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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182

Psicol. Soc. vol.23 no.2 Florianópolis May/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822011000200018 

George herbert mead: contribuições para a história da psicologia social

 

George Herbert Mead: contributions to history of the social psychology

 

 

Renato Ferreira de Souza

Centro Universitário de Lavras, Lavras, Brasil

 

 


RESUMO

Com este artigo pretende-se contribuir para a compreensão histórica de um autor/personagem da Psicologia. Analisamos e acrescemos conhecimento sobre George Herbert Mead e os desdobramentos de sua teoria psicossocial. Para esse propósito, explicitaremos, no texto, uma das vertentes analíticas utilizadas em nossa dissertação, qual seja: por meio da abordagem social em história da psicologia, confrontamos a vida de Mead com momentos de constituição da psicologia, colocando em relevo aspectos centrais dessa interlocução nem sempre identificados. Correlacionamos a história de Mead com questões sociais, políticas, econômicas e científicas, assim como suas conexões com práticas e valores culturais específicos de sua época. Buscamos compreender sua limitada difusão na ciência psicológica, dando, assim, continuidade ao processo de (re)volta do autor.

Palavras-chave: história da psicologia; produção social do self; identidade; teoria social.


ABSTRACT

This article intends to contribute to historical understanding of author/character of Psychology. We analyzed and enlarged knowledge about George Herbert Mead and the developing of his psychosocial theory. For this reason, we will explain in the text as analytical side used in our dissertation, in other words: through of the social approach in history of psychology we confront the life of Mead with facts of constitution of the psychology, emphasizing central aspects of this discussion not always identified. We correlate the history of Mead with social, politic, economic and scientific questions as well as his connections with practices and specific cultural values of his time. We look to understand his limited diffusion in the psychological science, giving, so, continuity to the process of returns of the author.

Keywords: history of the psychology; social production of self; identity; social theory.


 

 

Introdução

Ano 2000. Conheci George Herbert Mead em Belo Horizonte, MG, apresentado por um professor de Ética, mestre em filosofia (Ferreira, 1999), durante o curso de graduação de Psicologia. Primeiro encontro truncado; não conhecia nada a respeito do autor, assim como a grande maioria dos colegas que, ávidos por Freud, Lacan, Rogers, Perls, Skinner, etc., nem deram tanta importância a essa primeira interação. Nas semanas seguintes, os encontros foram instigantes. Percebia que Mead tinha muito a oferecer, mas as temáticas divergiam de nossas prioridades clínicas. Como resultante simbólico do contato, apenas o registro da possibilidade de mais uma psicologia.

Ainda na capital mineira, iniciei um curso de formação clínica, pelo Instituto Humanista de Psicoterapia, onde, dentre outras atividades, realizava atendimento clínico psicoterápico a crianças portadoras de deficiência visual. É nesses bons encontros, ao modo de Espinosa (2003), que a Psicologia se apresenta, ao menos para mim, como definitivamente social.

Retomo a discussão feita por Mead sobre a gênese social de formação da personalidade, que colocava a referência a uma segunda pessoa como sendo fundamental para qualquer autorreferência. Para o autor, a partir dos gestos começam a surgir os sinais, os símbolos e, posteriormente, as convenções semânticas válidas intersubjetivamente, inaugurando a linguagem como algo que faz parte da conduta social (Ferreira, 2000). Avaliando com Mead (1972) serem os gestos fundamentais para o "surgimento" da constituição social do self, fiquei em suspensão sobre o mecanismo pelo qual os portadores de deficiência visual supririam essa carência, já que o autor parte do pressuposto de que os gestos são visualizados durante a interação social. 

Com essas inquietações, construí o pré-projeto para o ingresso no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Naquela época, novos questionamentos surgiram em relação à obra e à teoria de George Herbert Mead, em especial sobre sua história, ou melhor, sobre a falta de sua História.

Em entrevista com a Professora Doutora Maria do Carmo Guedes1, o trabalho teve início. Por que Mead não é traduzido no Brasil, não é difundido na Psicologia? Seria "culpa" sua? Qual sua história? Em sua época, o que se estudava na psicologia? Era excêntrico? Não vendia, e hoje? Desde a procura pelas bibliografias indicadas para o exame de conhecimentos em psicologia social, e posteriormente ao querer me aprofundar nos estudos meadianos para a construção do projeto de pesquisa, estranhava não encontrar livros do Mead em livrarias e sebos; em bibliotecas eram antigos, poucos e raros os volumes em espanhol ou inglês. Como, se parece importante para a psicologia social. O estranhamento desta história transforma-se em curiosidade acolhida.

 

Processualidade da pesquisa e sua justificativa

Já no centro de pesquisa, nos ocupamos com obras que por lá circulavam abordando diretamente a teoria e a história de George Mead nas ciências sociais e humanas, como, por exemplo, a tese publicada do Professor Odair Sass, Crítica da Razão Solitária: A Psicologia Social Segundo George Herbert Mead (2004); o livro de Robert Farr, As Raízes da Psicologia Social Moderna (1996); e o de Chirley Bazilli et al., Interacionismo Simbólico e Teoria dos Papéis: Uma aproximação para a Psicologia Social (1998).

O questionamento que, a princípio, apresentava-se pelo fato do não-reconhecimento teórico e pela pouca difusão histórica de Mead, começa a ser compreendido.

Às vezes, o espanto pode provocar a lucidez. A existência de autores que desenvolveram análises psicológicas de fôlego, entre outros os acima nomeados [Henri Wallon principalmente na educação, Lev Vygotsky e George Mead], e que permanecem nos escaninhos da academia, evidenciam o desprezo dos psicólogos, não pelo "antigo", pelo "démodé" ou, se preferir, pelo "clássico", mas, lamentavelmente, pela história da ciência que juram produzir. (Sass, 2004, p. 22)

Aspectos que sustentam a importância e atualidade de Mead são encontrados em autores como Habermas (1988) que, recorrendo a Mead, recupera-o, voltado para o futuro, como importante e atual autor para a elaboração de uma teoria crítica da sociedade: "No meu entender, a única tentativa promissora de apreender conceitualmente o conteúdo pleno do significado da individualização social encontra-se na psicologia social de G. H. Mead" (Habermas, 1988, p. 185).

Berger e Luckmann, depois de criticarem os psicólogos sociais americanos por não incorporarem à psicologia social as contribuições das teorias macrossociológicas, concluem que:

A total ignorância da obra de Mead constitui um grave defeito teórico do pensamento social neomarxista na Europa, hoje em dia. Há uma considerável ironia no fato de ultimamente os teóricos neomarxistas estarem procurando uma ligação com a psicologia freudiana (fundamentalmente incompatível com as premissas antropológicas do marxismo), esquecendo completamente a existência da teoria de Mead sobre a dialética entre a sociedade e o indivíduo, que seria imensuravelmente mais compatível com sua própria abordagem. (Berger & Luckmann, 1966/2004, p. 32).

Nesse mesmo sentido, o Professor Dr. Antonio da Costa Ciampa, ministrando a disciplina Psicologia Social e Realidade Brasileira, na pós-graduação em Psicologia Social, pela PUC-SP, no início da década de 1980 esteve na vanguarda, trabalhando com referências que apontavam para essas considerações. A bibliografia em questão é um caderno de estudos de Joachim Israel, do ano de 1972, no qual se percebe existir uma semelhança básica entre as imagens do Homem, definidas por Marx e por George Herbert Mead. Para Israel (1972, p. 26), "Mead preocupava-se bem mais do que Marx com os processos psicológicos e, assim, sua análise vai um pouco além da de Marx". Ele faz uma suposição básica, de tipo ontológico, a qual estabelece a base não só para uma abordagem relacional dialética, mas, também, para a abordagem subsequente. A suposição é a seguinte: "Um eu só surge onde existe um processo social dentro do qual este eu tenha se iniciado. Ele surge dentro desse processo." (Israel, 1972, p. 26).  

 

Considerações metodológicas

Em busca da reflexão crítica sobre a influência histórica nos desdobramentos teóricos e práticos da ciência, Guedes (1998) prima pelo rigor metodológico, fundamental para a investigação científica. Apresentamos, a seguir, os devidos cuidados e preceitos de decisões metodológicas que foram encaminhadas para a pesquisa: (a) definição do problema: o trabalho desenvolvido priorizou apurar a compreensão de um autor/personagem da psicologia social, acrescendo conhecimentos em relação à sua história, demonstrando, ao mesmo tempo, sua relevância para os trabalhos da Teoria Social; (b) a especificação das informações: dois conjuntos de informações tornaram-se essenciais para que a análise pretendida pudesse ser desenvolvida. De um lado, era necessário buscar, nos textos históricos, psicológicos, sociológicos e nas referências consultadas, informações que permitissem correlacionar a história de Mead com as questões sociais, políticas, científicas e estruturais de sua época; informações sobre o que se passava no plano das relações interpessoais ao tempo em que elaborava sua teoria, assim como suas conexões com práticas e valores culturais específicos deveriam ser contempladas. De outro lado, era necessário circunscrever os estudos atuais da teoria da sociedade que foram elaborados com a colaboração da teoria meadiana, para identificar possíveis apropriações dos conceitos de Mead; (c) o levantamento das informações: do material selecionado foram destacados trechos ilustrativos de temas relacionados ao problema descrito. A partir disso, os trechos eram transcritos em arquivos que foram aproveitados na construção das análises2; (d) o tratamento das informações: duas etapas principais sintetizariam o processo analítico desta pesquisa; primeiro, a adoção de uma perspectiva histórica que possibilitou a compreensão do emaranhado subjetivo que o cruzamento de uma vida e suas alternativas, com uma época e suas possibilidades, pode desencadear; segundo, a constatação da utilização/apropriação da teoria social de George Mead que, por vezes, a própria psicologia social insiste em não considerar.

 

Métodos para a compreensão histórica

Tendo como base a análise de Wertheimer (1998), assume-se que a história da psicologia não pode ser vista nem à maneira indutiva, pretensamente acabada e universal, nem à maneira convencionalista, como que, firmada em acordos institucionais, e que as alternativas mais comuns encontradas, a de se traçar a história de uma determinada perspectiva psicológica como a história da psicologia ou a de se buscar a unificação das diferentes perspectivas para que se possa ter uma história da psicologia, não possibilitam compreender o caminho percorrido por essa disciplina.

Robert Watson (1960) argumenta que a psicologia sempre respondeu a uma lógica institucional interna, mas fundamentalmente a seu ambiente social. Compartilhamos com Antunes (1998) a opinião de que, para a compreensão histórica da psicologia, implica captá-la no bojo das relações que estabelece com o todo do qual faz parte, incluindo os fatores sociais, políticos, econômicos, culturais e científicos, na dinâmica do movimento realizado no fluxo do tempo.

Ao identificar algumas maneiras de construir a evidência historiográfica, Campos (1998) aponta duas abordagens possíveis e interessantes para a análise histórica. Na abordagem biográfica, a vida e a obra de um autor são utilizadas como principais fontes de dados para a reconstrução dos acontecimentos. Essa perspectiva é especialmente interessante por permitir a combinação das abordagens internalista e externalista: ao descrever a evolução do pensamento do autor, a ênfase recai sobre o ponto de vista internalista; ao abordar as relações entre autor e comunidade ou a época, é possível observar a interação entre a atividade científica e o contexto social e cultural. No modo descritivo e analítico, descrevem-se detalhadamente os pressupostos e o conteúdo de determinada teoria, tal como proposta por seus indicadores, analisando-a, se possível, em comparação com abordagens alternativas.

Para Lakatos (1989), o estudo das contestações é particularmente importante na descrição do desenvolvimento de uma ciência: a controvérsia é justamente o momento em que se revelam as explicações alternativas e as teorias em conflito, e nelas é possível avaliar em profundidade o argumento e a lógica de cada modelo. No entanto, a complexidade histórica exige uma abordagem que dê conta não só dos aspectos parciais como os colocados até aqui. Nesse sentido, entendemos, como Antunes (1998), que, para a melhor compreensão da psicologia em sua historicidade, teremos a exigência de integração de três diferentes, mas não mutuamente exclusivos níveis de análise: (a) interno, (b) de fundamentação filosófica e (c) de contexto.

O nível interno de análise refere-se ao estudo da psicologia, ou mais propriamente de suas múltiplas manifestações particulares (em função de sua vasta e complexa constituição), abrangendo suas definições, conceitos, pressupostos, estrutura, métodos, coerência interna etc. Esses elementos, porém, não são isolados ou autônomos, mas fundamentados em bases epistemológicas que lhes dão sustentação e são definidoras de sua conformação específica. Assim, o primeiro nível de análise não se esgota em si mesmo, mas se complementa e se radica nesse segundo plano analítico. A síntese, porém, só é possível após a integração com esse terceiro nível de análise, quando os elementos acima materializam-se no tempo e no espaço, no seio das relações engendradas na dinâmica social. (Antunes, 1998, p. 372)

Dessa forma, na combinação proposta por meio das três fases descritas, temos que a compreensão histórica da psicologia implica, portanto, a compreensão da trama de relações na qual ela se insere e desenvolve. Nesse sentido, faz-se necessário buscar o entendimento de suas múltiplas manifestações, abarcando as multideterminações das quais ela é produto e produtora. Tal perspectiva aponta para os fundamentos da abordagem social em história da psicologia. Mesmo considerando que a abordagem social em história seja indicada para uma melhor compreensão dos acontecimentos, não exacerbamos suas possibilidades e, mesmo, devemos considerar que essa atividade é também dinâmica, sendo histórica e socialmente condicionada, o que a faz parcial e incompleta, donde decorre a necessidade constante de se estar fazendo e refazendo o conhecimento histórico (Antunes, 1998).

 

George Herbert Mead: a vida de um intelectual

George Mead nasceu no dia 27 de fevereiro de 1863, em New England, Massachusetts. Era o segundo filho de Hiram Mead com a professora Elisabeth Storrs Billings. Seu pai, professor de homilética (arte de pregar sermões religiosos), foi designado a exercer sua função em New Hampshire, mudando-se, com a família, em 1867, tornando-se posteriormente, professor na Faculdade de Oberlin em Ohio.

Nessa época, ocorreu o ingresso das ciências naturais no ensino superior americano, predominantemente dominado pela igreja. Mead estudou na Faculdade de Oberlin, onde apareceram os primeiros conflitos com as reivindicações dogmáticas religiosas em prover uma explicação do mundo. Para Joas (1985/1997), consequência desse conflito é a aproximação de Mead da teoria da evolução de Darwin, como prova irrefutável do caráter mitológico da doutrina cristã da criação do mundo. Ainda jovem, Mead se aproximou da visão científica que lhe sugeria a ideia de um darwinismo aplicado à sociedade. Por outro lado, incomodava-lhe pensar de que forma poderiam ser conservados os valores de uma vida digna que fosse socialmente comprometida, sem os dogmas e fora dos limites estreitos do modo de vida puritano.  Esse período da vida de Mead é caracterizado por um interesse em "encontrar a sua própria identidade desenfreada através de preceitos morais, um interesse que o conduziu à literatura e à psicologia, por uma compreensão semelhante à dos filósofos esclarecidos, e pela fé nos efeitos libertadores dos métodos científicos" (Joas, 1985/1997, pp. 15-16)3.

Após a morte do pai, em 1881, Mead começou a pagar com seu trabalho os estudos em Oberlin. Trabalhou como professor de escola secundária, mas logo foi dispensado por problemas disciplinares, terminando seu vínculo trabalhista e seu primeiro ciclo universitário na instituição em 1883. Nos anos seguintes, passou a trabalhar como agrimensor em construção de ferrovias, para diferentes companhias ferroviárias. Essa experiência técnica solidificou seu interesse pelas ciências naturais, apesar de não lhe agradar, deixando-o sem orientação, tanto para a escolha de uma nova profissão como de metas pessoais.

Aceitando o conselho de seu amigo mais íntimo, Henry Castle, e "guiados ambos pelo desejo de achar significância e um sentido ativo e socialmente útil, Mead decidiu entrar no curso de Filosofia da Universidade de Harvard em 1887, apesar de todos os riscos financeiros auxiliares" (Joas, 1985/1997, p. 16).

Em Harvard, interage com o professor neocristão hegeliano Josiah Royce, iniciando duradoura amizade. Royce é responsável pelos primeiros encaminhamentos e influências sobre Mead do idealismo alemão, além de ministrar cursos sobre Espinosa e Spencer. Essas bases filosóficas apresentadas por Royce despertaram em Mead um claro descontentamento com o tratamento meramente especulativo e o distanciamento que a filosofia e a ciência mantinham dos problemas sociais.

Hegel com sua filosofia dialética exerce notável influência com a proposta de não dirigir suas preocupações a aspectos específicos da vida humana, suas origens ou inserção no mundo. "Seu sistema revela preocupação mais ampla, voltada ao direito, à história, à política, enquanto âmbitos diversos da realização do homem em seu mundo, esta sim o foco primordial." (Andery, 2004, p. 365). 

Em 1888, Mead toma a decisão de se especializar em psicologia fisiológica e não mais em filosofia, pensando que no campo da psicologia fisiológica seria possível procurar suas ideias e interesses sem entrar continuamente em conflito com as igrejas cristãs que controlavam as universidades quase totalmente, financeiramente e ideologicamente.

A Alemanha era o centro da pesquisa fisiológica e do desenvolvimento da psicologia experimental, principalmente em Leipzig, onde o primeiro laboratório de psicologia havia sido criado por Wilhelm Wundt. Mead estudou na Universidade de Leipzig em 1888/89, mas tinha dificuldades em relação à língua alemã. Por isto, seus planos de estudo mudaram e, mais uma vez, voltou-se para os estudos filosóficos, matriculando-se no curso de Wundt: "Fundamentos de metafísica", e nos cursos oferecidos por Heinze "A História mais recente da filosofia moderna" e por Rudolf Seydel, "A Relação da Filosofia alemã ate o Cristianismo desde Kant4". Para (Farr, 1996), Mead foi fortemente influenciado pela Volkerpsychologie de Wundt, inclusive fazendo a análise dos quatro primeiros volumes de sua Psychological Review entre 1904 e 1906, revista cientifica dirigida por Wundt.  

Depois de um semestre em Leipzig, Mead se transfere para Berlim, centro com maiores possibilidades para a atividade filosófica. "Como mostram os registros de inscrições nos arquivos da Universidade de Berlim, Mead se tornou um estudante de Dilthey, Ebbinghaus, Paulsen e Schmoller." (Joas, 1985/1997, p. 18). Esse fato é de crucial importância para compreendermos as raízes da intelectualidade de Mead, pois através desses professores foi alertado para um conflito que logo viria à tona gerando uma famosa controvérsia, entre uma "psicologia explicatória" orientada às ciências naturais, empregando procedimentos reducionistas, tendo Ebbinghaus como representante, e a "psicologia descritiva", que usa métodos interpretativos das ciências humanísticas, representado por Dilthey. As preocupações de Mead não o colocaram em acordo pleno com nenhum dos lados. Esse debate resultaria na separação entre o fenomenológico e a psicologia experimental.

Além dessas influências, havia outra experiência que o marcaria em seus tempos de Berlim: sua impressão do movimento alemão social-democrático trabalhista. Mead acreditou que, após seu retorno para os EUA, seria capaz de contribuir aos esforços de dar uma forma racional à sociedade americana. Para (Joas, 1985/1997), seu socialismo chegava a ser influenciado pelos ideais do "Cristianismo Royciano", e pela esperança de que pudesse alcançar a realização prática desses ideais na vida cotidiana através de sua atividade como intelectual "reformista".

Em 1891 Mead recebeu uma oferta de trabalho feita pela Universidade de Michigan, para o cargo de professor do Departamento de Filosofia, convite efetivado por John Dewey. Assim, deixa Berlim precipitadamente, mas não antes de se casar com Helen Castle, irmã do amigo Henry que havia falecido em um acidente de carruagem no começo daquele ano. Esse retorno rápido a seu país implica o abandono do doutorado que fazia em Berlim.

 

Atividades profissionais: compromisso com o social

Após o regresso da Europa, sua nova posição, instrutor de psicologia, o fez dar cursos em psicologia fisiológica, história da filosofia, sobre Kant e a teoria da evolução. Foi nessa época que, pela primeira vez, Mead tentou tirar da teoria da evolução suas implicações para a psicologia e fazer da relação entre um organismo e seu ambiente o modelo básico para a pesquisa psicológica. Interessou-se pela pesquisa experimental, porém, não queria fazer uma pesquisa fortuita e expressou, por várias vezes, sua preocupação e necessidade de buscar uma clarificação teórica fundamental para seu ponto de vista sobre questões sociais. Procurou por essa clarificação por meio do estudo completo do pensamento de Hegel, tendo para essa empreitada o auxílio de dois colegas hegelianos eminentes em Michigan: John Dewey e Alfred Lloyd, de quem Mead se tornara amigo. Para Sass (2004), o contato de Mead com as ideias hegelianas é fundamental para suas futuras concepções em psicologia social; é desse contato direto com a obra hegeliana que Mead retira seu substrato para pensar o sujeito psicológico como inapelavelmente social. 

No mesmo ano de chegada a Michigan, Dewey apresentou Mead a Cooley, PhD em economia que, por sua vez, o apresentou às ideias de Adam Smith, por meio das quais Mead obteve inspiração para produzir a teoria que trata da questão do indivíduo assumir o papel do outro. Suas ideias básicas começaram a se desenvolver nesse período. 

O respeitado Dewey, em 1894, foi convidado a chefiar o Departamento de Filosofia e Psicologia da recém-fundada Universidade de Chicago. Uma de suas condições para aceitar o convite seria a contratação de Mead como professor assistente. Assim começou o trabalho de ambos em uma das mais ambiciosas universidades da época, inserida numa cidade desmedida e conturbada. Chicago era uma das metrópoles de industrialização capitalista; a maioria de sua população era constituída por imigrantes de primeira geração, trabalhadores inexperientes ou semiqualificados e seu crescimento era tão rápido que todas as tentativas de planejamento frustravam-se. Não era possível, em Chicago, ter uma compreensão ingênua de democracia sem se perguntar sobre sua possível realização em uma sociedade industrial. Nessa época, Mead se comprometeu fortemente com a luta pelos direitos da mulher e para a reforma do código penal juvenil. Era sócio de vários comitês de arbitragem de greve e também atuava em comissões públicas que visavam reformas sociais.

Durante algum tempo, Mead foi editor do Jornal do Professor de Escola Primária; ensinou no Laboratório da Escola da Universidade de Chicago, onde a reforma educacional foi implantada com ênfase nas atividades da criança e no "grupo de vida informal", com a finalidade de desenvolver o intelecto da criança e suas habilidades práticas e sociais. Também presidiu uma escola experimental para crianças com transtornos emocionais.

Todas essas atividades compuseram uma parte dos trabalhos na vida de Mead que recebeu muito pouca atenção. Ainda o envolvimento prático múltiplo de Mead em educação e políticas exercitou uma influencia muito grande em sua teoria. Seguramente não é nenhum acaso seu chamado para o desenvolvimento de uma psicologia social precisamente por sua importância para uma teoria científica da educação, e que a série longa de artigos que começam em 1909 nos quais ele faz os passos essenciais para uma psicologia social, segue por uma fase levada quase exclusivamente para publicações em educação. (Joas, 1985/1997, p. 23)

 

À procura de um socialismo científico

No tempo em que viveu em Michigan, de 1891 a 1894, Mead teve uma atividade política, envolvida com os afazeres da pesquisa de Dewey. Foi a fundação de um jornal que pretendia servir como um contrapeso à imprensa comercial. Porém, esse projeto, no intuito de melhorar a sociedade pela melhoria das informações disponíveis, foi combatido fortemente e desmoronou antes que tivesse realmente começado. Pode parecer, à primeira vista, que esse empreendimento tem pouco a ver com as preocupações filosóficas e psicológicas de Mead. Ocorre que, por meio de sua psicologia, Mead tentava dar um passo importante para secularizar e politizar uma noção cristã central; para ele, não poderíamos desfrutar desse sentimento, o amor, impulso para uma comunidade fraterna, de forma isolada. Segundo Joas (1985/1997), esse pensamento expressa o forte desejo de Mead, compatível aos jovens hegelianos, de fazer com que as igrejas dessem conta desse sentimento em seu sentido pleno e passassem da ética da fraternidade e das formas de ações impeditivas em seus rituais, para traduzirem isto em ação, transformação e em práxis social.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) trouxe um novo ponto para as atividades políticas e jornalísticas de Mead. Ele se tornou defensor da advocacia do presidente Wilson para a entrada dos Estados Unidos na guerra, defendendo, em artigos de jornais, a participação americana no conflito com um caráter "desinteressado". Entretanto, essa posição política de Mead era comum a uma geração inteira de intelectuais americanos progressistas. A guerra não era compreendida como o resultado de causas políticas e econômicas globais e dos interesses contraditórios de poderes imperialistas em competição, mas como um conflito entre os princípios de democracia e autocracia (Joas, 1985/1997).

Os comentários de Mead na questão de anexar o Havaí, em 1895, as declarações em relação à política governamental para Cuba e Filipinas, a aprovação da política de Wilson para o México e seu endosso, em 1922, da Política de Porta Aberta com respeito à China foram todos preenchidos com a confiança dentro do justo e libertador papel dos EUA no mundo. Para Joas (1985/1997), aqui se encontra o segredo do progressivismo autêntico do pensamento burguês americano e de sua duração relativamente longa. O pragmatismo estava baseado na possibilidade de integrar avanços no desenvolvimento da ciência e tecnologia e as consequências sociais nas convicções otimistas de progresso da burguesia. Não se percebia claramente que a causa dessa prosperidade americana se encontrava justamente em sua política de expansão.

Mesmo com o apoio inicial de Mead à guerra, é incorreto pensar que seu compromisso com a reforma social tinha se afrouxado. Há evidência considerável de que, nessa época, sua posição em relação às reformas sociais ficou ligeiramente mais radical. Em cartas a amigos e em artigos publicados, como também na revisão do livro de Thorstein Veblen, sobre os pré-requisitos econômicos de uma paz mundial duradoura, Mead proclamou sua aprovação ao novo programa do Partido Trabalhista Britânico, expressando seu desenvolvimento de esquerda ao creditar à proposta a possibilidade do estabelecimento evolutivo de uma sociedade socialista por meio de medidas transitivas precisamente planejadas como meta oficial do partido.

Após a guerra, Mead argumenta sobre a necessidade de se criar possíveis relações internacionais para que, livres da violência, se estabelecessem mecanismos para resoluções racionais de conflitos. Comparando-se com as tendências de pensadores daquela época, em meio ao nacionalismo agressivo, resignar-se ao esclarecimento ideal de uma civilização emancipada fazia da posição de Mead uma exceção humanística.

O aumento do abstracionismo no pensamento de Mead e a concentração do seu interesse na possibilidade de atingir valores e conhecimentos objetivos, levando em conta a pluralidade inegável das perspectivas individuais, tornaram-se o cenário principal para a discussão de sua filosofia e de sua psicologia social. Para Mead, era crucial o entendimento da oposição entre uma "ideologia" de movimentos sociais e uma "política científica" de reformas graduais na sociedade, defendendo, assim, a reforma social. Para ele, o oposto de reforma social utópica era a reforma social científica. Em sua composição "A Hipótese de Funcionamento na Reforma Social", incumbe-se explicitamente em justificar e incluir a reforma social entre as ciências indutivas.

Para Popper, citado por Joas (1985/1997), a fabricação de políticas em uma ciência, a racionalidade da ação política, tem a ver com a escolha de meios e técnicas para toda a gente, coisas justas; isto não nos levaria a uma sociedade aberta, mas, em vez disso, poderia permitir que estruturas estáveis de dominação permanecessem incontestadas em sua validez implicitamente aceita.

Em contraste, para Mead, a reivindicação da ação política para a racionalidade é fundada na forma de tomada de decisão social, isto é, em um unir de habilidade com a obrigação de fazer algo. Para ele, a tarefa do cientista é procurar entender as posições de todas as partes de um conflito e tornar isso possível para que cheguem a um acordo. "Reforma social racional, então, não consiste em achar meios econômicos para determinados fins, mas ao invés em uma intensificação da discussão pública da qual emergem soluções construtivas para todos os problemas sociais beneficiando tudo e no interesse de todos" (Joas, 1985/1997, p. 31).

 

George Herbert Mead e o primeiro curso de Psicologia Social

Em 1900, atuando há seis anos como professor na Universidade de Chicago, Mead começou a ministrar seu curso anual de psicologia social. "Ele empregou os termos 'psicologia social' muito antes que outros o tivessem feito. Esse era o título de seu curso, em 1900-1901, cerca de oito anos antes que os termos aparecessem nos títulos de livros escritos por McDougall (1908) e Ross (1908)" (Farr, 1996, pp. 105-106).

Foi também em 1900 que Watson mudou-se para Chicago, a fim de iniciar sua tese de doutoramento, sob a orientação de Dewey. Conforme Farr (1996), em virtude de não entendê-lo em seus argumentos científicos, resolveu mudar de orientador, passando a ser orientado pelo professor Angell. 

Mead era do Departamento de Filosofia, que incluía os cursos de Psicologia e Educação. Quando Dewey se transferiu novamente, em 1904, agora para a Universidade de Columbia, os psicólogos de Chicago, sob a direção de Angell, criaram um Departamento de Psicologia separado da Faculdade de Filosofia. Mead permaneceu com os filósofos, enquanto Watson transferiu-se para o novo departamento. "Como consequência desse episódio, muitos psicólogos deixaram de recomendar o curso de psicologia social organizado e ministrado por Mead, o qual começou a ser frequentado por sociólogos"5 (Farr, 1996, p. 82).

Watson, que havia sido aluno de Mead, deixou Chicago e, logo em seguida, se tornou presidente da American Psychological Association (APA). No mesmo período em que esteve na presidência da instituição (1912-1915), lançou seu manifesto behaviorista, que tinha por objetivo eliminar as noções de consciência, self e mente, rejeitando as abstrações e destinando à Psicologia a análise de objetos observáveis e sujeitos à experimentação. Mead, contudo, em sua psicologia social, utilizou e estudou esses conceitos, para ele, indispensáveis à compreensão do fenômeno humano. "Os psicólogos seguiram Watson, do mesmo modo como os habitantes de Hamelin seguiram o tocador de flauta" (Farr, 1996, p. 88).

No fim dos anos 1920, a onda de reação e mudanças nas universidades americanas ameaçou inclusive o pensamento pragmatista da Universidade de Chicago. Mead, como chefe do Departamento de Filosofia, envolveu-se em brigas políticas com o então reitor da Universidade. Joas (1985/1997), após ter lido um sumário dos arquivos de Miller (1973) que continha as explicações dessa contenda, comentou que a controvérsia política veio à tona com a indicação de um neotomista, Mortimer Adler, para ser professor em Chicago, contra os desejos expressos do departamento e de seu chefe. O então reitor Hutchins e o recém-contratado Adler se tornaram figuras importantes para os emigrantes conservadores do Terceiro Reich, para quem a Universidade de Chicago se tornou um lugar de encontro – claramente em contraste com as tradições dessa universidade durante décadas (Farr, 1996). Coincidente com esse período, Dewey visitou Mead já doente e o convenceu a deixar Chicago pela Universidade de Columbia, em 1931. Contudo, Mead não teve tempo de assumir mais este posto.

Depois de ensinar durante quase quarenta anos nesta universidade (Chicago), George Herbert Mead morreu no dia 26 de abril, de 1931, quase desconhecido, estimado por alguns colegas e estudantes como um pensador extraordinário, e profundamente amargado pelas mudanças controversas nas políticas internas da universidade que ameaçaram alterar a natureza da filosofia de lá, fazendo isto em caráter católico e reacionário. Tão grande era a amargura de Mead que, logo antes de sua morte, ele decidiu deixar a instituição e a cidade que tinham sido o seu campo de ação. (Joas, 1985/1997, p. 28) 

Mead escreveu, no período de 1894 a 1931, mais de sessenta artigos nas mais diversificadas áreas, da Física à Filosofia. Deixou valiosas contribuições para a Psicologia e a Sociologia. Já seus livros foram publicados apenas após sua morte, fruto de anotações de seus ex-alunos, principalmente Charles Morris, que editou e prefaciou Mind, Self and Society, considerada sua obra principal.

 

Teoria Meadiana e suas repercussões para a Teoria da Identidade

G. H. Mead (1863-1931) elaborou um programa para a produção de um conhecimento científico que possibilitou o surgimento de uma nova perspectiva em psicologia social; desenvolveu múltiplos conceitos para melhor compreender a relação entre indivíduo e sociedade. Sua teoria, dentre outros méritos, ampliou a reflexão sobre o processo de interação social, significando a linguagem como elemento central para a formação social do self e da gênese constitutiva das identidades psicossociais.

Com a intenção de apreender e corroborar a importância da teoria meadiana, destacaremos, de forma simplificada, alguns de seus conceitos que foram apropriados e (re)significados como aportes científicos balizadores da teoria social. Nesse intuito, indicamos partes representativas dessa condição no trabalho em parceria dos sociólogos Berger e Luckmann e da obra do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, por entender, se tratar de autores referidos dentro do campo de estudos da psicologia social.

Ao eleger a construção social da realidade enquanto objeto primordial da disciplina sociológica, Berger e Luckmann (1966/2004) destacam em seu livro os autores que contribuiriam para essa empreitada teórica; dentre eles, citam Marx, especialmente seus primeiros escritos; Helmuth Plessner e Arnold Gehlen pelas implicações antropológicas; Durkheim pela introdução de uma perspectiva dialética derivada de Marx; Weber e sua teoria sobre a constituição da realidade e, por fim, enfatizam: "nossos pressupostos sócio-psicológicos, especialmente importantes para a análise da interiorização da realidade social, são grandemente influenciados por George Herbert Mead" (Berger & Luckmann, 1966/2004, p. 31).  

Habermas (1988) indica que nesse mesmo processo intersubjetivo de interiorização da realidade, dialeticamente ocorre à individuação do sujeito em meio a estes processos sociais.

Percebemos, com estas leituras, que os autores acima referidos, destacam a importância da linguagem, pois intrínseca a esses fenômenos psicossociais citados. A importância dada à função da linguagem foi descrita por George Mead (1903), ao considerá-la como o medium fundamental que possibilita a formação do self no processo de interação entre o indivíduo e a sociedade. 

 "A linguagem usada na vida cotidiana fornece-me continuamente as necessárias objetivações e determina a ordem em que estas adquirem sentido e na qual a vida cotidiana ganha significado para mim" (Berger & Luckmann, 1966/2004, p. 38). 

Para Habermas, ocorre uma guinada pragmático-formal quando Mead atribui primazia à linguagem como possibilidade de entendimento, de cooperação social, e como elemento constitutivo da consciência.

Mead tem outro mérito, no meu entender, que é o de ter acolhido certos motivos encontráveis em Humboldt e Kierkegaard: que a individuação não é representada como a auto-realização de um sujeito auto-ativo na liberdade e na solidão, mas como um processo linguisticamente mediado da socialização e, ao mesmo tempo, da constituição de uma história de vida consciente de si mesma. A identidade de indivíduos socializados forma-se simultaneamente no meio do entendimento linguístico com outros e no meio do entendimento intra-subjetivo-histórico-vital consigo mesmo. A individualidade forma-se em condições de reconhecimento intersubjetivo e de auto-entendimento mediado intersubjetivamente. (Habermas, 1988, pp. 186-187).

A linguagem, base e instrumento do acervo cultural e simbólico de uma sociedade é o mais importante sistema de sinais humano, pois se torna repositório de vários tipos de acumulações de significados e experiências que se perpetuam sendo transmitidas para diferentes gerações. Para Berger e Luckmann, essa transmissão seria mediatizada pelos "outros significativos". Em relação a isso, afirmam os sociólogos: "O termo 'outros significativos' foi tomado de Mead." (1966/2004, p. 71). E acrescentam que o conceito de "outro generalizado", também utilizado por eles, é usado inteiramente no sentido que lhe foi dado por Mead.

A formação na consciência do outro generalizado marca uma fase decisiva na socialização. Implica a interiorização da sociedade enquanto tal e da realidade objetiva nela estabelecida e, ao mesmo tempo, o estabelecimento subjetivo de uma identidade coerente e contínua. A sociedade, a identidade e a realidade cristalizam subjetivamente no mesmo processo de interiorização.  (Berger & Luckmann, 1966/2004, p. 179).

O conceito meadiano de outro generalizado nos lembra (Sass, 2004), se constitui em um elemento de mediação entre o indivíduo e a sociedade, ou seja, é a forma concreta com que esta opera sobre aquele.  "No pensamento abstrato o indivíduo adota a atitude do outro generalizado" (Mead, 1972, p. 155). 

Mead, pesquisando sobre a formação social do self, ressalta a importância constitutiva de sermos capazes de nos colocar no lugar do outro pela assimilação ampla de papéis sociais; advém daí sua análise sobre o caráter funcional das brincadeiras e dos jogos infantis, subdivididos, por ele, didaticamente, em dois estágios (play e game). No primeiro estágio, a criança se relaciona com sua sociedade à medida que toma para si papéis sociais; é capaz, em brincadeira, de tornar-se, descompromissadamente, médica, mãe, motorista, jogador, professora, etc. Já no segundo estágio, a criança começaria a participar do jogo com regras, como no esporte, por exemplo, que determinaria os padrões de comportamento de todos integrantes da interação, possibilitando-a controlar sua conduta nos processos sociais, tendo por referência, o ponto de vista do todo integrado de sua comunidade, do outro generalizado. 

Berger e Luckmann (1995) debatem essa "adequação" aos papéis sociais, destacando a importância social das instituições, construídas historicamente pelas tradições e hábitos, por dotarem as pessoas de significado e sentido para a vida, configurando valores que serão aplicados para regularem a vida social e individual.

Unindo a teoria das instituições, de Gehlen, e a psicologia social de George Herbert Mead, pode-se dizer que os "programas" institucionais são "internalizados" na consciência do indivíduo e o dirigem em seu agir não como experimentando um sentido estranho, mas como dele próprio. Os "programas" são "internalizados" em processos de camadas múltiplas; em primeiro lugar na "socialização primária", em que se coloca a pedra fundamental da construção da identidade pessoal; depois na "socialização secundária", que introduz o indivíduo nos papéis da realidade social, sobretudo do mundo do trabalho. (Berger & Luckmann, 1995, pp.55- 56).   

Os autores compartilham a ideia meadiana de que o sujeito, para pertencer a um grupo social, de certo modo, precisa reproduzir valores e símbolos compartilhados pela coletividade na qual se insere, adaptando-se a ela, mas afirmando-se como indivíduo autônomo lutando contra a coletivização massificada. Para Mead, o self capaz de promover essa integração grupal, mas resistindo às atitudes coletivas e afirmando sua singularidade é constituído por dois componentes indissociáveis: o "me" e o "eu". O "me" consiste na reprodução de reações socialmente construídas e organizadas, na internalização do outro generalizado, na identificação do sujeito com sua comunidade cultural.  O "eu" é a reação inusitada, criativa e original do sujeito diante das ações da sociedade, transformando-a; representa as atitudes novas assumidas e criadas pelo indivíduo diante das reações sociais formalizadas.

Essa concepção de self meadiana é decisiva para Habermas, ao possibilitar-lhe compreender o desenvolvimento individual da identidade. Devido a esta tensão entre o "me" e o "eu" seria impossível pensarmos em identidade estática, ou idêntica a si mesma. "Seriam estas as bases do significado da individuação social, para pensarmos a formação da "identidade-eu de tipo não convencional" (Habermas, 1988, p. 218), formada socialmente, gerada comunicativamente, mas para a qual se espera a emergência da autoconsciência em busca de autorrealização.

 

Considerações finais

Embora George Herbert Mead tenha criado novas ideias e formulado uma série de novas noções que originaram uma vasta e original teoria, foi rejeitado pelos intelectuais de sua época, sendo pouco reconhecido no ambiente acadêmico. Segundo Farr (1996), sofreu certo desdém de seus contemporâneos, não tendo sítio para aventar academicamente suas premissas. Suas criações científicas ficaram restritas a alguns grupos minoritários da Universidade.

Mead foi repudiado pelos positivistas na psicologia. Ele não aparece como uma figura central (ou mesmo menos importante) nas histórias da psicologia social (Allport, 1954; Jones, 1985), ou nos manuais de psicologia social (Lindzey, 1954; Lindzey & Aronson, 1985). 

Pensamos, com Farr (1996), que escrever história seja uma empresa coletiva e cooperativa. Cremos ter amenizado o descaso histórico em relação a Mead. A história nos possibilita conhecê-lo para nos aproximarmos sem receio de seus conceitos científicos. No entanto, sabemos que limitar seu alcance a este e a outros poucos trabalhos não traria os efeitos desejados em relação à difusão da psicologia social meadiana. Devemos congregar a psicologia, apropriar e instituir o discurso de uma teoria social crítica, como a proposta por Mead. Parece-nos estar passando da hora de a psicologia fazer esta (re)volta e, na saudável desterritorialização de suas fronteiras, agregar definitivamente a psicologia social sociológica de George Herbert Mead, facilitadora dessa interlocução entre o indivíduo e a sociedade.

Ressaltamos, por fim, que permanece descabida a ausência de traduções brasileiras dos textos originais de George Mead. Pensamos como Sass (2004), que a justificativa, principalmente das editoras universitárias, de não publicar, por exemplo, o texto clássico do autor, Mind, Self and Society (1934), sob o argumento de que talvez não seja "comercial", é um disparate injustificável.

 

Notas

1 Coordenadora do Núcleo de Estudos em História da Psicologia (NEHPSI) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, (PUC-SP).  2 Com estas informações foram construídas quatro tabelas elucidativas que podem ser acessadas pelo site, http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=3980 (Autor: Souza, Renato Ferreira); Tabela 1 – Constatação do descaso histórico da psicologia em relação a George Herbert Mead; Tabela 2 – Contribuições Meadianas na obra, A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento, de P. Berger e T. Luckmann, (1966/2004); Tabela 3 – Contribuição Meadiana na obra, Modernidade, Pluralismo e Crise de Sentido: A orientação do homem moderno, de P. Berger e T. Luckmann (1995) e Tabela 4 – Contribuições Meadianas na obra Pensamento Pós-Metafísico: Estudos Filosóficos, de Jürgen Habermas (1988).
3 As traduções da obra de Joas (1997) contidas no artigo são de nossa responsabilidade.
4 Informações recolhidas por Joas na universidade de Leipzig confirmam que, como frequentemente foi suspeitado, o próprio Mead compareceu às conferências de Wundt, na realidade, não em psicologia, mas muito em filosofia.
5 Esse racha ocorrido dentro da Faculdade de Filosofia da Universidade de Chicago, que culmina com a criação do novo Departamento de Psicologia, ao qual George Mead não adere, é um indicativo histórico dos rumos que sua teoria psicossocial tomou dentro das ciências sociais e humanas. Exemplo disso foi sua recepção teórica na psicologia social brasileira. Em pesquisa histórica sobre os primeiros cursos de psicologia social no Brasil, (Bomfim, 2004) destaca o curso de Psicologia Social ministrado pelo sociólogo Donald Pierson na Escola Livre de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo, no início da década de 1940, como o provável precursor da difusão de Mead no Brasil. No livro Teoria e Pesquisa em Sociologia (1945), que registra o referido curso, Mead aparece como a principal referência dentro de sua vasta lista de bibliografias recomendadas. Ainda de acordo com a pesquisadora, vale destacar que Donald Pierson havia sido orientando de Robert Park (1864-1944), um dos fundadores da "Escola de Chicago" e também havia sido aluno de G. H. Mead em Chicago.

 

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Recebido em: 18/08/2009
Revisão em: 08/12/2009
Aceite final em: 11/02/2010

 

 

Renato Ferreira de Souza é Psicólogo, Mestre e Doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente é Professor e Coordenador do Curso de Psicologia do Centro Universitário de Lavras - UNILAVRAS.  Endereço: Rua Jorge Duarte, 394, Jardim América. Lavras/MG, Brasil. CEP 37.200-000. Email: rfspsi@gmail.com

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