SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 issue1Psychological aspects in the use of alcoholic beverages among KaritianaDiffusion of violence against the elderly: a psychosocial look author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • Have no similar articlesSimilars in SciELO

Share


Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182

Psicol. Soc. vol.24 no.1 Belo Horizonte Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822012000100012 

Violência contra pessoa idosa: representações sociais entre adolescentes do arquipélago de Fernando de Noronha-PE

 

Violence against the elderly: social representations among adolescents from arquipelago Fernando de Noranha-PE

 

 

Ludgleydson Fernandes de AraújoI; Edna de Brito AmaralII; Elba Celestina do Nascimento SáII; Regina Ligia W. de AzevedoIII; Jorgeano Gregório Lobo FilhoIV

IUniversidade de Granada, Granada, Espanha
IIUniversidade Federal do Piauí, Parnaíba, Brasil
IIIUniversidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil
IVEscola Arquipélago Fernando de Noronha, Arquipélago Fernando de Noronha, Brasil

 

 


RESUMO

Este estudo objetivou identificar e verificar as representações sociais (RS) da violência contra as pessoas idosas entre estudantes do Arquipélago de Fernando de Noronha-PE. A amostra foi composta por 100 estudantes de ambos os sexos, do ensino médio, com média de idade de 20,3 anos. Foram utilizados como instrumentos: entrevistas semiestruturadas e o Teste de Associação Livre de Palavras (TALP). As entrevistas foram categorizadas pela Análise de Conteúdo (Bardin, 2002) e a TALP pela técnica de redes semânticas (Reyes-Lagunes, 1993). Os dados obtidos no TALP revelaram RS atreladas à intolerância (100%), covardia (57,2%), desumano (40,7%), ignorância (25,7%) e violência (10%). No que tange aos dados da entrevista as subcategorias mais significativas foram desrespeito, maus tratos, indignação e segurança. Conclui-se da necessidade de prevenção no âmbito informativo, bem como de conscientização da população com prioridade para detecção e prevenção de casos de violência contra os idosos.

Palavras-chave: violência contra o idoso; representações sociais; estudantes


ABSTRACT

This study aimed to identify and verify the social representations (SR) of the violence against elderly people among students from Arquipélago de Fernando de Noronha-PE. The sample was comprised of 100 students from both sexes, of high school, with age average of 20,3 years old. The following methods were used: semi-structured interviews and the Word Free Association Test (WFAT). The interviews were categorized by the Content Analysis (Bardin, 2002) and the WFAT by the semantic networks technique (Reyes-Lagunes, 1993). The data obtained by the WFAT revealed SR related to intolerance (100%), cowardice (57,2%), inhuman (40,7%), ignorance (25,7%) and violence (10%). Concerning data from the interview, the most significant categories were disrespect, maltreats, indignation, and security. It is concluded the need for prevention in an informative level, as well as the awareness of population with priority to the detection and prevention of cases of violence against the elderly.

Keywords: violence against the elderly; social representations; students.


 

 

O aumento no número de pessoas idosas na realidade brasileira e mundial é cada vez mais significante. Devido a esta mudança na estrutura etária, as várias áreas do conhecimento científico articulam-se com o escopo de desenvolver mecanismos psicossociais para o fortalecimento da qualidade de vida desse grupo. É válido mencionar que nunca na história da humanidade o ser humano obteve tal expectativa de vida, de modo que se ratifica a necessidade premente de políticas públicas para os idosos.

É sabido que no paradigma socioeconômico vigente em que se prioriza a beleza juvenil e a produtividade, as pessoas com mais idade ocupam um valor de pouca significância em comparação a outras faixas etárias. Acredita-se que todas as idades possuem suas perdas e ganhos no processo de desenvolvimento humano, de modo que se tornam interessantes as relações intergeracionais na vida cotidiana (Araújo & Lobo Filho, 2009). Faz-se necessário que estudos venham a subsidiar um conhecimento mais preciso quanto à população idosa nos diferentes contextos sociais, para que se destinem políticas públicas a essa população, visando à criação de medidas que possam garantir a dignidade humana, promovendo níveis satisfatórios de autonomia e independência numa fase caracterizada, muitas vezes, pela baixa resiliência e plasticidade comportamental (Neri, 2006; Paiva, 2004).

Uma das questões que se torna presente é a violência contra a pessoa idosa. Segundo a Fundación Cáritas Bienestar del Adulto Mayor (2005), esse é um fator que merece atenção especial, devido aos poucos estudos sobre o tema e também à questão que, em muitos casos, a pessoa idosa, a família ou o cuidador não fornecem dados que podem servir de informativos para a execução de pesquisas referente ao tema (Gaioli, 2004).

Para Faleiros (2004), a violência é explicada por uma relação desigual que implica negação, diferença, tolerância e oportunidades que se refletem em perdas, com atos que transgridem normas sociais de boa convivência, bem como a manutenção de direitos que se fundamentam nos direitos humanos. Esse autor realizou uma pesquisa relacionada à violência contra a pessoa idosa no Brasil no período de 2005 a 2007, salientando que, devido à não-existência de um funcionamento em rede, com relação aos casos de violência, existe uma lacuna entre denúncia e uma possível resolução, o que pode ser explicado por não haver uma articulação precisa entre as políticas para a pessoa idosa, acompanhamento da denúncia e a não-prioridade das políticas tanto em nível local como estadual.

Um fato referido por Sanches (2006) na Pesquisa SABE, realizada na cidade de São Paulo, é que a violência contra o idoso está associada à dependência, esta decorrente, em sua maioria, de lesões advindas de quedas. Essa pesquisa demonstrou resultados enfáticos relacionados à depressão leve versus violência contra o idoso com um grau de incidência significativo. Os dados desse estudo mostraram também que, em sua maioria, o idoso violentado reside com quem o agride, sendo este agressor um familiar, filho e/ou cuidador, fato que dificulta a denúncia de maus tratos. A violência doméstica está mais presente entre as mulheres, destaque para o abuso psicológico (55,1%) e o abandono/negligência (45,0%), entre os casos em que a violência foi atestada.

Em outra pesquisa realizada na cidade Camagaribe-PE pode-se observar que 66,7% dos idosos que relatam violência estavam envolvidos em atividades familiares e 33,3% não participavam de atividades semelhantes. Foi enfatizado que os maus tratos contra a pessoa idosa são um problema proeminente para a saúde pública (Melo Cunha & Falbo Neto, 2006). A literatura internacional, segundo Minayo (2006), retrata que 90% dos casos de violência contra idosos ocorrem na família, sendo que 2/3 dos agressores são os filhos homens. Já Sanches (2006) relata que idosos com dependência física ou mental são mais propensos a sofrerem maus tratos, isso muitas vezes devido ao despreparo dos cuidadores para lidar com situações diversificadas. Logo uma forma de prevenção seria preservar a autonomia e independência funcional do idoso, pois a capacidade para executar as funções de vida diária é determinante para que não ocorram maus tratos.

A violência contra a pessoa idosa pode dar-se por negligência, podendo ser ativa, quando é negada ao idoso a possibilidade de acesso à resolução de necessidades básicas direcionadas à saúde, quando o não provimento der-se de forma intencional; a negligência passiva é quando tais necessidades são negadas de forma não-intencional (Grossi & Souza, 2003).

E por que não falar na violência moral que muitas vezes as pessoas mais velhas são obrigadas a suportar? A cultura é outro determinante do sofrimento dos que ficam mais velhos, sofrendo muitas vezes rechaço; às vezes o que é direcionado aos mesmos desestabiliza-os como sujeitos, seus direitos passam a ser vistos como privilégios e até mesmo favorecimento, logo em casos assim os mais velhos sofrem a exclusão social tendo esta como a determinação de seu lugar social (Lopes, 2006).

De acordo com Gawryszewski, Jorge e Koizume (2004), as internações de pessoas idosas têm como causa predominante a não-intencionalidade. Esse fator, porém, não é visto na população geral, onde há um equilíbrio entre causas intencionais e não-intencionais. A mortalidade de idosos internados é mais significativa, sendo que a morte por queda está relatada como causa externa. Com relação aos suicídios de pessoas idosas, a estatística é de 7,5% para a população geral, sendo que nesses casos tanto a morbidade como a mortalidade são mais presentes entre os homens. Já a relação entre homicídios da população geral é três vezes menor do que na população idosa, essa ocupando 10,3% do total.

Segundo Minayo (2006), a maior causa de hospitalizações de idosos é decorrente de fraturas do fêmur, sendo que essas podem estar ligadas a acidentes ou mesmo à violência, o que nem sempre é identificado. Essas fraturas ocasionam morte da metade e dependência dos que sobrevivem, refletindo altos custos financeiros e sociais para o governo e até mesmo para a família, pois esses têm que custear todas as despesas com os cuidados que são exigidos ao idoso que se encontra nessa situação.

É válido visualizar de forma preventiva o Programa Estratégia Saúde da Família que, se houver um maior interesse para enfrentar situações de violência contra o idoso, poderá amenizá-la, pois devido às suas premissas, esse programa pode implementar ações que vão além da prevenção, detecção e acompanhamento de casos de famílias em situação de violência, tendo como base as atividades realizadas no programa (Moraes, Apratto Junior, & Reichenheim, 2008).

Desse modo, é interessante mencionar que o contexto dos idosos residentes no Arquipélago de Fernando de Noronha é peculiar, pois muitos vieram de outros estados e ajudaram a construir aquela localidade. Muitos idosos trabalham em pousadas, e essas muitas vezes são a sua própria casa (Araújo & Lobo Filho, 2009). A população idosa no distrito de Fernando de Noronha não reflete a estimativa do restante do país quanto ao crescimento populacional, pois dados revelam que a porcentagem de crescimento não é significativa em semelhança a outros estados e o país como um todo (Paiva, 2004). É pensando as peculiaridades dessa população específica que o estudo em questão se baseia, mas enfaticamente como os jovens estudantes constroem suas representações sociais frente à mesma e mais direcionada à violência contra o idoso, essa fato latente que merece investigações precisas.

É válido mencionar que toda Representação Social (RS) surge da necessidade de modificar o que é estranho, o que não é compreendido, em algo familiar; essa seria uma das funções centrais da representação, "domar o desconhecido". Em geral, os grupos produzem representações como uma forma de filtrar as informações que emanam do ambiente, com fins de amoldar o comportamento singular. É um tipo de manipulação do processo do pensamento e da estrutura da realidade (Moscovici, 2003).

Assim sendo, a emprego da teoria das RS é bastante útil, à medida que trabalha com um marco conceitual que abarca tanto o nível intrapessoal de análise quanto o interpessoal e o intergrupal; dessa forma, é possível partir das representações pessoais de objetos sociais para uma apreciação das cognições no nível coletivo, que permitem ao pesquisador a apreensão dos aspectos compartilhados de uma representação (Doise, 1990).

Desse modo, pode-se acrescentar que o estudo em questão torna-se significativo devido à difusão do conhecimento concernente às representações de jovens estudantes, o que poderá subsidiar futuros estudos acadêmicos no âmbito da violência contra o idoso frente à representação de autores sociais nas condições aqui explicitadas. Dessa forma poderão ser fomentadas disciplinas, em cursos de ensino fundamental, que proporcionarão um arcabouço teórico para os jovens, tronando assim a violência contra o idoso mais visível para que possam buscar modos de combatê-la.

É relevante acrescentar a visão das representações sociais quanto ao estudo do fenômeno da violência contra a pessoa idosa, mas enfaticamente representações dos estudantes, pois os jovens são uma das bases da sociedade que poderão proporcionar mudança no meio social.

 

Método

Locus de investigação

Este estudo foi realizado em uma escola pública do Arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco.

Participantes

Os entrevistados foram 100 estudantes, pertencentes ao ensino médio. A média de idade foi 20,3% anos, sendo que a idade mínima foi de 12 anos, 59,5% foram de mulheres e 40,5 de homens. Com relação ao estado civil, 94,5% dos entrevistados são solteiros. Dos entrevistados, 64,5% relataram nunca ter presenciado nem um tipo de violência contra o idoso, e 35,1% já presenciaram casos de violência. Os participantes dispuseram de livre escolha para participar ou não da presente pesquisa.

Instrumentos

O instrumento utilizado consistiu de três folhas, tendo sido a primeira destinada aos dados sociodemográficos englobando idade, estado civil, escolaridade. Na segunda página, na qual estava impressa a palavra-estímulo, objeto deste estudo, "Violência contra o Idoso"; constava que o participante poderia expressar, livremente, as dez palavras que melhor definissem esse estímulo indutor. Posteriormente, o participante deveria hierarquizar as palavras, tendo em vista a ordem de proximidade semântica com a palavra que melhor definisse a palavra-estímulo, que deveria ser assinalada com o número 1, a segunda que melhor definisse assinalada com o número 2 e assim por diante. A terceira e última página destinou-se a uma entrevista estruturada com uma pergunta norteadora: "Você já presenciou algum tipo de violência contra uma pessoa idosa?", com o intuito de averiguar as representações que estudantes possuíam acerca da violência contra a pessoa idosa.

Procedimentos

Foi mantido contato com as coordenações pedagógicas das escolas com a finalidade de verificar a disponibilidade dos estudantes para participar de forma voluntária desta pesquisa. Na oportunidade, explicitavam-se os objetivos, sendo-lhes garantidos o anonimato e a confidencialidade das suas respostas, indicando-lhes que essas seriam analisadas no seu conjunto. Salienta-se que a referida pesquisa não passou por uma avaliação dos seus parâmetros éticos devido à inexistência, na época da realização da pesquisa, de um comitê de ética em pesquisa na UFPI, porém os autores seguiram rigorosamente o que estabelece a Resolução nº 196/1996 do CNS/MS. Inicialmente elucidaram-se os objetivos norteadores da pesquisa aos estudantes, em seguida verificou-se a disponibilidade de participação dando-se, por conseguinte, apresentação do termo de consentimento ao estudante em duas vias para fins de comprovação referentes a padrões éticos. Salienta-se que aqueles estudantes menores de idade, os seus pais ou responsáveis assinaram o termo de consentimento livre informado e tiveram acesso ao instrumento utilizado na presente investigação. Após uma leitura prévia e o consentimento livre e esclarecido acerca do anonimato e da participação de caráter voluntário, deu-se a aplicação dos instrumentos realizados por um pesquisador previamente treinado quanto à operacionalização dos instrumentos desta pesquisa. O tempo médio de aplicação correspondeu a 20 minutos para cada ator social.

Análise dos dados

No que tange aos dados do questionário sociodemográfico, foram utilizadas estatísticas descritivas para caracterização dos atores sociais. Utilizou-se para a TALP com estímulo indutor violência contra o idoso, que posteriormente foi categorizado através da Rede Semântica (Reys-Lagunes, 1993). Os parâmetros recomendados pela literatura específica sobre a técnica de redes semânticas naturais (Reyes-Lagunes, 1993; Vera-Noriega, 2005; Vera-Noriega, Pimentel, & Albuquerque, 2005) são: tamanho da rede (TR), núcleo da rede (NR), peso semântico (PS) e distância semântica quantitativa (DSQ). O TR é obtido através do número total de definidoras (palavras utilizadas para definir o conceito). O PS de cada definidora se obtém somando-se a ponderação das frequências pela hierarquização, em que se assinala com o número 1 (um) a palavra ou definidora mais próxima e se multiplica por dez; com 2 (dois) a segunda palavra mais próxima e se multiplica por nove; com 3 (três) a terceira mais próxima e se multiplica por oito, até chegar ao número dez, que é multiplicado por um. O NR se consegue mediante as dez palavras definidoras com peso semântico mais alto; estas definidoras que conformam o NR são as que melhor representam o conceito. A DSQ se obtém através das definidoras do NR, assinalando-se a definidora com peso semântico mais alto com o valor 100%. As demais porcentagens são obtidas através de uma regra de três simples.

Os dados coletados a partir da Entrevista estruturada foram analisados pela Análise de Conteúdo de Bardin (2002), cuja finalidade é obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição o conteúdo das mensagens, codificados quantitativamente por meio da análise das frequências e percentuais.

No que concerne aos dados da entrevista, as RS da violência contra o idoso entre estudantes tendo por base o material coletado, consideradas pela análise de conteúdo temática e confirmadas pelos pesquisadores da investigação científica, resultaram em uma categoria e quatro subcategorias. A categoria que surgiu durante o processo da análise foi concepção/descrição suscitando os temas delimitadores, que estavam dentro do universo dos tipos ou até mesmo dos posicionamentos por parte dos atores sociais frente à concepção do fenômeno da violência contra os mais velhos, e as subcategorias que surgiram foram desrespeito, maus tratos, indignação e segurança.

 

Resultados e discussões

Neste estudo foi percebido que as representações dos adolescentes de Fernando de Noronha com relação aos resultados encontrados nas redes de significados, essas podendo inferir-se fazerem parte do arcabouço que cada um traz sem que seja julgado previamente, pois consistem no que lhe vem à mente no momento que é interrogado, estão nos âmbitos da intolerância, covardia, desumano, ignorância e violência, essas como as características mais presentes quando se fala em violência contra o idoso.

Outro ponto significativo das representações sociais dos atores sociais é relativo às muitas formas de violência contra o idoso, demonstrando que apesar de eles em sua maioria relatarem que nunca presenciaram tal ato, têm consciência do que seria. Além da referência às formas de abuso, percebeu-se durante o processo de categorização que os temas emergidos nas subcategorias mostram a expressão do sentimento que é expresso nas representações frente a atos dessa proporção (subcategoria: indignação), bem como o surgimento da subcategoria segurança, fator necessário para acabar com abusos contra idosos.

Assim sendo, é fato conhecido das esferas sociais que a violência contra a pessoa idosa ultrapassa as fronteiras do convívio social, sendo que seu aumento está dando-se em dimensões preocupantes, pois não importa onde os mesmos estejam, são vítimas de assalto, conflitos que ultrapassam a esfera familiar, sendo frequentes desde acidentes a exploração por parte da comunidade, entre outras formas de violência (Magalhães, Carneiro, & Santos, 2009). A violência envolve todo um contexto que vai desde a família até os profissionais que prestam atenção ao idoso, bem como o sistema de saúde que presta cuidados procurando abarcar as implicações que a situação do idoso violentado acarreta (Sanches, Lebrão, & Duarte, 2008).

Há uma gama de dados que refletem o fenômeno da violência contra a pessoa idosa. É válido citar dados encontrados no Ceará que refletem, segundo a Secretaria da Ouvidoria Geral e do Meio Ambiente (SOMA), que em 2004 das denúncias feitas ao Serviço Especial de Defesa do Idoso (SEDI) e Alô-Idoso encontram mais significativa a violência física, abandono, apropriação de aposentadoria e negligência (Souza, Feitas, & Queiroz, 2007).

Na pesquisa aqui realizada observou-se nos conteúdos concernentes à rede semântica que as representações sociais dos estudantes de Fernando de Noronha quanto à violência contra os idosos mostram-se relacionadas à intolerância (100%), com peso semântico mais significativo; a segunda palavra foi covardia (57,2%), seguida por desumano (40,7%), ignorância (25,7%) e violência (10%).

 

 

Pode-se inferir que um fator que se torna preponderante para a violência contra a pessoa idosa dá-se pela falta de informações, que é fator significativo nos vários setores sociais, devido a déficits informativos. Muitas pessoas não têm conhecimento das limitações decorrentes do processo de envelhecimento, logo se pode refletir que a intolerância pode ser ocasionada por tais fatores.

Com referência à falta de informação, pode-se atribuir que é mais crítica quando é referida à denúncia do agressor que, segundo Magalhães et al. (2009), é menos tratada nas suas várias facetas, pois são muitos os casos de supressão e negligência decorrentes da falta de orientação precisa dos familiares, sendo que essa falta de informações dos familiares pode ocasionar a exclusão da única pessoa que muitas vezes é o cuidador, ou mesmo o único que pode cuidar do idoso, e que só precisaria ser bem orientado. Na presente pesquisa, nas representações dos atores sociais percebe-se indicativos de posicionamentos direcionados para os casos de maus tratos contra as pessoas idosas, quando em suas redes de significados emergem conteúdos referentes à covardia, havendo uma delimitação de que, para estes estudantes, os atos violentos são ações que expressam certa covardia por parte de quem os pratica. As representações promulgam assim que a violência é um ato de desumanidade dos violentadores.

A literatura nos dá um embasamento mais estatístico de que nos EUA os maus tratos são sofridos por mais de dois milhões de idosos a cada ano, sendo que somente cerca de 19% chegam ao domínio público, e são percebidos por vizinhos ou policiais. Mais estritamente no Canadá, quatro em cada cem idosos sofrem violência, sendo que não é registrado, o que se atribui ao fato de que ocorrem dentro do seio familiar, sendo típico, assim, o não conhecimento pelos órgãos competentes (Pomilio, 2007).

É fato que a preocupação com os maus tratos já está sendo mais frequente, o que decorre do aumento demográfico das pessoas nessa faixa etária de 60 anos e mais, o que ocasionou uma maior conscientização mundial. Esse tipo de violência também reflete a fragilidade das relações familiares (Souza, Freitas, & Queiroz, 2007), como a intolerância dos familiares conjeturando a não compreensão das limitações dos idosos.

Desse modo, a família é um quesito que deve ser conscientizado. Faleiros (2004) encontrou, na Primeira Delegacia de Proteção ao Idoso na cidade de São Paulo, registradas 405 ocorrências de violência intrafamiliar contra a pessoa idosa, sendo que, dessas, 49,62% foram discriminação e desrespeito.

Segundo Pomilio (2007), nos casos de violência contra os idosos, precisa ser reconhecida a participação da sociedade contemporânea, pois ela deposita novas questões na vida familiar modificando os papéis sociais tradicionais e as composições que servem como arcabouço de sustentabilidade e apoio da vida familiar.

Desse modo, pode-se inferir que, apesar de tímidos, os resultados da pesquisa em questão revelam que em algumas sociedades, como a de Fernando de Noronha aqui estudada, os jovens já estão preocupando-se com fatos que, de certo modo, são "invisíveis" para muitos, corroborando que o caminho é desmistificar, bem como orientar os jovens para ações que são condenáveis, e que os atores sociais desta pesquisa já se mostram "pré-julgadores".

Na tabela 2 surgiram conteúdos que possibilitaram a formação de uma categoria - violência contra idosos - e quatro subcategorias decorrentes dos temas que sugiram. Essas mostraram as representações ligadas ao desrespeito (57%), maus tratos (30,7%), indignação (7,7%) e segurança (4,6).

 

 

Desse modo, os conteúdos mostram-se direcionadas ao desrespeito, este como a representação mais significante da categoria. Essa subcategoria expressa o julgamento que os atores sociais suscitaram quando interrogados sobre a violência para com idosos. Há uma forte referência a maus tratos, este como a reprodução da violência contra os anciãos.

Essas representações são complementadas pelo surgimento das duas últimas subcategorias que refletem a indignação atribuída a um ato julgado desumano e covarde que, para os jovens, dá-se pela falta de segurança que existe nos setores sociais e mais especificamente para os mais velhos, que são muitas vezes jogados à sua própria sorte, ficando à mercê de pessoas que destinam a eles uma vida de maus tratos, que causam indignação na sociedade, porém esta não faz muito em prol da defesa dos mesmos.

É valido acrescentar que existem muitos fatores que desencadeiam a violência, sem que humanamente se encontrem justificativas. Sgundo Araneda (2007), dentre as várias razões da violência contra a pessoa idosa destacam-se a falta de estabilidade familiar, com deterioração da mesma, bem como a instabilidade das relações familiares. Fato bastante significativo é alusivo ao estresse da pessoa responsável para cuidar do idoso, muitas vezes decorrente da situação em que se encontra, onde não se tem valorização.

O fenômeno da violência contra a pessoa idosa pode ser decorrente do agrupamento de pessoas de diferentes gerações bem como da dependência obrigatória dos idosos, o que ocasiona o surgimento de conflitos que decorrem da quebra do diálogo e da argumentação livre, tornando a relação entre os jovens e os mais velhos complicada, sendo que tais pontos acontecem desde o meio doméstico até o convívio social, perpassando o âmbito institucional (Florêncio, Ferreira Filho, & Sá, 2007).

Logo pode ser percebido que as RS dos participantes da pesquisa em questão representam a violência contra o idoso ligada à intolerância, covardia e ato desumano. Significativamente foi representativo o direcionamento ao desrespeito, maus tratos bem como indignação, sendo esses preponderantes ao falar-se em violência contra o idoso.

Desse modo, pode-se dizer que os dados tanto da rede semântica como os dados da categorização das entrevistas se intercruzaram, sendo assim representativos, com relação às formas de violência, evidenciando assim que as reproduções dos estudantes estão presentes nos âmbitos das formas de violência bem como na expressão de certa indignação frente a esses atos. Outro ponto expressivo das representações de atores sociais é direcionado para a segurança, onde se percebeu, através desse tema, que os mesmos referem-se à falta da mesma para os idosos.

 

Considerações finais

Os dados da literatura sobre o tema exposto mostram que as políticas que permeiam as decisões circundantes aos direitos da população idosa se encontram de certa maneira regidas por atos jurídicos que proporcionam uma seguridade para essa dita população, sendo que são esses pontos também presentes, apesar de suas peculiaridades geográficas, no Arquipélago de Fernando de Noronha.

Porém não há, na prática, a execução de tais leis, e muitos idosos ainda são negligenciados nos seus direitos de cidadãos, pois, além das avaliações legais, tem se que priorizar uma maior reflexão da sociedade frente à pessoa idosa, visando à modificação do comportamento desde o âmbito educacional, que deve ser ampliado frente à formação de profissionais, ao poder do Estado.

Para que se possa exigir a melhor execução das políticas de atenção ao idoso ou mesmo possibilitar o surgimento de outras na área, tem que se levar em consideração que os mesmos remetem à importância da divulgação dos casos para que se permita um levantamento que reflita a dimensão epidemiológica dos casos de violência para proporcionar melhoramento das políticas para a população idosa.

Espera-se que esta investigação possa fornecer subsídios para discussão e reflexão acerca da violência contra a população idosa, para que as políticas públicas sejam aplicadas de modo mais eficaz, a fim de desmistificar os casos de violência contra o idoso, fornecendo-lhe informações acerca dos tipos e casos mais frequentes com intuito de acabar com o comodismo que muitos profissionais apresentam frente à detecção dos casos.

Outro fator relevante a ser proposto é levar mais informações para as escolas com intuito de formar cidadãos mais conscientes, desde a educação primária à profissional, para criarem uma reflexão mais crítica a casos em sua maioria omissos, pois se a conscientização for construída desde a entrada do indivíduo nos meios informativos mais seguros, como a escola, muitos casos poderão ser identificados e até mesmo evitados.

 

Referências

Araneda, N. G. (2007). Violência contra pessoas idosas: uma realidade oculta. In Secretaria Municipal da Saúde, Caderno de Violência contra a Pessoa Idosa: orientações gerais (pp. 21-22). São Paulo: SMS.         [ Links ]

Araújo, L. F. & Lobo Filho, J. G. (2009). Análise psicossocial da violência contra idosos. Psicologia Reflexão Critica, 22(1), 153-160.         [ Links ]

Bardin, L. (2002). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.         [ Links ]

Doise, W. (1990). Les représentations sociales. In R. Ghiglione, C. Bonnet, & J. F. Richard (Eds.), Traité de Psychologie Cognitive (Vol. 3, pp. 190-198). Paris: Dunod.         [ Links ]

Faleiros, V. P. (2004). Violência na velhice. O Social em questão, 8(11), 7-30. Acesso em 10 de fevereiro, 2010, em www.portaldoenvelhecimento.net/violencia/.../diagnostico.ppt.

Florêncio, M. V. D. L., Ferreira Filha, M. O., & Sá, L. D. (2007). A violência contra o idoso: dimensão ética e política de uma problemática em ascensão. Revista eletrônica de Enfermagem, 9(3), 847-857. Acesso em 10 de março, 2010, em htt//WWW.fen.ufg.br/revista/v9n3a23.htm.         [ Links ]

Fundación Cáritas Bienestar del Adulto Mayor I.A.P. (2005). Antología de prevención de la violencia y maltrato en contra de los adultos mayores. Acesso em 03 de fevereiro, 2010, em http://www.gerontologia.org/portal/archivosUpload/ Antologia_Prevencion_Violencia_Contra_Adulto_Mayor.pdf

Gaioli, C. C. L. (2004). Ocorrência de maus-tratos em idosos no domicilio. Dissertação de Mestrado, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP.         [ Links ]

Grossi, P. K. & Souza, M. R. (2003). Os idosos e a violência inviabilizada na família. Revista Virtual Textos & Contextos, 2, 1-14.         [ Links ]

Gawryszewski, V. P., Jorge, M. H. P. M., & Koizume, M. S. (2004). Mortes e internações por causas externas entre idosos no Brasil: o desafio de integrar a saúde coletiva e atenção individual. Revista da Associação Médica do Brasil, 50(1), 97-103.         [ Links ]

Lopes, R. G. C. (2006). Diversidades na velhice: reflexões. In SESC SP & PUC SP (Orgs.), Velhice: reflexões contemporâneas (Vol. 1, pp. 87-99). São Paulo: SESC/PUC-SP.         [ Links ]

Magalhães, P. F. C., Carneiro, T. B. S., & Santos, S. E. B. (2009). O abuso financeiro: uma violência contra o idoso. Acesso em 10 de junho, 2010, em http://www.abrapso.org.br/siteprincipal/images/Anais_XVENABRAPSO/319.%20abuso%20financeiro.pdf.

Moscovici, S. (2003). Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis, RJ: Vozes.         [ Links ]

Minayo, M. C. (2006). Violência contra idosos. São Paulo: Secretaria Municipal de São Paulo.         [ Links ]

Melo, V. L., Cunha, J. O. C., & Falbo Neto, G. H. (2006). Maus-tratos contra idosos no município de Camaragibe, Pernambuco. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, 6, S43-S48.  Acesso em 10 de fevereiro, 2010, em http://www.scielo.br/pdf/rbsmi/v6s1/30503.pdf.

Moraes, C. L., Apratto Júnior, P. C., & Reichenheim, M. E. (2008). Rompendo o silêncio e suas barreiras: um inquérito domiciliar sobre a violência doméstica contra idosos em área de abrangência do Programa Médico de Família de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. Caderno de Saúde Pública, 24(10), 2289-2300. Acesso em 10 de fevereiro, 2010, em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2008001000010.         [ Links ]

Neri, A. L. (2006). Envelhecimento cognitivo. In E. V. Freitas, L. Py, F. A. X. Cançado, J. Doll, & M. L. Gorzoni (Eds.), Tratado de geriatria e gerontologia (pp. 1236-1244). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan        [ Links ]

Paiva, S. O. C. (2004). Perfil socioeconômico da população idosa do Distrito Estadual de Fernando de Noronha-PE. Dissertação de Mestrado, Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães, Departamento de Saúde Coletiva, Fundação Oswaldo Cruz, Recife, PE.         [ Links ]

Pomilio, R. (2007). Violência contra o idoso. Trabalho de Conclusão de Curso, Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão Núcleo de Trabalhos Comunitários Curso de Especialização "Políticas de Gestão em Segurança Pública, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.         [ Links ]

Reys-Lagunes, I. (1993). Las redes semânticas naturales, su conceptualización y su utilización em la construcción de instrumentos. Revista de Psicología Socia y Personalidad, 1, 81-95.         [ Links ]

Sanches, A. P. R. A. (2006). Violência Doméstica contra idosos na cidade de São Paulo -Estudo Sabe. Dissertação de Mestrado, Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública da USP, São Paulo.         [ Links ]

Sanches, A. P. R. A., Lebrão M. L., & Duarte, Y. A. O. (2008). Violência contra idosos: uma questão nova? Saúde sociedade, 17(3), 90-100.         [ Links ]

Souza, J. A. V., Freitas, M. C., & Queiroz, T. A. (2007). Violência contra os idosos: análise documental. Revista Brasileira de Enfermagem, 60(3), 268-272.         [ Links ]

Vera-Noriega, J. A., Pimentel, C. E., & Albuquerque, F. J. B. (2005). Redes semánticas: aspectos teóricos, técnicos, metodológicos y analíticos. Ra Ximahi, 1, 439-455.         [ Links ]

Vera-Noriega, J. A. (2005). Rede semánticas: método y resultados. In A. S. P. Moreira, B. V. Camargo, J. C. Jesuíno, & S. M. Nóbrega (Orgs.), Perspectivas teórico metodológicas em representações sociais (pp. 489-510). João Pessoa: EdUFPB.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 23/07/2010
Revisão em: 05/04/2011
Aceite em: 01/09/2011

 

 

Ludgleydson Fernandes de Araújo é Psicólogo, Doutorando em Psicologia pela Universidade de Granada- Espanha. Mestre em Psicologia Social, Especialista em Gerontologia pela UFPB. Professor do Departamento de Psicologia da UFPI. Endereço: Universidade Federal do Piauí. Campus de Parnaíba. Parnaíba/PI, Brasil. CEP 64202-020. Email:ludgleydson@yahoo.com.br
Edna de Brito Amaral e Elba Celestina do Nascimento Sá são Graduandas em Psicologia pela Universidade Federal do Piauí -UFPI (Campus de Parnaíba/PI).
Regina Ligia W. de Azevedo é Psicóloga, Doutoranda em Psicologia Social, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Vulnerabilidades e Promoção de Saúde. Email: regina.azevedo@gmail.com
Jorgeano Gregório Lobo Filhoé Historiador, Professor da Escola Arquipélago Fernando de Noronha/PE, Brasil. Email: gregoriolobo@yahoo.com.br