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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.22 no.2 Florianópolis May/Aug. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822010000200009 

História, memória e narrativa: a revelação do "quem" nas histórias orais dos habitantes do Córrego dos Januários

 

History, memory and narrative: the disclosure of "who are you?" in the oral story-telling of the inhabitants of Córrego dos Januários

 

 

Denise Sampaio Gusmão; Solange Jobim e Souza

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

 


RESUMO

O objetivo deste artigo é relatar uma pesquisa sobre as histórias de vida e as memórias dos habitantes de um pequeno povoado, situado na região leste de Minas Gerais, Brasil. Utilizando a "história oral" como estratégia metodológica e tendo como referência teórica o pensamento de Hannah Arendt, Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin, os conceitos história, memória e narrativa são aqui analisados a partir das práticas discursivas entre a pesquisadora e os habitantes do Córrego dos Januários. Os resultados deste trabalho contribuem para a compreensão da ação e do discurso dos homens como condição do exercício da ética e da política na vida prática e, consequentemente, colocam em destaque a importância da experiência singular e a presença única de cada pessoa no mundo. A revelação da pergunta "quem és?", apresentada por Hanna Arendt em sua obra A condição humana, é aqui analisada a partir dos relatos das histórias de vida dos sujeitos envolvidos.

Palavras-chave: memória; história oral, Hannah Arendt; Walter Benjamin; Mikhail Bakhtin.


ABSTRACT

The purpose of this article is reporting a research on stories of the life and memories of the inhabitants of a small village in the east region of Minas Gerais, Brazil. Using as methodological strategy the "oral story-telling", and as theoretical references the works and studies by Hannah Arendt, Walter Benjamin and Mikhail Bakhtin, the concepts history, memory and narrative are here analyzed based on the discursive practices between the researcher and the inhabitants of Córrego dos Januários. The results of this work contribute to the comprehension of action and discourse of men as a condition to the exercise of ethics and politics in practical life and, consequently, bring out the importance of singular experience and the unique presence of each and every person in the world. The disclosure of the question "Who are you", introduced by Hannah Arendt in her work The Human Condition, is here analyzed from the point of view of the life stories of the individuals involved.

Keywords: memory; oral history; Hannah Arendt; Walter Benjamin; Mikhail Bakhtin


 

 

1. Intercessões: Hannah Arendt, Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin

O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e "natural" é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. Em outras palavras, é o nascimento de novos seres humanos e o novo começo, a ação de que são capazes em virtude de terem nascido. Só o pleno exercício dessa capacidade pode conferir aos negócios humanos fé e esperança, as duas características essenciais da existência humana que a antiguidade ignorou por completo, desconsiderando a fé como virtude muito incomum e pouco importante, e considerando a esperança como um dos males da ilusão contidos na caixa de pandora. Essa fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a "boa nova": "Nasceu uma criança entre nós" (Arendt, 2004, p. 259). 

Essa passagem de Hannah Arendt é o ponto de partida de nossas reflexões neste texto. O nascimento inaugura uma história possível. O que vem a seguir é a ação dos homens no mundo. O homem como artífice da materialidade e da cultura, expressão de sua existência única e singular até o dia do juízo final.

A pesquisa, que tem como intenção desvelar a trajetória de atos, gestos e palavras do homem comum, assume, no agora, um compromisso com o futuro. Isso requer uma determinada postura do pesquisador, a qual se expressa na tomada de consciência de que nenhum fato, por mais simples que seja, pode ser considerado perdido para a história. Desse modo, o pesquisador encarna a figura do cronista e segue as pistas deixadas por Walter Benjamin, quando ele apresenta, na terceira tese do texto "Sobre o conceito da história", o pensamento seguinte:

O cronista que narra os acontecimentos sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa citation à lórdre du jour - e esse dia é justamente o do juízo final (Benjamin, 1994, p. 223).

Quem se dispõe a contar uma história participa da vida da palavra e da memória, mas, essencialmente, assume um compromisso com o futuro. Essa questão, assim formulada, se transformou em tema da maior relevância para a pesquisa que deu origem aos relatos das "pequenas histórias" que serão aqui apresentadas, e que foram construídas a partir de uma relação muito particular entre o pesquisador e "seus outros", tendo como referência metodológica os conceitos de dialogismo e alteridade de Mikhail Bakhtin1. Desse modo, Hannah Arendt, Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin nos conduzem a uma reflexão crítica sobre o lugar que deve ser ocupado pela ação do homem na permanente criação de si mesmo e dos rumos da história. Ao retomarem o conceito de história, abandonando a perspectiva do tempo cronológico e linear, rompem com a abordagem mecanicista e apostam na crítica do progresso. Esses autores nos fazem pensar na necessidade de incorporar às ciências do homem e da sociedade outros paradigmas para a produção de um conhecimento que faça justiça a liberdade de expressão e criação; o futuro se constrói no agora, mas sem perder de vista a experiência crítica do passado. Eles querem mostrar na teoria e na prática que o homem é capaz de agir no mundo sem abrir mão da sua capacidade de reinventar permanentemente as condições de sua existência, sem se deixar subjugar pelos poderes totalitários, que reincidem sobre os homens, a cada época, como um novo desafio a ser superado. Portanto, a ação dos homens no mundo é um ato político que se renova a cada dia, e as escolhas que realizam na vida prática são os modos como dela participam, pelo simples fato de existirem, na construção do futuro. Viver é um permanente risco, mas há que confiar, nos diz Arendt:

Em toda ação a pessoa se exprime de uma maneira que não existe em outra atividade. Daí a palavra é também uma forma de ação. Eis então o primeiro risco. O segundo é o seguinte: nós começamos alguma coisa, jogamos nossas redes em uma trama de relações, e nunca sabemos qual será o resultado ... Isso vale para qualquer ação, e é simplesmente por isso que a ação se concretiza - ela escapa às previsões. É um risco. E agora acrescentaria que esse risco só é possível se confiarmos nos homens, isto é, se lhe dermos nossa confiança - isto é o mais difícil de entender - no que há de mais humano no homem; de outro modo seria impossível (Arendt, 1993, p. 143).

Inspiradas por tais questões filosóficas e políticas, fomos impelidas a elaborar uma estratégia metodológica pautada no encontro do pesquisador e o seu outro, e, desse modo, demos início a um processo de escavação dos fragmentos de memória dos habitantes de um pequeno povoado no interior de Minas Gerais, o Córrego dos Januários, no município de Inhapim. Essa localidade, como tantas outras pelo Brasil afora, se deparou com mudanças radicais no seu cotidiano, deflagradas com a chegada da luz elétrica e da televisão em 1984, provocando mudanças que afetaram a convivência e a troca de experiências, ameaçando a história e a memória de seus habitantes. Com a luz elétrica e a televisão, os moradores do Januário mudaram sua rotina que, embora mais iluminada, parecia, segundo eles, carecer de calor.

A dicotomia entre luz e calor iluminava também o sofrimento dos mais velhos ao reconhecer um presente que não consegue mais dialogar com o passado. Diante da nostalgia dos habitantes do Córrego, uma questão insistia em se fazer presente: como é possível reunir luz (elétrica) e calor (humano)? Se tomássemos o passado como um acontecimento acabado, um acontecimento que nada mais tem a nos dizer sobre os fatos e ações do presente, essa união, provavelmente, se revelaria impossível. Melhor dizendo, se ficássemos aprisionados em uma perspectiva de tempo linear e progressivo, certamente a história caminharia para um fim pré-determinado, e a narrativa se tornaria, assim, prisioneira de uma compreensão petrificada da história, ou seja, a crença no progresso e na civilização seria o único destino possível para o homem contemporâneo. Teríamos uma única narrativa se projetando para um fim definido de antemão, sem perspectivas de um novo começo. Entretanto, as perspectivas teóricas de Walter Benjamin, Mikhail Bakhtin e Hannah Arendt insistem em romper com a visão progressiva do tempo cronológico, e nos incitam a acreditar que o passado não esvazia o presente, mas, ao contrário, lhe abre novas possibilidades de existir no futuro. Esses autores apostam na retomada do passado a partir de interpretações que ainda não foram construídas, mas que permanecem como possibilidades, aguardando seu momento de ressurreição na grande temporalidade, como nos esclarece Bakhtin na passagem seguinte:

Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos no diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente, futuro do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, sem seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Questão do grande tempo (Bakhtin, 2003, p. 410).

O futuro desponta como permanente vir-a-ser construído na ação consciente dos homens no mundo. Nessa perspectiva, os mais velhos não são esquecidos e podem se reconciliar com o presente, pois, de acordo com Octavio Paz, "la reflexion sobre el ahora no implica renuncia al futuro ni olvido del passado: el presente es el sitio de encuentro de los tres tiempos" (1991).

 

2. A Pesquisadora e seus Outros

O primeiro encontro da pesquisadora2 com os habitantes do povoado do Córrego dos Januários aconteceu em abril de 2001. Esse encontro foi deflagrado pelo desejo de acompanhar Maria de Lourdes de Souza3; a Toquinha, na desafiadora missão de registrar casas, histórias e costumes ameaçados de desaparecer no lugarejo onde ela nasceu e viveu grande parte de sua vida e que se constitui fonte de sua inspiração como escritora. As imagens grafadas naquele primeiro momento dariam início a um longo processo de recuperação da história do Córrego dos Januários, uma comunidade com 200 habitantes onde vivem os descendentes de Joaquim Januário de Souza, que fundou o povoado em 1867. As pequenas histórias, que aqui serão narradas, fazem parte de um trabalho mais amplo, empreendido no âmbito de uma pesquisa acadêmica, com o objetivo de criar estratégias metodológicas de intervenção no campo da memória coletiva e suas implicações na experiência de vida dos habitantes de uma dada comunidade. Com essa abordagem, pretendeu-se integrar a produção de conhecimento acadêmico com ações deflagradas pelo encontro da pesquisadora com as histórias de vida narradas no contexto da pesquisa-intervenção4. O que pretendemos apresentar neste texto é o modo como se constituiu uma produção de narrativas a partir do encontro da pesquisadora com os habitantes dessa pequena comunidade e a consequente tomada de consciência do homem comum, que, ao narrar suas histórias, ocupa o lugar de protagonista de uma história maior. Neste texto, como já explicitado anteriormente, as ideias tanto de Mikhail Bakhtin quanto de Walter Benjamin estão presentes na construção dos argumentos que consolidam nossa orientação teórica e metodológica. Entretanto, optamos por colocar em destaque, no próximo segmento, o pensamento de Hannah Arendt. Com base em sua teoria, conduziremos algumas reflexões sobre a revelação do quem, destacando o modo como as pequenas histórias narradas pelos habitantes do Córrego dos Januários nos falam de uma experiência mais profunda, um modo particular de interlocução com a dimensão humana e a construção do futuro no presente. Ou seja, Arendt afirma, junto com Benjamin, que nada do que aconteceu um dia pode ser perdido para a história.

 

3. Hannah Arendt: a ação e o quem

O evento totalitário é o contexto em que a obra de Hannah Arendt emerge. O choque e a perplexidade diante da descoberta dos campos de extermínio levam Arendt a escrever sua primeira grande obra Origens do totalitarismo. Publicado em 1951, esse livro fala de seu esforço em tentar compreender o que parecia impossível de ser compreendido, pois os conceitos tradicionais não dão conta da experiência totalitária. O projeto de compreender o evento totalitário se coloca para Arendt diante do choque ao tomar conhecimento da existência de Auschwitz. É aí que o esforço compreensivo se inicia, e ele traz consigo a possibilidade de reconciliação. Reconciliar é uma reação a este estranhamento, a esta perda de referências a que o totalitarismo levara.

Arendt concebe a história como uma série de eventos, e não como uma força de curso previsível. Em diferentes momentos de sua obra a autora se contrapõe à causalidade histórica e compreende um evento histórico como a emergência imprevisível de algo novo que pôde ter ocorrido sem que fosse necessário ou sem que obedecesse a determinação prévia e supra-histórica.

Somente quando algo irrevogável aconteceu é que podemos retraçar sua história. O acontecimento ilumina o próprio passado; jamais pode ser deduzido dele. Sempre que ocorre um evento grande o suficiente para iluminar seu próprio passado, a história acontece. Só então o labirinto caótico dos acontecimentos passados emerge como uma história que pode ser contada, porque tem um começo e um fim (Arendt, 1993, p. 49).

Mas Arendt chama a atenção para o fato de que:

todo fim na história constitui necessariamente um novo começo; esse começo é a promessa, a única "mensagem" que o fim pode produzir. O começo antes de tornar-se evento histórico, é a suprema capacidade do homem; politicamente, equivale à liberdade do homem (Arendt, 1989, p. 531).

Assim, para Arendt, "cada novo nascimento garante esse começo". Esse é um tema que ela desenvolve em sua obra A Condição Humana (1958/2004) ao tratar da ação. O livro propõe uma fenomenologia das atividades humanas que são o labor, o trabalho e a ação. Embora interligadas, cada atividade corresponde a critérios próprios, e a cada uma delas corresponde uma condição básica da vida humana, respectivamente: vida, mundanidade e pluralidade. O labor assegura a existência e sobrevivência de todos nós como espécie através da manutenção do ciclo vital, enquanto que o trabalho envolve tudo o que é colocado pelo homem no mundo de maneira artificial, conferindo estabilidade e permanência ao mundo. A condição humana da ação é a pluralidade, pois a ação ocorre entre os homens. Para Arendt, o conteúdo da política é o agir, pois são os homens, e não o Homem, que vivem e habitam no mundo, e é essa pluralidade a condição de toda vida política: "A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir" (Arendt, 2004, p.16).

Para Arendt, a ação e o nascimento estão estreitamente ligados, pois

o fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado. E isto, por sua vez, só é possível porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo. (2004, p. 191)

Assim como a ação corresponde ao nascimento, para a autora o discurso é a efetivação da condição humana da pluralidade, do viver como ser singular entre iguais: "É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano; e esta inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico original" (Arendt, 2004, p. 189).

Segundo Arendt, é na ação e no discurso que os homens mostram quem são, revelam suas identidades pessoais e singulares, e assim apresentam-se ao mundo, respondendo a pergunta que recebem ao nascer: "Quem és?".

No entanto, a autora adverte que a revelação do "quem" está ameaçada quando deixa de existir convivência:

Sem a revelação do agente no ato, a ação perde seu caráter específico e torna-se um feito como outro qualquer. Na verdade, passa a ser apenas um meio de atingir um fim, tal como a fabricação é um meio de produzir um objeto. Isto ocorre sempre que deixa de existir convivência, quando as pessoas são meramente "pró" ou "contra" os outros, como ocorre por exemplo, na guerra moderna, quando os homens entram em ação e empregam meios violentos para alcançar determinados objetivos em proveito do seu lado e contra o inimigo. Nestas circunstâncias, que naturalmente sempre existiram, o discurso transforma-se, de fato, em mera "conversa", apenas mais um meio de alcançar um fim, quer iludindo o inimigo, quer ofuscando a todos com propaganda. Neste caso, as palavras nada revelam; a revelação advém exclusivamente do próprio feito, e este feito, como todos os outros, não desvenda o "quem", a identidade única do agente (Arendt, 2004, p. 193).

Hannah Arendt quer separar o agir do fazer, falando-nos de uma dignidade da política. A ação não pode ser consertada, como um objeto pode. Reduzir o agir ao fazer é perder o político, coisificando-o. A ação pode ser reiniciada e o perdão é esse esforço de reiniciar. Para reparar uma ação e lidar com seu caráter de irreversibilidade, é preciso perdoar; essa é uma das potencialidades da própria ação.

A única solução possível para o problema da irreversibilidade - a impossibilidade de se desfazer o que se fez, embora não se soubesse nem se pudesse fazer o que se fazia - é a faculdade de perdoar ... A ação estabelece constantemente novas relações numa teia de relações, e precisa do perdão, da liberação para que a vida possa continuar, desobrigando constantemente os homens daquilo que o fizeram sem o saber. Somente através dessa mútua e constante desobrigação do que fazem, os homens podem ser agentes livres; somente com a constante disposição de mudar de idéia e recomeçar, pode-se-lhes confiar tão grande poder quanto o de consistir em algo novo (Arendt, 2004, pp. 248-250).

Quanto ao caráter imprevisível da ação, da impossibilidade da previsibilidade das consequências advindas do agir, Arendt introduz o poder de prometer:

As duas faculdades são aparentadas, pois a primeira delas - perdoar - serve para desfazer os atos do passado, cujos "pecados" pendem como espada de Dâmocles sobre cada nova geração; a segunda - obrigar-se através de promessas - serve para criar, no futuro, que é por definição um oceano de incertezas, certas ilhas de segurança, sem as quais não haveria continuidade, e menos ainda durabilidade de qualquer espécie, nas relações entre os homens ... Se não nos obrigássemos a cumprir nossas promessas, jamais seríamos capazes de conservar nossa identidade; seríamos condenados a errar, desamparados e desnorteados, nas trevas do coração de cada homem, enredados em suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros, que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre, poderia dissipar (Arendt, 2004, p. 249).

Sem a possibilidade de reiniciar, seríamos vítimas da repetição, de um curso automático e inexorável da vida cotidiana. Para Arendt, o que interrompe esse curso é a faculdade de agir, de iniciar algo novo.

As faculdades, de perdoar e prometer, dependem da condição humana, ou seja, da pluralidade do agir, sem a qual o perdão e a promessa não têm realidade. Não há perdão nem promessa no isolamento e na solidão. No perdão, como na ação e no discurso, dependemos dos outros.

Diante do outro, aparecemos de uma maneira distinta, imperceptível para nós mesmos. A matéria do agir é a fala, o discurso. É através do discurso que o ser humano se revela na sua singularidade. Mas para essa revelação precisamos do outro:

É como se a estabilidade humana transparecesse na permanência da arte, de sorte que certo pressentimento de imortalidade - não a imortalidade da alma ou da vida, mas de algo mortal feito por mãos não mortais - adquire presença tangível para fulgurar e ser visto, soar e ser escutado, escrever e ser lido (Arendt, 2004, p. 181).

 

4. Contar histórias, criar lembranças, reconciliar...

Para Hannah Arendt, conforme Andreiuolo (2005), contar histórias tem a ver com a experiência da reconciliação. A compreensão corresponde à tentativa de nos reconciliarmos com a realidade e de estarmos à vontade no mundo:

A compreensão não é cumulativa, mas se faz acompanhada da vida, faz e refaz e jamais tem um parâmetro fixo a ser superado. Toda ação revela algo de inusitado, cabe a compreensão acolher essa novidade e procurar nela a força do significado do evento. ... Seja por seu aspecto de revelação, ou por sua abertura ao campo compreensivo, as histórias integram a modalidade de produtos do trabalho que escapa da mera utilidade (Andreiuolo, 2005, p. 35).

Embora distintos, e distingui-los é um esforço importantíssimo na filosofia política de Hannah Arendt, fabricação, ação e pensamento se encontram na memória. "A lembrança é o esforço contínuo contra o caráter perecível do mundo, é o que faz do mundo nossa morada. (Andreiuolo, 2005, p. 35).

A ação é intangível. Para existir, precisa dos homens que falam e agem. Mas para que as histórias que esses homens vivem possam ser contadas, necessitam do homo faber. No entanto,

o que se salva nas histórias é a possibilidade de uma relação não utilitária ou instrumental com a dimensão poiética. Ao revelar o quem, salvá-lo da futilidade, a história transcende a mera funcionalidade, afirma-se como um produto privilegiado da atividade fabricadora menos sujeito ao desgaste, e expande sua durabilidade no mundo. Com ela os assuntos humanos transfigurados ganham também estabilidade. O mundo construído pelo homo faber só é um lar para os mortais na medida em que suporta e sobrevive ao cambiante e contínuo movimento de suas vidas, suas ações e palavras (Andreiuolo, 2005, p. 36).

Para Arendt, "a ação cria condição para a lembrança, para a história" (Arendt, 2004, p. 16). Os ensaios de Homens em Tempos Sombrios (Arendt, 1987) precisam ser compreendidos como uma forma especial de narrar as ações, diz Andreiuolo (2005, p. 68).

Sua galeria de retratos inverte a lógica com que habitualmente procuramos entender uma época: a luz dos quem ilumina a escuridão de nossos tempos ... Hannah Arendt narrou atos e palavras de pessoas que viveram em tempos sombrios, sem, entretanto, cair na armadilha de atribuir a seus biografados qualquer condicionamento de época que pudesse ser explicado exclusivamente pela História ... Arendt revelou nos ensaios de Homens em Tempos Sombrios o vagar individual da cada um de seus biografados no mundo. Com isso criou a rede de narrativas compartilhadas que relaciona os protagonistas em uma correspondência reveladora, uma história maior (Andreiuolo, 2005, pp. 71-72).

O contato com o pensamento de Arendt possibilitou iluminar a experiência de pesquisa com os habitantes do Córrego dos Januários. Ao ouvir os moradores do povoado, em vários momentos, nossa escuta se deparava com a revelação do quem em suas narrativas. A seguir, são apresentados alguns contos e imagens, trechos de narrativas que emergiram do contato com os "Januários". São cinco pequenas narrativas em que buscamos encontrar o quem, a humanitas de Sebastião Lau, Tio Izalino, Seu Agenor, Zé Barba e Dedé.

 

5. Pequenas histórias5

5.1 Sebastião Lau

Pois a tradição ordena o passado não apenas cronológica, mas antes de tudo sistematicamente, ao separar o positivo do negativo, o ortodoxo do herético, o que é obrigatório e relevante dentre a massa de opiniões e dados irrelevantes ou simplesmente interessantes. A paixão do colecionador, por outro lado, é não só assistemática, como beira o caótico, não tanto por ser uma paixão, mas por não ser basicamente inflamada pela qualidade do objeto - algo classificável -, e sim atiçada pela sua "autenticidade", sua qualidade única, algo que desafia qualquer classificação sistemática ... Como Benjamin foi provavelmente o primeiro a ressaltar, o colecionar é a paixão das crianças, para quem as coisas ainda não são mercadorias e não avaliadas segundo sua utilidade (Arendt, 1987, pp. 168, 170).

 

 

Dedé: O Tio Sebastião Lau, acho que ele tá em primeiro lugar aqui na nossa comunidade. Sabe por quê? Porque ele não teve filhos, e ele que doou aquele pedaço de terra ali pra fazer essa casa de escola pras pessoas estudar. Se tem hoje aí, quantas pessoas estudaram ali, agradece a ele. Ele que deu o terreno, não foi, padrinho Zé Barba?

Zé Barba: Deu o terreno e fez a casa.

Dedé: Então, foi uma coisa pra todo mundo. Um exemplo muito bonito que ele deu pra nós.

Ao escutar essas palavras, Sebastião Lau, que já faleceu há mais de 30 anos, vai ganhando uma dimensão totalmente nova para mim. Já havia visto sua fotografia na secretaria da escola, colocada lá como homenagem. No entanto, quando Toquinha perguntou às crianças se sabiam quem construíra a escola, elas responderam, em coro, que havia sido o prefeito. A foto antiga ficava guardada numa pequena sala, e nenhuma criança ali sabia quem ele era.

Agora, diante das lembranças de Dedé, Zé Barba e outros, a história de Sebastião Lau se desenha outra. O homem que emerge nas narrativas vem banhado de sentimentos de gratidão e reconhecimento pelo ato de generosidade e preocupação com a comunidade. Nada que se compare a uma informação seca de que foi Sebastião Lau quem construiu a escola em 1952. História essa que é oficial, mas que também as crianças desconhecem. Foram muitos depoimentos reverenciando Sebastião Lau, memória tramada pelo afeto e pela experiência de quem conviveu com ele. As narrativas vão desarrumando aquele contexto enquadrado em que Sebastião Lau estava. O que emerge não é a memória dos fatos e datas, o que de Sebastião Lau, pedreiro que deu o terreno e construiu a escola do povoado. Sebastião Lau é lembrado principalmente por seu zelo pelo coletivo, por sua dedicação à comunidade, por se preocupar com as crianças... Ao falarem de Sebastião Lau, Dedé, Zé Barba e muitos outros arrancam a moldura, e o quem de Sebastião Lau se revela. A imagem sai da moldura dos fatos, que só revelam o que, e não o quem.

5.2 Tio Izalino

Que mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra. (Arendt, 1987, p. 9)

Na segunda viagem ao Córrego dos Januários, em julho de 2002, reunimos os moradores e apresentamos um varal composto de fotografias feitas na primeira viagem e também de fotos antigas de alguns moradores.

 

 

O objetivo do varal era fazer uma devolução das imagens e ouvir o que elas evocavam. Enquanto percorriam o varal, adultos e crianças conversavam. Havia em todos um sentimento de espanto pela beleza das fotos. Ouvindo Elizete, é possível compreender que ressignificar a beleza das imagens é poder ver de um outro modo o cotidiano:

Elizete: Ficou chique demais. As fotos estão lindas! As broas tão chiques demais, uai! A Dedé tá chique demais. Engraçado, na hora que tá fazendo, você não imagina que vai ficar tão bonito, depois vira uma história e fica bonito demais. Coisa que a gente até nem via mais. Não pode esquecer mesmo não. A gente não dá muita importância, porque a gente não vê.

Mas as fotos atuais e antigas também provocam nos mais velhos a reflexão sobre a fotografia como elo dos tempos e sobre a importância da memória e do diálogo com as novas gerações:

Silvia: Ali naquelas fotos tem muitas pessoas que já morreram, da família. Então, é, muito bom, esses trabalhos, essas fotos, é bom demais. Porque aí é recordação fica. E outra, tem que ter alguém pra conversar com as crianças, pra falar como foi, como era. Porque a gente teve trabalho, por exemplo, que eu fiz, tá lá no museu do Inhapim, foi uma dificuldade pra gente conseguir. Então é assim, os pais, a família deve conversar com os filhos sobre isso. Contar um caso de alguma pessoa antiga que já passou por aqui, o Izalino, que era uma pessoa muito engraçada, contador de piada, contador de história, muito engraçado. Muita gente que já passou por aqui, que cada um teve uma história bonita. Tio Luiz, Tio Chico, papai, Izalino. Esses aqui, cada um teve uma história muito bonita, e tá escondido, né?

Argeu: Senão essas crianças não vão ter uma história pra contar, não vão saber a procedência deles. Tio Izalino era um homem que sentava com a gente naquela escada, no banco ali, às vezes coisa que papai não falava pra gente, rapaz, uma coisa assim, Tio Izalino explicava pra gente. Às vezes o pai tinha vergonha de conversar com a gente, Tio Izalino era esse homem. Quando menino eu convivia com o Tio Izalino, a gente via a qualidade dele na vida da gente.

Argeu lembra algo precioso: a qualidade do ser humano que emerge do coletivo traz a marca de sua diferença no mundo e com ele dialoga. Há nessa fala uma noção de pertencimento, de singularidade, que se vai tornando rara, à medida que nos afastamos uns dos outros, nos isolamos, não mais ouvimos e deixamos de compartilhar a nossa diferença no mundo. Tio Izalino vivia na comunidade, e era com ele que Argeu se sentia à vontade para falar.

Argeu: E falando do Tio Izalino, ele era um elemento que acatava os forasteiros, foi o que acolhia as pessoas, Zé Pião, o Terto, Paulista, Sinhaninha, Zé Sati... Então cada um deles tinha a sua qualidade.

Há algo de profundo nos fragmentos narrados. Quando alguém morre, perdemos ligação com seu quem, com a diferença que exercia no mundo. Arendt (1969)6; em sua belíssima homenagem a Karl Jaspers, diz que: "aquilo que em um ser humano é o mais fugidio e, ao mesmo tempo, mais grandioso, a palavra falada e os gestos singulares, morrem com ele, e dependem da nossa recordação e homenagem". As recordações de Argeu e Silvia fazem Tio Izalino, Tio Chico, Zé Pião, Sinhaninha ressoarem de novo e de um modo outro no mundo.

5.3 Seu Agenor

Tudo que precisava para começar era a vida e o mundo, praticamente qualquer tipo de mundo ou ambiente; pois o mundo está cheio de histórias, de acontecimentos e ocorrências e eventos estranhos, que só esperam ser contados, e a razão pela qual geralmente permanecem não contados é, segundo Isak Dinesen, a falta de imaginação - pois somente se você consegue imaginar o que aconteceu de alguma maneira, repeti-lo na imaginação, é que você verá as histórias, e somente se você tem a paciência de contá-las e recontá-las é que poderá contá-las bem (Arendt, 1987, p. 88).

Agenor Caetano da Silva, 72 anos, é o contador de histórias de toda a região do município de Inhapim. Em 2002 (Gusmão, 2004, p. 41), planejamos visitá-lo com a intenção de "prosear" um pouquinho e convidá-lo para a exposição do varal de fotos que aconteceria alguns dias depois no Córrego. Mas logo ficamos sabendo que Seu Agenor andava doente e não poderia ir à exposição. Ficamos preocupadas, mas resolvemos ir até a casa dele levando as fotos da exposição, já que ele não poderia estar presente no dia do varal. Quando encontramos Seu Agenor, ficamos, no início, bem impactadas. Ele estava com tonteiras, sentindo-se fraco, e demonstrava alguns sinais de perda de memória. Embora se lembrasse de nós e demonstrasse alegria por estarmos lá, parecia-nos muito diferente daquela pessoa vibrante que havíamos conhecido um ano atrás contando histórias no Córrego.

Ainda mobilizadas pelo inesperado da cena, mas muito apropriadas de nossa admiração e afeto por Seu Agenor, fomos lhe contando que estávamos voltando para mostrar a todos as fotos daquele fim de semana em 2001. À medida que via as fotos, Seu Agenorinho, como é chamado carinhosamente por todos, ia se lembrando de tudo. Ao se ver na foto contando histórias debaixo da mangueira, chamou seus filhos, netos, a mulher Maria, e uma roda foi se formando em volta do álbum. Seu Agenor começou a contar aos filhos, que não estavam no Córrego naquela ocasião, o que tinha acontecido.

 

 

As fotos iam aos poucos evocando não só sentimentos de valorização como também despertando lembranças, histórias antigas desse velho contador... Eis um trecho dessa nossa conversa:

Seu Agenor: Aí a gente falava, ô gente, vamos acender um fogo aqui na rua e vamos contar uma história? Vamos. E aquele que não trouxer um pau de lenha não "quenta" fogo não [risos]. Aí cada um corria lá, saía com um cavaco, um pau de lenha, e a gente fazia aquela fogueira ali no meio da rua assim, e começava contar história. Com pouco mais tava assim de homem, homem velho. Aí começava: vamos contar a história pr'ocêis disso assim assim, e começava. E aquilo ia longe, era bom demais. Aí quando dava ali as nove, dez horas, todo mundo falava assim, Nhonhô, compadre Zé Pedrim, vamos dormir agora. E todo mundo ia embora. E quase todo dia era assim, bobo. Não tinha confusão, não tinha nada. Era mesmo aquele prazer de ficar contando história ali, era beleza mesmo.

Denise: Isso era aqui? Aqui em Inhapim, mesmo?

Seu Agenor: Não. Era lá no São Domingos das Dores. Nesse tempo nós éramos rapaziadinha nova, né? Meninadinha de assim dez, doze anos, quatorze anos. Aí nós nos juntávamos contando umas histórias, ali nas lojas, nas vendas. Vamos acender um fogo e vamos contar umas histórias. Cada um conta história, mas cada um tem que trazer um pau de lenha.

Denise: Muito bom isso. Muito bom!

Seu Agenor: Aí cada um trazia um cavaco, um pau de lenha lá, e nós fazíamos aquela fogueira e com pouco mais aquilo tava duro de homem em pé, de roda, aí eles começavam a contar também. Aqueles homens começavam a contar uma história pra nós. Aquilo ia longe...

Denise: Quer dizer que desde aí o senhor já contava história. Começou a contar história.

Seu Agenor: É. Comecei a contar história. Aí nós começamos a aprender. Aqueles homens contavam pra nós, nós íamos aprendendo e começava a contar.

 

 

Enquanto conversávamos com Seu Agenor, que via as fotos e lembrava-se do seu tempo de menino, de como foi se tornando contador de histórias, fomos percebendo uma grande mudança naquele homem: tinha agora um brilho nos olhos e muita animação. Bem diferente de como instantes antes nos recebera: trêmulo, distante, triste.

Seu Agenor nos conta sua história e se fortalece. Sua narrativa traz de volta o próprio contador. Sua imagem agora é a do contador de histórias, o narrador que ele propriamente é e se revela com clareza na descrição de Ecléa Bosi:

O narrador está presente ao lado do ouvinte. Suas mãos, experimentadas no trabalho, fazem gestos que sustentam a história, que dão asas aos fatos principiados pela voz ... A arte de narrar é uma relação alma, olho e mão: assim transforma o narrador sua matéria, a vida humana ... Seu talento de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até o fim, sem medo. Uma atmosfera sagrada circunda o narrador (Bosi, 1994, p. 90).

5.4. Zé Barba

Cuide, quando pensar em morrer
Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição que o denuncie
E o ano de sua morte que o entregue!
Mais uma vez:
Apague as pegadas!
(Assim me foi ensinado)

Bertold Brecht

Uma noite, Zé Barba nos convidou para ir à sua casa. Ao final da conversa, o lavrador José Antônio Bárbara, 73 anos, parecia dialogar com o filósofo Walter Benjamin.

Zé Barba: Ah, eu falo assim, de primeiro parecia que tinha menos desenvolvimento, mas parecia que tinha mais união entre as pessoas. Hoje em dia parece assim que o pessoal fica meio desunido. Num ponto eu acho vantagem porque favoreceu. De primeiro era alumiado com pedaço de palmito, cabriúna, né? Hoje não, é só chegar em casa aí tá no claro no momento, mas eu penso assim, as desvantagens que eu acho que tem, porque de primeiro a pessoa, o casal tinha 10, 12 filhos, ia passear na casa do compadre, da comadre, então ele contava história, né, ficava conversando até tardão. Hoje não tem isso mais, quando a gente chega na casa d'uma pessoa que lá tem uma televisão, aí, a pessoa odeia quando a gente chega. Atrapalhou assistir a novela. Então a gente não vai mais igual era aquele ambiente antigo. O compadre ia passear na casa da comadre, lá a comadre dava um pedaço de rapadura pra ele fazer o café, aí depois fazia o café contava bastante história, aí danava bater na cacunda [nas costas]: vamos embora, menino, tá tarde. Aí a madrinha ia lá no ninho de galinha, tirava um ovo, pra dar o afilhado. Não tinha mais nada pra dar o afilhado, dava o ovo e a mãe do menino, pra modo do ovo chocar depressa, ela tacava o ovo debaixo do sovaco, né [risos de todos].

Toquinha: Daquele ovo vinha uma franga, e vinha mais galinha... É engraçado, a gente ganhava mesmo, né? Eu ganhei muito frango e ovo quando era pequena. A madrinha Luzia me dava, me dava às vezes um pouco de feijão.

Zé Barba: Mas então a televisão não dá muito esse espaço. Porque depois que a gente passar a gostar de um programa, ah, briga, não briga? E pior, a gente já tá mais de idade, já faz aquele serviço, não faz muita coisa, não, mas fica cansado. Quando chega em casa, tá o Jardel [seu neto] aí, ele sai pra escola cedo e eu saio pro serviço mais tarde, ele chega do serviço eu tô lá pra roça. Venho, tomo banho e vou ver televisão, lá é meia hora. Dentro dessa meia hora ele me faz uma pergunta, eu falo: ó rapaz, aguenta a mão aí, eu tô querendo assistir um negócio aqui, né? Daí a meia hora eu tô dormindo, aí acabou já o espaço d'eu mais ele.

Eu acho que era hora de nós aproveitar o restinho de vida e procurar fazer alguma coisinha, algum resgate do que foi embora, buscar pra modo de deixar por aí, senão quem vier daqui mais alguns anos, não vai saber que Córrego que era esse, né? Pensar que quando morre uma pessoa a gente devia de tomar o nome dele, porque um dia aquilo vai fazer falta pra família ou pra comunidade. Eu acho que esse trabalho, viu, Denise e Toquinha, é muito importante devido às suas humildades. Porque vocês estão andando atrás de uma coisa que o pessoal jogou fora. Esqueceram. Vocês estão querendo resgatar aquilo que tinha de bom na comunidade, que nós estamos deixando ficar perdido pra lá. Vocês estão procurando o resto, né? O resto. Que ninguém tá querendo. E é do nada que Deus começou o mundo. Foi do nada que Deus começou o mundo. Eu acho muito importante. E isso é uma lição pra cada um de nós. A gente poderia estar acompanhando o desenvolvimento todo mas sempre com o pé atrás, não esquecendo o que já passou, porque diz que a história de trás muitas das vezes serve de trem pra vida da gente lá na frente, porque a história de trás que ajuda a gente a caminhar.

 

 

As palavras de Zé Barba faziam uma conexão direta com Walter Benjamin. Saímos da casa de Zé Barba e, enquanto caminhávamos pela noite, comentamos sobre um trecho da sua obra que diz que a criança "faz história dos detritos da história" (Benjamin, 1984, p. 101). E era isso que Zé Barba nos dissera com outras palavras: que estávamos em busca do resto, refazendo a história a partir do que era jogado fora, dos detritos, das ruínas. Zé Barba não quer que se apaguem os rastros, as pegadas de seu povoado. Talvez o risco a que Brecht nos alerta é o de nos tornarmos aqueles que obedecem, se comportam e não aqueles que agem.

5.5. Maria Ilda das Dores Souza, a Dedé

Não sabemos o que acontece quando morre um ser humano. Sabemos apenas que ele nos deixou. Nós nos apoiamos em sua obra, embora saibamos que as obras não precisam absolutamente de nós. Elas são o que alguém que morreu deixou para trás no mundo que existia antes que ele viesse e permanece quando ele o deixa. O que será das obras depende do curso do mundo. No entanto, o simples fato de que estes livros eram vida vivida não aparece imediatamente ao mundo e fica sujeito ao esquecimento. Aquilo que em um ser humano é o mais fugidio e, ao mesmo tempo, mais grandioso, a palavra falada e os gestos singulares, morrem com ele, e dependem da nossa recordação e homenagem. A recordação realiza-se pela convivência com os mortos, do qual emerge um diálogo, que os faz ressoar de novo no mundo. A convivência com os mortos precisa ser aprendida e é o que estamos começando hoje, na comunhão de nossa tristeza. (Arendt, 1969)7

Em janeiro de 2005 enfrentamos o momento mais difícil e doloroso desde que iniciamos o trabalho de pesquisa, em 2001. Não podíamos imaginar que, ao estar em outubro de 2004 no Córrego, estaríamos nos despedindo para sempre de Dedé.

Pouco antes de voltarmos para o Rio, fomos a casa dela e, com um forte abraço, nos despedimos, dizendo que não íamos mais vê-la. Sua cunhada, que estava por perto, lembrou depois dessa cena. Ela sabia que estávamos nos referindo à viagem. Algumas horas depois, pegaríamos o ônibus de volta para o Rio de Janeiro, mas a força do abraço e das palavras adquiriu outro sentido diante daquele que se tornou realmente nosso último encontro.

Desde o primeiro dia em que a vimos fazendo broas, num misto de diversão e vergonha diante da novidade de ser filmada e fotografada no seu ofício cotidiano, Dedé se revelou, mostrou o seu valor. Foi dela a proposta de fazer a oficina de esteira de taboa (Gusmão, 2004, pp. 65-70), criando especialmente para o nosso encontro um tear como já não se vê mais por ali e compartilhando sua experiência e saber com todos. Dedé adorava ver as fotos que trazíamos a cada novo retorno e, ao se ver com as broas, no tear, conversando, dançando forró, dizia, rindo, como um prenúncio: "É, essa menina Denise. Daqui a alguns tempos, quando eu não tiver mais aqui, o povo então vai poder saber quem era esta tal de Dedé".

Dedé adorava ver os álbuns de fotografia, e logo percebemos o seu fascínio pelas imagens. Um dia, perguntamos a ela se gostaria de fotografar. Ela olhou desconfiada: "Como assim? Eu, mexendo na máquina? Não, eu não sei lidar com isso, não".

Mas resolvemos insistir, pressentindo que Dedé só precisava de um apoio e de um leve empurrãozinho para também deixar a grafia de seu olhar registrada no acervo da história dos Januários. Antes de sairmos passeando pelo Córrego, entregamos a máquina em suas mãos, demos algumas indicações básicas e permanecemos a seu lado sem interferir. A insegurança de Dedé rapidamente deu lugar a seu espírito lúdico e curioso. Dedé parecia brincar com a câmera fotográfica.

 

 

Dedé começou a brincar com a câmera e, pouco depois, estava no meio do mato, totalmente concentrada, produzindo uma foto da jabuticabeira de seu Tio Chico. Preocupada com o destino das jabuticabeiras do Córrego, Dedé chama a atenção com a fotografia, para o desaparecimento das jabuticabeiras do Córrego, que existiam em abundância até poucos anos atrás. Não há nenhuma razão para as jabuticabeiras deixarem de existir, dizia pensativa. Ao ver a imagem, Dedé dialoga com o futuro:

Dedé: Pros vindouros que vêm, aí a gente às vezes vai contar a história. Eles não sabem, se tiver a foto aí eles vão ver. Com a foto eles vão ver como que era.

 

 

Dedé deseja que as jabuticabeiras acolham, com suas sombras e frutos, aqueles que ainda virão... Há, nesta fala, uma promessa que Dedé começou a cumprir. Não podemos esquecer-nos disso.

Dedé: Denise, eu tenho a vontade de ter um pé de jabuticaba lá em casa. Olha o que que eu fiz: as meninas estavam chupando jabuticaba lá em casa eu peguei assim a semente e coloquei tudo lá debaixo do pé de manga. Eu falei: ah, eu vou pôr lá, às vezes nasce mudinha. Pus lá, minha filha, ocê precisa de ver o tanto de mudinha que nasceu. Eu falei assim: eu não vou alcançar essas jabuticabas não, mas ocês que vêm, mais tarde quem sabe ocês vão chupar jabuticaba desses pés.

Essa história com a jabuticabeira aconteceu em 2003. Um ano depois, morria Maria Ilda das Dores Souza. Poucos instantes antes de morrer, Dedé chamou a família, os enfermeiros e os médicos. Agradeceu o cuidado que recebeu. Com muita serenidade, pediu aos filhos, ao marido e a seus amigos que não ficassem tristes. Disse que Deus a estava chamando e que deixava este mundo sorrindo...

é no momento da morte que o saber e a sabedoria do homem e sobretudo a sua existência vivida - e é dessa substância que são feitas as histórias - assumem pela primeira vez uma forma transmissível. Assim no interior do agonizante desfilam inúmeras imagens - visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado sem se dar conta disso -, assim o inesquecível aflora de repente em seus gestos e olhares, conferindo a tudo o que lhe diz respeito aquela autoridade que mesmo um pobre-diabo possui ao morrer, para os vivos ao seu redor. Na origem da narrativa está essa autoridade (Benjamin, 1994, pp. 207-208).

A história não é um lugar vazio e homogêneo, definido para todo o sempre em um passado que se foi, mas, ao contrário, um espaço de revelações surpreendentes, lugar de transformação das reminiscências em palavras e imagens. A história é o lugar de conciliação do passado com o presente, apontando perspectivas de futuro.

Entrar na morada da memória significa tomar consciência do modo como cada vida singular é parte de uma história maior. A história de uma comunidade não se esgota nunca. Cria sempre um novo começo a partir do encontro dos relatos entre as gerações. As origens são múltiplas, e a verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. Fixar é o grande desafio. Capturar as imagens do passado no momento em que são reconhecidas coletivamente. Esse momento é o do encontro do narrador com a escuta daquele que acolhe com sabedoria as histórias lembradas, preciosidades que devem permanecer reverberando sentidos na grande temporalidade. Humanizar a experiência humana é lembrar e contar as múltiplas versões que a vida pode e deve ter.

 

Notas

1 Assumir o dialogismo e a alteridade como marcas das relações estabelecidas no contexto da pesquisa significa buscar o encontro com o outro e compartilhar experiências, conhecimentos e valores que se alteram mutuamente. Nesse contexto, o sujeito da pesquisa é visto como alguém cuja palavra confronta-se com a do pesquisador, refratando-a e exigindo-lhe resposta. Em contrapartida, a palavra do pesquisador integra-se à vida, participando das relações e das experiências, muitas vezes contraditórias, que o encontro com o outro, sujeito da pesquisa, proporciona. Assim, vale destacar que, com base nessa abordagem, entendemos a pesquisa como um espaço marcado por processos de experiências de diálogo e de alteridade, em que o pesquisador e seu outro contemplam-se mutuamente e definem suas experiências de linguagem no contexto social em que são produzidas.

2 Esta pesquisa foi realizada durante os anos 2002-2003, no âmbito do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa da Subjetividade, Departamento de Psicologia, PUC-Rio, e resultou na dissertação de mestrado Por uma estética da delicadeza: ressignificando contos e imagens nas roças de Minas, de Denise Sampaio Gusmão, defendida em março de 2004.

3 Maria de Lourdes Souza (1998) é autora do livro Dicionário de lembranças. Rio de Janeiro: Contemporânea. Seus contos são inspirados em sua infância e adolescência vividas no Córrego dos Januários. Sua angústia e preocupação com o desaparecimento da memória do povoado nos levaram até lá.

4 Este trabalho de pesquisa-intervenção resultou na dissertação de mestrado mencionada anteriormente e culminou recentemente com a inauguração da Casa de Memória e Cultura do Córrego dos Januários, no município de Inhapim, em Minas Gerais, em agosto de 2008. A Casa de Memória e Cultura do Córrego dos Januários surgiu como resultado de um amplo trabalho de pesquisa realizado de 2002 a 2008 pela pesquisadora Denise Sampaio Gusmão, no Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, sob a orientação da professora Solange Jobim e Souza. O projeto vem sendo desenvolvido com a participação da Comunidade do Córrego dos Januários, e está vinculado à Pasta de Educação e Cultura da Associação Comunitária do Córrego dos Januários, sob a responsabilidade de Maria de Lourdes Souza. A elaboração e o desenvolvimento deste projeto contaram com o apoio da CAPES, do CNPq, do Departamento de Artes & Design da PUC-Rio, através do professor Luis Vicente Barros, e da Vice Reitoria Comunitária da PUC-Rio.

5 As pequenas histórias que são aqui transcritas são parte de um acervo maior de registros da pesquisa de campo realizada no período 2002-2003, por Denise Sampaio Gusmão. Vale destacar que o encontro da pesquisadora com os sujeitos que participaram da pesquisa é totalmente marcado pela experiência singular que envolve a atmosfera da pesquisa de caráter etnográfico, cuja particularidade maior aqui se revela no uso da primeira pessoa. As produções de linguagem são desenvolvidas com base nos conceitos dialogismo e alteridade, de Mikhail Bakhtin, definidos anteriormente. Denominamos "Oficinas de Memória" as diversas atividades criadas com os habitantes do Córrego dos Januários, como estratégias de pesquisa-intervenção, desenvolvidas ao longo do trabalho de campo. As fontes utilizadas na elaboração deste texto fazem parte das conversas gravadas, das imagens fotográficas realizadas pela pesquisadora e pelos sujeitos da pesquisa, além dos relatos escritos no diário de campo. Todas as imagens e depoimentos que constam deste texto foram formalmente autorizados pelos sujeitos que participaram da pesquisa e fazem parte do acervo da Casa de Memória e Cultura do Córrego dos Januários, inaugurada no município de Inhapim, em 30 de agosto de 2008

6 Arendt, H. (1969, 4 de março). Discurso de Hannah Arendt por ocasião da homenagem pública prestada pela Universidade de Basiléia a Karl Jaspers. (tradução livre de Luciana Villas Bôas Castelo Branco)

7 Arendt, H. (1969, 4 de março). Discurso de Hannah Arendt por ocasião da homenagem pública prestada pela Universidade de Basiléia a Karl Jaspers. (tradução livre de Luciana Villas Bôas Castelo Branco)

 

Referências

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Arendt, H. (1987). Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras.         [ Links ]

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Bakhtin, M. (2003). Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Benjamin, W. (1984). Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Summus.         [ Links ]

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Gusmão, D. (2004). Por uma estética da delicadeza: ressignificando contos e imagens nas roças de Minas. Dissertação de Mestrado, Departamento de Psicologia, PUC-Rio.         [ Links ]

Paz, O. (1991). La búsqueda del presente. Nobel Lecture. Acesso em 23 de julho, 2008, em http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1990/paz-lecture-s.html        [ Links ]

 

 

Recebido em: 19/01/2009
Revisão em: 05/01/2010
Aceite final em: 02/02/2010

 

 

Denise Sampaio Gusmão é Psicóloga. Especialista em educação Infantil. Mestre e Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Membro do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa da Subjetividade (GIPS), da PUC-Rio. Email: denisegusmao@globo.com
Solange Jobim e Souza é Psicóloga. Doutora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Professora Associada do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio. Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pesquisadora do CNPq e da FAPERJ. Endereço: Av. Padre Leonel Franca, 180/102. Gávea. Rio de Janeiro/RJ, Brasil. CEP 224341-000. Email: soljobim@puc-rio.br

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