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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.21 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2009

https://doi.org/10.1590/S0102-71822009000100014 

A identidade em discursos de taxistas

 

Identity in the discourse of taxi drivers

 

 

Thelma Maria Grisi VelôsoI; Pedro de Oliveira FilhoII; Carolina Silva de MedeirosIII; Audizélia dos Santos AraújoIV

IUniversidade Estadual da Paraíba, João Pessoa, Brasil
IIUniversidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil
IIIUniversidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil
IVCentro de Assistencia a Crianças Excepcionais, Campina Grande, Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo é resultado de uma pesquisa mais ampla, cujo objetivo principal foi o de analisar a construção da identidade em discursos de taxistas que fazem em seus veículos o transporte alternativo entre os municípios de João Pessoa e Campina Grande - PB. Optou-se por uma pesquisa qualitativa, por meio da qual foram obtidos treze relatos orais de vida - sete em Campina Grande e seis em João Pessoa -, os quais foram submetidos à análise de discurso. Nos relatos, predominam descrições em que os taxistas se posicionam como membros desencantados de uma profissão decadente, que mal lhes garante a sobrevivência. A situação atual, difícil e instável, é contrastada insistentemente com um passado financeiramente mais estável. Em seus discursos, os entrevistados retratam si mesmos e o grupo ao qual pertencem como trabalhadores que lutam pela sobrevivência, legitimando, assim, a necessidade de optar pelo transporte alternativo.

Palavras-chave: taxistas; identidade; análise de discurso.


ABSTRACT

This article is the result of a research of much broader scope and its main purpose is to analyze the construction of identity in the discourse of taxi drivers who travel between the cities of João Pessoa and Campina Grande - PB offering an alternative means of transportation to passengers. The option was made for a qualitative type of research, and thirteen oral reports were heard - seven of which in Campina Grande and six in João Pessoa - all of which underwent a discourse analysis. The prevailing note in the descriptions of the taxi drivers is one of disappointment with a profession they find decaying and unable to assure their means of survival. The situation nowadays is difficult and unstable for them and is constantly contrasted to the past when it was more stable. In their discourse, the subjects interviewed portray themselves and the group they are part of as workers who fight for their survival. Doing so, they claim for the need to render alternative transportation legal.

Keywords: taxi drivers; identity; discourse analysis.


 

 

Introdução

Neste artigo, analisamos a construção discursiva da identidade de taxistas a partir de relatos orais de vida, obtidos em uma pesquisa cujos participantes eram taxistas dos municípios de Campina Grande e de João Pessoa, no Estado da Paraíba.

Esse grupo de taxistas faz, em seus veículos, o transporte alternativo entre os municípios supracitados e, na época da realização da pesquisa (entre 2005 e 2006), era formado por cerca de dez taxistas de Campina Grande e quinze de João Pessoa, todos do sexo masculino, pertencentes às praças de táxi das rodoviárias dos respectivos municípios.

O serviço de transporte alternativo oferecido tinha uma forma de organização que o diferenciava dos serviços de transporte legalizados. Os horários das viagens não eram pré-determinados, pois dependiam do número de pessoas que formavam a lotação (quatro passageiros). Com esse objetivo, os taxistas ficavam nos arredores da rodoviária, geralmente próximos à praça de táxi, abordando as pessoas que passavam e/ou anunciando, em voz alta, o serviço. A saída dos veículos era estabelecida através do critério de ordem de chegada dos taxistas na praça. Dependendo das circunstâncias, muitas vezes, viajavam somente com um passageiro. O valor do preço da passagem era o mesmo do ônibus da Empresa Real que, há muitos anos, vem monopolizando esse trajeto intermunicipal. Viajavam, ainda, como transporte alternativo, para outros municípios e outros estados e costumavam transportar encomendas.

Cabe assinalar, ainda, que, no grupo, existiam aqueles que eram donos dos veículos em que trabalhavam e, por conseguinte, da praça; e os que alugavam os veículos a outrem, pagando uma diária de R$ 35,00 (trinta e cinco reais), os chamados defensores.

Como nosso objetivo é analisar a construção discursiva da identidade, faz-se necessário um esclarecimento acerca dos sentidos que estamos dando ao termo "construção".

Esse termo é usado, aqui, com três sentidos. Em primeiro lugar, refere-se à ideia de que nossos discursos sobre objetos, grupos sociais e assim por diante são "manufaturados" de recursos linguísticos (termos, "formas narrativas", "lugares comuns" etc.) já existentes. Em segundo lugar, refere-se ao fato de que, diante da existência de tão variados recursos linguísticos, nossos discursos sobre objetos ou eventos do mundo envolvem, inevitavelmente, uma escolha. Como há diversas possibilidades, o mesmo fenômeno pode ser descrito de diferentes maneiras. Por fim, o termo construção é usado para pôr em evidência a ideia de que, na maior parte do tempo, temos acesso ao mundo (aos grupos sociais, aos eventos etc.) por intermédio de construções discursivas (Potter, Wetherell, Gill & Edwards, 1990). Desse modo, quando falamos sobre qualquer objeto do mundo, não estamos, como diz Wetherell (1996), simplesmente descrevendo a natureza do mundo ou reagindo a ele. Nossas descrições ou versões têm efeitos concretos na vida social, produzem e reproduzem grupos sociais, sentimentos de identidade, instituições etc.

Assim, na perspectiva teórica adotada neste trabalho, a identidade de um grupo e as posições identitárias assumidas por seus membros são processos associados a práticas discursivas e classificatórias (Hall, 2006; Wetherell & Potter, 1992).

Linguagem, discurso e identidade são, portanto, fenômenos intimamente associados no mundo social. A linguagem atua como mediadora no processo de apropriação do mundo pelos sujeitos; é através dela que eles pensam o seu mundo e orientam suas ações (Lane, 1984; Vygotsky, 1993). Mas, se os sujeitos usam a linguagem e o discurso para pensar sobre o seu mundo, buscando constituir esse mundo e a si próprios, não podemos esquecer que a linguagem e o discurso, por outro lado, constituem sujeitos e identidades (Foucault, 1972). Então, adotamos, aqui, a perspectiva segundo a qual os sujeitos são senhores e escravos do discurso, são usados por ele e também o usam (Potter et al., 1990).

Fenômenos como o sentimento de pertença a um grupo social, a acentuação da percepção de diferenças entre os grupos e de semelhanças no interior deles, a fragmentação de identidades grupais, anteriormente constituídas que, em outras perspectivas teóricas da psicologia social (Doise, 1978; Tajfel, 1983), são entendidos como resultantes de estruturas e processos sociais e cognitivos ou de estruturas e processos puramente cognitivos (Stephan,1985), são abordados aqui como fenômenos indiscutivelmente conectados a processos sociais e econômicos que não podem ser rigidamente separados de discursos e práticas discursivas. Isso, segundo Wetherell e Potter (1992), não apenas porque o discurso tem efeitos concretos sobre o mundo social, mas também porque estruturas sociais, instituições etc. estão impregnadas de discursos e ideologias.

Nessa perspectiva, os discursos dos sujeitos sobre as características sociais de seus grupos, sobre as diferenças entre seu grupo e outros grupos sociais ou sobre as relações de seu grupo com outros grupos (relações de conflito, dominação, cooperação) constituem essas relações, têm efeitos sobre o seu curso e moldam os sentimentos, as definições e os modos de classificação mobilizados para dar sentido aos grupos sociais que se encontram no interior dessas relações.

A identidade, num certo sentido, é constituída em redes discursivas, não sendo gerada simplesmente por meio dos discursos, das ações ou experiências do sujeito, mas também dos discursos sociais e institucionais que buscam fixar indivíduos e grupos, não sem resistência, em determinadas "posições-de-identidade".

Cabe, ainda, assinalar que é no contexto de globalização, de desemprego e de competitividade da era moderna que está inserido o grupo aqui estudado, o qual, como tantos outros, busca diversas formas de desempenhar a sua profissão e, como tantos outros, precisa, frequentemente, de apelar para alternativas consideradas ilegais. Para isso, concilia o trabalho "regular" com uma atividade informal. Essas pessoas estão inseridas no processo de mudança fomentado pelas sociedades modernas que, como alerta Hall (2006), definem-se por uma mudança estrutural que está deslocando e fragmentando os quadros de referência social e individual, descentrando as identidades modernas, isto é, "O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um 'eu' coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas" (Hall, 2006, p.13).

Assim, para o referido autor, as sociedades da modernidade tardia caracterizam-se por diferentes divisões e antagonismos sociais, que desencadeiam nos indivíduos uma diversidade de identidades ou "posições de sujeito".

 

Metodologia

Metodologicamente, optamos por realizar uma pesquisa qualitativa. Nessa perspectiva, utilizamos a Metodologia da História Oral, mais especificamente, as entrevistas de relato oral de vida que, segundo Lang, Campos e Demartini (2001), caracterizam-se por uma solicitação feita pelo pesquisador, para que o narrador enfatize algumas características, fases ou aspectos de sua vida, dando-lhes, no entanto, liberdade para a construção do seu relato.

O número de entrevistas foi determinado pelos critérios de acessibilidade e do ponto de saturação (Bertaux, 1980, conforme citado por Lang, Campos & Demartini, 2001). Esse critério indica que já se dispõe de informações suficientes sobre determinado aspecto, isto é, quando nos deparamos, através da análise, com um conteúdo repetitivo que já dá conta dos objetivos da pesquisa, o ponto de saturação é atingido e encerramos, após a obtenção de mais algumas entrevistas, a realização das mesmas.

Foram realizadas treze entrevistas, sendo seis com taxistas de João Pessoa, e sete com taxistas de Campina Grande. Quanto ao nível de escolaridade, a maioria é de nível fundamental, completo ou incompleto, e um deles é analfabeto funcional (escreve apenas o próprio nome). As idades desses informantes variam de 27 a 64 anos. No que diz respeito ao estado civil, onze entrevistados são casados, e dois, solteiros.

Todas as entrevistas foram realizadas na rodoviária dos respectivos municípios e gravadas em fita-cassete, transcritas e submetidas à análise, com base na orientação teórico-metodológica de um conjunto de teóricos que vêm desenvolvendo uma psicologia social discursivamente orientada (Billig, 1985, 1987, 1991; Potter, 1996; Potter & Wetherell, 1987; Potter et al., 1990; Wetherell, 1996; Wetherell & Potter, 1992). Nessa abordagem, os discursos são vistos, fundamentalmente, como formas de ação social com as mais variadas consequências. Trata-se de uma perspectiva teórico-metodológica que permite evidenciar e analisar a construção discursiva de identidades, sujeitos, grupos e relações sociais. O foco se concentra na forma de organização do discurso, nas suas funções e no modo como ele é construído para produzir, intencionalmente ou não, determinados efeitos (Gill, 2002; Potter & Wetherell, 1987). Nessa perspectiva, não se procuram homogeneidade e unidade no texto sob análise, procuram-se evidenciar as contradições, as imprecisões e as inconsistências (Potter & Wetherell, 1987).

 

Os Discursos dos Taxistas

Nos relatos dos entrevistados, o discurso sobre sua trajetória de vida aponta para o fato de que a escolha pela profissão não foi planejada, não era um projeto de vida, deu-se devido à lucratividade e à influência de terceiros, que já eram taxistas, e a sobrevivência econômica foi o principal estímulo.

Em vários sujeitos, os discursos em relação à profissão de taxista e em relação a si mesmos, como membros desse grupo profissional, são contraditórios e ambíguos, marcados por descrições positivas da profissão e descrições que ressaltam seus aspectos negativos. Algumas vezes, a ambiguidade e o conflito se atualizam na fala de um mesmo sujeito, como nos exemplos seguintes:

Eu num me queixo não, é uma profissão boa [pausa]. Eu gosto de ser taxista [pausa]. Eu... eu faço meu horário [pausa], assim [pausa], num tem esse negócio de... de... de... de ter um horário a cumprir, né? Eu, como se eu fosse [pausa], é, tivesse a minha própria empresa pra administrar [pausa]. Mas, eu num me queixo, eu gosto [pausa], é... é... é uma vida puxada.

Entrevistadora: É uma vida puxada?

É [pausa] e arriscada, né? Arriscada porque o taxista é muito visado pelos ladrões, apesar da... da... do dinheiro que a gente apura por dia, é... é, fica muito visado o... o... qualquer pessoa, você sabe que qualquer pessoa entra no táxi e a gente não sabe quem entra [silêncio] (Ramon1, 32 anos, João Pessoa, proprietário).

Ser taxista é tudo pra mim. Ser taxista é...é...é ser um profissional, né? Eu nunca pensei, eu acho que quando eu olhava e dizia: "Mas, rapaz, você é louco de ser taxista"? Mas, hoje, eu sou feliz. Ser taxista é bom, tem dias razoáveis (Roberto, 32 anos, João Pessoa, proprietário).

Olha, ser taxista é o seguinte: é... é uma grande honra porque hoje é um trabalho, é o meio da sobrevivência, é, você hoje...você hoje se dá com a população... se dá com o turismo... se dá com o cliente. Aí, você dá valor a sua profissão de ser taxista, entendeu? É, hoje, de você dizer assim: "Eu tenho um emprego", entendeu? E você dizer assim: "Eu tenho um emprego" e é um emprego assim... um emprego divertido... um emprego que você se dá com o público, você... só é um pouco arriscado... taxista é muito arriscado e se chama o defunto mais barato que tem, é o taxista (Abílio, 34 anos, João Pessoa, proprietário).

Na fala de Ramon, a profissão de taxista apresenta-se, em vários momentos, de maneira positiva, quando ele faz uso de termos como "boa", quando afirma que "gosta" da profissão, que "não tem horário a cumprir", afirmação na qual procura destacar sua autonomia e o controle que exerce sobre sua vida. Em outro momento, no entanto, o entrevistado refere-se à profissão como uma "vida puxada". Quando a entrevistadora refletiu a afirmação colocada pelo entrevistado, dizendo: "É uma vida puxada?", ele ressaltou que [uma vida puxada] e arriscada também ... qualquer pessoa entra no táxi". O discurso de Ramon sublinha os riscos enfrentados no dia-a-dia, o perigo associado à profissão de taxista.

O entrevistado Roberto, por sua vez, ao iniciar sua fala afirmando que ser taxista é "tudo" para ele, que ser taxista "é ser um profissional", destaca a centralidade da identidade profissional em sua vida subjetiva e posiciona-se como alguém socialmente importante, valorizado, afinal, na sociedade moderna, ter uma profissão tem um papel fundamental no reconhecimento social dos indivíduos. Todavia, outras passagens de sua fala indicam a presença, em seu mundo subjetivo, de outras vozes e de outros sentidos associados à profissão de taxista, vozes para as quais a profissão é socialmente desvalorizada, uma profissão de alguém que é "louco", sem bom senso, uma profissão da qual o máximo que se pode esperar são alguns "dias razoáveis". Em seu discurso, claramente, distancia-se da afirmação que associa a escolha da profissão de taxista à falta de bom senso, quando a transfere para o passado, mas o próprio fato de citá-la indica que essa premissa pode estar presente e se colocar insistentemente nas reflexões desse sujeito e de seu grupo.

Já Abílio se refere à profissão como uma honra; um emprego divertido, por permitir contatos interpessoais. No entanto, tais relações também se mostram arriscadas, pois são pessoas que, a priori, os taxistas desconhecem. Por outro lado, assim como no discurso de Roberto, o de Abílio sugere que ter uma profissão, "um emprego" é algo positivo por si só, além de lhe garantir a sobrevivência. O termo "emprego" é utilizado cinco vezes no discurso, produzindo um efeito de redundância, uma intensificação emocional (Cavallaro, 1999).

Na fala de Eric, a seguir, a ambiguidade e o conflito em relação à profissão de taxista aparecem de maneira ainda mais acentuada:

É uma vida tão complicada, dirigir táxi, mas fazer o quê? De qualquer maneira a gente tem que enfrentar... tem muito piores, sabe? Mas, se você for pensar isso, você não sai de casa... eu não me arrependi até hoje não, eu gosto dessa profissão e eu vivo disso ... das piores é a melhor, né? ... é uma profissão que eu me dediquei, gosto da profissão... é uma profissão perigosa, mas não tem outra. Meu grau de estudo é pouco, terminei minha sexta série e pra arranjar um bom emprego, não tem condições (Eric, 54 anos, Campina Grande, defensor).

Em um relato em que diz gostar da profissão de taxista (retratada por ele como sendo uma das melhores, entre as "piores", como uma profissão "perigosa"), em que tenta nos convencer de que não está arrependido de ter escolhido essa profissão, Eric termina por criar no leitor, em determinado momento (certamente de maneira não intencional), a impressão de que está nessa profissão por absoluta impossibilidade de estar em outra ("não tem outra", "meu grau de estudo é pouco"). O efeito predominante de seu relato é tornar totalmente desacreditada a versão segundo a qual ele gosta da profissão e não se arrepende de sua escolha.

Os relatos de Francisco e de Clóvis, transcritos abaixo, caracterizam-se, diferentemente dos anteriores, pela ausência de ambiguidade: a profissão de taxista é apresentada de maneira inequivocamente negativa:

Hoje, eu vejo, a situação uma das piores que existe... que ficou abandonada mesmo ... por isso, que eu digo, hoje em dia, é uma das profissões mais cruéis que existe, é a de taxista ... hoje em dia, se tornou uma profissão que você chega em casa, no final de semana, talvez num chegue nem com o dinheiro da feira completo (Francisco, 45 anos, Campina Grande, proprietário).

Porque o táxi eu comparo com um animal em extinção, porque tá praticamente acabado, o nosso ramo, então [pausa], nós [pausa] como somos obrigados hoje a fazer determinado tipo de transporte, porque o passageiro sumiu (Clóvis, 49 anos, Campina Grande, proprietário).

Francisco constrói uma imagem fortemente negativa da profissão, qualificando-a como uma das "profissões mais cruéis" e ressaltando que ela não permite ao profissional uma rentabilidade que possa suprir suas necessidades de sobrevivência. Entretanto, observa-se que ele contrasta, insistentemente, o presente com o passado, que aparece de maneira implícita como um tempo mais favorável. O uso da metáfora "animal em extinção", no discurso de Clóvis, figura de linguagem cujas funções persuasivas são unanimemente reconhecidas (Leach, 2002; Perelman & Olbrechts-Tyteca, 1996), torna tangível e dramática a situação que ele relata e, consequentemente, mais justificável a escolha pelo transporte alternativo. A falta de passageiros aparece explicitamente como o motivo da adesão a esse tipo de transporte.

Esses discursos negativos em relação à profissão de taxista, essa construção de uma identidade social negativa (como diria Tajfel,1983), pontuados por tímidas alusões aos aspectos positivos da profissão, embora tenham certamente alguma relação com a vivência desses sujeitos, enquanto taxistas, são, claramente, orientados para atingir determinados objetivos. São discursos ajustados em relação ao contexto em que estão situados (Gill, 2002). O simples fato de o entrevistador ser para os entrevistados alguém que pode servir de porta-voz, para tornar público o que ali está sendo dito, torna os discursos circunstanciais e adequados aos interesses da categoria dos taxistas.

Os Taxistas e os Outros Grupos

Como as identidades são constituídas a partir das relações com outros grupos, pois nós só sabemos quem somos através de nossas relações com os outros (Hall, 2006), a análise privilegiou, ainda, uma discussão sobre o modo como os entrevistados constroem discursivamente os outros grupos com os quais convivem. Ao ressaltar a mobilização discursiva de diferentes categorias sociais nos discursos dos taxistas, queremos destacar a construção discursiva de oposições, inimigos comuns, similaridades com outros grupos, conflitos e divisões intragrupais e como esse jogo discursivo, que constitui um aspecto fundamental das relações de poder entre os diferentes grupos sociais, ora reforça ora enfraquece as fronteiras identitárias, tornando-as bem definidas, em alguns momentos, e opacas, em outros.

Nos discursos dos entrevistados, as seguintes categorias sociais foram mencionadas sem terem sido nomeadas previamente por nós: o grupo dos que praticam o transporte alternativo e não são taxistas (loteiros) e os mototaxistas. As categorias referentes ao grupo que constitui a empresa de ônibus Real e aos próprios taxistas foram nomeadas previamente por nós antes de aparecerem nas falas dos sujeitos.

Ficou evidente, também, nos discursos, a particularização discursiva (Billig, 1985), a clivagem de duas categorias mais amplas com a consequente produção de subcategorias (ou seja, categorias que se encontram incluídas numa categoria com um nível mais alto de generalização). A primeira clivagem ocorreu quando destacavam a presença, no grupo dos taxistas, de dois subgrupos: os taxistas que não fazem o transporte alternativo e os que o fazem. Outra clivagem ocorreu quando enfatizavam a existência, no grupo dos taxistas que fazem transporte alternativo, dos proprietários dos veículos e da praça e dos que não são donos (denominados de defensores, como já assinalado).

Assim, quando se referem aos taxistas da mesma praça de táxi que não fazem o transporte alternativo, seus discursos enfatizam uma harmonia. No entanto, há quem deixe transparecer a existência de conflitos e de ressentimentos dentro do grupo:

Normal, ninguém... pra mim ... tem os que não gosta da gente, ou seja, por inveja, ou coisa... mas tem a maioria, não tem nada contra não, eles acha até bom eu acho, se tiver dez carro na praça, todos dez estão fazendo alternativo, já diminui dez carro pra praça ... melhora mais o movimento, porque não é todo mundo que gosta de fazer alternativo, porque é humilhante, eles acha humilhante chamar o passageiro (Sandro, 39 anos, Campina Grande, proprietário).

Em relação aos taxistas que fazem parte do mesmo grupo dos entrevistados, isto é, que também fazem o transporte alternativo, tanto há discursos que ressaltam a união quanto os que apontam para desavenças:

Normal, assim... nós trabalha assim na parceria... tipo uma parceria ... se eu chego cedo ali e o colega tá, eu tenho que ajudar ele pra ir simbora e quando ele sai, eu fico na vez e chega outro colega meu e me ajuda... me dá uma força, quando eu tô na vez eu faço a mesma coisa com ele também, dá pra sobreviver (Abílio, 34 anos, João Pessoa, proprietário).

Tem muita confusão aqui, muitas brigas, muitos desentendimentos... as pessoas acham... é, olho grande, você pega uma viagem, os outros ficam desejando até coisas [pausa] ... Eu tenho vários amigos aqui, também tem vários que eu não gosto, também tento evitar confusão... tento evitar diálogo com eles, sabe? Evitar confusão, né? É muita concorrência aqui... entre nós mesmos... é muita... a gente tem que saber levar um ao outro e sempre tá em paz, evitar confusão e briga (Paulo, 40 anos, Campina Grande, proprietário).

Abílio faz uso de termos positivos como: "parceria"; "ajudar" e "força" para evidenciar um relacionamento harmônico entre os taxistas que trabalham com o transporte alternativo. Paulo, por outro lado, usa termos como "confusão", "brigas", "desentendimentos", "olho grande", "concorrência", pintando um quadro bem menos harmônico da categoria. Nesse sentido, como afirma Penna (1992, p. 157), "uma representação de identidade coletiva não significa a homogeneidade interna do grupo: uma identidade comum, dialeticamente, expressa e organiza uma aliança, estrutura e é estruturada pela dinâmica social das relações de poder".

Já quando se referem à empresa de ônibus Real, que monopoliza o trajeto intermunicipal, os discursos de alguns entrevistados são marcados pela acentuação dos aspectos positivos do serviço oferecido pela empresa:

Porque realmente os ônibus são confortáveis, nunca eu ia comparar um ônibus com um carro, andando quatro pessoas dentro de um carro apertado, num é? (Clóvis, 49 anos, Campina Grande, proprietário).

Em relação à Empresa Real [pausa], é porque [pausa] ela tem os direitos dela, né? É uma coisa que a empresa reconhece que ela tem os direitos dela, mas eu acho assim, que se não fosse esse transporte alternativo, ela não dava vencimento não, a não ser que ela botasse mais ônibus, e hoje em dia tudo tem que ter concorrência, porque, ele, já pensou se fosse somente ele? Rodando? [pausa] A gente faz, mas a gente sabe que não é legal, né? (Carlos, 50 anos, Campina Grande, defensor).

No discurso de Clóvis, os "confortáveis" ônibus da empresa Real são comparados desfavoravelmente com o desconforto dos táxis. Já Carlos coloca a empresa de ônibus Real no polo da legalidade, e os taxistas, no polo da ilegalidade. Em seu discurso, no entanto, a não concorrência com os transportes alternativos impossibilitaria que a empresa atendesse à demanda de passageiros. Ao ressaltar esse fato, ele justifica o uso do transporte alternativo, tornando-o moralmente mais aceitável.

Os discursos de André e de Eric, abaixo, num tom respeitoso, também posicionam a Empresa Real no polo da legalidade, mas, diferentemente de Carlos, tentam afastar os taxistas do polo da ilegalidade:

Em relação à Empresa Real, eu num tenho nada contra ela não, entendeu? Ela tá no direito dela [pausa], o que ela... o que ela num aceita é a gente tá na porta do guichê [pausa], é [pausa], faltando com respeito, então a gente procura manter uma certa distância, tanto aqui como lá em Campina também.... mas, que nós temos nada contra ela, eu num tenho não, entendeu? ... a nossa... o nosso conflito é mais [pausa], nós taxistas e os loteiros, os alternativos, entendeu? Porque eles prejudicam não só a empresa de ônibus como a gente... nós também, entendeu? ... e a empresa de ônibus é que tem muito mais condição do que a gente em lutar, tá entendendo? (André, 33 anos, João Pessoa, defensor).

A Empresa Real é uma empresa que ela... ela, pelo custo da tabela, ela devia tomar as providências para os alternativos [referindo-se aos loteiros], mas não ... empresa grande que pode tomar providências, mas cadê que toma? (Eric, 54 anos, João Pessoa, defensor).

André afirma que a Empresa Real está no seu direito, quando não permite que os taxistas se aproximem do guichê para abordar os passageiros. Seu discurso descreve uma realidade em que cada grupo está (ou deve estar) ciente de sua posição. Nas falas de André e de Eric, a Empresa Real é quem mais tem condição de lutar para melhorar a situação atual. Ambos se posicionam e posicionam sua categoria social num espaço sócio-moral próximo ao da Empresa Real, tentando obliterar as diferenças entre os dois grupos sociais. Trata-se de uma estratégia discursiva através da qual esses taxistas se diferenciam dos loteiros e se aproximam moralmente da Empresa Real, diminuindo o conflito com ela e posicionando os loteiros como inimigos comuns. Tal estratégia de aproximação tem uma clara relação com a posição de poder e com a posição moral da Empresa Real, nesse universo social no qual os taxistas que fazem transporte alternativo e os loteiros são, frequentemente, de maneira implícita ou explícita, posicionados como transgressores e ameaçados pelos agentes estatais.

Mas a relação conflituosa com a Empresa Real termina por se revelar de maneira não intencional, no discurso de André, quando ele afirma: "a nossa... o nosso conflito é mais [pausa], nós taxistas e os loteiros, os alternativos, entendeu?". Se o conflito é mais acentuado entre os taxistas e os loteiros, o discurso deixa implícito que existe também um conflito com a Empresa Real. Segundo Ducrot (1987, conforme citado por Carmo, 1997), o implícito é gerado por um pressuposto. O pressuposto, então, é um implícito veiculado por determinados elementos. No discurso em questão, o pressuposto é ativado pelo elemento MAIS. Nesse caso, então, o taxista exime-se da responsabilidade de dizer, protegendo-se assim de um confronto explícito.

Não obstante esses discursos cuidadosos em relação à Empresa Real, em algumas falas encontram-se referências negativas explícitas em relação a essa empresa:

A Empresa Real? [pausa] Bem, com a Empresa Real [pausa], eu num sei nem lhe falar direito a respeito disso [pausa]. Agora aí só com os... com os fiscais do... da [pausa] Real, que eles têm mais algumas informações a lhe dar.

Entrevistadora: Como é a relação com vocês?

Ah, como é? [pausa] eles interferem muito, tanto é [pausa] que tem dois fiscal [pausa] que cai em cima, muitos desses que tá fazendo a linha pra João Pessoa tá recebendo multa [pausa], entendeu? [silêncio]

Entrevistadora: Certo.

Mas, tem um carinha que, se a senhora quiser falar com ele [pausa], é aquele de camisa amarela.

Entrevistadora: Não, a pesquisa da gente é com os taxistas.

[Risos, silêncio]. (Felipe, 64 anos, Campina Grande, proprietário).

O entrevistado Felipe afirma, num primeiro momento, não saber o que falar sobre a Empresa Real. Pode-se, pois, pensar que ele apresentou, inicialmente, certa resistência, visto que não estava seguro sobre para quem e para que o seu discurso estava sendo dirigido e quais as suas repercussões. A entrevistadora insiste, e ele afirma que a Empresa "interfere muito"; em seguida, sugere que a entrevistadora fale com o fiscal da Empresa. Assim, mesmo quando é explicado melhor o objetivo da pesquisa (a entrevistadora insiste em saber como é a relação com a Empresa e afirma: "a pesquisa da gente é com os taxistas"), o entrevistado sorri e silencia. Portanto, é possível que o desconforto para falar sobre a Empresa Real seja resultado de um medo de retaliação por parte da Empresa.

Diferentemente de Felipe, o entrevistado Sandro não apresenta em seu discurso nenhuma cautela em relação à Empresa Real, como se pode confirmar na fala seguinte:

Já faz essa lotação pra escapar e o pessoal é perseguido pelos fiscais da Real, que paga propina ao pessoal da STTP [Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos] pra multar a gente, essas multas no anonimato, sem... sem [pausa]. Nas multas eles sempre dizem que nós somos abordados por eles, mas em momento algum é abordado por eles, aqui como se vê nem guarda da SSTP tem, né? E aí a situação é difícil, a gente leva uma multa aqui, leva outra ali, mas ninguém pode deixar de fazer isso porque é o nosso trabalho, se deixar, as conta atrasa (Sandro, 39 anos, Campina Grande, proprietário).

O discurso de Sandro descreve uma relação extremamente conflituosa entre os taxistas que fazem o transporte alternativo e a empresa, o que, nem por isso, impede que os taxistas deixem de fazer esse transporte ilegal. Ao falar das propinas pagas pelos fiscais da empresa Real, Sandro desloca a empresa de ônibus Real da posição moral na qual tinha sido colocada pelos outros taxistas.

Na fala de outro taxista, Francisco, a relação também aparece marcada pelo conflito:

Eles acham que o passageiro é obrigado a ir na Real. Mas, como de fato, você sabe, todos os carros da Real, hoje em dia, são carros que tem ar condicionado, tem senhoras que traz crianças que é alérgicas, tem o próprio passageiro que é alérgico, não quer viajar em carro com ar condicionado, procura a gente, às vezes, se o lugar for perto, a gente deixa o cliente em casa, tem essa vantagem pro cliente e eles sempre procuram a gente por causa disso. Mas, a Real acha-se no direito que o passageiro seja obrigado a viajar com ela. E na realidade num é assim, como eles querem. Por isso que a gente faz esse... tem esse contratempo com eles (Francisco, 45 anos, Campina Grande, proprietário).

O entrevistado afirma que o táxi passa a ser procurado pelos passageiros que, por exemplo, têm problemas com o ar-condicionado. Todavia, para Francisco, a Empresa Real desconhece essa vantagem que o táxi possibilita ao cliente e luta para que ele viaje apenas através dos ônibus da empresa. E afirma: "Por isso que a gente faz esse... tem esse contratempo com eles".

Em relação à categoria dos loteiros (também chamados clandestinos), os entrevistados falam de uma relação conflituosa entre aqueles e os taxistas, ao mesmo tempo em que usam a existência dos loteiros para justificar a adesão ao transporte alternativo:

A gente tá aqui, a gente compra praça, a gente compra carro, paga prestação cara. O direito de... de.... de operar, o direito de operar é nosso, mas nós tamos perdendo pra eles, porque eles são clandestinos, eles não pagam.... é um negócio que a gente faz forçado, num é de gosto não... a gente tá numa calçada em João Pessoa, chamando passageiro, se humilhando, como aqui... não é de gosto não (Clóvis, 49 anos, Campina Grande, proprietário).

Clóvis, em sua fala, tenta diferenciar-se dos loteiros, ressaltando que os taxistas são profissionais que pagam a "praça" onde trabalham e os impostos. Os loteiros são descritos por ele como detentores de maiores privilégios, por não pagarem nenhum tipo de imposto, nem superintendência, e por não terem nenhum órgão fiscalizador que delimite seu local de trabalho.

Além de ser isento das taxas que são pagas obrigatoriamente pelos taxistas, o grupo dos loteiros apresentaria uma demanda maior de passageiros devido ao baixo custo oferecido. Quando Clóvis afirma que ficar chamando os passageiros nos arredores da rodoviária é uma humilhação, constrói uma imagem negativa de sua categoria. Ao retratar a profissão de modo negativo, o entrevistado apresenta a adesão a esse tipo de transporte como um produto da pura necessidade, e não como produto de uma escolha pessoal.

Já outro entrevistado, Joaquim, contrasta a segurança que o táxi oferece com a falta de segurança dos carros dos loteiros:

O seu carro tem que ter o decalque pra ser identificado [pausa], enumeração de porta, que é o número de ordem, aonde o transporte alternativo [referindo-se aos loteiros] não tem o número de ordem... não tem nenhum órgão a quem se possa reclamar, porque o transporte alternativo vai reclamar a quem? Porque aqui se eu lhe tratar mal, você vai pegar a placa do carro [pausa], e tem o 08002891518 que você liga pra ele e faz a reclamação ou pela placa do carro... ou pelo número de ordem que tem na porta, desde que seja um táxi.... quando aparece uma viagem [pausa], um exemplo, uma viagem pra Campina que custa R$180,00, o transporte alternativo leva por R$60,00 (Joaquim, 50 anos, João Pessoa, proprietário).

Nesse discurso, a segurança oferecida pelos taxistas consiste em um fator diferenciador, já que, em seus veículos, há um número de ordem que os identifica, ao qual o passageiro pode recorrer, se necessário for. O discurso evidencia a segurança que os taxistas oferecem aos passageiros, uma vez que qualquer ato prejudicial ao cliente pode ter como consequência uma punição. Em sua fala, Joaquim procura demonstrar as vantagens do táxi como transporte, em detrimento do transporte alternativo oferecido pelos loteiros.

Embora, para alguns dos entrevistados, o transporte alternativo oferecido pelos loteiros tenha uma conotação puramente negativa, no discurso de Carlos, abaixo, ser "clandestino" tem suas vantagens, uma vez que é um trabalho mais lucrativo:

Não, porque os clandestinos, olhe, é um negócio que dá porque cada cá tem seu carrinho, primeiro se eu achasse quem me vendesse um carrinho, eu não ia trabalhar de táxi, eu ia entrar no clandestino também [pausa], porque dá pra ir sobrevivendo, né? Adquirir o pão de cada dia ... todo canto tem transporte alternativo, aí a gente tem que fazer também, pra adquirir alguma coisa, sobreviver [pausa]. Eu mesmo, se tivesse um outro emprego, eu não fazia isso e não queria táxi, mas não tem, aí chega a casa dos quarenta anos, aí não arruma mais nada (Carlos, 50 anos, Campina Grande, defensor).

A sequência discursiva supracitada retrata positivamente o transporte "clandestino" realizado pelos loteiros. Essa profissão é descrita como de mais lucratividade do que a profissão dos taxistas que fazem transporte alternativo. O sujeito se posiciona claramente, em termos sociais, como membro de uma categoria social que, tal como os clandestinos, precisa transgredir a lei para sobreviver, aproxima-se simbolicamente do polo da ilegalidade (ser "clandestino"), embora afirme que, se tivesse outro emprego, não faria o transporte alternativo e tampouco seria taxista. Observamos, assim, a maleabilidade das identidades que, como sublinha Penna (1992), são alteradas pelos indivíduos de acordo com as circunstâncias. Nesse sentido, Ciampa (1984, p. 156), referindo-se à identidade como um processo múltiplo e mutável, assinala que a identidade é a articulação de múltiplos personagens que "ora se conservam, ora se sucedem, ora coexistem, ora se alternam".

Afinal, como sublinha Hall (2006), há, dentro de nós, identidades contraditórias, resultantes da multiplicidade de identidades possíveis que, por sua vez, orientam-nos em diferentes direções, ao ponto de as nossas identificações serem facilmente deslocadas. Deparamo-nos, assim, na atualidade, com identidades que não estão unificadas em torno de um "eu" coerente, mas que podem ser, dentro de determinadas circunstâncias, articuladas de forma parcial (Laclau, conforme citado por Hall, 2006).

No caso dos nossos entrevistados, dentre as várias identidades possíveis, estão a de taxista e a de alternativos. Em alguns discursos, o grande número de alternativos levou-os a optar por esse tipo de transporte, justificando essa escolha pela necessidade de sobrevivência. A renda advinda apenas das corridas legais feitas pelos taxistas apresenta-se nos discursos como insuficiente para a sobrevivência, sendo necessário outro meio para obtenção de renda maior, ainda que ilegal. A rentabilidade dos clandestinos é um atrativo para os taxistas. No entanto, eles procuram deixar bem claro que essa atração só ocorre por uma questão de sobrevivência. Legitimam, assim, a opção pelo transporte ilegal. Nesse sentido, Carlos afirma:

A gente procura um meio de ganhar dinheiro pra sustentar a família, não tem aqui em Campina ... todo canto tem... todo canto tem transporte alternativo, aí a gente tem que fazer também, pra adquirir alguma coisa, sobreviver [pausa] ... se aposentar não pode, tem que procurar um meio de sobreviver (Carlos, 50 anos, Campina Grande, defensor).

Para Carlos, as dificuldades financeiras, associadas à profissão de taxista, aparecem explicitamente como determinantes da adesão ao transporte alternativo, que é descrito como um meio de sobrevivência, um meio de sustentar a família.

Outra categoria social que aparece nos discursos dos entrevistados da cidade de Campina Grande é a dos mototaxistas. O fato de essa categoria não ter sido mencionada pelos entrevistados de João Pessoa deve-se à não existência de mototáxis nessa cidade, como já mencionado.

Nas sequências discursivas seguintes, os mototaxistas são descritos como uma categoria social que tem dificultado profundamente o trabalho dos taxistas:

Veja bem, hoje existe o mototáxi que não pode se comparar a corrida, o preço de uma corrida de táxi com o preço de uma moto, aí vem o micro... o micro-ônibus também que [pausa] atrapalhou muito o ramo nosso e a gente teve que... infelizmente, entrar num... num outro programa mesmo contra a vontade, se não, nem pagar a prestação de um carro a gente consegue.... entra moto, sai moto, carro particular, tem carro particular na cidade rodando.... A superintendência o que faz com a gente é perseguir (Clóvis, 49 anos, Campina Grande, proprietário).

Ah, os mototaxistas atrapalhou, você veja aqui uma praça como essa [pausa] tem o mototáxi, tem a praça aqui, você bota um ponto em frente do táxi ... os cara em vez de ficar no seu canto, fica chamando o passageiro na frente do seu carro, tomando o passageiro do... do taxista, que tem seu ponto de táxi, todo mundo deve ganhar, mas, seja separado, mototáxi pro lado e táxi pro outro [pausa], todo mundo junto (Sandro, 39 anos, Campina Grande, proprietário).

O que mais acabou com a gente também aqui [pausa] foi esse... esse sistema de mototáxi.... foi, esse sistema de mototáxi acabou com a gente ... com o dinheiro da bandeirada que o... que o passageiro paga do táxi [pausa], ele vai chegar na casa dele na moto ... agora que o... que o passageiro... o passageiro da moto... da moto é o passageiro de táxi [pausa], entendeu? O passageiro deixou o táxi pra andar na moto (Felipe, 64 anos, Campina Grande, proprietário).

Na fala de Clóvis, o aparecimento dos mototaxistas (bem como dos micro-ônibus) se apresenta como o motivo maior pelo qual surgiram dificuldades e, por isso, os taxistas se viram obrigados a fazer "outro programa" contra a vontade. O entrevistado não diz explicitamente que eles foram obrigados a fazer o transporte alternativo, deixando subentendido que "outro programa" seria o transporte alternativo. Clóvis justifica a escolha pelo transporte alternativo, embora não diga claramente que o faz.

Nos discursos de Sandro e de Felipe, os mototaxistas aparecem como grandes responsáveis pela decadência da profissão de taxista. Embora não justifiquem a escolha do transporte alternativo de maneira explícita, a descrição que fazem da concorrência exercida pelos mototaxistas sugere, mais uma vez, que essa escolha é justa e compreensível.

 

Considerações Finais

Os discursos dos taxistas entrevistados se mobilizam no sentido de justificar a adesão ao transporte alternativo, assinalando a decadência da profissão nos últimos anos. Essa decadência é dramatizada por relatos nos quais as dificuldades de sobrevivência, o desencanto com a profissão e um passado financeiramente mais estável são temas recorrentes.

A luta pela sobrevivência é o fio condutor das narrativas, interferindo diretamente nas identidades construídas pelo discurso. A própria opção pelo transporte alternativo retira a responsabilidade dos entrevistados por essa escolha, já que afirmam que essa opção é uma questão de sobrevivência. Ou seja, com o surgimento dos loteiros (também chamados clandestinos), dos mototaxistas (em Campina Grande) e a falta de passageiros, os taxistas foram obrigados a fazer outro tipo de transporte, que é ilegal, mas que se justifica nesses discursos devido à concorrência e à necessidade de sobrevivência.

Os discursos desses taxistas revelam identidades que estão "em movimento", que são típicas das sociedades modernas. Identidades fragmentadas, maleáveis e ambíguas, que se deslocam em diferentes direções, diante das múltiplas possibilidades de "ser" existentes na atualidade.

 

Nota

1 Para salvaguardar o nome dos entrevistados, utilizaremos pseudônimos.

 

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Recebido: 22/10/2007
Revisão: 04/08/2008
Aceite final: 05/09/2008

 

 

Thelma Maria Grisi Velôso é Mestre em Serviço Social (UFPB, 1990); Doutora em Sociologia (UNESP, 2002). Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Endereço: Rua: Hortêncio Osterne Carneiro, 509. Ap. 402. Bessa. João Pessoa/Pb. CEP 58035-120. E-mail: thelma.veloso@ig.com.br
Pedro de Oliveira Filho é Psicólogo (UEPB, 1992); Mestre em Psicologia Social (UFPB, 1997); Doutor em Psicologia Social (PUC/SP, 2003). Professor do Departamento de Psicologia e Orientação Educacional da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Vinculado ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFPE. E-mail: pedroofilho@ig.com.br
Carolina Silva de Medeiros é graduada em Psicologia (UEPB, 2007) e Mestranda em Psicologia Social na Universidade Federal da Paraíba.
Audizélia dos Santos Araújo é graduada em Psicologia (UEPB, 2008). Psicóloga do Centro de Assistência à Crianças Excepcionais (CACE), Campina Grande/Pb.

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