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Psicologia & Sociedade

versão impressa ISSN 0102-7182

Psicol. Soc. vol.23 no.3 Florianópolis set./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822011000300017 

Percepções do sofrimento psíquico na obra de Patativa do Assaré

 

Perceptions of the psychic suffering in the work of Patativa of Assaré

 

 

Henrique Figueiredo CarneiroI; Jose Clerton de Oliveira MartinsI; Henrique Pereira RochaII

IUniversidade de Fortaleza, Fortaleza, Brasil
IIUniversidade de Deusto, Bilbao, Espanha

 

 


RESUMO

Este artigo aborda as "Percepções do Sofrimento Psíquico na obra de Patativa do Assaré" a partir de pesquisa sob perspectiva transdisciplinar, onde desenvolveu-se uma investigação no sentido de verificar quais características comuns que podem ser consideradas como identitárias da cultura cearense e que se encontram expressas em manifestações da poesia popular. O estudo dos valores de identidade e identificações, relacionados ao sentido de territorialidade existente nos indivíduos que ocupam determinado espaço geográfico, serviu como situação para se delimitar um contexto onde processos psíquicos ocorrem e que marcam a vida destes indivíduos. A obra do poeta popular cearense Patativa do Assaré e sua própria existência individual serviu como parâmetro para a verificação dos conceitos elaborados ao longo do estudo, sendo possível fazer relações entre o sentido de ser cearense definindo-se alguns dos aspectos de identificações culturais consolidados em um determinado espaço territorial possíveis de serem articulados através de processos psíquicos.

Palavras-chave: sofrimento psíquico; territorialidade; identidade.


ABSTRACT

This article approached the "Perceptions of the Suffering Psychic in the work of Patativa of Assaré" as a research from transdisciplinary perspective, which we developed an investigation in the sense of verifying which common characteristics can be considered as cultural identity from Ceará and can be found expressed in manifestations of popular poetry. The study of the identity values and identifications, related to the sense of existent territoriality in the individuals, served as situation to delimit a context where psychic processes happen and that mark these individuals' life. The work of Patativa of Assaré and his own individual existence served as parameter for the verification of the concepts elaborated along the study. It was possible to establish relations among the meaning of being from Ceará defining some of the aspects of cultural identifications possible to be articulated through psychic processes.

Keywords: psychic suffering; territoriality; identity.


 

 

"É essa saudade que o Patativa tem da sua infância, do tempo em que viveu nessa Serra de Santana, onde nasci em 1909, no dia 5 de março, e onde vivi brincando entre os camponeses, principalmente os meus quatro irmãos, Mercês, Joaquim, José e Plínio..."
(Patativa do Assaré)

 

Introdução

Este artigo toma como fundamento conceitos e teorias a partir de um olhar transdisciplinar ao qual tivemos que recorrer para alcançar respostas sobre os questionamentos formulados a partir da problematização de nosso objeto de pesquisa. Para favorecer a compreensão das questões formuladas ao longo deste trabalho, foram selecionadas categorias do pensamento que, combinadas com a investigação realizada, pudessem tornar inteligíveis os argumentos postos em discussão. O trabalho apresentado a seguir tomou uma forma na qual se constitui inicialmente da exposição do problema que este artigo procura versar e os desdobramentos possíveis para a este problema dentro de um contexto de investigação transdisciplinar, tendo como disciplinas orientadoras a Psicologia, a Literatura, a Geografia, a História e a Antropologia.

A obra poética de Patativa do Assaré é explorada neste do trabalho para pontuar alguns sentidos de valor identitário onde é possível associar a razão de ser do homem natural do Estado do Ceará com uma obra de expressão de manifestação popular produzida por um indivíduo neste mesmo espaço geográfico, através da constatação de que sua obra revela diversas dimensões sensoriais. A poesia popular, como fenômeno de expressão cultural e de revelação de subjetividade, é abordada neste trabalho dentro dos princípios de significação que o homem dá a sua existência e de como uma manifestação de cultura popular pode ser uma referência para a interpretação e análise da subjetividade dentro de um determinado contexto cultural.

O poeta Patativa do Assaré foi escolhido por sua obra referir-se a este sentido de identidade regional e sua existência individual sugerir uma investigação sobre três dimensões: o de indivíduo, o de sujeito e o de eu. Com a observação sobre estes três prismas, a importância deste poeta é fundamentada como referência para outras expressões de cultura popular, como referencial icônico da cultura cearense, como homem criador de elementos de representação cultural, e por fim, como sujeito em consonância com seu espaço, seu tempo e ciente de sua existência.

 

Elementos constitutivos da identidade cultural cearense

A formação das identidades culturais do povo cearense tem sido nos últimos anos, objeto de pesquisa e de reformulação de conceitos por parte de várias correntes de investigação: antropologia, história, literatura, semiologia, etc. Um aspecto pertinente à cultura do Ceará está diretamente ligado ao campo de estudo de expressões da cultura popular tradicional deste espaço regional que merece atenção pelo caráter revelador de suas manifestações artísticas e culturais para os estudos psicológicos acerca de sua gente.

A partir da obra de Gustavo Barroso (1927), responsável pelo registro de aspectos da cultura cearense na passagem do século XIX para o século XX, passando por observadores como Abelardo Montenegro (2001), e mais recentemente Gilmar de Carvalho (2003), tem-se um vasto material de registro memorial e de interpretação científica de conteúdos que caracterizam e dão identidade ao universo da cultura produzida no Ceará. Incluindo seus aspectos sociais, morais, simbólicos, territoriais, indentitários e subjetivos.

Encontramos em várias obras sobre a cultura do Ceará e em expressões da cultura popular tradicional, a presença de formas de sofrimento psíquico resultante da relação do sujeito com sua cultura e seu lugar. Percebe-se um sofrimento pela busca constante de um tempo melhor que parece sempre se referir a um tempo passado de satisfação, a ser percebido no discurso e produção imagética da sua cultura tradicional popular. Este sofrimento, segundo Montenegro teria uma gênese na sensação de insegurança deste homem cearense dentro do quadro natural e social associada à ansiedade em face das incertezas da vida cotidiana diante de uma realidade climática que rege seus sentidos em duas direções: seca e inverno (Montenegro, 2000, p. 51).

Inicialmente, procuramos fundamentar neste tópico a pertinência da psicologia como disciplina base para o estudo ao qual este trabalho se dedica. Em Freud, deparamo-nos com uma concepção do sentido de felicidade como a busca da ausência de sofrimento e desprazer, em contraponto ao desejo de experiências de intensos sentimentos de prazer. O homem sofre porque não controla a natureza e sofre em suas relações com outros homens. O funcionamento do aparelho psíquico é dominado desde o início pelo princípio do prazer, que, no entanto, é ameaçado por um sofrimento que parte de três direções: do próprio corpo do homem (condenado à decadência e decomposição), do mundo externo (que pode voltar-se contra o homem com força de destruição) e dos relacionamentos do homem com outros homens. (Freud, 2002, pp. 24-25)

O sofrimento psíquico ao qual fazemos referência ao longo deste artigo está ligado às sensações de prazer e desprazer possíveis de serem determinados dentro de um contexto histórico cultural que tem por espaço regional o Estado do Ceará. Em face disso, surgem duas categorias de pensamento pertinentes a esta verificação que tem base a obra poética e a vida de Patativa do Assaré e sua relação com o mundo externo: a territorialidade e a identidade. Com isso, queremos dizer que a investigação conduzida aqui não trilhou os caminhos do sofrimento patológico – possível de ser medicalizado – nem se deteve em estabelecer sintomas ou diagnósticos com pretensões de induzir um restabelecimento de saúde psíquica ou tratamento clínico. Contudo, procuramos não nos afastar dos princípios essenciais da disciplina da psicologia, e junto com os autores aos quais recorremos enquanto fundamentação teórica, lançamos mão do sentido interdisciplinar necessário para dar conta deste estudo onde a complexidade do comportamento humano e as exigências metodológicas levam a uma economia da explicação, onde poderemos proceder a diferentes níveis de análise e nos valer de um conjunto interdisciplinar de abordagens para delinear pelo menos uma parcela da realidade a ser interpretada e do indivíduo que intentamos reconstituir (Chanlat, 1996a, p. 33).

Na obra Psicologia do Povo Cearense, Abelardo Montenegro nos lança o questionamento: "Como estudar a psicologia do povo cearense?", para logo em seguida se valer de Mannheim (Montenegro, 2000, p. 238) para propor que o estudioso deve ser um sociólogo orientado psicologicamente e um psicólogo orientado sociologicamente, tendo por pressuposto básico que a psicologia deve levar em conta a formação da região cultural através do relacionamento entre aquele que povoa e a terra, dentro de condições peculiares. (Montenegro, 2001, pp. 19-20). Esse pressuposto pode nos parecer um tanto funcionalista, mas encontra-se também registrada a proposição de Wundt (citado por Figueiredo, 1991, p. 39), que sugere uma psicologia étnica para o estudo dos processos mentais superiores e internos, totalmente subordinados à causalidade psíquica e a seus processos sui generis, mediante a análise das obras e manifestações culturais.

Apesar de em Matrizes do Pensamento Psicológico Luís Cláudio M. Figueiredo apontar a pluralidade de enfoques metodológicos e a diversidade de matrizes epistemológicas da psicologia, esse autor cientifica, de acordo com Harré e Secord (Figueiredo, 1991, p. 198), um modelo compreensivo-explicativo logo denominado antropomórfico onde, para efeito de pesquisa e teorização, os seres humanos são tratados como tal. Um ser humano como sujeito que é ao mesmo tempo ator, plateia e crítico do seu próprio desempenho, com ações finalizadas e significativas, subordinadas a planos e regras, formando um sistema estruturado que dispõe a atribuição de significados às situações e a definição de papéis sociais a serem ocupados, onde:

O comportamento social é a manifestação de uma competência cognitiva e social, sendo assim dependente das representações sociais que determinam a forma do indivíduo, histórica e culturalmente determinado, estruturar suas vivências e suas ações; compreender o comportamento e explicá-lo é possível quando se consegue decifrar o significado da ação, e isto ocorre quando se reconstrói o sistema de regras e planos subjacentes que funcionariam como o mecanismo gerador do comportamento observável em cada episódio dramático, em cada set de interação social. (Figueiredo, 1991, p. 199)

 

Pressupostos do sofrimento psíquico através da poesia de Patativa do Assaré: imaginação e criatividade

Diante deste conjunto de teorias possíveis para uma ação investigativa válida em psicologia, voltamo-nos mais uma vez para o pensamento de Freud, desta vez para destacar um processo pelo qual o indivíduo se vale na busca da satisfação de processos psíquicos internos numa intenção de tornar-se independente do mundo externo: a imaginação. Considerada a região onde a satisfação é obtida através de ilusões, a imaginação ou fantasia, está associada à fruição das obras de arte usufruto de artistas e daqueles que têm acesso a estas formas de expressão cultural. A suave narcose induzida pela arte ocasiona não mais que um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais, não sendo forte o bastante para levar o indivíduo a um esquecimento de sua aflição real (Freud, 2002, p. 30). Esse mesmo sentido de fantasia é sublinhado por Montenegro para contextualizar a vocação poética do cearense, na qual a imaginação sofre a pressão das necessidades. As incertezas da vida, a mobilidade horizontal, os imprevistos da natureza, predispõem o homem à fantasia, à satisfação de desejo retificando a realidade insatisfatória. A poesia é o campo fértil para a imaginação trabalhar com eloquência e vivacidade (Montenegro, 2001, p. 65).

Mas antes de adentrarmos no mérito do poeta e da poesia popular como suporte referencial para algumas questões postas neste trabalho, é importante que se contextualize aqui o sentido psicológico deste ser cearense e de seu ambiente natural ao qual estaremos nos referindo ao longo do relato da investigação realizada. A realidade social é possível de transformar-se em suporte da realidade psíquica através de um jogo de identificações que vão muito além de estímulos externos. Sendo o indivíduo um ser de desejo, de pulsão e de relação, ele mantêm com o outro – que ao mesmo tempo é modelo, objeto, sustentação ou adversário – uma articulação de relações de identificações, sejam no campo da introspecção, projeção, transferência, ou outro. Enfim, a vida psíquica exerce um papel fundamental no comportamento humano, seja de ordem individual ou coletiva. Ele acaba por configurar-se como a esfera onde o imaginário, o inconsciente, as defesas e os processos de identificação se estabelecem (Chanlat, 1996a, p. 30).

Além da questão da realidade social, que neste trabalho se amplia para questões de ordem cultural, é importante que já se faça aqui uma menção ao sentido de ser espaço-temporal deste indivíduo, que se destaca como referência à coletividade de indivíduos que virão a ser denominados como cearenses. Considerando as dimensões espaço e tempo inseparáveis, nas quais todos os seres humanos estão inseridos, Jean-François Chalant, em Por uma antropologia da condição humana nas organizações, destaca essas duas grandezas como quadros geo-históricos da ação humana, pois "um movimento no espaço é também um movimento no tempo" (Chanlat, 1996a, p. 31). Este tempo sujeita os ritmos biológicos, psicológicos e sociais que marcam as atividades individuais e coletivas, elaborando dessa forma a constituição das dimensões possíveis de realização do ser humano dentro de sua vida psíquica e social, para a qual estabelecemos para esta pesquisa a definição de indivíduo como um ser biopsicossocial, que revela através desta tríplice condição um ser de complexidade singular.

A gênese étnica e o espaço geográfico do Estado do Ceará são dois elementos de capital importância para abrir-se um caminho de entendimento que nos leve a avançar na compreensão dos indivíduos que têm esta a terra por berço, e que principalmente, fazem desse território seu local de existência e de experiência. Neste artigo, escolhemos alguns autores já citados anteriormente para fundamentar os conceitos relativos à história e geografia, tendo em conta que, como já vimos anteriormente, serem os elementos espaciais e temporais as principais influências que incidem no comportamento e na expressão de vida dos indivíduos. As escolhas desses autores, juntamente com outros que contribuem com suas referências teóricas e bibliográficas, colabora para que este trabalho tenha demarcado de forma clara o limite ao qual a investigação propõe-se a chegar.

Assim, quero ressaltamos que o sentido de ser cearense que estamos aqui nos referindo, principalmente quando tratamos das questões ligadas a identidade e identificações do indivíduo nativo do Ceará com seu espaço territorial e com as expressões de sua cultura popular tradicional, são revelados através da elaboração de sua subjetividade. A existência deste indivíduo assume um caráter épico devido à luta que trava contra o meio hostil para sua sobrevivência:

O cearense, em criança, ouviu estórias, em que se desfiam rosários de sofrimentos de seus avós. Aprende, em família, que é impossível modificar o destino. Cada um morre no dia estabelecido por Deus. Os que nada ou pouco têm só sobrevivem com a ajuda divina, utilizando os santos como intercessores e contando-se com a boa vontade dos economicamente mais fortes. (Montenegro, 2001, p. 17)

Ao estudar esse indivíduo, deparamo-nos com um dos elementos principais que podemos identificar como detonador de sofrimento psíquico, que por estar ligado às condições geográficas, e, portanto, permanentes e comuns à coletividade, pode ser elemento de significação de um sentido de identidade. A caracterização desta identidade marcada pelo espaço físico no qual vivencia suas experiências pode denotar um perfil psicológico que vem a revelar traços de uma identidade ou de identidades, mas que, em todos os sentidos em que seja observada, irá definir a cearensidade como um traço de distinção de uma coletividade a partir de suas experiências individuais tornadas comuns ao grupo. Distinção essa que, de modo subjetivo, revela o sentido de territorialidade associado ao sentimento de cearensidade, pela divisão de experiências comuns dentro deste mesmo espaço físico, e o sentido de identidade, ou ainda identificações, possíveis de serem verificados para esta coletividade.

Se por um lado temos o sofrimento psíquico como sintoma relevante dentro de nosso contexto cultural, o que vem a marcar este trabalho está na elaboração - dentro deste sofrimento - de novas formas de subjetivação da realidade enfrentada. Seja através da fantasia ou da imaginação, que particularmente focamos na manifestação criativa do indivíduo através de expressões de cultura popular, especificamente àquelas ligadas a tradição tornada comum pela transmissão oral, livre e permanente. A escolha do poeta Patativa do Assaré e de sua obra poética, como caso exemplar de associação entre existência individual estreitamente ligada a produção artística, foi escolhida não sem razão. Dentro dos traços característicos da formação cultural do cearense, está a referência de ser esta uma raça de poetas (Mota citado por Montenegro, 2001, p. 64), onde é raro o sertanejo que não seja também um trovador, pois "a felicidade e a desgraça encontram na viola o instrumento de expressão" (Montenegro, 2001, p. 64).

Se a imaginação sofre pressão das necessidades do indivíduo, a obra do poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva - Patativa do Assaré - é estudada aqui como meio de legitimar algumas problemáticas relacionadas anteriormente, com a produção poética do autor em questão destinando-se a destacar aspectos de identificações características do povo cearense. A obra criativa é referência para a elaboração de este ser psíquico ao qual se credita a integração do consciente, do sensível e do cultural como características básicas de seu comportamento criativo. O potencial criador é renovado constantemente pelas tensões psíquicas, interferindo no processo criativo e consequentemente nos significados de suas ações, sobre o conteúdo expressivo das formas, e ainda, sobre a existência de eventuais valorações (Ostrower, 2004, pp. 11-28).

Ainda tendo como referência a obra Criatividade e Processos de Criação, de Fayga Ostrower, a tensão psíquica, neste contexto, não deve referir-se a um estado de espírito excepcional, mas sim a um estimulo de motivação interior, gerado a partir da interpretação ordenada de fenômenos de natureza intrínseca e extrínseca. Essa motivação que propõe e impele ao fazer criativo, contém intensidades psíquicas (Ostrower, 2004, p. 28). Embora este trabalho não esteja destinado à verificação minuciosa do processo de criação do poeta em questão, nos deparamos, pela própria natureza da pesquisa, com alguns contextos que vão indicar a presença de uma energia criativa fruto das motivações geradas pela tensão psíquica vivida pelo indivíduo em seu ambiente natural. Tensão compreendida na relação com a flora, a fauna, a relevo e o clima, e nas suas relações com o meio sociocultural, ambiente influenciado pelas modificações do homem e transformado segundo suas necessidades, onde se dão os fenômenos sociais.

 

Patativa e seu lugar

Levando em conta o exposto até aqui, procuramos com este artigo conjugar o estudo do sofrimento psíquico com a elaboração de sentidos de subjetividade que levam a uma percepção de identidade cultural possível de ser observada como comum a um grupo social. A partir de registros históricos existentes sobre a constituição da cultura do Ceará aliadas à verificação de como o prazer e o desprazer podem ser expressos em manifestações da cultura popular tradicional cearense, neste caso na poesia popular de Patativa do Assaré, desenvolvemos este estudo que despretensiosamente possa ser capaz de revelar novas faces das identificações deste povo. Seguindo os critérios mais elementares de cientificidade, é um estudo aberto, sujeito a novas formas de interpretação e reelaboração de seu conteúdo, incluindo a sugestão de novas abordagens e meios de verificação.

Procuramos observar e destacar qualidades e significados que fujam de padronizações e que possam nos apontar novas possibilidades de existência e reflexão para esta existência que percebemos ser marcada por um comportamento que gera práticas e intervenções nos espaços apropriados, e não podem ser entendidos como um comportamento passivo. A utilização específica de espaços transformados em lugares determina do ponto de vista psicológico, uma afirmação do indivíduo em si sobre os lugares. Da perspectiva do desenvolvimento da identidade pessoal e da identidade social, a territorialidade é um fundamento que se caracteriza como espaço subjetivo onde se compartilha conhecimentos, experiências comuns e se desenvolvem coesões maiores ou menores e se estabelecem relações de confiança mútua. (Fischer citado por Chanlat, 2001b, p. 86)

O epíteto de pássaro recebido por Antônio Gonçalves da Silva, referente à patativa, ave reconhecida pelo seu belo cantar, parece muito adequado a sua condição de poeta integrado com a natureza e sua cultura. Uma integração que para Patativa, segundo Carvalho (2002, p. 4), revelam uma mesma angulação em relação ao real. Natureza e cultura na poética não estão dissociadas, como estariam a partir de uma visão antropológica. A poesia flui não apenas como expressão, mas como uma visão de mundo:

Patativa nos propõe uma poesia de construção, lança as bases de questões em que emerge uma ética pessoal, que passa por uma estética e, por isso, ganha uma dimensão mais ampla, de uma fala que é poética e é histórica. Apesar de toda a força de uma dicção inaugural do mundo e da ancestralidade de que se reveste, é a fala de um homem político, que diz sobre outros homens, em determinadas condições econômicas e so­ciais, fala que é enunciada de um lugar específico, apesar de sua universalidade, em que subjaz uma regionalidade que, lon­ge de limitar, reforça esse cosmopolitismo sem fronteiras, a partir de todo um substrato de Humanidade (Carvalho, 2002, p. 59).

Conseguimos ver, até aqui então, que o processo de apropriação do ambiente por Patativa do Assaré remete à transformação do espaço em lugar significativo a partir da experiência do poeta, que evoca as características intrínsecas de um espaço que é transformado em lugar (Pol, 1994, p. 49) A extensão da apropriação pode ser observada em processos de identificação espacial e composição simbólica organizadas por Enric Pol (1994), onde esse autor relaciona os processos afetivos, cognitivos e interativos. A partir destes processos, a par da leitura da obra do poeta em questão, é possível pelo procedimento de análise adotado, entender a importância do ambiente na constituição estética de sua obra. A capacidade de estar integrado e ao mesmo tempo perceber a dimensão de seu lugar, como espaço apropriado, é revelado pela pertinência do conhecimento cosmológico de Patativa, exposto em na poesia "A terra é naturá":

Esta terra é como o Só
Que nace todos os dia
Briando o grande, o menó
E tudo que a terra cria.
O só quilarêa os monte,
Tombém as água das fonte,
Com a sua luz amiga,
Potrege, no mesmo instante,
Do grandaião elefante
A pequenina formiga.

Esta terra é como a chuva,
Que vai da praia a campina,
Móia a casada, a viúva,
A véia, a moça, a menina.
Quando sangra o nevuêro,
Pra conquistá o aguacêro
Ninguém vai fazê fuxico,
Pois a chuva tudo cobre,
Móia a tapera do pobre
E a grande casa do rico.

Esta terra é como a lua,
Este foco prateado
Que é do campo até a rua,
A lampa dos namorado;
Mas, mesmo ao véio cacundo,
Já com ar de moribundo
Sem amô, sem vaidade,
Esta lua cô de prata
Não lhe dêxa de sê grata;
Lhe manda quilaridade

(Assaré, 2003, pp. 154-156).

 

Considerações finais

A interatividade em Patativa tem um sentido que remete à própria história de vida deste personagem, pela incessante lida do poeta-agricultor com o seu ambiente de inspiração artística. Essa vivência constante com seu lugar natural proporcionou a Patativa um domínio e conhecimento do seu espaço e consequente apropriação imperativa, chegando mesmo a muitas vezes dizer que não lhe agradava a ideia de comercializar sua poesia, algo que nos soa como uma associação ao seu lugar, um lugar que não poderia ser negociado.

A obra de Patativa mantém em si lembranças que são facilmente guardadas e compartilhadas, por expressões regionais e pelos nomes das coisas e seres vivos que existiram em seu ambiente natal. A escrita de seus versos, que reproduz fidedignamente sua narrativa oral, conserva para o leitor o ritmo e o compasso de seu pensamento, revelando a harmonia existente entre a razão de sua obra e o sentimento cultivado pela terra a qual viveu aferrado.

Através da poesia, o poeta reafirma-se a si mesmo como pertencente a seu lugar, declara com vigor sua origem e de onde vêm suas referências territoriais. Referências que vão além ainda do espaço geográfico, pois relaciona junto com seu sentido particular de territorialidade o sentido de trabalho, sua formação escolar, sem negação alguma ou culpa pela sua exclusão ou desgosto em relação à existência social. Pelo contrário, o poeta faz da sua voz, a voz de tantos outros, que como ele, preserva um sentimento ético e moral, cientes e orgulhos de suas potencialidades individuais e de sua localização na estrutura social, ao qual pertencem.

Podemos adiantar que o desenvolvimento destas duas ideias, paralelamente, vai dar em uma proposição que verificará a relação possível entre o sentido do lugar e a elaboração de sofrimento, além dos impactos que podem ser criados na razão da identidade a partir de mudanças de caráter territorial. A importância de descrevermos aqui uma percepção da formação do espaço territorial do Estado do Ceará, partindo de situações sócio-históricas, implicou também de irmos, ao mesmo tempo, organizando um pensamento do que este território oferece como conteúdos indentitários para a coletividade que nele está instalada. Mesmo com as inúmeras formas de apreensão do território por cada indivíduo, assim como suas diferentes formas de participação em sua cultura, temos destas relações alguns substratos que podemos tomar como comuns, como partilhados, de forma consciente ou inconsciente, pelo grupo social que ocupa e vive neste mesmo território.

 

Referências

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Recebido em: 30/05/2009
Revisão em: 05/08/2010
Aceite em: 18/10/2010

 

 

Henrique Figueiredo Carneiro é Doutor em Psicologia pela Pontifica Universidad Comillas, Espanha. Professor Titular Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Endereço: Universidade de Fortaleza. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Bloco N, Sala 13. Fortaleza/CE, Brasil. CEP 60811-905. Email: henrique@unifor.br
Jose Clerton de Oliveira Martins é Doutor em Psicologia pela Universitat de Barcelona -Espanha. Professor Titular do PPGPsi  da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Email: jclertonmartins@gmail.com
Henrique Pereira Rocha é Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Doutorando em Ócio e Desenvolvimento Humano pela Universidade de Deusto, em Bilbao, Espanha. Email: henrique@faculdadescearenses.edu.br