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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.20 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822008000100010 

Dependência de drogas e psicologia social: um estudo sobre o sentido das oficinas terapêuticas e o uso de drogas a partir da teoria de identidade1

 

Drug dependency and social psychology: a study on the meaning of therapeutic workshops and the use of drugs from the theory of identity

 

 

Aluísio Ferreira de Lima

Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta os resultados da dissertação de mestrado que teve como proposta a investigação do sentido da oficina terapêutica de teatro para uma pessoa acompanhada no ambulatório de tratamento da dependência química do município de Diadema, SP. Para isso partiu-se da Psicologia Social e do conceito de identidade como categoria central de análise, propondo entender o fenômeno não apenas no seu aspecto instrumental, mas sim em todo o contexto no qual o indivíduo usuário de substâncias psicoativas está inserido, nos conflitos da tradição versus modernidade, do mercado de consumo, dos diagnósticos e tratamentos. Com tal abordagem, pretende-se apresentar uma contribuição tanto teórica, quanto política. A pesquisa foi realizada a partir da narrativa da história de vida da participante, que foi gravada e transcrita com o consentimento da entrevistada. Finalmente, o presente trabalho tece algumas reflexões sobre a questão das drogas e da possibilidade de metamorfose por meio da oficina terapêutica de teatro, assim como oferece subsídios para discutir as identidades pós-convencionais e as possibilidades de emancipação.

Palavras-chave: Uso de drogas; oficina terapêutica; identidade; Psicologia Social.


ABSTRACT

This paper presents the results of a Master's dissertation that investigated the meaningof the therapeutic theater workshop for a person who has been treated at the ambulatory of drug dependency in the city of Diadema, SP. To do so, our analysis is centered on categories of Social Psychology and the concept of Identityn considering to understand the phenomenon not only in its instrumental aspect, but, the context as a whole, in which the individual that uses psychoactive substances is inserted, in the conflicts between tradition vs. modernity, in the consumer market of diagnosis and treatments; with such an approach, proposing a theoretical as much as a political contribution. The research was carried out from the narrative of the participant's life history, which was recorded and transcripted with the consent of the interviewed. Finally, this work weaves some reflections on the question of drug usage and the possibility of change through the therapeutic theater workshop, as well offering subsidy to discuss post-conventional Identities and the possibilities of emancipation.

Keywords: Drug usage; therapeutic workshop; Identity; Social Psychology.


 

 

Ao abordarmos o tema das drogas há que se apresentar primeiramente os pressupostos dos quais se parte, vistas a amplitude e a diversidade das discussões acerca do tema, que vão desde o ponto de vista mais conservador até o mais libertário, do mais reducionista até o mais complexo. No que se refere à contextualização desse problema ao nível global, sabemos que de acordo com a World Healt Organization (WHO), quatro das seis causas de vivência com inaptidão ocorrem devido a distúrbios neuropsiquiátricos (depressão, uso de álcool, esquizofrenia e transtorno bipolar), uma entre quatro famílias tem pelo menos um membro com transtornos mentais, "além dos custos de saúde e sociais, aqueles que passam por sofrimento mental também são vítimas de violações dos direitos humanos, estigma e discriminação, tanto dentro quanto fora das instituições psiquiátricas" (WHO, 2003, p. 4). O custo social e os impactos econômicos dos transtornos mentais afetam a renda pessoal e familiar e custam para a economia nacional vários bilhões de dólares por ano.

A WHO mostra que:

o abuso de álcool e outras drogas continua sendo um dos maiores problemas de saúde pública do mundo, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento. Mundialmente o uso de álcool respondeu por 4% do 'total burden' de doenças em 2000. (WHO, 2003, p. 22).

Estima-se que atualmente existam 76,3 milhões de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool, dos quais pelo menos 15,3 milhões sofreram algum distúrbio psiquiátrico. Entre 5 e 10 milhões de pessoas atualmente utilizam drogas injetáveis (5% a 10% das infecções por HIV possivelmente são causadas por esse tipo de utilização). Em 2000, mais de 1.8 milhões de mortes foram atribuídos ao uso de álcool e 205.000 atribuídas ao uso de drogas ilícitas.

Embora esses dados possam apontar para um certo pessimismo frente às possibilidades de enfrentamento do problema, encontramos no Brasil grandes avanços no que se refere ao tratamento, pois, desde a III Conferência Nacional de Saúde Mental, tem sido defendida a importância do Ministério da Saúde em garantir a definição de políticas públicas para os usuários de álcool e outras drogas baseadas nos direitos humanos, nos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde - SUS e da Reforma Psiquiátrica, assim como, a necessidade de "garantir que o SUS se responsabilize pelo atendimento dos usuários de drogas e, ao mesmo tempo, não reduzir essa problemática exclusiva da saúde" (Brasil, 2002, p. 60). E, mais ainda, quando o Ministério da Saúde passou a implementar o "Programa Nacional de Atenção Integrada aos Usuários de Álcool e outras Drogas", reconhecendo o problema do uso prejudicial de substâncias como um grave problema de saúde pública, "situada no campo da saúde mental, e tendo como estratégia a ampliação do acesso ao tratamento, a compreensão integral e dinâmica do problema, a promoção dos direitos e a abordagem de redução de danos" (Brasil, 2005, p. 46).

Em 2003, o Ministério da Saúde propôs a "Política do Ministério da Saúde para a Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas", na qual a Redução de Danos passa a ser a política pública adotada. A partir de então, a postura preconizada é a de colocar-se na condição de acolhedor, tendo em vista que cada indivíduo traz consigo sua história de vida, expressando sua individualidade e também uma expressão da história de vida de muitas outras pessoas (Brasil, 2004). Essa compreensão permite que entendamos o consumo de drogas como um problema social, e o usuário de drogas como sendo um cidadão que tem direito de usar o que quiser, mas que deve se conscientizar de sua situação de risco e as implicações para sua rede de relações.

É nesse cenário que encarei o desafio de realizar uma pesquisa de mestrado em Psicologia Social (A. Lima, 2005), e, mais especificamente, ousei fazer uma análise do uso de drogas utilizando a teoria da Identidade desenvolvida por Ciampa (1987). A escolha pelo orientador, assim como pelo referencial teórico-metodológico, se deu como uma reação às leituras reducionistas e pessimistas que descrevem o ser humano impotente perante as influências das substâncias psicoativas, aos estudos que partem da influência da droga no comportamento humano, ou ainda, às pesquisas que focam a influência do mercado no consumo das drogas. Meu interesse voltou-se para o indivíduo, sua relação com as substâncias psicoativas e, principalmente, ao sentido que este atribuiu à oficina terapêutica de teatro na metamorfose de sua identidade, na transformação da sua condição de dependente de drogas em um indivíduo que pode ter uma postura autônoma frente às substâncias que utiliza, seja a partir da redução do consumo, substituição ou abstinência. Através do material bibliográfico e empírico coletados na pesquisa exploro a possibilidade de desenvolvimento de identidades pós-convencionais (Habermas, 1983) de usuários de drogas.

Desse modo, a pesquisa enfocou a identidade como categoria central de análise, o que implicou compreender o fenômeno envolvendo as substâncias psicoativas a partir da tensão existente entre o mundo da vida e a lógica sistêmica (esses conceitos serão explicados no decorrer do texto) e sua influência na construção, desconstrução e reconstrução das identidades. Partindo da consideração da influência capitalista nos problemas atuais, discuto ao longo da pesquisa os conflitos existentes entre a tradição e a modernidade, as influências do mercado de consumo; os diagnósticos e tratamentos na construção da personagem do dependente de drogas, assim como a possibilidade de desconstrução dessa personagem (dependente de drogas) a partir da intervenção que o sujeito da pesquisa sofreu em um Centro Atenção Psicossocial para álcool e outras drogas, mais precisamente, na oficina terapêutica de teatro. Dada a amplitude de questões discutidas na pesquisa de mestrado, este artigo tem como objetivo trazer uma síntese das principais questões abordadas e das considerações finais acerca do problema.

 

O envolvimento do pesquisador com o mundo das drogas

O interesse pelo estudo da identidade das pessoas que utilizam substâncias psicoativas surgiu durante o período de estágio acadêmico no ambulatório de tratamento aos usuários de drogas do município de Diadema, SP, Espaço Fernando Ramos da Silva (EFRS). Isso ocorreu no período de 15 de fevereiro de 2002 a 31 de dezembro de 2003, quando foram executadas as seguintes tarefas na instituição: atendimentos individuais, grupais, familiares, trabalhos de prevenção e capacitação na temática das drogas e monitoria em oficinas terapêuticas.

Neste período, foi observado que os usuários do serviço envolvidos no tratamento tinham uma participação constante nas oficinas terapêuticas, sendo que, na maioria das vezes, era o único espaço freqüentado por eles. Também foi observado, durante os atendimentos do grupo de familiares, que a mudança de personagens destes usuários era constantemente trazida pelos componentes da família. Verificou-se, inclusive, que alguns familiares vinham ao grupo informar o "abandono do paciente", justificando que este tinha "mudado de vida", arrumado emprego, namorada, reconstruído relacionamentos, etc.

Observei, utilizando uma expressão habermasiana, a presença de "fragmentos de emancipação" na vida desses usuários, como, por exemplo, o fenômeno presenciado na oficina terapêutica de teatro do EFRS, quando após a apresentação de uma peça teatral em um Encontro Internacional, e serem acolhidos e parabenizados como "artistas" pelos representantes europeus e latino-americanos, os usuários retornaram na semana seguinte propondo a mudança do nome da oficina de teatro do EFRS - "Os Recuperandos", para "Cia. Re-Visão", com a argumentação de que o antigo nome os colocavam em constante re-posição do problema que passavam, ao passo que re-visão colocava como proposta uma nova forma de lidar com a vida, sendo proposto para os técnicos a apresentação de peças em outros eventos e espaços. Esses "Fragmentos de emancipação" levou-me a pesquisar o sentido da oficina de teatro para uma pessoa submetida ao tratamento da dependência de drogas no EFRS, entendendo que a participação nesse lugar parecia proporcionar uma metamorfose de identidade significativa para esses indivíduos.

Sendo assim, fica explícito que a escolha do EFRS como locus para encontrar os possíveis participantes da pesquisa se deu pela forma de tratamento da instituição, em que a permanência do indivíduo depende de sua disposição ao tratamento proposto, diferentemente de instituições totais descritas há muito por Irvin Goffman (1961), que utilizam a internação e a abstinência como forma ideal para o tratamento da dependência de drogas, em que é necessário que o indivíduo abra mão de seu desejo e autonomia, passando por um período de internação, tendo além dos atendimentos das especialidades a participação "obrigatória" em oficinas terapêuticas. Outro fator que fortaleceu a escolha do EFRS dentre outras instituições de tratamento do ABC foi o fato desta instituição ter seu projeto de criação e intervenção utilizado como objeto de pesquisa em uma dissertação de mestrado em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP (S. Lima, 2000).

A direção do EFRS mostrou-se bastante interessada em colaborar com a pesquisa, possibilitando acesso aos prontuários e indicando informantes e participantes potenciais para entrevistas. Entre os 2494 prontuários de usuários matriculados (até 22/12/2003), levantamos os prontuários de ex-pacientes que apresentavam em seu histórico alguma participação na oficina terapêutica de teatro durante seu tratamento na instituição. Este processo foi iniciado no dia 20 de dezembro de 2003 e encerrado em 15 de janeiro de 2004.

Ao todo foram levantados 57 prontuários de pessoas que faziam uso de drogas psicoativas e obtiveram alta do ambulatório, ou abandonaram o mesmo em momento de maior organização pessoal e que participavam dessa oficina. Após a escuta de "informantes" sobre o possível participante (os informantes foram antigos usuários, familiares de usuários e técnicos da instituição), finalmente escolhemos uma usuária que apresentava-se como caso emblemático, em outras palavras, um histórico que apontava para uma possível "identidade pós-convencional".

A escolha da oficina terapêutica de teatro entre as outras da instituição ocorreu devido a alguns fatores: (a) ao fato desta ter sido a primeira oficina da instituição; (b) ser a oficina na qual o usuário expõe seu trabalho por meio do corpo, para um público que pode reconhecer ou não sua atuação; (c) pelo seu efeito peculiar de possibilitar a mudança nas interpretações publicamente reconhecidas, referentes ao indivíduo estigmatizado. Este último item é defendido por Habermas quando diz: "uma companhia de teatro, os membros de uma universidade ou de uma organização eclesial conseguem impor reivindicações de co-gestão, esse fato tem também, certamente, um aspecto político" (Habermas, 1983, p. 99).

A pesquisa foi realizada coletando a narrativa da história de vida, gravada e transcrita com o consentimento da entrevistada, que assinou um termo de autorização esclarecendo os objetivos da pesquisa e garantindo o sigilo. Estes relatos procuraram focar acontecimentos imediatamente antes, durante e após sua participação na oficina terapêutica, para que a participante nos contasse diversos aspectos de sua vida, não apenas aquele que levou-o a procurar tratamento no EFRS. A escolha da narrativa de história de vida como instrumento principal de análise ocorreu devido ao fato do método utilizado na pesquisa ter como objetivo observar as metamorfoses na identidade, isto é, o intercâmbio de personagens no processo histórico da participante.

A narrativa de história de vida como forma de entender a constituição das identidades faz parte do método desenvolvido por Ciampa para analisar as identidades e alinha-se às discussões trazidas por Walter Benjamin. Benjamin demonstra como nos utilizamos de métodos simplificadores ao retratar as condições de existência humana, ao nos aliarmos totalmente ao ideal de produção capitalista, "como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências" (Benjamin, 1994, p. 198). A narrativa de história de vida permite resgatar o narrador, que, segundo este autor, está em vias extinção, há muito esquecido e sufocado, por trazer as contradições do sistema e por apontar o mal estar do cotidiano.

Deste modo, procuramos registrar a memória viva da participante e compreender os processos de metamorfose que aconteceram nos diversos setores de sua vida, novos significados que passaram a atribuir aos fatos de sua vida, como se percebe e percebe que é vista pelos membros dos grupos que freqüenta, o que mudou na sua vida familiar, social e profissional, observando como este processo se desenvolveu. Para tanto, quando analisamos a narrativa de história de vida, procuramos distinguir as personagens encarnadas dentro da narrativa, verificando a articulação dessas personagens entre si, como realidade subjetiva, constituída a partir da internalização e da interiorização, assim como, com outros atores sociais, como realidade objetiva, que envolve a normatividade e a intersubjetividade. Em outras palavras, buscamos entender seu projeto de vida, o que é e o que quer ser.

 

Psicologia Social Crítica e identidade: questões teórico-metodológicas

Conforme já explicitado anteriormente, este artigo é a síntese de uma pesquisa de mestrado que buscou entender o sentido da oficina terapêutica de teatro para dependentes de drogas a partir da Psicologia Social, mais especificamente, a partir da teoria de identidade desenvolvida por Antonio da Costa Ciampa, cuja produção segue uma vertente denominada Psicologia Social Crítica. Reconhecendo a possibilidade de desconhecimento tanto dessa teoria da identidade, quanto da Psicologia Social Crítica, parece imprescindível uma breve exposição antes da apresentação da pesquisa propriamente dita. No que se refere a esta última, podemos dizer que é conceituada como uma vertente da Psicologia Social que alinha-se à teoria crítica formulada por Max Horkheimer, na escola de Frankfurt, e desenvolvida atualmente (embora isso não seja visto de forma consensual) por Jürgen Habermas. Em linhas gerais, essa proposta teórico-metodológica impõe a necessidade de investigar a possibilidade de desenvolvimento de um pensamento crítico que conduza os indivíduos à percepção de si mesmos como sujeitos ativos da história, possibilitando que saiam da alienação que os mantém na condição de objetos passivos que sofrem a história.

Em outras palavras, a Psicologia Social Crítica procura entender como o "mundo da vida"2, espaço cotidiano, onde são possíveis de serem identificadas as formas cooperativas de existência, vem sofrendo a colonização (subordinação à lógica sistêmica), e, como esse processo tem reultado numa série de distúrbios: a perda de sentido das tradições culturais (na reprodução social), anomia (interação social) e psicopatologias e distúrbios de formação da identidade (socialização e individuação) (Habermas, 1990).

Vale reforçar aqui que o mercado sempre fez parte dessa ordem sistêmica:

cuja existência se justifica (ou deveria se justificar) pelo atendimento às necessidades do mundo da vida . . . e não o contrário, como vem cada vez mais acontecendo, em que a própria vida é posta a serviço dos interesses sistêmicos. (Ciampa, 2004, p. 2).

Dessa maneira, para a Psicologia Social Crítica, o problema não estaria na racionalidade, mas na dificuldade de se desenvolver uma certa racionalidade que possa escapar da irracionalidade que transforma os meios em fins e que é resultado da colonização proporcionada pela lógica sistêmica. Aqui aparece a importância das pesquisas de identidade para a Psicologia Social Crítica, na medida em que esse conhecimento pode ajudar a entender "como eu internalizei minha classe, como reproduzo minha classe . . . a tal ponto que sou diferente de outro burguês" (Carone, s.d., p. 13), e desvelar tanto as influências do capital no desenvolvimento dessa identidade como os fragmentos emancipatórios presentes na mesma.

Tendo expressado, mesmo que de forma simplista, a importância dos estudos de identidade para uma Psicologia Social Crítica, apresentamos agora a teoria de Ciampa, que, seguindo os pressupostos apresentados, difere das tradicionais concepções de identidade que tendem à naturalização do desenvolvimento individual, ou ainda, daquelas que trabalham com a perspectiva de personalidade. Na concepção desenvolvida por Ciampa, a identidade do humano "é construção, reconstrução e desconstrução constantes, no dia-a-dia do convívio social, na multiplicidade das experiências vividas" (Kolyniak & Ciampa, 1993, p. 9). Como esse autor costuma postular, a identidade é o que estou-sendo ao mesmo tempo em que é aquilo que me nega naquilo que também sou-sem-estar-sendo, na medida em que sempre compareço como representante de mim mesmo (uma personagem) perante os outros. Ciampa diz ainda que "cada indivíduo encarna as relações sociais, configurando uma identidade pessoal, uma história de vida, um projeto de vida. Uma vida que nem sempre-é-vivida, no emaranhado das relações sociais" (Ciampa, 1987, p. 127).

Para Ciampa, a identidade é sempre pressuposta, "uma identidade que é re-posta a cada momento, sob pena desses objetivos sociais, filho, pais, família etc., deixarem de existir" (1987, p. 163) e que isso introduz uma complexidade ao passo que ao ser re-posta a identidade "é vista como dada e não como se dando, num continuo processo de identificação. É como se, uma vez identificado o indivíduo, a produção de sua identidade se esgotasse com o produto" (Ciampa, 1987, p. 163), dando a impressão que a identidade continua a mesma, quando na realidade está presa num movimento de "mesmice".

O que sustenta a mesmice é o impedimento da emancipação, e a plena concretização da mesmice é aquilo que Ciampa chama de "fetichismo da personagem", que vai explicar "a quase impossibilidade de um indivíduo atingir a condição de 'ser-para-si', ocultando a verdadeira natureza da identidade como metamorfose e gerando o que será chamado 'identidade mito'" (1987, p. 140), o mundo da mesmice (da não-mesmidade) e da 'má infinidade' (a não superação das contradições), em que a própria atividade que serve de base para a personagem deixa de ser desempenhada: Severino 'é lavrador' mas já 'não lavra'. Contudo, o impedimento da emancipação e a manutenção da mesmice não se constituem em algo inevitável, na medida em que as contradições existentes na própria representação e, consequentemente, a impossibilidade de uma representação única em todos os espaços sociais, forcem uma alterização da identidade, uma "negação da negação". O mecanismo da negação da negação é explicado por Ciampa (1987, p. 187) da seguinte maneira:

A negação da negação permite a expressão do outro outro que também sou eu: isso consiste na alterização da minha identidade, na eliminação de minha identidade pressuposta (que deixa de ser re-posta) e no desenvolvimento de uma identidade posta como metamorfose constante, em que toda a humanidade contida em mim se concretiza. Isso permite me representar (1º. sentido) sempre como diferente de mim mesmo (deixar de presentificar uma representação de mim que foi cristalizada em momentos anteriores, deixar de repor a identidade pressuposta).

O termo alterização, trazido por Ciampa, expressa a idéia de uma mudança significativa - um salto qualitativo - que resulta de um acúmulo de mudanças quantitativas, às vezes insignificantes, invisíveis, mas graduais e não radicais, que podem indicar uma possibilidade e uma tendência, da conversão das mudanças quantitativas em mudanças qualitativas, mudanças condicionadas às questões históricas e materiais determinadas. O termo "alterização" é o que possibilita ao autor desenvolver o conceito de "mesmidade", que se refere à superação da personagem vivida pelo indivíduo; é a expressão do outro "outro" que também sou eu. Isso se torna possível a partir do potencial para formular projetos de identidade, cujos conteúdos não estejam prévia e autoritariamente definidos, aparecendo aqui o sentido emancipatório da identidade.

Esse movimento para a "emancipação" se dá com o desenvolvimento de uma "Identidade Pós-Convencional". Compreendendo a complexidade desses conceitos, é importante ressaltar como esses dois termos são entendidos. Os dois conceitos seguem a influência habermasiana, sendo que o primeiro termo é entendido aqui como "a superação de visões estreitas nas quais 'caímos' devido a ilusões pelas quais somos, de certa forma, responsáveis, uma vez que elas não resultam de uma causalidade natural, nem das limitações do próprio intelecto" (Habermas, 2005, p. 163). Já a identidade pós-convencional é compreendida como aquela que antecipa uma forma de vida com valores e normas ainda não estabelecidos, que "só pode estabilizar-se na antecipação de relações simétricas de um reconhecimento recíproco isento de coerção" (Habermas, 1993, p. 222). É possível inferir que essa identidade pós-convencional somente torna-se possível quando o indivíduo passa a atribuir às suas vivências um sentido de auto-determinação e, principalmente, possa ser autor da própria história.

Ser autor da própria história como medida das identidades pós-convencionais é um horizonte para o pesquisador de identidade, que deve estar atento para não projetar conceitos que transformem os indivíduos em sujeitos transcendentais, em blocos uniformes, que por sua vez neguem a pluralidade das formas de existência e os projetos de vida individuais. Fica explícito que a identidade, na perspectiva de Ciampa, é tanto uma questão teórica quanto política, ao passo que sua compreensão deve levar em consideração os fragmentos de emancipação e a sutil opressão, alinhando-se assim a tradição da teoria crítica da sociedade, que incorpora o interesse emancipatório no conhecimento para além de sua mera aplicação prática e utiliza o conceito de reflexividade para decidir de que modo cada interesse promove autonomia, ou seja, pode levar à emancipação.

Tendo apresentado o referencial teórico adotado, voltemos ao problema da pesquisa: a dependência de drogas e sua relação com a identidade. Assim, comecemos partindo da premissa que entendemos que o uso de drogas, nos primórdios da história da humanidade, sempre esteve relacionado com a transcendência do espírito humano, ou ainda, com a anestesia do sofrimento corporal, e mental e que podemos pensar, observando como o uso de drogas é feito na modernidade, que seu uso não mudou muito desde os primeiros relatos de experiências com essas substâncias. Essa afirmação é reforçada na medida em que observamos o uso de drogas relacionado ao 'ritual' capitalista: seja no cafezinho antes do trabalho, na cerveja do final de semana, nos medicamentos para dormir, para engordar ou para emagrecer, nas drogas utilizadas nas danceterias, nas escolas, etc., seja para integrar esses grupos, seja para ter alto rendimento, ou ainda, para fugir da realidade massacrante na qual o indivíduo está inserido.

Contudo, esse não é um problema recente. Ao longo da história ocorreram diversas tentativas de caracterizar a identidade do dependente de drogas, com o intuito de desenvolver tecnologias que pudessem abarcar o fenômeno. No entanto, nenhuma dessas tentativas teve êxito, dada a pluralidade de formas de vida na qual está inserida a pessoa que utiliza substâncias psicoativas. De acordo com a literatura, parece existir um consenso entre os diferentes autores no que se refere à impossibilidade de traçar uma identidade típica para o dependente de drogas, valendo a pena trazer algumas dessas contribuições.

Para Freud, por exemplo, as drogas têm um lugar permanente na economia de libido. Sendo assim:

devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com auxilio desse 'amortecedor de preocupações', é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar um refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade. (Freud, 2002, p. 27).

Se seguirmos o raciocínio de Freud podemos tomar como hipótese que quanto mais repressão existir na sociedade, maior será o uso/abuso de drogas por parte das pessoas. Se isso for verdadeiro, encontraremos um aparente paradoxo, pois o usuário de drogas seria então uma denúncia do sistema, na medida em que tem de buscar a satisfação humana em outras formas não institucionalizadas, negando inclusive o princípio de desempenho. Já alguns autores da atualidade defendem que foram frustradas as tentativas de caracterização da personalidade típica do dependente de drogas.

Em Birman (2001), verificamos uma diferenciação entre os indivíduos que utilizam substâncias psicoativas pela dimensão compulsiva dos mesmos; nas palavras deste autor:

os usuários de droga podem se valer da droga para seu deleite e em momentos de angústia, mas esta nunca se transforma na razão maior de sua existência. Os toxicômanos, porém, são compelidos à sua ingestão por forças físicas e psíquicas poderosas. As drogas passam a representar, para esse grupo, o valor soberano na regulação de sua existência. (Birman, 2001, p. 223).

Logo, não haveria uma dependência física, se não fosse a presença da dependência psíquica, sendo que nas toxicomanias ocorreriam ambas as formas de dependência, tendo no caso da dependência física um aumento crescente da dose inicialmente administrada, com possíveis substituições por drogas mais potentes.

É importante apontar que também é insuficiente abordar o fenômeno das drogas sem levar em consideração o contexto sócio-histórico no qual o indivíduo está inserido. Seguindo essa linha de argumentação, encontraremos em Bucher uma importante contribuição. Ele defende que a identidade do usuário de drogas "não se deixa reduzir a uma 'personalidade social', enquanto assimilação de influências externas (e normativas) culminando na confecção de papéis sociais estáveis e integradores" (Bucher, 1992, p. 176).

Ao utilizarmos o conceito de identidade apresentado anteriormente para discutir o problema da dependência de drogas, teremos que seguir inicialmente dois pontos de discussão. O primeiro se refere às questões intersubjetivas que conotam um fetiche no uso de drogas e que atribuem a essas um poder de dominação inevitável sobre os indivíduos. Isso equivale ao reconhecimento e redução dos indivíduos que utilizam essas substâncias psicoativas a uma única personagem: o dependente de drogas. Aqui encontramos outras complexidades, na medida em que o fato dos indivíduos deixarem de "re-por "esta personagem (dependente) nem sempre é uma garantia da recuperação dos outros personagens perdidos/negados (pai, filho, irmão, trabalhador, etc.), aprisionando-o muitas vezes na personagem do 'Ex' (ex-dependente, ex-drogado, etc.), não ocorrendo portanto uma metamorfose, como "mesmidade" de pensar e ser.

O segundo ponto de discussão refere-se às formas de utilização das drogas, que podem conter tanto um sentido reacionário (no fortalecimento das indústrias de bebidas, farmacêuticas, tabagistas, ilegais, etc.), quanto emancipatório, na medida em que entendemos que nem toda forma de contravenção seja algo negativo, mas que podem apontar para a necessidade de mudança na realidade vigente, e que muitas vezes desvelam as desigualdades sociais e as impossibilidades de existência na sociedade administrada. Neste último caso a dependência de drogas pode, contraditoriamente, ser uma reivindicação de independência da dependência da realidade vivida.

É importante registrar que quando utilizamos o termo 'usuário de drogas', queremos apontar uma categoria na qual estamos todos incluídos direta e indiretamente, mas que por conta das questões morais acabam sendo diferenciadas entre si. Nos referimos tanto à pessoa que fuma seu "baseado" de maconha com os amigos, participa da 'cervejada' do final de semana, que usa drogas para dormir, para lidar com a depressão, que toma o 'cafezinho' para agüentar mais um turno da exploração no mundo trabalhista, enfim, falamos de nós mesmos e ao mesmo tempo falamos daqueles que são estigmatizados pelo uso abusivo de qualquer uma dessas substâncias, ou seja, diferenciamo-nos das tradicionais concepções que reforçam a estigmatização dos usuários de drogas, como bem escreve Amaral (2000, p. 46):

Ao estigmatizar o usuário de drogas, a sociedade cumpre a função divergente a que explicitamente se propõe, ou seja, ao invés de desestimular o uso da droga, reforça-o por meio do rebaixamento contínuo da auto-estima desses indivíduos, negando-lhes o acolhimento e a aceitação social estimulando-os a integrar-se com outros indivíduos marginalizados por diferentes desvios e/ou estigmas, encontrando em outros toxicômanos a sua identidade grupal.

Ao realizar a discussão acerca dos diferentes aspectos e vislumbrar a complexidade envolvida na temática das drogas, podemos inferir que o significado atribuído ao seu uso pertence a uma moral vacilante, que em determinado momento faz com que sejam incentivadas, liberadas, legalizadas etc. e noutro proibidas, por serem consideradas perniciosas e destruidoras da sociedade.

Desse modo, tendo contextualizado nosso problema de pesquisa e apresentado o referencial teórico-metodológico no qual apoiamos a mesma, resta-nos agora apresentar a narrativa da história de vida de Lou-Lou, analisada na tentativa de apreender o sentido que esta atribui a sua participação na oficina terapêutica de teatro, buscando verificar se o processo de metamorfose ocorrido nas diversas personagens de sua vida evidencia a presença de fragmentos de emancipação, bem como, discutir se essa identidade pode ser considerada como Pós-Convencional.

 

Síntese da história de vida de Lou-Lou e análise da entrevista

A história de Lou-Lou é muito rica. Todavia, as vicissitudes de sua história não poderá ser contada e analisada da forma como deveria ser feita por conta da limitação que um artigo como esse apresenta. Ao analisarmos a identidade, entendemos que essa se expressa por meio de personagens, que a cada representação negam sua totalidade, sendo o jogo e articulação dessas identidades que darão ao indivíduo sua alteridade. Dada a limitação, tentarei fazer esquematicamente um resumo das principais personagens vividas pela entrevistada, que foram escolhidas, assim como o nome Lou-Lou, pela própria participante.

Lou-Lou é uma pessoa real, que nasceu e cresceu na periferia de Diadema, São Paulo, filha de uma família de migrantes, pai metalúrgico e mãe dona de casa. Durante sua infância, diz que representava a "garota-morna", uma criança que estava presa ao hedonismo ingênuo e procurava a maximização do prazer evitando a punição.

Ao iniciar sua busca pessoal na adolescência, fica dividida entre as personagens "adolescente-experimentadora" de drogas, que iniciava o uso de diversas drogas com as amigas burguesas, principalmente com os medicamentos das mães dessas garotas e a adolescente "punk", proibida pelo grupo de usar drogas, que se tornaria mais tarde a adolescente "anarcopunk". Já no final da adolescência, começa a namorar e assume a personagem da "aluna-rebelde", que descobre que para poder trabalhar tinha que ser autônoma, visto que tinha como projeto tatuar todo seu corpo e viver com um visual alternativo. Torna-se assim a "vendedora-de-cachorro-quente". Vai "re-por" essa personagem durante três anos, até que se separa do namorado e vivencia a "garota-isolada" ficando em casa deprimida durante um ano.

Ao voltar para o mundo, desorientada, retoma suas leituras e descobre o anarcofeminismo, transformando-se então na "anarcofeminista-ativista". Sem que se desse conta, reaparece nesse período a "adolescente-experimentadora" que começa a tomar parte cada vez maior nas suas atuações.

Pela primeira vez, procura ajuda especializada, uma tentativa frustrada, pois o psiquiatra acaba fazendo uma amálgama dessas personagens e atribuí à Lou-Lou a personagem "dependente-de-drogas-depressiva". Não aceita tomar drogas (remédios) para se curar do uso de drogas e acaba se mudando para Florianópolis, onde procura elevação espiritual e equilíbrio no uso das substâncias, quando se transforma na "bruxa-da-Ilha-da-Magia"; entretanto, a sacralidade dessa bruxa é quebrada quando em uma festa faz a ingestão de um chá que dizia achar mágico (cogumelo) que, fora dos rituais habituais, a deixa desorientada outra vez. Sua desorientação é tamanha que surta e tenta suicídio. Em suas palavras "sem conseguir controlar os pensamentos abre as portas da percepção e encontra a "louca-suicida"; acaba ateando fogo em sua própria cabeça".

De volta a São Paulo, é levada para o Centro de Atenção Psicossocial Integral (CAPSI) de Diadema, que lhe atribui a personagem de "dependente-de-drogas-louca-suicida" e a encaminha para o EFRS - CAPSad. Até aqui, relata que os encaminhamentos mais prejudicaram seu estado emocional do que contribuiram para sua melhora.

No EFRS, conta que pôde ser vista como um outro "outro" pelos técnicos da instituição e pelo Grupo de Mulheres. Diz que essa condição de igualdade confere uma ambiência favorável para resgatar a personagem "anarcofeminista", já não mais militante ativista. Vamos deixar a própria Lou-Lou dizer como esse processo foi importante:

O grupo de mulheres foi essencial enquanto mulher, porquê? Porque quando você está com outras mulheres que passam problemas parecidos com você, em termos físicos, emocional... você se sente que num grupo de amigas é uma boa forma de você se inserir novamente... Dá uma segurança legal. Dentro disso no grupo de mulheres, a [Assistente Social], a [Psicóloga] e a... esqueci o nome dela... branquinha de cabelo preto... [Enfermeira]. Elas são mulheres muito fortes... Muito interessantes... ajudaram muito, foi uma coisa essencial e de você vê e de estar desenvolvendo algum conhecimento seu, enquanto mulher, com outras mulheres, dentro daquele período... eu naquele momento... de tudo eu tinha medo... eu fui voltando.

Da mesma maneira, Lou-Lou vai nos contar que na oficina terapêutica de teatro pôde re(a)presentar outros papéis e começar a tomar consciência explícita das contradições que viveu e ser reconhecida como "humana", sendo esse espaço essencial para sua alterização:

Teatro muito fudido, porque ele mexe com o corpo, ele mexe com a emoção, faz resgatar de novo esse lance de auto-estima, te empurra, teatro já tinha assim, um desenvolvimento legal! . . . teatro misturado com uma fonoaudióloga é foda pra caramba . . . você enquanto pessoa capaz de produzir... isso te dá vida, isso te traz calor, isso é humano. A [Oficineira]: olha nós somos de uma companhia... vamos lá, vamos ensaiar, vamos fazer, sabe... vamos se pintar, vamos por peruca, vamos criar o absurdo... e é isso.

Ah! Mas é só um personagem! Mas aquilo é a gente, você é capaz de ser a gente, é capaz de ser feliz, dar risada, de fazer as pessoas rirem e isso, esse retorno é muito fudido . . . sentir perante as pessoas que convivem com a gente, que a gente foi capaz de proporcionar uma emoção muito forte nelas. Porque a gente tá vivo. Então a gente tem um respaldo enquanto pessoa... de falar: Pô, você fez aquele teatro muito legal! . . . aquilo é muito foda . . . aquilo foi a minha vida . . . resgatou minha vida de um jeito... e a forma de organizar um Sarau . . . eu gostava muito de estar ali participando.

Por meio da oficina terapêutica de teatro, pôde questionar a personagem dependente-de-drogas-louca-suicida e apresentar um novo "eu" que podia ser re-conhecido socialmente. Sua apresentação era sentida como uma negação da personagem "doente", que era pressuposta como incapaz de produção. Questionava a si mesma quando representava e forçava a platéia a se questionar quando a assistia, dissolvia o estigma ao mostrar que por trás da personagem do drogado existia uma Lou-Lou que não poderia ser reduzida a uma única atuação. Sai do EFRS e retorna para Florianópolis (após a morte do namorado, que sofre um acidente durante seu tratamento). Retoma sua vida e, com o passar do tempo, conhece uma pessoa com quem decide ter um filho. Deixa de usar as substâncias psicoativas, não por imposição externa, não por se achar uma "ex-drogada", mas sim porque essas perderam o sentido. Percebeu que pode viver sendo "ela-mesma".

Eu busco um mundo melhor, então se eu estou vendo que uma coisa não tá me fazendo bem, eu tenho que deixar. Mas será que ela só não tá me fazendo bem pelo ritmo que eu to levando? Também o ambiente que eu to vivendo não tá me oprimindo ao fato de quando eu usar isso eu estar me sentindo mal? Porque se eu der uma volta na praia, tiver um dia super gostoso e de repente fumar um, posso me sentir muito melhor? Mas de repente eu pensei: meu, porque há necessidade de eu estar usando? Se de repente eu posso fazer um vasto de muitas coisas que eu também gosto, que me dá prazer, sem eu precisar usar isso . . . todas as pessoas em geral, acabam passando por essas condições difíceis de surtar, de depressão, de se sentir muito mal, por isso... porque lhe faltam coisas que faziam elas viver, faziam elas felizes, então, às vezes um cara surta porque trabalha tanto, trabalha tanto, trabalha tanto, e nunca pode descansar, e nunca pode fazer nada do que ele gosta, chega uma hora que ele pensa: o que eu gosto?

Ela representa atualmente uma "Lou-Lou-de-hoje" que ao se propor normas éticas, com pretensões de validade universal, apresenta-se com uma "identidade pós-convencional", que inclui em seu projeto de vida o ingresso em uma universidade e o retorno para São Paulo para se envolver na luta pelos direitos dos indivíduos que utilizam as instituições de tratamento.

Eu gostaria de me envolver mais nessa causa, tenho comigo minhas idéias, acho que a gente também às vezes não pode mudar o mundo, mas a gente se revoluciona e que isso faz da gente ser o que é . . . tudo isso aconteceu. Mais eu tive que existir mais que tudo pra poder resistir a isso, tudo com muito esforço.

Ao recusar-se à submissão a uma política de identidade que lhe atribuiria a personagem de ex-dependente, Lou-Lou escolhe desenvolver sua identidade política, sua própria identidade, como concretização do projeto de vida de uma "guerreira", que não tenta mais planejar o futuro, mas vive intensamente o presente enfrentando as dificuldades que aparecem em sua vida

Se conseguiu em muitos aspectos a própria revolução, porque não revolucionar um pouco o mundo? Se este projeto vai ser concretizado ou não só veremos com o tempo. O mais importante é que o conteúdo trazido por Lou-Lou apresenta aquilo que denominamos como "fragmentos de emancipação". Ao recorrermos a Habermas, veremos que esses fragmentos trazem consigo uma nova forma de olhar para o usuário de drogas que não deixam intocadas as convencionais formas de lidar com o problema, na medida em que "uma identidade-eu, pós-convencional, não pode desenvolver-se sem antecipar estruturas comunicativas modificadas", da mesma forma que "a partir do momento em que essa antecipação se torna realidade social, não deixará intocadas as formas tradicionais de integração social" (Habermas, 1990, p. 234). Essa tendência parece estar se concretizando, por exemplo, no EFRS.

Quanto à oficina terapêutica de teatro, vimos que a produção estética em si não foi o mais importante no tratamento de Lou-Lou, mas sim o processo criador de espontaneidade que, permitindo o acesso ao outro "outro" de Lou-Lou, proporcionou a apresentação do 'Eu'. Aprendemos que a oficina terapêutica de teatro pode possibilitar a experiência apresentada por Marcuse, na qual ocorre a intensificação da percepção até chegar ao ponto de "distorcer as coisas de modo que o indizível é dito, o invisível se torna visível, e o insuportável explode. Assim, a transformação estética transforma-se em denúncia mas também em celebração do que resiste à injustiça e ao terror, e do que ainda pode se salvar" (Marcuse, 1986, p. 53). A denúncia da opressão e redução da identidade a uma única personagem, do drogado, do louco, e celebração de sua libertação, a partir da representação do eu, a partir da ampliação de sua identidade com a personagem do ator.

Desse modo, o usuário de drogas, geralmente reconhecido/reduzido apenas ao papel de dependente, pode, por meio da apresentação performática na oficina terapêutica de teatro, ser visto e re-conhecido como um "outro" pela platéia que o assiste, ou seja, pode acessar um outro "outro" que também é ele. "Dizendo de forma diferente: essa expressão do outro outro que também sou eu (que) consiste na metamorfose da minha identidade, na superação de minha identidade pressuposta" (Ciampa, 1987, p. 180). Assim, a narrativa de Lou-Lou mostra que a oficina terapêutica de teatro pode gerar condições para o desenvolvimento do agir comunicativo, que pode ser compreendido como:

um processo circular no qual o ator é as duas coisas ao mesmo tempo: ele é o iniciador, que domina as situações por meio de ações imputáveis; ao mesmo tempo, ele é o produto das tradições nas quais se encontra, dos grupos solidários aos quais pertence e dos processos de socialização nos quais se cria. (Habermas, 2003, p. 166).

Da mesma maneira que Ciampa fala de lições mostradas pela história de Severina, da sociedade na qual vivemos como um Prometeu moderno que, depois de roubar o fogo dos céus, sofre a condenação de ser devorado diariamente pelas aves de rapina, "... sem morrer; diariamente, sua vida, sua força de trabalho é reproduzida, para alimentar a águia que o consome impiedosamente; mostrou-nos também que o segredo dessa condenação é o de não nos deixarmos morrer, para continuarmos sendo mastigados vivos" (Ciampa, 1987, p. 236). E que essas lições fizeram com que fosse razoável aceitar uma lógica do desenvolvimento individual na qual,

. . . a partir de uma busca de maximizar o prazer e rejeitar a dor através da obediência, evolui-se para uma busca de liberdade moral e política para toda a humanidade, caminhando de um hedonismo ingênuo para uma ética universalista da linguagem. Descobrimos também - e isso é importante - que o nível mais elevado da consciência moral pressupõe não um conteúdo normativo erigido em princípio, e sim um procedimento comunitário que permita interpretações universalistas dos carecimentos. (Ciampa, 1987, p. 220).

Essas lições foram novamente trazidas por Lou-Lou, que ao contar sua história de vida demonstra como se dá o castigo dos deuses; da 'quebra' na continuidade do existir humano decorrente de uma imposição social, em que a identidade do indivíduo é confrontada com exigências que estão em contradição com as expectativas. Ao mesmo tempo em que busca legitimação nas estruturas de expectativa experimentadas e assumidas no passado.

Dessa forma, Lou-Lou, assim como a Severina, também ensina que nossas vivências não ocorreram de forma simples e independentes das experiências, e somente quando buscarmos o entendimento do sentido atribuído às metamorfoses identitárias, que sofremos durante nosso desenvolvimento, é que poderemos analisar se as mudanças foram qualitativas e não apenas quantitativas.

É nesse ponto que passamos a discutir a questão da emancipação, da domesticação da ave de rapina, para que esta trabalhe a nosso favor, a favor daqueles "que acham que uma vida que merece ser vivida não é nem a da carniça, nem a da caça que se esconde" (Ciampa, 1987, p. 237), mas sim, da autonomia, dos projetos de futuro, da criação. Ao nos referirmos à emancipação, recorremos a uma idéia de vontade de decisão sobre o próprio bem de uma maneira cada vez mais autônoma, livre da intromissão de interesses externos. A emancipação no sentido habermasiano é entendida como "... um tipo especial de auto-experiência, porque nela os processos de auto-entendimento se entrecruzam com um ganho de autonomia" (Habermas, 1993, p. 99).

Todavia, o fato de desenvolver uma Identidade Pós-Convencional não é garantia de uma emancipação 'completa' ou definitiva do indivíduo. Iisso seria 'convencionar'/predeterminar o que entendemos por emancipação humana, ignorando a lógica sistêmica que a todo instante oferece saídas heterônomas e ilusórias para os indivíduos.

Logo, o que se pode observar com a história de Lou-Lou é a possibilidade de viver-uma-vida-que-merece-ser-vivida, sendo que isso se torna possível a partir do momento em que o indivíduo pode afirmar o 'eu' de si mesmo e que pode ser reconhecido como um outro que não se reduz a qualquer personagem, mas sim que é a expressão de uma pluralidade, que por sua vez precisa ser incorporada na comunidade entendida por meio da construção, desconstrução e reconstrução, compreendendo as mudanças ocorridas com o indivíduo e sua atual condição, ou seja, incorporando o outro com respeito às diferenças.

 

Considerações finais

A dissertação de mestrado pode nos mostrar que não existe uma causa objetiva, uma ou mais variáveis com as quais se poderia relacionar o fenômeno do uso de drogas. Este fenômeno está no indivíduo, em seu sentido existencial. Da mesma forma, esse uso também é incentivado pelo mundo concreto, pelas condições materiais de existência. As drogas são, portanto, combustível e veículo, fonte de energia e móvel para a ação, voltadas para o lúdico, para a representação de si e do grupo a que se pertence, ao mesmo tempo em que também servem para o necessário devaneio, para a leveza da alma que precisa flutuar e transgredir limites impostos pela ordem sistêmica que tornam a realidade insuportável. Lou-Lou pode nos ensinar com sua história de vida que o problema está no sentido de seu uso, cada vez mais alienado na sociedade que transforma tudo o que toca em mercadoria de consumo.

Outro aspecto que não podemos deixar de apontar refere-se às medidas de tratamento do uso prejudicial de drogas, tão necessárias e ao mesmo tempo tão insuficientes. Os tratamentos do uso de drogas que ainda apresentam em sua maioria como indicativo de saúde/alta a abstinência (evitação da substância) e a não recaída (retorno ao uso); especialistas esquecem que muitas vezes os indivíduos podem continuar a desejar o uso, evitando situações em que exista a substância. Nesse último caso, não se trata de fato de metamorfoses com sentido emancipatório, pois, ainda que vejamos uma aparente mudança, continua a haver a re-posição e não a superação de personagens (ex-drogado, ex-alcoolista). Claro que isso não significa que essa superação não poderá ocorrer a posteriori. A questão seria então, oferecer espaços que possibilitassem a alterização do indivíduo; lugares em que o indivíduo poderia ter experiências significativas e atribuir outro sentido para o uso das substâncias que utiliza/utilizava, ou seja, um contexto no qual se possa desenvolver a consciência de que existe uma relação entre as experiências e que existe a possibilidade de se fazer outras escolhas até então nem mesmo pensadas.

Aprendemos também com o relato de Lou-Lou que as oficinas terapêuticas podem ajudar a desvelar cada vez mais as desigualdades e a quase impossibilidade de existência em um mundo cada vez mais dominado pela lógica sistêmica, apontando para novas formas de experienciar a realidade - na medida em que oferecem elementos que demonstram que os indivíduos podem ser muito mais do que as personagens estigmatizadas que os aprisionam em determinados momentos de sua vida passando as patologias (capitalistas), baseadas na nosologia (psiquiátrica), a serem vistas como patologias da Modernidade, cuja causa, entre outras coisas, se deve à impossibilidade dos indivíduos poderem, com autonomia, dizer 'eu' de si mesmos.

Antes de encerrar, é importante apontar uma última questão: as estratégias de prevenção e de tratamento. Ao planejar intervenções específicas para evitar o uso e abuso de drogas devemos considerar que a dependência corresponde a um fenômeno que não se confunde apenas com o consumo de drogas, mas sim ao encontro de um indivíduo consigo mesmo, com seus valores e crenças. É preciso ver o produto, a droga, inserida na esfera capitalista, num contexto sociocultural, que incentiva, carimba e aprisiona o indivíduo na personagem do viciado. É preciso combater as políticas de identidade que servem para manutenção da realidade do indivíduo, impossibilitando muitas vezes que ele consiga sua diferenciação, impondo-lhe a heteronomia que nega a experiência e atribui um sentido a priori para a vida do indivíduo. É importante compreendermos como a sociedade de massas e de consumo procura moldar o indivíduo aos interesses do capitalismo e apaga as possibilidades de emancipação e assumir uma posição contrária, investir na vida, na liberdade.

 

Notas

1. Artigo escrito a partir da dissertação de Mestrado em Psicologia Social na PUC/SP: "A dependência de drogas como um problema de identidade: possibilidades de apresentação do Eu por meio da oficina terapêutica de teatro". (2005). Sob orientação do Prof. Dr. Antonio da Costa Ciampa e com bolsa do CNPq.

2. Segundo Habermas (1990), o mundo da vida pode ser entendido como o espaço formado pela "cultura" que é uma reserva do conhecimento alimentada pelas interpretações lingüísticas e pela tensão entre os conteúdos da tradição e da modernidade; a "sociedade" composta de ordens legítimas, as quais os participantes de processos comunicativos regulam seu pertencimento a grupos sociais e pela "personalidade" como um conjunto de motivações que inspiram os indivíduos à ação e produz "identidade".

 

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Recebido: 20/06/2007
1ª revisão: 08/09/2007
Aceite final: 11/10/2007

 

 

Aluísio Ferreira de Lima é Psicólogo, Professor de Psicologia Social da UFC. Doutorando em Psicologia Social pela PUCSP, Mestre em Psicologia Social pela PUCSP e Especialista em Saúde Mental pela USP, Membro do NEPIM - Núcleo de Pesquisa da Identidade e Metamorfose da PUCSP. Endereço para correspondência: Rua Dom Duarte Leopoldo e Silva, 27, 1º andar, Sala 13, Centro, Santo André, SP, 09 015-560. Tel.: 11 8226 2269. aluisiolima@hotmail.com