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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.21 no.spe Florianópolis  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822009000400012 

Língua e vida pulsional: o processo de representação da pulsão

 

Language and pulsional life: the process of representation of the pulsion

 

 

Luís Fernando Lofrano de Oliveira

Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo visa salientar a participação própria da língua na realização do processo de representação e na determinação da vida pulsional. Com base em conceitos do campo da psicanálise e em obras de S. Freud e J. Lacan, o presente estudo retoma considerações acerca do processo de representação e coloca em discussão a função desempenhada pela língua no seu potencial de simbolização da pulsão. Obtêm-se, com isto, precisões teóricas acerca das condições da realização do processo de representação da pulsão.

Palavras-chave: língua; pulsão; representação


ABSTRACT

This paper aims at emphasizing the participation of language itself in the making of the representation process and in the determination of the pulsional life. Based on concepts of the psychoanalysis field and on the work of S. Freud and J. Lacan, the present study resumes considerations about the representation process and discusses the function of language on its potential for symbolization of the pulsion. As a result we obtain theoretical precisions regarding the conditions of the making of the representation process of pulsion.

Keywords: language; pulsion; representation.


 

 

A importância que Freud concede à produção verbal é evidente ao longo de toda sua obra. Desde seus primeiros textos, como é o caso de "A interpretação das afasias" (1891b), o autor propõe reflexões relevantes acerca do tema da linguagem. Mesmo tendo sido escrito numa época precedente à sua obra psicanalítica, o referido texto contém considerações detalhadas sobre o funcionamento de um aparelho de linguagem próprio dos humanos. Trata-se de considerações que vêm, mais tarde, a ser reunidas sob o título de "Palavra e coisa" como apêndice do texto "O inconsciente" (1915/1987d), mostrando-nos que elas se antecipavam à criação de noções que se tornaram tão fundamentais em psicanálise como a função mesma da fala.

De fato, o autor condiciona o afazer em psicanálise ao exercício da língua. Seu trabalho concernente às formações do inconsciente - seja acerca do sonho, do lapso, do chiste ou do sintoma - está condicionado à atrelagem do psiquismo humano à língua. As palavras, as frases ou outras produções verbais, com seus componentes sintáxicos, suas pontuações, etc., constituem o suporte material, necessário e suficiente, sobre o qual Freud baseia o trabalho em psicanálise.

Outros psicanalistas, seguindo Freud, também colocaram o acento, em suas teorizações, sobre o papel fundamental da língua no funcionamento psíquico. Entre eles, destaca-se J. Lacan. Durante um período considerável da obra deste autor, sua produção teórica incluiu estudos sobre a língua e mesmo noções oriundas do campo da lingüística. De certa maneira, os leitores da sua obra são levados a perceber a importância atribuída por Freud à língua, sobretudo pelo papel que ela desempenha tanto na realização dos processos psíquicos como na constituição das chamadas formações do inconsciente.

Com base na leitura de obras de Freud e de Lacan, o presente estudo propõe-se, em geral, a destacar certas peculiaridades da língua que oportunizam a realização dos processos psíquicos e a constituição das formações do inconsciente. Em especial, tal proposta visa salientar a participação própria da língua na realização do processo de representação e na determinação da vida pulsional. O foco deste estudo centra-se, para tanto, no exercício de uma língua como condição para a realização do processo de representação da pulsão.

O desenvolvimento desta proposta de estudo dá-se pela retomada da noção freudiana de representação. O interesse de retomar esta noção está na precisão que se pode obter, através da consideração de seus detalhes, quanto à função da imagem e da linguagem na simbolização da pulsão. Ao nosso ver, a premência de que se obtenham precisões acerca do potencial e dos limites da imagem e da linguagem na realização dos processos psíquicos tem lugar devido à tendência, observável em nossos tempos, de considerar inquestionável a preponderância das imagens nesses processos ou a pretensa efetividade simbólica do mero exercício da língua. O presente estudo coloca em questão essa tendência e nos mostra a relevância de que se atente ao potencial e aos limites da imagem e da linguagem na realização, em especial, do processo de representação da pulsão. Tais precisões podem, sobretudo, colaborar para o desenvolvimento de outros estudos acerca da efetividade deste processo e de sua repercussão em contextos de ordem social diversos.

O principal interesse deste estudo está, portanto, nas precisões teóricas que podem advir de uma retomada do tema da representação em psicanálise e de sua colocação em discussão. Trata-se de situar, na discussão deste tema, o papel desempenhado pela imagem e pela linguagem na constituição e no encadeamento das unidades que compõem as formações do inconsciente.

Justamente, a constituição e o encadeamento de unidades da expressão verbal dos indivíduos é o que caracteriza o exercício de uma língua. Língua, aqui, refere-se a um sistema morfológico de traços perceptíveis. Encontramos uma língua, segundo nossas proposições, onde houver possibilidades determinadas de constituição e encadeamento das unidades da expressão verbal. Dito de outro modo, onde houver uma língua temos uma sintaxe. Notemos ainda, como precisão terminológica, que reservamos o termo linguagem para referirmo-nos ao exercício de uma língua. Seguimos Saussure, no sentido de que "A linguagem é um fenômeno; é o exercício de uma faculdade que existe no homem. A língua é o conjunto de formas concordantes que esse fenômeno assume numa coletividade de indivíduos e numa época determinada." (Saussure, 2004, p. 115). Assim, empregamos distintamente os termos língua e linguagem ao longo do presente texto.

Interessa-nos destacar, em especial, que a operação dos processos psíquicos através dos quais se constituem as formações do inconsciente encontra suporte material em elementos de uma língua. Seguimos autores da psicanálise ao entendermos que esses processos se tornam efetivos em função das possibilidades de articulação próprias a esse suporte. Nesse mesmo sentido consideramos que o exercício de uma língua se limita às possibilidades de articulação ditadas por sua sintaxe e que, conforme escreve J. Lacan a esse respeito, ele é indispensável para a constituição das formações do inconsciente. Numa passagem de texto em que este autor reconsidera algumas de suas formulações anteriores sobre linguagem e inconsciente, ele chega a dizer: "a linguagem, portanto, como fiz transcrever no texto revisto de uma tese, é a condição do inconsciente." (Lacan, 2003, p. 448). De nossa parte, entendemos que a linguagem seja condição do inconsciente pelo fato da realização do processo de representação da pulsão estar condicionada, conforme veremos a seguir, ao exercício de uma língua.

Admitindo-se que o inconsciente tem como condição o exercício de uma língua, é preciso observar que ele implica a dimensão do social. Não se trata, aqui, de demonstrar que o inconsciente implica o social pelo simples fato de considerar-se a linguagem como sua condição. Destacamos, sobretudo, que o inconsciente pode encontrar inscrição no social na medida em que a pulsão esteja atrelada a uma língua. Isto nos é demonstrado pelo fato mesmo da transferência, este laço social especial e de ordem inconsciente, decorrente da situação de trabalho em análise. Nela, o pulsional pode ser atualizado à condição de que a sua realização ocorra privilegiadamente no campo da linguagem. Assim, o social interessa ao trabalho em psicanálise, sobretudo, enquanto campo da linguagem e âmbito da pulsão.

Por um lado, como campo da linguagem e âmbito pulsional, o social contextualiza as possibilidades e os limites do processo de representação. Por outro, a própria configuração do social atende à realização deste processo através do qual se atrelam língua e pulsão. Frente a tais considerações, deparamo-nos com a importância de um estudo sobre o processo de representação que seja detalhado a ponto de permitir avanços quanto a indagações acerca da determinação dos contextos e das configurações do social. De nossa parte, o detalhamento que tratamos de situar refere-se, como dissemos mais acima, ao papel da linguagem e da imagem nesse processo.

Tratamos de reunir, a seguir, considerações e argumentos que podem, ao nosso ver, colaborar para futuros avanços na teorização referente às indagações acima mencionadas. Para isto destacamos, primeiramente, o interesse teórico da noção de representação em psicanálise. Com base em nossa leitura de diversas obras, principalmente de S. Freud, e conforme sustentamos no texto de nossa tese (Oliveira, 2002), entendemos a representação em psicanálise como representação da pulsão. Assim entendida, a noção de representação encontra-se no centro de nossas considerações sobre a vida pulsional.

 

A Representação da Pulsão

Concebemos o processo de representação como decorrente da iniciativa subjetiva de atualizar a pulsão e como determinante da vida pulsional. De nossa parte, propomo-nos a verificar em que sentido o exercício da língua é condição para realização desse processo. Para isto, tratamos de retomar a noção freudiana de representação. Essa retomada implica, por sua vez, privilegiar também a noção de pulsão.

Retomemos, pois, a noção freudiana de representação. Partimos, para isto, da consideração de certos conteúdos nocionais do termo Vorstellung, empregado por Freud. Trata-se de conteúdos ligados a este próprio termo, ao seu emprego em língua alemã, mas também a sua tradução para o português. Uma vez evidenciados estes conteúdos, enfocamos certas particularidades desta noção.

O termo Vorstellung, da língua alemã, é habitualmente traduzido por "representação". Esta tradução é aproximativa, considerada por vezes pouco satisfatória, conforme o observa M. Safouan. Segundo este autor, Vorstellung é uma "palavra intraduzível para a qual 'idéia' e 'representação' são equivalentes inadequados." (Safouan, 1988, p. 44). Estamos de acordo com esta observação concernente à dificuldade da tradução de Vorstellung. Entretanto, chamamos a atenção para o fato que a tradução deste termo por "representação" tem, para nós, uma importância certa, na medida em que nos permite avançar algumas de nossas proposições.

O termo representação designa a ação de representar. Tal como ela é concebida em psicanálise, esta ação tem um papel essencial no funcionamento psíquico e está estreitamente ligada à moção pulsional. De fato, as possibilidades de ação de um sujeito e de inserção da sua atividade no social estão condicionadas aos processos pelos quais ele representa a pulsão. Nesse sentido, do mesmo modo que a vida pulsional é social e decorrente da representação, a pulsão não representada se torna anti-social e ganha o nome de pulsão de morte.

Como tradução de Vorstellung, o termo representação permite-nos progredir se tomarmos o verbo "representar" em sua primeira acepção. Etimologicamente, "representar" significa "tornar presente". A partir dessa etimologia, o termo representação permite-nos precisar a ação psíquica própria da Vorstellung quando ela implica a pulsão. Trata-se da ação de "tornar de novo presente" a moção pulsional.

Ao introduzir e desenvolver a noção teórica de representação em sua obra, Freud nos dá a entender que, paradoxalmente, a ação de representação consiste em tornar de novo presente, ao nível psíquico, o que nunca esteve presente senão no registro da alucinação, isto é, a pulsão, através de seu objeto. Com seu prefixo "re-" e seu sentido de "novamente", o termo representação comporta bem a ligação, via alucinação, proposta por Freud entre a Vorstellung e a percepção.

Consideremos a ação de representar a pulsão com base na primeira acepção do verbo representar. Ao pé da letra, a expressão "representação da pulsão" tem o sentido da "ação de tornar de novo presente a moção pulsional". Literalmente, o termo representação convida a ver, no prefixo "re-", uma evocação da repetição essencial à pulsão. De fato, a repetição é um resultado natural do processo de representação da pulsão, no que ele está destinado a alcançar em parte o seu propósito de "tornar de novo presente a pulsão". Referimo-nos, aqui, ao caráter parcial e aos limites da representação da pulsão.

"De novo presente" nos envia também ao Seminário 20 de Lacan, Encore, em que o autor avança na definição do mecanismo da repetição. Ao invés de considerar a repetição como um momento segundo no encaminhamento da moção pulsional, ele propõe que o prefixo "re-" seja entendido como ligado a "res" - "coisa" em latim -, colocando o acento na natureza real do objeto atribuído à pulsão. Com Lacan, pois, pensamos que a repetição deve ser compreendida como o trabalho mesmo de representação da moção pulsional. Com o termo encore - que na pronúncia em francês soa como en corps, "em corpo" - Lacan sublinha também a dimensão corporal implicada nos destinos da pulsão.

Seguindo Lacan, diríamos que alguém se subjetiva quando representa encore a pulsão. Isto é, quando torna a pulsão presente de novo em função do investimento de traços da percepção que, por sua vez, é corporal. Precisamos, pois, designar este processo como uma ação pela qual o corpo se torna social enquanto sede da pulsão. Referimo-nos aqui às experiências de tempo e de espaço pelas quais o processo de representação implica o corpo de quem promove a passagem da pulsão pela língua. Eis aí a dimensão corporal de um processo que se dá encore, quer dizer, de novo, no corpo e com o outro.

A ação à qual nos referimos é de caráter social. Mais do que a algum movimento específico, referimo-nos com o termo ação a uma iniciativa de ordem psíquica que é corporal, no sentido acima mencionado, e que é social, uma vez que conta com o outro. Entendemos nesse mesmo sentido quando Freud escreve que "O ataque histérico não é uma descarga mas uma ação; e conserva a característica original de toda ação: ser um meio de reprodução do prazer." E, na seqüência, que "Os ataques de vertigem e acessos de choro - tudo isso tem como alvo uma outra pessoa - mas, na sua maior parte, uma outra pessoa pré-histórica, inesquecível, que nunca é igualada." (Freud, 1950/1987c, p. 287) Nesse sentido, enquanto ação, a representação está destinada à reprodução do prazer e voltada para o outro. Nisto ela se difere do sonho, por exemplo, que é uma produção considerada por Freud como egoísta.

A afirmação de Freud de que "Os sonhos são atos psíquicos..." (Freud, 1900/1987a, p. 564) faz alusão, ao nosso ver, ao caráter singular do sonhar. Em termos gerais, diríamos que o ato é singular e que a ação se dá com o outro, do mesmo modo que o sonho é uma vivência que não se compartilha senão através da ação do processo de representação, pelo qual ele se torna formação do inconsciente. O ato está no sonhar e a ação está em fazer dele uma vivência, ou seja, em fazê-lo passar pela língua.

Retornemos à noção de Vorstellung tal como ela foi avançada por Freud a partir de seu trabalho com as chamadas formações do inconsciente. Ao longo de seus textos dedicados ao sonho, ao lapso e ao chiste, Freud serve-se do termo Vorstellungen para referir-se às unidades cujo encadeamento dá lugar à constituição dessas formações. Propomos, aqui, para fins de precisão terminológica em nosso estudo, um desdobramento da tradução do termo freudiano Vorstellung. Com tal propósito empregamos doravante o termo no singular, "representação", no sentido de "ação de representar a pulsão". O emprego do termo no plural, "representações", fica reservado para designar os "traços de percepção investidos por meio desta ação". Guardando-se esta distinção e a regularidade do seu emprego no presente texto, advertimos que o primeiro se refere ao processo de representação e o outro aos elementos resultantes da sua operação.

Dito de outro modo, propomo-nos a denotar com o termo "representações", no plural, uma espécie de precipitado, sob forma de traços materiais, resultante da ação de ordem psíquica que chamamos de "representação", no singular. A ação psíquica da qual se trata é a de investimento libidinal de traços da percepção. Desta ação resultam formas materiais e presumidamente perceptíveis de traços obtidos direto das coisas, no caso das representações de coisa, ou de traços elementares de uma língua, no caso das representações de palavra.

Lembremos aqui a diferença entre representações de coisa e representações de palavra, que é apresentada por Freud no texto sobre as afasias (1979) e retomada em "O inconsciente" (1915/1987b). Com essa diferença, o autor nos aponta resultados distintos do processo de representação, que reúnem imagens e constituem complexos de natureza diversa. Sob o privilégio das imagens visuais, no caso das representações de coisa, ou das imagens acústicas, no das representações de palavra, esses complexos articulam-se uns com outros. Importa-nos destacar que se trata, tanto num caso como no outro, de complexos de imagens oriundas da percepção resultantes do processo de representação da pulsão. Destacamos, com Freud, que a articulação entre representações de coisa e representações de palavra é considerada como simbólica e como constituinte das representações de objeto.

Nos termos de Freud, "O que livremente denominamos de apresentação [Vorstellung] consciente do objeto pode agora ser dividido em representação da palavra e na representação da coisa." (Freud, 1915/1987d, p. 205). Neste sentido, o objeto da pulsão seria concebido por um processo simbólico em que se articulam complexos distintos de imagens. Nesse processo, o estatuto de imagem das unidades reunidas sob cada complexo fica suspenso quando os diferentes complexos se articulam, do mesmo modo que as letras quando se constituem as palavras e as palavras quando se formam as frases. De nossa parte enfatizamos a peculiaridade desse processo ao dizer, por um lado, que a representação faz a pulsão passar pela língua e, por outro, que ela precisa ser considerada simbólica mais por atrelar representações complexas de natureza distinta do que por encontrar suporte material em palavras.

Entendida no sentido da ação de representar, a representação equivale à evocação de uma presença. A dimensão de uma eventual presença, mantida através desse processo, aplica-se particularmente ao objeto da pulsão. Mais precisamente, a presença evocada pela representação é a da moção pulsional, através de seu objeto.

Notemos que, por representação, o objeto da pulsão é apenas evocado. A realidade mesma da presença evocada seria de outra ordem que a da representação. De fato, para o agente da representação, a realidade da presença do objeto da moção pulsional tende a adquirir dimensão alucinatória. Nesse sentido seguimos Freud em suas considerações a respeito dos sonhos. Com base no trabalho realizado a partir das representações, este autor conclui que o sonho é uma realização de desejo. Ele observa, ainda, que esta realização é de caráter alucinatório. Nas palavras do autor, "o reaparecimento da percepção é a realização do desejo." (Freud, 1900/1987a, p. 516). Retomando sua teorização, entendemos a representação como uma proposição destinada a tornar presente a pulsão através da evocação de seu objeto. Sob o processo de representação, a presença da pulsão é promovida por simbolização, enquanto a presença do seu objeto só ocorre por alucinação.

Destacamos, mais uma vez, que se trata do processo de representação da pulsão, e não de representação do seu objeto. De certa maneira, a pulsão é representada ao custo de que o seu objeto não o seja. Assim, por conta desse processo, fica reservada ao objeto da pulsão a impossibilidade de representação. Tal impossibilidade é concebida, logicamente, com relação às possibilidades próprias do processo de representação. Situamos, a seguir, alguns dos aspectos da participação da língua na determinação dessas possibilidades.

 

A língua no processo de representação da pulsão

Interessa-nos situar a função da língua tanto na simbolização da pulsão como na falta de representação do seu objeto. De fato, para ser representada, a moção pulsional deve passar necessariamente pelo suporte concreto dos elementos de uma língua. Uma vez que essa moção encontra suporte em certos traços dos elementos da língua, a pulsão torna-se de novo presente. Dito de outro modo, é preciso suporte da língua para conceder um caráter irrepresentável ao objeto e obter, com isto, acesso à simbolização da pulsão.

Sabemos, com Saussure, que as unidades da língua não são as palavras, mas os signos lingüísticos. Segundo ele, "O signo lingüístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica." (Saussure, 1972, p. 80). Pela referida união entre dois opostos, esses signos constituem-se em elementos de articulação mediante o exercício da língua. Do mesmo modo, as representações de objeto constituem-se pela reunião de complexos de natureza distinta - representações de coisa e representações de palavra - em unidades que vêm encontrar suporte concreto nos traços elementares da língua e que, associadas, viabilizam o processo de representação da pulsão. O processo em questão é, pois, o de constituir e associar essas unidades de representação. Nesse sentido, ele consiste na atrelagem da moção pulsional a uma língua e está condicionado às possibilidades determinadas de constituição e articulação dos seus elementos.

Ao atrelar a pulsão à língua, o processo de representação traz determinação ao que, a partir de então, se chama de vida pulsional. A concepção desta última está, de fato, condicionada a que as formações resultantes deste processo consistam numa composição de determinados elementos de uma língua. Tais formações, ora discursivas, estão endereçadas ao social. Seu destino é o de encontrar, em algum ponto do social, uma leitura ou uma escuta que reconheça, em suas componentes, formas unitárias distintas e articuladas. Essas formações ganham aptidão para representar a pulsão desde que suas componentes adquiram, mediante leitura ou escuta, status de representações.

Freud apresenta-nos, através da análise dos sonhos, a primeira das características das representações: trata-se de elementos de articulação. De acordo com suas demonstrações em "A interpretação dos sonhos", basta que determinadas associações tenham lugar mediante a análise do sonho para que as representações se produzam e se constituam em unidades de articulação. O autor considera como próprio da representação que ela "estabeleça ligações" (Freud, 1915/1987b, p. 172). De nossa parte, tendemos a complementar essa reflexão dizendo que o processo de representação estabelece ligações entre as representações e, com isto, entre os círculos de pensamento.

As representações são tratadas por Freud como uma espécie de denominador comum ou "entidades intermediárias comuns" entre diversos círculos do pensamento. (Freud, 1900/1987a, p. 286). Esta comunidade própria das representações, enquanto elementos comuns a círculos de pensamento diversos, concretiza-se em certos traços de palavras ou termos através dos quais os pensamentos encontram expressão. Esses traços destacam-se e promovem articulações "... por assonância, ambigüidade, coincidência temporal sem coincidência interna de sentido, ou por qualquer associação do tipo que permitimos nos chistes ou nos trocadilhos." (Freud, 1900/1987a, p. 486). Trata-se de traços que, ao mesmo tempo, permitem uma articulação entre diversos círculos de pensamento e tornam viável a conexão entre as representações. Assinalamos este fato para sublinhar que os termos de uma língua aparecem no discurso como o suporte concreto privilegiado da ligação entre as representações e entre os círculos de pensamento. Isto ocorre desde que o investimento daqueles termos seja supostamente uma ação em comum com outros, da comunidade de uma mesma língua.

Observemos também, de passagem, que as representações não se confundem com as próprias palavras ou termos de uma língua. Estes são apenas o suporte material para a sua constituição. E elas não se confundem, tampouco, com as componentes dos pensamentos entre os quais promove ligação. Destacamos, assim, o fato das representações constituírem-se, sobretudo, como elementos de conexão. Isto é indispensável para a representação da pulsão.

Segundo Freud, a moção pulsional pode, na vida psíquica, tomar uma das duas vias que lhe são possíveis. O autor evoca de maneira indireta estas duas vias declarando: "Se o instinto [Trieb] não se prendeu a uma idéia ou não se manifestou como um estado afetivo, nada poderemos conhecer sobre ele." (Freud, 1915/1987d, p. 203). Importa-nos sublinhar que, na ausência de outras alternativas, ou a pulsão é representada ou ela aparece sob estado de afeto. Fora destas duas vias, como o diz Freud, não se pode considerar nada quanto a ela. Nesse sentido, a determinação da vida pulsional depende das possibilidades de representar a pulsão, uma vez que pela via dos afetos ela guarda a característica de indefinição. Isto quer dizer que os aspectos pelos quais a pulsão se revela - o impulso, o alvo, o objeto e a fonte - somente podem ser definidos mediante o processo de representação.

As possibilidades de representação da pulsão e de definição pulsional dependem, por sua vez, de que a efetivação desse processo encontre suporte em certos elementos da língua. Esses elementos podem ser uma palavra ou parte de uma palavra, bem como um conjunto de palavras ou letras. Seguindo Freud percebemos que se produz, ao nível dos elementos da língua, algo equivalente à decomposição e composição de sílabas, como uma espécie de química das letras, permitindo a constituição e o encadeamento das representações.

Por meio da análise que Freud faz dos sonhos, as representações ganham caráter definido. O fato dele colocar em evidência este caráter mostra-nos que as representações são consideradas, para efeitos de análise, enquanto unidades. De fato, a consideração das representações como unidades permitiu a Freud chegar a formulações referentes a certos processos psíquicos. Ele chega à formulação do processo de condensação, por exemplo, considerando a intensidade das representações por ele isoladas como indício de que elas se constituem em unidades de representação. Ele escreve: "...a intensidade máxima é exibida pelos elementos do sonho em cuja formação se despertou o maior volume de condensação." (Freud, 1900/1987a, p. 315). E segue:

As intensidades das representações individuais tornam-se passíveis de descarga en bloc e passam de uma representação para outra, de modo que se formam certas representações dotadas de grande intensidade. E, uma vez que esse processo se repete várias vezes, a intensidade de toda uma cadeia de pensamentos pode acabar por concentra-se num único elemento de representação. (Freud, 1900/1987a, p. 540).

O autor faz aí referência ao papel da intensidade psíquica na formação unitária das representações. Interessa-nos enfatizar, com esta citação, propriedades constitutivas das representações. Destacamos, em especial, a sua individualidade e o seu potencial de articulação. Assim constituídas, elas podem tornar-se elementos diferenciais e ter lugar, "...como pontos nodais ou resultados finais de cadeias inteiras de pensamentos." (Freud, 1900/1987a, p. 540).

Com base nestas citações, que consideram a intensidade de investimento dos elementos do sonho, colocamos em valor o fato que os complexos de representação se formam através da conexão de diferentes unidades, que são as representações. No entanto, como Freud, não pensamos que a intensidade de investimento seja decisiva para que elas se constituam. O seu caráter unitário sim é decisivo, como condição necessária ao cumprimento de operações tais como as do processo de condensação.

Seguindo aqui uma das acepções do termo Vorstellung, a de proposição, consideramos as representações, de início, como proposições destinadas a tornarem-se formas. Trata-se de proposições de investimento libidinal. Para alcançar o destino de se tornarem formas determinadas, essas proposições antecipam-se na suposição da possibilidade de serem investidas. Para isto, como dissemos mais acima, elas são endereçadas ao social. Referimo-nos aqui ao contexto no qual se concebe a alteridade e se supõem olhares. Esses olhares, que querem dizer aqui potencial de investimento libidinal, são buscados mediante o referido endereçamento das proposições. Em busca de uma confirmação no social da possibilidade de investimento dessas proposições, elas tendem a ganhar forma definida e status de representações.

Certamente, a formação de imagens é tão indispensável quanto a alteridade para a constituição das representações. Sobretudo para que as proposições de representação - as Vorstellungen - adquiram seu caráter unitário. Destacamos, assim, que o investimento libidinal vem recair sobre certos traços que, como diz Freud, terão sido de percepção. De nossa parte, dizemos que as representações resultam do investimento libidinal de traços que terão sido de percepção ao adquirirem caráter unitário sob forma de imagem.

Observamos, também, que a noção mesma de unidade é concebida a partir de um princípio de seriação. Esse princípio revela-se, mediante análise das formações psíquicas, pelo fato das formulações casuais darem lugar a composições discursivas em que cada elemento se torna parte de uma série determinada, como o demonstra Freud em seu texto sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Com efeito, tomadas enquanto unidades na análise de sonhos ou lapsos, as representações constitutivas dessas formações favorecem a concepção de séries de representação. De certa maneira, a concepção mesma das representações, como unidades, implica a seriação da qual elas vêm fazer parte.

As representações mostram, assim, uma outra de suas propriedades: seu caráter parcial. Sob algum olhar de alteridade, as representações constituem-se sempre como partes, pois cada uma delas é situável somente enquanto componente de uma série ou de um complexo de representação. Situamos especialmente nesta propriedade das representações a razão pela qual a vida pulsional adquire caráter parcial. Ou seja, antes de dizer que a pulsão é parcial, consideramos o fato que, por conta do processo de representação, a vida pulsional toma obrigatoriamente um caráter parcial. Esse caráter parcial da vida pulsional é, por sua vez, uma conseqüência da atrelagem da pulsão à língua por meio da constituição de unidades de representação que se articulam, umas a outras, sempre enquanto partes.

Os elementos da língua supostamente compartilhada no social consistem em suportes para constituição das representações. Nos contextos sociais, a meio caminho entre quem propõe e quem percebe, as formas previstas pela sintaxe dessa língua prestam-se para a composição das proposições enquanto passíveis de investimento libidinal. Mediante investimento, as representações encontram suporte em imagens que se formam com o destino de se tornarem elementos de articulação e, portanto, de deixarem para trás o seu caráter unitário.

Referimo-nos, assim, à desfiguração própria da leitura ou da escuta que procede com as unidades de representação do mesmo modo que, de regra, com os elementos de uma língua. Através de leitura ou escuta, as representações perdem seu status de imagem para tornarem-se componentes de séries ou complexos de representação. Trata-se, na desfiguração, da destituição do caráter unitário de imagem que elas adquiriram por investimento libidinal.

A ilustração mais evidente do que ocorre com as representações mediante leitura ou escuta está no que acontece com as letras ou fonemas por ocasião desses procedimentos. Por meio de leitura ou escuta, o estatuto de unidade e de imagem próprio de cada letra ou fonema altera-se quando se compõem, com elas, outras formações unitárias como a das palavras. O destino dessas últimas também é, por sua vez, o de subsumir enquanto elementos da composição formal das frases. E assim por diante. Em outros termos, a unidade própria das letras ou dos fonemas é, ao mesmo tempo, concebida e colocada em suspensão pela leitura ou pela escuta, até que se determine a composição do discurso. A suspensão em questão nesses procedimentos dura o tempo preciso para que essas formações unitárias encontrem seu destino de desfiguração.

Ilustra-se, assim, o potencial figurativo das unidades de representação e o seu destino de desfiguração. Como vimos, esse potencial disponibiliza-se desde que o processo pelo qual elas se constituem e se articulam encontre suporte em elementos da língua. Assim, o exercício de uma língua aparece-nos como condição necessária, mas não suficiente, para que esse processo comporte simbolização da pulsão. Para isto é preciso que as representações consumem seu destino de desfiguração.

A consumação da qual se trata é conhecida do psicanalista que testemunha os efeitos da simbolização da pulsão. Na sua prática, ele encontra alguns analisandos que admitem a desfiguração das representações com simbolização da pulsão - os neuróticos - e outros que não admitem - os psicóticos. Eis aí, a nosso ver, um divisor de águas quanto ao posicionamento ético de quem opera a partir do processo de representação e uma razão prática para que se reflita sobre a função da língua na simbolização da pulsão.

 

A língua e o potencial de simbolização da representação

Segundo nossas considerações, o potencial de simbolização do processo de representação corresponde a essa aparente perda do investimento libidinal pelo qual as representações se constituem. Essa presumida perda de investimento pode ser pensada como preço cobrado para que a representação da pulsão dê lugar a operações de simbolização. Justamente, a vacuidade, ou, em termos de lógica da linguagem, a negatividade primária, decorrente da destituição do status de imagem das representações pode sediar operações de ordem simbólica.

Entendemos que Freud faz menção a isso em "A interpretação dos sonhos", referindo-se ao processo de deslocamento, em que cada uma das representações pode dar lugar a outra. Em suas formulações sobre o trabalho do sonho, ele demonstra que, por deslocamento, as representações delineiam, nas formações psíquicas, lugares determinados. Trata-se, para o autor, de demonstrar os limites estritos em que as representações se constituem como substitutos.

Para Freud, o processo de deslocamento tem lugar ao longo da cadeia associativa e pode ser de dois tipos. Além de um primeiro tipo, em que vem "...consistir na substituição de alguma representação particular por outra...", o autor menciona uma outra modalidade de deslocamento que, diz ele, "...se revela numa mudança da expressão verbal dos pensamentos em causa." (Freud, 1900/1987a, p. 323).

Em ambos os casos há um deslocamento ao longo de uma cadeia de associações; mas um processo de tal natureza pode ocorrer em várias esferas psíquicas, e o resultado do deslocamento pode ser, num caso, a substituição de um elemento por um outro, enquanto o resultado em outro caso é o de um elemento isolado ter sua forma verbal substituída por outra. (Freud, 1900/1987a, p. 323).

Segundo estas formulações, o processo de deslocamento opera a substituição dos elementos que compõem as formações discursivas. Assim, além de colocar o acento no potencial simbólico deste processo, pelo fato da substituição, estas passagens do texto de Freud apontam para uma distinção entre as representações e os elementos da língua que as suportam. De certa maneira, o autor dá a entender que as representações não se confundem com as formas verbais. Estas últimas não são senão o suporte concreto privilegiado da representação da pulsão, para a precipitação de investimento libidinal em cada traço passível de encarnar uma representação.

Ainda em "A interpretação dos sonhos", Freud deixa perceber uma outra distinção que nos ajuda a precisar a noção de representação. Ela consiste em considerar distintamente os pensamentos e as representações. Escreve o autor:

Não só os elementos de um sonho são repetidamente determinados pelos pensamentos do sonho como também cada pensamento do sonho é representado neste último por vários elementos. As vias associativas levam de um elemento do sonho para vários pensamentos do sonho e de um pensamento do sonho para vários elementos do sonho. (Freud, 1900/1987a, p. 276).

Além de colocar o acento no fato que o sonho não se forma a partir de uma correspondência entre os seus próprios elementos e os pensamentos oníricos, o autor constata que esses pensamentos não se confundem com aqueles elementos. Na formação do sonho, os pensamentos são, segundo Freud, sub-rogados pelas representações. Isto nos mostra, mais uma vez, o potencial de simbolização das representações, aptas a operarem a substituição de pensamentos.

No que concerne à eleição das representações, Freud considera "...toda massa de pensamentos do sonho, submetida a uma espécie de processo manipulativo em que os elementos que têm suportes mais numerosos e mais fortes adquirem o direito de acesso ao conteúdo do sonho." (Freud, 1900/1987a, p. 276). O valor secundário da intensidade de investimento das representações na eleição dos conteúdos do sonho é mencionado pelo autor na seguinte afirmação: "descobrimos que, no caso dos diversos elementos dos pensamentos do sonho, esse tipo de valor não persiste ou é desconsiderado no processo da formação do sonho." (Freud, 1900/1987a, p. 295). Seguindo essas considerações, entendemos que a atenção dirigida aos elementos do sonho em análise recaia sobre outros atributos do que o da intensidade de investimento das representações.

Freud segue, nesse sentido, dizendo:

...é como se nenhuma atenção fosse dispensada à intensidade psíquica das várias representações ao se proceder à escolha entre elas para o sonho, e como se a única coisa considerada fosse o maior ou menor grau de multiplicidade de sua determinação. O que aparece no sonho, poderíamos supor, não é o que é importante nos pensamentos do sonho, mas o que neles ocorre repetidas vezes. (Freud, 1900/1987a, p. 295).

Sobretudo, o que conta para a seleção onírica é o caráter multilateral da determinação dos seus elementos, independentemente do montante do seu investimento. Entendemos que o autor faz, assim, referência a que o que conta para a eleição das representações é o fato da sua participação na formação psíquica tornar possível a simbolização da pulsão.

Assim como consideramos a atividade pulsional enquanto resultado da representação da pulsão, pensamos que a inserção desta atividade ao nível do social é também uma conseqüência deste mesmo processo. Nesse sentido, além de tornar viável a simbolização da pulsão, o processo de representação constitui-se num fator de socialização da moção pulsional. Tanto a simbolização como a socialização da pulsão tornam-se viáveis pela representação, ou seja, pelo processo psíquico através da qual a pulsão passa pela língua. Para que esta passagem seja possível, é necessário que se constituam representações. E, como vimos até aqui, para constituir representações é preciso encontrar suporte material nos elementos de uma língua. Notamos, nesse sentido, que a constituição das representações somente se dá sob certas condições.

Quanto às características do sistema da língua, observamos que ele se funda nas possibilidades de articulação de seus componentes, sejam estes letras, sílabas, palavras ou frases. Por meio de certas articulações, esses elementos podem ser encadeados em séries. A série construída por intermédio de um tal encadeamento está, por sua vez, submetida à lei que determina sua ordenação. Esta lei resulta, em parte, da sintaxe da língua, que faz com que os seus elementos sejam ligados, uns aos outros, segundo possibilidades de articulação definidas a priori. Eis aí um dos caminhos obrigatórios para a constituição das representações.

Há, portanto, constrangimentos aos quais é preciso fazer face para chegar à constituição das representações. Referimo-nos, por um lado, ao constrangimento da sintaxe da língua e, por outro, como veremos a seguir, ao constrangimento de imposições sociais. Trata-se mesmo de constrangimentos, pois a submissão do processo de representação a certas leis, tanto às da sintaxe quanto às do social, é indispensável para que se encontrem meios de aceder a uma vida pulsional determinada, isto é, a uma atividade pulsional organizada e passível de ser inserida num contexto social dado.

A lei que se estabelece ao nível da sintaxe determina certas possibilidades de combinação e de sucessão dos elementos da língua. Partindo desta determinação, com valor de lei, certas combinações e sucessões tornam-se impossíveis. De fato, é preciso encadear as representações segundo uma lei de articulação das unidades na composição das séries. Tal constrangimento é, pela natureza mesma da língua, de ordem lógica. A lógica em questão, que se revela no próprio exercício da fala, é determinada em função da impossibilidade de articular as unidades a não ser segundo as possibilidades definidas a priori pela sintaxe da língua. A lógica desta lei, que resulta da sintaxe da língua, é demonstrada em detalhes por Lacan na introdução do seu texto "Seminário sobre 'A carta roubada'" (Lacan, 1966, pp. 44-54). Interessa-nos destacar que uma lei constrange a composição das séries, não só dos elementos da língua mas também das representações; e coloca em jogo, por princípio, impossibilidades lógicas de articulação.

Do mesmo modo, a lei ditada pela ordem social resulta da determinação de certas possibilidades de associação das representações da pulsão. A determinação dessas possibilidades é resultado do estabelecimento de certas impossibilidades de representação, como as que concernem, privilegiadamente, a certos impulsos sexuais ou hostis. A inserção social da atividade pulsional depende do fato que o processo de representação esteja submetido à ordem social. E ainda, além da lei da sintaxe da língua e dos princípios da ordem social, o processo de representação da pulsão está regulado pelas impossibilidades de representação decorrentes das operações de recalcamento ou de forclusão. Resulta daí que a constituição e o encadeamento das representações se tornam estritamente determinados.

Em suma, ao encontrar suporte concreto em elementos da língua, as representações constituem-se de forma a associarem-se enquanto unidades de séries e partes de complexos de representação. Assim constrangida, por condições de ordem social e da língua em que encontra suporte, a sua formação lhes concede seu principal potencial: o de determinação da vida pulsional e, eventualmente, o de simbolização da pulsão.

O potencial acima referido verifica-se, de fato, na experiência da psicanálise. Nela, a escuta está direcionada às formulações discursivas do analisando que, no quadro de uma transferência, é levado a falar sem a lógica do pensar. Trata-se, por ocasião desta experiência, de produzir formulações mediante a suspensão das leis da língua e da ordem social. Nessa ocasião, em que pela escuta se pode promover tanto a formação de imagem na constituição das representações como a desfiguração delas na articulação de umas a outras, o analista eventualmente opera por interpretação. Referimo-nos, aqui, à eventual produção do que Freud chamou de Vostellungsrepräsentantz, o representante da representação, ou, como foi traduzido em português, "a idéia que representa um instinto" (Freud, 1915/1987d, p. 171). A este representante, Lacan deu o nome de significante em tributo, diríamos nós, à função que a língua tem na sua constituição.

Consideramos, pois, o representante da representação como produto da interpretação do psicanalista que, por sua vez, está baseada na formação de representações. De fato, mediante a operação de interpretação, que ocorre na esteira da escuta, o analisando encontra suporte tanto de figuração como para desfiguração das suas representações em algum material da língua que adquire, eventualmente, caráter simbólico enquanto representante da representação da pulsão. Em posição de sujeito do inconsciente, como diria Lacan, e entre os processos primários e secundários, como diria Freud, o analisando encontra em tais suportes os representantes, ora simbólicos, cujo encadeamento determina os limites e as possibilidades da sua iniciativa no social. Cabe ao analista, que conduz essa experiência do inconsciente, um discernimento acerca das funções da imagem e da linguagem na representação da pulsão, que é, ao nosso ver, o processo do qual esses representantes podem advir.

Cabe-nos, pois, promover esse e outros discernimentos na discussão sobre o processo de representação, tendo em vista uma teorização que contemple em detalhes a vida psíquica e social. Uma via para isto seria lembrar os estudos desenvolvidos acerca do significante, conforme ele foi proposto por Lacan. Para que se tome essa via, consideramos importante contar com o discernimento de que ele não se equivale às representações, tais como elas foram concebidas por Freud, mas que se destaca delas.

 

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Recebido em: 06/12/2007
Aceito em: 04/06/2009

 

 

Luís Fernando Lofrano de Oliveira é Doutor em Psicologia pela Universidade Paris 13 e Professor do Departamento de Psicologia da UFSM. Endereço para correspondência: Rua Ianne Thorstenberg, 121. Ijuí/RS. CEP 98.700-000. E-mail: luislofranodeoliveira@gmail.com