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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.20 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822008000100016 

Resenha: Salem, T. (2007). O casal grávido: disposições e dilemas da parceria igualitária. Rio de Janeiro, RJ: editora da Fundação Getúlio Vargas

 

 

Andréa Moraes Alves

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

 

As relações conjugais são assunto recorrente nas análises sobre a família contemporânea. Nos tempos atuais, a instituição do casamento tem sido alvo de algumas polêmicas acirradas como, por exemplo, a discussão sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo. O pano de fundo dessa inquietação constante sobre os laços conjugais na contemporaneidade pode ser muito bem resumido no argumento central do livro de Tania Salem, O casal grávido: Disposições e dilemas da parceria igualitária, qual seja: a tensão constitutiva entre os mandamentos da individualização e a valorização da unidade conjugal.

Ao levantar essa questão no final dos anos 1980, quando o trabalho foi apresentado como tese de doutorado em antropologia no Museu Nacional, a autora conseguiu revelar uma das complexas facetas do dilema individualista clássico, no que ele tem de mais relevante para a compreensão da família como valor moral da sociedade brasileira. A partir da identificação do "casal grávido", modalidade particular de construção da conjugalidade em segmentos médios urbanos, Tania Salem recupera três dimensões cruciais para o entendimento da ideologia individualista: a psicologização da vida, o igualitarismo e o compromisso com a mudança. Ao longo do livro, esses eixos são tratados de maneira instigante e profunda, numa articulação permanente entre a situação específica desse modelo de casal, "o casal grávido", e o plano mais geral da ética individualista que o engloba e ultrapassa. Essa articulação é um exemplo claro do vigor analítico que a prática etnográfica possui, quando bem feita. O livro também é inspirador como exemplo de construção de um objeto de pesquisa. Além das entrevistas, a autora fez etnografias dos grupos de pré-natal, de palestras e analisou material bibliográfico específico.

Quem são os "grávidos" retratados no livro? Os eventos da gravidez e do "parto natural", vividos como uma experiência intensa e única pela díade, significados simbolicamente como um momento de liberação pessoal e aprofundamento dos ideais conjugais igualitários é marca do "casal grávido". Faz parte da experiência que o constitui a negação das fronteiras de gênero e a afirmação do par diante das famílias de origem. Esse modelo de casal vê a si mesmo como promotor de mudanças pessoais e, talvez, culturais mais amplas. Essa mesma experiência transformadora é confrontada no pós-parto com a instauração de revisões críticas e um certo reconhecimento da ilusão igualitária anterior. Embora os casais não formem um grupo no sentido morfológico do termo, são unidos pelo "ethos individualista psicologizante". Na introdução do livro, a autora estabelece um diálogo com uma literatura antropológica brasileira que, nos anos 1970/1980, esforçou-se para compreender esse tipo de individualismo e suas marcas na sociedade brasileira da época. Autores como Sérvulo Figueira e, principalmente, Gilberto Velho são acionados para ajudar a pensar a experiência do "casal grávido" num contexto mais amplo de individualização dos setores médios urbanos no Brasil. O que ainda torna o livro interessante são as pistas que a autora levanta para avaliarmos as possíveis mudanças que esse ethos pode ter sofrido nos últimos anos.

A centralidade da referência ao psicológico nos discursos e práticas do "casal grávido" é um aspecto do livro que pode interessar mais de perto aos leitores envolvidos com o campo da psicologia. A atenção dada ao eu aponta, segundo Tania Salem, para uma concepção de indivíduo na qual a dimensão de um inner-self, como sede de uma subjetividade única, é destacada de outras dimensões que comporiam a individualidade. O exercício da reflexividade íntima, que ganha nova ênfase por causa da gravidez e da adesão do casal ao parto natural, coincide com um regime de liberação do eu dos entraves causados pela cultura e pelas trajetórias particulares de vida de cada um. A gravidez e o parto são tomados como momentos cruciais em que os sujeitos são confrontados com o passado e preparam-se para o futuro, e tidos como ocasião propícia à revisão e direcionamento de vidas, de forma a torná-las mais "autênticas". A preparação para o parto, especialmente através dos grupos de pré-natal e das consultas com os especialistas envolvidos com a promoção do parto natural, enseja essa revisão e essa busca pela natureza. Dessa forma, os membros do casal reforçam os laços entre si e com os grupos de pares; as futuras mães são incentivadas a perder o medo da dor do parto, visto como resultado de uma inculcação de valores ultrapassados; e os pais são estimulados a vivenciar um modelo "mais feminino" de atenção à gravidez e ao bebê que está por chegar. Essas práticas nos falam de um ethos individualista ao mesmo tempo comprometido com um ideal de natureza e de verdade. Mas, uma natureza que é revelada e valorizada pela experiência da reprodução com a menor interferência possível das tecnologias hospitalares e médicas. Uma natureza que, não obstante, continua sendo fabricada, só que no contexto comunitário, das interações cotidianas entre os casais grávidos e os especialistas que os cercam.

O livro não poderia ser mais atual, justamente nesse momento em que as tecnologias reprodutivas são assunto cada vez mais comum. Os trabalhos de antropólogos que lidam com esse tema indicam que a valorização da natureza não se perdeu, mas mudou de tom nesse novo contexto. A concepção e a gestação dissociadas servem de cenário para nos confrontarmos com nossas noções de parentesco e de vínculo biológico, com nossas visões sobre natureza e escolha.

 

 

Recebido: 04/07/2007
Aceite final: 18/10/2007

 

 

Andréa Moraes Alves é Antropóloga, com Doutorado pelo Museu Nacional e Professora adjunta da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Publicou sua tese em 2004, pela editora da FGV. O título do trabalho é A dama e o cavalheiro: Um estudo antropológico sobre gênero, envelhecimento e sociabilidade. Endereço para correspondência: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Serviço Social, Departamento de Política Social, Av. Pasteur, 250, Praia Vermelha, Urca, Rio de Janeiro, RJ. andreamoraesalves@superig.com.br