SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 issue1Youthfulness: a stage of life or a way of life?Under the reins of mobile phone? Social control, normalization and resistance author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.22 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822010000100007 

Juventude e afetividade: tecendo projetos de vida pela construção dos mapas afetivos

 

Youth and affection: making projects of life using the construction of affective maps

 

 

Daniela Dias Furlani; Zulmira Áurea Cruz Bomfim

Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil

 

 


RESUMO

A pesquisa teve como objetivo analisar projetos de vida de jovens de ambientes rural e urbano no Ceará, a partir da afetividade em relação ao ambiente do qual fazem parte. Participaram da pesquisa 38 jovens de ambos os sexos. Para apreensão dos afetos, utilizou-se o método dos mapas afetivos e para questões relacionadas ao projeto de vida foram utilizadas entrevistas. A análise dos dados qualitativos foi realizada por meio da análise de conteúdo e de uma análise estatística complementar. O fato de alguns jovens morarem em ambiente rural e outros em ambiente urbano não diferiu completamente seus projetos de vida. Jovens do ambiente rural tendem a buscar mais cedo trabalho. Jovens do ambiente urbano apresentaram queixa em relação à violência urbana. Conclui-se como sendo necessária a disseminação de práticas sociais que visem um posicionamento crítico do sujeito diante das questões sociais.

Palavras-chave: mapas afetivos; projeto de vida; psicologia ambiental; juventude; ambiente urbano-rural.


ABSTRACT

The goal of this research was to analyze the life projects of adolescents from rural and urban areas in the State of Ceara, taking into consideration their emotional bonds to the environment to which they belong. The sample was comprised of 38 male and female adolescents. The method of affective maps was used to assess emotions, and interviews were used to tap into participants' life projects. Content analysis and statistical analysis were used to interpret the qualitative data. Living in urban or rural areas did not make a difference on adolescents' life projects. Those of rural areas tend to seek work earlier in life. Those of urban areas presented concerns regarding urban violence. In conclusion, the wider use of social practices is necessary. Such practices ought to offer a critical position toward social concerns.

Keywords: affective maps; life project; environmental psychology, adolescence; urban-rural environments.


 

 

Introdução

A Psicologia Social de base histórico-cultural concebe o homem como um indivíduo inserido em um contexto histórico que é dinâmico, processual e mediado por relações sociais. Tal enfoque pretende um direcionamento crítico e reflexivo, que vai contra os postulados positivistas que naturalizam os fenômenos humanos e sociais. Muitos dos estudos e pesquisas em psicologia tratam do jovem e de fenômenos peculiares a essa fase de vida, a partir de uma concepção naturalista e universal. Isso acaba por produzir rotulações referentes à juventude, que levam à ideologização nas conclusões dos estudos.

Castro (2001) aponta para uma posição de investigação que abre mão do enfoque normativo, sequencial e evolutivo, dentro de uma lógica desenvolvimentista, em que a infância é o início do trajeto, passando pela juventude até a fase adulta. Considera que o modo como essas teorias concebem uma fase da vida, pelo desenvolvimento, prioriza o vir a ser, e não a dimensão presente, contextualizada, no aqui e agora. Tais teorias desenvolvimentistas consideram a infância e a juventude como fases necessárias para se alcançar a fase adulta, fase esta que é a central, pois as primeiras fases ficam convencionalmente estereotipadas com a imagem da imaturidade e irresponsabilidade. Castro (2001) reflete uma nova perspectiva: "que se rende à razão desenvolvimentista, mas que aposte na emergência do novo e do imprevisível" (p. 28). Essa posição acolhe as diferenças, a alteridade, aquilo que não está previsto, normatizado, que não pretenda a previsão do futuro. Referencia, a partir de um presente, recortes parciais de uma época, sem a presunção de assumir a configuração de teorias que deem conta de uma totalidade.

Tomando como base essa forma de entender a juventude, buscamos neste estudo a compreensão de aspectos relevantes da afetividade de jovens de duas realidades distintas: os jovens de um ambiente rural do interior do Ceará e os jovens de ambiente urbano em Fortaleza-CE. Relacionamos a afetividade (sentimentos e emoções) dos jovens com relação ao lugar onde moram e com o projeto de vida desses sujeitos.

Ao partirmos da perspectiva histórico-cultural, temos como concepção de homem um ser que, ao mesmo tempo, é produto e produtor da história. O fenômeno que propomos investigar, que se volta para a questão do projeto de vida de jovens, está envolto por uma realidade objetiva vivida pelos indivíduos e também por uma dimensão subjetiva de homens históricos. As dimensões (objetiva e subjetiva) não se excluem, mas sim dialogam entre si.

Consideramos, portanto, o homem como sujeito social que, imerso em relações sociais, tem a possibilidade de ir se desenvolvendo, estabelecendo trocas constantes com o meio em que se encontra e com outros sujeitos. Esses indivíduos são possuidores de uma referência cultural e histórica peculiar que influencia suas formas de sentir, pensar, agir e ser. Essa cultura é entendida como um resultado da atividade humana, que se configura em um meio social que modifica e é modificado pelo homem, estabelecendo-se assim uma unidade dialética (Freire, 1980). Partindo da concepção de Lane (1994), que afirma que "Emoção, linguagem e pensamento são mediações que levam à ação, portanto somos as atividades que desenvolvemos, somos a consciência que reflete o mundo e somos a afetividade que ama e odeia este mundo" (p. 62), buscamos priorizar a identificação dos sentimentos dos jovens relacionando-os com suas experiências de vida, a partir do ambiente onde vivem, e com seus projetos de vida.

Nossa pesquisa foi realizada com dois grupos de jovens. Os jovens de cada grupo foram indicados por líderes comunitários de cada região. Um dos grupos foi composto por jovens que vivem em um ambiente rural litorâneo, em Cruz, município localizado ao norte do estado do Ceará. O município se encontra a 243 km da capital (em linha reta), tem uma área de 334,83 km2 e população de 23.000 habitantes. Já o outro grupo foi formado por jovens que vivem em um meio urbano, na cidade de Fortaleza. Procuramos analisar essas duas realidades de vida (rural e urbana) por considerarmos relevante entender as relações entre fatores ambientais, psicossociais e projeto de vida.

Neste trabalho, buscamos analisar o projeto de vida dos jovens do ambiente rural e urbano a partir da afetividade (sentimentos e emoções) em relação às localidades das quais fazem parte. Ou seja, qual a relação que as escolhas, anseios, metas e desejos, que conferem sentido de vida aos jovens, podem ter com os sentimentos e emoções que os mesmos têm em relação ao lugar em que moram. Investigamos se características de cada ambiente (rural e urbano) influenciam na construção e escolha dos projetos de vida. Dessa forma, fazemos uma comparação entre os projetos de vida de jovens de ambientes distintos.

 

Objetivos

Fundamentamos-nos na investigação da afetividade (sentimento e emoções), evidenciando o caráter social das emoções. Para tanto, tivemos como objetivos:

Geral: Analisar os projetos de vida de jovens de ambiente rural no município de Cruz (CE) e de jovens de ambiente urbano em Fortaleza (CE), a partir da afetividade (sentimentos e emoções) em relação às localidades das quais fazem parte.

Específicos: Identificar projetos de vida de jovens do ambiente rural e urbano. Investigar como os ambientes urbano e rural podem influenciar na construção dos projetos de vida de jovens. Verificar se existe alguma relação entre intenção de migração de jovens do meio rural e urbano com seus projetos de vida.

 

Procedimentos metodológicos

Em termo de profundidade, o estudo será do tipo exploratório, de referência transversal, quanto ao tempo de execução, e terá como perspectiva o modelo de investigação humanista-interpretativo que, segundo Almeida e Freire (1997), comumente é designado de investigação qualitativa.

A amostra do tipo intencional foi composta por procedimento não-probabilístico, conforme os seguintes critérios de especificação da população: sujeitos jovens (entre 13 e 19 anos), de ambos os sexos e indicados por um líder da comunidade.

O grupo de jovens do ambiente rural foi composto por moradores do município de Cruz-CE, indicados por uma integrante da Associação dos Moradores do Córrego das Panelas (AMCP). Alguns tinham estudado na Escola Família Agrícola, outros não. Já no grupo do ambiente urbano, foram sujeitos jovens que fazem parte do Movimento Encontro de Jovens Shalom (MEJSh), moradores dos bairros: Joaquim Távora Pio XII, São João do Tauape, Monte Castelo, São Gerardo, Parquelândia, Ellery, Rodolfo Teófilo e Barra do Ceará. (Ver figura 1)

 

 

Instrumento gerador dos mapas afetivos

Esse instrumento metodológico busca acessar os sentimentos por intermédio de desenhos, metáforas e palavras, direcionando uma compreensão da relação da pessoa com o entorno físico. Bomfim (2003) reconhece o desafio que é trabalhar com emoções e sentimentos. Fundamentada em Vigotski (2001), considera os afetos como parte do subtexto da linguagem. Para entendermos o pensamento de uma pessoa, torna-se necessário entendermos sua base afetivo-volitiva. Entendemos, então, que os mapas afetivos podem ser um caminho para alcançar o sentido que está velado nos significados das palavras. As metáforas, por sua capacidade de síntese pela analogia, também cumprem esse objetivo.

De acordo com Bomfim: "As metáforas podem ser formas eficazes de apreensão dos afetos, porque vão além da cognição. Seu alvo maior é a conquista da intimidade" (2003, p. 131). Fizemos, portanto, uma adaptação do método criado por Bomfim (2003) em sua pesquisa, fruto de seu doutorado, intitulada Cidade e Afetividade: Estima e construção dos Mapas Afetivos de Barcelona e São Paulo.

O instrumento gerador dos mapas afetivos é composto pelos seguintes itens: desenho, significado do desenho, sentimentos, palavras sínteses e categorias da escala Likert.

Inicialmente, solicita-se um desenho que represente a forma do sujeito ver e sentir o lugar onde mora. Segundo Bomfim (2003), o desenho permite uma deflagração das emoções e sentimentos. Em seguida, solicitamos o significado do desenho, que é o momento em que o indivíduo explicará o que quis representar com o desenho. Logo depois é solicitado do sujeito que expresse e descreva os sentimentos suscitados a partir do desenho. Posteriormente, sugerimos que sejam escritas palavras sínteses, e o sujeito tem a oportunidade de resumir ainda mais os sentimentos evocados a partir do desenho. O respondente elenca seis palavras sínteses que podem variar entre sentimentos, substantivos ou qualidades que o indivíduo atribui ao seu desenho. Depois, indagamos ao respondente: "caso alguém lhe perguntasse o que pensa sobre o lugar em que mora, o que diria?", como também: "se tivesse que fazer uma comparação do lugar, com o que compararia?". Seguimos com algumas perguntas de identificação do respondente, como idade, sexo, ambiente em que mora (rural e urbano) etc.

Por fim, temos as categorias da escala Likert. Essas categorias correspondem a afirmações que se baseiam em dimensões levantadas no momento do pré-teste, voltadas para a avaliação dos sujeitos em uma escala de 0 a 10. Tais afirmações podem se enquadrar em distintas dimensões, como a de Pertinência (sentimentos, emoções ou palavras de identificação com o lugar); Contrastes (sentimentos, emoções e palavras que se contradizem); Agradabilidade (palavras que demonstram sentimentos de vinculação ao lugar onde os jovens moram em relação às qualidades positivas); Insegurança (sentimentos e palavras que envolvem situações inesperadas, instáveis e até negativas).

 

Apresentação e discussão dos resultados

Levantamento dos mapas afetivos

Através da análise dos mapas afetivos, encontramos as imagens de Agradabilidade, Pertinência, Insegurança e Contraste.

A Tabela 1 sintetiza as qualidades e sentimentos relacionados às imagens de contraste, agradabilidade, insegurança e pertinência encontradas no ambiente rural. E a Tabela 2 corresponde às mesmas imagens relacionadas ao ambiente urbano.

No ambiente rural, a categoria que apareceu com um maior percentual foi a de agradabilidade (57,89%). A agradabilidade associada ao ambiente rural se deu devido às qualidades do local, que evocam sentimentos de bem-estar nas pessoas que lá habitam. O lugar é permeado por lagoas e vegetação. A segunda categoria mais representada foi a de contraste (36,84%), já que os jovens alegam que o local, mesmo sendo muito agradável, possui problemas de administração, falta de emprego e oportunidade para seus moradores. Em seguida, temos a categoria de insegurança (5,26%) com baixo percentual. A categoria de pertinência não aparece no ambiente rural pelas respostas do mapa afetivo, mas quando o respondente é estimulado de outra maneira, pelas frases relacionadas ao lugar (escala Likert), já exprime a categoria de pertinência em relação ao lugar (rural), mas adiante retomaremos esse aspecto. Já em relação às imagens do ambiente urbano, a categoria de contraste teve um percentual de 57,89%. O contraste se deu quando os jovens associaram Fortaleza a um lugar belo, agradável, porém com queixas em relação à violência urbana. Logo em seguida temos a categoria de insegurança com 21,05%, depois 10,53% correspondendo à agradabilidade e 10,53% de pertinência.

O trabalho

A Figura 2 faz referência aos jovens que trabalham ou não, em relação às imagens geradas nos mapas afetivos. A diferença entre esses percentuais não foi estatisticamente significativa - a não ser a de insegurança (p<0,001). A imagem de Contraste apresentou o mesmo percentual de 47,4% para jovens que trabalham e que não trabalham. Em relação aos jovens que corresponderam à imagem de agradabilidade, 36,8% não trabalham e 31,6% afirmam trabalhar. A imagem de pertinência também apresentou percentuais semelhantes: 50% tanto para os jovens que trabalham como para os que não trabalham. Já todos os jovens que corresponderam à imagem de insegurança (100%) não exercem nenhuma atividade de trabalho. Tal dado nos leva a refletir sobre a importância que o trabalho tem para esses jovens, principalmente os jovens de ambiente rural, que afirmaram em seus projetos de vida um desejo em ter trabalho remunerado. Ferreira (2006) considera, em sua pesquisa com jovens nordestinos de um meio semi-árido, que os jovens se afastam cada vez mais do trabalho agrícola, buscando estudo e trabalho para se afastarem da vulnerabilidade do pequeno agricultor.

A Figura 3 faz referência aos jovens que afirmaram trabalhar ou não de acordo com o ambiente em que vivem (rural e urbano). Dos jovens do ambiente urbano, 73,6% não trabalham, ao passo que 26,4% trabalham. Já em relação aos jovens do ambiente rural, 57,8% trabalham, e o restante, 42,2%, não trabalha.

Percebemos em nossa amostra que os jovens do ambiente rural tendem a se engajar em trabalhos mais cedo do que os jovens do ambiente urbano. No entanto, por meio das entrevistas, eles nos revelam que esses trabalhos são informais - como ajudar a família na agricultura, trabalhos domésticos e artesanais. Nenhum jovem afirmou ter trabalho assalariado, com direitos trabalhistas garantidos. Isso também ocorreu na pesquisa de Ferreira (2006) com jovens de um sertão semi-árido cearense. O trabalho investigava o desejo de ficar ou partir dos jovens em relação ao lugar em que moravam (Município de Tauá-CE). A autora demonstra que direitos básicos de quem trabalha com carteira assinada é um fator que influencia os jovens a buscarem outros locais para morar (Ferreira, 2006).

O desejo de permanecer no meio em que vivem (rural e urbano).

Na Figura 4 percebemos que 47,4% dos jovens do ambiente urbano desejam permanecer morando no lugar em que vivem, seguidos de 26,4%, que afirmaram ter em seus projetos a vontade de não continuar morando no mesmo lugar. E o mesmo percentual, 26,4%, afirma não saber. Em relação ao ambiente rural, a maioria dos jovens, 52,6%, não deseja permanecer morando no lugar onde reside. Pois, diferentemente dos jovens do ambiente urbano, os do ambiente rural sentem falta de oportunidades de trabalho e emprego. Um dos respondentes, quando questionado sobre esse tema, responde: "Eu tenho vontade de morar num município onde tivesse trabalho mais fácil". 36,8% dos jovens do ambiente rural afirmam que querem continuar morando no mesmo lugar, e apenas 10,6% não sabem o que querem.

Os jovens e seus projetos de vida

Por meio das entrevistas, pudemos perguntar aos jovens pesquisados quais seriam seus projetos de vida, se eles estabeleciam estratégias para alcançá-los, se achavam que tais projetos eram concretizáveis, entre outras questões. A partir de uma análise categorial, discutimos os resultados encontrados.

A maior parte dos jovens tem como projeto de vida concluir os estudos, fazer uma faculdade, ter um trabalho e/ou emprego fixo e constituir uma família.

Dos jovens do ambiente rural, 78,9% optam por concluir os estudos. Tal plano é expresso por 31,5% dos jovens do ambiente urbano. Alguns almejam mais do que apenas concluir os estudos do ensino médio, querendo também ingressar em uma faculdade e trabalhar. 89,4% dos jovens do ambiente urbano querem fazer uma faculdade, ao passo que somente 36,8% dos jovens do ambiente rural expressam o mesmo desejo. Os que querem fazer uma faculdade são em maior parte do ambiente urbano, já que no ambiente rural pesquisado não existem faculdades, sendo o acesso mais difícil para os jovens daquela região.

A maioria dos jovens, 89%, estabelece estratégias para seus projetos de vida. Apenas quatro indivíduos entre os 38 jovens entrevistados (10,5%) afirmaram não estabelecer estratégias para seus projetos de vida. Verificamos que quase não foi constatada diversidade de opções de projetos de vida, seja para os jovens do ambiente urbano, seja para os do rural.

A maioria dos jovens (26 entre 38 indivíduos, o que corresponde a 68,4%) estabelece estudar como uma estratégia para seus projetos de vida. Dos 38 jovens entrevistados, apenas nove (23,6%) afirmaram estabelecer estratégias para alcançar seus projetos que diferissem de apenas estudar e/ou trabalhar. Esses jovens elencaram estratégias como: namorar, evitar sair, ir para academia, escolher bem as amizades, manter contato com pessoas interessantes, se espelhar no modelo paterno, automotivar-se através de planejamento de metas para alcançar crescimento pessoal, ser sincero, agregar os amigos, dedicar-se ao teatro, fazer reflexões, leituras e observar as pessoas.

 

Considerações finais

É comum termos a representação da juventude como o "futuro da nação". Mas será que os jovens, hoje, têm condições de ter clareza sobre o que pretendem para o seu próprio futuro?

O projeto de vida é, a nosso ver, uma questão de fundamental importância na vida de qualquer ser humano que se posiciona de maneira crítica e coerente diante de si mesmo e do meio em que vive. Tal questão, para os que vivem a juventude, é um grande desafio. O jovem, que comumente é um ser questionador, traz em si um grande potencial para ser o grande autor de sua vida. No entanto, as dificuldades pelas quais passa, sejam elas de cunho individual (crises existenciais, alterações de humor, modificações hormonais etc.) ou de cunho social (situação socioeconômica, desigualdades sociais, crise de valores etc.), podem influenciar na atuação consciente e planejada desse jovem em sua própria vida.

O fato de alguns jovens da amostra pesquisada neste estudo morarem em ambiente rural e outros em ambiente urbano não resultou, a partir de nossa análise, em uma diferenciação completa de seus projetos de vida. Contudo, observaram-se influências do meio em que residem sobre algumas características específicas de seus projetos de vida. Identificamos que os jovens do ambiente rural tendem a buscar mais cedo o trabalho em relação aos jovens do ambiente urbano. Observou-se, ainda, que esses trabalhos são, em geral, informais, sem a garantia de direitos trabalhistas, o que gera neles uma insegurança em relação ao lugar em que moram.

Percebemos uma grande queixa dos jovens do ambiente rural sobre a dificuldade de encontrarem trabalho no lugar em que vivem. Esse fato se relaciona com o projeto deles de pretenderem morar em outro lugar, na tentativa de buscarem melhores oportunidades de trabalho. Muitos afirmaram que, se não fosse por esse fato, gostariam de permanecer morando lá mesmo. Já em relação aos jovens do ambiente urbano, identificamos uma queixa em relação à violência urbana, à qual estão cada vez mais expostos, gerando sentimentos de contraste em relação ao lugar que habitam. Ao mesmo tempo em que gostam do lugar, devido a suas características atrativas (praias, clima quente, hospitalidade das pessoas etc.), sentem-se mal com assaltos, crimes e violência. A violência urbana que amedronta - não só aos jovens - provoca um sentimento de desconforto, medo, insegurança, que leva a uma certa imobilização das pessoas em geral. Os jovens, foco específico desta pesquisa, expressaram muitas vezes o fato de não conhecerem verdadeiramente sua cidade por causa do medo de transitar pelas ruas. Diferentemente dos jovens pesquisados por Almeida e Freire (2003), que demonstraram ter um estilo de vida em que se deslocam continuamente nos espaços de sua cidade, principalmente à noite, quando estão buscando vivências de lazer, nossos jovens pesquisados mostraram ter um estilo de vida em que se restringem a transitar basicamente no bairro ou localidade onde moram, próximos as suas residências e ao colégio onde estudam.

Os jovens do ambiente urbano expressaram um maior desejo de ingressar na faculdade do que os jovens do ambiente rural. Consideramos que isso não se relaciona somente com a situação financeira dos jovens; relaciona-se, também, com o fato de o meio urbano oferecer mais alternativas para o ingresso no ensino superior, instigando quem está perto a almejar uma participação nesses níveis mais avançados da educação. Ao passo que, em um ambiente rural, onde não existem faculdades e universidades, ocorre o desinteresse a partir da impressão de que esse projeto seja distante de suas realidades.

Na pesquisa de Matheus (2003) sobre as expectativas e ideais de jovens de classes populares na região urbana de São Paulo, foi verificado algo semelhante com o que nos deparamos neste estudo: a falta de perspectivas, que gera esforço para construir projetos de acordo com as referências que os jovens encontram, resultando na restrição de expectativas a metas mais tangíveis. Matheus (2003) encontrou na fala dos jovens expectativas para conquista da profissão, construção de uma família ou estabelecimento de laços de solidariedade. Nosso resultado foi congruente em relação aos de Matheus (2003), acrescentando a expectativa de ter trabalho.

A restrição de expectativas apontada por Matheus (2003) relaciona-se à limitada diversidade de projetos verificada por nós no posicionamento dos jovens entrevistados, tanto os do ambiente rural quanto os do ambiente urbano. Concordando com Matheus (2003), parece existir uma relação entre condições sociais específicas de cada região e a maneira como cada um se posiciona, faz escolhas e vivencia situações.

A desigualdade econômica que impera atualmente em nossa sociedade leva à exclusão social, que é experimentada pelos jovens como ameaça que fragiliza seus projetos de vida. Tanto os jovens do ambiente rural quanto os do ambiente urbano pertencem a classes sociais economicamente mais desfavorecidas. Foi comum encontrar falas semelhantes nos jovens do ambiente urbano e rural que expressavam a falta de criatividade e motivação para projetar planos objetivos e metas diversificadas para suas vidas.

Identificamos uma séria restrição de possibilidades. Uma resposta a isso talvez seja a tendência, encontrada em nossos resultados, de o jovem viver o seu presente imediato, sem tecer muitas reflexões e indagações sobre sua vida. E quando as faz, restringe os projetos ao que lhes parece mais possível de conquistar - profissão, trabalho e família. Esse resultado confirma a ideia de Costa (2004), que explica que características da atual sociedade complexa (hedonismo e narcisismo) levam o sujeito a agir a partir de um imediatismo preponderante, tendendo a limitar seu envolvimento a questões pessoais e relacionadas com o presente vivido.

De acordo com Matheus (2003), para alguns, a conquista do trabalho e a constituição de uma família representam as pequenas e possíveis mudanças que estão ao seu alcance. O reconhecimento e a inserção social, para a maioria, podem ser alcançados através do trabalho e profissão. E, ainda assim, para alguns, até isso pode se fragilizar devido às dificuldades financeiras e às condições locais de cada ambiente.

Percebemos que a maior parte dos jovens está muito presa ao presente imediato (estudar e/ou trabalhar), e que se limita a essa realidade. De acordo com Velho (2003), os códigos culturais e processos históricos têm influência sobre os projetos em nível individual, no que tange aos níveis de exploração, desempenho, performance, avaliação e definição da realidade. Ou seja, ao conhecermos as características de nossa cultura, podemos entender as influências dessa no projeto de vida dos jovens.

Nossa cultura valoriza o trabalho - você é a partir do que você faz - e, ao mesmo tempo em que atribui alto valor ao trabalho, por conta do capitalismo, não oferece oferta de trabalho para toda a população, sendo o desemprego ou subemprego um grave problema da atualidade. Questionamos até que ponto os códigos culturais também estão contribuindo para limitação de opções de projetos de vida para nossos jovens.

Um contraponto para amenizar tal quadro supomos ser a participação dos jovens em grupos de iguais - sejam eles religiosos, esportivos, artísticos ou sociais - que sejam meios pelos quais o jovem possa se expressar e ter estímulos para refletir sobre alguma realidade da qual se sinta pertencente. Além de ter a oportunidade de troca de experiências, que leva à aprendizagem, autoconhecimento, sentimentos de bem-estar, crescimento pessoal, o jovem que participa desses grupos tem também a oportunidade de ajudar o próximo e se inserir em sua comunidade. Todos esses fatores foram expressos pelos jovens em suas falas.

Notamos a importância dada pelos indivíduos pesquisados à convivência com outros jovens em grupos dos quais participavam. Este estudo nos levou a considerar que o grupo de iguais, inserido em trabalhos sistemáticos de cunho social, pode contribuir diretamente para elaboração de projetos de vida mais conscientes, estruturados e críticos. Isso leva o jovem a agir de forma mais esclarecida em sua vida e em sua comunidade. O potencial do jovem para mobilização, reflexão, busca de superação de desafios que gerem mudanças pessoais e grupais deve ser aproveitado e incentivado por educadores e por profissionais de diferentes áreas; e um caminho para incentivar esse potencial é por meio desses grupos em que os jovens compartilham vivências comunitárias e sociais em uma mesma realidade. Acreditamos que esse é um dever e um desafio em nossa sociedade atual, principalmente em um país como o Brasil, em que os jovens representam uma grande parcela da população.

Esta pesquisa nos fez refletir sobre como as características dessa sociedade atual estão contribuindo para a falta de condições para que os jovens consigam estabelecer com clareza e maturidade seus projetos de vida. A consequência dessa inexatidão de perspectiva norteadora tende a levar ao aumento dos índices de violência juvenil, ao consumo e tráfico de drogas, à depressão, ao suicídio etc.

Depois de uma reflexão sobre os resultados encontrados a partir da pesquisa de campo e sobre as ideias discutidas, concluímos como necessária a inclusão de práticas sociais que visem um posicionamento crítico do sujeito diante das questões sociais e particulares que os cercam. Uma das possibilidades para nortear uma prática dessa qualidade seria a propagação do que Giddens (2002) denominou de reflexividade do eu, como forma sistemática e contínua de reflexão e construção.

Esse estilo de prática, com tal fundamentação, poderia ser disseminado em programas educativos que viessem a atingir os jovens de classes sociais distintas. Poderia ocorrer, por exemplo, com a inclusão de disciplinas de filosofia nas grades curriculares das escolas, em projetos educativos promovidos por organizações não-governamentais (ONGs) ou outras instituições, nos grupo de jovens de igrejas, em associação de moradores, grupos de teatro etc. O governo poderia investir mais em programas de geração de primeiro emprego e renda voltados para população juvenil, além de incentivar empresários a desenvolverem tal prática. Acreditamos que este estudo possa suscitar reflexões junto a profissionais que se interessem em trabalhar com jovens e queiram contribuir com uma mudança nos comportamentos individuais e de forma abrangente da sociedade como um todo.

 

Agradecimentos

Agradecemos a Deus, acima de tudo, e a todos os jovens entrevistados, pela disponibilidade e pela emoção suscitada a partir de nossos encontros, à CAPES, pelo apoio financeiro com a manutenção da bolsa-auxílio.

 

Referências

Almeida, L. S. & Freire, T. (1997). Metodologias da investigação em psicologia e educação. Coimbra: APPORT.         [ Links ]

Bomfim, Z. Á. C. (2003). Cidade e afetividade: estima e construção dos mapas afetivos de Barcelona e São Paulo. Tese de Doutorado, Psicologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.         [ Links ]

Castro, L. R. (2001). Da ivisibilidade à ação: crianças e jovens na construção da cultura. In L. R. Castro (Org.), Crianças e jovens da cultura (1ª ed., pp. 20-66). Rio de Janeiro: NAU/ FAPERJ.         [ Links ]

Costa, J. F. (2004). O vestígio e a aura. Rio de Janeiro: Garamond.         [ Links ]

Ferreira, K. P. M. (2006). Ficar ou partir? Afetividade e migração de jovens do sertão semi-árido cearense. Dissertação de Mestrado, Psicologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza.         [ Links ]

Freire, P. (1980). Conscientização: teoria e prática de libertação - uma introdução ao pensamento de Paulo Freire (3ª ed.). São Paulo: Moraes.         [ Links ]

Giddens, A. (2002). Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.         [ Links ]

Lane, S. T. M. (1994). A mediação emocional na constituição do psiquismo humano. In S. T. M. Lane & B. B. Sawaia (Orgs.), Novas veredas da Psicologia Social (pp. 55-63). São Paulo: Brasiliense.         [ Links ]

Matheus, T. C. (2003). O discurso adolescente numa sociedade na virada do século. Acesso em 07 de maio, 2010, em: http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=ADOLEC&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=355433&indexSearch=ID

Velho, G. (2003). Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas (3ª ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.         [ Links ]

Vigotski, L. S. (1999). O significado histórico da crise da psicologia. In Teoria e método em Psicologia (2ª ed., pp. 204-417). São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Vigotski, L. S. (2001). A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 03-09-2008
1ª. revisão em: 13-03-2009
2ª. revisão em: 06-09-2009
3ª. revisão em: 23-11-200
Aceite final em: 15-03-2010

 

 

Daniela Dias Furlani é psicóloga, Psicoterapeuta clínica, com mestrado em Psicologia pela UFC, estudante de dotourado em educação pela UFC. Endereço: Rua Carlos Vasconcelos, 3100, apto 902. Fortaleza/Ceará. CEP 60115-191Email: furlanidaniela@gmail.com
Zulmira Áurea Cruz Bomfim é Psicóloga e professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Tem Mestrado em Psicologia Social e da Personalidade pela Universidade de Brasília (UnB) e doutorado em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Especialista em intervenção socioambiental e investigadora em Espaço Público e Regeneração Urbana pela Universidade de Barcelona. Endereço: Rua Adolfo Moreira de Carvalho n.140. Fortaleza/Ceará. CEP 60811-740. Email: zulaurea@uol.com.br

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License