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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.25 no.1 Belo Horizonte  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822013000100008 

ARTIGOS

 

O espaço político aberto pela leitura literária

 

The political space opened by literacy reading

 

 

Leonardo Pinto de Almeida

Universidade Federal Fluminense, Campos dos Goytacazes, Brasil

 

 


RESUMO

O presente artigo se propõe questionar sobre o espaço político aberto pela leitura literária. Especificando a literatura como uma tentativa de compreensão de problemas relacionados à existência, sublinhamos como a leitura literária coloca em questão nossas convicções e verdades defendidas cotidianamente. Para tanto, compreendemos as relações tecidas entre a linguagem, o poder e a resistência no seio da experiência literária. Concluímos que a leitura literária é atravessada por formas de resistência às palavras de ordem que circulam de forma hegemônica em nossa sociedade, disponibilizando assim uma transformação em nossa rede afetiva e cognitiva.

Palavras-chave: espaço político; experiência literária; leitura; subjetividade.


ABSTRACT

This paper analyzes the political space opened by the literary reading. Specifying literature as an attempt of understanding of problems related to the existence, we underline as the literary reading daily places in question our defended certainties and truths. For in such a way, we understand the relations between the language, the power and the resistance in the literary experience. We conclude that the literary reading is crossed by forms of resistance to the words of order that circulate of hegemonic form in our society, disposing a transformation in our affective and cognitive net.

Keywords: political space; literary experience; reading; subjectivity.


 

 

Introdução

Na sociedade contemporânea, a informação tem um importante papel no estabelecimento da comunicação social. Usamo-la, em nossas relações com os outros, com o objetivo de doarmos certo valor ao que é dito, seja em uma conversa trivial entre amigos sobre o melhor vinho da região de Mendoza, seja em uma linguagem técnica revestida de cientificidade sobre a forma correta de extrair óleo de xisto. A informação possibilita o esquadrinhamento da linguagem a partir da instrumentalização de noções elevadas à qualidade de verdade. Assim, o acesso ou não à informação adquire um grande valor nas trocas comunicativas nos dias de hoje.

Este funcionamento da informação aponta para o fato de que ela está intrinsecamente ligada às searas da utilidade e da funcionalidade. Ela ajuda na manutenção das verdades e das convicções sociais, fundadas comumente na reprodução de dualismos, por perpetrarem-se a partir de palavras de ordem1.

A informação, quando tomada pela escrita jornalística, interpela os sujeitos, demandando suas opiniões como cidadão ou causando indiferença, por não terem serventia aparente para o sujeito interpelado. Assim, quando lemos uma notícia relacionada a um crime hediondo, somos convocados pela moral vigente a darmos nossa opinião ou tomarmos partido sobre aquele fato capturado pelo jornalista. As informações alimentam as palavras de ordem da sociedade e sua moral correspondente, fabricando convicções e as atrelando ao sujeito contemporâneo, tão afeito a estas cronificações linguageiras. Dessa forma, podemos observar que a informação é uma manifestação do ser da linguagem que funda relações de poder e de verdade nas trocas comunicativas entre os homens.

Contudo, a literatura se mostra como uma forma de atualização do ser da linguagem diferente da informação, pois ela não estaria a serviço da utilidade. Ela não é experimentada como uma linguagem que tem seu fim fora de sua experiência. Ela não existe para nos dar informações precisas sobre a vida à nossa volta. Podemos afirmar que ela vem à luz não para confirmar nossos ideais nem para dizer o que devemos ou não fazer de nossas vidas, mas para elaborar uma experiência intensa que possibilite o questionamento do mundo e de nós mesmos. Por esse motivo, vislumbramos, através da leitura literária, a possibilidade da produção de mudanças subjetivas no sujeito que mergulha em seu campo experiencial, por ela provocar a transformação de seu campo afetivo e cognitivo.

O encontro com a obra literária suscita ao leitor uma abertura de um campo de experiência bem particular, já que a linguagem usada pela literatura foge às searas da utilidade e da funcionalidade. A literatura é uma tentativa de compreensão de problemas relacionados à existência. Os escritores, em seu encontro com questões relativas à vida, muitas vezes são verdadeiros sintomatologistas do mundo em que vivemos. Desse modo, a obra literária abre um campo de experiência intensa em que a transformação subjetiva é possível, já que a pesquisa sobre os problemas existenciais evidenciados por ela coloca em xeque as verdades que circulam hodiernamente na sociedade, mostrando que os problemas da vida são muito mais complexos do que as resoluções, tomadas pela reprodução dos dualismos a que somos submetidos.

Assim, a leitura literária coloca em questão estas convicções que circundam nossa vida no dia a dia. A experiência literária não nos interpela enquanto cidadão, mas enquanto elemento de um espaço onde ressoam componentes subjetivos e textuais na produção da subjetividade e do sentido. Quando nos deparamos com os crimes de Raskolnikov, não somos convocados a execrá-lo como criminoso, mas a pensarmos e até a entendermos os motivos de seu crime. Este livro de Dostoiewski (1982), intitulado Crime e Castigo, produz junto ao leitor um encontro singular. Este acontecimento produz um questionamento profundo dos limites que o atravessam enquanto sujeito: seus hábitos e suas convicções.

Esta diferença, que podemos entrever entre a leitura de jornais e obras de informação em geral e a leitura literária, ocorre devido ao fato de que, na primeira, o sentido dado e o sentimento estão, muitas vezes, apartados ou não são produzidos concomitantemente por causa da falta do processo de identificação com os sujeitos da informação. Já a literatura abre um espaço de experimentação em que o sentimento e o sentido andam de mãos dadas. Quando somos convocados por um sentimento ou uma emoção produzida pela apresentação de um personagem, esse sentimento é o próprio modo de ser do sentido manifestado.

O espaço literário seria, assim, um espaço de experimentação e de produção de singularidades. Um espaço que possibilita uma experiência desviante em relação às normas e às regras de nossa sociedade, uma experiência de resistência às repetições de comportamentos e de pensamentos produzidos pela dinâmica do mundo contemporâneo, regido por aquilo que Blanchot (1969) chamou muito propriamente de linguagem de poder.

Atualmente, vemos como a normatização de nossa sociedade é resultado de inúmeros dispositivos de poder que nos cercam. Eles tomam o indivíduo moderno e o enquadram segundo a dinâmica hegemônica reinante. A sociedade, através de sua maquinaria, produz comportamentos mecanizados e repetitivos; podemos nomeá-los de hábitos e pensamentos recorrentes, que seguem às políticas de massa que chamaremos aqui de convicções. Muitos dos sofrimentos que assolam o homem moderno surgem destas repetições. 2

Como podemos indicar, observaremos, ao longo de nossa reflexão, como a leitura literária pode caracterizar uma experiência desviante e um foco de resistência às repetições dos hábitos e das convicções sociais, comportamentais, mentais e culturais impostas pela cultura de massa em uma associação com certa crítica especializada que tentam normatizar a experiência, calando o espaço de ressonância aberto pela literatura.

Como podemos vislumbrar, o presente artigo tem como intuito tornar vivo o nosso debate sobre a literatura, refletindo sobre as vicissitudes da experiência literária sob a ótica da ação ético-política que chamamos comumente de subjetivação. Para tanto, tomaremos como base as reflexões, desenvolvidas por Foucault, Deleuze e Blanchot, sobre as vicissitudes da literatura no seio da contemporaneidade.

Assim sendo, para estabelecermos um modo de compreensão acerca da relação entre a experiência literária do ler, a subjetividade e a política, partiremos do espaço aberto pela literatura, pensando as relações entre a linguagem, a leitura,e a resistência aos padrões mentais, comportamentais, linguísticos e sociais.

 

A atitude moderna

Em O que são as luzes, Foucault (1984/2006), analisando um artigo kantiano intitulado Was ist Aufklärung?, segue a reflexão de Kant em sua busca pela caracterização da Aufklärung3. Ele afirma, junto ao autor alemão, que a Aufklärung é uma Ausgang, uma saída. Uma saída do estado de menoridade que se caracterizaria pela obediência cega aos auspícios do poder. Assim, segundo Foucault, esse texto kantiano abre precedente para um uso importante da filosofia: o de pensar o próprio presente em que estamos inseridos.

Desse modo, a Aufklärung seria uma atitude, um modo de relação com o estado de coisas concernente à atualidade. Ele se caracterizaria como uma atitude que possibilita libertar o homem do estado da menoridade. Uma atitude que produz uma mudança subjetiva em relação ao poder, sendo uma saída deste estado aprisionado para uma condição de maioridade que seria assim o uso legítimo da razão. A Aufklärung estaria intrinsecamente associada a uma atitude que busca a liberdade e a maioridade. Uma tarefa de difícil feita, pois depende de coragem e de ousadia no uso da razão.

Ao examinar esse problema, Foucault salienta que a atitude moderna é a tarefa de elaborar a si mesmo por meio da prática da liberdade. No entanto, ele afirma que não chegamos à maioridade4 ainda, pois as experiências a que nos submetemos são atravessadas por forças estranhas à liberdade, mostrando assim que a modernidade é realmente uma atitude.

Aqui poderíamos aproximar essa atitude moderna, salientada por Foucault, ao enigma da morte de Deus em Blanchot. Em A parte do fogo, Blanchot (1949/1997) observa que a morte de Deus está longe de trazer um apaziguamento e uma tranquilidade. A morte de Deus seria como um enigma. Ela seria uma tarefa sem fim, pois somos, a todo o momento, assolados pelos modos de obliteração da experiência que podemos chamar, junto a Nietzsche (1887/1998), de sombras de Deus.

Esta morte abre para a vida humana as possibilidades da liberdade: liberdade e tarefa caminham, aqui, conjuntamente. No entanto, vemos, com as sombras de Deus, que a vivência radical da liberdade é algo raro nos dias de hoje. É como se houvesse uma luta entre a manifestação da liberdade e os mecanismos de esquecimento desta radicalidade.

Assim, podemos vislumbrar que o homem moderno é atravessado por inúmeras ramificações do poder5. A tarefa da liberdade é a própria tarefa da Aufklärung: a de chegar ao estado de maioridade, a de se desvencilhar das correntes destas ramificações do poder. Desse modo, podemos nos indagar quais seriam as relações entre a experiência literária e estas reflexões acerca da problemática do poder.

Tanto Deleuze e Guattari quanto Foucault, Blanchot e Nietzsche apontam o papel da experiência literária na resistência à ordem hegemônica. A resistência é aquilo que muda o estado de coisas, e a literatura possibilita que o escritor e o leitor questionem o mundo que os cerca e as verdades que os constituem e os formam. Isso nos remete a um pensamento ético e político acerca da experiência literária, pois ela proporciona o questionamento incisivo das convicções, dos hábitos e dos comportamentos estereotipados.

 

Verdade, poder e contemporaneidade

Em Nietzsche, la généalogie, l'histoire (1971/1994) e A verdade e formas jurídicas (1973/1996), Foucault aponta que sua preocupação está ligada a um questionamento da natureza da verdade, e que tanto ele quanto Nietzsche dão ênfase ao problema da relação entre a verdade e a formação do sujeito.

Assim, partindo da genealogia nietzscheana, ele se indaga sobre os componentes constitutivos deste método de investigação, afirmando que ele se apoia sobre o conceito de Erfindung (invenção), contrapondo-o ao de Ursprung (origem).

O conceito de Ursprung remeteria a um modo de ver e compreender a história como uma trama contínua. Um dos problemas desse modo de compreensão da história estaria ligado à busca de um ser ou de um sentido extratemporal – transcendente à própria história –, que explicaria com bases metafísicas o seu tecido constitutivo.

Em contraposição a Ursprung, Foucault – junto ao pensamento nietzscheano – instrumentou seu método investigativo da história baseando-se em um entendimento dos acontecimentos como invenções de forças que atravessam a vida. O conceito de Erfindung vem se atrelar ao questionamento genealógico, apoiando-se na ideia de descontinuidade e ruptura. A invenção indica que os eventos históricos vêm à luz através de uma certa gama de atravessamentos de forças constitutivas à história. Com esse conceito, Foucault tenta proporcionar uma compreensão crítica da história que se contrapõe aos componentes metafísicos desta disciplina, pois não visa a descobrir uma explicação extratemporal, abrigada da experiência.

Desse modo, por apontar para uma busca da origem, o método histórico fundado na Ursprung acredita que os objetos, as ideias e os acontecimentos são naturais, tendo uma gênese, uma evolução e um progresso em vistas. Já o método genealógico, ao se apoiar no conceito de Erfindung, passa a entender que nada tem origem e que tudo é inventado pelo entrechoque de forças, apontando para as ideias de ruptura e de descontinuidade. Assim sendo, os objetos, as ideias e os acontecimentos são inventados. O conhecimento e a verdade foram produzidos por relações de poder, que intentam naturalizá-las, instituí-las como verdade. Esse método possibilita perguntarmos sobre estas incrustações interpretativas do mundo.

Paul Veyne (2008), em seu livro sobre Foucault, assinala o caráter revolucionário do método genealógico, por ele se fundar na ideia de que não há objeto natural. Sua crítica às noções de essência e de origem suscita o entendimento de que as práticas, surgidas em um determinado tempo histórico, causam o surgimento dos objetos, e não o contrário. Assim, ele compreende que toda verdade é fabricada em um determinado tecido sócio-histórico, inserindo o problema da verdade no tempo: "Foucault pensa que não existem verdades gerais, trans-históricas, porque os fatos humanos, atos ou palavras, não provêm de uma natureza, de uma razão que seria sua origem, nem refletem o objeto a qual eles remetem" (Veyne, 2008, p. 22).

Utilizando esse método, Foucault produz uma reflexão que se indaga por uma história das verdades. Em História da Sexualidade 2 (1985), mostra como, através da união dos métodos arqueológico e genealógico, ele se questionou, ao longo de sua obra, sobre as práticas médicas, sociais, discursivas, epistêmicas, punitivas e de si, sempre permeando a problematização das verdades instituídas pela dinâmica do poder.

Através de sua pesquisa, Foucault pensou sobre as relações entre as instituições e os modos de existência produzidos por ela, se perguntando sobre as cronificações interpretativas que produziram a verdade sobre o louco, o criminoso, a ciência, a crítica e seus modos de existir correlatos. Essas cronificações são verdades que impõem regras de condutas comportamentais, mentais, institucionais e sociais. Condutas próximas àquilo que Kant chamou de menoridade.

A análise foucaultiana acerca da dinâmica das sociedades disciplinares e do biopoder nos ajudará em nossa análise subsequente do papel político da leitura literária, como uma atitude que possibilitaria a saída do estado da menoridade. Essa atitude apontaria para uma forma de resistência não somente às verdades instituídas pela sociedade, mas às instituições e às regras que constituem o sujeito (suas convicções e seus hábitos).

Ao se questionar sobre a naturalização das verdades no contemporâneo e ao problematizar as práticas que as formaram, Foucault (1999) analisa, no seu curso Em defesa da sociedade, as dinâmicas do poder na sociedade de soberania e nos séculos XVII e XVIII, com a emergência de mecanismos disciplinares e de biopoder.

Ele afirma que a característica principal da sociedade de soberania é a de que o soberano tem o poder sobre a vida e a morte de seus súditos, o que ele indica ser o direito de "fazer morrer ou deixar viver" (Foucault, 1999, p. 289). O soberano teria o direito de resolver sobre quem morre e quem vive.

No entanto, com o passar dos séculos, os mecanismos de poder se complexificaram, segundo Foucault, e ocorreu o surgimento de um poder que inverte de certa forma a máxima do soberano, já que ela visa a fazer viver ou deixar morrer. Esta seria uma dinâmica de poder que rege sobre a vida da espécie, e não sobre a morte do sujeito.

Entretanto, Foucault (1999) indica que antes da emergência deste poder, no final do século XVII e ao longo do século XVIII, se instalam tecnologias de poder que intentam exercer um controle sobre o corpo individual dos sujeitos e os problemas que colocam em xeque a dinâmica da sociedade. Daí surgiram tecnologias disciplinares que tentam organizar, racionalizar, vigiar, punir e disciplinar os corpos dos sujeitos.

Esta tecnologia disciplinar se caracteriza por práticas de verdade ligadas à naturalização de ideias e de comportamentos que visam ao funcionamento da sociedade. Essas práticas se locaram comumente em instituições, sendo elas médicas, escolares, carcerárias e assim por diante. Elas institucionalizam verdades e regras de condutas, visando exercer um controle sobre os corpos dos indivíduos.

No entanto, Foucault (1999) salienta ainda que, na segunda metade do século XVIII, surge uma nova tecnologia de poder que não seria disciplinar e que teria a intenção de atuar sobre a vida dos homens, sobre a vida da espécie, do grupo social. Esta tecnologia, chamada por ele de biopoder, tem a característica de regulamentar a massa de indivíduos. Ela se caracterizaria por seu olhar cair sobre a população e cingir sobre os fenômenos em série que ocorrem com uma população em uma determinada duração temporal. Assim, ela se exerceria através de mecanismos diferentes dos disciplinares que incidem sobre os corpos, já que seus mecanismos são de caráter regulador.

O poder nas sociedades tem, como uma de suas funções, a organização. Desse modo, o regime organizador da soberania, ao sofrer acontecimentos derivados da explosão demográfica e da industrialização, originou novos mecanismos de poder: um, disciplinar, que visava à vigilância e treinamento dos corpos individuais, e outro, regulamentador, que incidia sobre os processos biossociológicos da população.

As políticas públicas do século XVIII e XIX apontam para a complexificação destes mecanismos que se intrincam, se misturam, para melhor organizar o funcionamento da sociedade. Foucault (1999) indica que a mistura desses dois mecanismos de poder atravessa a sociedade de normalização. A norma seria o ponto de interseção entre as práticas disciplinares e as de biopoder. Seria justamente por causa desta união entre a disciplina e a regulamentação que o autor afirmará a primazia dos controles sobre a vida, já que nessa sociedade o poder permearia suas ramificações do corpo individual à massa populacional.

Deleuze (1992), em dois artigos publicados no livro Conversações 1972-1990: Controle e devir e Post-scriptum sobre as sociedades de controle, analisa os problemas levantados por Foucault acerca das políticas de organização das sociedades de soberania, disciplinar e de controle, afirmando o surgimento de uma nova forma de sociedade com o fim da Segunda Guerra Mundial: a de controle.

Em Post-scriptum sobre as sociedades de controle (1992b), ele afirma que as sociedades dos séculos XVIII e XIX seriam sociedades disciplinares, pois a forma de organização prevalescente seria a das técnicas de confinamento, apresentada pelos estudos foucaultianos acerca dos espaços fechados que geriam a vida em sociedade: a família, a caserna, a fábrica, a escola, o hospital e a prisão.

Deleuze aponta para uma crise destes modelos de confinamento que caracterizavam as sociedades disciplinares, indicando o surgimento de uma nova forma de organização social: a sociedade de controle. É como se as tecnologias de poder se extrapolassem com o surgimento do controle, já que ele aponta para uma continuidade e um poder ilimitado. As ramificações do poder se multiplicam e são eminentemente descentralizadas. Ela indica para uma biopolítica sofisticada, pois constrói novas políticas de regulamentação no seio de regimes disciplinares como a prisão, a escola, os hospitais e as empresas. Assim sendo, ela indica para uma crise das instituições, por causa de sua característica descentrada e ilimitada.

O controle não visa exclusivamente a cindir seu poder sobre os corpos ou sobre a regulamentação da população. Ele se caracteriza principalmente por um controle mais virtual, pois incide sobre o desejo, através do consumo, da informação e da comunicação.

Em Revoluções do capitalismo, Lazzarato (2006) faz uma reflexão sobre a especificidade das sociedades de controle e seu caráter virtualizado. Continuando a reflexão de Deleuze e analisando a obra de Foucault concernente à disciplina e à biopolítica, ele demonstra como, nas sociedades de controle, as tecnologias se complexificaram e tomaram não mais como objeto de sua investida os corpos (como no caso da disciplina), nem a população (como a biopolítica). As tecnologias de controle atuam sobre os públicos a partir da ação à distância. Daí, seu caráter virtualizado e descentralizado.

A esta forma de captura e de controle dos desejos, Lazzarato nomeou de noopolítica. Ela seria a forma de regulação das potências virtuais, relativas à criatividade dos cérebros, que pretende enquadrá-los nas categorias de público, servindo-se de tecnologias de controle da ação à distância, como a internet, a televisão, o rádio, e assim por diante: "Se as disciplinas moldavam os corpos ao constituir hábitos, principalmente na memória corporal, as sociedades de controle modulam os cérebros, constituindo hábitos na mémoria mental." (Lazzarato, 2006, p. 86)

A noopolítica está relacionada intrinsecamente ao controle das potências criativas em nome da categoria de público. Os públicos têm seus modos de ser moldados pelas tecnologias de controle que incidem sobre os desejos.

A parceria de Guattari e de Deleuze construiu também uma análise da dinâmica da sociedade atual, regida por modos sofisticados de controle e de criação. Para eles, o desejo seria aquilo que coloca a máquina social em xeque, mas por esse mesmo motivo ele seria capturado e produzido pela sociedade, através das construções midiáticas, por exemplo.

Em um livro intitulado Cartografias do desejo (Guattari & Rolnik, 1986), Guattari mostra a dinâmica da sociedade atual. Ele afirma que o mundo capitalístico é uma máquina de produção de subjetividades, tendo uma natureza industrial. Essa maquinaria não só incide sobre os corpos individuais e sociais, mas também sobre os seus desejos, visando a igualar tudo, ao produzir subjetividades serializadas e modelizadas. Estas forças de modelização e de serialização de subjetividade têm por função a construção da hegemonia e da dominância. A este modo de ser da maquinaria, Guattari chama de sistemas de produção de subjetividades hegemônicas, já que são regidas pela padronização.

Esse modo de produção se utiliza de sistemas de segregação, de hierarquia inconsciente, de escalas de valor e de disciplinarização para controlar a produção e serializar subjetividades. As relações de opressão e de alienação o atravessam na busca da formação de subjetividades hegemônicas.

Entretanto, há linhas de fuga, há modos de produção, engendrados na maquinaria capitalística que possibilitam a problematização da hegemonia e da dominância vigentes. Esses são chamados processos de singularização, regidos por relações de expressão e de criação. Observam-se, então, relações de alienação e de opressão que caracterizam o modo de produção de subjetividade hegemônica, e relações de expressão e de criação que problematizam o primeiro, e representam os processos de singularização.

Deleuze (1992a) afirma, em Controle e devir, que o seu interesse e o de Guattari no livro Mil Platôs era definir a sociedade por suas linhas de fuga, suas minorias e suas máquinas de guerra. São elas que colocam a sociedade em questão, possibilitando a criação, já que trazem o intempestivo para o seio da batalha contra a hegemonia.

É necessário fazer uma ressalva em relação a esta dinâmica observável no mundo capitalístico: Guattari (Guattari & Rolnik, 1986) não entende a produção de subjetividade, seguindo um modelo teórico calcado no dualismo, onde estariam, de um lado, as subjetividades hegemônicas e, de outro, os processos de singularização. O que ocorre, na dinâmica capitalística, são processos regidos por múltiplos atravessamentos, em que se observam esses dois modos de produção de subjetividades mesclados, misturados. Ora tendo predominância de um, ora de outro.

Essas linhas de fuga traçadas pelos processos de singularização produzem revoluções no âmbito micropolítico, sendo chamadas, por Guattari, de revoluções moleculares. Elas são modos de resistência contra o controle hegemônico.

Em contraponto a isso, vemos que, na dinâmica hegemônica de produção, há uma tentativa de eliminação dessas possíveis linhas de problematização. As revoluções moleculares são detectadas pelos sistemas hegemônicos como componentes nocivos ao corpo social, ao corpo da maquinaria capitalística. Com isso, esses sistemas possuem duas maneiras de lidar com as revoluções: (a) atitude normalizadora: ignorando-as ou recuperando-as e integrando-as; e (b) atitude reconhecedora: tentativa de articulação para transformar a situação.

Essas revoluções moleculares se assemelham àquilo que Foucault chama de micropolítica. No entanto, como as forças de criação e de restrição são múltiplas, elas constituem uma dinâmica que não seria arborescente, mas sim rizomorfa, como Deleuze e Guattari (1995a) afirmam no texto Introdução: Rizoma. Lidar com as ramificações do poder que nos constitui de forma resistente é não nos deixar levar pela ilusão do poder arborescente.

Assim, existem estados de coisas que formam, constituem e alienam o sujeito contemporâneo. Esta forma de ver a relação entre a dinâmica do poder, da subjetividade e da política mostra como a resistência é aquilo que muda o estado das coisas. Ela seria um ato de coragem e de ousadia que tenta criar novos modos de existir.

Como podemos observar, ao longo das obras de Foucault, de Deleuze e de Guattari, seus pensamentos apontam para o caráter político, estético e ético da resistência à hegemonia. Político, pois questiona os fascismos impostos pela institucionalização das verdades; estético, porque tenta cavar novos modos de viver; e ético, pois coloca em questão as verdades que nos atravessam, apontando a importância dessa tarefa contínua. Entretanto, estas três dimensões estão intrinsecamente ligadas. Este pensamento aponta justamente para o uso da liberdade na busca da maioridade, na busca de novos modos singulares de existência.

Contudo, poderíamos nos questionar: em que a leitura literária se encaixaria nesta problematização dos modos de vida na atualidade? Como a literatura apresentaria formas de resistência às verdades sociais e internalizadas pelo sujeito contemporâneo? Podemos adiantar que a leitura literária será vista como uma forma desviante, uma forma de resistência à hegemonia, que possibilita a mudança do estado de coisas.

 

Experiência literária: poder, resistência e subjetividade

Em Loucura e sociedade, Foucault (1970/1999) salienta o forte poder normatizador da sociedade capitalista. Ele sublinha que a literatura, no início do século XX, sofreu de uma perda do seu potencial transgressivo intrínseco, devido ao poder de absorção do capitalismo. Esse fenômeno foi chamado por nós de pasteurização da transgressão (Almeida, 2009). Este poder normatizador da cultura e de certa crítica especializada tira da experiência literária o que ela tem de intempestivo, inserindo-a no tempo da história e no formato de produto.

A absorção da literatura pelo poder, seja ela representada pela mídia, pela cultura de massa em geral, pelo mercado ou pela crítica especializada, tenta fazer da literatura algo que ela não é: uma informação, uma linguagem a serviço do poder.

Para Blanchot (1959), ela seria justamente o contrário: uma linguagem sem poder. Ela, segundo o autor, não seria "a palavra útil, instrumento e meio, linguagem de ação, do trabalho, da lógica e do saber" (Blanchot, 1959, p. 276) ou, para afirmarmos com Deleuze, Foucault, Guattari e Nietzsche, ela seria uma forma de resistência ao poder. No entanto, como vimos, a resistência não é dada com o surgimento da literatura, pois forças múltiplas de coação e de criação a atravessam, inexoravelmente, e também a toda sociedade.

Esta caracterização nos ajudará a compreender como a leitura, seguindo o potencial criativo da literatura, pode possibilitar um encontro que cause a mudança do estado de coisas, sendo assim uma atividade política de resistência e um acontecimento que produz singularidades, ao colocar em xeque as convicções e os hábitos não só linguageiros, mas relacionados aos modos de existir. Na leitura literária, algo de desmedido nos aparece, proporcionando uma experiência que torna possível a saída dos impasses repetitivos que atravessam o sujeito contemporâneo hodiernamente.

Neste ponto da discussão, lembremos Kant e a questão da Auflklärung: sair da menoridade, que seria a subjugação e a valorização da autoridade em detrimento das forças criativas, é uma tarefa que requer ousadia e coragem e, talvez, muito mais do que isso, pois somos assolados por vetores de coação por todos os lados. Em Controle e devir, Deleuze (1992a) mostra como criar é colocar em questão as naturezas que nos aprisionam. Na sociedade de controle, o dinheiro faz da comunicação um mecanismo de poder, pois ela é o veículo das palavras de ordem. Comunicação, informação e dinheiro regem a dinâmica hegemônica do mundo capitalista.

Ao analisar o problema relativo às palavras de ordem, Deleuze e Guattari (1995b) mostram como a dinâmica do uso social da linguagem estaria ligada diretamente ao uso dessas palavras. A linguagem é o conjunto das palavras de ordem, apontando uma rigidez de seu uso. Nesse texto, vemos o problema dos usos majoritários e minoritários da língua se delinear. O uso majoritário, o qual estaria associado diretamente com essas palavras de ordem, com a rigidez da linguagem cotidiana, com o estereótipo, implica a dominação, no poder e no metro-padrão da linguagem. Já o uso minoritário implica um modo de resistência à padronização e à rigidez da linguagem.

O modo de tratamento majoritário da linguagem estaria do lado do padrão, da homogeneidade, da ordem, da constância, do poder; enquanto o outro, o minoritário, seria uma via criativa que se posiciona frente ao outro uso da linguagem como uma resistência aos mecanismos de captura e controle.

Em A literatura e a vida, texto contido em Crítica e Clínica, Deleuze (1997) aproxima o delírio observado no ato da escrita literária e o minorar a língua. Escrever literatura seria enlouquecer a linguagem, fazendo com que ela subverta os códigos majoritários de seu uso. Por isso, ele diz com Proust que fazer literatura é escrever em uma língua estrangeira.

Minorar a língua seria produzir uma forma de crítica à língua materna, maior e dominante, cavando vias de escoamento com o intuito de transgredir aos limites impostos pela linguagem. Ao analisar esse problema, Deleuze afirma que "uma literatura de minoria não se define por uma língua local que lhe seria própria, mas por um tratamento a que ela submete à língua maior" (Deleuze, 1997, p. 66). Ou seja, o que caracterizaria a literatura e sua forma de minorar a língua seria o modo como trata a língua dominante. A literatura seria, então, uma forma de resistência às palavras de ordem que circulam no nosso cotidiano. Ela tende a subverter a língua maior e a subverter a fala hegemônica.

A experiência de ler literatura é um espaço privilegiado para pensarmos a produção de singularidades, já que ela não implica nem respostas, nem verdades. Ela é um campo de relativismo em que deixa acontecer o próprio sentido em seu seio.

Em Les Testaments trahis, Kundera contrapõe a literatura ao dogmatismo e à vontade de verdade e de sistematização, já que o romance é "território onde o julgamento moral é suspenso" (Kundera, 1993, p. 16). A literatura convida à alteridade, à compreensão da infinidade de ideias e de reações que os seres humanos podem ter ao se relacionarem com um determinado problema existencial. Ela convida o leitor a experimentar opiniões, convicções e hábitos diferentes dos seus. É como se o leitor fosse convocado a tornar-se um outro em seu encontro com o texto. Ele é convidado a continuar o pensamento através da ressonância leitora.

A literatura, de fato, sustenta uma posição adversa à vontade de verdade e de controle. As verdades, os juízos e as convicções não são instrumentos dogmáticos utilizados pela reflexão literária em sua pesquisa sobre a existência. Ela os usa somente para colocá-las em questão e convidar o leitor a continuar o pensamento.

Com Piegay-Gros (2002), podemos observar que a experiência da leitura literária é uma experiência intensa. Diferente de outras formas de manifestações da linguagem, na experiência literária não existe a dissociação entre o sentido e o sentimento, como ocorre com a informação. Quando lemos Aparição de Maupassant (1883/2000) e sentimos calafrios ao percebermos a presença da mulher sobre a cama, a emoção aponta para o próprio sentido do texto.

Nesse caso, vemos que, ao ler literatura, o leitor é atravessado por componentes subjetivos e textuais que ressoam em um campo de batalha na produção do entendimento e do acolhimento da obra. Daí, a possibilidade de mudanças subjetivas e seu caráter político.

A literatura é uma forma de resistência aos códigos linguísticos e à tradição e, através da leitura, ela possibilita um questionamento das ramificações do poder que nos atravessam. Entretanto, como a sociedade, a literatura sofre restrições e controles que apontam para formas de subjetivação. Com a leitura literária, podemos observar formas de subjetivação, de normatização e de controle, por meio das ramificações de poder, representadas pela cultura de massa, pela crítica e pelo mercado, e também formas de singularização que indicam uma política de questionamento dos microfascismos que nos constituem, possibilitando o surgimento de novas formas de existir.

Com Foucault (1969/2001), podemos ver que a literatura, entendida por ele como uma escrita transgressiva, foi capturada por mecanismos de poder complexificados pela demanda das sociedades disciplinares e de normalização. O autor transgressivo era encarcerado, pois a escrita passou a ser um ato transgressivo como outro qualquer na entrada da modernidade: modo disciplinar de coagir a criação.

Não obstante, com o passar dos séculos, a autoria foi cada vez mais se atrelando aos mecanismos de controle da interpretação. E os mecanismos de poder se complexificaram nas sociedades de controle, ganhando o campo midiático, usufruindo daquilo que Lazzarato (2006) chamou de ação à distância e da modulação dos desejos. A crítica especializada e o mercado, se utilizando das tecnologias de controle que atravessam nossa sociedade, esquadrinham cada vez mais este espaço de transformação que é o espaço literário. A cultura de massa tende a absorver a experiência literária, modelizando a relação dos leitores com a obra literária. Nisso podemos ver como existe uma modelização e uma serialização dos desejos, do consumo, através de uma biopolítica da leitura.

Quando Foucault (1999) analisa o biopoder e sua relação com o racismo, uma coisa nos chama atenção: o ato de queimar livros na modernidade e, principalmente, no século XX. As sociedades usavam sempre seus mecanismos de poder para se organizar e ordenar as pessoas em seu espaço, como vimos ao longo deste artigo. Chartier afirma que "o livro sempre visou instaurar uma ordem" (Chartier, 1994/1999, p. 8). Logo, como as sociedades, o universo dos livros também sempre buscou uma ordem.

Por meio da história da leitura no mundo ocidental, observamos que sempre houve modos de ordenação, sejam eles pelos florilégios medievais, pela remissão a auctoritates, pelo comentário humanista ou pelo acompanhamento eclesiástico das leituras da Sacra Scriptura em voz alta (Cavallo & Chartier, 1998). Uma política de subjugação e de imposição da interpretação se instaurou na ordem dos livros, tanto a partir de escolas interpretativas quanto pela queima de livros.

No entanto, a literatura, caracterizada por ser uma escrita moderna, também sofreu destas imposições interpretativas feitas pela crítica jornalística, pela crítica especializada, pelo mercado e pela cultura de massa em geral, e pelas políticas de regulamentação que impunham queimas de livros e censuras ou, dito em poucas palavras, o silêncio.

Em história universal da destruição dos livros, Báez (2006) mostra como no século XX a literatura e os livros em geral sofreram de destruições e de censuras fundamentadas naquilo que Foucault chamou de racismo, em sua relação com o biopoder. O biblioclaustro nazista, as censuras aos livros comunistas nos Estados Unidos, o caso Salman Rushdie, o confisco e a queima de livros nos países Bálticos, na Revolução Cultural da China, e na ditadura da Argentina são apenas alguns exemplos de destruição de livros fundamentada na política de extermínio de grupos que colocavam em questão a sociedade e o regime. O racismo moderno se baseia no apagamento da diferença, e a queima de livros representa, na modernidade, esta falta de tolerância com o grupo que destoa da homogeneidade social.

Não é à toa que vemos regimes autoritários darem tanta importância aos livros e classificá-los como inimigos da ordem, pois a experiência de ler possibilita a transformação de nossas vidas, pensamentos e convicções. O livro literário, com sua maleabilidade reflexiva, pode causar um afrouxamento da rigidez estereotipada do pensamento, proporcionando novos modos de pensar e de existir, subvertendo o estado de coisas e provocando, desse modo, microrrevoluções que podem se alastrar por toda a sociedade.

A leitura literária é uma dimensão da literatura privilegiada para analisarmos a dinâmica da subjetivação e da produção de singularidades na sociedade contemporânea, pois a literatura é atravessada por formas de resistência à língua maior e por forças de criação de novos modos de existir que resistem aos comportamentos estereotipados pela dinâmica hegemônica e pelas forças de regulamentação, de disciplina e de controle que impõem a melhor leitura e o que devemos ou não pensar A leitura literária é, desse modo, um acontecimento que transforma nossa rede afetiva e cognitiva.

 

Notas

1 O conceito de palavras de ordem, cunhado por Deleuze e Guattari (1995b), caracteriza a linguagem cotidiana permeada por padrões linguageiros que remetem à língua maior. No presente artigo, tomaremos esse conceito em contraposição à literatura, como escrita transgressiva que coloca em questão as palavras de ordem e as verdades, dela derivadas, por meio de seu perspectivismo.

2 O presente artigo tem como inspiração o questionamento nietzscheano sobre a convicção e a mentira, associado à ideia de que a verdade e as convicções têm uma história fundada em repetições e forças recrudescentes no tecido sócio-histórico. No aforismo 483, contido em Humano, Demasiado Humano, Nietzsche afirma que "convicções são inimigos da verdade mais perigosos que a mentira." (Nietzsche, 1886/2000, p. 265). Em O Anticristo, no aforismo 55, ele retoma o problema, mostrando que as convicções têm uma história (Nietzsche, 1888/2007, p. 265). Daí, a conexão que faremos com o problema da verdade em Foucault, inspirada claramente na obra nietzscheana. Ao longo do texto, tomaremos as palavras hábitos, convicções, repetições e verdade na teia conceitual supracitada para mostrarmos a leitura literária como uma experiência desviante, que coloca em questão as palavras de ordem que circulam hodiernamente.

3 Expressão alemã que designa o Iluminismo, as Luzes e o Esclarecimento.

4 É curioso observarmos como, no texto kantiano, o ato de se desvencilhar da menoridade é uma tarefa de grande esforço, pois no homem particular a menoridade é vivenciada como uma natureza. Esse fator é importante, pois, ao analisarmos as ramificações do poder e das verdades instituídas e internalizadas, veremos como será difícil a tarefa de criar novos modos de existir por elas serem sentidas como a própria natureza do sujeito (Kant, 1783/2005).

5 Em O sujeito e o poder, Foucault (1995) mostra que a liberdade seria a própria condição de existência do poder e que ambos atravessam o tecido sócio-histórico como um todo. Eles estão em uma luta constante (um agonismo). Essa questão se assemelha ao problema que se estabelece entre o estado de menoridade e o exercício da liberdade.

 

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Recebido em: 22/07/2010
Revisão em: 18/10/2010
Aceite em: 23/11/2010

 

 

Leonardo Pinto de Almeida é Doutor em Psicologia pela PUC - Rio com estágio de doutoramento sanduíche no Centre de Recherche sur la Lecture Littéraire, na Universidade de Reims Champagne-Ardenne, França. Pós-Doutor em psicologia pela PUC - Rio. Professor Adjunto II da Universidade Federal Fluminense e Professor do quadro permanente do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. Endereço:Universidade Federal Fluminense. Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional. Rua José do Patrocínio, 71. Centro. Campos dos Goytacazes/RJ, Brasil. CEP 28015-385. Email: leonardo.p.almeida@gmail.com 

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