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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.20 no.2 Porto Alegre May/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822008000200017 

T.W. Adorno e a psicologia social

 

T.W. Adorno and social psychology

 

 

José Leon Crochík

Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

 

 


RESUMO

Neste ensaio, ressalta-se a importância da disciplina Psicologia Social na obra de T. W. Adorno e a concepção que formula acerca dessa disciplina. Esse autor defende que há uma nova forma de configuração dos indivíduos, expressada por atitudes e comportamentos individuais padronizados e por um ego frágil, facilmente cooptado por movimentos sociais totalitários. Tais indivíduos surgem em uma sociedade caracterizada por uma forma de dominação calcada na racionalidade administrativa e tecnológica. Para esse autor, a Psicologia Social deveria estudar esse objeto para que, com o esclarecimento produzido e difundido, os indivíduos possam resistir à adesão cega a movimentos sociais irracionais, tal como o fascismo, insistindo que a determinação desses movimentos não é individual, mas social.

Palavras-Chave: T. W. Adorno; Psicologia Social; fascismo.


ABSTRACT

In this assay, the importance of Social Psychology discipline in the T.W. Adorno's work and the specific conception that he formulates about it are pointed out. He defends that there is a new way of individuals' configuration, expressed by standardized attitudes and their own behaviors, such as a fragile ego, which is easily co-opted by totalitarian social movements. Such individuals appear in a society characterized by a form of domination based on administrative and technological rationality. For that author, Social Psychology would have to study this issue so that, with the enlightenment achieved and diffused, the individuals are able to resist to the blind adhesion in irrational social movements, such as the fascism. Adorno empathized that the determination of these movements is not individual, but social.

Keywords: T. W. Adorno; Social Psychology; fascism.


 

 

Com a divisão de trabalho estabelecida entre as ciências, parece estranho que um pensador com sólida formação em filosofia, sociologia e estética, como é o caso de T. W. Adorno, tenha se interessado pela psicologia social e a defendido como uma disciplina sociológica. Talvez, o mais estranho ainda pareça a sua defesa da necessidade de estudos empíricos, com as técnicas desenvolvidas pelos pesquisadores dos EUA, associados a essa disciplina, após as críticas contundentes feitas por ele, em conjunto com Horkheimer (Horkheimer & Adorno, 1947/1985), sobretudo ao Positivismo, ao pensamento que se reduz à matemática, e à proibição da especulação e da imaginação.

Nesse sentido, é notável, e infelizmente coerente, que os estudos empíricos que realizou, também considerados da área de psicologia social, sejam pouco citados pelos estudiosos de seu pensamento. Caberia, então, evidenciar a defesa que faz dessa disciplina, a utilização de suas técnicas em seu trabalho e a delimitação de como é entendida por esse autor e, mais do que isso, caberia verificar se não é possível falar de uma psicologia social de T. W. Adorno.

Para um pensador que tem o materialismo histórico como uma de suas bases, uma disciplina científica surge em condições históricas determinadas para o estudo de um objeto que tem interesse social, assim, não é possível demonstrar a importância dessa disciplina em seu pensamento sem que esse objeto seja apresentado e discutido. Por isso, neste trabalho, ambos – a disciplina e o objeto - aparecerão remetendo-se um ao outro.

A psicologia social indica a relação entre o indivíduo e a sociedade; deve ter a sua especificidade que não coincida nem com a psicologia, nem com a sociologia. Adorno entende essa relação de maneira a não restringir esse objeto a uma mera 'interação simétrica' entre dois fenômenos. Primeiro, porque critica a sociologia pensada sem indivíduos e a psicologia voltada unicamente ao seu objeto, por desconhecer que esse se desenvolve socialmente e que é a sociedade e a cultura que lhe permitem se constituir como indivíduo; segundo, porque essa relação é histórica e, assim, a possibilidade do indivíduo ser mais ou menos diferençado depende da configuração social e de sua necessidade de reprodução (não é casual que o autor enfatize que a sociedade produz os homens que necessita para se manter tal como é); terceiro, porque a sociedade não determina externamente a formação do indivíduo, mas de forma imanente; e por fim, porque na atualidade a sociedade tem primazia acerca da determinação do comportamento individual (ver Adorno, 1955/2004).

Não é a ênfase no indivíduo que distingue o objeto da psicologia social daquele estudado pela sociologia, da qual, segundo, Adorno (1968/1996), deveria ser parte, mas comportamentos irracionais manifestados em massas, e massas entendidas nos múltiplos sentidos atribuídos por Freud (1921/1993): multidão, grupos, instituições. Não é a preocupação com as massas o que diferencia o objeto dessa disciplina do que é estudado pela psicologia, e, sim, tipos de comportamentos expressados em sentimentos, pensamentos e tendências para a ação uniformes, padronizados. A defesa da psicologia social por Adorno diz respeito a um novo objeto surgido no fascismo desenvolvido no século passado. Trata-se de entender porque os indivíduos agem contra seus interesses racionais, numa sociedade com uma administração calcada na racionalidade formal, sem com isso reduzir um fenômeno social a determinantes psíquicos.

A psicologia social, no entanto, é uma ciência parcelar, distinta das concepções filosóficas com as quais Adorno procura apreender os objetos que estuda. Como compreender o objeto pelo uso conjunto da filosofia social e de uma ciência parcelar? Alguns elementos para responder essa questão podem ser encontrados em alguns trabalhos de Adorno, entre os quais, os que envolvem a relação entre filosofia e ciência.

A preocupação com a relação entre a filosofia e a ciência está presente em seu texto de 1931, nomeado Atualidade da Filosofia (Adorno, 1931/1991). Nesse texto, utiliza a expressão 'Fantasia Exata' para se referir à relação entre ambas: o termo 'exata' corresponde aos dados obtidos pela ciência; 'fantasia', à forma pela qual esses dados podem ser agrupados para obtenção de sentido:

Una fantasía exacta; fantasía que se atiene estrictamente al material que las ciencias le ofrecen, y solo va más allá en los rasgos mínimos de la estructuración que ella establece: rasgos que ciertamente ha de ofrecer de primera mano y a partir de sí misma. (p. 99).

A fantasia destinada à interpretação dos dados empíricos reporia o sujeito anulado (ainda que aparentemente) pelos métodos empíricos. Se a fantasia representa o sujeito, nessa relação, ela não se limita à filosofia, mas permite a imaginação e a especulação retornarem, como expressões do pensamento. A recomendação para a restrição ao material fornecido pelas ciências impede conceitos idealistas serem fortalecidos. Adorno defende nesse texto a impossibilidade da apreensão da totalidade por conceitos; essa totalidade pode ser apreensível pela análise dos objetos existentes; então, é a partir desses que ela pode ser analisada. Na filosofia que adota, o particular expressa a totalidade, assim é no estudo de objetos particulares que a filosofia e a ciência se encontram. A perspectiva de se concentrar nos objetos cotidianos para neles perceber a totalidade aparece ao final desse texto: "Pues el espíritu no es capaz de producir o captar la totalidad de lo real; pero sí de irrumpir en lo pequeño, de hacer saltar en lo pequeño las medidas de lo meramente existente" (Adorno, 1931/1991, p. 102).

Tanto mais importante é atentar para o texto citado do jovem Adorno, quanto que no momento de sua publicação não tinha a experiência com os métodos empíricos obtida posteriormente no período vivido nos Estados Unidos da América, e, assim, não se pode dizer que a importância dada às ciências parcelares era externa às suas preocupações iniciais.

Em seus estudos sobre a música popular do final da década de 1930 e início da seguinte (Adorno, 1938/1983; Adorno & Simpson, 1941/1986), nos quais utiliza análise de conteúdo - sem que essa análise seja reduzida a procedimentos técnicos, reduzindo assim a percepção do próprio sujeito, como é comum atualmente -, a preocupação com a configuração do estímulo e seus efeitos sobre os sujeitos é visível. Diferentemente da distinção behaviorista entre estímulo e resposta, o que se apresentou nesses trabalhos foi a perspectiva materialista pela atenção ao como a objetividade se expressa por meio de diversos objetos. Importante notar que seu olhar perspicaz arrojou luz a objetos considerados quase inócuos quer à ideologia, quer à formação dos indivíduos; no caso, a música, comumente, era, como é até hoje, considerada como mero meio de entretenimento e venda de mercadorias, sem nenhuma implicação política, conforme Adorno lhe atribuiu. As análises desses objetos, nesses ensaios, foram atreladas às modificações sociais, responsáveis, segundo argumentou, por novas configurações individuais; com isso pôde evidenciar, nesse período, a vigência do fascismo e a luta contra esse. Dessa última observação, pode-se deduzir a ciência ser engajada socialmente e, no que diz respeito à psicologia social e à investigação social empírica, que é seu objetivo o conhecimento do que permite a adesão ao ideário fascista.

Nesses estudos, não há alusão à psicologia social, mas a análise do fetichismo da música, da regressão do ouvinte e dos tipos de ouvintes estabelecidos evidenciou a preocupação com a relação entre indivíduo e sociedade e com a constituição de um eu pouco delimitado psiquicamente.

Preocupado com o fascismo, certo de que esse se devia a determinações objetivas, desde o início da década de 1940, empenhou-se em estabelecer tipos psicológicos suscetíveis à propaganda desse regime (ver Adorno, 1953/1994, 1962/2005). A noção de tipos delineados no estudo acerca da personalidade autoritária (Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson, & Sanford, 1950/1965) refere-se a categorias sociopsicológicas, constituídos também pelos seus conhecimentos sobre a psicanálise. Não utilizou o estudo da psique para descrever tipos segundo o desenvolvimento psicossexual ou segundo as diversas formas das neuroses e psicoses conhecidas, pois isso os restringiria às questões relacionadas ao complexo de Édipo; nem os configurou como tipos ideais tais como propostos por Weber. A construção desses tipos tinha como base a configuração de personalidades propícias à sustentação do fascismo, que expressam conflitos psicológicos determinados socialmente.

Deve-se enfatizar que, para o autor, o fascismo é conseqüência inevitável do capitalismo dos monopólios, assim como a perseguição dos judeus foi consentida também pelo enfraquecimento da esfera de circulação de mercadorias, que Adorno não deixou de associar com a circulação do espírito. Em seu texto 'Reflexões sobre a teoria das classes', Adorno (1942/2004a) escreveu: "La fase más reciente de la sociedad de clases se ve dominada por los monopolios; ésta empuja hacia el fascismo, hacia la forma de organización política digna de tal sociedad" (p. 350). Isso não deve, contudo, reduzir, como veremos mais à frente, seu entendimento do fenômeno a determinações econômicas, posto que desenvolve uma teoria da dominação que se expressa também pelo capital, mas não se reduz a ele.

A constituição desses tipos tinha o propósito de esclarecer como os indivíduos poderiam estar se formando sob a égide do fascismo; esperava que pela difusão desse conhecimento e pela reflexão sobre ele, as pessoas poderiam resistir à violência nelas suscitadas e à violência dos outros. Não foi outro o objetivo confesso da análise das propagandas e da publicidade (ver Adorno, 1951/2006). O estudo dos tipos de personalidade autoritária e as análises dessas propagandas, por meio de seus estudos e dos de outros membros do Instituto de Pesquisa Social, pretendiam deixar visíveis os mecanismos de cooptação presentes nessas propagandas e o que pretendiam suscitar nos indivíduos. Em conjunto com Horkheimer, escreve:

Oferecer receitas tem escassa utilidade. Mas quem teve em conta os feitos a que os agitadores são propensos e adquiriu consciência disso talvez já não sucumba ingenuamente aos seus falsos apelos; e o que conhece as motivações ocultas do preconceito resistirá a ser um joguete nas mãos dos que, para libertarem-se do peso que os oprime, voltam-se contra os que são mais débeis do que eles. Brochuras esclarecedoras e objetivas, a colaboração do rádio e do cinema, a elaboração dos resultados científicos para ensino nas escolas, poderiam ser medidas práticas de combate ao perigo da loucura totalitária da massa. (Horkheimer & Adorno, 1956/1978b, p. 182).

Uma última palavra a respeito das tipologias que construiu. Mais do que categorias, os tipos se referem ao empobrecimento psicológico dos indivíduos, aos homens como podem existir e não a abstrações a seu respeito.

A insistência no particular, no caso, o indivíduo, ocorre segundo o frankfurtiano, porque os estudos acerca do fascismo até então, pouco o estudaram. Não abrigava dúvidas acerca da primazia da sociedade sobre os indivíduos nessa época, assim como não lhe era menos claro que se os indivíduos não fossem suscetíveis a defender um sistema contrário a seus interesses mais racionais, o fascismo teria vida breve. A necessidade do estudo da personalidade lhe era fundamental para compreender o que levava os homens a aderir ou a resistir a um sistema totalitário. (ver Adorno, 1955/2004)

A maior parte dos estudos empíricos de Adorno, aqueles que também podem ser entendidos como sendo da psicologia social, voltou-se à análise de estímulos, conforme foi assinalado anteriormente: música popular, horóscopo, telenovelas; o mais famoso deles, no entanto, envolveu a análise de atitudes e opiniões individuais: A Personalidade autoritária. Esse estudo é considerado um clássico para a Psicologia Social (Adorno provavelmente diria que essa adjetivação – clássico - é feita para enfraquecer a importância do que foi descoberto nessa pesquisa) devido a seu caráter interdisciplinar - participaram pesquisadores de diversas áreas científicas – e devido à utilização de diversos meios empíricos: escalas de atitudes, entrevistas, testes projetivos.

Iniciado em 1944 e publicado em 1950, o trabalho acerca da personalidade autoritária (Adorno et al., 1950/1965) traz como hipótese central a existência de uma mentalidade que contemplaria simultaneamente a posição política individual e preconceitos contra minorias; tal mentalidade seria mediada por necessidades profundas da personalidade que, por sua vez, se desenvolvem por meio de instituições sociais. Os autores ressaltaram a importância de se testar empiricamente as descobertas da psicanálise; e eis que, de forma original, em se tratando de estudos empíricos, a teoria é base de pesquisa e não somente o seu resultado. A teoria não é redutível à experimentação, mas essa auxilia o seu desenvolvimento.

Adorno não nega a contradição existente no emprego da estatística, num momento de despersonalização, com a qual a lei dos grandes números colabora; não renuncia, no entanto, à necessidade de saber a posição que os sujeitos têm em relação a diversos temas nevrálgicos e de entender quais os determinantes sociais que os levam a ter essas posições. Diferentemente do culto ao fato, esse – o fato - serve para reflexão, para que a sua determinação fique visível e consequentemente, quando for o caso, esse conhecimento sirva à luta para modificar as condições que o geraram. A contradição acima explicitada é enunciada no trecho a seguir:

Os observadores tiveram de superar a repulsa pela atitude objetiva de espectadores desinteressados, com que deviam realizar as observações e o estudo desse horror que custou a vida de muitos milhões de vítimas inocentes. A essa atitude de investigação poderia ser acrescentada a convicção de que o conhecimento sociológico-científico, em sua particularização e com suas tonalidades, oferece alguma possibilidade de impedir, eficazmente, a repetição da calamidade onde ela surgir como ameaça e sejam quais forem as vítimas designadas. Além disso, quem deseja oferecer a ajuda da ciência na sociedade atual, deve usar tais métodos, alheados do imediatamente humano, entrincheirados atrás dos grandes números, das leis estatísticas, dos questionários e dos testes, entre outros símbolos semelhantes de desumanização. Mas este paradoxo não pode ser evitado, melhor dizendo, é necessário reconhecê-lo e reconhecê-lo na prática. (Horkheimer & Adorno, 1956/1978b, p. 172-173).

Como Adorno acentuou a dificuldade de modificar as condições sociais, no momento que viveu (o que vale até os nossos dias), defendeu o fortalecimento do sujeito para esse resistir à violência direcionada contra ele, ou nele suscitada. Disso se depreende a importância da formação do indivíduo, e não é causal ter se voltado à discussão sobre a educação ao final da década de 1950 e ao longo da década seguinte. Novamente contra a divisão de trabalho estabelecida entre as ciências, Adorno as confronta, tendo em vista não só o entendimento de seu objeto, mas também as conseqüências práticas. Isso não significa crítica à especialização, posto que, segundo vimos, o estudo do particular revela o todo, mas a possibilidade de as diversas disciplinas, por sua descontinuidade, serem confrontadas no que podem revelar acerca de seu estudo referente a um mesmo objeto.

Nesse momento, cabe dizer algumas palavras a respeito de um aparente pragmatismo do frankfurtiano. Certamente, Adorno não defendia o conhecimento pelo conhecimento, por mais que esse possa estar relacionado ao prazer. O esclarecimento, em que pese sua contradição, deve auxiliar na formação de indivíduos conscientes das raízes de seus sofrimentos para se oporem a esses. Isso não o faz, contudo, submeter a teoria à práxis e vice-versa, mesmo porque se o fascismo é contrário ao pensamento, à reflexão, a teoria indica liberdade (Adorno, 1969/1995); além disso, esse autor defende que quando a teoria não está diretamente vinculada à práxis, essa relativa independência permite refleti-la mais adequadamente; entre outros exemplos cita O Capital de Marx, no qual o autor fez uma análise frutífera para os movimentos sociais opositores a esse sistema econômico, sem dar ênfase aos caminhos para se chegar a uma sociedade justa:

O pudor de Marx ante as receitas teóricas para a práxis mal foi menor que o de descrever positivamente uma sociedade sem classes. O Capital contém um sem-número de invectivas, em sua maior parte, aliás, dirigidas contra economistas e filósofos, mas nenhum programa de ação. (Adorno, 1969/1995, p. 228).

Como Adorno (1969/1995) indica, a questão da relação entre teoria e práxis é associada à da relação entre sujeito e objeto; esse último – o objeto - não pode ser apreendido diretamente e, além disso, o sujeito deve ser pensado em sua objetividade, em sua determinação; dessa forma, o conhecimento não é entendido como algo diretamente alcançável e, por isso, os métodos e as técnicas desenvolvidos pela ciência são importantes, desde que não se sobreponham ao objetivo da pesquisa: a delimitação do objeto deve determinar a escolha do método e não o inverso, pois, quando o objeto é adaptado ao método, a ênfase recai nas categorias formuladas pelo sujeito (representado pelo método) e não no próprio objeto. Assim, a ciência, para Adorno, não é desinteressada – tem fins políticos - e o conhecimento não é imediatamente apreensível, necessita de método, adequado ao objeto, mas produzido pelo sujeito em condições históricas determinadas.

A propósito, a discussão ainda intensa em nosso meio que contrapõe técnicas quantitativas a técnicas qualitativas não tem sentido para ele: os números e as relações entre eles expressam qualidades dos objetos. O objetivo do estudo deve ser o norte para a escolha de umas e/ou de outras técnicas: quando se pretende conhecer em detalhes a posição de indivíduos em relação a determinado tema, a entrevista, em geral, é mais adequada; quando se deseja estimar o quão generalizável é essa posição, as técnicas quantitativas são mais apropriadas. No estudo acerca da personalidade autoritária, seus autores fizeram entrevistas para ter elementos necessários à formulação de questões para as suas escalas; a partir dos resultados obtidos por meio da aplicação dessas escalas, entrevistaram sujeitos para o aprofundamento de suas respostas. Além disso, como, pela teoria, sabiam ter o fenômeno analisado uma dimensão inconsciente, utilizaram perguntas e testes projetivos para terem acesso a motivações ignoradas pelos próprios sujeitos.

O livro Dialética do esclarecimento, escrito em conjunto com Horkheimer (Horkheimer & Adorno, 1947/1985), sobretudo nos fragmentos acerca da indústria cultural e do anti-semitismo, contém análises importantes para a psicologia social, uma vez que se refere à configuração do indivíduo contemporâneo a partir da história de nossa civilização. Os elementos da teoria da pseudoformação já estão presentes, entre eles a mentalidade do ticket, que consiste em um pensamento em blocos: se o indivíduo for nacionalista, necessariamente também será anti-semita. Os objetos principais dos estudos contidos nessa obra não são somente o fascismo e o anti-semitismo, mas o que os gera: a transformação da sociedade liberal para a administrada, isto é, um sistema político fascista como conseqüência inevitável do capitalismo de monopólios, o que não os impediu de fazer uma teoria da dominação baseada na relação natureza-cultura, isto é, entender a dominação como algo transcendente à própria economia, ainda que, como salientado antes, se expresse também por ela. A dominação da natureza e dos próprios homens não é vista pelos autores como imanente aos homens, mas ao movimento social, representado pelo esclarecimento, e poderia desaparecer quando esse movimento atinge seus fins, mas não é isso que ocorre, segundo os autores:

Hoje, quando a utopia baconiana de 'imperar na prática sobre a natureza', se realizou numa escala telúrica, tornou-se manifesta a essência da coação que ele atribuía à natureza não dominada. Era a própria dominação. É à sua dissolução que pode agora proceder o saber em que Bacon vê a 'superioridade dos homens'. Mas, em face dessa possibilidade, o esclarecimento se converte, a serviço do presente, na total mistificação das massas. (Horkheimer & Adorno, 1947/1985, p. 52).

A relação entre a economia e a teoria da dominação também é exposta, por Adorno, em um texto tardio:

. . . la tendencia – hablo expresamente de tendencia – según la cual la sociedad actual, si sus formas políticas debieran adherirse de forma radical y por fuerza a las económicas, se dirige inmediatamente, en sentido pregnante, de forma metaeconómica, esto es, no ya por formas definidas mediante el mecanismo de intercambio clásico. No debería producirse entre nosotros controversia alguna sobre el hecho de que se den semejantes tendencias. Entonces el concepto de dominio alcanza nuevamente de facto una cierta preponderancia frente a los procesos puramente económicos. Desde el punto de vista estructural, parecen haberse producido o perfilarse, a través de un movimiento socioeconómico inmanente, formas que se salen a su vez del contexto de determinación de la pura dialéctica inmanente de la sociedad, y se independizan hasta un cierto grado, y en modo alguno para bien. (Adorno, 1969/2004, p. 541).

Como Adorno se refere à sociedade atual, pode-se inferir que essa dominação revela uma forma distinta da existente no passado, na qual os fatores econômicos seriam mais proeminentes. Assim, o fascismo não seria unicamente fruto do capitalismo dos monopólios, conforme dito antes, mas também de tendências sociais que abrigam forças com certo grau de independência da economia. Na continuação desse trecho, Adorno evoca a defesa feita por Hegel das corporações e da polícia para tornar a sociedade coesa, mas insiste que, em nosso tempo, essas forças não são para garantir uma sociedade racional. Essa discussão é importante por demarcar o objeto da psicologia social, principalmente no que diz respeito à ideologia como justificativa da dominação e aos mecanismos psíquicos presentes na adesão do indivíduo a ela, pois a coesão social é obtida também por meio da ideologia e desses mecanismos psíquicos; essa coesão social não age, necessariamente, como vimos, a favor dos interesses mais racionais dos indivíduos, mas contra eles.

Um fenômeno que evoca quer a ideologia quer os mecanismos psíquicos é a 'mentalidade do ticket'; tal como descrita antes, configura uma forma de categorização que associa superficialmente diversos elementos como parte de uma mesma pauta. Importante dizer que, para Adorno (1953/1969) e Horkheimer e Adorno (1947/1985), antes dos mecanismos psíquicos entrarem em ação, os dados já são preparados socialmente para serem captados dessa forma. Esse tipo de mentalidade é referendado mediante os dados obtidos pelas entrevistas no estudo acerca da personalidade autoritária. Em um capítulo assinado por Adorno, no qual analisou entrevistas, o autor diz da compreensão superficial dos sujeitos a respeito dos determinantes sociais, fossem eles politicamente conservadores ou liberais. A fragilidade da constituição do eu mais uma vez se revelava: os indivíduos são formados para a adaptação social. Numa palestra proferida em 1962, intitulada Para combater o anti-semitismo na atualidade, Adorno (1962/2005) relata que ao conversar na Alemanha com indivíduos anti-semitas, um deles lhe disse: "ayer éramos nazis, hoy somos americanos y mañana seremos comunistas" (p. 91); a conformidade com a tendência social predominante, seja ela qual for, ficou evidenciada.

A psicologia social, como afirmamos antes, não basta para compreender fenômenos como o fascismo. Ela não pode prescindir da Teoria da Sociedade. Essa última deve ter em vista o movimento histórico da sociedade e suas tendências. Voltamos a enfatizar, no entanto, que se a totalidade tem, para o autor, primazia sobre o particular, o entendimento desse não é dispensável para a luta política contra o totalitarismo, pois a constituição do indivíduo é mediada pela sociedade; o produto não é idêntico ao que o gerou, mesmo porque o indivíduo é um organismo configurado por um sistema e a sociedade representa esse sistema, cada vez mais autônomo em relação aos indivíduos. Digamos, então, algumas palavras sobre necessidades, que dizem respeito aos indivíduos, e sobre o movimento da sociedade.

Para Adorno (1942/2004b), não há como, na discussão sobre a necessidade, distinguir a natureza da cultura. Utiliza o exemplo da fome: poderíamos nos alimentar de insetos, mas desenvolvemos nojo em relação a esse tipo de alimento, e esse nojo desenvolvido revela muito da formação da cultura. Os alimentos por nós consumidos são aqueles que aprendemos a apreciar por diversos motivos. Se não é possível distinguir o que há de natureza e da cultura na necessidade, não podemos dizer se são falsas ou verdadeiras e tampouco estabelecer uma hierarquia entre elas. Elas se transformam historicamente; as existentes no momento são próprias e propícias ao capitalismo dos monopólios; a crítica a elas é crítica a esse sistema de produção e concentração de renda. Nesse sistema, as necessidades são tão alheias aos homens – artificiais e superficiais - que se tornam o oposto de necessidades, e por isso são coerentes com essa sociedade, por essa tornar o homem tão supérfluo quanto as mercadorias produzidas.

O capitalismo dos monopólios se caracteriza pela restrição ao mercado que, se nunca foi livre, torna-se menos livre ainda; a esfera da circulação encolhe, os trabalhadores tornam-se cada vez mais dispensáveis para a reprodução do capital; o proletariado, antes adversário do capital, torna-se seu aliado pela ideologia da integração. Mas essa aliança ocorre sob a ameaça da falta de emprego e é mantida pelos detentores do poder como um meio de evitar a rebelião; a criação de empregos desnecessários para a economia, aumentos de proventos e benfeitorias aos trabalhadores e a assistência social aos desempregados não são vistos, pelo autor, unicamente como fruto das lutas dos trabalhadores, mas como concessão do capital para se preservar:

. . . la clase dominante se ve tan radicalmente nutrida por el trabajo ajeno, que convierte con decisión en asunto propio su destino, tener que alimentar a los trabajadores, y asegura al 'esclavo la existencia en el seno de su esclavitud' para consolidar la propia. (Adorno, 1942/2004a, p. 359).

Os que dominam também são dominados pelo capital, não conseguem pensar para além dele, usam, no entanto, os mecanismos necessários para se manter no poder. A luta de classes continua a existir, mas agora a classe social dos que vinham de fora do sistema está integrada tanto quanto a classe por excelência do capitalismo a – burguesia, ainda que as posições sociais que ocupam ambas as classes continuem contraditórias. Não é função menos importante da ideologia tornar invisível tal contradição, como o fazia a ideologia liberal. A ideologia do capitalismo dos monopólios, no entanto, não é mais uma ideologia em seu sentido estrito: tornou-se mentira manifesta, percebida e simultaneamente negada por todos (ver Horkheimer & Adorno, 1956/1978c). Esse precisamente é um dos objetos da psicologia social delimitado por Adorno: uma consciência contraditória:

Por trabajos realizados en el Instituto de Investigaciones Sociales, que lamentablemente no hemos podido desarrollar lo suficiente, tenemos algunos indicios de que se produce una curiosa dualidad. Por un lado, los individuos son obedientes a los mecanismos de personalización, tal como son ejercidos por la industria de la cultura (recuerdo los roles de Soraya y Beatriz); pero, por otro lado, si uno escarba sólo un poco (y no se necesita ningún 'cuestionario profundo' para ello; se puede comprobar muy fácilmente), se percata de que los individuos saben, en realidad, que lo importante no pasa por la princesa Beatriz y la señora Soraya, o quien sea. Si esto es realmente así, si los individuos, de hecho, están capturados, pero al mismo tiempo no lo están, es decir, si lo que aquí se produce es una conciencia duplicada y contradictoria en sí misma, entonces el necesario esclarecimiento social podría, por ejemplo, frente al fenómeno de la personalización (que, obviamente, es sólo un fenómeno parcial dentro de un contexto mucho más amplio), basarse en este hecho y esclarecer con éxito a los individuos acerca de que aquello que se machaca en la sociedad como lo esencial (por ejemplo, las 'images' de los políticos) no posee ni lejanamente la relevancia que se le pretende dar. Pueden ver entonces que resulta esencial para una sociología crítica la posibilidad de un análisis psicológico-social, y que, por las razones que les he mencionado, no puede dejarse de lado la psicología social. (Adorno, 1968/1996, p. 200).

Desse longo trecho, verifica-se mais uma vez a importância dada por Adorno ao esclarecimento e à necessidade da psicologia social. Mais do que isso, indica, com clareza, um de seus objetos: a consciência duplicada e contraditória, tão contraditória quanto é o próprio esclarecimento. A ideologia como mentira manifesta também pode ser inferida desse trecho: os indivíduos percebem a sedução da dominação, no caso, expressa pela personalização, mas não resistem a ela. A questão assim não é dar somente ênfase ao conteúdo ideológico incorporado, mas à contradição desse conteúdo com a percepção do indivíduo acerca de sua falsidade; mais precisamente, caberia saber por que o indivíduo atua irracionalmente sabendo que o faz.

No texto Indústria cultural, a referência a essa consciência contraditória também aparece. Horkheimer e Adorno (1947/1985) argumentam que aquela que assiste um espetáculo sabe que nunca será uma starlet, no entanto se identifica com ela; sabe que isso não lhe ocorrerá, contudo, não deixa de sonhar e apoiar a máquina de sonhos, impossíveis de serem realizados nesta sociedade. No estudo sobre o horóscopo, novamente, a irracionalidade coexistente com a racionalidade se faz presente: pessoas racionais não resistem a ler as pequenas tiras do jornal, mesmo tendo a consciência que o destino dos homens não possa ser previsto pelo movimento dos doze signos e suas relações.

No estudo acerca da personalidade autoritária é esse novo homem que está em questão: aquele cuja racionalidade não contrasta mais com a superstição, ao contrário, convive com ela, necessita dela. No prefácio feito ao livro de Adorno et al. (1950/1965), Horkheimer enuncia:

El tema central de la obra es un concepto relativamente nuevo: la aparición de una especie 'antropológica' que denominamos el tipo humano autoritario. A diferencia del fanático de otrora, parece combinar las ideas y la experiencia típicas de una sociedad sobremanera industrializada con ciertas creencias irracionales o antirracionales. Es, a un mismo tiempo, un ser ilustrado y supersticioso, orgulloso de su individualismo y constantemente temeroso de ser diferente a los demás, celoso de su independencia y proclive a someterse ciegamente al poder y a la autoridad. (1950/1965, p. 19).

Se a razão se desenvolveu para termos a compreensão das ameaças existentes e fazer frente a elas para sermos donos de nosso destino, a sociedade administrada nos reduziu à impotência de termos de seguir regras nem sempre racionais, mesmo porque existem para reproduzir um sistema social, cuja estrutura é anacrônica. Se não é possível mais, por meio da razão, conseguir desenvolver projetos e realizá-los, resta (de forma imaginária e desesperada) apelarmos para outras forças.

A fragilidade do indivíduo pode ser compensada pela adesão a uma ilusão coletiva representada por um líder e/ou ideal, tal como descreveu Freud (1921/1993). O sentimento de onipotência gerado por fazer parte de um grupo, que se julga perseguido, e que supostamente detém a verdade, compensa a percepção da própria fragilidade. A ferida narcísica serve ao narcisismo coletivo. Naqueles que são ressentidos, nasce a 'opinião não-pública', mantida em sigilo, por meio das diversas seitas e organizações clandestinas, até o momento de ocupar o poder, quando a loucura coletiva se preserva pela racionalidade que não se volta para os fins, mas somente para os meios. O outro lado disso é que até o prazer e a felicidade são transformados em meio: as relações sexuais são hoje defendidas, pois servem para beneficiar a saúde e o desempenho no trabalho.

O papel da autoridade, mais propriamente do autoritarismo, na formação desse indivíduo, que age racionalmente no convívio social, mas pensa irracionalmente no que conduziu à desgraça de sua vida e atua irracionalmente no tocante a seus interesses e desejos, é explicado de forma aparentemente contraditória nos textos de Adorno. Ora no texto Família, escrito em conjunto com Horkheimer (Horkheimer & Adorno, 1956/1978a), é a 'ausência' da autoridade a responsável pela adesão dos filhos ao líder que ocupa o lugar da autoridade; ora no trabalho acerca da personalidade autoritária, pais autoritários geram filhos autoritários. Nessa última explicação, o ódio contra a autoridade, dado pela repressão dos desejos, dificultaria a formação da consciência e seria deslocado do pai para minorias socialmente designadas; parte do ódio ao pai não pode ser dirigido a ele e se transforma em subserviência; assim, sob a obediência, encontra-se também o desejo de destruição; é o que também notaram, nesse estudo sobre a personalidade autoritária, acerca dos pseudoconservadores: esses só aparentemente pensavam em conservar o status-quo, seu verdadeiro desejo era a destruição do que foi estabelecido. Na outra explicação, os autores enunciam que se a autoridade havia sido enfraquecida, a necessidade de autoridade não. Nos dois casos, a heteronomia é o resultado, e, assim, como Freud (1921/1993) descreveu, os que representam os desejos do indivíduo e aparentam mais força para realizá-los conseguem a sua adesão.

Além de propenso ao autoritarismo, o homem contemporâneo é dotado de frieza, quase não é mais capaz de identificação, de amar o outro, de ter experiências. Essas características são atribuídas pelo autor também à fragilidade da formação do eu, devida, por sua vez, quer à organização racional da sociedade que pode prescindir do pensamento individual, quer à ameaça existente de ser deixado de lado, caso não se siga o que todos seguem. O comportamento cada vez mais padronizado dos indivíduos, o que não deixa de ser fruto da superficialidade com a qual se desenvolvem, é, como assinalado antes, o objeto novo, o qual Adorno defende seja estudado pela Psicologia Social.

Conhecedor e admirador do livro de Freud (1921/1993), Psicologia das massas e análise do eu, Adorno (1955/2004) admite problemas na expressão psicologia social, mas pergunta se frente a esse novo objeto ela não faria sentido:

Mientras que no haya que hipostasiar ninguna conciencia o inconsciencia colectiva; mientras que los conflictos ocurran, por así decir, sin ventanas en los individuos y resulten derivables nominalís-ticamente de su economía pulsional individual, tienen idéntica forma en innumerables individuos. Por eso no es tan desacertado el concepto de psicología social como hace presuponer él término mal construido y usado abusivamente. (p. 80).

A psicologia social deve estudar o ego, entendido como produto das pulsões individuais e da sociedade, ou melhor, deve entender a sua fragilidade ou sua resistência:

Si los procesos de integración, según parece, se limitan a debilitar el yo hasta um valor límite, o si, como en el pasado, los procesos de integración pueden seguir fortaleciendo, o hacerlo de forma renovada, al yo, es una cuestión que hasta el momento no se ha planteado con la suficiente precisión. De esta cuestión debería hacerse cargo una psicología social que penetre en el núcleo social de la psicología, que no le añada un miserable suplemento de conceptos sociológicos; y la podría resolver teniendo en cuenta a los sujetos. (Adorno, 1966/2004, p. 85).

A proposta de a psicologia social se voltar ao estudo da resistência ou integração do eu à sociedade não se reduz ao estudo dos indivíduos em grupos e nem tampouco ao estudo do efeito desses sobre o indivíduo, mesmo porque os grupos também são mediados socialmente. Em seu texto Organização e indivíduo, Adorno (1953/2004) apresenta algumas contradições dos grupos organizados em instituições. A organização tende a uma crescente racionalidade formal e a entender os seus membros – os indivíduos – como ferramentas; isso é intrínseco a elas. Os empregados das organizações tendem a se tornar burocratas, mas isso não é somente desumanizador, posto que com o formalismo das regras – 'nada é pessoal' – tenta se lutar contra a arbitrariedade, contra a injustiça imediata do antigo senhorio que fazia e executava as leis; a questão é que no intuito de se obter a justiça formal, a tentativa que todos sejam satisfeitos não avança. O problema da racionalidade das organizações é que elas se tornam fins em si mesmos e não meios para cumprir os objetivos humanos. Essa racionalidade abstrata, que também constitui os indivíduos, os torna em meios, impedindo-os de pensar para além do existente. Caberia à Psicologia Social estudar essa racionalidade nos indivíduos, o que resiste a ela e a irracionalidade que surge como contraponto, uma vez que tal racionalidade é limitada.

É importante insistir que, para Adorno (1955/2004), a psicologia social, de base psicanalítica, não se confunde com a psicanálise e nem pode, por si só, compreender o objeto: precisa estar unida a uma teoria da sociedade. O objeto novo, conforme foi delineado atrás, tem uma clara relação com a diminuição do espaço psíquico, esse se expressa como irracionalidade mancomunada com os controles sociais. Tipos como o sadomasoquismo e o narcisismo são determinados também pela irracionalidade social, ao mesmo tempo em que contribuem com a reprodução desta sociedade.

De suas críticas a Freud e aos neofreudianos (ver Adorno, 1955/2004), percebe-se que não se trata de uma nova divisão entre as ciências, mas da superação dos limites dos estudos da relação entre indivíduo e cultura. A Freud crítica que não tira as conseqüências de sua análise social e assim auxilia a ocultar o que contribui com o sofrimento humano; além disso, diz que o pai da psicanálise não deu atenção às determinações sociais do eu. Aos neofreudianos, crítica a aproximação apressada que fazem entre o indivíduo e a sociedade. Das duas críticas, resta que deveríamos, sem renunciar ao conhecimento psicanalítico, entendermos o indivíduo não somente pelas pulsões e seus descaminhos, mas também pelos objetos a elas associados e o quanto esses as conduzem para a adaptação social. Um exemplo disso é o como o ressentimento e o ódio subjacente a ele são deslocados pela cultura para minorias sociais, desviando assim das reais determinações desses sentimentos. Outro exemplo é o deslocamento do entendimento do sujeito, acerca de sua desgraça, das forças sociais para forças ocultas.

Mas se Freud e a psicanálise foram criticados por Adorno por seu ímpeto de adaptar o indivíduo à sociedade, a psicanálise que se pretende filosófica e social destrona o princípio de realidade e o substitui pelo tempo lógico atribuído ao sujeito. Ao fazer isso, retira a possibilidade de crítica à própria realidade: o sujeito gira em torno de si, ou melhor, em torno do nada. A crítica de Adorno (1955/2004) à própria terapia psicológica era a de que não se pode tratar entre quatro paredes o que é gerado socialmente, ou melhor, isso é possível, mas para melhor conformar os indivíduos: esses terão clara noção das armadilhas que fazem para si próprios, mas estarão mais alheios ainda da fonte de sua desgraça.

Certamente Adorno escreveu em outro tempo e em outros lugares, mas a regressão individual como fruto do avanço da sociedade da administração prossegue. O capitalismo dos monopólios continua a concentrar renda e a liquidar não com o trabalho, mas com o trabalhador, haja vista as diversas formas de tentativas de ocultar a precarização do emprego: terceirização, organizações não governamentais, cooperativas, associações; o trabalhador torna-se mais autônomo, continuando a trabalhar para o capital, mas agora sem os direitos trabalhistas obtidos anteriormente. Os indivíduos não estão menos regredidos, nem menos pseudoformados do que outrora, ao contrário, há de se temer, no presente, a assistência que precisemos de qualquer profissional, que faz de tudo para atribuir a responsabilidade de seu insucesso a outrem. A idéia de que o destino se muda com a sorte está cada vez mais forte: além das loterias oficiais, os sorteios prosperam. As novas necessidades criadas: internet, celular, realizam a expressão freudiana 'Deus de prótese', permitindo a ilusão de que a comunicação é continua e segura; mas é difícil falar de continuidade, quando a linguagem é corrompida pela possibilidade de expressão reduzida desses aparelhos. Assim, continua a existir o objeto que Adorno descreveu e também a necessidade de uma psicologia social que descreva os mecanismos psíquicos manipulados pelos interesses sociais mais fortes e que permitem o prosseguimento do fascismo.

Em síntese, para Adorno, a psicologia social deve ter como objeto os comportamentos, sentimentos e pensamentos restringidos e contraditórios que expressam um ego frágil, pouco desenvolvido e facilmente cooptado por um sistema totalitário; seus métodos devem ser os mais avançados desenvolvidos pela ciência. Diferencia-se de outras concepções de Psicologia Social por destacar a importância dos indivíduos nos fenômenos de massas, tal como Freud o fez, mas distinto desse, propõe entendê-los por meio da mediação social e não como tipos de estruturas psíquicas prévias, tal como alguns sucessores de Freud ainda insistem em fazer.

 

Referências

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Recebido: 22/11/2007
1ª revisão: 29/03/2008
Aceite final: 02/04/2008

 

 

José Leon Crochík possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado em Psicologia Social, doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e livre-docência em Psicologia pela USP. Atualmente, é professor titular do Instituto de Psicologia da USP. Endereço para correspondência: Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, Av. Prof. Mello Moraes, 1721, Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508-030. jlchna@usp.br