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Psicologia & Sociedade

versão impressa ISSN 0102-7182versão On-line ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.21 no.1 Florianópolis jan./abr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822009000100002 

Experiência, memória e sofrimento em narrativas autobiográficas de mulheres

 

Experience, memory and suffering of women in autobiography narratives

 

 

Thaís Oliveira BrandãoI; Idilva Maria Pires GermandoII

IUniversidade de Santiago de Compostela, Santiago de Compostela, Espanha
IIUniversidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil

 

 


RESUMO

Esta pesquisa analisa as narrativas autobiográficas de três mulheres de uma comunidade pobre próxima a Fortaleza que se formou a partir de mutirão. O objetivo é compreender o modo como produzem sentido sobre si mediante a construção de enredos. As autobiografias são estudadas em seus elementos referenciais ("o que" elas contam), textuais ("como" elas contam) e performativos (o que as narradoras "fazem" ao contar para outra pessoa sua história). No aspecto referencial, as histórias comunicam a trajetória de sofrimento precoce e contínuo associada às condições de classe social (pobreza e trabalho precarizado), de gênero (vulnerabilidade da mulher, especialmente na relação conjugal) e questões geracionais (a difícil educação dos filhos). Em termos textuais, as histórias tendem a explorar os momentos regressivos (Gergen & Gergen, 1986). No aspecto performativo, as narradoras fazem uso terapêutico da entrevista, solicitando apoio e reivindicando retoricamente uma imagem positiva de si a partir da polaridade "frágil-forte".

Palavras-chave: narrativas autobiográficas; histórias de vida de mulheres; vulnerabilidade social; psicologia narrativa.


ABSTRACT

This paper discusses the autobiographical narratives of three women of a poor community in the outskirts of Fortaleza (Ceará, Brazil). The main purpose is to understand the way the informants create meaning about themselves by connecting the episodes of their lives into a plot. The stories are analyzed in their referential ("what" they tell), textual ("how" they tell) and performative (what they "do" when they tell stories to a listener) elements. As to the referential dimension, they convey a trajectory of continuous and precocious suffering associated to social class (poverty and unstable jobs), gender (female vulnerability especially in marital relationship) and generational issues (the hardship of educating children in their milieu). Textually the stories particularly explore regressive form (Gergen & Gergen, 1986). In terms of performance the informants make a therapeutic use of the interview, asking for help and rhetorically claiming a positive image of themselves derived from a "frail-strong" polarity.

Keywords: autobiographies; life stories of women; social vulnerability; narrative psychology


 

 

A abordagem da Psicologia Narrativa: fundamentos e particularidades teórico-metodológicas

A estrutura, os procedimentos e funções dos discursos têm sido objeto de atenção de várias psicologias de base construtivista e construcionista social, cujo foco repousa sobre a "linguagem em uso". Entre os vários tipos de discursos (tais como a conversação, a argumentação, a descrição e uma multiplicidade de espécies e subtipos que abrangem), as narrativas têm recebido particular atenção de pensadores de vários campos de estudo que compartilham a noção de que as narrativas configuram princípio organizador da ação humana (Bruner, 1994, 1997, 1998; Polkinghorne, 1988; Ricoeur, 1994, 1996; Sarbin, 1986).

A definição de narrativa não é simples, ganhando diferentes acepções conforme se adotam diferentes paradigmas e molduras teóricas nas várias disciplinas que a investigam. Na visão dos estudos psicológicos oriundos da virada discursiva e narrativa, as narrativas são compreendidas como uma modalidade ou ordem de discurso (sendo o discurso a categoria mais geral de produção linguística) que goza de um estatuto especial: o de "um parâmetro lingüístico, psicológico, cultural e filosófico fundamental para nossa tentativa de explicar a natureza e as condições de nossa existência" (Brockmeier & Harré, 2003, p. 526)1. Segundo Bruner (1997), o pensamento e o texto narrativo apresentam características que permitem aos seres humanos lidar com a heterogeneidade dos mundos sociais e da experiência temporal: sequencialidade (a narrativa é composta por eventos que se sucedem no tempo); indiferença da história à realidade extralinguística (a narrativa pode tratar de eventos factuais ou imaginários); capacidade de ligar o excepcional e o comum ou canônico (a narrativa permite compreender eventuais fugas às normas usuais); qualidade dramática (a narrativa envolve atores, ações, metas, cenários, instrumentos e problemas de legitimidade, de modo a assumir uma qualidade moral); "paisagem dual" (a narrativa trata simultaneamente de ações num plano exterior e no mental, ou seja, no âmbito da consciência das personagens). A onipresença das histórias nas culturas humanas e sua crucial importância na estruturação e coordenação da experiência de indivíduos e coletividades as colocam no centro do interesse das psicologias de linhagem hermenêutica.

A partir de uma cosmovisão contextualista, abraçada pelas ciências humanas em resposta a posições empiricistas estreitas, Sarbin (1986) propõe que a Psicologia adote a narrativa como metáfora de base (root-metaphor), uma vez que ela é capaz de alargar o campo das suas problemáticas e de recuperar o negligenciado universo dos estados intencionais e dos saberes e práticas do senso comum. Para o autor, "os seres humanos pensam, percebem, imaginam e fazem escolhas morais de acordo com estruturas narrativas" (p.8). Para acessar o modo como as pessoas tornam inteligível seu mundo social (incluindo a si mesmas), a narrativa parece mais promissora como modelo geral de compreensão dos fenômenos psicossociais. Sob o princípio narrativo, portanto, recuperam-se questões sobre a natureza e o funcionamento da mente que não tinham "lugar" numa psicologia objetivista, concentrada com o "processamento de informações". Nesse sentido, Bruner (1997) esclarece o caminho a ser percorrido por uma Psicologia atenta à cultura e à história: o retorno à psicologia popular de que nos valemos diariamente para compreender o mundo. Como distingue Bruner, o pensamento empregado na maior parte das situações da vida é de tipo narrativo, e não "paradigmático" ou "lógico". Isto é, recorremos a histórias para organizar de modo verossímil o fluxo caótico de elementos que fazem a nossa experiência social, histórica e cultural. Uma ciência psicológica que despreza os estados intencionais, as motivações e razões dos atores e o mundo simbólico fornecido pelo contexto cultural, não consegue nem mesmo fazer as perguntas significativas que orientam muitos dos comportamentos humanos e que são o principal objeto da teoria e da prática psicológicas.

Deste ponto de vista, a narrativa refere-se não apenas ao produto de uma narração cuja estrutura geralmente é formada por uma sequência temporal com começo, meio e fim, mas a um princípio organizador do pensamento e da ação humanos. Para a Psicologia Narrativa, os seres humanos lidam com a mudança temporal por meio da elaboração de enredos ou intrigas que fornecem articulação e mínima coerência aos muitos episódios testemunhados e protagonizados pelos atores sociais. A narrativa é

o nome para um conjunto de estruturas lingüísticas e psicológicas transmitidas cultural e historicamente, delimitadas pelo nível do domínio de cada indivíduo e pela combinação de técnicas sócio-comunicativas e habilidades lingüísticas ... - e, de forma não menos importante, por características pessoais como curiosidade, paixão e, por vezes, obsessão. Ao comunicar algo sobre um evento da vida - uma situação complicada, uma intenção, um sonho, uma doença, um estado de angústia - a comunicação geralmente assume a forma da narrativa, ou seja, apresenta-se uma estória contada de acordo com certas convenções. (Brockmeier & Harré, 2003, p. 526).

Sendo as narrativas criações que servem como elementos prévios de semantização (os contos de fadas, as fábulas, lendas, os romances, as biografias familiares, histórias nacionais etc.), elas funcionam como modelos para as narrativas individuais e coletivas, fornecendo não somente formas prototípicas (como a tragédia, o melodrama, o romance), mas um acervo de padrões canônicos de bondade, justiça, beleza e outros valores (e seus contrários). Crescemos e socializamo-nos a partir dos repertórios narrativos de nossa cultura e, instados a compreender situações que fogem de um padrão esperado ou que apresentam algum tipo de problema de interpretação, recorremos novamente a narrativas, isto é, a uma intriga alternativa, em busca de urdir-lhe um sentido.

Mesmo quando se trata de dar forma à experiência de si (self), a narrativa impõe sua estrutura: quem eu sou é largamente dependente da forma de enredo que eu construo e do contexto discursivo específico em que se dá a comunicação. No plano textual, tenho que escolher os principais cenários, atores, ações, motivações, metas e obstáculos que fazem parte da minha trajetória, articulando-os de modo que faça sentido para meu interlocutor e para mim mesmo. E quem me ouve também define a minha história, uma vez que é para meu ouvinte que eu conto determinada história, com aquela intriga, aquela avaliação moral, com aqueles detalhes. Na situação comunicativa, os gestos, falas e olhares do outro orientam o fluxo e o sentido da minha narração, seja para contestar, persuadir, buscar empatia, justificar-me. Na perspectiva narrativista, de tal forma torna-se flexível e mutante a noção do "si-mesmo" que alguns autores falam em "self distributivo" ou mesmo em múltiplos selves construídos a cada situação comunicativa (Bruner, 1997)2.

Especialmente a partir dos anos 70 do século XX, na esteira da virada linguística, verifica-se um crescimento contínuo de pesquisas sobre narrativas nas humanidades, incluindo a Psicologia. A narrativa ocupa um lugar especial nos estudos psicossociais, não somente como "objeto de investigação", mas como proposta paradigmática alternativa, contribuindo para repensar a natureza da linguagem, do conhecimento (científico e cotidiano), da realidade (tanto "social" e "cultural" quanto "natural" e "física") e também para elaborar novos enfoques teórico-metodológicos aos fenômenos tradicionalmente investigados nas disciplinas psicológicas.

A Psicologia Social contemporânea, sensível ao papel constitutivo da linguagem na interpretação e recriação da realidade social, dirige particular atenção às práticas de produção de sentido, a partir de investigações de matiz interpretativo e não objetivista. O trabalho do psicólogo narrativista aproxima-se mais do trabalho de crítica textual ou de tradução em que o intérprete deve conhecer os usos da cultura de onde um texto emerge, e não somente o vocabulário de uma língua. O estatuto de tal interpretação, portanto, é uma espécie de tradução, ou "interpretação de segunda mão", como sugere Geertz (1989, p. 25).

Nessa perspectiva, a ação de relatar é tão importante quanto o relato em si. O contexto da ação discursiva e do trabalho retórico das palavras e gestos torna-se fundamental para entender a autocompreensão e a produção de sentido sobre o mundo que operam nas narrativas autobiográficas. Na definição de Davies e Harré, citados por Pinheiro (1999, p.186), práticas discursivas são "as diferentes maneiras em que as pessoas, através dos discursos, ativamente produzem realidades psicológicas e sociais". Atribuir sentido à própria vida mediante narração é justamente criar discursivamente essa realidade, reivindicando certa imagem de si e provocando um conjunto de efeitos sobre si e sobre os outros com quem se convive. Quem eu digo ser orienta a minha ação e é capaz de orientar a ação alheia.

A abordagem narrativa da experiência de si envolve a consideração de matiz relativista de que o conhecimento que as pessoas constroem sobre si mesmas é produzido de forma negociada e dependente dos contextos de interação social. Nesse sentido, a concepção de self desloca-se de uma visão essencialista, profunda, individualista, estável e autêntica - derivada das heranças românticas e modernas da Psicologia - para uma concepção que enfatiza a dimensão contingente, mutável, transacional e múltipla do conhecimento de si. Nesse sentido, autores construtivistas sociais e construcionistas sociais - adotando aqui as variações dessas perspectivas discutidas por Grandesso (2000), Rasera, Guanaes e Japur (2004) e Rasera e Japur (2007) - compartilham a preocupação com as condições sócio-históricas e culturais envolvidas na descrição do self , que tornam situados e variáveis os vocabulários e sentidos sobre o "eu" , conforme as comunidades de falantes. Podem também compartilhar um interesse pela pragmática da narração de si, que implica modos convencionais de falar de si que sustentam ou impedem certas ações num contexto conversacional (Gergen & Gergen, 1986; Harré, 1998). De uma maneira ou de outra, a perspectiva discursiva procura observar a dimensão relacional, linguística e retórica embutida no senso de unicidade, singularidade e continuidade pessoal. Desse modo, o conhecimento de si está intricado nas convenções da narração biográfica partilhadas culturalmente (e.g., as formas gramaticais, como pronomes e tempos verbais, os gêneros narrativos canônicos, estruturas ou linhas de enredo, modalidades retóricas, entre outras) e circunscrito às condições da interação: audiência, contexto da interação e interesses dos interlocutores3. Como afirma Harré:

Uma autobiografia não é apenas uma história, minha história, contada para algum ouvinte ou leitor genérico e anônimo. A história escrita é apenas uma das autobiografias que uma pessoa de fato contou ou poderia ter construído. A pesquisa em narração autobiográfica no cotidiano revela como a qualidade, o valor, o detalhe e o arranjo dos episódios recontados dependem da pessoa para quem a história é contada, do contexto da narração e do objetivo do narrador no momento de contá-la. (1998, p.143. Tradução nossa).

De uma perspectiva discursiva, o passado efetivo de uma pessoa não é o que aconteceu a ela, mas "qual fragmento da autobiografia é destacado a certa encruzilhada da vida" (Harré, 1998, p. 146). Como a vida é vivida e contada na interação social, o relato autobiográfico, como qualquer trabalho da memória, é basicamente de natureza social e dialógica. Com efeito, o conceito de memória que subjaz as pesquisas autobiográficas de matiz narrativista-discursivo - e que ampara este trabalho - foge das tradicionais metáforas de "arquivo pessoal" ou "depósito" e aproxima-se da visão processual, construtiva e discursiva dos processos de lembrança e esquecimento. Ao invés de comprender a memória como capacidade individual de guardar informações, ela passa a ser abordada como tessitura semiótica, envolvendo os modos como as pessoas configuram e comunicam suas experiências num contexto sociocultural e histórico. Nesse sentido, a memória é processo dinâmico e contínuo de construção e reconstrução do tempo, que envolve o trabalho de interpretação e imaginação (Brockmeier, 2002). Tal posição implica abandonar a crença numa ontologia objetivista no tempo, substituindo-a por uma concepção relativista e relacional.

A forma narrativa é o discurso capaz de modelar as mais complexas construções humanas relativas ao tempo, entre as quais se incluem as "sínteses temporais" que as pessoas criam para dar dar sentido às suas vidas e à diversidade de suas experiências presentes, passadas e futuras no curso de sua existência (Brockmeier, 2001). De uma perspectiva cultural-histórica, as lembranças individuais são parte de um discurso cultural abrangente, em que as práticas narrativas desempenham papel central, uma vez que integram e combinam várias modalidades de tempo e sistemas simbólicos, além de incluírem versões subjuntivas do tempo, o mundo dos processos naturais e culturais, além dos mundos possíveis e imaginados (Brockmeier, 2002). Desta perspectiva, trata-se de considerar tanto as funções sociais da memória como a rede cultural em que está integrada.

Metodologicamente, os efeitos dos contextos comunicativos alertam para a importância que o analista deve conferir à situação de interlocução, ao interpretar uma narrativa. A interpretação exige reconhecer que o sentido que os narradores dão às suas experiências, às suas relações com os outros e com o mundo é mediado pela presença ativa de interlocutores que, mesmo silenciosamente, podem desempenhar o papel de coautores do que está sendo narrado.

É na perspectiva da psicologia narrativa que procuramos examinar as autobiografias de três mulheres de uma comunidade de baixa renda no município de Messejana (Ceará). Nossa intenção é explorar os vínculos entre experiência, narrativa, memória e consciência de si, tais como se apresentam nos enredos construídos por essas mulheres em situação de entrevista.

Os objetivos do estudo prendem-se à análise e à interpretação das narrativas de vida contadas por mulheres do local, de modo a observar o modo como dão forma aos eventos que protagonizaram ou dos quais tomaram conhecimento e que julgam mais dignos de menção ou mais adequados à expressão de si. A investigação parte da compreensão de que o próprio ato de narrar constrói o sentido das histórias, não se reduzindo a "representar" eventos vividos4. Diante de sua entrevistadora, a narradora opera para reconstruir sua vida como lhe parece apropriado e como deseja ser compreendida. Nessa interação, a narradora estrutura sua narrativa, ocasião especial de elaboração do vivido. A história autobiográfica mostra-se uma expressão simultaneamente singular e coletiva, experiência íntima e social. Nesse sentido, ela remete aos problemas do discurso, em particular às suas condições de produção, dado que o falante ocupa certo tempo histórico e certo contexto sociocultural, e esses "lugares" condicionam a sua atividade discursiva.

 

Autobiografias no contexto de Entrevistas Narrativas: os relatos das mulheres da comunidade Maria da Paz

Este estudo parte do pressuposto de que a forma narrativa fornece a estrutura ou arcabouço que permite a pessoa conferir sentido às experiências pessoais e coletivas, incluindo a ideia que faz sobre si mesma ao longo da vida. As narrativas ordenam o vivido, construindo as regras que organizam a memória do passado e orientam a consciência atual do narrador e a sua ação futura.

Numa proposta sistemática de abordar narrativas com fins de pesquisa social, foi difundida nas últimas décadas a técnica da Entrevista Narrativa (E.N.), sistematizada por Schütze (1992a, 1992b), que busca reconstruir a dinâmica interação entre processos biográficos individuais e mecanismos coletivos. A técnica pretende ser um "procedimento analítico-processual que permite uma idéia da gênese do curso de eventos sociais e registra a realidade social da perspectiva de sujeitos ativos e em sofrimento" (Apitzsch & Siouti, 2007). Seu objetivo é revelar estruturas de processos pessoais e sociais da ação e sofrimento, como também possíveis recursos de enfrentamento e mudança. Entre as indicações preferenciais para o uso da técnica, encontram-se "projetos que combinem histórias de vida e contextos sócio-históricos. Histórias pessoais expressam contextos societais e históricos mais amplos, e as narrativas produzidas pelos indivíduos são também constitutivas de fenômenos sócio-históricos específicos, nas quais as biografias se enraízam". (Jovchelovitch & Bauer, 2000, p.104)

A escolha dessa técnica, utilizada aqui de forma adaptada aos propósitos de abordar as experiências de mulheres da comunidade escolhida, justifica-se por seu poder em gerar histórias, e não respostas isoladas a um conjunto de perguntas do entrevistador, como usualmente ocorre em entrevistas. A E.N. encoraja o entrevistado a contar espontaneamente algum acontecimento importante de sua vida ou mesmo toda a sua história, até que ele mesmo indique que finalizou sua narrativa ("coda"). Segundo Schütze (1992a, 1992b), nesta primeira narração, evitam-se as interrupções que possam conduzir o narrador em seu processo de criação do enredo, de modo a acompanhar a versão livre ou improvisada de seu relato. A principal ideia é que se possa gerar uma história que não seja estruturada por questões propostas pelo entrevistador, mas pelo que o narrador julgou relevante contar ao seu interlocutor. As perguntas "por que" no início poderiam ocultar ou impedir um esquema narrativo espontâneo e gerar posições de explicação, argumentação e legitimação (Apitzsch & Siouti, 2007). Como afirmam as autoras, tal estratégia não implica a crença na "objetividade" dos dados, pois faz parte do método a estreita aliança entre pesquisador e entrevistado e a consideração dos interesses e perspectivas das partes e dos efeitos do setting em que se encontram e que é produzido pelos participantes durante a interação social. Schütze supõe que a forma narrativa suscitada por essa posição inicial do entrevistador (diferentemente do modelo pergunta-resposta) age como um gatilho para que a pessoa organize o seu relato primariamente pelo conteúdo e estrutura da sua experiência (isto é, tal como lhe parece pertinente para se fazer compreender por seu ouvinte) e secundariamente por elementos da situação de interação5. Neste trabalho, a técnica foi utilizada basicamente como geradora de histórias, não tendo sido aplicado o método original de análise dos relatos proposto por Schütze.

A situação encorajadora inicial pode ser a sugestão de um tema ou mesmo uma pergunta geral, como a que usamos neste trabalho: "Gostaria de conhecer um pouco da sua vida. Se você pudesse me contar a história da sua vida, por onde começaria?". Após a primeira narração, desliga-se o gravador e perguntas são endereçadas ao entrevistado visando esclarecimentos sobre o conteúdo relatado, especialmente alusões, ambiguidades, lacunas e passagens inverossímeis. Em seguida, fazem-se perguntas de cunho descritivo sobre situações, pessoas, hábitos, instituições e outros elementos suscitados no relato do informante. Por fim, o pesquisador faz perguntas teóricas sobre a forma de pensar do narrador. Ao longo de todo o relato as pistas sobre como o informante teoriza acerca do mundo e de suas próprias ações figuram usualmente nos comentários argumentativos, isto é, enunciados que não são indexados, mas que veiculam o universo simbólico do ator social (valores, juízos, generalizações, teorias, códigos ideológicos etc.). Nesse momento ainda se podem abordar as razões porque os episódios aconteceram do modo como o narrador contou ou por que o narrador tomou as decisões que tomou.

Em nosso estudo, após o contato inicial com a líder da comunidade, foram selecionadas três informantes voluntárias para participar da pesquisa. A escolha das participantes foi realizada por indicação, uma levando à outra, de modo que elas mesmas confeccionaram o mapa de visitas e das relações sócio-afetivas do lugar.

A primeira narradora (F.) tem 48 anos e três filhos, é dona-de-casa e mora com o pai de seus filhos. Atualmente o companheiro está desempregado e sua situação financeira é muito precária, contribuindo para a baixa qualidade de vida da família desde que foram morar na comunidade há nove anos.

A segunda narradora (M.) tem 32 anos e cinco filhos. Mora na comunidade numa casa construída e mantida pelo marido, com quem mora desde que saiu da casa dos pais. O marido está empregado e ela nunca trabalhou fora.

A terceira narradora (L.) tem 31 anos e é mãe de sete filhos. Mora também com o marido na comunidade desde a época da construção das casas em sistema de mutirão. O marido trabalha como pedreiro e ela trabalha como faxineira quando há serviço nas "casas de família" da vizinhança.

As entrevistas transcritas foram analisadas em seus aspectos referenciais (conteúdo) e textuais (estrutura), de modo a observar os temas mais significativos nas trajetórias de vida estudadas, bem como a forma como são construídos os enredos, isto é, como essas mulheres ordenam e explicam os episódios e acontecimentos da sua vida ao longo da narrativa. A análise conduzida abarcou elementos usualmente estudados em narratologia - personagens, espaço, tempo, núcleos, funções e lógica narrativas - que mereceram atenção particular nas histórias contadas. Considerando também as questões já apresentadas sobre os efeitos da interação entre o falante e o ouvinte, também foram observados os sentidos condicionados pela situação de entrevista.

De forma esquemática, os procedimentos adotados na análise dos dados foram:

1. Transcrição das Entrevistas Narrativas e separação do material indexado (que trata de informações com referência concreta: quem fez o quê, quando, onde e por que) e não indexado (descrições e argumentos)

2. Tratamento do material indexado:

a) Identificação da sequência de ações

b) Identificação dos núcleos narrativos (redução da história em unidades significativas)

c) Classificação das funções narrativas

3. Análise das personagens

4. Análise do espaço e do ambiente

5. Análise do tempo da narrativa

6. Tratamento do material não indexado

7. Reconstrução do enredo ou intriga de cada E.N.

8. Comparação das narrativas individuais e identificação de uma narrativa coletiva ideal-típica no contexto de vida das mulheres da comunidade Maria da Paz (procedimento de síntese)6

O enredo reconstruído (obtido mediante passos 2 a, 2 b e 7) a partir das informações da primeira entrevistada (F.) apresenta o seguinte esquema simplificado:

Orfandade precoce→ mudança para a casa da irmã→ maus tratos da irmã→ fuga e trabalho como doméstica→ assédio do filho do patrão e não recebimento de salário→ fuga com um namorado→ realização amorosa, gravidez, casamento no papel, marido sustenta a família→ desemprego do marido, agressões do marido, abandono, suposto adultério → filho como arrimo, perda do quarto onde morava, moradia de favor, repúdio de parentes→ construção da casa na comunidade→ Situação final: retorno do marido sem trabalho, sacrifício do filho, desarmonia familiar.

O enredo da segunda entrevistada (M.) segue o seguinte esquema:

Pai violento e alcoólatra → infância sofrida devido aos maus-tratos do pai e sofrimento da mãe→ pai abandona a mãe e vai viver com outra mulher→ mãe trabalha para sustentar os filhos sozinha→ fuga com namorado aos dezessete anos, união precoce e gravidez→ obtenção da casa desejada→ marido passa a beber→ tentativa do marido de se livrar das drogas via AA (sem sucesso) → marido e filho desentendem-se (por causa do alcoolismo do marido) →Situação final: Marido sustenta a família, mas o ambiente é difícil, pois as brigas entre marido e filho não cessam. Aguarda possibilidade de trabalho para o filho.

O enredo da terceira entrevistada (L.) apresenta o seguinte ordenamento:

Separação do marido→ perda de recursos financeiros→ perda da casa→separação dos filhos (fica com as duas filhas e o marido com os três filhos) → pede ajuda da mãe→ mãe fica com as duas filhas→ busca trabalho→novo relacionamento→ conflitos do novo companheiro com sua filha mais velha (já saiu de casa por não se dar bem com a garota) → tentativa de estabelecer diálogo com a filha e aconselhá-la a não seguir seus próprios passos (gravidez precoce) → alcoolismo da filha→ Situação final: O companheiro sustenta, até "mima" os dois filhos do casal; os aborrecimentos se referem a pontos de vista diferentes sobre como educar os filhos.

De modo geral, em termos de conteúdo, forma e retórica, os relatos autobiográficos das entrevistadas tendem a modelar uma trajetória de sofrimento precoce e duradouro associada a um conjunto de fatores e condições mutuamente dependentes: classe social, gênero e conflito geracional. Esses fatores de sofrimento são particularmente visíveis no tratamento do material não indexado (passo 6), quando são postos em relevo os trechos em que as narradoras avaliam suas vidas, justificam ou lamentam escolhas e tecem conceitos e teorias sobre o seu presente, passado e futuro.

No que se refere à condição de extração social, a autocompreensão das narradoras focaliza a pobreza e suas consequências como critério definidor de quem são como pessoa e como coletividade. Nesse sentido, a vida sob circunstâncias de grave precariedade material e as agruras da sobrevivência cotidiana ocupam parte significativa das histórias, especialmente na descrição dos cenários, episódios significativos, ações da protagonista e propósitos (em que a falta de bens e serviços é objeto preferencial de queixa). A pobreza é a condição que articula os episódios de sua existência e que orienta a narração: sua vida é digna de ser contada, pois é uma história de alguém que nada tem e que deve sair em busca de sanar tal falta. A pobreza é onipresente nas sequências narrativas. Uma sequência narrativa (e a narrativa como totalidade) é composta de situações de equilíbrio e desequilíbrio que se sucedem até uma resolução ou situação final. Para Laravaille, citado por Reis e Lopes (1988), a sequência envolve: situação inicial→perturbação→transformação →resolução→situação final. Nas histórias das informantes, todas as situações e perturbações são condicionadas direta ou indiretamente pela pobreza, que está associada sempre à vulnerabilidade e a momentos de impotência. A luta por moradia é ressaltada nos relatos como um dos principais propósitos almejados pelas narradoras-protagonistas. A comunidade representa um espaço de convivência e de estabilidade, pois é o lugar onde estão residindo depois de peregrinar em busca de moradia. Particularmente os passos 2 e 4 da análise revelam que a trajetória das mulheres entrevistadas envolve uma mobilidade espacial significativa (seja na história dos pais, seja na sua própria) e que remete à condição de migrantes que deixam sua região de origem para habitar as periferias das grandes cidades no país. A mobilidade de uma população sem-teto (por migração de áreas rurais e por outras razões) é bastante eloquente na história das mulheres entrevistadas, que se veem circulando entre casas: casa dos pais, casa de parentes, casas de família, barraco, nova casa após separação e assim por diante, sempre em busca de um lugar melhor. As constantes mudanças fornecem um padrão singular às narrativas (de narrativas "em trânsito"), revelador da instabilidade geral que marca suas vidas, no plano material, mas também laboral, afetivo, familiar etc.

As três narradoras e outras mulheres com quem tivemos contato do lugar compreendem a casa construída na comunidade como uma conquista: mesmo precária e insegura, a casa é resultado de muitos esforços pessoais e da comunidade, após longo período sem teto. Este significado torna-se ainda mais explícito quando se observa a veemência com que tratam da luta pela construção de suas casas, bem como a trajetória singular de cada família em busca desse lar. Grande parte da vida das famílias é dedicada à conquista da casa e à sua manutenção. A experiência de cada entrevistada funde-se com a errante história das camadas populares no Brasil, em busca de terra e teto.

O primeiro deslocamento espacial pressupõe, nas três entrevistas, a tentativa de minorar as condições precárias e de buscar uma melhoria nos padrões de existência. F. inicia sua peregrinação por casas a partir de uma situação de orfandade e maus tratos; M., de uma realidade violenta com maus tratos do pai; e L. despede-se da casa do ex-marido, sem recursos financeiros e sem teto. É comum nesse ambiente deslocar-se precocemente em busca de melhores condições de sobrevivência e as narrativas, às vezes, parecem privilegiar a memória dos lugares transitados:

Perdi minha mãe muito nova, né? E fui morar com minha irmã. Foi lá no Pio XXII, ainda me lembro... Lá eu fui criada com ela. Ela me batia, me judiava muito, me maltratava muito. Ela me botou para estudar, aí eu fugi da casa dela e fui trabalhar nas casas. Eu tinha mais ou menos uns doze pra treze anos. Comecei a trabalhar nas casas alheias, trabalhei onze anos pra ficar lá, não ganhava nada, era só pra morar.... Aí eu saí de lá e fui trabalhar noutra casa ... e tive que sair de lá, mas saí fugida com um outro rapaz que hoje é o meu marido. Fui morar na casa do pai dele, passei um tempão na casa do pai dele. Mas aí eu saí de lá pra casa de antes, mas ele alugou um quarto e foi me buscar .... Aí ele alugou outro lugar (F.)

Meu maior sonho assim é eu terminar minha casa e ajudar minhas irmãs. Assim, elas não têm marido... têm filho mas o homem não ajuda, são separadas, elas vivem na casa que era da minha avó, lá na Aerolândia. Eu tenho muita pena delas, delas duas, eu acho que o meu maior sonho mesmo, se eu pudesse era ajudar elas duas, comprar uma casa, pra elas viverem sem precisar de favor, né? Porque eu, graças a Deus já tenho a minha. Mas elas não querem morar comigo, querem morar na Aerolândia... Aí fica assim, morando de favor, se elas quisessem eu repartia minha casa com elas na hora, mas elas não querem sair de lá... (M.)

Aí eu vim embora, com eles, porque não tinha como eu ficar onde eu estava, porque a casa de lá, foi tomada pelo pai dele. Aí a minha mãe disse que se fosse para eu perder a minha vida por um par de telha, jamais, aí ela disse isso pra eu ir trabalhar e encontrei essa casinha. (L.)

A narrativa autobiográfica dessas mulheres apresenta um perfil de "cartografia", como se a memória de si mesmas se vinculasse estreitamente aos lugares que em que residiram, às muitas viagens e mudanças domiciliares ao longo da sua história. A atribuição de sentido ao curso de suas vidas (e a avaliação moral que acompanha a construção dos enredos) está intimamente articulada aos espaços percorridos e habitados na intriga (isto é, aos sentidos que atribuem a tais espaços), de modo que a seleção dos episódios para a narração autobiográfica privilegia situações ou ações que envolvem o abandono, procura e ocupação de lugares e moradias.

Quanto à segunda condição (gênero), as histórias autobiográficas das narradoras constroem sentidos importantes sobre o feminino naquele contexto sociocultural, enfatizando, mais particularmente, a vulnerabilidade da mulher, especialmente na relação com os companheiros.

Nas três entrevistas, as mulheres parecem atribuir significados aos seus companheiros associando-os ao sentido de "melhoramento" (aspecto positivo e progressivo) ou "degradação" (aspecto negativo e regressivo) de suas histórias, especialmente em termos de metas estabelecidas pela protagonista. No início de suas trajetórias, quando ainda são adolescentes ou jovens inexperientes, o namorado representa a possibilidade de escapar de um ambiente infeliz, violento ou sem perspectivas. Nesse sentido, a lógica da narrativa repousa num estado inicial deteriorado que exige da protagonista uma ação reparadora. Em F., tal ação é a "fuga com o namorado", significando a esperança de um processo de melhoramento e a realização de certos desejos e metas (amor, erotismo, um teto próprio, paz, filhos). Na narrativa de F., o melhoramento é obtido, pelo menos provisoriamente, com realização amorosa, gravidez, casamento oficializado e o marido provendo o sustento.

Na narrativa de M., a ação de fuga é motivada por crenças semelhantes; a sua teoria sobre o que lhe ocorreu após essa escolha é construída a partir de uma ponderada auto-reflexão que vincula a sua própria experiência à experiência de sua mãe:

Eu acho que eu saí de casa por necessidade, pra me afastar dos problemas de casa, né? Eu achava que eu me juntando, se eu me casasse, eu achava que a minha vida ia ser uma coisa boa, mas eu vi que não, é a mesma coisa, os mesmos problemas que a minha mãe passava, as mesmas coisas que eu vi ela passando, eu passo também do mesmo jeito, quer dizer, não teve melhora na minha vida... Quer dizer, melhora assim,

que eu tive meus filhos, agradeço muito a Deus que eles são meninos bons, perfeitos, né? Não têm nenhuma doença graças a Deus... Mas é só isso mesmo, porque os problemas... é demais pra mim...

Na narrativa de L., o estado inicial já se apresenta deteriorado, no sentido de que tanto a época da convivência com o primeiro marido quanto a vida após a separação carregam forte conotação de infelicidade. Omitindo o fato (ou possibilidade) de algum dia a vida com ele ter sido boa, grande parte da narrativa é dedicada a justificar a sua separação (por passar fome junto com os filhos) e a lamentar a perda de três filhos do casal após a separação. O primeiro marido é associado exclusivamente a momentos regressivos da narração. Para Gergen e Gergen (1986), a narrativa regressiva é aquela em que o protagonista continuamente afasta-se de uma meta ou condição valorizada, isto é, o "progresso" é impedido, retardado ou de alguma forma embaraçado. O sentido de melhoramento para L. só é percebido quando surge o novo companheiro, que assume a responsabilidade de lhe garantir a sobrevivência. L. vale-se de descrições ilustrativas para marcar retoricamente o sentido de salvação associado a ele; um exemplo interessante é quando ela revela o grau de magreza em que vivia antes e a "baleia" que se tornou depois.

Contudo, o transcurso da vida reserva para a história de cada uma (tal como reconstruída na situação da entrevista) um agudo processo de degradação e sofrimento em que participa ativamente o companheiro. De herói salvador (usando uma metáfora extrema), o "pai de seus filhos" torna-se, muitas vezes, franco antagonista, justamente quem impede que as metas concretizem-se e quem deita a perder as metas familiares conquistadas com esforço.

Os juízos sobre os companheiros não se dão sem ambivalências, algumas condicionadas por valores e códigos sócio-culturais dominantes que participam dos processos de elaboração cognitiva e afetiva das narrativas autobiográficas. Os valores que mais se destacam aqui são aqueles vinculados às relações de gênero, especialmente os papéis sexuais (e.g., homem provedor, mulher do lar). De tais valores e modos de compreender as relações homem-mulher e pais-filhos decorrem conceitos peculiares sobre o que é permitido, reprovável, aceitável e louvável no âmbito familiar: "Aí comecei a sofrer também do marido, que bebe, e fica naquela coisa também. Mas ele é muito bom pra dentro de casa, quando ele tá trabalhando ele não deixa faltar nada, pros meninos tudo..." (M.).

As questões geracionais, incluindo as obrigações da maternidade, a educação dos filhos em ambiente que favorece a marginalidade e os obstáculos ao futuro dos jovens, configuram a terceira condição que define autobiografias das informantes. Os filhos representam uma meta implícita de vida, quer tenham surgido precocemente e "sem querer", quer tenham aparecido durante a união estabilizada, conforme as expectativas. Nesse sentido, os filhos são uma "bênção", motivo de prazer e realização. Contudo os filhos sempre estão dispostos no horizonte de um sofrimento atual ou iminente, à medida que estão em situação de risco por diversas razões: imaturidade, drogas, alcoolismo, desemprego, violência paterna, más companhias e, muitas vezes, prestes à reprodução das trajetórias sofridas por seus pais. A argumentação de L. sobre os hábitos indesejados da filha atenta para a insidiosa possibilidade de vê-la repetir o que não deu certo em sua própria vida:

A vida da gente é essa, é um jogo a vida da gente. Morro de medo dela [a filha] entrar nesse mundo das drogas, ou então engravidar... Eu tive muitos namorados, o primeiro foi com quinze anos... Engravidei com dezesseis. Aí eu digo pra ela: "filha, o que eu passei nessa minha vida, eu não quero pra você jamais. Coisa ruim que eu já passei na minha vida eu não quero pra nenhum, pra nenhum de vocês". Mas ela não entende. (L.)

Educar os filhos no contexto de instabilidade e precarização do trabalho, de violência urbana, de consumo de drogas e de antigos valores em descrédito constitui um desafio sofrido para as narradoras.

Articulando as condições de classe, gênero e geração, o trabalho apresenta-se temática fundamental nos relatos. A vida e a compreensão que as narradoras fazem de si, de seus filhos e companheiros e outras personagens de suas biografias são definidas por ter-se ou não um trabalho, por tê-lo obtido e perdido, por ter ou não as ferramentas necessárias para encontrá-lo e mantê-lo. Cada história ganha acento regressivo ou progressivo conforme o companheiro tenha ou não trabalho e seja capaz ou incapaz de prover as necessidades da família. No caso de F., a narrativa comunica a seguinte sequência: desemprego ou emprego irregular→ alcoolismo do marido → necessidades da família→ ambiente doméstico tenso (configurando grande infortúnio para a narradora).

Sem ter condições de se manter e manter seus filhos sem ajuda, as mulheres enxergam a si mesmas como dependentes dos companheiros para o fundamental (a alimentação), mesmo que a convivência seja violenta, elas sujeitas a maus tratos físicos, agressões verbais, fome ocasional e adultério do marido. Se o homem garantir os seus deveres de provedor (o dinheiro das contas básicas), da "casa pra dentro", a vida torna-se suportável, e até mesmo "boa". É neste sentido que F. avalia os primórdios de sua vida conjugal:

Aí ele [o marido] alugou outro lugar, porque até essa época ele trabalhava numa farmácia. Ele era moço, cheio de disposição, a gente tinha uma vida até razoável, né? Não era como hoje que estamos bem dizer sem nada, mas se for coisa de Deus, Deus vai iluminar.... Saía, chegava de manhã, me batia. Agora, o que ele nunca deixou faltar, foi na parte da alimentação. Ele foi muito bom, na época em que ele trabalhava. Ele hoje vive deitado, e nós não temos convivência de marido e mulher não, é ele num canto e eu noutro. Aí nós casamos e tudo e o sofrimento rendeu.

Os momentos da vida são avaliados de modo geral mediante a polaridade "marido com trabalho" (marido bom, vida boa) versus "marido sem trabalho" (marido ruim, vida ruim). Sugerindo uma espécie de ciclo vicioso, a condição de desemprego que ronda a vida das mulheres entrevistadas envolve alcoolismo e suas consequências em termos de risco à família. Na narrativa, nem sempre é explícito o que surge primeiro, isto é, o sentido de causalidade entre alcoolismo e falta de trabalho. O grande medo e causa de sofrimento é a condição de dependência e impotência para os que se encontram sob sua influência. Neste sentido as mulheres temem a falta de emprego dos filhos, seus sonhos convergindo para uma situação de autonomia a ser conquistada mediante o trabalho e a educação.

A prospecção de M. ao fim da entrevista traduz as expectativas e valores das três entrevistadas quanto a um futuro possível e desejável para si e para a família. O trecho abaixo também revela os óbices que atravessam os projetos pessoais femininos nesse contexto:

Eu quero que os meus filhos tenham muita saúde, um trabalho e vão viver a vida deles. Pro mais velho eu queria que ele não dependesse mais do pai, assim, que ele trabalhasse independente mesmo. Só pra ele. Tenho vontade de ver isso, digo pra ele estudar... quem já tem estudo ainda é difícil, eu digo muito pra ele... mas graças a Deus, ele é muito estudioso, esforçado que só....

Pra minha filha eu quero que ela estude também, vá ser alguma coisa, pra ela não ter o mesmo futuro que eu tive, assim, se encher de filho logo e ficar dependente do marido. Não quero isso pra ela...

Pra mim, eu espero criar eles, terminar de criar, e depois eu arranjar um emprego. Trabalhar pra me sustentar. Eu acho que é a coisa mais ruim do mundo é você ser sustentada por homens, sem ter uma renda pra você mesmo. Até hoje mesmo, se eu arranjasse alguma coisa, a mais velha cuida dos meninos, faz mingau, faz de comer... aprendeu comigo, eu sempre ensinei a ela a fazer as coisas... Eu acho que se eu trabalhasse a vida melhorava, eu sou tão estressada, dentro de casa eu fico assim, faltam as coisas pra eles e eu não posso dar. Não sei, eu nunca trabalhei... eu tenho um curso de corte e costura na Regional, sei fazer algumas coisas... qualquer coisa que aparecer... (M.)

Se o próprio trabalho pode significar sofrimento e luta sem trégua ao longo da vida, para essas mães, fonte maior de sofrimento é não poder ver realizados os desejos de consumo de sua prole: a roupa, os artigos de toalete, as pequenas necessidades diárias. Daí o desabafo de M.: "Quando é pequenininho [o filho] é bom, mas quando vai crescendo... quer uma coisa, quer outra, pede uma coisa e a gente não pode dar... É mais difícil quando eles crescem". Escapar da pobreza e de seus riscos implica empoderar-se mediante um trabalho.

 

Viver e sofrer: aprendendo as artes de lidar com a dor

"A vida da gente é essa, é um jogo a vida da gente" (L.)

A partir da comparação dos aspectos referenciais, textuais e pragmáticos das narrativas autobiográficas das mulheres da comunidade estudada, identificamos algumas fábulas básicas que estruturam a produção de sentido sobre si mesmas e sobre o universo material e simbólico em que vivem. A luta, o sofrimento, a condição vulnerável da mulher, a pobreza e as variadas situações que engendra constituem o acervo de materiais antropológicos, temas e motivos presentes nas histórias contadas na comunidade. Nas três autobiografias, as narradoras favorecem uma linha de intriga que as dispõe como mulheres frágeis, porém guerreiras, enfrentando bravamente as adversidades desde tenra idade. A metáfora da luta é tecida a cada intriga, articulando as vidas das narradoras às vidas de seus pais, avós e outras personagens com modo de vida semelhante. Nessa luta que transcende a vida pessoal, o vivido é avaliado como sofrimento, uma experiência agonística que atravessa gerações e que dá sentido ao conjunto de episódios em que foram protagonistas e observadoras. Elas reconstituem assim sua memória pessoal no cruzamento com a memória coletiva, fazendo uso criativo dos modos de contar das gerações passadas e religando a sua existência à existência de uma coletividade passada e presente. Como afirma Bruner (1994), os modos de contar e as formas de concepção que os acompanham tornam-se modelos que estruturam a experiência, servindo tanto para delinear itinerários no passado, quanto para guiar a narrativa até o presente e o futuro. Assim, uma vida não é só como ela aconteceu "mas como ela foi interpretada e reinterpretada, contada e recontada" (p. 36).

Diante de experiências diferentes de dor - do casamento, dos filhos, da pobreza, das limitadas perspectivas - o vocábulo "sofrer" e seus derivados dominam todas as narrativas, conferindo um aspecto doloroso ao conjunto das histórias.

De vez em quando me bate uma depressão, uma vontade de chorar, e eu não sei o porque.... Não sei se é por isso que fica esse vazio dentro de mim.... A gente passava muita necessidade... (L.)

Eu via o sofrimento dela, ... Aí ela ficou sofrendo pra criar a gente.... aí por diante eu fui viver a minha vida, o mesmo sofrimento, ... aí comecei a sofrer também do marido, que bebe, e fica naquela coisa também.... eu acho assim, que ela já vive tão sofrida. (M.)

E meu sofrimento já partiu da casa da minha irmã.... ela sofria muito por causa do marido dela. E aquele sofrimento que ela tinha com o marido, ela descarregava todo em mim ... eu não teria nem tido tanto filho pra sofrerem como sofrem hoje.... Aí eu fiquei sempre agüentando, né ... Mas eu sofri tanto.... e a situação tá muito difícil. (F.)

O sofrimento narrado, contudo, não funciona apenas como meio de reivindicar a fragilidade e vitimização da narradora. Na pragmática da comunicação, essas mulheres produzem ativamente conhecimentos sobre si mesmas e sua condição, solicitam ajuda e compreensão, fazem-se ouvir pela comunidade e por outros círculos sociais e fortalecem-se para novos episódios adversos. A história e a trama de suas narrativas figuram práticas de sobrevivência próprias dos estratos populares, bem como modos de contar que se tornaram habituais, possivelmente desde a infância. Contudo, as mulheres recriam sua rotina de sofrimento valendo-se da fala como instrumento de apoderamento, defesa, acusação, queixa, afirmação da diferença. A dor, esculpida das mais distintas formas, apresenta-se, em sentido amplo, um "lugar" de aprendizagem, conhecimento do mundo e de si mesma.

A voz de cada mulher representa ainda sua herança aos filhos, o único bem a ser-lhes transmitido. Essas mulheres percebem a sua voz como legado inalienável, um meio de passar sua sabedoria e seus ensinamentos de vida a seus descendentes.

O relato autobiográfico, tal como tivemos a oportunidade de acompanhar nesses relatos, inscreve a vida íntima na história social e cultural. Ao narrar a própria história, instaura-se um campo de negociação e reinvenção identitária onde a narradora tem a liberdade de dispor de um repertório de episódios, cenários, personagens e paisagens afetivas a ser configurado e comunicado a outrem. Neste sentido, a história individual não reproduz a história coletiva, mas cria um campo de possibilidades onde o sujeito pode afirmar sua singularidade, dizer-se de um outro modo, imaginar outros horizontes para sua existência. Por fim, uma observação sobre a escuta do entrevistador: ouvir é tarefa delicada e particularmente importante nos dias atuais, quando as narrativas parecem encontrar o seu ocaso. Constatamos que não há formas de assegurar a validade da interpretação da narrativa autobiográfica, já que o discurso do narrador dá-se "em movimento", no instável espaço intersubjetivo da situação comunicativa. Procuramos aqui seguir o fluxo de auto-descobrimento que se delineava nas falas de nossas entrevistadas, movidas pela disposição sensível à diferença ali implicada e cientes das dificuldades de tradução do empreendimento interpretativo.

 

Notas

1 Nos estudos linguísticos e literários, os termos discurso e narrativa são marcados por significativa polissemia e sua distinção ganha contornos bastante complexos, não cabendo neste trabalho seu exame exaustivo. De qualquer modo, em narratologia, o termo discurso costuma opor-se ao termo história em função da metodologia de análise do texto narrativo: enquanto a história refere-se ao plano dos "conteúdos" narrados, o discurso trata do plano da expressão desses conteúdos (processos de composição, voz, focalização etc.). O conceito de discurso tende a referir-se ao enunciado considerado em função das suas condições de produção, que envolvem locutores situados num horizonte sociocultural e ideológico que condiciona suas falas. A história trata do conjunto de acontecimentos, personagens, cenários apresentados, disposto em certa ordem temporal e lógica. Essa e outras distinções semelhantes devem ser ponderadas como recursos analíticos. Para uma discussão mais refinada desses conceitos e de outras polaridades conceituais a partir de diferentes escolas, sugerimos a leitura de Reis e Lopes (1988). Como ponto de partida, este trabalho apoia-se particularmente nos estudos psicológicos que se inspiram na reflexão de Paul Ricoeur sobre a narrativa e que tratam da estreita articulação entre intriga e tempo.

2 Embora estejamos nos referindo à Psicologia Narrativa como um campo de estudos que compartilham alguns princípios comuns - tais como o papel central da narrativa na organização da experiência humana e a recusa de um conjunto de crenças ontológicas, epistemológicas e metodológicas positivistas, nem sempre há acordo entre os teóricos quanto a pontos específicos, tais como o estatuto dos "estados mentais", a natureza da experiência privada e o problema da autoria (agency). Tais divergências de fato têm justificado a divisão entre vertentes construtivistas e construcionistas sociais. Ambas subordinam o conhecimento individual aos processos sociais, culturais e históricos, contudo, enquanto construtivistas sociais tendem a objetivar um mundo mental, a experiência privada e os processos intrínsecos ao indivíduo, os construcionistas focalizam os processos sociais e as práticas discursivas que constituem o conhecimento do mundo e de si, deste modo, referindo-se não à ontologia mas ao discurso sobre a experiência privada e às suas consequências nas interações. Se a psicologia cultural de Jerome Bruner, apoiada em Vygostsky, pode ser incluída mais propriamente na perspectiva construtivista social, as formulações de Rom Harré e Kenneth Gergen tendem a ser consideradas filiadas à tradição do construcionismo social. Neste trabalho, procuramos explorar os pontos de aproximação entre autores oriundos das duas linhagens no que concerne à narração da experiência de si. Considerando que uma discussão mais abrangente sobre esta questão excede os propósitos deste artigo, remetemos o leitor a Grandesso (2000), especialmente o primeiro capítulo ("Para uma epistemologia da pós-modernidade") em que a autora esclarece detalhada e criticamente as convergências e divergências entre essas posições. Também sugerimos a leitura de Rasera, Guanaes e Japur (2004), especialmente para o entendimento das propostas construcionistas de Gergen e Harré acerca do self.

3 O caráter "dialógico" e "relacional" atribuído à experiência de si marca muitas noções desenvolvidas a partir de uma epistemologia pós-modernista: "self saturado" (Gergen, 1991), self "distributivo" ou "transacional" (Bruner, 1991), "self discursivo" ou "posicionado" (Harré,1998; Harré & Gillet,1999), entre outros. A dimensão plural e polifônica da subjetividade tem sido explorada por muitas outras formulações que poderiam ser enquadradas numa perspectiva "narrativista-dialógica" do desenvolvimento psicológico e que receberam influxos do giro linguístico, do pós-estruturalismo, do construcionismo social e das teorizações contemporâneas da psicologia histórico-cultural (Lopes de Oliveira, 2006).

4 A visão paradigmática que ampara este trabalho aproxima-se da tradição antifundacionalista do construcionismo social, atenta aos modos como as pessoas conhecem o mundo e a si mesmas e coordenam socialmente suas ações mediante suas práticas discursivas. A narrativa aqui é concebida como prática discursiva que plasma realidades, tais como o "tempo", "a mente", o "self", e não como veículo que representa uma realidade fora da linguagem, o que configura uma "falácia representacional" (Brockmeier, 2003). Como afirma esse autor: "as narrativas não devem ser concebidas como a apresentação de uma versão externa de entidades mentais particulares, pairando em um tipo de condição pré-semiótica. Apresentar algo como uma narrativa não significa externalizar algum tipo de realidade interna nem oferecer uma delimitação lingüística para essa tal realidade" (p.531).

5 Contra algumas críticas ao modelo de Schütze - uma pretensa "homologia" entre experiência vivida e narração e a suposta premissa de que a narrativa improvisada do narrador sobre suas experiências configura uma "recapitulação" do passado, Gabriele Rosenthal (citada por Apitzsch & Siouti, 2007) argumenta que o autor não se baseia em homologia, mas na "estrutura da narração biográfica", isto é, na "estrutura da construção da experiência de uma história de vida relembrada" (p.10). Quando alguém comunica a outro sua biografia, a narração envolve o recurso a elementos, esquemas e princípios linguísticos incontornáveis.

6 Embora cada entrevista tenha sido analisada passo a passo seguindo este modelo, considerando o espaço limitado deste artigo, optamos por apresentar nossas interpretações acerca das autobiografias construídas pelas informantes mediante a seleção dos elementos referenciais, textuais e interpessoais mais significativos que emanam do cotejo de suas falas. Tal escolha implica que muitas informações interessantes foram excluídas deste trabalho e serão exploradas noutra ocasião. De todo modo, tais interpretações originam-se de um olhar dialético entre a "parte" e o "todo" das histórias contadas. A escolha deste estilo de comunicação dos resultados da pesquisa visa fornecer uma visão sintética do mundo vivido pelas mulheres ouvidas, mesmo à custa da perda de detalhamento analítico. Informações precisas sobre cada passo podem ser obtidas em Brandão (2005).

 

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Recebido: 07/04/2008
1ª. Revisão: 09/09/2008
Aceite final: 23/09/2008

 

 

Thaís Oliveira Brandão é Mestre em Psicologia pela UFC. Doutoranda em Psicologia Social na Universidade de Santiago de Compostela (USC), Espanha.Endereço para correspondência:Rua Adenanteras 95- Quadra 46. Cidade 2000. Fortaleza/CE. CEP: 60.190-560. Email: thaisvida@bol.com.br
Idilva Maria Pires Germando é Doutora em Sociologia, Professora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará. Endereço para correspondência: Rua Monsenhor Catão, 948/303. Meireles. Fortaleza/CE. CEP: 60.175-000. Email: idilvapg@ufc.br

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