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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182

Psicol. Soc. vol.24 no.2 Belo Horizonte May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822012000200010 

ARTIGOS

 

Redução de riscos na perspectiva dos praticantes de barebacking: possibilidades e desafios

 

Reduction of risks from the perspective of the practitioners of barebacking: opportunities and challenges

 

 

Luís Augusto Vasconcelos da Silva

Universidade Federal da Bahia,  Salvador, Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo discute uma modalidade de barebacking (sexo anal desprotegido) denominada de parcial ou com redução de riscos. Esta discussão é decorrente de uma etnografia online sobre os sentidos e práticas de barebacking, no contexto brasileiro, entre os anos de 2004 a 2007. Entretanto, ao focalizar a redução de riscos no barebacking, este artigo traz outras formas, práticas, possibilidades eróticas de realização e entendimento do mesmo. É o caso, por exemplo, quando alguns praticantes evitam ejacular dentro ou receber o esperma do parceiro, buscam ser mais receptivos ou insertivos ou manter relações sexuais desprotegidas com parceiros do mesmo status sorológico. Nessa direção, torna-se importante discutir as possibilidades e limites de modelos alternativos de prevenção utilizados no cotidiano de diferentes pessoas, levando-se em consideração as preferências sexuais, dinâmica dos relacionamentos, crenças, discursos, experiências e contextos interativos.

Palavras-chave: barebacking; redução de riscos; HIV/Aids; prazeres; homoerotismo.


ABSTRACT

This article discusses a modality of barebacking (unprotected anal sex) called partial barebacking with reduction of risks. This discussion is the result of an online ethnography about the meanings and practices of barebacking, in the Brazilian context, from 2004 to 2007. This article, by focusing the reduction of risks in barebacking, brings other forms, practices, erotic possibilities of realization and understanding of the same. It's the case, for example, when some practitioners avoid ejaculate inside or receive the sperm from the partner, seek to be more receptive or insertive or keep with partners of the same serostatus. In this direction, it becomes important to discuss the possibilities and limits of alternative models of prevention used in everyday life of different people, taking into consideration sexual preferences, the dynamics of relationships, beliefs, speeches, experiences, and interactive contexts.

Keywords: barebacking; reduction of risks; HIV/Aids; pleasures; homoerotism.


 

 

Introdução

Em meados da década de 1990, ativistas e atores pornôs gays (soropositivos) começam a admitir a realização (intencional) e o prazer do sexo anal desprotegido (barebacking), provocando debates e controversas. Em 1997, por exemplo, o escritor e ativista Stephen Gendin (1997) escreve o artigo intitulado "Riding Bareback" na revista POZ, descrevendo a experiência excitante e estimulante no sexo natural, pele a pele, com outro homem também HIV positivo. Segundo Gendin, a sensação física no sexo natural é muito melhor e o compartilhamento do gozo "no nível físico" aumenta o sentido de compartilhamento no plano emocional e espiritual. Em 1999, na capa da mesma revista, o ator pornô Tony Valenzuela, também HIV positivo, aparece nu da cintura para cima sobre o dorso de um cavalo sem cela1. Em entrevista concedida naquela edição (Gendin, 1999), declara que o nível de carga erótica e intimidade que sente quando um homem está dentro dele é transformacional.

 Em 2002, as declarações do escritor paulista Ricardo Rocha Aguieiras (Alvarenga, 2002), considerado o primeiro brasileiro a declarar publicamente que praticava barebacking, também provocaram polêmica por conta de seu ativismo no movimento gay e por ter participado do grupo Pela Vidda. Na entrevista ao jornal do portal iG, Aguieiras defende o direito à escolha, ou seja, que as pessoas possam escolher se querem usar ou não a camisinha, criticando a sociedade por colocar a responsabilidade do sexo desprotegido nos gays. Na mesma entrevista, destaca que os heterossexuais também fazem sexo desprotegido e que, "na grande maioria dos filmes pornôs heterossexuais, o sexo é praticado sem camisinha". 

Essa maneira de justificar ou engajar-se no barebacking pode ser entendida como forma de "resistência" ao discurso normativo da saúde em relação ao sexo seguro (Crossley, 2002; Rofes, 2002). Por outro lado, embora o barebacking seja compreendido na literatura científica como sexo anal desprotegido de forma intencional (Carballo-Diégues & Bauermeister, 2004; Halkitis, Parsons & Wilton, 2003; Shernoff, 2006; Suarez & Miller, 2001), atualmente, vem sendo utilizado de uma forma mais genérica e abrangente, ou seja, como qualquer sexo anal desprotegido, independentemente do tipo de parceria (se fixo ou ocasional), intencionalidade do ato, ou mesmo do vínculo sorológico dos parceiros envolvidos (Huebner, Proescholdbell, & Nemeroff, 2006; Silva, 2008); o que sugere que essa (possível) prática de resistência parece não mais ocorrer da mesma forma, ter a mesma repercussão ou sentido. Por conseguinte, essa maneira genérica de apropriação do conceito aponta a necessidade de se discutirem outras formas de entendimento ou modalidade da prática.

É nessa direção que busco, neste artigo, focalizar uma modalidade de barebacking denominada "parcial ou com redução de riscos" (Silva, 2008). É o caso, por exemplo, quando alguns praticantes evitam ejacular dentro ou receber o esperma do parceiro, buscam ser mais receptivos ou insertivos (posicionamento estratégico) ou manter relações sexuais desprotegidas com parceiros do mesmo status sorológico – serosorting (Balán, Carballo-Diégues, Ventuneac, & Remien, 2009; Parsons et al., 2005; Shernoff, 2006; Suarez & Miller, 2001). Pretendo, assim, discutir algumas estratégias de redução de riscos (e danos) utilizadas por praticantes do barebacking, mostrando outras possibilidades de realização e entendimento do mesmo, para além da imagem ou lugar-comum de que os praticantes de barebacking querem (necessariamente) transmitir ou contrair HIV, sendo portadores de distúrbios psicológicos2.

Dessa forma, é preciso enfatizar que o prazer do barebacking não significa, necessariamente, movimento intencional, consciente, em direção ao adoecimento ou infecção por HIV, ainda que este prazer possa, muitas vezes, vincular-se à ideia de transgressão ou violação de fronteiras, entre elas, a separação dos corpos (Silva, 2009a). Conforme destaca Lupton (1999), a ambiguidade e o atravessamento de fronteiras (natureza-cultura, eu-outro, dentro-fora, corpo-mente, etc.), como modos de transgressão, significam também excitação, êxtase, ou fonte de prazer.

Podemos, assim, falar em corpos excessivos e transgressivos, na medida em que rompem ou ultrapassam suas fronteiras e limites fixados pela história e cultura (Williams, 1998; Williams & Bendelow, 2000). Por exemplo, como argumenta Bataille (2004), a dinâmica interdição-transgressão é fundamental para entender a experiência erótica. Para esse autor, somos seres descontínuos que têm nostalgia de uma continuidade perdida. Nesse sentido, o erótico implica um sentimento de continuidade profunda. Portanto, o que estaria em jogo no erotismo é a substituição do isolamento do ser, a regularidade da vida social; e isso implica um sentimento de violação e excesso.

Essa forma ou modalidade de viver o risco (e o erotismo) deve ser enfatizada, sem, contudo, negligenciar a heterogeneidade das práticas e sentidos produzidos através das mesmas, como também a própria instabilidade, os conflitos, exclusões, relações de poder e posicionamentos diversos em torno das categorias identitárias. Compartilho, aqui, do pressuposto de que a identidade é uma produção social, envolve relações de poder, disputas, fronteiras, conflitos e lutas, implica o uso de uma linguagem e posicionamentos (Silva, 2000). Por sua vez, isso possibilita problematizar os modos ou processos de constituição de si ou de subjetivação (Foucault, 2004) – que normatizam ou singularizam os sujeitos - e, por consequência, a liberdade no cuidado de si. Desse ponto de vista, os sujeitos que se dizem barebackers tanto podem "resistir" aos discursos imperativos do sexo seguro, inclusive praticando o barebacking de forma mais excessiva, de contato total com o outro, como também se aproximar ou se conformar a regras e modelos do discurso preventivo-epidemiológico.

É interessante lembrar que os medos e obsessões que as nossas práticas médico-pedagógicas depositaram sobre a perda de energia sexual, excesso sexual, desperdício de líquido seminal, já estavam presentes no pensamento grego antigo (Foucault, 2001a). No entanto, os gregos trataram de desenvolver uma reflexão ou preocupação moral com o excesso, no sentido de não serem submissos ou dominados por seus próprios prazeres e dos outros (Foucault, 2001a). Nenhum ato sexual era em si mesmo mau. Os aphrodisia, ou atos de Afrodite, no sentido de proporcionar ou produzir algum tipo de prazer, foram problematizados pelos gregos a partir da manifestação de sua atividade e não por suas formas ou modalidades específicas (Foucault, 2001a). Para eles, em qualquer atividade sexual entrava em jogo o domínio, a força e a vida do homem (Foucault, 2001a). Nesse sentido, a atividade sexual é violenta na medida em que arranca do homem parte de sua existência e de sua força, ao mesmo tempo em que produz a imortalidade pela reprodução da espécie. Era preciso, portanto, que o homem exercitasse o controle de si e mantivesse esta violência nos limites convenientes. Para Foucault (2001a), o que difere, entretanto, essa prática (grega) da moral cristã e do discurso científico moderno é que os temas ligados, por exemplo, à atividade e austeridade sexual foram desenvolvidos na Grécia antiga como uma forma de instauração de uma técnica de vida, uma arte de si, uma maneira de constituir-se como sujeito no exercício de sua liberdade, de um domínio que se exerce sobre si mesmo, e não visando a uma codificação ou prescrição dos atos.

Então, no que diz respeito ao barebacking e à própria identidade barebacker, vale a pena retomar algumas de suas nuances e conflitos conceituais/identitários, por exemplo, quando alguns homens se dizem praticantes do barebacking, porém de forma parcial ou com redução de riscos, demonstrando repetições, ambiguidades, tensões, mudanças e possibilidades em foco. É preciso destacar que essas estratégias de minimização dos riscos já existem e são desenvolvidas no cotidiano de distintas pessoas, considerando as informações sobre os diferentes tipos (e hierarquia) de risco para a transmissão do HIV, ainda que nem sempre discutidas e claramente reconhecidas nas práticas de prevenção.

 

Aspectos metodológicos: algumas notas de esclarecimento

Os principais relatos e discussões tratados neste artigo decorrem de uma trajetória de pesquisa online (2004-2007), de base etnográfica, sobre as práticas e sentidos do barebacking entre brasileiros, usuários da internet. A partir de um email e criação de um perfil no Orkut (www.orkut.com), realizei a observação participante (abril/2006 a setembro/2007) de comunidades que discutiam o barebacking e os aspectos positivos do sexo sem camisinha. Nesse percurso, entrevistas abertas online, no MSN Messenger, com praticantes (e curiosos) do barebacking também foram produzidas a partir das minhas interações no Orkut. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética do Instituto de Saúde Coletiva, UFBA (Registro CEP: 025-07/CEP-ISC).

Entre os usuários da internet que me cadastraram no MSN, estabeleceram contato e conversaram comigo, busquei delimitar a pesquisa em torno de trinta (30) homens, de diferentes idades e regiões do país. Nesse grupo, estavam incluídos os curiosos em praticar o barebacking, os que tinham dúvida se o que faziam era apenas sexo sem camisinha ou barebacking e os que afirmavam praticar ou terem praticado barebacking. Considerando o escopo e limite da pesquisa, tentei direcionar (aprofundar) melhor a análise para os vinte e três (23) contatos que se diziam praticantes do barebacking.

Com alguns desses meus interlocutores, as conversas (online)3 se prolongaram no tempo, em dias diferentes, conforme a disposição e disponibilidade para a interação. O esclarecimento de que eu não pretendia praticar o barebacking ou fazer sexo com eles foi necessário para suprir dúvidas e retomar o foco da pesquisa, na medida em que, esporadicamente, algum dos interessados na conversa parecia estar sendo seduzido. Vale ressaltar, então, que, independentemente de explicitar minha condição de pesquisador, algumas vezes era visto também como mais um (curioso) potencial praticante do barebacking, muito em virtude da própria dinâmica ou característica da internet, ao possibilitar o anonimato e criação de diferentes perfis ou imagens identitárias.

Aqui, é interessante fazer referência à pesquisa de Néstor Perlongher (1987/2008), na cidade de São Paulo, ainda que sua incursão etnográfica (com michês, nas ruas do centro de São Paulo) seja diferente da minha. Nos seus "contatos itinerantes", fazendo trottoir, Perlongher relata que costumava ser visto como "cliente potencial". Essa confusão, segundo ele, foi útil para  "descobrir os mecanismos reais do contato" anteriores à relação. Nessa direção, apesar de eu buscar explicitar minha condição de pesquisador, a dúvida ou curiosidade se eu não teria (de fato) outro interesse no barebacking favoreceram também a minha pesquisa. Isto porque meus interlocutores, algumas vezes, pareciam desenhar (produzir) um cenário possível (verossímil) para que eu mesmo desejasse e entrasse em cena.

Para a realização das entrevistas abertas, parti, então, do pressuposto de que a entrevista é uma ação interativa e ocorre em um espaço de negociação (Pinheiro, 1999). Dessa forma, entrevistado e entrevistador são interlocutores do discurso que se engajam em diferentes posicionamentos. A entrevista, portanto, adquire o sentido de uma conversação, de um diálogo, onde diferentes vozes se encontram e se confrontam, com uma abertura para o imprevisível, sem perder o rumo dos objetivos de pesquisa. Daí a importância de alguns tópicos-guia para orientar a conversa, como, por exemplo: motivos, sensações e interesses no barebacking; diferenças entre barebacking e sexo sem camisinha em geral; o processo do encontro para o barebacking (como, com quem e quando).

É importante lembrar que todos os meus interlocutores do MSN foram chamados pelo codinome de Moscarda, uma referência direta ao personagem de Luigi Pirandello, do livro "Um, Nenhum e Cem Mil"4. Na perspectiva pirandelliana, constatam-se múltiplas possibilidades identitárias, vive-se uma situação de suspensão da estabilidade do "eu", o que não significa uma negação da responsabilidade de escolha: se, por um lado, o Moscarda de Pirandello pode conviver com possibilidades de estruturação do "eu", por outro, é forçado a escolher uma entre tantas outras imagens.

Dessa forma, ao utilizar esse pseudônimo (Moscarda) para todos os meus interlocutores do MSN, buscava, intencionalmente, focalizar as instabilidades, transformações, incertezas, perspectivas e facetas identitárias de possíveis barebackers no cenário brasileiro, além de preservar o anonimato de todos eles. Portanto, com este pseudônimo, pretendia tanto produzir uma "imagem" diversa dos praticantes de barebacking quanto focalizar as instabilidades, incertezas, tensões ou dúvidas de um único e mesmo barebacker. Por exemplo, ao mesmo tempo em que um jovem se dizia "super" responsável, altruísta ou se preocupar com todo mundo, enfatizava também que se afeiçoara "pelo pior dos gostos sexuais". Ressalta-se que a identificação de cada um dos Moscarda em foco será feita na forma de um endereço eletrônico (e-mail) fictício, trazendo apenas sua respectiva idade e região do país de onde teclava, por exemplo, Moscarda32@hotmail.com, RJ.

Finalmente, no processo de construção da escrita, gostaria de lembrar que adaptei o texto a um formato de escrita (narrativa) mais híbrido, buscando trazer, sempre que possível, os estilos de linguagem (e erros de escrita) dos meus interlocutores e da mídia em que foram gerados. No decorrer deste artigo, as vozes (textos) desses interlocutores estarão em itálico, muitas vezes a se entrelaçar no meu próprio discurso. Uma forma, portanto, de atualizar ou marcar a presença deles ao longo de toda a narrativa.

Alguns dos fragmentos de discurso produzidos no MSN, como continuação de uma resposta, também foram postos no mesmo parágrafo, com o objetivo de tornar a leitura mais fluida. É possível que alguns recursos (signos) utilizados para complementar ou construir enunciados, como imagens e símbolos disponíveis no Orkut e MSN, tenham se perdido no momento de salvá-los como documento do Word ou quando foram trabalhados no QSR Nvivo (software específico usado para tratamento e armazenamento de dados qualitativos).

 

Trajetórias de redução de riscos no barebacking

Inicialmente, gostaria de focalizar um momento de discussão no grupo barebackingbrasil do Yahoo!Grupos5. Em uma situação específica de trocas de mensagens entre os membros do grupo, presenciei uma discussão entre alguns de seus membros problematizando as diferenças de objetivo e interesse de pessoas que haviam sido cadastradas no grupo. Um dos membros enviou uma mensagem, mostrando-se reticente, receoso ou com medo de encontrar um parceiro desconhecido para o sexo sem camisinha; já outro membro postou uma mensagem sobre seu interesse em encontrar um parceiro para o sexo sem borracha, mas sem leite dentro. Em diferentes momentos, estas mensagens mobilizaram, particularmente, um dos membros do grupo que, de forma mais ríspida, mostrou-se insatisfeito com as mensagens consideradas antagônicas ou deslocadas em um espaço criado, especialmente, para a troca de experiências e realização de encontros de barebacking; afirmando, categoricamente, que "quem tem medo de Aids ou de que gozem dentro não pode -  jamais! – fazer parte de grupo de bareback".

O enunciado em foco, "sem borracha e sem leite dentro", parece, também, demonstrar transformação ou deslocamento de sentido em relação às práticas e praticantes de barebacking. Nessa perspectiva, é interessante fazer referência a uma mensagem de um membro que estava organizando algumas festas de barebacking. O ponto que me chamou mais a atenção foi a sua preocupação em enfatizar que o objetivo do grupo era o barebacking, ou seja, "foder sem camisinha, levar ou dar porra [esperma]", portanto que não perguntassem sobre as características dos participantes, entre elas, status sorológico ou características físicas, se eram bonitos ou sarados. Os únicos aspectos que deveriam constar nas informações dos participantes eram as preferências dos interessados em dar ou levar porra, ser ativo, passivo ou versátil (que pode ser tanto ativo/insertivo quanto passivo/receptivo). Essa mensagem, portanto, problematiza alguns desses elementos que, aparentemente, não deveriam ser o foco de interesse dos barebackers, ou seja, a preocupação em selecionar os possíveis parceiros para o sexo sem borracha por características físicas, padrões de beleza ou critérios de saúde.

A partir, então, desses enunciados em foco, torna-se interessante discutir alguns aspectos e elementos que passam a acompanhar ou constituir o "sexo bareback", entre eles: a preferência ou estratégia de gozar fora; a busca por ser ativo como uma maneira de diminuir o risco de infecção; e a realização do sexo sem camisinha com um parceiro específico ou de confiança, às vezes após o teste de HIV (negativo), como garantia de um "barebacking mais saudável ou menos perigoso".

A estratégia ou preferência por gozar fora

A estratégia de evitar receber o esperma durante a penetração anal apareceu, por exemplo, em algumas das narrativas dos meus interlocutores no MSN. No decorrer de seus encontros sexuais, havia momentos em que um dos Moscarda (Moscarda32@hotmail.com, RJ) preferia que o parceiro "gozasse fora: embora eu goste de sentir a porra dentro de mim, as vezes peço para o cara gozar fora". Moscarda admitia ficar faltando alguma coisa quando o cara retirava o pênis e gozava fora. Mas ele tinha medo. Para diminuir o risco de uma infecção, às vezes, escolhia de forma aleatória seus parceiros para que ejaculassem dentro dele: "porque eu tenho medo de ficar servindo de reservatório de porra pra qualquer um, entende.... no fundo eu tenho medo de pegar alguma coisa". Esta escolha aleatória dependia do momento e do tesão. Moscarda, então, enfatizava que ele queria e gostava de "sentir o leite" dentro dele (sentia tesão nisso). Se dependesse de sua vontade, "todos gozariam dentro dele". Entretanto, fazia algumas restrições por causa do medo.

Por exemplo, se transo com 5 caras em uma semana (exagero é claro)... deixo um só gozar dentro de mim... as vezes fico com vontade, mas prefiro ver gozando fora para nao correr riscos... embora saiba q isso nao me livra de todo o risco... se to muito tempo sem receber porra dentro de mim, a chance é maior (de ele gozar dentro de mim)...se recebi ontem e transo hoje, hoje eu provavelmente pediria pro cara gozar fora. (Moscarda32@ hotmail.com, RJ)

Outro Moscarda (Moscarda21@hotmail.com, RJ), que ultimamente "curtia mais penetrar (não to com saco para sentir dor, nem que seja por 03 minutos)", foi categórico sobre o contato com o esperma: "gozar dentro nunca!". Ainda que isso, para ele, fosse um mito, acreditava que, sem esse contato, pudesse diminuir as chances de contrair "qualquer coisa de ruim". Dizia, assim, gostar da sensação do contato das peles no sexo sem camisinha:

Gosto da sensação das peles se encontrando, o que quase unca [nunca] acontece com a camisinha ... Gosto do contato com a pele, contato da [imagem de um pênis] com o cu, mas porra é fora, talvez por eu acreditar que as chances de pegar algo será menor, pq qualquier coisa ruim esta na porra, sei lá, mito é mito... é mais gostoso sem, as sensações são mais puras, mas a flor da pele. (Moscarda21@hotmail.com, RJ)

Não se deve negligenciar o fato de que, durante a penetração sem borracha, torna-se difícil estabelecer um limite ou tempo preciso que separe a penetração do ato de gozar dentro. Conforme acompanhei em alguns relatos, na hora da empolgação, fica difícil de evitar gozar no anal: é quase que impossível tá trepando, ainda mais sem camisinha, com o prazer imenso que dá e não gozar, rs" (Moscarda26@hotmail.com, BH). Por outro lado, existem situações diferenciadas que podem favorecer o sexo sem camisinha e, consequentemente, o ato de gozar dentro. É o caso, por exemplo, quando o parceiro que está sendo penetrado, sem proteção, permite a continuidade do ato sexual, deixando a decisão de continuar ou não nas mãos de quem está penetrando; ou mesmo quando o ato de gozar dentro parece fugir ao controle de quem é penetrado.

A busca por ser o ativo para diminuir o risco de infecção

A preocupação em diminuir o risco de infecção por HIV não se restringe ao ato de gozar fora. Outro discurso que aparece na internet é a condição de ser apenas ativo no sexo desprotegido, ou seja, de apenas esporrar. Essa condição não diz respeito, necessariamente, à imagem de masculinidade compartilhada pelo modelo da hierarquia de gênero (Fry, 1983), ou seja, a atividade como um marcador do homem-macho. Para alguns homens, a posição de ativo é enfatizada, e justificada, como uma maneira de garantir ou demarcar uma condição de não convertido (negativo), principalmente quando se é 100% ativo. Dessa forma, as histórias e depoimentos (inclusive de profissionais de saúde) sobre as experiências sexuais desprotegidas com passivos soropositivos; ou mesmo "com uma quantidade grande de desconhecidos, de contato com a porra dentro de outros homens, sem pegar nenhuma doença", tornam alguns dos barebackers ativos (e passivos) confiantes de que a posição de ativo convicto pode ser um bom marcador para a condição sorológica (negativa) do parceiro (ativo).

É interessante que a posição de versátil, podendo ser ativo e passivo nas práticas sexuais, pode tornar o barebacker um (possível) suspeito de estar infectado e transmitir o HIV. Desse ponto de vista, o "problema" pode se deslocar para o cara versátil 100% bare, ou seja, que sempre pratica sexo sem camisinha, "levando e dando porra". Consequentemente, conforme explica um participante de um fórum de discussão no Orkut ("apenas penetração bare"), "quem dá para um cara versátil 100% bare tem muito mais chance de pegar alguma coisa".

Por sua vez, um dos Moscarda (Moscarda26@hotmail.com, BH), que disse ter praticado barebacking algumas vezes, no sentido de "transar sem camisinha" e não "pelo prazer de correr risco", contou que "outro dia comeu um cara dentro do quarto escuro da boite sem camisinha". Sabia dos riscos, mas tinha sido ativo durante a relação sexual, o que, segundo ele, "diminui a probabilidade de pegar alguma doença". A pouca frequência com que praticava sexo sem camisinha também o fazia pensar que os riscos eram menores. Moscarda explicou que, de certa forma, decidiu correr o risco naquela situação específica do dark room (mesmo que sem muito pensar) em prol do prazer intenso do momento. Para ele, ser passivo "realmente não era algo que curtia fazer, e não era por causa dos riscos", mas sim porque preferia mesmo, não dando, também, tanta importância ao esperma como outros barebackers.

Outro Moscarda (Moscarda33@hotmail.com, SP) dizia considerar-se um barebacker mesmo que eventualmente, sendo muito (muuuito) seletivo (através da confiança que aquela pessoa te passa no momento) e apenas fazendo o papel de ativo na história. Moscarda dizia, também, ter a ilusão de que, como ativo, sentia-se menos vulnerável a qualquer coisa. Conforme me contou, praticava o barebacking pelo menos umas quatro vezes ao ano, ainda que fosse um prazer "meio complicado: sinto MUUUUITO medo... e quando faço exames quase morro de medo... sou muito seguro, quando rola, rola, e sinto culpa". Reconhecia, assim, que o sexo sem preservativo é "EXCELENTE, mas vem com uma taxa ALTISSIMA de culpa".

Conforme relatado, o barebacking acontecia com ele em situações de "muito tesão: numa brincadeira .. num esfrega mais forte e inusitado, vc começa brincando .. a pessoa relaxa vc a penetra sem intenção (eh uma coisa meio selvagem, parece que estou fora de mim, sei lah)". Em contrapartida, disse ter praticado barebacking, no sentido de sexo sem camisinha, com um colega de trabalho (uma pessoa séria, de confiança) durante um ano. E, dessa vez, o barebacking não foi acidental. Durante esse período, também teve a oportunidade de saber (sentir) como era alguém gozando dentro dele.

Depois dessa experiência, Moscarda achava que não fazia diferença alguma entre ser ativo ou passivo, mas não deixaria que um estranho o penetrasse sem preservativo (JAMAIS). Nessa direção, revelou "que curtiu ser penetrado (muuuuito)" e "sentia uma falta que chegava a doer", porém não tinha vontade de "dar para um cara que não fosse extremamente masculino e que confiasse plenamente". Procurou também ressaltar que isso não tinha nada a ver com sua "orientação sexual", na medida em que era muito bem resolvido.

Aqui, torna-se importante destacar outros arranjos ou modelos interativos mais flexíveis, em que a posição de passivo (ou mesmo de quem recebe o esperma) não torna o homem, necessariamente, menos masculino ou o feminiliza (Braz, 2007; Silva, 2009a). Por outro lado, não há como negligenciar o fato de que a busca de parceiros considerados machos (másculos ou extremamente masculinos) faz também com que se excluam aqueles com marcas, gestos, atributos (corporais) da afetação (bichas ou afeminados).

A prática do barebacking com o namorado ou com parceiro de confiança

A partir da trajetória desse último Moscarda (Moscarda33@hotmail.com, SP), gostaria de aprofundar outro aspecto do sexo sem borracha que parece também fugir ou destoar do que comumente vem se denominando de barebacking: quando alguns homens dizem fazer bareback (sexo sem camisinha) apenas com o namorado, com alguém que está se relacionando ou com parceiros de confiança. Ressalta-se que, para alguns praticantes, o barebacking é justificado pela existência do teste de HIV, quando os parceiros envolvidos sabem ou acreditam que são HIV negativo.

Outros Moscarda também ressaltaram a existência (ou necessidade) de um parceiro de confiança (não necessariamente o namorado) para justificar o barebacking. Alguns foram mais enfáticos em relação à figura de um namorado ou parceiro fixo, como também à necessidade de realização de testes para HIV. Por exemplo, um desses Moscarda (Moscarda35.1@hotmail.com, SP) disse gostar da "'liberdade', do contato direto e do contato com o sêmen em si" no barebacking, entretanto não fazia "bare com qualquer parceiro, normalmente com parceiro fixo, depois de todos os exames já em dia".

 Outro Moscarda (Moscarda21@hotmail.com, RJ) dizia praticar barebacking (sexo sem camisinha) com o seu namorado (de 32 anos), já há seis anos, e com alguns amigos, porque os conhecia e sabia que são sadios e vice-versa. Relatou que começou a praticar barebacking antes de estar com esse namorado, depois passou a fazer com ele e, em seguida, vieram os "lanchinhos da madrugada: alguns carinmahs [carinhas] que fico de vez em qando [quando], que tb são serios e de confiança". Em relação aos lanchinhos da madrugada, fez uma ressalva para justificar o sexo sem camisinha: "os caras são muito gostosos, não tem como ver uma rola daquelas e dar de camisinha, tem que ser sem mesmo, pra valorizar e sentir gostoso". Moscarda dizia não gostar do contato da pele com a borracha, o namoro foi uma solução para não sair por aí fazendo sexo geral sem borracha.

É bom que se diga que a confiança não está, estrita e necessariamente, vinculada ao teste do HIV, visto que muitas práticas sexuais desprotegidas ocorrem em um contexto ou pacto provisório de confiança, quando alguns elementos ou signos que circulam e se destacam no decorrer de uma conversa ou encontro despertam um sentimento de confiança ou comprometimento recíproco; ou mesmo quando os parceiros estendem este pacto no decorrer de um relacionamento, independentemente do tempo cronológico (horas, dias, semanas, meses, anos, etc.), sem colocar à prova este sentimento pela realização do teste de HIV. Dessa maneira, ser confiável, que se traduz na ideia de regularidade afetiva e sexual, por exemplo, com os tais namorados de 3 a 6 meses de relacionamento (Moscarda35.2@hotmail.com, SP), ou de um a dois meses de namoro, ou mesmo quando se faz referência a pessoas mais próximas, conhecidos ou amigos para justificar a prática do barebacking, parece depender, também, de cada contexto relacional ou interativo. Mesmo quando se admite que "ninguém nunca conhece ninguém, sentir a pessoa, o tesão" pode ser suficiente para mobilizar o sexo sem camisinha, "se nenhum dos parceiros pedir" (Moscarda21@hotmail.com, SP).

Dessa forma, nem sempre será possível traduzir o conceito de confiança por critérios objetivos de verdade, ainda que o parceiro afirme ser soronegativo, o que demonstra que várias das nossas decisões (e apostas) ocorrem a partir de critérios mais subjetivos, afetivos e simbólicos. Muitas vezes, apenas a referência aos lugares que a pessoa frequenta, hábitos e amigos em comum, ou mesmo às imagens corporais torna a pessoa desejada confiante. Por exemplo, como afirmou um dos Moscarda (Moscarda28@hotmail.com, SP): "procuro ver e investigo um pouco antes, num tranzo direto não, só depois de muito papo".

Nessa direção, é importante destacar que existem, também, aqueles elementos ou signos corporais utilizados por alguns barebackers para avaliar a confiabilidade do parceiro (por exemplo, a "cara de doente", a presença de "saliências ou verrugas" no ânus ou no pênis). Ainda que se possa admitir a fragilidade (e falibilidade) desse critério, muitas interações sexuais desprotegidas acontecem mediante a leitura desses signos. Por exemplo, um dos Moscarda (Moscarda32@ hotmail.com, RJ) chamava a atenção que "todos os barebackers morrem de medo de contrair HIV". O que também era o seu caso. Entretanto, o único cuidado (prevenção) que ele podia tomar era "a prevenção do olhar: olhar o cara e nao querer transar com ele por achar q ele é infectado". E admitia que "aids é algo que não tem cara", o que era, portanto, "uma verdadeira burrada" considerar este critério do olhar como uma maneira de selecionar alguns de seus parceiros sexuais. Conforme relatado, quando resolvia fazer sexo sem camisinha, abstraía completamente, esquecia "esse lance de poder contrair qualquer coisa". Reconhecia, portanto, que, nessas situações, "o tesão fala mais alto que qualquer outra coisa", mas admitia haver homens com quem evitava a relação sexual.

Estratégias utilizadas por homens vivendo com HIV que fazem sexo com homens

Deve-se destacar que homens soropositivos que fazem sexo com homens também desenvolvem algumas estratégias para minimizar o risco de transmissão do HIV, como, por exemplo: o posicionamento estratégico (ser receptivo ou passivo) durante a relação sexual, evitar a ejaculação dentro do ânus do parceiro ou mesmo a busca por fazer sexo desprotegido com homens também HIV positivo (Parsons et al., 2005). Essas estratégias parecem fazer sentido na medida em que é possível intensificar o prazer sem (tanto) medo e culpa, mesmo havendo risco de reinfecção. Por exemplo, depois de se descobrir HIV positivo, um dos Moscarda (Moscarda26.1@hotmail.com) ressaltou que apenas iria praticar o barebacking "(sem medo e muito prazer) com as pessoas que também são HIV positivo: "com aquelas que não sabem, que eu não sei ou que são HIV-, camisinha no bicho!" Dessa forma, iria usar o preservativo em qualquer situação, caso o parceiro não fosse soropositivo. E como isso iria ocorrer?

Pessoas que conheço na net é fácil, digo que sou HIV+ e pergunto se tb são, mas não dá pra fazer isso em [cidade X], é uma cidade mto [muito] pequena e não quero que as pessoas saibam que tenho o vírus. Então, aqui sempre usarei preservativo, fora daqui não usarei se o parceiro já tiver o vírus, se não se tocar no assunto, vou usar, não quero expor ninguém a esse risco, pois nem todo mundo é louco como eu. (Moscarda26.1@hotmail.com)6

Como enfatizam Davis, Hart, Bolding, Sherr e Elford (2006), alguns homens gays que vivem com HIV usam a internet para encontrar (filtrar) parceiros também HIV positivo para a realização do sexo anal desprotegido. Esses autores argumentam que esta prática (online) permite a homens gays soropositivos reduzir o risco de transmissão do HIV, como também evitar a rejeição sexual e o preconceito. Por outro lado, não se pode negligenciar o fato de que, mesmo sabendo do risco e da condição soropositiva do parceiro sexual, alguns praticantes (não necessariamente HIV positivo), aceitam, querem e pedem para fazer sexo sem camisinha (Silva, 2008, 2009b). Este aspecto demonstra algumas difíceis e frágeis decisões que devem ser tomadas, muitas vezes, momentaneamente. Nesses momentos de decisão (de ação prática), encontram-se implicados os interesses, preferências, pontos de vista, posições dos parceiros envolvidos, a dinâmica erótica do próprio encontro, bem como os conflitos em torno da possibilidade de revelação da soropositividade7 e da responsabilidade pela realização do barebacking (ou sexo desprotegido).

 

Considerações finais

Ao longo deste artigo, busquei destacar algumas formas ou justificativas para a realização do barebacking na perspectiva de homens com práticas homoeróticas, buscando minimizar os riscos de infecção ou transmissão do HIV. Para tal, algumas estratégias são desenvolvidas: a preferência por gozar fora, a busca por ser ativo e a realização do sexo sem camisinha com um parceiro específico ou de confiança. Em caso de homens vivendo com HIV: ser passivo durante a relação sexual, evitar a ejaculação dentro do ânus do parceiro, fazer sexo desprotegido com homens da mesma condição sorológica.

Essas estratégias de minimização ou redução de riscos e danos estão, portanto, disponibilizadas no cotidiano de diversas pessoas (soronegativas e soropositivas), sendo utilizadas como técnicas possíveis para justificar ou possibilitar o sexo sem camisinha. Entretanto, muitos dos encontros sexuais ocorrem de forma casual, aberta ou imprevisível. Nesses encontros, as pessoas nem sempre decidem ou avaliam suas práticas (e parceiros) utilizando os mesmos recursos (a mesma racionalidade) das políticas de prevenção.

Nesse sentido, levando-se em consideração as circunstâncias (e maneiras) em que pode ocorrer o sexo desprotegido, acredito que seja imprescindível reconhecer os limites atuais do discurso preventivo-epidemiológico, orientado pela ideia do sexo seguro sempre, no sentido (obrigatório) de uso do preservativo. Por sua vez, isso implica reconhecer e discutir abertamente as possibilidades e limites das estratégias de redução de riscos e danos, ou modelos alternativos de prevenção e proteção, já utilizadas no cotidiano de diferentes pessoas.

É preciso, no entanto, enfatizar que essas estratégias são desenvolvidas a partir das preferências e interesses sexuais, dinâmica dos relacionamentos, informações, crenças, experiências e contextos interativos (incluindo as condições histórico-sociais). Estratégias, portanto, que devem ser reconhecidas e discutidas, considerando o direito à informação sobre os diferentes tipos de risco para a transmissão do HIV8, a heterogeneidade de práticas (e sentidos) afetivo-sexuais, como também a liberdade (criativa) dos atores9 no uso de seus corpos e prazeres.

Gostaria também de lembrar que vários dos barebackers atuais querem, fundamentalmente, intensificar seu contato com o outro de forma mais livre ou maximizar seu prazer sensorial, ainda que esse interesse (prazer) nem sempre corresponda a padrões de saúde ou normalidade. Isso não significa reduzir o barebacking à ideia de negação/oposição da ordem ou normalidade - inclusive porque existem aqueles que enfatizam praticar o barebacking de forma menos perigosa ou mais saudável, com certo medo e culpa, buscando situar-se dentro dos limites da norma -, mas chamar atenção para os diferentes aspectos, noções ou significados vinculados às práticas eróticas, como, por exemplo, transgressão, excesso, continuidade, perigo, violência. Esses aspectos devem ser problematizados quando discursos e instituições colocam como norma das relações sexuais o cuidado com o corpo, critérios de saúde, sexo seguro e assim por diante.

Por sua vez, para além de uma compreensão do risco como ameaça ou perigo que deve ser evitado (Lupton, 1999), é importante lembrar que existem aspectos (ou dimensões) do mesmo (vividos de forma positiva) que não se deixam governar completamente pelos dispositivos e técnicas de regulação das populações (Foucault, 1991, 2001b). É o caso, por exemplo, do risco como possibilidade de emoção e adrenalina – do risco-aventura (Spink, 2001).

No que diz respeito a essa produção de novos sentidos do risco na contemporaneidade, Le Breton (2002a), por exemplo, argumenta que a ideia de "condução ao risco" significa um jogo simbólico ou real com a morte, um afrontamento do mundo, não necessariamente com o objetivo de morrer, mas para viver mais. Por sua vez, conforme assinala o mesmo autor (Le Breton, 2002b), com a crise de legitimidade e de sentido do mundo contemporâneo, o indivíduo passa a procurar no corpo sua marca ou signo de identidade. Se o corpo é a marca do indivíduo, seu limite e fronteira que o separa ou o distingue dos outros e da natureza, é através dele que o homem busca reconciliar-se com um mundo cada vez mais confuso, individualista e incerto. Transformando a realidade no corpo, as pessoas buscam fugir do anonimato, afirmar sua presença ou existência para si e para os outros, sua liberdade de escolha e criação, enfim, restituir um sentimento de soberania pessoal (Le Breton, 2002b).

No entanto, é possível que essas dimensões ou sentidos do risco - negativos e positivos - estejam muito mais imbricados (tensionados) e de difícil separação nas diversas práticas do cotidiano. Podemos, assim, pensar em uma rede complexa de negociação de perdas e ganhos, em que circulam interesses, emoções, discursos, informações, significados, corpos, vírus, doenças, tecnologias, materiais, estratégias de prevenção e outros atores (humanos e não-humanos). Portanto, deve-se destacar que as decisões (sobre perdas e ganhos) ocorrem através de situações, conflitos e aspectos diversos, como, por exemplo: os atores que mobilizam ou constituem os encontros e práticas, incluindo as novas tecnologias de informação como possibilidades de realização de encontros afetivo-sexuais; os posicionamentos e interesses (eróticos) dos parceiros envolvidos; os materiais disponíveis (insumos de prevenção), as estratégias e sentidos para a realização do sexo (des)protegido; bem como por meio de um corpo ativo (vivido), aberto para o mundo (Ortega, 2008).

Finalmente, para além de qualquer prescrição e racionalidade técnico-científica utilizada nas políticas de prevenção, devemos reconhecer a existência de uma multiplicidade de práticas (e sentidos), de corpos e prazeres, assim como outros modos de constituição de si (Foucault, 2004). Por sua vez, devemos abrir canais de conversação (e negociação), favorecendo a construção de redes de participação heterogênea para a criação (e imaginação) de novas formas ou possibilidades de vida. Essa multiplicidade (e participação) diz respeito ao próprio barebacking (barebacker), com toda a sua instabilidade de sentido, interesses, conflitos, estratégias de redução de riscos; ou mesmo em relação às formas mais genéricas (e imprevisíveis) de sexo desprotegido, passível de ocorrer no cotidiano vivido (emergente) de diversas pessoas, inclusive dos/as profissionais de saúde. Nessa direção, é mais interessante pensar a vida (incluindo a sexualidade/identidade) como uma "obra de arte pessoal" (Foucault, 2004, p. 290), uma estética da existência, uma criação, em que podemos dar uma forma e exercer a nossa liberdade para instaurar novas formas de vida (criação).

 

Agradecimentos

As principais reflexões desenvolvidas neste artigo são decorrentes de tese de doutorado, defendida em abril de 2008, no Instituto de Saúde Coletiva (UFBA), sob a orientação do Prof. Dr. Jorge Iriart. Parte deste trabalho foi realizada durante estágio de doutorado na UQAM (Canadá), financiado pela CAPES, sob a orientação do Prof. Dr. Joseph Lévy. A todos eles, o meu agradecimento.

 

Notas

1 Utilizado de forma analógica para designar o sexo sem proteção, o termo barebacking significa, literalmente, montar ou cavalgar sem cela.

2 Ver o trabalho de De Paula (2010), que analisa discursos da mídia impressa brasileira e na internet sobre o barebacking.

3 Na entrevista online, todos os meus interlocutores tiveram a garantia do anonimato e ficaram novamente cientes de que os dados produzidos seriam utilizados em uma pesquisa sobre as práticas do barebacking. Esses esclarecimentos já constavam na minha página pessoal do Orkut, através da qual os membros de comunidades do barebacking tinham acesso ao meu email do MSN Messenger, utilizado para a conversa em tempo real.

4 Por intermédio de sua esposa, Vitangelo Moscarda percebe que seu nariz pende para a direita. A partir de então, mergulhado em dúvidas e questionamentos sobre sua própria identidade, busca conhecer o estranho que não era senão ele mesmo, mas que até então desconhecia. Durante a trajetória de rápidas transformações, o protagonista convive com a incerteza sobre si mesmo, um drama que se tensiona com a descoberta "dos cem mil Moscardas" não só para os outros, mas também para ele próprio, ainda que portando o mesmo nome e dentro do mesmo corpo. Quem seria então este Moscarda nas várias situações e interações sociais, diante de diferentes pontos de vista, ocupando uma variedade de posições?

5 Apesar de utilizar, principalmente, as comunidades do Orkut para o desenvolvimento da pesquisa, é importante lembrar que já havia identificado e acompanhava, desde junho de 2005, um grupo de discussão sobre o barebacking no Yahoo! Grupos do Brasil. Essa minha participação ocorreu entre os meses de junho de 2005 a julho de 2006, momento em que não conseguia mais localizar o grupo no endereço correspondente.

6 Entre os meus vinte e três interlocutores que se autoidentificaram como barebackers, apenas três deles se posicionaram como soropositivos para HIV. As histórias sobre o barebacking desses três homens podem ser encontradas em Silva & Iriart (2010).

7 A preocupação por definir, posicionar ou identificar alguém essencialmente a partir de uma sorologia (positiva ou negativa), principalmente quando o sentido da confiança é construído e atualizado pelo teste do HIV, mostra a intensidade e a forma como as identidades contemporâneas estão vinculadas ao modelo das bioidentidades (Ortega, 2003, 2008). Esse modelo parece produzir um discurso de verdade do ser para além do sexo (Foucault, 2001b), onde traços, marcas, elementos e critérios biológicos são imprescindíveis para mobilizar relações pessoais, legitimar o início ou manutenção de uma parceria afetivo-sexual, bem como para dizer e fixar algo sobre a pessoa. Esse modelo tem produzido indivíduos melindrosos, inseguros de si, insensíveis para o outro e para o mundo (Ortega, 2003, 2008).

8 Este aspecto é enfatizado por Jorge Beloqui, defendendo que se aborde a hierarquia de riscos nas práticas de aconselhamento e amplo direito à informação, "mesmo quando sua eficácia não puder ser comprovada" (De Lavor, 2009, p.13).

9 O conceito de ator pode ser utilizado de uma forma mais abrangente, de acordo com a Teoria Ator-Rede, para fazer referência a qualquer coisa que afete outra coisa, produzindo uma diferença (Lévy, 2004). Isso não significa negar a importância das pessoas, mas posicioná-las em uma rede de participação mais heterogênea, híbrida, simétrica, em que todos os atores (humanos e não-humanos) sofrem efeitos ou impactos mútuos. Essa discussão encontra-se detalhada em outro trabalho sobre uma trajetória (prática) de pesquisa epidemiológica (Silva, 2009c).

 

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Recebido em: 05/09/2010
1a. Revisão em: 08/11/2010
2a. Revisão em: 25/05/2011
Aceite em:13/06/2011

 

 

Luís Augusto Vasconcelos da Silva é Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes & Ciências, da Universidade Federal da Bahia. Psicólogo, Doutor em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde Coletiva, UFBA. Endereço: Rua Barão de Jeremoabo, s/n. UFBA, PAF IV. Campus Universitário de Ondina. Salvador/BA, Brasil. CEP 40170-115. Email: luisvascon@uol.com.br