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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.20 no.2 Porto Alegre May/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822008000200009 

Problemas da juventude e seus enfrentamentos: um estudo de representações sociais1

 

Problems of youth and its confrontations: a study of social representations

 

 

Hebe Signorini Gonçalves; Tatiana dos Santos Borsoi; Marisa Antunes Santiago; Michelle Villaça Lino; Isabela Nery Lima; Roberta Gomes Federico

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

 


RESUMO

O trabalho analisa as representações sociais dos jovens acerca de seus problemas, e das formas de enfrentá-los, com base em 39 entrevistas realizadas junto a moradores de Duque de Caxias, de ambos os sexos, com idade variando entre 13 e 22 anos. A análise mostra que a representação de problemas se esclarece por oposição aos projetos de vida dos jovens, estruturados em torno da estabilidade econômica e afetiva. Caberia ao jovem evitar os desvios que inviabilizam a realização de seu projeto de vida. Para isso, eles contam essencialmente com a ajuda de seus familiares e amigos, representados ao mesmo tempo como a maior fonte de apoio e um grande problema quando não atendem às expectativas de suporte e auxílio.

Palavras-Chave: Juventude; família; representações sociais; projeto de vida.


ABSTRACT

This paper analyses social representations of youths on their main problems and how they deal with them. Data were collected in 39 interviews with residents in Duque de Caxias, of both genders, aged between 13 and 22 years old. The analysis shows that the representation of the problems are make clear in opposition to their projects of life, which are structured around economic and affective stability. The interviewed youths consider that they themselves must overcome the main obstacles to their projects. For that, they need support from parents and friends, who represent at the same time the major source of support, however, a significant concern when they are not able to correspond to the youths' expectations.

Keywords: Youth; family; social representations; projects of life.


 

 

A noção de juventude adquire importância no correr do século XX. Antes definida com base em marcos etários, hoje ela se refere principalmente ao período "marcado por ambivalências, pela convivência contraditória de elementos de emancipação e subordinação, sempre em choque e negociação" (Novaes & Vanucchi, 2004, p. 12), durante o qual o sujeito elabora seu próprio amadurecimento. O ingresso na juventude requer a saída do espaço protegido da família, o questionamento de valores, a inserção em novos círculos de convivência e a adoção de novos empreendimentos, frequentemente múltiplos e às vezes díspares. "São muitas as juventudes e entre elas sempre há territórios de resistências por força da criatividade" (Novaes & Vanucchi, p. 11).

Integra esse processo a redefinição dos problemas que tocam mais de perto os jovens, bem como o reequacionamento de recursos e formas para enfrentá-los. Em outros termos, um componente das tensões da juventude se expressa na equação que opõe os obstáculos ao crescimento aos anseios de liberdade. Essas tensões não se definem com base na experiência isolada. Tomando por base a premissa segundo a qual o sujeito se constitui no social, buscamos compreender os elementos que constituem suas identidades coletivas com base na noção de representações sociais, entendidas como manifestações de grupo ou como valores compartilhados (Alves-Mazzotti, 2000; Spink, 2002) e sempre sujeitos a alteração, reestruturação e mudança (Moscovici, 2001).

As representações sociais articulam elementos sócio-afetivos e mentais, integrando-os à cognição, à linguagem e à comunicação (Jodelet, 2001) e contribuindo para a formação de "identidades coletivas". Por isso, constituem-se em recurso analítico que permite apreender a identidade de grupos particulares. Essa característica tem feito das representações sociais uma ferramenta metodológica de peso e mostra-se valiosa no estudo da juventude em vista da multiplicidade de questões que atravessam esse período da vida, multiplicidade condicionada inclusive por contingências de vida. É possível assim buscar, com o estudo das representações sociais, as singularidades de grupos específicos.

A questão se impõe no presente trabalho, que trata de jovens moradores de comunidades da periferia na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Suas vidas se equiparam em muitos aspectos às dos residentes em grandes centros urbanos; em outros se diferenciam e se opõem: a proximidade dos grandes núcleos de consumo não assegura acesso efetivo a eles; moradores de um dos mais importantes núcleos urbanos no Brasil, nem por isso têm garantido o acesso a instituições e benesses sociais.

A questão original da presente investigação pode ser anunciada como a proposta de identificar os principais problemas enfrentados pelos jovens das comunidades de baixa renda, e as formas como eles os enfrentam. No contexto das comunidades pobres, a transição da dependência à autonomia - que exige elaboração de vias de passagem entre a posição infantil e o lugar adulto - ganha acréscimos de tensão. Ali, as dificuldades características desse período de vida somam-se aos obstáculos culturais e econômicos, abrindo a possibilidade de que os problemas enfrentados pelos jovens e suas respectivas soluções condicionem formas diversas e específicas de representá-los. O jovem precisará argüir a si próprio e construir projetos que viabilizem a transição em condições adversas.

O trabalho vale-se também do conceito de projeto de vida tal como elaborado por Velho (1986, 1999): noção em torno da qual se articulam as transformações de geração a geração, ora pela confluência de propósitos, ora pela divergência de objetivos. O projeto de vida organiza ativamente a adaptação do indivíduo à realidade, propiciando o equilíbrio entre real e ideal; ele é revolucionário no plano das idéias e transformador no plano das ações (Bock, Furtado, & Teixeira, 1989; Velho, 1999). Trata-se de noção que remete ao conflito permanente entre individualização e desindividualização, inerente à existência do ser social. As trocas sociais – ao longo da vida do sujeito e nos múltiplos espaços em que se insere – instrumentam a construção de objetivos de grupo sem impedir escolhas individuais; ao contrário, haverá sempre espaço para manifestações individuais, atravessadas por tensão mais forte ou mais tênue conforme os objetivos pessoais se afastem ou se aproximem dos projetos que a geração anterior desenhou para a sua, ou dos projetos de sua própria geração. Nessa conjunção entre eidos e ethos, a noção de projeto de vida articula a biografia individual ao estilo de vida e faculta a apreensão dos valores de grupo a partir daquilo que é referência subjetiva.

 

Algumas Palavras sobre as Representações Sociais

A noção de representações sociais permite, no dizer de Moscovici (2001), construir uma passarela entre o mundo individual e o mundo social; para o autor, as representações sociais equivalem de certo modo aos mitos e às lendas pois elas organizam os recursos simbólicos em torno dos quais se produzem as trocas sociais no mundo moderno. Assim compreendida, a noção tem-se mostrado um fértil recurso analítico de apreensão de fenômenos culturais, e ganha fôlego com a crescente necessidade de compreender o lugar e o papel das dimensões cultural e simbólica nas sociedades contemporâneas (Junqueira, 2005), sobretudo nos contextos culturais em que os imperativos da globalização conflitam aquilo que é local e particular.

A representação de um dado objeto, instituição ou fenômeno não deve ser tomada como parti pris. Moscovici (2002) chama a atenção para o fato de que isso seria fetichizar o método, e conclama o pesquisador a discernir os campos aos quais a noção pode efetivamente se aplicar. Atentando para a mesma questão, Sá (1998, p. 53) argumenta que ela remete para o vínculo entre sujeito e objeto; adotando a fórmula proposta por Moscovici segundo a qual "toda representação é uma representação de alguém [o sujeito] e de alguma coisa [o objeto]", Celso Sá defende que é preciso tomar como ponto de partida os grupos com interesses comuns e um mesmo senso de identidade.

A afirmação remete a duas ordens de questões. A primeira delas diz respeito ao fato de que a coerência da representação que o sujeito faz da coisa [do objeto] nem sempre é apreendida numa primeira aproximação. Com os trabalhos de Jodelet, aprendemos que aquilo que o pesquisador representa como loucura cinde-se, entre os camponeses estudados, em dois objetos – a doença do cérebro e a doença dos nervos - cada qual orientando práticas distintas. Nesse caso falamos de representação autônoma; mas há as representações não-autônomas, quando:

o lugar de coerência do campo representativo do objeto x está na representação de objetos y, z... mais ou menos ligados a x. Exemplo (Abric, 1979): homens de negócios, habituados a viajar de trem, dizem que a baldeação de um trem para outro é muito desgastante/bastante agradável. É desgastante quando se passa de um trem de prestígio a outro medíocre; é agradável no caso inverso. Portanto, a representação da baldeação entre dois trens não é autônoma: ela remete à representação dos trens (objeto y) em relação com a auto-imagem (objeto z) que os homens de negócios têm (apenas um trem de prestígio é digno deles). (Flament, 2001, p. 174).

A segunda questão a ser levada em conta diz respeito a uma exigência do método: em que grupos cabe estudar as representações sociais? Elas se constroem e se renovam no curso de processos de trocas e interações sociais (Moscovici, 2001). Neste sentido, os sujeitos estudados devem constituir-se como grupo taxonômico (reunião de sujeitos sob uma mesma classificação) ou como grupo estruturado (reunião em torno de direitos, deveres, obrigações ou laços biológicos) (Leme, 1993). São essas condições que oferecem o substrato cultural sobre o qual se constroem, e transformam, as representações sociais.

O presente trabalho discute as representações sociais de jovens acerca dos problemas que têm a enfrentar e das formas a que recorrem para fazê-lo. O grupo estudado constitui-se de jovens moradores de comunidade da periferia na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que compartilham vivências na comunidade em que residem e se definem, assim, como grupo estruturado. Em alguns aspectos suas vidas se equiparam às dos residentes em grandes centros urbanos; em outros, se diferenciam e se opõem: a proximidade dos grandes núcleos de consumo não assegura acesso efetivo a eles; moradores de um dos mais importantes núcleos urbanos no Brasil, nem por isso têm garantido o acesso a instituições e benesses sociais.2

O material transcrito gerou categorias de análise que expressavam os principais problemas enumerados pelos jovens. As categorias mais representativas foram: Drogas (23 respostas), Família (13), Namorados (9), Violência (11), e Emprego (7). As diferentes representações contidas em cada categoria relacionam-se e influenciam-se mutuamente, e em seu conjunto indicam relevância nas escolhas pessoais dos sujeitos.

Na análise, usamos dois critérios metodológicos propostos por Sá (1996, p. 150): "um de natureza coletiva, representado pela freqüência com que a categoria é evocada pelo conjunto de sujeitos; outro de natureza individual, dado pela ordem que cada um confere à categoria no conjunto de suas próprias evocações".

 

As Representações dos Problemas da Juventude e seus Enfrentamentos

A característica central das representações sociais dos jovens de Bom Retiro é que os problemas por eles citados são representados como problemas porque se opõem à concretização dos objetivos que definem para si mesmos. Nessa oposição, eles transitam frequentemente entre a idéia de problema e solução, nomeando uma dada categoria ora como fonte de apoio ora como obstáculo a ser enfrentado. Assim, as categorias listadas acima não se revestem de um valor positivo ou negativo per si, antes assumem esse valor dependendo do contexto em que emergem.

Os entrevistados transitam de um tema a outro, donde se pode supor que as categorias problema e solução – tal como propostas – pela pesquisa não são inteiramente congruentes com suas representações (Flament, 2001). A todo o momento a tentativa de esquematização enfrenta ponderações da circunstância e nuances de sentido impostas pelo universo que as re-significa. Essa trajetória de suas falas está retratada a seguir.

Família: A Maior Fonte de Apoio

A família foi citada por 13 entrevistados como um problema na vida dos jovens. Na seqüência da evocação, eles fazem referência à falta de diálogo e de compreensão entre pais e filhos, e às proibições impostas pelos pais: proibições, sair, namorar... (Renata, 14)3. Essa valoração negativa – a família vista como um problema – à primeira vista parece remeter à função socializadora da família, que nem sempre pode ser exercida de forma harmoniosa. Parece no entanto que esses conflitos tendem a ser superados em prol de objetivos coletivos, quase sempre organizados pelos pais, entre os quais a busca por melhores condições de vida (Romanelli, 2002). Isso parece especialmente importante entre os pobres, que lidam com a necessidade. Para Sarti (1994, p. 53), a noção de necessidade é "utilizada pelos pobres como critério para definir a obrigação de ajuda". Essa condição parece, de fato, circular entre os entrevistados: pois, a despeito de definirem a família como um problema, eles por outro lado afirmam que a família é muito importante (Angélica, 17).

Os jovens consideram a família essencial para suas vidas; ela evoca expressões como tudo, união e base de tudo4. É na família que eles buscam apoio e é a ela que recorrem em momentos de maior necessidade, quando sua falta coloca dificuldades suplementares. São eles próprios que sustentam que diante da falta de diálogo, interpretada como retirada de apoio, não sabem como agir e rendem-se a vias de fuga como as drogas ou a saída precoce de casa. Na expressão de Bruno (17), os jovens que não têm família não têm o que perder.

A expressão do entrevistado anuncia que a importância da família parece associar-se à gravidade de sua ausência. Sem autonomia, falando de um lugar de dependência e espera, o jovem depende do amparo familiar para conquistar a autonomia enquanto resiste à tentação da droga ou enfrenta a gravidez inesperada – questões que segundo eles definem momentos em que o apoio familiar é fundamental - os "momentos de necessidade" a que se refere Sarti (1994). Quando essas dificuldades se impõem, sem a família muitos não sabem como lidar, alguns saem de casa e acabam procurando as drogas (Adriana, 17) ou algo mais fácil como as drogas (Sandra, 17). Define-se aí uma singularidade própria de classe que coloca o apoio familiar no centro da organização de vida, alimenta as tensões entre permanência e mudança e pode explicar a convergência entre solução e problema, qualificativos que se associam à representação de família e se mostram imprescindíveis à sua apreensão.

A importância da família pode estar pautada em um substrato real: 27 entrevistados vivem com seus pais e irmãos; 2 já constituíram sua própria família e vivem com o cônjuge; e 7 moram com a mãe; um único jovem não mantém qualquer vínculo com os genitores5. Mas essa base factual não alcança a razão pela qual a família integra, idealizada, os projetos de futuro. Com efeito, grande parte dos entrevistados anuncia o desejo de constituir a própria família, com cônjuges e filhos; almeja a realização de um modelo que ao mesmo tempo incorpora as qualidades (a garra dos pais e mães, definidas como guerreiras por vários entrevistados, o esforço cotidiano que reconhecem neles em prol dos filhos) e supera os problemas do presente (os laços amorosos e duradouros de casal, a proteção contra dificuldades econômicas e desemprego, a posse da casa). Ou seja, a família a que se referem é suporte no presente e modelo idealizado para o futuro, ideal que repete e aperfeiçoa a estrutura de vida dos pais.

A relevância da família nuclear no Brasil tem sido atribuída em parte ao fato de que ela prevaleceu como modelo de organização familiar durante todo o primeiro século republicano, donde advém seu alto valor simbólico. Emanam daí valores que até hoje circulam na cultura nacional: a estrutura hierarquizada, o exercício da autoridade parental e sua ascendência sobre a mulher e a prole, a divisão sexual do trabalho, a dupla moral sexual (Romanelli, 2002). Os jovens entrevistados reafirmam, atualizando, esse mesmo conjunto de valores: descartam o contrato de casamento e a virgindade feminina – patente na afirmação de Renata (12): "não pretendo casar, mas quero ter dois filhos" – mas centram na família seus projetos de estabilidade emocional, tornando a família ainda por constituir o eixo em torno do qual seus projetos gravitam: a constituição da família é razão de ser da própria estabilidade financeira. O futuro, diz um entrevistado, é visto com carro, moto, dinheiro, ter casa, família, casar, ter filhos (Bruno, 17). O peso da família no presente e no futuro pode ser mais uma das razões pelas quais essa categoria – a segunda mais citada - é a que apresenta o maior número de correlação com todas as outras.

É verdade que o apoio familiar pode ser suprido por outros atores sociais; mas os entrevistados claramente emprestam a esses outros atores uma função suplementar e secundária: nas horas mais difíceis, quando não tem os pais por perto, tem os amigos (Adriana, 17); alguns que não conversam muito com os pais pedem conselhos aos professores, irmãos (José Antonio, 21). Essas são falas que, apontando o que é secundário, ajudam a encontrar aquilo que é principal: a melhor ajuda é a família. Depois as instituições (Renata, 14).

Drogas

As drogas são citadas como o principal problema dos jovens por 22 entrevistados (15 meninas e 7 meninos). A análise de suas representações sociais sobre esse tema valeu-se das respostas a duas questões suplementares (questões 13 e 14).

Convém ressaltar, de início, que as falas dos jovens apontam para o problema do consumo de drogas, e não para a relação entre drogas e tráfico. Apenas duas respostas à questão 14 referiam-se ao tráfico, e mesmo assim aparecem vinculadas à vida na cidade e não a problemas cotidianos dos entrevistados. Esse dado pode parecer incomum e curioso diante da magnitude das questões que o tráfico impõe hoje à população residente nos grandes centros urbanos do país. Mas as falas analisadas indicam que isto não se dá na comunidade analisada, ou ao menos entre os entrevistados, o que constitui fator diferencial desse grupo. No grupo, as drogas são representadas como problema da esfera individual e da ordem do subjetivo; os jovens entendem que o uso da droga decorre de uma escolha pessoal, e que seus reflexos serão também circunscritos às relações intersubjetivas. Essa escolha aparece associada a quatro razões principais.

Um grupo de razões referenda a importância da família e a gravidade de sua ausência, nos termos já discutidos; cabe aqui acrescentar que, se o jovem escolhe a droga por causa dos pais em casa (Renata, 14), essa seria uma falsa saída para o problema, uma linha de fuga para aqueles que, diante da dificuldade na família, procuram algo mais fácil como as drogas (Sandra, 17).

Schenker e Minayo (2005) reconhecem o peso de fatores familiares na forma como o adolescente reage à oferta de drogas; para as autoras, relações familiares saudáveis que apóiam o adolescente sem destituí-lo de sua autonomia atuam como proteção contra a drogadição; a fragilidade dos vínculos afetivos, por outro lado, predispõe ao consumo. O depoimento dos jovens entrevistados confirma essas assertivas e reforça uma linha causal entre os dois termos quase consciente, em que a droga é tratada como escolha (censurável).

Outro grupo de razões associa o uso da droga à precariedade das condições sociais e econômicas que submete os jovens; em suas palavras, por causa das dificuldades eles se voltam para as drogas (Fabiana, 21). Essa é uma razão que tem sido reconhecida como importante fator de risco para o uso de drogas (Sanchez, Oliveira, & Nappo, 2005), uma vez que a limitação econômica tende a reduzir as opções estratégicas do sujeito, cerceando iniciativas e culminando na eleição da droga como rota de fuga. O uso da droga, afirmam Schenker e Minayo (2005, p. 40) pode configurar-se em subterfúgio para suportar "as agruras da vida".

Outros dois grupos de razões que podem levar à escolha da droga parecem associar-se. De um lado há aqueles que afirmam essa escolha como um "querer" algo voluntarista, relacionado à "falta de cabeça": faz porque quer. O importante é a cabeça da pessoa (Celina, 16); de outro lado, alguns entrevistados apontam que, diante de dificuldades pessoais ou sociais, os jovens acabam se envolvendo no mundo das drogas, as amizades influenciam (Felipe, 15). Para Schenker e Minayo (2005, p. 710), "o desenvolvimento de afiliações a pares que aprovam as drogas representa o final de um processo onde fatores individuais, familiares e sociais se combinam de forma a aumentar a probabilidade do uso abusivo". Bologna (2002, p. 90) coloca a questão de modo similar, afirmando que "uma parte das razões que levam o jovem ao uso das drogas é de natureza subjetiva, seja por fuga ou curiosidade, e a outra parte é pressão social". Nessa linha de raciocínio, condições prévias pesam nos atos de aceitar ou recusar a droga, em nada mecânicos ou restritos a determinações de momento – e aí que a expressão "cabeça fraca" ganha sentido.

As rotas que levam à droga permitem compreender, portanto, as razões pelas quais ela é citada como um problema: pois se é verdade que no uso da droga busca-se a princípio o prazer, a extroversão e as sensações novas (Schenker & Minayo, 2005), por outro lado a droga visa a evitação das dificuldades e com isso impede o jovem de enfrentá-las e superá-las. O uso da droga compromete assim os projetos futuros e explica porque os jovens que recorrem às drogas são vistos como aqueles que elegem o caminho mais fácil (Fabiana, 21) e se acomodam, se entregam (Dirce, 22).

A questão torna-se mais complexa quando se trata de discutir as saídas possíveis para aqueles que aderiram à droga. Pois aqui será preciso contar com a ajuda dos amigos [que] aconselham (Gloria, 15), sempre tem um amigo que dá conselho (Joana, 14). Mas eles admitem que não é fácil ajudar o usuário de droga que às vezes tá drogado e quer matar os outros, se acha super poderoso (Nair, 19), e com isso afasta aqueles que poderiam ajudá-lo. A frase reafirma a associação entre uso de drogas e comportamento violento, amplamente disseminada no senso comum embora questionada na literatura (Flanzer, 1993; Gelles, 1993). No contexto em que as afirmações se produziram, contudo, parece mais razoável supor que o uso de drogas, a violência e os sentimentos de ausência de apoio familiar em momentos de necessidade sejam fatores que se potencializam mutuamente, tornando virtualmente impossível discriminar causas e conseqüências. Nesse contexto é que a família torna a ser reafirmada como indispensável. Ao defender que, para enfrentar as drogas, a melhor ajuda é a família (Renata, 14), os jovens reafirmam sua centralidade e importância no processo de individualização e conquista da autonomia.

Violência

A violência foi o terceiro problema mais citado, com 11 evocações (7 meninas e 4 meninos) e na sua análise foram consideradas as respostas às questões 14 e 15.

A maioria dos entrevistados nomeia a "violência" sem explicá-la, apresentando-a como fenômeno onipresente: está em todo lugar (Ana, 20); quando a qualificam, ela é identificada nas atitudes daqueles que, quando aparece uma discussão quer logo brigar (Gloria, 15), ou na criminalidade, com jovens virando bandidos (Cristina, 14), nos roubos; assassinatos; muita violência; homicídios, suicídios (Manoel, 13). Uma única entrevistada refere-se à violência [que acontece] inclusive dentro de casa (Paula, 18), o que confirma a disseminação e justifica a sensação de onipresença mas faz da violência uma questão na essência coletiva e pública.

Esse sentimento corresponde à percepção que permeia a vida nos grandes centros urbanos. Almeida e Almeida (2004) caracterizam a violência difusa com base na sensação de medo e insegurança, real ou imaginária, que impacta indistintamente todos os cidadãos, atravessa o tecido social e é carregada de imprevisibilidade: "não se pode assegurar de onde ela partirá, que forma ela assumirá, nem quando ela virá" (Almeida & Almeida, 2004, p. 109). Esse caráter se confirma nas formas de enfrentamento, igualmente difusas, propostas pelos entrevistados: uns dizem não saber lidar a questão, outros que tentam fugir dela; uns crêem que podem resolver sozinhos o problema, outros acham que não devem se envolver. Mas a mesma jovem que afirma que a violência está em todo lugar diz também que os jovens não vão deixar de sair por causa disso (Ana, 20), ecoando a fala de outra para quem essas coisas só acontecem com quem quer (Daniela, 16). Trata-se enfim de evitá-la, esquivar-se dela quando e como possível, sem permitir que o cotidiano seja por ela afetado.

É uma estratégia questionável, sem dúvida; de um lado porque a afirmação da possibilidade de evitar a violência constitui outro fator distintivo desse grupo. As respostas dos jovens entrevistados pelo Projeto Jovem Total (Castro et al., 2005) mostra a preocupação com a intromissão da violência nos atos cotidianos, comprometendo atividades como a ida à escola, a permanência na praça ou a visita a amigos em comunidades vizinhas; essa diferença pode ser mais um indício da não dominação do nessa comunidade específica.6

Essa atitude pode, no entanto, refletir certo grau de abandono institucional diante do qual a evitação ou a negação restam como única alternativa. A favor dessa hipótese falam as alternativas apresentadas pelos entrevistados para reduzir a violência, sempre passando pelo policiamento: eles clamam por mais policiais nas ruas durante o dia, mais policiais nos morros (Bruno, 17), mais policiamento nas cidades (Adriana, 17). Ao mesmo tempo a polícia é representada como corrupta (Pedro, 18), pior do que bandido (Dirce, 22). Nessa conjunção em que o problema pede uma solução que por sua vez é outro problema, ganha sentido a proposta de seguir em frente com as tarefas do dia-a-dia, a despeito de mais essa dificuldade.

Trabalho e Emprego

O trabalho, assim como a violência, é tomado como problema mais significativo do ponto de vista social e coletivo que do ponto de vista individual: ele é citado em primeiro lugar na questão 11, com 7 respostas, e 16 vezes na questão 14.

Para entender a natureza da questão tal como colocada, é preciso iniciar pela diferenciação que os entrevistados fazem entre trabalho e emprego. Para eles, emprego é o exercício qualificado da profissão, e trabalho – associado a expressões como bico ou biscate – é atividade transitória que não requer qualificação. O trabalho tem seu valor limitado ao período em que o jovem precisa auferir renda que lhe permita capacitar-se à disputa do emprego, este sim entendido como passaporte para a estabilidade econômica Em suas palavras: [é preciso] ter um bom estudo para ter um bom emprego (Mariana, 21); os jovens devem continuar a procurar emprego, se virar, fazer biscate (Ana, 20). Está posto, aí, o momento de necessidade em que as tarefas se acumulam na vida do jovem com vistas ao enfrentamento de um problema que anunciado – com a expressão "emprego" – pode ser melhor entendido como a ameaça de sua falta.

Oriundos dos estratos sociais mais baixos, os entrevistados não podem se dedicar aos estudos apenas; eles precisam auferir uma renda que tanto pode ser reinvestida na família quanto prover suas próprias necessidades de consumo, cujo valor não deve ser minimizado: na cultura do consumo, a aquisição de objetos e serviços tem alto valor simbólico e, por isso, comprar é "um ato econômico com implicações sociais" e o poder de compra "atende a necessidades psicossociais" (Costa, 2004, p. 77). Nessa fase de passagem para a vida adulta, em que a referência do grupo extra-familiar é crucial, o jovem acumula as tarefas que permitem responder à demanda presente e articular o projeto futuro, onde o desejo também gira em torno de necessidades de consumo: com carro, moto, dinheiro, ter casa, família, casar, ter filhos (Bruno, 17).

Aqui espreita, ainda uma vez, o risco. A demanda de consumo está próxima das exigências de individuação, e o grupo "excluído da economia e da sociedade é diretamente estimulado a possuir o que não pode comprar e indiretamente incitado a se apropriar de forma criminosa do que é levado a desejar" (Costa, 2004, p. 77), fazendo com que o desejo de satisfazer as necessidades de consumo se torne mais imperativo que a moral de cumprimento da lei. Nas palavras dos jovens, às vezes a pessoa corre atrás ou procura o caminho mais fácil que é a droga, ou o trabalho ilegal (Fabiana, 21).

De novo, o apoio da família parece crucial. No período em que acumulam trabalho e emprego, a família precisa compartilhar tarefas de modo a liberar esse tempo de dedicação necessária. Além disso, a família parece orientar a própria valoração positiva do trabalho, como constatou Alves-Mazzotti (2000) ao estudar as representações juvenis sobre o tema7:

aqueles que vêem suas famílias como solidárias – o que pressupõe laços afetivos entre seus membros e esforço partilhado para assegurar a sobrevivência – têm uma representação positiva do trabalho considerando-o uma necessidade ligada ao seu próprio sustento e à ajuda da família . . . já os que vêem suas famílias como desunidas e exploradoras, tem sobre o trabalho uma representação negativa, encarando-o como algo cansativo e penoso, com muitos inconvenientes e parcos benefícios. (p. 286).

Namorados

Foram 9 os entrevistados que citaram os namorados como um problema na vida dos jovens. A relação amorosa constitui-se em problema quando evoca temas como "gravidez", "falta de prevenção", "doenças" e "prostituição"; refere-se portanto às conseqüências advindas de uma prática sexual que não incorpora o cuidado e a responsabilidade para com o próprio corpo: são coisas só acontecem com quem quer (Daniela, 16). O problema, portanto, está na gravidez na adolescência (Ligia, 18); chega a ser um problema até mesmo pensar que a namorada está grávida (Bruno, 17).

Dadoorian (2003) observa que a gravidez precoce obriga o jovem a adiar ou mesmo descartar certos objetivos traçados previamente; por exemplo, se a gravidez ocorre antes da conclusão dos estudos, os planos originais são adiados e dificilmente retomados na sua forma inicial; o nascimento do filho acarreta maior dependência econômica visto que a maioria das mães precoces, com namorados também muito jovens, continua a viver na residência dos pais. Tais considerações ajudam a compreender a temática da gravidez tal como colocada pelos entrevistados: o problema não está no filho, cujo desejo é anunciado, mas na sua antecipação. O nascimento do filho integra a um projeto específico, estruturado em fases a serem galgadas uma a uma, num percurso em direção à estabilidade emocional e financeira. A gravidez precoce antecipa o filho e obriga os jovens a reformular seus projetos, e é aí que ela deixa de ser desejo para constituir-se em problema.

Apesar disso, é comum que a gravidez seja levada a termo, assim como é comum ouvir da adolescente que ela está contente com a perspectiva de ser mãe (Dadoorian, 2003). Parece de fato que a reprodução legitima a sexualidade quando o casal, mesmo jovem, assume em conjunto a responsabilidade pela gravidez: "o 'direito' ao prazer sexual implica o 'dever' de assumir as conseqüências, a possibilidade do filho, que é colocado como uma inevitabilidade da vida sexual, faz com que a reprodução legitime moralmente a sexualidade" (Sarti, 1996, p. 54).

Assim, o tema da gravidez traz à baila a responsabilidade do casal, abordada a nível moral. Do ponto de vista feminino, a mulher - ao enfrentar as conseqüências do exercício da sexualidade - está "sendo mulher" o suficiente para assumir o filho, sobretudo quando se propõe a sustentá-lo sem depender da figura masculina (Sarti, 1996). Essa concepção ecoa a admiração dos jovens entrevistados pela figura materna: a mãe, muito guerreira, cuidou de três filhos sozinha (Sandra, 17). Essa valorização da maternidade, e a responsabilidade que ela invoca, explicaria a decisão tão freqüente de assumir o filho em condições materialmente adversas: a postura equivale a um novo status social, o de ser mulher-mãe e não mais menina-filha (Dadoorian, 2003).

A gravidez inesperada impõe a necessidade de apoio; os entrevistados entendem que essa é uma questão com a qual não podem lidar sozinhos. Será preciso buscar ajuda, todas as possíveis: da família e dos amigos (Julio, 14), mas é à família que a maioria dos jovens recorreria nessas circunstâncias; apenas na ausência dela é que os amigos e os próprios namorados ganham posição de destaque. Nesse lugar, amigos e namorados são anunciados como companheiros: Cristina (14) define o namorado como um companheiro enquanto Rita (15) afirma que a amizade é um companheirismo nos momentos difíceis, e diz que o namorado é um outro amigo.

Na transição entre os papéis de menina-filha e mulher-mãe, a família constitui a fonte de auxílio no presente que permite elaborar a transição para a vida adulta, quando a mulher – preferencialmente acompanhada – poderá aproximar-se de seu ideal de estabilidade emocional e constituir as redes de solidariedade que inauguram um espaço social próprio que incorpora o filho e os companheiros: seu parceiro amoroso mas também os amigos que auxiliaram essa travessia.

 

Considerações Finais

A questão original da presente investigação pode ser anunciada como a proposta de identificar as representações dos jovens moradores de comunidades de periferia acerca de seus problemas e das formas como eles os enfrentam, e como essas representações organizam sua perspectiva de vida, entendida através da noção de projeto. Os dados coletados indicam que, no projeto, é central a noção de estabilidade econômica e afetiva, cuja realização é buscada por meio da conquista do emprego que viabiliza a aquisição de bens materiais (a casa) que, por sua vez, constitui condição concreta para a constituição da própria família.

Os objetivos, anunciados por todos os entrevistados, incluem os estudos, a capacitação e a efetiva inclusão no mercado de trabalho, a união amorosa estável e a constituição da família. São propósitos ativamente buscados, que exigem grande investimento pessoal, e organizados sequencialmente: a inclusão no mercado de trabalho não encontrará desfecho favorável sem investimento prévio na capacitação, e a constituição da família não será possível se antes o jovem não houver-se tornado financeiramente estável. A compreensão aguda dos obstáculos a enfrentar, e a elaborada organização das expectativas, permitem a referência à noção de projeto de vida.

A representação de família é complexa: ela diferencia, num primeiro plano, a família futura (a ser construída) da família presente (a família de origem). Além disso, a família presente é uma representação não-autônoma: ela é representada como solução (portanto carregada de valor positivo) quando sustenta os projetos dos jovens, e como problema (carregada de valor negativo) quando, ao contrário, se apresenta como núcleo de convivência em que as dificuldades - como a violência no espaço privado, as dificuldades econômicas incontornáveis – exigem que o jovem renuncie ao cumprimento das etapas que entende necessárias para a realização do próprio projeto de vida.

A representação dos amigos parece acompanhar essa mesma lógica: amigos são solução quando suportam o projeto e problema quando as trajetórias e perspectivas se afastam; aqui, ainda uma vez, a violência aparece como fator que condiciona a representação dos amigos como problema: é o uso da droga, ou o envolvimento com o tráfico, que constitui a linha demarcatória da representação como positiva ou negativa.

No contexto estudado, o projeto pode ser esquematicamente apresentado como:

 

 

Assim desenhado, o projeto de vida aponta para um futuro idealizado no qual os valores culturais do presente não apenas são incorporados, mas sobretudo aprimorados. Do ponto de vista da estrutura familiar, o jovem almeja a união estável; do ponto de vista da vida material, busca uma estabilidade maior que a que seus pais lograram.

É o projeto que permite compreender a noção de problema em suas vidas: problema é tudo aquilo que representa um obstáculo potencial ou real à consecução do projeto. Problema é a ausência do emprego que impede a estabilidade econômica; problema é a família, ou os amigos, que faltam em momentos de necessidade, obrigando a desvios ou forçando reformulações na estrutura idealizada de futuro; problemas são as drogas e a violência que inserem critérios de escolha nas relações de solidariedade não necessariamente compatíveis com projetos originalmente traçados; problema é a gravidez precoce que obriga a uma inversão na seqüência, com resultados imprevisíveis.

É notável a centralidade da família nas falas dos entrevistados. Em torno da família, conectam-se dois tempos: ela ampara o presente e organiza o futuro, colocando-se na culminância dos projetos de vida como se todo o esforço empreendido visasse sua realização. A força dessa representação anuncia muitos significados.

De um lado, ela fala de certa permanência de valores culturais. Ainda que a família futura admita transformações – o casamento formal não é necessário, a prole não requer necessariamente a presença do pai -, as relações familiares continuam dominando as expectativas dos jovens. De outro lado, a referência ao apoio familiar em todos os momentos em que é necessário enfrentar obstáculos previstos ou imprevistos fala da força das redes de sociabilidade primárias e, em contrapartida, faz pensar na ausência de fontes alternativas de suporte ao jovem na comunidade estudada. O apoio familiar é invocado como prioritário mesmo em questões cuja raiz escapa à esfera de ação da família inviabilizando, por isso mesmo, sua influência decisiva. Levando em conta que instituições sociais - como a escola e os aparatos de segurança – são apresentadas como ineficazes e problemáticas, vê-se que a ausência da esfera pública reforça o poder relativo da estrutura familiar. A ajuda da qual o jovem depende para realizar a transição para a vida adulta chega através das redes próximas, com os familiares e menos amiúde com os amigos. Contando apenas com esses recursos é que ele enfrentará os obstáculos que inviabilizam a realização de seu projeto.

Nesse contexto é que se esclarecem as razões pelas quais "problema" e "solução" integram, ao mesmo tempo, as representações de família, de amigos, de namorados, e de emprego: elas falam da escassez de suporte institucional fazendo convergir sobre poucas instituições as expectativas de ajuda, o que torna particularmente problemática sua ausência.

Um aspecto que merece análise, mas não foi tratado no corpo deste trabalho, é a possibilidade de que, enfrentando dificuldades nas relações familiares e de amizade, o jovem possa acercar-se de sua realidade, conferir-lhe um caráter mais real e menos quimérico. Se isso implica em diluir os sonhos e as fantasias contidos em seus projetos de vida, por outro poderia contribuir para tornar mais factíveis seus empreendimentos.

 

Notas

1. Apoio: Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

2. Os dados aqui tratados foram coletados pelo Projeto Jovem Total (Castro et al., 2005), com recorte nos jovens entrevistados na Comunidade de Bom Retiro, no Município de Duque de Caxias. Ali, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas junto a 39 adolescentes de ambos os sexos, 28 meninas, com idades entre13 e 22 anos. O questionário aplicado continha 19 perguntas e a análise desenvolvida aqui toma duas delas como foco: "Quais os problemas que os jovens da sua idade têm que enfrentar?" (Q11); e "Como os jovens lidam com esses problemas?" (Q12). Aspectos adicionais são tratados a partir das respostas a outras questões do mesmo instrumento: "Como você imagina seu futuro?" (Q10); "Qual ajuda os jovens têm para resolver os problemas que eles enfrentam?" (Q13); "Cite quatro problemas que podem ser encontrados nas cidades e diga uma maneira possível de enfrentá-los" (Q14); "Que palavra vêm na sua cabeça para dizer o que você sente sobre: família, namorado, polícia, amigos" (Q15); "Jogo: complete as frases com as principais idéias que lhe vierem à cabeça" (Q16). As razões e momentos em que essas respostas foram utilizadas estão descritas no texto.

3. As falas dos entrevistados encontram-se destacadas em itálico e os nomes citados ao longo do texto são fictícios; o número que se segue ao nome indica a idade do jovem.

4. As expressões em itálico são referências textuais às falas dos entrevistados.

5. A informação não está disponível para 2 dos entrevistados.

6. Diante da sugestão dos dados de que a comunidade não era dominada pelo tráfico, foram ouvidos membros da Associação de Moradores do bairro que confirmaram a hipótese.

7. Alves-Mazzotti (2000) não discrimina trabalho de emprego na forma referida pelos jovens entrevistados para este estudo. A expressão "trabalho" a que ela se refere deve, por isso, ser tomada como categoria que engloba os dois sentidos aqui discriminados.

 

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Recebido: 20/06/2007
1ª revisão: 21/12/2007
Aceite final: 19/04/2008

 

 

Hebe Signorini Gonçalves possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado e doutorado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ). Atualmente, é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro associado do NIPIAC. Endereço para correspondência: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Av. Pasteur, 250, Campus da Praia Vermelha, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ, 22290-240. Tel.: (21) 2295 3208. hebe@globo.com
Tatiana dos Santos Borsoi possui graduação em Psicologia pela UFRJ.
Marisa Antunes Santiago possui graduação em Psicologia pela UFRJ. marisinha_as@hotmail.com
Michelle Villaça Lino possui graduação em Psicologia pela UFRJ.
Isabela Nery Lima é graduanda de Psicologia pela UFRJ.
Roberta Gomes Federico é psicóloga. roberta.federico@gmail.com