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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182

Psicol. Soc. vol.23 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822011000100020 

Espaço e subjetividade: estudo com ribeirinhos

 

Space and subjetivity: study with riparian people

 

 

Andréia Duarte Alves; José Sterza Justo

Universidade Estadual Paulista, Assis, Brasil

 

 


RESUMO

Nesta pesquisa, investigamos as transformações vividas por uma comunidade afetada pela construção de uma usina hidrelétrica no rio Paraná. Utilizando procedimentos da etnografia, realizamos várias visitas à comunidade, reassentada numa vila planejada e construída para substituir a antiga vila que foi submersa. Estabelecemos contatos com os moradores mais antigos e produzimos, com eles, diálogos entabulados em situações diversas, como em visitas às próprias casas e rodas de conversa ocorridas nas calçadas. Nas falas dos ribeirinhos, a mudança do espaço é sentida como algo negativo, em todos os planos da vida. Ressentem-se da perda do rio, da pesca farta, da caça realizada nas matas, das terras férteis cultivadas nas barrancas, da socialidade e de toda produção de subjetividade que mantinham naquele lugar marcado pela proximidade com o rio e suas águas.

Palavras-chave: rio; água; subjetividade; ribeirinhos; hidrelétricas.


ABSTRACT

In this research, we investigated the changes experienced by a community affected by the construction of a hydroelectric on the Paraná River. Ethnography procedures were used to conduct several visits to the community resettled in a planned and built village to replace the old one which was submerged. We established contacts with older residents and produced with them hold dialogues in various situations such as visits to their own houses and circle chats that took place on sidewalks. In their own words the riparian people perceived the area changes as something negative in all plans of life. They resent the river's loss, the plenty of fishing, the hunting held in the forests, the fertile land cultivated in the ravines, the sociality and all the production of subjectivity that they used to maintain in that place marked by the proximity with the river and its waters.

Keywords: river; water; subjectivity; riparian; hydroelectric.


 

 

Introdução

Uma das principais demandas da modernização foi a geração de energia necessária para as atividades produtivas, para o funcionamento dos artefatos tecnológicos e para a própria urbe, dependente da eletricidade.

Em nosso país, a política de geração de energia elétrica elegeu como alvo principal os extensos recursos hídricos. A construção de hidrelétricas já transformou quase todos os grandes rios paulistas numa sucessão de lagos, e as barragens continuam avançando para a região amazônica, a despeito dos enormes impactos ambientais e sociais que produzem (Bermann, 2007).

As pesquisas que focalizam os impactos das hidrelétricas destacam uma variedade de consequências tais como as profundas transformações ambientais (Junk & Mello, 1990), a criação de novos territórios (Cruz & Silva, 2010), a violência decorrente dos intensos conflitos entre os empreendedores e a população ribeirinha desalojada (Zhoure & Oliveira, 2007), a opressão que recai sobre os ribeirinhos pela força avassaladora de grandes interesses dirigida contra eles (Moral, 2006) ou situações próximas a genocídios, como aquelas que ocorrem com tribos indígenas vítimas da construção de hidrelétricas em seus territórios.

Porto XV, um pequeno distrito da região sudeste de Mato Grosso do Sul, situado às margens do Rio Paraná, como tantas outras comunidades e vilarejos ribeirinhos, viveu a trágica experiência da chegada de uma usina hidrelétrica, destinada a mudar radicalmente a natureza, a paisagem, a economia, a urbe, a cultura e a produção de subjetividade local. Com a formação do lago da Usina Porto Primavera (SP), a quilômetros de distancia rio abaixo, o vilarejo formado foi totalmente submerso e os ribeirinhos foram transferidos para a nova vila, construída para reassentá-los.

Antes do represamento do Rio Paraná, homens e mulheres do Porto XV habitavam um pequeno vilarejo na barranca do rio e encontravam na pesca artesanal um ofício capaz de assegurar a sustentabilidade econômica e toda uma produção subjetiva. A força exercida pela terra e pela água na subjetividade do ribeirinho se expressava em mitos, histórias, lendas e rituais religiosos que se associavam ao exercício do trabalho e visavam a conquistar a benevolência da natureza.

A inauguração da hidrelétrica e o decorrente represamento das águas provocaram profundas alterações no leito do rio, em suas margens e alteraram ainda mais profundamente a atividade da pesca artesanal e toda a vida da comunidade. O trabalho no rio perdeu seu caráter heroico e desafiador, além dos prejuízos econômicos causados pela extinção de espécies de pescados anteriormente abundantes na região. As mudanças ambientais tornaram inutilizáveis os saberes acumulados por décadas. Num súbito, a população tornara-se estrangeira em sua própria terra. A nova vila trazia todas as comodidades previstas pelo planejamento urbano moderno – água, esgoto, asfalto, edificações em alvenaria e equipamentos básicos como casas residenciais, igreja, mercado, comércio, salão de festas e outros –, mas impunha novas práticas de espaço urbano, outra ambiência, outras relações sociais, enfim, outra práxis e produções de sentido, marcadas pela desaparição da fonte fundamental de suas vidas: o rio.

A vida ribeirinha é muito mais do que pescar, cultivar pequenas plantações nas terras férteis, utilizar a argila, normalmente farta, caçar, criar um ou outro animal. A água e o rio fornecem muito mais. Alimentam o espírito, assanham desejos, despertam a imaginação, fustigam pensamentos, fomentam expressões simbólicas, acessam a linguagem, enfim, constituem a base de uma vida intensa e criativa. Não é à toa que os pescadores são conhecidos como narradores por excelência. Mais do que pescar, precisam contar as histórias das pescarias, mesmo não sendo acreditados e levados a sério. Ao silêncio recluso da pesca segue-se a tagarelice com os outros e, nela, as narrativas dos grandes feitos ou mesmo dos infortúnios da pescaria.

Há algo de profundamente humano no contato com as águas, na vida que se crava nela, que se mostra nos sonhos, devaneios e na imaginação que a tomam como referente básico.

Bachelard (2006) coloca o devaneio num lugar bastante privilegiado da cognição. Segundo ele, o devaneio é a atividade anímica mais criativa, especulativa e prospectiva do psiquismo, exercendo um papel fundamental na produção de subjetividade. O devaneio não aprisiona a imaginação, como faz o sonho ao submetê-la a um desejo reprimido, e nem a comanda mediante uma lógica ou à sua submissão à realidade, como faz o pensamento. Portanto, opera com maior flexibilidade, liberdade e capacidade de geração de imagens e de conexão entre elas.

O autor distingue dois tipos de imaginação: a imaginação formal e a imaginação material. A primeira opera sobre palavras, pensamentos, objetos abstratos e é impulsionada por experiências emocionais e afetivas. A segunda opera sobre elementos concretos, sobre a materialidade do mundo, sobre a experiência empírica, seja ela decorrente do contato com a natureza, com o mundo físico, ou do contato com as materialidades produzidas pelo homem, tal como as relações sociais.

Para o autor, são quatro as materialidades irredutíveis que oferecem as imagens básicas para o devaneio poder operar suas ideações sobre o mundo e sobre o próprio sujeito: o ar, a terra, a água e o fogo. Esses quatro elementos fornecem as imagens mais primitivas e fundamentais mediante as quais o homem apreende seu universo, imputando aos objetos do seu mundo, por analogia, condensação ou deslocamento, propriedades, características ou sentidos deles derivados. Assim, a terra, por exemplo, dentre tantas outras imagens, oferece aquela do sólido, da durabilidade, da permanência e das formas bem definidas, imagens essas que são emprestadas para a percepção e a compreensão de tantos outros objetos, tornando-os inteligíveis. Tão fortes foram as imagens oferecidas pela água, terra, ar e fogo que teriam orientado toda a cosmologia antiga, fornecendo, inclusive, os signos para a categorização da psique e para a criação de uma humana. Dessa forma, os pensativos, rígidos e introspectivos eram associados à terra, os virulentos ao fogo e assim por diante.

Ainda hoje muitas expressões preservam e utilizam referências a esses quatro elementos como forma de produção de sentido: "não brinca com fogo"; "límpido como água"; "forte como uma rocha" são algumas das muitas presenças das imagens da terra, do ar, do fogo e da água em nossa linguagem e em nosso pensamento.

A água fornece as imagens mais arquetípicas relacionadas à fluidez, à plasticidade, à feminilidade, à sensualidade, à transitoriedade, ao movimento e ao tempo. Representa para a experiência humana o contato direto com o estado fluido da matéria, estado esse que investe também fenômenos vários do mundo.

O objetivo deste artigo é mostrar que, junto com os prejuízos ambientais, junto com a degradação da vida dos ribeirinhos e, algumas vezes, com a extinção de etnias, ocorrem também perdas irreparáveis no plano da subjetividade, que não afetam tão somente aqueles atingidos direta e imediatamente, mas que se irradiam pela produção de subjetividade como um todo. Nosso propósito é demonstrar que a cada remoção de ribeirinhos, imposta pela formação dos lagos das hidrelétricas, o homem se distancia um pouco mais do rio, não somente como fonte econômica, mas como fonte de produção de sentido, de expansão do pensamento, da imaginação, da diversidade social e cultural, enfim, como fonte de produção de vida.

 

Aportes metodológicos

O presente artigo decorre da dissertação de mestrado de um dos autores (Alves, 2007), na qual foi realizada uma longa pesquisa com os habitantes do atual distrito de Porto XV que residiram na antiga vila submersa pelo lago. Tal como etnólogos, de acordo com o que Sato & Souza (2007) propõem como possibilidade metodológica na Psicologia Social, chegamos à cidade. Fomos percorrendo suas ruas sonolentas, entabulando conversas com aqueles que se encontravam à sombra nas calçadas, nos apresentando como pesquisadores interessados na história do lugar e, aos poucos, fomos guiados até os mais antigos que, com muito interesse e disposição, se prontificaram a nos contar suas histórias.

Um procedimento etnográfico entremeado com recursos da história oral na medida em que, nas memórias dos antigos ribeirinhos, realçada pelos fortes contrastes das imagens da vida de outrora com as imagens da vida atual, emergiam os sentidos de uma existência ligada umbilicalmente à água, à água corrente do rio. As falas, muitas recolhidas em rodas de prosa entabuladas nas calçadas, foram gravadas e transcritas e citadas no texto na sua forma original, sem qualquer modificação ou adequação às normas da língua culta. A identificação dos participantes foi feita conforme eles mesmos desejaram. Além das rodas de conversa, foram realizadas entrevistas individuais ou com duplas, geralmente de casais, nas próprias casas onde residiam. O roteiro de entrevista partia da proposição geral de que os participantes relatassem o cotidiano da vida à beira do rio, antes da formação do lago; prosseguia com intervenções do pesquisador para esclarecer detalhes e, caso, não surgisse espontaneamente, terminava com a solicitação de uma comparação com a vida na vila que foi construída para assentá-los depois do represamento do rio. O trabalho de campo foi todo realizado ao longo do ano de 2006, oito anos depois do início da formação do lago e da transferência total dos ribeirinhos para a nova vila, em 1998.

 

A Vida dos ribeirinhos

O espaço habitado: a antiga vila

A população habitava três espaços distintos, hoje submersos: a vila de Porto XV de Novembro, a "barranca" e as ilhas. A pequena vila possuía casas, pousadas e casas noturnas para abrigar e divertir os viajantes que aguardavam a balsa para a travessia e o comércio. Havia também bares, que serviam de pontos de encontro dos pescadores da vila e dos visitantes que vinham de outros lugares para pescar, onde era comum os amigos se reunirem para contar histórias de pescaria e partilhar informações sobre as condições do rio.

A região próxima às margens, popularmente chamada de "barranca", abrigava o porto e a colônia de pescadores, sendo constituída por pequenas chácaras ao longo da costa. Essa região era mais atingida no período das enchentes, fato que obrigava os ribeirinhos a se deslocarem para abrigos temporários na vila. As casas da barranca eram distantes umas das outras e ligadas por uma estrada marginal de cascalho, que também servia de acesso à vila e à rodovia Manoel da Costa Lima (BR-267).

Du Ó: - "Minha casa era no alto do chão, a garage do carro era debaixo da casa, carro não carro véio, e era de tauba [tábua]".

Teresa: - "Oito cômodos".

Du Ó: - "Era maior. Era maior, só que era mais feinha, né? Mas ninguém tinha esse calorzão não, porque ali entrava ar por todo lugar, por cima, por baixo, pelos lado. Não Chovia dentro não".

Teresa: - "Só entrava fresca".

Du Ó: - "Entrava fresca porque era de tauba, né!"

Teresa: - "E a casa balançava tudo quando ventava muito. A casa balançava".

Du Ó: - "Toda casa que tá no prumo balança".

Teresa: - "É. Só que a nossa casa já tava torcida mesmo".

Du Ó: - "Mas num ia cair não".

Há cerca de dois quilômetros das margens do rio ficava a vila, onde existiam casas de comércio, escolas, bares, pousadas e residências. A vila seguia um modelo rústico de disposição urbana: as casas de madeira ficavam próximas uma das outras, sendo separadas por ruas sem pavimentação. Os vastos quintais com seus pomares e criações de animais eram sempre delimitados por cercas, também de madeira. O terreno onde ficava a vila era mais elevado e não costumava ser atingido pelas águas das enchentes, exceto no ano de 1982, quando a região assistiu à maior cheia de sua história e toda a população teve que buscar refúgio nas fazendas da região.

As ilhas abrigavam um número considerável de pescadores que tinham contato com a comunidade apenas nas ocasiões de festas religiosas e no período da enchente, quando precisavam se deslocar. Essa população vivia de forma bastante rústica até a mudança para o novo Porto XV.

A ilha era maravilhosa... Primeiro nóis veio morar no XV, depois nóis compramo a ilha, e descemo pra ilha. Fiquei três ano nessa ilha. Depois voltamo pro XV de novo porque minha casa era aqui. Eu morava na ilha, mas tinha a casa aqui. Continuamo a mesma vida tranquila. (Chiquinho Palhaço)

A população desses espaços costumava encontrar-se nas festas religiosas da vila e nos bailes. As pessoas se conheciam e se ajudavam mutuamente, principalmente nos períodos das cheias do rio, quando a comunidade precisava se deslocar para as regiões mais altas.

A pesca

Os pescadores do antigo Porto XV contavam com a correnteza, com a fauna e flora adequadas para obtenção das iscas e, também, com a proximidade do rio afluente que garantia a qualidade e diversidade das espécies. A vida da comunidade estava amarrada à vida do rio. Pelas suas vazantes se marcava o tempo e se previa os destinos, as fortunas e as misérias. A pesca era permeada de rituais e superstições que visavam conquistar a benevolência do rio, de forma que todos os esforços despendidos no trabalho fossem retribuídos pelas águas com fartas quantidades e variedades de peixes.

A comunidade era uma extensão das águas, e através de suas oscilações se marcava o tempo e se previam os destinos, as fortunas e as misérias. A rotina da pescaria levava o trabalhador a enfrentar a impetuosidade da correnteza e permitia aventuras repletas de perigos, imprevistos e desafios. Essas condições ligadas ao cotidiano de trabalho eram matéria-prima para muitas conversas e histórias, entabuladas e contadas como entretenimento nas varandas das casas ao entardecer. Nesses momentos de devaneio, tradicionalmente cultivados no cotidiano, os ribeirinhos atribuíam sentidos aos fatos corriqueiros, manifestavam aspectos de sua relação com a natureza e recompunham as forças para novas empreitadas.

Os dias a enfrentar a correnteza significavam uma aventura cheia de perigos e imprevistos, principalmente pela presença da densa mata ciliar e dos animais selvagens que, em busca de água e alimento, abrigavam-se às margens do rio, desafiando os pescadores. Essas condições ligadas ao cotidiano de trabalho serviam de matéria-prima para as histórias e mitos que eram o entretenimento nas varandas das casas ao entardecer e recompunham seus esforços para novas empreitadas: "Bicho tinha demais [na pescaria], a gente até acostuma encontrar capivara, anta, cateto... aqui acolá a gente escutava uma oncinha esturrando" (Du Ó).

Água e terra se complementavam na vida do ribeirinho. Nem a lavoura, nem o rio eram capazes de sozinhos fornecerem alimento o ano todo. Tanto a água quanto a terra precisam de tempo para gerar o alimento. Por essa razão, esse homem ribeirinho passou a desenvolver uma relação muito próxima com a natureza, integrando-se harmoniosamente ao seu modo de vida. "Eu pescava e tocava roça. Numa semana era três dias no rio e três na roça. A gente tinha que comer, né? E pra pagar a luz tinha que vender o peixe" (Du Ó).

Os pescadores mantinham uma relação de respeito com o rio e com o meio ambiente, pois sabiam que dependiam deles para sobreviver. Sabiam os limites da mão do homem sobre a natureza, pois, para a sabedoria popular, o rio era vingativo com aqueles que o violentavam, que o provocavam. Por essa razão, era consenso cadenciar o ritmo da pesca ao tempo do rio, principalmente no período da piracema. Nesse período, os pescadores tiravam da terra seu sustento. Alguns tinham sua própria roça no quintal, outros trabalhavam como boias-frias nas terras da região: "E lá no XV não, lá era diferente. Lá tinha roça de feijão, roça de algodão, boia-fria, puxava a turma pra levá pra trabalhar nas roça de madrugada, ninguém tinha tempo lá no XV veio, aqui não" (Teresa do Du Ó).

Prevalecem na memória dos antigos habitantes da vila imagens de prosperidade e fartura: "Aquele tempo lá era bão. Cê saia... Às vezes ocê saia pra acampar, cê chegava, armava e com dois dia cê tinha que vim embora... sabe por que? Ocê não tinha onde ponhá os peixe. Se não viesse embora estragava" (Du Ó).

As enchentes

O período das cheias do rio, durante os meses de verão, obrigava os ribeirinhos da barranca e das ilhas a deixarem suas casas e buscarem refúgio em regiões mais altas. A vila dificilmente era atingida pelas enchentes, exceto em anos de cheias mais abundantes, como a marcante enchente de 1982.

Frequentemente, os ribeirinhos recebiam auxílio do Exército e da Marinha nesse período. Os militares auxiliavam no resgate de ribeirinhos ilhados pela enchente, cediam barracas para que as famílias acampassem até que o rio voltasse ao seu leito original e comumente forneciam alimentos. Além dos militares, a comunidade local tinha uma participação importante no auxílio à população ribeirinha nesse período.

Na enchente saía. A gente ia pra um lugar mais alto. Sempre tinha barraca, sempre alguém arruma. Aquele tempo o povo era bão. Às veiz os fazendeiro arrumava os rancho pro povo do Quinze ficá. Aquele tempo não era que nem agora não. Aquele tempo ninguém esquentava de dá alimento não, porque todo mundo tinha fartura. O povo trazia, no tempo do o exército eles ajudava também. Era mais fácil, eu num achava ruim as enchente mesmo não, porque não faltava as coisas. (Sr. Nelson)

As enchentes vinham de repente, junto com as chuvas. A maioria dos pescadores não saía de suas casas até que a água já estivesse invadindo, esperavam ficar ilhados para então se refugiarem em terra firme. Isso porque todos temiam abandonar suas casas em vão, pois era completamente impossível prever o nível que as águas alcançariam.

A vida do ribeirinho era completamente adaptada ao rio, às enchentes e ao espaço. As casas eram construídas em madeira sobre altas estacas, tentando manter alguma segurança frente aos riscos de cheia do rio e do perigo de invasão de animais selvagens. As enchentes eram vistas com agrado pelos pescadores, pois acreditavam que quanto mais abundante fosse a quantidade de água, maior seria a fartura no ano que começava. As cheias contribuíam para tornar as terras mais férteis e favoreciam o ciclo reprodutivo dos peixes. Para os pescadores, enchentes escassas anunciavam que o ano seria de fome e penúria.

Naquela época que nóis tava no Quinze Véio, todo ano tinha enchente, e nóis esperava a água do rio chegá na porta da casa prá depois carregá a família embora. Eu sempre tinha a crença de esperá o rio entrá no quintal prá podê lavá o pé na água da enchente antes de deixá a casa. Às veiz nóis ficava ilhado e vinha os cunhecido de bote buscá a gente na casa, aí nóis pegava as coisas de mais precisão, fechava a casa com as tramela, e ia armá nosso barraco aonde o rio não alcançava. E nóis ficava rezano prá descer muita água, o rio encher bastante e trazê muito peixe prá nóis pescá no resto do ano. O ano que a enchente era pouca ia sê ano de fome, pudia até iscrevê. Agora parece que o rio tá morreno, o rio tá cheio, mas não tem mais a corredera prá trazê os peixe. ... Este ano não deu nada, tem dia que o que nóis pesca serve só prá comê na janta. (pescador de isca da Reta A1)

 

A água como espaço habitado

Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este que arrasta mitologias e espadas?

(Jorge Luís Borges)

A água é o elemento fundamental para a vida do homem. É o líquido primordial, insubstituível, essencial para sobrevivência de qualquer agrupamento humano. No entanto, a água é múltipla, relaciona-se de inúmeras formas na natureza, é pluralizada por sentidos e finalidades.

Embora coincidam na composição química, as águas não são iguais. Elas se transformam e, ao se modificarem, modificam tudo o que tocam. Bachelard, ao estudar a imaginação material dos quatro elementos fundamentais da natureza, define a água como "o elemento transitório. É a metamorfose ontológica essencial" (Bachelard, 1989, p.7).

É nesta multiplicidade que a água adquire totalidade, pessoalidade e forma. ... a água nos aparecerá como um ser total: tem um corpo, uma alma, uma voz. Mais que nenhum outro elemento talvez, a água é uma realidade poética completa. Uma poética da água, apesar da variedade de seus espetáculos, tem a garantia de uma unidade. (Bachelard, 1989, p.17)

Em contrapartida, a água é uma espécie de antítese complementar da terra. Essa relação, que Bachelard considera a base da vida, revela toda a sensualidade da água, sua força de combate material que manifesta sua completude íntima e fecunda. O encontro entre a água e a terra, território onde o pescador se equilibra, possui também um sentido sádico, numa guerra de poderes eróticos. A água que luta para dissolver e tornar o mundo maleável contra uma terra que quer absorver, tornar a realidade sólida e estável.

Em certos devaneios, parece que todo elemento busca um casamento ou um combate, aventuras que o apaziguem ou o excitem. Em outros devaneios, a água imaginária nos aparecerá como o esquema fundamental das misturas. Eis porque daremos especial atenção à combinação da água com a terra, combinação que encontra na massa o seu pretexto realista. A massa é então o esquema fundamental da materialidade. A própria noção de matéria, acreditamos, está estreitamente ligada à noção de massa. (Bachelard, 1989, p.14)

O encontro da água com a terra fundamenta a subjetividade do ribeirinho, sua relação com o mundo e com a sociedade. No caso dos pescadores de Nova Porto XV, essa relação é muito particular, pois as alterações na água e na terra são drásticas e irreparáveis. A barragem paralisou as águas e transformou o Rio Paraná em um imenso lago inerte. A terra das margens, antes repleta de matas ciliares, varjões e espécies selvagens, agora parece árida, inabitável e estéril.

As mudanças no espaço acarretam mudanças nas imagens produzidas pelos ribeirinhos em suas narrativas. ... a água já não é apenas um grupo de imagens conhecidas numa contemplação errante, numa sequência de devaneios interrompidos, instantâneos; é um suporte de imagens e logo depois um aporte de imagens, um princípio que fundamenta as imagens. A água torna-se assim, pouco a pouco, uma contemplação que se aprofunda, um elemento da imaginação materializante. (Bachelard, 1989, p.12)

A água corrente do rio é renovada, alegre e livre, tem uma natureza maternal. Ela sacia, refresca, revitaliza e alimenta o pescador, pois é na intimidade de suas profundezas que o alimento é cultivado e preservado. "A água leva-nos. A água embala-nos. A água adormece-nos. A água devolve-nos a nossa mãe" (Bachelard, 1989, p.136).

A água-mãe rompe a paisagem com seu movimento constante, transborda a vida, fecunda a terra, leva as impurezas, revitaliza o espaço por onde passa. A água corrente penetra a terra, interrompe sua exatidão, desequilibra sua atividade, desafia a previsibilidade do chão.

Veremos também a profunda maternidade das águas. A água faz incharem os vermes e jorrarem as fontes. A água é uma matéria que vemos nascer e crescer em toda parte. A fonte é um nascimento irresistível, um nascimento contínuo. Imagens tão grandiosas marcam para sempre o inconsciente que as ama. Suscitam devaneios sem fim. (Bachelard, 1989, p.15)

Por outro lado, as águas correntes do rio possuem uma força combatente e dominadora. A força do rio desafiava a habilidade do pescador, era alimento para seus devaneios, trazia o conteúdo para as histórias. A água corrente é uma água viva, imprevisível, desejante, instiga o pensamento a descobrir seus segredos, desvendar suas fraquezas e seus prazeres. A água do rio é a mãe amorosa do pescador, mas é também sua amante sádica e insaciável que o excita, hipnotiza-o, fazendo-o se sentir potente.

Em sua violência, a água assume uma cólera específica, ou seja, a água recebe facilmente todas as características psicológicas de um tipo de cólera. Essa cólera, o homem se gaba rapidamente de domá-la. Por isso, a água violenta é logo em seguida a água que violentamos. Um duelo de maldade tem início entre o homem e as ondas. (Bachelard, 1989, p.16)

A vida que depende da água corrente é difícil de ser gerenciada, desafia a força da mão criadora do homem, pois a água sabe resistir às intenções e aos esforços em dominá-la. O ribeirinho necessita compreendê-la para poder decifrá-la e, assim, tirar seu sustento; precisa aprender a conviver com as enchentes e a seca; entender a correnteza do rio com seus sons, cores, aromas e gostos. A sabedoria do pescador sobre a água o faz sentir-se parte dela, extensão da sua natureza, participante do seu leito caudaloso.

É essa sensação de posse sobre a materialidade do espaço que traz riqueza ao imaginário das histórias de pescador. A água corrente exige o esforço do homem, o trabalho duro na materialidade que negocia com a vontade humana. Por isso mesmo, fustiga a imaginação, o devaneio, o conhecimento, os afetos, favorecendo a poesia, as criações culturais.

as vozes da água quase não são metafóricas, a linguagem das águas é uma realidade poética direta, os regalos e os rios sonorizam com estranha fidelidade as paisagens mudas, as águas ruidosas ensinam os pássaros e os homens a cantar, a falar, a repetir, e que há, em suma, uma continuidade entre a palavra da água e a palavra humana. ... Mostraremos que essa liquidez dá uma excitação psíquica especial, uma excitação que já evoca as imagens da água. (Bachelard, 1989, p.17)

A barragem violentou as águas antes astutas e límpidas, interrompeu seu curso e abortou seu trânsito, impedindo o cumprimento do destino essencial. As águas paradas não revigoram, não desafiam, não trazem fecundidade e nem levam embora as impurezas do espaço:

As águas sem movimento perdem sua finalidade subjetiva e passam a ser um corpo melancólico e domesticado. A água experimenta, então, como que uma perda de velocidade, que é uma perda de vida; torna-se uma espécie de mediador plástico entre a vida e morte. (Bachelard, 1989, p.13)

A água parada é o sangue de um corpo morto, de um rio morto, um sangue contaminado, doentio e sólido porque não se renova, porque não tem ciclo. O transbordar de um lago de barragem não é como o banho revigorante e purificador que as enchentes dão à terra e à flora ribeirinha, mas uma explosão hemorrágica que traz morte e destruição.

para um psiquismo tão acentuado, tudo o que, na natureza, corre pesadamente, dolorosamente, misteriosamente seja como um sangue maldito, como um sangue que transporta a morte. Quando um líquido se valoriza, aparenta-se a um líquido orgânico. Há, portanto, uma poética do sangue. É uma poética do drama e da dor, pois o sangue nunca é feliz. (Bachelard, 1989, p.63)

O lago não tem desejo, não tem combate, não tem pressa, não se altera, logo, não há o que ser desvendado, não há sobressaltos ou excitações. O pescador se encontra com águas impotentes, uma água-mãe de seios secos e uma água-amante sem erotismo. A passividade das águas forma imagens melancólicas e dolorosas, que aparecem nas narrativas. Uma melancolia também passiva, repleta de mágoas adormecidas, conformadas e esvaziadas de esperança.

Diante das águas imóveis do lago, os pescadores veem refletir a história e o destino da vila. A água-espelho reflete a realidade e duplica a dor e ressentimento do povo. O lago tem um peso tão sólido e árido quanto um deserto, tem o peso da culpa de ter afogado o rio, ter matado a terra, as matas e os bichos. Mas a água-espelho também reflete o passado da memória, duplica as lembranças e amplifica a saudade do espaço perdido. Os reflexos do lago permitem à comunidade exercitar um olhar sobre si, inspirando o desejo de narrar.

Em especial, podem–se descobrir as duas águas, a da alegria e a da dor. Mas não existe apenas uma lembrança. Nunca a água pesada se torna uma água leve, nunca uma água escura se faz clara. É sempre o inverso. O conto da água é o conto humano da água que morre. O devaneio começa por vezes diante da água límpida, toda em reflexos imensos, fazendo ouvir uma música cristalina. Ele acaba no âmago de uma água triste e sombria, no âmago de uma água que transmite estranhos e fúnebres murmúrios. O devaneio à beira da água, reencontrando seus mortos, morre também ele, como um universo submerso. (Bachelard, 1989, p.49)

 

Do espaço ribeirinho para a cidade estéril

Os sentidos da água do rio, para esses ribeirinhos, ganham ainda mais força e profundidade quando são contrastados com os sentidos da nova vila, vista como uma grande tragédia em suas vidas.

Mangabinha: - "O Quinze lá era outra vida. Hoje nóis tá dentro de uma podreira, desce nessa beira de rio pra você vê que água podre. A cidade que mais levô prejuízo e foi mais abandonada neste mundo se chama Nova Porto XV de Novembro. Isso eu falo pra quem quisé ouvi. Eu subo em beira de palanque até, porque não tenho medo de hôme nenhum".

Marisa: - "É uma cidade fantasma, Andréia".

Mangabinha: - "Foi a cidade que foi mais massacrada, foi a Nova Porto XV. Hoje vive abandonada".

As falas daqueles que conheceram e viveram no antigo vilarejo e que agora habitam a vila construída para abrigar os desalojados pelo represamento do lago remetem-se inevitavelmente à comparação entre os esses dois tempos e lugares. As comparações sempre trazem um tom de saudosismo da vila anterior, à beira do rio, e da vida ali existente. A pesca, o plantio, a criação de animais, enfim, uma vida simples, campestre é sempre lembrada como uma época de fartura e felicidade, apesar do intenso trabalho e das tecnologias rudimentares utilizadas. A vida na cidade atual é apresentada como possuindo algumas vantagens, como dispor da infraestrutura propiciada pelo urbanismo, porém trazendo uma maior dificuldade no plano econômico e alterações na sociabilidade vistas como desvantajosas.

O projeto urbanístico da nova vila privilegiou comodidades inacessíveis aos ribeirinhos anteriormente: casas de alvenaria, ruas pavimentadas, redes de água e energia elétrica, um novo paisagismo com arborização, praças e áreas de lazer, prédios comerciais estrategicamente localizados, igrejas, complexo industrial e a infraestrutura para emancipação política do distrito.

O projeto foi claramente direcionado à urbanização dos ribeirinhos, fortemente influenciados pela cultura rural e pelo vínculo com a fauna e a flora das margens do rio. Um rápido olhar pelas vias públicas da nova cidade – ruas, praças e construções – revela uma calmaria própria dos lugares desabitados. Algumas salas comerciais e prédios públicos destinados ao funcionamento de serviços básicos jamais entraram em atividade efetivamente.

A tradição rural inviabilizou a implantação desses serviços e favoreceu que continuassem a depender das cidades vizinhas: Presidente Epitácio (SP) e Bataguassu (MS).

Ao percorrer a pequena cidade rapidamente com o olhar, capturamos particularidades da vida diária. O espaço envolve os sentidos, o calor que emana da terra é intenso e o vento ligeiro chega ardente e com sede às margens do reservatório.

As pessoas se conhecem pelo nome e partilham a vida mutuamente, compondo uma rotina comum. A chegada de estranhos não demora a ser sabida por todos. As ruas largas e planas possibilitam dimensionar a vila e facilitam o encontro do olhar com o brilho do sol refletido nas águas imóveis do reservatório. Percorrer as amplas calçadas é uma aventura cheia de desafios, pois nelas são acomodados bancos e cadeiras estrategicamente ordenados à espera de alguém que incite uma roda de prosa.

As casas possuem a mesma estrutura arquitetônica, e a diferença entre elas é marcada pelo que de dentro é deixado de fora. Aos desconhecidos que chegam, as ruas são aparentemente iguais, a cada esquina dobrada se experimenta uma breve confusão espacial, o pensamento leva alguns segundos para precisar o leste onde paira o lago e, então, localizar-se.

É possível perder-se na pequena cidade, que parece infinita em sua própria semelhança.

Du Ó: - "Agora aqui, não adianta tê um conforto, tê uma casa mais ou menos, porque isso não é uma casa boa. Boa boa não é. Porque a casa tá partino por tudo quanto é lugá, isso pra mim não é casa boa, num tem um limpa fossa".

Russu: - "Nóis tava conversano ali com a dona Maria e cum os outro cumpanheiro. Então, a gente tava falano com referência ao Quinze Veio e o Quinze Novo é aquilo que você acabô de falá: nóis lá, nóis tinha, tá certo que nóis não tinha o conforto que nóis tem aqui".

Du Ó: - "Exatamente, nóis num tinha conforto".

Russu: - "Nóis num tinha asfalto, água encanada, a luz até que nóis já tinha lá. Eu sei que lá até a Dona Maria, a Dona Maria do Bambu tava se referindo a uma coisa verdade, lá agente tinha frango, galinha, tinha ovo, tinha mandioca, tinha abóbora..."

Du Ó: - "Tinha de tudo".

Russu: - "Tinha de tudo. Aqui ocê planta ali cedo".

Teresa: - "Os outro passa e leva tudo".

Apesar do conforto presente na vida urbana, os ribeirinhos sentem por não ter a mesma relação de liberdade e fartura que o espaço rural permitia. A possibilidade que a terra dava de agir, produzir, lavrar e saciar-se é a principal marca da identidade do pescador ribeirinho. A cidade é árida, infértil e limitada, despotencializando as possibilidades de luta por sobrevivência. Os limites que a cidade impõe ao homem castram sua potência criadora e impossibilitam que ele se aproprie de seu trabalho e de suas condições de existência. Nada está ao alcance imediato ou disponível para a livre exploração e prospecção, como as riquezas do rio e de suas encostas. Na urbe há a forte intermediação do mercado, do dinheiro, nas relações, colocando-se entre as pessoas e entre elas e as coisas (Giddens, 1991; Simmel, 1903).

Quando os ribeirinhos falam da fartura que a lavoura e a pesca traziam, aludem a uma sociedade na qual o dinheiro estava relativamente distante, e havia uma grande proximidade entre eles e deles com o rio e a terra: "tinha de tudo", bastava plantar e pescar. A vida urbana distancia, introduz mediações, afasta o sujeito da produção de suas condições de existência, submete-o ao mercado e à racionalidade do dinheiro: paga-se por tudo, inclusive pela água, antes farta e ao alcance das mãos.

Nas falas dos ribeirinhos transformados em citadinos, o "conforto" da urbe não compensa a experiência da escassez. Tudo que existe ali é visto como um transtorno, como sinal de despotencialização e de degradação da vida.

Teresa: - "Essas fossas tudo cheias aí, ó".

Du Ó: - "Você num pode tomá um banho bem sossegado porque senão a fossa derrama lá dentro do banheiro. Quando você faiz o pedido pra vim limpá a fossa, você tem que fazer dia 1º de janeiro pra vir dia 15 de setembro".

Du Ó: - "E a gente nem tá tomano banho aí. Se tivesse tomano banho aí já tinha enchido".

Teresa: - "A gente toma banho do lado de fora, lá no fundo. Esses dias a gente tava falano de saúde. Eu fui na reunião que eu sou do Bolsa Família e tava falano sobre a higiene e num sei o quê e um monte de coisa, mas aí eu falei pra ele: 'O quê que adianta a gente tê higiene dentro de casa com a família e tá a fossa soltano o fedô e depois quando a fossa escorre só os micose que cai ali'".

Tal como a água do lago, a da cidade é vista também como apodrecida, repulsiva e causadora de doenças. A fossa aparece como signo dessa água agora suja e mortificante, bem diferente daquela do rio. Mas não é apenas a conotação de sujeira que passa a impregnar o signo da água citadina. Ela passa a se associar também a cotações de ordem e disciplina que grassam o urbanismo moderno.

A água presente na vila urbanizada é uma água totalmente domada e domesticada que corre pelos encanamentos e obedece a simples comandos do homem que a fazem jorrar, regular ou interromper seu fluxo. Tal como o traçado das ruas e a disposição dos edifícios, a água circula na urbe de forma racional, seguindo caminhos predeterminados e subterrâneos, sob um absoluto controle que assegura sua funcionalidade e praticidade. A água encanada e demais obras de infraestrutura se inscrevem na lógica de ordenação, assepsia e controle que preside o urbanismo moderno (Berman, 1998; Harvey, 1992).

Sair da vida ribeirinha para habitar uma urbe planejada significa trocar uma vida simples, mas carregada de sentido de aventura, ação e combatividade na lida cotidiana com imprevistos e com forças indomáveis por uma vida esterilizada, administrada e monótona. A água corrente na cidade é percebida pelos ribeirinhos como sendo, de fato, incolor, inodora e insípida, muito diferente daquela do rio que até obedecia ao curso de um leito, mas vez ou outra, pelo menos, transbordava e invadia casas e plantações, não como água fétida e podre, mas que trazia fertilidade e abundancia. Na nova Vila, a água se foi como fonte de alimentação do corpo e do espírito, e sequer a terra está acessível como possível substituto, porque na urbe se vive sobre o asfalto das ruas, o calçamento de quintais e passeios e sobre o concreto dos pisos das edificações.

 

Considerações finais

Nas falas dos ribeirinhos, a água, o rio e a barranca que divisa a terra são os referentes centrais de suas produções de sentido sobre a vida, ainda mais quando a vida de outrora, às margens do rio, é contrastada com a vida atual desconectada daqueles referentes que submergiram no grande lago formado pela barragem de uma usina hidrelétrica.

Os prejuízos ambientais e o enorme impacto das hidrelétricas na vida da população ribeirinha são reconhecidos e têm sido bastante discutidos na literatura científica. São muitos os trabalhos que destacam a dizimação de ecossistemas, com a construção de barragens nos rios e a formação de lagos artificiais, responsáveis pela sustentabilidade da variedade da vida.

São também comuns trabalhos que procuram descobrir alternativas para a revitalização dos lagos e dos próprios ribeirinhos, com a experimentação de outras possibilidades de exploração econômica da água represada.

No entanto, é preciso considerar que, com o represamento do rio, ocorrem outros represamentos mais difíceis de notar, não obstante, causem iguais ou prejuízos até maiores do que aqueles mais em evidência como o desaparecimento de espécies de peixes, a destruição da fauna e da flora, a tomada das terras e a expulsão da população ribeirinha. O represamento dos rios represa, paralisa ou destrói, irreparavelmente, toda uma forma de vida, toda a produção de subjetividade constituída nesse que é um dos nichos básicos da existência humana.

Além de destruir a base material, o ganha pão dos ribeirinhos (o peixe, a argila, a areia, a própria casa, a vila ou a cidade inteira), o lago da barragem destrói também a fonte da imaginação ligada à água corrente, destrói a cultura, o conhecimento produzido na lida do homem com o rio. A barragem represa a imaginação, represa a subjetividade hidrante. Retira do homem esse referente fundamental, essa fonte de inspiração e de produção imaginativa que, segundo Bachelard (1989), possui propriedades singulares insubstituíveis e irreproduzíveis por qualquer artifício tecnológico.

O mesmo autor chama a atenção, ainda, para a supremacia da água do rio e da água doce em relação à água salgada e do mar. O rio e a água doce é uma constante na vida do homem e todos têm contato com ela. É quem mata a sede, percorre a face da terra permitindo que o homem possa adentrar seus interiores e alastrar-se por ela. É no rio que o homem bebe não somente o líquido necessário para sua sobrevivência, como também bebe as igualmente necessárias imagens que alimentam seu espírito. Portanto, não são apenas os ribeirinhos que têm suas vidas diminuídas ou cassadas quando lhes retiram o rio de suas existências, mas é a humanidade que perde uma importante fonte de geração de energia para a vida. Não a energia elétrica, evidentemente, mas energia vital que ativa o sujeito pelos seus desejos, imaginações, pensamentos e ações sobre as materialidades da natureza e das relações sociais.

O rio é parte inalienável da experiência humana. Mesmo com seu progressivo desaparecimento ele permanece na imaginação, como um dos principais monumentos da natureza e da cultura, assim como também as cavernas, as montanhas, os vulcões, as queimadas, os vendavais, tufões e tantos outros referentes do mundo. Rio e pesca são combustíveis da vida, da socialidade e da subjetividade. Matar o rio, portanto, significa, sobretudo, matar a subjetividade que se constitui nele; a subjetividade hidrante, as narrativas que têm o rio e a pesca como seus combustíveis.

Tal como se pode constatar nas falas dos nossos ribeirinhos, sem a água viva, corrente e saudável do rio, a própria vida perde potência, se desidrata e seca.

 

Referências

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Recebido em: 28/05/2009
Revisão em: 24/08/2010
Aceite final em: 27/11/2010

 

 

Andréia Duarte Alves é Psicóloga organizacional e Mestre em Psicologia pela UNESP - Assis.
José Sterza Justo é Mestre e Doutor em Psicologia Social, pela PUC-SP e livre docente em Psicologia do Desenvolvimento pela Unesp-Campus de Assis. Docente do Departamento de Psicologia Evolutiva, Social e Escolar da Unesp-Assis e orientador de mestrado e doutorado. Endereço: Faculdade de Ciências e Letras, Unesp. Departamento de Psicologia Evolutiva, Social e Escolar. Av. D. Antonio, 2100. Assis/SP, Brasil. CEP19800-000. Email: justo@assis.unesp.br

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