidade acima mencionadas. Porém, deve-se manter viva a arqueologia sobre seu pensamento, a exploração de múltiplos resquícios nesse pensamento que nos deixaram idéias sem desenvolver, para evitar que seja relegado ao esquecimento que tem caracterizado a obra criadora dos autores latino-americanos nesta área, basta apenas recordar a não continuidade das obras de Bleger e Pichon Riviere na Argentina que hoje, paradoxalmente estão, sendo resgatados na Europa.

 

Referências

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Leite, I. (2002). Emociones sentimientos y afectos. Una reflexión sócio- histórica. Habana, Cuba: Pueblo y Educación.         [ Links ]

Sawaia, B. (2001). Sílvia Lane: Vol. 8. Pioneiros da psicologia social brasileira. Brasília, DF: Conselho Federal de Psicologia.         [ Links ]

 

 

Recebido: 23/05/2007
1ª revisão: 03/07/2007
Aceite final: 30/07/2007

 

 

Fernando Luis Gonzalez Rey é psicólogo, PhD em Psicologia pelo Instituto de Psicologia Geral e Pedagógica de Moscou. Professor titular do Centro Universitário de Brasília. Endereço para correspondência: Faculdade de Ciências da Saúde, Departamento de Psicologia. Centro Universitário de Brasília. SEPN 707/907 CEP 70790-075 Brasilia/DF. gonzalez_rey49@hotmail.com