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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.24 no.3 Belo Horizonte  2012

https://doi.org/10.1590/S0102-71822012000300024 

ARTIGOS

 

O sentido da psicologia e a formação do psicólogo: um estudo de caso

 

The meaning of psychology and the psychologist's training: a case study

 

 

Norma da Luz FerrariniI; Denise de CamargoII

IUniversidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil
IIUniversidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, Brasil

 

 


RESUMO

Utilizando o referencial da Psicologia Histórico-Cultural, investigam-se os sentidos da psicologia para estudantes da UFPR participantes de três grupos focais sobre definição, objetos e objetivos da psicologia. As falas analisadas pelo método da Análise Crítica do Discurso de Fairclough apontam para a pluralidade teórico-metodológica, existindo várias psicologias independentes entre si, como se as teorias não pertencessem ao mesmo campo de conhecimento, faltando uma identidade, dificultando definir seus objetos e objetivos. O questionamento excessivo revela uma constante dúvida sobre o lugar do profissional e da profissão, parecendo a psicologia como um lugar de incertezas. Sentem necessidade de posturas teóricas e metodológicas mais consistentes e maior aproximação entre teoria e prática. Expressam sentimentos de incerteza, de incapacidade, de fragilidade e de insegurança por não saber o que fazer, ou onde encontrar respostas. A multiplicidade e diversidade da psicologia reafirmam sua complexidade e advertem para a necessidade do professor/pesquisador dialogar com outros referenciais.

Palavras-chave: formação do psicólogo; sentido da psicologia.


ABSTRACT

From the perspective of Historic-Cultural Psychology, meanings of psychology are investigated by UFPR students of three focus groups regarding definition, objects and goals of Psychology. The reports, analyzed based on the method of Critical Discourse Analysis of Fairclough, point to theoretical and methodological plurality, with various independent meanings of Psychology existing independently, as if different theories did not belong in the same field of knowledge, lacking identity and the definition of objects and goals. It reveals doubt about where professional psychologists stand, and the profession is described with uncertainty. They feel the need for consistent methodological and theoretical positions and for closer relationship between theory and practice. They express feelings of uncertainty, powerlessness, fragility and insecurity for not knowing what they should be doing or where to find answers. The multiplicity and diversity of psychology reaffirm its complexity and warns that the teacher/researcher should establish dialogue based on other references.

Keywords: education of the psychologist; meaning of psychology.


 

 

Introdução

A universidade é um espaço privilegiado perpassado por diferentes discursos que ampliam conhecimentos, produzem novos saberes, desenvolvem tecnologias, não devendo se balizar por verdades dogmáticas, mas pelo exercício da reflexão e da força dialética existente no livre debate. É nesse espaço intelectual fecundo que se compreende a ciência como um processo dinâmico, aberto e inacabado do saber e do fazer humanos, em contínua transformação em um mundo também em mutação.

As práticas e os saberes universitários têm implicações diretas não só na formação profissional, mas também no processo de subjetivação. A atividade acadêmica é perpassada por múltiplos discursos teóricos e metodológicos e por diferentes práticas, contribuindo com diferentes visões de mundo, de homem e de sociedade, a partir das quais os sujeitos constroem sentidos próprios e plurais, trazendo implicações importantes na configuração da subjetividade. Dentro dessa ótica, com a preocupação de estudar a formação dos estudantes de psicologia, indaga-se: quais os sentidos sobre a psicologia produzidos pelos estudantes do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná?

Assim, este trabalho apresenta as considerações encontradas nas falas de alunos do curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná sobre definição, objetos e objetivos da psicologia e discute as elaborações apresentadas relacionando-as com a realidade da psicologia enquanto ciência e profissão.

O texto está dividido em quatro seções, incluindo esta introdução. Na seção 2, relatam-se os procedimentos da pesquisa. Na seção 3, apresentam-se os resultados da análise dos grupos focais. Na seção 4, apresenta-se a discussão dos resultados.

 

Metodologia da pesquisa

Buscou-se apreender o sentido da psicologia a partir da investigação de como os estudantes conceituam a psicologia, identificam seu objeto e formulam os objetivos desta ciência.

Foram realizados três Grupos Focais (GF) (Gatti, 2005) com doze estudantes atuantes em diversos espaços da universidade (pesquisa, extensão, estágios, movimento estudantil) cursando diferentes períodos do curso de psicologia da UFPR. As falas foram gravadas e transcritas e analisadas sob a ótica da Análise Crítica do Discurso – ACD – segundo a perspectiva proposta por Fairclough (2001, 2003) que considera o contexto como uma dimensão fundamental e conceitua o sujeito como construído por e construindo os processos discursivos a partir da sua natureza de ator ideológico. As pessoas são compreendidas em um processo analítico a partir de sua socialização, e as subjetividades humanas e o uso linguístico como expressão de uma produção realizada em contextos sociais e culturais, orientados por formas ideológicas e desigualdades sociais (Pedro, 1997). Nessa visão, concebe-se que todo discurso é historicamente produzido e interpretado; a linguagem é compreendida como uma prática social, como um meio de dominação, discriminação, poder e controle; e os sujeitos são moldados pelas práticas discursivas e capazes de remodelar e reestruturar essas práticas.

O enfoque realizado aqui se inspira no método de Análise Crítica do Discurso por entendermos ainda que as categorias teóricas que o fundamentam ampliam nossa análise para dimensões importantes, tais como: relações de poder, hegemonia do discurso e prática social. Estamos, neste trabalho, interessadas nas relações entre linguagem, poder, ideologia e constituição dos sujeitos. Assim, a Análise Crítica do Discurso nos leva a focalizar os efeitos ideológicos e políticos dos discursos presentes no universo social em que esses estudantes estabelecem suas relações sociais. O foco de interpretação dos dados aqui analisados voltou-se para a busca do sentido da psicologia e sua relação com a formação dos futuros profissionais.

A análise inserida nos pressupostos da Análise Crítica do Discurso nos direciona para explicitar, em primeiro lugar, qual dos discursos presentes no universo atual da psicologia é o dominante. Queremos identificar as seguintes questões: apareceu um discurso hegemônico? Qual é o núcleo principal do conteúdo desse discurso? Quais as implicações desse discurso para a prática desses alunos?

Realizaram-se três grupos focais com as seguintes temáticas: o primeiro sobre "o que é Psicologia"; o segundo sobre "o objeto e o objetivo da Psicologia"; e o terceiro sobre "ciência e religião".

O Currículo do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná é constituído de disciplinas obrigatórias e optativas, estágios e práticas profissionais. Segue as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Psicologia (Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior, 2002) com ênfase na formação em Pesquisa e Promoção da Saúde. O currículo enfatiza quatro abordagens teóricas – Psicanálise, Psicologia Comportamental, Psicologia Fenomenológica Existencial e Psicologia Sócio-Histórica; três campos de atuação – Educação, Saúde e Trabalho (Universidade Federal do Paraná, 2008).

 

O discurso dos estudantes

Como já relatado nos procedimentos acima, usou-se a estratégia de Grupo Focal para buscar o sentido de psicologia para os estudantes. Seguindo a orientação da Análise Crítica do Discurso (Fairclough, 2001), analisamos a primeira dimensão baseada na análise textual e linguística. Trata-se de análise descritiva e envolve as seguintes dimensões: controle interacional; coesão; gramática; vocabulário; criação de palavras e metáforas. Os objetivos foram caracterizar o funcionamento e o controle das interações, reunir características que contribuam para a construção do "eu" e sua identidade social no enunciado, determinar graus de afinidade e identificar as palavras-chave e como elas funcionam no discurso. Os dados demonstraram a constante presença de contradições e dificuldades dos alunos em expressarem seus pensamentos e ideias, ficando clara a multiplicidade e complexidade das questões e explicações psicológicas com que esses estudantes se deparam no curso. As falas, em geral, não são incisivas, mas reticentes, marcadas pela dúvida e pela insegurança. Predomina o discurso da complementaridade entre as falas, onde a cordialidade acaba camuflando a crítica, o questionamento, a contraposição.

Os participantes se conhecem e têm conhecimento da instituição; são relações sociais do mesmo universo institucional onde se realiza a pesquisa; o clima é de informalidade; o enunciador não explicita aquilo que os coenunciadores já conhecem; supõe que os outros sabem a que se refere. Alguns participam mais do que outros. Não há uma hierarquia formal entre os participantes, mas existe uma hierarquia informal gerada a partir do conhecimento de cada participante. Há uma diferenciação do pronunciamento dos alunos dos anos iniciais e dos anos mais adiantados. Os alunos dos últimos anos do curso participam mais e expressam suas ideias com mais desenvoltura tentando explicar os conceitos abordados para os mais novos. Apresentam um discurso melhor fundamentado, demonstrando a apropriação de um conhecimento científico. O tom didático das explicações caracteriza uma relação de poder assumida pelos alunos dos últimos anos do curso.

Todos procuraram se posicionar a partir da abordagem teórica com a qual mais se identificam, da prática realizada em estágios ou que têm conhecimento, ou da teoria estudada nas diferentes disciplinas. Existe um discurso generalista, pois todos os participantes têm uma noção geral dos conceitos citados ou de termos próprios da psicologia aos quais se fez menção; observa-se uma repetição do discurso acadêmico utilizado pelos professores nas disciplinas. Observa-se também um movimento constante de contradição, uma dificuldade para expressarem seus pensamentos e ideias, ficando clara a multiplicidade e complexidade das questões e explicações psicológicas. A identidade do grupo se dá em relação "a ser estudante de psicologia" em oposição "aos outros", que não são estudantes de psicologia.

A segunda dimensão analisada foi a prática discursiva (produção, distribuição e consumo) baseada na tradição interpretativa. O objetivo foi explicitar os tipos de discursos presentes nas falas dos estudantes; identificar a presença de fragmentos de outros discursos e analisar se o discurso representado está bem demarcado. O orientador principal desse momento de análise foi a combinação do conceito de intertextualidade (Fairclough, 2001, p.133) – a presença explícita de outros textos em um texto – e a identificação das filiações sócio-históricas (Pêcheux, 2002) da fala dos estudantes.

No primeiro grupo focal, cuja temática foi "o que é Psicologia", predominou a definição da   psicologia como um campo de conhecimento que objetiva a promoção de saúde, o bem-estar, a qualidade de vida, a saúde mental.  Segundo a fala dos estudantes, apareceram os seguintes conceitos: "psicologia como ferramenta, uma forma de ver o mundo, pela qual pode trabalhar com o ser humano para promover qualidade de vida"; "além de ferramenta é também um campo de conhecimento ... da para você se apropriar de conhecimento da realidade e tal"; "é esse negócio de qualidade, assim: promoção de saúde. A psicologia é isso, assim, tratar o ser humano e esta questão de promover o bem-estar, a qualidade de vida dele, a saúde mental"; "São ferramentas e, assim, ferramentas diferentes porque têm diferentes formas de você ver a realidade";

embora a posição da psicologia e do conhecimento da psicologia tende a se focar no indivíduo eu acho que tem uma dimensão maior, social, tem um papel de transformação ou de não transformação; de manutenção das estruturas sociais ... tem um papel aí de intervenção.

A fala dos alunos remete a um discurso presente no universo acadêmico. Que discurso é esse? De onde ele vem? Qual seu modo de funcionamento e quais as visões de mundo subjacentes a esse discurso? Que prática orienta?

Os estudantes não reproduziram as definições clássicas de psicologia (Atkinson, 1995; Davindoff, 1983; Huffman, Vernoy, & Vernoy, 2003). Ao conceituar psicologia, os alunos não recorrem aos textos da psicologia; vão buscar formulações que circulam nos textos oficiais das políticas públicas de saúde.

A ideia de promoção relaciona saúde com condições de vida e recomendação de uma vida saudável. Remete à Carta de Ottawa de 1986, que reafirma a importância da promoção à saúde e aponta a influência dos aspectos sociais sobre a saúde dos indivíduos e da população. Diz a Carta: "processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo" (Heidmann, Almeida, Boehs, Wosny, & Monticelli, 2006, p. 353).

É o discurso promovido pela Organização Mundial da Saúde, desde os anos 70, com influência crescente nas políticas públicas de muitos países. Segundo Carvalho (2004), no Brasil, o discurso da promoção de saúde se faz presente na proposta da Vigilância à Saúde, sustenta o projeto de Cidades Saudáveis, influencia práticas de Educação à Saúde e está nos projetos da rede básica, hoje vinculados ao Programa Saúde da Família. Conforme os documentos orientadores (Ottawa de 1986 e Conferências Internacionais de Promoção à Saúde que a OMS patrocinou no período de 1986 a 2000), nesses programas é ressaltada a atribuição de liberdade de escolha ao indivíduo, ao mesmo tempo em que o vincula à responsabilidade social.

O ideário de promoção de saúde do serviço público recomenda buscar o desenvolvimento pleno dos indivíduos como cidadãos autônomos, responsáveis pela sua saúde, autores e inventores da própria vida (Barbosa & Mendes 2005). Assim, prioriza os programas de educação voltados à mudança de estilos de vida e da compreensão de que prevenção da doença é sinônimo de promoção à saúde.

O discurso da promoção de saúde está também presente nas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Psicologia, que preveem a atuação do psicólogo em diferentes contextos, considerando as necessidades sociais, os direitos humanos, tendo em vista a promoção da qualidade de vida dos indivíduos, grupos, organizações e comunidades. As diretrizes orientam ainda, como parte das competências gerais do profissional, para a necessidade de assegurar que a sua prática seja realizada de forma integrada e contínua com as demais instâncias do sistema de saúde, assegurando, assim, a importância do trabalho multidisciplinar e intersetorial preconizado pela estratégia da Promoção da Saúde (Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior, 2002). Como apresentado anteriormente, o Curso de Psicologia da UFPR dispõe como uma das ênfases do seu currículo a promoção da saúde, o que está presente nas falas dos estudantes, mas sem uma consistência teórica e metodológica, talvez refletindo a não clareza do modelo teórico-conceitual da promoção à saúde apresentado nas políticas públicas, conforme defende Carvalho (2004). 

Ainda no primeiro grupo focal, aparece um conjunto de termos que define psicologia como campo de conhecimento, como instrumento para conhecer a realidade. Um estudante fala: "além de ferramenta é também um campo de conhecimento ... dá para você se apropriar de conhecimento da realidade e tal", e  o colega completa sua ideia: "ferramentas diferentes porque têm diferentes formas de você ver a realidade". O colega complementa e remete a fala para o campo da "ideia da relatividade de todas as formações discursivas" (Rouanet, 2009, p. 245). Essa visão é explicitada na resposta à pergunta se "existe 'uma' psicologia", e de imediato manifestam-se, enfatizando: "Mas de jeito nenhum!" E, logo após, emendam, dizendo: "Acho que não", voltando a predominar grandes dúvidas a respeito. As falas transcritas abaixo são bastante elucidativas sobre essa questão: "Só se você considerasse psicologia, como um conjunto de várias formas de ver o mundo", fala um aluno. Outro aluno complementa, dizendo: "um paradigma mesmo que ... novo da psicologia é aceitar que diferentes formas de ver o mundo aplicam-se. E não precisam convergir necessariamente numa verdade absoluta". E um terceiro aluno completa: "eu acho que às vezes ... é ... as várias psicologias até falam a mesma coisa, mas a gente sabe que é de forma diferente. Acho que isso já nos caracteriza". As falas oscilam entre discursos diferentes, no entanto, os estudantes não confrontam esses discursos e aceitam um terceiro que vem conciliar. 

O que é saúde? O que é promoção da saúde?

Na continuidade das falas, na tentativa de explicar o que é psicologia, os estudantes acentuam a concepção da psicologia como promotora da saúde, aparecendo questionamentos sobre o que seja "promoção de saúde" e "qualidade de vida". O que foi expresso como consenso – em um primeiro momento, sem questionamento, quase como um "lugar-comum", como reprodução de um discurso colocado repetidamente no universo acadêmico – começa a ser problematizado; surgem enunciados significativos tais como: "Essa promoção de saúde complicou"; "Eu acho que qualidade de vida é uma coisa muito difícil de falar porque é uma coisa muito ... Veja, assim, né?"; "A saúde também, né? É um conceito meio ... se você ampliar, assim, saúde social, saúde econômica, saúde que nem a Organização Mundial de Saúde. Nossa,  daí fica uma coisa inatingível, me parece às vezes".

No que se refere ao conceito de psicologia, os alunos expressaram um discurso dominante, aceito por todos os participantes do grupo focal, sem questionamento. Um discurso com suas implicações políticas e ideológicas que está inserido no discurso maior das preocupações sociais e que se traduz em uma posição de defesa do bem-estar das pessoas, voltado para a promoção da saúde. Os alunos revelam dificuldade em dizer o que é saúde e promoção de saúde.

Por um lado, é um discurso que avança no sentido contrário ao da prática clínica individual e voltada para uma minoria no consultório, que foi hegemônico durante muito tempo na psicologia. Por outro lado, é o discurso integrado ao ideário dos programas de saúde pública e alvo de críticas "por negligenciar o contexto político, econômico e social, 'culpabilizando as vítimas' e responsabilizando determinados grupos sociais por seus problemas de saúde, cujas causas encontram-se fora de sua governabilidade" (Heidmann et al., 2006, p. 353).

Quais as implicações desse discurso para a prática desses alunos?

Os alunos dos últimos anos que já fazem estágios revelam conceber a Psicologia enquanto área de conhecimento intimamente relacionada com a Filosofia, com as Ciências Humanas e as Artes. O que exige, segundo a fala desses alunos, uma sólida formação filosófica e epistemológica do psicólogo, que se mostra bastante difícil porque é uma vastidão de conhecimento da qual o curso não tem como dar conta.

A fala dos alunos dos últimos anos sugere que a atuação prática e a intervenção é que os fazem perceber a necessidade da formação teórica filosófica consistente, mas, logo após, expressam sentirem necessidade de procedimentos objetivos e sistemáticos para atuar na prática. Segundo a fala dos alunos: "uma prática mais incisiva", "mais direta", "tem que ser uma coisa direta e precisa na hora da atuação e ao mesmo tempo ter uma carga de coisa que você pode aprender e pode utilizar", "meios ... sistemáticos que funcionam realmente", "como utilizar isso dentro de uma parte de promoção de saúde?",

não é que nem o engenheiro que você tem um tubo, daí você vai lá e o psicólogo só tem uma coisa pra fazer. Não! De repente você percebe que é mais coisa e como ... É difícil a gente pensar assim: 'Não, não vou fazer só isso', né? Tem toda essa questão pra ver ... Toda uma questão mais de relações, né?

A fala dos estudantes revela uma angústia que eles expressam através de metáforas ("tubo", "ferramenta") ao afirmarem ser a psicologia uma profissão sem protocolos:

Não é como em uma outra profissão mais técnica que você possa se utilizar de uma consulta. Você tem que construir um tubo então você vai lá e consulta a fórmula matemática que faz. Na hora do atendimento eu acho muito difícil pensar em alguma coisa da teoria.

Alguns deles expõem que encontraram essa instrumentalização em seus próprios processos terapêuticos. Fica evidente, na fala abaixo, que a formação acadêmica não está oferecendo subsídios suficientes para articular teoria e prática:

esse conhecimento do 'lidar com o outro' não é só da teoria assim, sabe? É de você, enquanto ser humano, estar conseguindo lidar com outro ser humano, assim. É ... Só porque teoria, a teoria não vai adiantar, assim. Isso que ... é muito absurdo na psicologia, assim, eu acho. Tipo, não vai adiantar. Tem que ter um conhecimento sim, que trabalhe consigo mesmo.

Ao que outro aluno complementa: "Por isso eu tava falando da relação, né?". E outro:

A gente não pode engolir a teoria fria, assim. Eu acho que... é... principalmente depois que eu comecei a fazer análise eu comecei a entender melhor, assim ... Porque eu me peguei analisando coisas do meu dia-a-dia, que condiziam com certas questões. Acho que a gente desmistifica um pouco aquele negócio da teoria como uma coisa escrita e que veio do nada, ou então veio de cima ou ... como uma coisa que foi construída a partir deste mesmo tipo de observação que eu posso ter no meu dia-a-dia.

Assim, avançamos para a terceira dimensão do marco de análise da ACD, que tem como objetivo especificar "a natureza da prática social da qual a prática discursiva é uma parte, constituindo a base para explicar por que a prática discursiva é como é; e os efeitos da prática sobre a prática social" (Fairclough, 2001, p. 289).

No segundo grupo focal, concluem que o objeto da psicologia depende da abordagem. Expressam:

Eu acho que de novo a gente vai cair naquela questão das abordagens. É ... têm abordagens que vão considerar como objeto o estudo do comportamento, outras vão considerar como objeto de estudo o inconsciente ou a consciência ou a relação entre as pessoas.

Surge a inserção da fala dos alunos nos campos dos discursos da psicologia social da abordagem sistêmica: "o objeto da psicologia é a relação e o objetivo de intervenção é incrementar a qualidade de vida." Pedrinho Guareschi (2004) remete à reflexão sobre o conceito de relação colocando-o como "o conceito central" da Psicologia Social. O conceito de relação remete também à perspectiva sistêmica que configura uma visão do sujeito na relação com o outro, na sua condição inerente de complexidade, no reconhecimento da presença da subjetividade/individualidade nas relações.

Quanto ao objetivo, reforçam o apresentado no primeiro grupo focal: promoção da qualidade de vida e da saúde mental. Continuam com a dificuldade de definir qualidade de vida e não conseguem fazer a distinção entre saúde mental e saúde de modo geral. Concluem que não há normalidade e que saúde mental não é ausência de sofrimento. Aparece uma visão dominante de que o sofrimento faz parte da vida humana, o que remete a uma perspectiva filosófica presente nas abordagens fenomenológicas e psicanalíticas.

O moderador do GF propõe que discutam sobre qual seria o objetivo da psicologia. Um dos estudantes retoma a conclusão apresentada no GF I, e os outros não questionam. Ele diz: "Não sei, acho que o objetivo da psicologia é promoção de qualidade de vida." Ao que coordenador indaga: "Mas o que é pra você qualidade de vida?" O mesmo estudante responde: "depende do caso também, não é?". E outro estudante responde explicando que tem que considerar as diferentes abordagens e diferentes áreas de atuação:

então vai tentar promover qualidade de vida através de um maior relacionamento no trabalho, de uma maior consciência dos seus próprios processos, tentar desenvolver qualidade de vida a partir das relações do bairro, da comunidade ... mas acho que em última instância, o que todas as linhas, o que todas as áreas de atuação procuram é que o ser humano possa utilizar suas potencialidades de uma maneira mais benéfica a si mesmo. 

Percebe-se a necessidade de encontrar unidade entre as diferentes psicologias que eles estudam. Surge na fala de um dos estudantes o seu incômodo em relação ao objetivo de adaptação envolvido no discurso de qualidade de vida. Diz: "não sei o que é exatamente essa qualidade". Ao que outro estudante comenta:

É até uma questão que me bateu agora, a da adaptação, é até ... se você for pensar bem a fundo, a gente faz isso: adapta. E todo aquele conceito, essa questão de normalidade e se for pensar o que é normal e se for para outros lugares, que pode ser o nosso objetivo o de adaptação.

A fala desse estudante parece reforçar a tese de Carvalho (2004) de que a ideologia política da responsabilidade pessoal pressuposta na (Nova) Saúde Pública, apesar de contrapor-se ao modelo biomédico, hospitalocêntrico e curativo e preconizar a autonomia do indivíduo, contraditoriamente encobre uma abordagem funcionalista e conservadora que reforça o ideário neoliberal ao desenvolver normas quantitativas de classificação, ao descrever e mapear estatisticamente a vida social com o objetivo de circunscrever o real e facilitar a governabilidade do social, além de escamotear as contradições. Ao elaborar regras sobre o viver saudável e prever o desenvolvimento de habilidades dos sujeitos individuais e coletivos adaptadas ao ideário da promoção da saúde, contribui para uma forma sutil de vigilância, de coerção e de regulação da sociedade, atribuindo ao indivíduo a responsabilidade do controle do processo saúde-doença, sem que seja necessário realizar transformações no modo de produção e de gestão das relações sociais. Entretanto, Carvalho (2004) atenta que o "empowerment" comunitário previsto no ideário das Novas Políticas Saudáveis pode suscitar na comunidade estratégias que promovam a participação, a reflexão, o desenvolvimento da consciência crítica, a tomada de decisão e a intervenção diante dos problemas, produzindo sujeitos autônomos e socialmente solidários, o que vem favorecer uma transformação social.

Os estudantes compreendem que a psicologia tem uma função importante na constituição do sujeito e das relações sociais, ou seja, na dimensão social e individual, como apresentado nas falas: "Cabe à psicologia levar o paciente a se perceber a fazer as coisas de uma forma diferente possibilitando assim sua melhora".

Promover a qualidade de vida do indivíduo – é ... Eu acho que embora a posição da psicologia e do conhecimento da psicologia tende a se focar no indivíduo eu acho que tem uma dimensão maior, social, tem um papel de transformação ou de não transformação; de manutenção das estruturas sociais. Eu acho que a psicologia também tem um papel aí de intervenção.

O terceiro grupo focal debateu sobre a diferença entre psicologia e filosofia e entre a ciência e a religião, diferenciando a psicologia por esta ter uma prática concreta, por o psicólogo "lidar com o sujeito numa relação", ter uma formação prática voltada para o mercado de trabalho, por seus pressupostos originarem-se da prática psicológica, principalmente da prática clínica. A psicologia aproxima-se da filosofia por conta das bases epistemológicas, mas, enquanto a filosofia busca regras gerais e essenciais do homem, a psicologia rompe com a noção de regra geral por tratar da questão da subjetividade: "cada caso é um caso", "cada indivíduo tem a sua singularidade". Arriscam dizer que a psicologia está mais para uma prática, mas não para uma tecnicização da psicologia.

Os objetivos da religião seriam dar um sentido para a vida, indicar um modo de vida, definir o certo e o errado. Aproximam a religião da ciência ao compreenderem que ambas podem ser dogmáticas. A religião propõe uma outra lógica para tratar de "algo a mais" e de temáticas com as quais a ciência parece não se preocupar, como solidariedade, fraternidade, amor ao próximo. Apareceu na fala dos alunos a afirmação do psicólogo como um "salvador" cuja missão é "ajudar o outro". Se concordarmos com a afirmação de que o uso linguístico "incorpora visões de mundo" ou "teorias da realidade" (Pedro, 1997) e que o uso da linguagem reflete as várias visões ideológicas que configuram o entendimento da sociedade, podemos identificar um discurso que revela significados e valores da tradição religiosa cristã.

Quanto ao objetivo da ciência, percebe-se que predomina entre os estudantes a visão do paradigma positivista. Ao se questionar se a psicologia se adequaria às definições de ciência que eles apresentaram, retomam a ideia de que na psicologia tem várias formas de produzir conhecimento, que a psicologia trabalha com a possibilidade da pluralidade, e surgem comentários como: "Psicologia é uma bagunça", "Psicologia é questionar", "As teorias psicológicas concordam com a possibilidade da coexistência das coisas", "A gente é contraditório", "Psicologia pode ser ciência e filosofia", "A gente não sabe muito bem o que está fazendo", "As diferentes psicologias nomeiam diferentemente a mesma coisa". Sentem dificuldade em afirmar a cientificidade da psicologia. Ficam incomodados com as palavras "classificação" e "leis gerais": "Quase todas as teorias tentam ... classificar o principal para todas as pessoas ... o que serve para todo mundo ... métodos que são válidos para todos". Outro acrescenta: "Acho que nenhuma teoria da psicologia, nenhuma abordagem da psicologia tem um 'tabelão' desse tipo: oh, pessoas com 'esse' problema tratar 'assim'". Utilizam o conceito de subjetividade para justificar a impossibilidade de regras gerais na psicologia, mas enfatizam que tudo o que se faz na universidade é ciência.

 

Discussão dos resultados

Fizemos a pergunta sobre quais as implicações do curso de graduação em Psicologia na construção do sentido do que venha a ser a psicologia e no processo de formação profissional dos alunos da Universidade Federal do Paraná. Para responder essa questão, perguntamos aos alunos o que é psicologia, seu objeto e objetivos e seu entendimento em relação à ciência e à religião. 

Para os estudantes que participaram da pesquisa, a psicologia é o campo de conhecimento que objetiva a promoção de saúde, o bem-estar, a qualidade de vida, a saúde mental. O objeto da psicologia é a relação e o objetivo é promover a qualidade de vida do indivíduo. Expressaram um discurso circular em torno desses termos. Mesmo que enfatizassem, em diversos momentos da discussão, a importância da escolha teórica para apresentar definições e explicações, eles não apresentaram outro conceito alternativo no que se refere ao objeto e objetivo da área. Reafirmaram o discurso da psicologia como promoção de saúde e qualidade de vida, ainda que não soubessem dizer o que isso poderia significar.

Nesse grupo de estudantes, o discurso da psicologia voltado à promoção da saúde está consolidado. O que era uma tendência nos anos 90 agora é dominante. O estudo "A concepção e atividades emergentes na psicologia clínica" (Lo Bianco, Bastos, Nunes, & Silva, 1994) identificava a mudança, para a Psicologia da Saúde, da saúde mental em direção à perspectiva social da medicina, acompanhando a área da saúde. Movimento que passou por vários momentos até "o reconhecimento da qualidade de vida na infância e da educação dos indivíduos, grupos e comunidades como fontes essenciais da sobrevivência da humanidade" (Lo Bianco et al.,1994, p. 33) que aponta para a ação "de promoção da qualidade de vida das várias gerações" (Lo Bianco et al.,1994, p. 33).

O discurso dos alunos é uma demonstração das mudanças ocorridas nestes últimos 40 anos e referenda as pesquisas realizadas pelo Conselho Federal de Psicologia (Bastos, 1990; Bastos & Achcar, 1994; CFP, 1988) que apontavam a tendência à redefinição da profissão do psicólogo. De um serviço centrado no atendimento individual, em consultório, para a prestação de serviço em escolas, organizações e comunidades. Principalmente o estudo de Bastos e Achcar (1994) indicava o surgimento de uma nova forma de ver o papel do psicólogo e a abertura para intervenções sociais, multidisciplinares, multiprofissionais, centradas em contextos preventivos, ampliação de recursos e técnicas que poderiam extrapolar o campo da psicologia. Apontava, também, para a alteração da clientela, como condição para o surgimento de novo modelo de atuação: de uma clientela predominantemente de classe média para a inserção do psicólogo nos serviços básicos de saúde pública.

Esta nova forma de ver o psicólogo já está assumida e consolidada, como verificamos na fala dos estudantes sobre o objetivo da psicologia. A matriz ideológica do discurso dos estudantes se diferencia do discurso da psicologia clínica clássica, que busca as origens da determinação subjetiva no próprio organismo, na estrutura da personalidade ou nas relações familiares primárias. O problema aparece quando eles são estimulados a refletir sobre seus estágios. Trazem relato de práticas que são modelos de atendimento clínico centrados no "paciente" e, portanto, não correspondem ao discurso social anunciado em relação à amplitude da atuação do psicólogo. O discurso da psicologia clínica e o discurso expresso pelos alunos são opostos do ponto de vista político, implicando, inclusive, práticas diferentes. A psicologia clínica tradicional apresenta-se como a principal e a mais consistente área da psicologia, capaz de oferecer procedimentos e instrumentais claros para o trabalho de diagnóstico e de intervenção do psicólogo em diferentes contextos de atuação. Parece que esse descompasso alicerçou-se no terreno da formação do psicólogo. Observa-se que os alunos afirmam não se sentirem instrumentalizados e capacitados para lidar com esse horizonte que se abre a partir da perspectiva social e relativista, não encontrando subsídios nem na teoria, nem na prática, o que parece dificultar ainda mais a percepção do que venha a ser psicologia.

Um aspecto da fala dos alunos chama atenção: é a insegurança que eles expressaram quando precisam intervir como psicólogos em situações práticas. Revelam que buscam a referência para agir não na teoria, mas sim no bom senso. Não encontrando modelos de atuação e conceitos teóricos metodológicos para orientar sua atuação profissional, recorrem às suas experiências pessoais. O discurso social não propõe instrumentalização e espaço suficiente para a ação coerente com esse discurso. Há uma contradição entre o discurso acadêmico hegemônico e as possibilidades de prática, estabelecendo uma ruptura na formação desses alunos, o que revelou, nas falas deles, ser motivo de angústia. O embate entre o discurso clínico e o discurso social acontece no estágio. Indica que a formação que estão recebendo não está contribuindo para que o conhecimento das diversas abordagens teóricas seja transformado em orientador da prática profissional de psicólogos. Pode ser que a superação desse impasse seja encontrada na mudança de postura do psicólogo; ou seja, de uma atitude de depositário de verdades sobre "o outro" para a postura dialógica como estratégia orientadora de sua prática.

E para finalizar, quais os sentimentos decorrentes do processo de formação desses estudantes?

A angústia com a qual os alunos se deparam não é apenas por conta da falta de protocolos para intervenção; ou por conta da dificuldade de aplicar conhecimentos teóricos na prática; ou em função da diversidade teórica e mesmo conceitual da psicologia. As falas dos alunos demonstram que o sentimento de angústia é também proveniente das muitas possibilidades de abertura para múltiplos significados e sentidos que a relação com o outro sempre implica:

A gente vai pra supervisão a gente atende, vai pra supervisão e daí a gente fala o que aconteceu com o paciente, assim. E o que está acontecendo com a gente, assim, sabe? Tem milhões de coisas acontecendo e você tem que dar ouvido pra isso, assim... é uma característica muito.

Essa fala enuncia que se deparar com as questões do outro nos faz deparar com as nossas próprias questões.

Apareceu a pluralidade teórico-metodológica da psicologia, sendo que os estudantes enfatizam a importância da escolha teórica para apresentar definições e explicações. Indicam a necessidade de posturas teóricas e metodológicas mais firmes e sólidas para que se estabeleça uma atuação mais segura, e uma maior aproximação entre teoria e prática. Fica a impressão da psicologia como um lugar de incertezas, onde tudo pode ser questionado e, na maioria das vezes, esse questionamento aparece como uma forma natural de lidar com as coisas. Esse lugar do não-saber pode ser tomado, inclusive, como um lugar comum no conhecimento científico, se entendermos o constante questionar como necessário à ciência, à pesquisa e ao exercício de busca do conhecimento, mas que muitas vezes traz consigo um sentimento de abandono que atinge o pesquisador (Furlan, 2008).

Apesar de entendermos o questionamento como parte da ciência, necessário ao seu desenvolvimento e fundamental para a prática da psicologia, ao ouvir os estudantes, o questionamento excessivo parece revelar uma constante dúvida sobre o lugar do profissional e da profissão, ressoando como a falta de uma identidade única da psicologia, ficando a impressão da psicologia como um lugar de incertezas, como um "lugar do não saber" e, na prática psicológica, como um "não saber o que fazer".

O discurso dos estudantes, de alguma forma, legitima a existência de várias psicologias independentes entre si, sem algo que as una, como se as teorias não pertencessem ao mesmo campo de conhecimento. Além disso, dão uma importância grande à escolha da abordagem teórica com a qual cada profissional irá trabalhar, já que é ela quem define o que é psicologia e, consequentemente, quem é o profissional da psicologia e seu campo de atuação.           Serbenna e Raffaelli (2003, p. 6) discorrem sobre a dificuldade em encontrar um espaço de construção conjunta para todas as abordagens psicológicas e conseguir construir um conhecimento global, sem abandonar as raízes epistemológicas escolhidas:

A teoria torna-se um discurso fechado em si mesmo, sem possibilidade de apreciação crítica, totalizante e não passível de confrontação com a realidade, isto é, com características discursivas de um mito - salientando-se que o mito é uma narrativa que confere um sentido e organiza uma realidade anteriormente caótica.

Esse posicionamento de isolamento dentro das teorias pode explicar a diversidade de respostas encontradas. Temos que voltar a refletir sobre o papel da teoria, tanto na investigação científica como na fundamentação das práticas da psicologia. Apontamos aqui a necessidade de uma maior articulação da teoria com a prática. Onde a teoria seja um instrumento, ou uma ferramenta, como os alunos indicaram em sua fala, para a investigação, e não um discurso para ser reproduzido. Quando a teoria se transforma em dogma, ela perde a sua função principal, que seria preparar para aproximação ao objeto de estudo da ciência em questão. O foco, o novo, o interessante não está nos artifícios teóricos, e sim no objeto de estudo.

Parece haver uma dificuldade em estabelecer um loco para a psicologia, que pode não ser a ciência ou a prática psicológica. Esse loco está perdido, dificultando a identificação dos profissionais como cooperadores, como atuantes da mesma ciência, capazes de trabalhar juntos. Vemos essa dificuldade relatada pelos estudantes ao mencionarem a escassez de exemplos interdisciplinares, o desconhecimento de alguns professores a respeito da atuação ou da teoria empregada por outros e as críticas infundadas a respeito de abordagens diferentes.

A diversidade de respostas encontradas parece comprovar a multiplicidade existente na psicologia, que apresenta duas vertentes bastante diferentes: por um lado, essa multiplicidade pode demonstrar uma abertura da ciência a questionamentos e inovações, que provocam revoluções científicas; por outro, mostra uma falta de identidade presente no corpo teórico-metodológico científico da psicologia marcada pela disputa entre as diversas linhas teóricas e pela busca de uma verdade única. Considerando a impossibilidade de encontro dessa verdade absoluta, temos um problema com a maneira com a qual os estudantes e os profissionais da psicologia lidam com a diversidade epistemológica, que se concretiza na construção de um conhecimento solto, desorganizado. Um conhecimento que, em um cenário que se apresenta hesitante e não sistematizado, nos leva a uma primeira constatação: a de um "não-lugar" científico da profissão e da ciência psicológicas.

Esse "não-lugar" encontrado é constituído não pela diversidade teórica da ciência psicológica – apesar de esse fator contribuir para a complexidade e para a falta de sistematização instalada –, mas pelo não entendimento dessa diversidade por parte do corpo teórico-profissional da psicologia. O discurso dos estudantes parece indicar uma dificuldade dos professores em trabalhar com a diferença. Enquanto eles, alunos, revelam uma abertura para a diferença e o reconhecimento da singularidade do objeto da psicologia. No terceiro Grupo Focal os alunos concluíram que: "a psicologia fundamenta-se em princípios epistemológicos com suas respectivas leis gerais diferenciadas; por outro, o objeto de estudo da psicologia é o sujeito na sua singularidade. ... A psicologia trabalha com a possibilidade da pluralidade".

Para concluir, apontamos que a multiplicidade e a diversidade de olhares sobre o objeto da psicologia reafirmam sua complexidade e advertem para a necessidade do professor/pesquisador sair de sua postura autoritária, de quem tem a verdade, e abrir seu referencial teórico para o diálogo com os outros referenciais e principalmente voltar-se para seu objeto de estudo. É no objeto de estudo que se encontra a potencialidade da descoberta do novo.

 

Agradecimentos

Participaram dessa pesquisa como estudantes de Iniciação Científica da UFPR, Caetano Fischer Ranzi e Juliana Trindade Barbaceli. E, como estudantes voluntários, Miguel Novicki, Eude Silva Jr. e Denise Lisboa de Almeida.

 

Referências

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Recebido em: 17/02/2011
Revisão em: 04/05/2012
Aceite em: 24/05/2012

 

 

Norma da Luz Ferrarini é Professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Paraná, Mestre em Psicologia Social pela FGV/RJ e Doutora em Educação pela UFPR. Endereço: Universidade Federal do Paraná (UFPR), Setor de Ciências Humanas Letras e Artes, Rua General Carneiro, 460 - 11º andar, Centro, Curitiba/PR, Brasil. CEP 80060-150. Email: normadaluz@ufpr.br
Denise de Camargo é Professora do Curso de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná, Mestre e Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Endereço: Universidade Tuiuti do Paraná, Pró Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão - PROPPE. Rua Sydnei Antonio Rangel Santos, 238 - Santo Inácio. Curitiba/Paraná, Brasil. CEP 82.010-330. Email: denisedecamargo@uol.com.br

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