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Psicologia & Sociedade

versão On-line ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.26 no.3 Belo Horizonte sept./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822014000300017 

ARTIGOS

 

Produção de subjetividade em blogs e microblogs

 

Producción de subjetividad en blogs y microblogs

 

Production of subjectivity in blogs and microblogs

 

 

Francisco Coelho dos Santos; Cristina Petersen Cypriano

Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte/MG, Brasil

 

 


RESUMO

Blogs e microblogs estão entre as redes colaborativas da Web 2.0. Embora aparentados, possuem especificidades. Ambos promovem a abertura, a imersão, a participação e a criação de laços entre os integrantes das redes que constituem. O mais bem-sucedido dos microblogs, o Twitter, é exemplar das características diferenciais dessas ferramentas, tais como a brevidade das mensagens, a mobilidade, a captação em tempo real, a modificação na natureza da mediação. Isso implica em variações nas formas de expressão de si e nos modos como os indivíduos se relacionam com a realidade por meio de uma ou de outra ferramenta. Os usuários tanto podem tematizar suas experiências pela publicação breve e instantânea em microblogs, como podem fazê-lo de forma mais refletida nos blogs. Essas possibilidades de uso permitem identificar as maneiras pelas quais tais redes sociais proporcionam a objetivação de subjetividades.

Palavras-chave: Twitter; redes sociais; individualidade; subjetividade.


RESUMEN

Blogs y microblogs son algunas de las redes construidas de forma colaborativa en la Web 2.0. A pesar de sus semejanzas, existen diferencias relevantes. Los dos promueven la abertura, la inmersión, la participación y la creación de lazos entre los integrantes de las redes que las componen. Uno de los microblogs más exitosos es Twitter y constituye un ejemplo de la especificidad de este tipo de herramientas. Entre sus características más imortantes pueden mencionarse la brevedad de los mensajes, la movilidad y captación en tiempo real y la modificación de la naturaleza de la mediación. Como consecuencia de su configuración, se generan variaciones en las formas de expresión de si y en las formas como los individuos se relacionan con la realidad por medio de una o de otra herramienta. Los usuarios pueden al mismo tiempo tematizar sus experiencias por la publicación breve e instantánea en microblogs, y también realizarlo por medio de los blogs. Estas posibilidades de utilización permiten identificar las formas a través de las cuales las redes sociales proporcionan la objetivación de las subjetividades.

Palabras clave: Twitter; redes sociales; individualidad; subjetividad.


ABSTRACT

Blogs and microblogs are among the collaborative networks of Web 2.0. Although related, they have specificities. Both promote openness, immersion, participation and creation of links between networks' members who constitute it. The most successful of microblogs, Twitter, is exemplary of the differential characteristics of these tools, such as brevity of the messages, mobility, real-time capture, change in the nature of the mediation. It results in variations in the way of expressing yourself and in the way individuals relate to reality, through one tool or another. The users can thematize their experiences through short and instantaneous publications in microblogs or do it in more reflected way as well. These possibilities of use enable identifying manners in which such social networks provide the objectification of subjectivity.

Keywords: Twitter; social networking; individuality; subjectivity.


 

 

Blogs e microblogs são criaturas do milênio. Exemplares do que tem sido chamado de Web 2.0, eles são aparentados sob muitos aspectos. Assim, nuns e noutros a absorção pela interface promove a imersão do usuário em ambiente informacional. Nos dois casos, a dissimulação da tecnologia e a consequente simplicidade no uso das funcionalidades geram um ambiente aberto e acolhedor, muito pouco exigente em conhecimento prévio do utilizador para sua operação. Esse ambiente facilita a criação de redes sociais, que convidam seus membros à participação e à colaboração, produzindo aquilo que por vezes se denomina "a Web social". Ao promover os laços que ligam entre si os participantes das redes, tanto os blogs quanto os microblogs produzem poderosos efeitos — os conhecidos efeitos de rede — resultantes da riqueza de conteúdo que tem origem na conectividade, uma conectividade que engendra valor. Isso não impede que blogs e microblogs apresentem numerosas singularidades.

 

A chegada do microblog

Das diversas plataformas de microblogs hoje disponíveis, o Twitter é, sem sombra de dúvida, a que experimentou maior sucesso. Inaugurado em março de 2006 e aberto ao público poucos meses depois1, logo teve um crescimento formidável do número de adesões e, consequentemente, do volume de tráfego de mensagens, a tal ponto que, pouco tempo depois de ter completado três anos de idade, dizia-se que "2009 é o ano do Twitter", do mesmo modo que 2004 foi o "ano dos blogs". Um nome, aliás, liga as duas ferramentas: Evan Williams, um dos criadores do Twitter é conhecido por ter sido um dos fundadores da empresa Pyra Labs, que desenvolveu a plataforma Blogger, hoje de propriedade da Google. No início, o microblog pretendia oferecer a seus usuários uma maneira simples e rápida de descrever o que estavam fazendo — "What are you doing?" era a sugestão para o conteúdo das postagens —, por meio de uma mensagem curta de 140 caracteres no máximo, ou seja, uma micromensagem de uma a duas linhas de texto. Naturalmente, esse número de caracteres não foi definido ao acaso: ele está submetido ao tamanho máximo possível em uma mensagem escrita na tela de um dispositivo móvel, num momento em que as redes móveis parecem se estabelecer como o que os indivíduos desejam ter a sua disposição. Quando alguém se inscreve no Twitter, a simples adesão permite ao recém-chegado o acesso aos tweets2 — como são chamadas as mensagens enviadas por meio do microblog — expedidos por seus followings, isto é, os membros da rede que o novato escolheu "seguir". Ele, por sua vez, poderá colecionar os membros que o "seguem", os seus followers.

Se Evan Williams, o @ev, como é conhecido na nebulosa Twitter, é um entusiasta da plataforma, Sara Morishige Williams ou @sara, sua esposa, não o é menos. Então, o que fazia Sara precisamente às 20h46 de 10/08/2009? Nesse exato momento, ela dava conta a seus seguidores do que se passava com ela, enviando a seguinte mensagem: "Caro Twitter, minha bolsa d'água se rompeu. Não foi como com Charlotte no Sex and the City. Agora, eu cronometro as contrações com um aplicativo de meu iPhone".3 Mais tarde, às 22h37, ela confessaria que tão logo as contrações haviam se tornado dolorosas, a contagem tinha perdido completamente a graça. O aplicativo Contraction Tracker ficara perfeitamente inútil, talvez desagradável. Às 02h49, já do dia 11/08/09, ela escrevia: "Peridural, sim, por favor". Finalmente, às 03h45, agora relaxada, ela relatava: "Ev está trocando a primeira fralda". Eis aí uma narrativa do eu digna de toda a atenção. Ela foi, de resto, contemplada com farto espaço na mídia. E não por acaso. Sucede que, não só essa escrita de si é pródiga nos detalhes, como ela colore a narração com as cores vivas da experiência. De uma experiência íntima, mesmo profundamente íntima. Mas, quem são aqueles a quem ela se dirige? Não se trata de uma rede de "amigos" de tipo Facebook. Trata-se, antes, de uma rede de desconhecidos, no caso de Sara, um número que, na época, era da ordem de 15.000 followers, aos quais devem ser somados os seguidores dos seus seguidores, e assim por diante. Twitter não forma tampouco uma rede de colegas do mesmo modo que LinkedIn, XING ou Viadeo, porém uma rede de estranhos atraídos pela resposta à pergunta "o que você está fazendo?". Tanto quanto nos blogs de perfil confessional, nessas micronarrativas de si, publica-se algo que costumeiramente é considerado da ordem do privado. Para uma audiência de perfil ignorado, que, no entanto, constitui uma espécie de "comunidade intersubjetiva", ou seja, consiste numa abertura à exterioridade, numa abertura à alteridade capaz de fornecer abrigo face aos riscos de solidão subjetiva.4

O pudor reservado à publicação do privado e até do íntimo ou, caso se prefira, o recato com que se lida com a objetivação da subjetividade dos indivíduos, pode oscilar consideravelmente entre dois extremos. De uma cuidadosa atenção com a separação das esferas a uma completa desconsideração pela fronteira que separa o público do privado, a distância é grande. Tessália Serighelli, identificada na nebulosa como @twittess, é uma tuiteira de sucesso, embora tal sucesso tenha sido turvado pela utilização de expedientes pouco ortodoxos para "anabolizar" sua lista de seguidores. Ela participou recentemente de um reality show cujo principal atrativo é expor ao olhar curioso dos telespectadores tudo o que acontece na vida cotidiana de certo número de pessoas confinadas numa casa, uma espécie de casa de vidro onde elas ficam por um certo tempo. Saiu de lá direto para as páginas de uma famosa revista masculina que mensalmente publica "ensaios" fotográficos com belezas femininas pondo à mostra toda a nudez de seus dotes morfológicos. Fotos prontas, uma generosa Tessália resolveu oferecer um "aperitivo" a seus seguidores no Twitter (cujo número, por ocasião da publicação das fotos ultrapassava os 200.000), direcionando-os para seu blog, onde ela tinha postado uma ou outra de suas provocantes poses. Com ela aprende-se que deixou de ser necessário ser conhecido e/ou famoso para ter sucesso na exposição de sua intimidade; antes, é essa exposição que pode tornar alguém conhecido e/ou famoso. O que está em jogo são a criação e a divulgação de uma imagem de si que seja recebida pelos outros, que seja observada e apreciada pelos outros. A construção de redes sociais, o networking dos anglófonos, outra coisa não é senão uma ação explícita de procurar o encontro com novas pessoas, uma operação que visa ao estabelecimento de relações com elas.

Nathalie Kosciusko-Morizet, @nk_m para os frequentadores da nebulosa, por sua vez, é Secretária de Estado encarregada do desenvolvimento da economia numérica junto ao governo francês. Em 22/04/2009, ela publicou no Twitter uma mensagem tão lacônica quanto enigmática. A mensagem se resumia a "Il paraît que...", ou seja, "Parece que...". O obscuro tweet era seguido de um link para sua página no Facebook na qual ela contava que estava grávida, que o casal estava no sétimo céu por causa da boa notícia e que estava previsto que ela daria à luz no verão vindouro (quando NKM divulgou a novidade, ela contava com cerca de 40.000 seguidores).5 Comparando as duas atitudes, poder-se-ia dizer que a ministra francesa está para a tuiteira/blogueira brasileira, assim como a crisálida para a borboleta, visto que a informação fornecida pela ministra se encontra num perfil cujo acesso é restrito aos membros de uma dada comunidade. Ainda assim foi criticada por ter tido um comportamento pouco ou nada condizente com a liturgia do cargo. Twitter + blog, num caso, Twitter + Facebook, no outro. É o que, com justa razão, poder-se-ia chamar de anúncios 2.0. A diferença entre os dois é a diferença entre a superexposição de si e a escrita de si, em ambientes em que a divulgação é horizontal, vale dizer, é para muitos, para participantes de redes sociais. Convém lembrar que, salvo em casos muito especiais, os blogs são serviços de acesso completamente aberto (assim como o Twitter), enquanto que o Facebook recorre a um processo de filtragem de perfis por laços de amizade, afinidades, gostos, preferências e coisas do gênero. Por conseguinte, o que varia no comparativo é o gradiente de promiscuidade entre o íntimo e o público ou então entre o que faz parte do domínio da subjetividade dos indivíduos, daquilo que é mais pessoal para eles, e o que pertence ao domínio do que se põe como algo objetivo para tais sujeitos. Qualquer que seja, entretanto, o grau dessa promiscuidade, a comunicação é sempre dirigida ao outro ou dirigida a algum coletivo. Essa é a razão por que o que mais interessa no Twitter é sua função social, aquela que põe em prática a atividade de procurar saber o que fazem, sentem ou pensam as pessoas com as quais os membros da rede interagem, mesmo quando a copresença não é possível. Por isso já houve quem observasse que o que efetivamente importa, no caso, é a experiência que mescla "capacitação social" e "consciência social periférica" (Boyd, 2009b).

Em relação àquilo que se põe como objetividade para os indivíduos, também se coloca a possibilidade de oscilação entre extremos, dessa vez bem menos afastados. A distância que os separa é aquela que vai da objetividade nua e crua que se abate instantaneamente sobre uma subjetividade, àquela em que o agente pode escolher um aspecto ou um ângulo de visão — que é também um ângulo de interpretação — do fenômeno a ser mostrado, pondo em ato sua subjetividade. De certo modo, a distância que separa os extremos corresponde ao tamanho do intervalo entre o imediato e o mediato. No começo da tarde de 15/01/2009, Janis Krums fazia a travessia de New York para New Jersey a bordo de um ferry. Decidiu aproveitar o tempo ocioso verificando se havia mensagens novas no seu Twitter. Celular ligado e eis que um airbus da companhia US Airways se aproximava perigosamente do Hudson perdendo altura. Para assombro de todos os que assistiam à cena, ele pousou sobre as águas do rio, tal qual um hidroavião. A partir daí, da mesma maneira que vários outros passageiros do ferry, Krums não parou de fotografar o enorme avião que teimava em ficar boiando, como se fora feito de isopor. Ligado ao Twitter, ele escreveu para seus magros 200 seguidores: "There's a plane in the Hudson. I'm on the ferry going to pick up the people. Crazy". Pouco depois, ele enviava uma foto do acidente para compartilhá-la com seus seguidores. Foi o quanto bastou para começarem a chegar os inúmeros pedidos de entrevista dos mais diversos órgãos de imprensa.6 É que, associada a certas plataformas particularmente dinâmicas, a exemplo do Twitter, a mobilidade — ou a "mobiquidade", como se diz por vezes, justapondo mobilidade e ubiquidade — faz com que se produza uma espécie de saturação do espaço possível dos acontecimentos, ou seja, tende-se a ter sempre alguém em condições de testemunhar um evento, onde quer que ele se passe; auxiliada pela tecnologia, essa testemunha ocular pode registrar o que aconteceu com a vivacidade dos sons e das imagens que, via rede, logo alcançarão olhos interessados e ouvidos atentos à cobertura do ocorrido. Com uma frequência inusitada, a reportagem é feita pelo cidadão comum (e não pelo chamado profissional da notícia), que relata o que está presenciando com toda a "objetividade" do amador. Tal "objetividade" é, de resto, condição de possibilidade da informação; é ela que permite que o acontecimento se torne notícia.

 

A mediação pelo comum dos indivíduos

Em 2008, a rede CNN criou uma espécie de "edição cidadã", a iReport, um site concebido para acolher as informações enviadas pelo comum dos mortais, de onde quer que viessem. Do ponto de vista da referida empresa de comunicação, através da iniciativa, ela teria "olhos e ouvidos nas ruas", nas palavras de Nigel Pritchard (NigelCNNpr, para os tuiteiros), porta-voz da rede. Entretanto, a conhecida rede de televisão foi muito lenta e parcimoniosa na divulgação das informações que vinham das ruas de Teerã em meados de 2009, à época da mais recente eleição presidencial.7 A tal ponto que, no fim de semana de 13-14 de junho, quando tomavam corpo as grandes concentrações populares naquela capital, o surpreendente silêncio da rede CNN acabou por gerar uma frase que se difundiu na imprensa internacional. Ela afirmava: "A revolução iraniana não será televisada, ela será twitterizada". Ocorre que, na ocasião, a plataforma de microblog servia não só de meio para a troca de informações entre os contestadores do resultado das eleições, como para a difusão de notícias para fora do país sobre os confrontos de rua, justamente quando a imprensa internacional sofria as maiores restrições para fazer seu trabalho e o sistema de telefonia celular, de controle estatal, estava inteiramente inoperante. O Twitter tinha se transformado na principal arma contra a censura.8 Assim, impossibilitados de cobrir os eventos e de ter contato com os participantes e com as testemunhas, os profissionais da notícia instalados na capital se viram condenados a socorrer-se com os habitantes locais pela internet, principalmente pelo Twitter e pelo Youtube. Foi desse modo, aliás, que, em 20 de junho, eles tomaram conhecimento da agonia e da morte de Neda Agha-Soltan, a jovem que se tornaria o ícone da contestação e da brutalidade da repressão que se abatera sobre os dissidentes. Utilizando as redes sociais, o cidadão iraniano havia se transformado na única fonte possível de informação, à qual até mesmo os profissionais tinham que recorrer. Nessa situação, o trabalho de selecionar, produzir e difundir as informações de interesse para um público amplo, isto é, aquilo que constitui a tarefa de mediação jornalística por excelência, havia mudado de mãos: dos profissionais para os amadores. Não deixa de ser compreensível, portanto, que, em 19/11/2009, Biz Stone, um dos dirigentes do Twitter, tenha publicado no blog oficial do microblog um post no qual constatava uma modificação no conteúdo dos tweets. Ele sugeria, então, que se mudasse o foco da questão motivadora: do que se estava fazendo ao que estava acontecendo, do "What are you doing?" para o "What's happening?".9 Desse modo, o Twitter deixava escapar o traço pesadamente confessional que o marcara tão fortemente até ali e assumia um caráter basicamente testemunhal, que, todavia, não abria mão do cunho pessoal da experiência vivida.

No tocante a essa transformação na natureza da mediação, um episódio bastante interessante envolveu a rede de televisão CNN e o ator Ashton Kutcher, o @aplusk, como ele é conhecido na nebulosa Twitter, reputado sobretudo por seu casamento com a atriz Demi Moore, com quem ele gosta de tuitar a quatro mãos. Em abril de 2009, o ator lançou um desafio à rede de televisão: tratava-se de saber qual dos dois, ele ou a rede, seria o primeiro a atingir um milhão de seguidores no Twitter. Kutcher logo se apressou em postar um vídeo no Youtube convidando seus espectadores a segui-lo, de modo a demonstrar a soberania das redes sociais mesmo diante do poder enorme dos tradicionais meios de comunicação de massa. Ele apostava na possibilidade de que, de posse de seus equipamentos pessoais, a saber, suas câmeras fotográficas, de vídeo e de seus dispositivos móveis, com a ajuda de blogs e de redes sociais como o Twitter e o Facebook, os indivíduos pudessem efetivamente se tornar fontes de informações, além de difusores e consumidores delas. "We have, concluia ele, the potential on this day to turn the tide", ou seja, a seu ver, naquele momento, em conjunto com seus seguidores eles tinham a chance de "virar o jogo". Larry King, prestigiado apresentador da rede, não hesitou em responder a Kutcher, lembrando ao ator o tamanho da CNN como empresa de informação, considerando que ele só podia estar brincando ao achar que levaria a melhor sobre um tal gigante das comunicações. "CNN will bury you", vaticinou King, ameaçando Kutcher de ser enterrado pela influente rede de televisão. Alguns meses mais tarde, @aplusk ultrapassava com folgas @cnnbrk em número de followers, para enorme decepção do carismático animador de talk show.10

O episódio é particularmente interessante porque, associado a tantos outros que povoam o nosso cotidiano, aponta para a concorrência que se estabeleceu atualmente entre dois agentes capazes de produzir ou de reorientar fluxos de informação: de um lado, a mídia de grande difusão, a tão conhecida mídia de massa, de outro, indivíduos em rede, constituindo o que pode ser denominado de mídia de rede ou mídia em rede, essa última sendo responsável pela criação de um paradigma de difusão horizontal, de estrutura descentralizada e interativa, com grande poder de disseminação. Embora o segundo modelo diga respeito às comunidades e aos serviços que compartilham o mesmo a priori tecnológico — a saber, a Web 2.0 ou a "Web como plataforma" —, o que associa os blogs, os microblogs e as diversas redes sociais, características tais como, por exemplo, a mobilidade, a conexão permanente (o always on, como se costuma dizer) ou a onipresença de tecnologias conectadas fazem do Twitter o exemplo mais acabado de um padrão que se distingue pela colaboração, pelo incentivo que concede à ação e à expressão individuais, assim como aos agrupamentos dos indivíduos em redes. Uma das consequências mais notáveis dessa nova configuração em que os fluxos de informação inundam as redes sociais é que, nessas associações horizontais, perdem terreno os mediadores privilegiados, aqueles especializados no interesse público ou no bem comum, que nos meios de difusão ampla sempre ocuparam um lugar central. Fontes de grande credibilidade, os meios e os mediadores foram por muito tempo o único destino de quem estava à procura de informação confiável. Figuras típicas da modernidade, os especialistas de toda natureza, sejam eles profissionais do jornalismo ou experts em um dado domínio da experiência, têm essa importância em decorrência da posse de alguma aptidão específica, que lhes concede autoridade para selecionar e difundir as informações que possam ser úteis ou de interesse para um público extenso, nessa ou naquela circunstância. "Um especialista, observa Giddens, é qualquer indivíduo que pode utilizar com sucesso habilidades específicas ou tipos de conhecimento que o leigo não possui" (Giddens, 1997, p. 105). No que diz respeito a isso, "o que conta em qualquer situação em que o especialista e o leigo se confrontam é um desequilíbrio nas habilidades ou na informação que — para um determinado campo de ação — torna alguém uma 'autoridade' em relação ao outro" (Giddens, 1997, p. 105). Na medida em que participam de um processo de legitimação recíproco, a mídia de massa, por um lado, e os representantes do bem comum ou os porta-vozes do interesse geral, por outro, têm mantido continuamente uma convivência proveitosa para ambos. Há, contudo, novidades em tal cenário. Trata-se de uma nova forma de mediação.

Meio de comunicação muito peculiar, a Web, como bem se sabe, abole a distinção entre emissores e receptores, neutralizando a hierarquia existente entre eles, que é característica da relação dos meios de difusão massiva com os indivíduos. Operando de modo centralizado, segundo o modo "um para muitos", nos meios de difusão massiva, poucas fontes emissoras distribuem mensagens homogêneas para muitos receptores. Diversamente, nas mídias de rede, produzir, distribuir e receber informações está ao alcance de quem quer que se ponha como um nó; nesse caso, torna-se um nó entre muitos e passa a fazer parte do processo de comunicação de tipo "muitos para muitos". Por conseguinte, modificou-se inteiramente o regime de escoamento dos fluxos de informação, em consequência de uma recomposição completa das estruturas de produção, distribuição e consumo de conteúdos. Se um determinado nó pode ser um mediador do interesse geral — análogo àquele dos meios de massa (ainda que a interatividade torne precária essa analogia) —, que reverbera informações a serem partilhadas por todos, ele pode, por outro lado, ser um agente que fomenta expressões individuais, que facilita a manifestação de pensamentos, gostos e sentimentos, que, enfim, contribui para reunir singularidades naquilo que as singulariza. Elas se abrigam, desse modo, em nichos de singularidades. Enquanto singularidade, habitante de nichos dessa natureza, não só esse mediador fala por si próprio, sem necessidade de prestar reverência a algum especialista do bem comum, como, ao dar seu depoimento ou fazer uma sugestão, pode fornecer referências para escolhas num universo em que o excesso não é exceção, é a regra. Na qualidade de filtro, está em condições de fazer uma seleção competente das informações relevantes; ele realiza, assim, uma redução na incerteza das opções, na indecisão das escolhas. Enquanto o moderno especialista dos meios de massa tira sua credibilidade em parte do próprio meio e em parte da competência adquirida por um aprendizado "teórico", ao qual, no mais das vezes, faltam a essencial prática e a fundamental experiência, a nova face do mediador — do mediador de rede — é a do habitante do nicho, que, estando entre pares, retira sua credibilidade do fato de ser um deles: mediação do tipo peer-to-peer (C. Anderson, 2006; Boyd, 2009a; Santos, 2008; Vaz, 2001).

 

A expressão do vivido em blogs e microblogs

A cumplicidade horizontal entre usuários que nunca se viram face a face e que provavelmente nunca se encontrarão assume especial condição com o uso das tecnologias móveis.11 Sob muitos aspectos, a "Web 2.0 móvel" aparece como um prolongamento das dinâmicas típicas da "Web 2.0 fixa", ela amplia e pulveriza os contextos de interação, colaboração e troca que animam as redes sociais. Ocorre, entretanto, uma significativa mudança no decorrer desse processo de alargamento de horizontes e que faz surgir algo que pode ser chamado de "paradigma móvel 2.0" (Feijóo, 2009). As redes móveis constituem fator de dilatação dos processos que vinham em andamento na Internet, mas constituem também fator de inovação. Uma crescente possibilidade de que cada um leve consigo, a todos os lugares por onde passa, seu próprio meio de comunicação altera não somente a natureza da mediação, como intervém nos modos de apreensão do mundo, de expressão de si e de compartilhamento do vivido. A mobilidade estende aos quatro cantos o contexto da conectividade e, com isso, redimensiona a interface entre aquilo que se passa dentro e fora da Internet. Qualquer indivíduo em posse de um dispositivo móvel se vê em condições de transpor a interface ao enviar a um servidor, ou ao receber dele – via SMS ou Twitter, por exemplo – o registro de uma experiência pessoal ou o testemunho de um evento que transcorre onde quer que se esteja. Tal travessia da interface supõe uma especial "integração", um tipo de acoplamento que provoca a interferência mútua entre o sujeito que possui um objeto tecnológico e esse objeto, de maneira que a posse retroage sobre o possuidor e o transforma.12 Isso significa considerar que as ações de um indivíduo que utiliza uma mídia pessoal não se definem exclusivamente pelas características singulares desse indivíduo, nem tampouco pelas particularidades da tecnologia que ele tem em mãos, bem como não se trata de uma simples somatória de um e outro, tais ações se estabelecem pela emergência de uma ligação entre eles que modifica a ambos. Nesse sentido, a relação com a tecnologia é uma forma fecunda de interação, capaz de gerar um agente que até então não existia, um agente que emerge da integração entre "o homem e a máquina".13

Essa interface que se constitui no âmbito das redes é dispersa ponto a ponto, nó a nó, sendo que cada agente está apto a inserir, modificar e consumir conteúdos a partir dos locais por onde anda e também a partir dos sites pelos quais navega. Desse modo, atua como uma interseção singular entre o mundo dos átomos e o mundo dos bits. Daí a pungência da interface que nasce no uso das tecnologias móveis. Ela não somente atinge proporções jamais alcançadas, como também introduz a simultaneidade e conquista, assim, uma forma fluida de ocupação do espaço e do tempo que evoca a sensação de onipresença e mesmo de ampliação da realidade. Qualquer coisa que se experimenta, a todo o momento, dentro e fora do ciberespaço, pode ser compartilhada em tempo real. E a generalização da conectividade em tempo real implica em modos muito específicos de apropriação e de manifestação do decurso da vida.

A transmissão instantânea replica uma espécie de tensão dilacerante que existe entre as coisas no momento em que elas estão sendo vividas. Nesse aspecto, o caráter fragmentário e um tanto desordenado dos tweets é muito fiel à experiência do tempo real. Todo tipo de entrosamento e formação de conjunto entre acontecimentos, impressões, sensações, corresponde a um trabalho subjetivo de recorte da realidade e de construção de sentido. Tal trabalho se realiza de modos muito diferentes conforme variam as condições de domínio do tempo vivido. Exemplares das redes fixas, os blogs favorecem a introspecção, a reflexão e a recordação pelas quais as coisas se encadeiam na sucessão da vida subjetiva.14 A escrita reflexiva permite a ligação entre experiências distintas na formação de verdadeiros continentes de sentido. Isso faz com que a elaboração de um post seja uma forma de se apoderar do tempo muito distinta da que se passa na fugacidade de um tweet. O tempo fugidio vincula muito precariamente cada situação isolada ao contexto geral da vida. Uma página de Twitter mais se assemelha a um arquipélago de pequeninas ilhas de sentido. Enquanto o indivíduo se sente tocar, mesmo que profundamente, pela experiência que compartilha em 140 caracteres, ele a deixa escapar, devolve-a ao mundo na forma da brevidade, da abertura, num movimento que se traça mais pela dissipação que pela conservação do vivido. Diferentemente dos blogs, que primam pela fixação ordenadora e se revelam ambientes propícios ao manifesto exercício da rememoração.

Não é de se admirar que um blog opinativo assuma as feições de seu autor naquilo que ele possui de mais coerente e duradouro e que o microblog, por sua vez, faça notar os traços mutáveis daquele que, em liberdade de movimento, se vê às voltas com a multiplicidade de experiências que podem variar em importância e intensidade, oscilar entre altos e baixos no decorrer de um só dia. Mas há uma contrapartida. Se o tempo real incita ao efêmero e ao instável, ele exige uma constância, a presença daquele que o experimenta. A todo instante, tweet a tweet, alguém dá provas de estar ali. E é pelo vigor de sua presença que convida os outros a segui-lo. Nesse particular, a rede móvel faculta uma forma de proximidade que desvincula a sincronia da reciprocidade. A presença que é portadora do tempo real não traz consigo os imperativos da copresença. Um seguidor é capaz de acompanhar muito de perto o passo a passo de alguém que nem sabe que ele existe para além de um número. Isso habilita um indivíduo a estar junto do outro, a passar o dia em companhia de alguém e ainda assim estar ausente. A síntese de proximidade e distância, de ausência e presença que permeia as relações nesses agrupamentos em rede gera o sentimento de que cada indivíduo pode ocasionalmente estar em contato com todos os outros. Seja pelo encontro de vestígios, seja pelo traço de uma possibilidade, há sempre uma presença na ausência, uma imanência daquele que permanece exterior. Em suas diferenças, blogs e microblogs não são plataformas mutuamente exclusivas, ao contrário, se remetem, se justapõem na composição das formas pelas quais os indivíduos que são frequentadores de tais redes se dirigem uns aos outros, se intrometem na vida uns dos outros e se deixam intrometer.

 

As formas da individualidade e da subjetividade

O sucesso dessas plataformas da Web 2.0 mostra, com efeito, que presenciamos nos dias que correm uma espécie de refundição do individualismo, através da experiência dos indivíduos conectados em redes, dos indivíduos como nós de redes sociais online. O indivíduo é esse rebento da modernidade com seu estatuto de autonomia e de responsabilidade, possuidor de reflexão e de vontade, da consciência de que, como os outros, é sujeito de direitos e deveres, além de se considerar como uma unidade não intercambiável, dotada de uma identidade, exaltando, por isso mesmo, a singularidade que emana de uma subjetividade profunda. Simmel está entre os autores que trataram com mais sutileza dos temas ligados ao indivíduo, bem como à individualidade, como permanência, unicidade e identidade características do indivíduo. Ele distingue o individualismo quantitativo setecentista do individualismo qualitativo oitocentista: um é abstrato e racional, o outro enfatiza a unicidade e a especificidade de cada um. O individualismo quantitativo é aquele do indivíduo isolado, mas livre e responsável. Ele se funda na necessidade de liberdade de um indivíduo que se percebe e percebe os outros na qualidade de "homem universal", de um homem "em geral", que é, por natureza, livre e igual a todos os outros. O mencionado indivíduo carrega dentro de si sua própria norma. Ele é um eu capaz de conhecer o que é, assim como o que deve ser. O eu autêntico é o eu universal. O individualismo qualitativo forma uma espécie de camada estratigráfica que se superpõe ao quantitativo. Ele é o dos indivíduos incomparáveis, aquele no qual a liberdade é para o indivíduo o meio de realizar-se em sua particularidade. Para esta forma de individualismo, o que é valorizado — para além da autonomia e da responsabilidade, evidentemente — é a singularidade; ou seja, no individualismo qualitativo, o valor maior se acha no que o indivíduo não tem em comum com ninguém mais, encontra-se no que sua personalidade tem de original. O que agora está em jogo não é mais um "eu puro" ou um "homem universal e abstrato", mas um eu singular. Decerto cada homem é uma espécie de resumo da humanidade, mas não é menos certo que cada indivíduo é uma síntese única dos elementos que são comuns a todos. É justamente este indivíduo em íntimo contato consigo mesmo que é capaz de revelar uma realidade que é, a um só tempo, universal e individual. Ele constitui um universo espiritual que, embora seja compartilhado por todos, tem a sua marca. E ele o tem permanentemente consigo, dentro de si (Simmel, 1981, 1989).

O indivíduo possui, então, um mundo interior ricamente povoado de figuras humanas, umas coloridas com cargas afetivas positivas, outras tingidas de cargas negativas (Sibilia, 2008). Em meio a essa multidão de figuras, estão as representações de si mesmo: seu "eu profundo", mas também "os outros eus", alguns bem superficiais e alguns que até parecem ter uma concretude corporal. Além disso, esse mundo é animado desde as suas regiões abissais por amores e ódios, desejos e interdições, necessidades e infortúnios, sonhos e realizações, medos e certezas, lembranças sempre prazerosas e dores ainda vivas, enfim, por uma profusão de sensações, sentimentos, experiências, memórias e traços do mais diversificado caráter, em cujo acervo se encontra a matéria-prima daquilo que é comumente chamado de identidade. Uma fronteira de porosidade variável separa esse mundo de um outro, não menos rico do que o primeiro: o mundo exterior. Trata-se de uma extraordinária quantidade de objetos presentes à percepção do indivíduo ou que são concebidos como objetos de percepção possível para ele: mundo sensível, mas também mundo inteligível, na medida em que podem ser conhecidos por um indivíduo que é igualmente sujeito. Justamente nesse mundo é que habita a alteridade. É aí que o sujeito vai procurar colher os elementos representativos cujas sínteses constituirão os objetos de seu conhecimento. Naturalmente, ele próprio não está excluído dessa empreitada e pode ocupar o foco da observação. Assim, toda a exuberância de seu mundo interior tem a possibilidade de ser objeto de minuciosa exploração, de uma laboriosa introspecção que visa um eventual conhecimento. Apenas eventual, porque aquilo de que é feito o mundo interior é de consistência fluida, furtiva; fugidio, ele é de natureza a escapar à vista do sujeito que está a sua espreita, no mais das vezes não se deixando entrever senão sob ardilosos disfarces.

Apesar de muito abreviada, a análise que acaba de ser feita permitiu ressaltar uma série de pares de noções, tais como sujeito-objeto, eu-outro (ou mesmo-outro), identidade-alteridade, dentro-fora, interior-exterior, profundo-superficial, intelegível-sensível. Os referidos pares fazem parte de um conjunto muito mais amplo e constitui o arsenal de noções com as quais a modernidade enfrenta a realidade. Boa parte desse abundante grupo de dicotomias tem a idade do pensamento filosófico, a modernidade tendo-a recebido por herança, contudo uma considerável parcela é, com efeito, produzida no seu decurso. Os mais recentes tanto quanto os mais antigos, estes com mais forte razão, passaram por um processo de sedimentação tal que eles terminaram por formar dois subconjuntos simétricos, engendrando uma espécie de axiomática que se põe como indispensável a toda aproximação da realidade. Um deles é composto por termos como: eu, sujeito, subjetividade, dentro, interior, identidade, e assim por diante. Do outro fazem parte: outro, objeto, objetividade, fora, exterior, alteridade, e assim se segue. Por criarem oposições binárias, os dualismos colocam os termos em posição de exterioridade um em relação ao outro.15 O mesmo se dá com os subconjuntos dos quais os termos são elementos. Opera, por conseguinte, entre eles uma lógica disjuntiva cujo modelo de funcionamento é ou ... ou, por outras palavras, ou isto ou aquilo, se é isto não é aquilo, e reciprocamente. Tal lógica distingue, discrimina, identifica: a lógica disjuntiva é também a lógica da identidade. Os procedimentos fundamentais de um desses subconjuntos são a ação e a expressão que tem o outro por objeto, os do outro, a complementação do primeiro e a influência sobre ele. Daí porque, no interior dos pares, um dos termos tem privilégios em relação ao outro, estabelecendo uma forte hierarquia dentro do par. Por exemplo, no par sujeito-objeto, o sujeito é que tem a capacidade de reunir os elementos representativos que constituem o objeto. Portanto, este não é senão o espelho daquele, aquilo que permite ao sujeito ver-se como sujeito e reconhecer-se como tal. Ou ainda: na dualidade profundo-superficial, o profundo é que encerra o essencial, enquanto o superficial não é senão aparência e as aparências, como se sabe, são enganosas.16 Em resumo, nas oposições, os termos estão submetidos a alguma forma de hierarquia, seja ela ontológica, lógica ou axiológica.17

Parte importante da experiência da individualidade consiste na identificação do privado — tanto quanto de seu superlativo, o íntimo — e do público. Porém, não é suficiente apenas identificá-los, é imprescindível ainda providenciar sua separação. Ao longo da modernidade, foi necessário não só fazer o aprendizado de uma discriminação cuidadosa dos dois domínios, como o exercício de um isolamento rigoroso o bastante deles de maneira a impedir que houvesse algum tipo de contaminação de um pelo outro. Ou é íntimo ou é público, por conseguinte, se é íntimo, não é público, se é público, não é íntimo. Ocorre que, do ponto de vista daquela experiência, é no domínio do privado ou do íntimo que reside o que é precioso para o indivíduo e que é a razão do privilégio que ele possui sobre o público. Não que a esfera pública seja negligenciável, todavia, da perspectiva da individualidade, a esfera do privado importa muito mais. Compreende-se facilmente, portanto, porque a dosagem da exibição da intimidade sempre mereceu grande atenção, do mesmo modo que a gravidade do juízo que pesa sobre toda violação da privacidade. Decorre daí também a justificada precaução com as atividades que pudessem resultar na objetivação da subjetividade, como é o caso do resguardo com a correspondência privada ou com os escritos íntimos. Certas práticas recentes, entretanto, sugerem que a observância atenta desses preceitos já não é mais objeto de unanimidade e dão a pensar que aquilo que no decorrer da modernidade tinha o perfil de prática marginal vai gradualmente se tornando comportamento corriqueiro para um número considerável de indivíduos. Assim, lado a lado com o amplo espaço concedido pela mídia de grande difusão ao espetáculo da vida real — protagonizado pelo comum dos indivíduos, encenando o trivial de sua existência —, na internet, os blogs e os microblogs, com o Twitter na linha de frente, estão entre os responsáveis por um crescimento consistente da objetivação da subjetividade, através da escrita e da exposição de si (Bruno, 2004; Bruno e Pedro 2004).

 

Considerações finais

O fenômeno não é nada banal e tem interpelado bom número de observadores do panorama da cultura contemporânea, em particular dos que examinam a rede, considerada um bom indicador do que se avizinha. Seria enganoso, no entanto, imaginar que tais observadores mantêm algum tipo de acordo quanto ao diagnóstico da situação. De fato, em meio a uma certa dissonância, as explicações em geral têm se mostrado insatisfatórias, via de regra recolhendo o inconveniente benefício das respostas fáceis. Uma pista interessante a explorar foi apontada cerca de um século atrás, num texto avesso à premonição, embora alerta ao desenrolar histórico. Chegando ao final de um de seus textos sobre as formas de individualidade, Simmel diz acreditar que "a idéia da mera personalidade livre e a da mera personalidade singular não sejam ainda as últimas palavras do individualismo" (Simmel, 2005, p. 115). E ele acrescenta ter a expectativa de que "o imprevisível trabalho da humanidade produza sempre mais, e sempre mais variadas formas de afirmação da personalidade e do valor da existência" (Simmel, 2005, p. 115).

A partir daí, a indagação a perseguir é a que pretende saber o que move uma subjetividade a se objetivar nos blogs ou no Twitter, isto é, o que faz com que ela se objetive em graus variados, exigindo pouco mais que a divulgação do que lhe é tão caro para uma coletividade não raro sem rosto. Pensa-se sempre os indivíduos como possuidores de uma interioridade, um mundo interior, tal como anteriormente descrito, constituído por um eu que sateliza sua existência como sujeito, sua subjetividade, e que garante sua permanência do mesmo modo que sua unicidade, sua identidade. Essa interioridade é o que lhe é próprio. O mundo exterior, a exterioridade, é o não próprio, o que se apresenta como um excedente externo em relação à interioridade.18 Nesse raciocínio, a suposição é de que o eu é o núcleo de uma totalidade que, por estar completa, torna o que não é próprio apenas um complemento, uma simples adição exterior a uma espécie de unidade plena. O que as diversas formas de objetivação da subjetividade mostram é que a apropriação de si mesmo, isto é, a apropriação de uma identidade, não se faz sem uma expropriação da alteridade e que, por conseguinte, a alteridade é esse suplemento que aponta para uma falta na totalidade à qual ela se refere. O próprio se encontra, portanto, desde logo contaminado pelo não próprio, afetado por ele. De resto, o próprio não é ele mesmo senão por ser afetado pelo não próprio. É justamente essa convocação da alteridade que concede ao suplemento sua razão de ser, é ela que faz dele o outro (ou o não próprio) que habita o mesmo (o próprio), a alteridade que habita a identidade e sem a qual não se pode falar de identidade, nem de subjetividade.

Em blogs pode parecer mais delimitada a presença da alteridade que habita a subjetividade em consequência do formato mais apropriado à reflexão e à autoria individualizada. Ainda assim, a inserção da alteridade fica posta pela expectativa de uma interpelação que se manifesta no ato da expressão de si por meio de uma ferramenta particularmente aberta à interferência e aos comentários de um público inapreensível em sua natureza e totalidade. Em microblogs, por sua vez, a capacidade de transmissão instantânea fomenta uma expressão de subjetividade nitidamente mais vazada pela alteridade, seja pela objetividade do mundo sobre o qual se dá testemunho, seja pela regular e pouco controlada intervenção do outro. Consideradas as especificidades decorrentes das características diferenciais desses dois modos de expressão de si, pode-se conceber o quanto a crescente utilização de ambos os instrumentos dá indícios da complexidade dessa forma de subjetividade que vem sendo elaborada em blogs e microblogs.

 

Referências

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Notas

1 A primeira mensagem enviada pela plataforma — de autoria de Jack Dorsey, um de seus fundadores — pode ser vista no Twitter da Biblioteca do Congresso dos EUA, disponível no endereço http://twitter.com/librarycongress, acessada em 14/04/2010. Por intermédio de seu blog, a conceituada Biblioteca informou nessa data que "todas as mensagens jamais postadas publicamente a partir" dessa inicial serão guardadas eletronicamente em seus arquivos.

2 Não é inútil lembrar que o correspondente em português para tweet é gorjeio, trinado dos pássaros.

3 Cf. http://twitter.com/sara/status/3239126907, acesso em 09/09/09.

4 Matéria divulgada pela imprensa internacional nos primeiros dias de julho de 2010 dá conta de um experimento realizado pelo pesquisador Paul J. Zak na Claremont Graduate University na Califórnia mostrando que interagir com as redes sociais, em particular com o Twitter, pode trazer sentimentos de segurança e reduzir a ansiedade. Tais efeitos estariam associados à elevação dos níveis de oxitocina, um hormônio ligado às sensações de serenidade e de bem-estar. Consulte a matéria "Can Twitter Trigger 'Cuddle' Hormone?" publicada na CNN Health, em 1º de julho de 2010, disponível em http://pagingdrgupta.blogs.cnn.com/2010/07/01/can-twitter-trigger-cuddle-hormone/?iref=allsearch, acessado em 10/07/2010.

5 Veja a matéria publicada no jornal Libération, datado de 22/04/2009, com o título "NKM annonce sa grossesse sur Facebook". Capturada em http://www.liberation.fr/politiques/0101563438-nkm-annonce-sa-grossesse-sur-facebook, acesso no dia da publicação.

6 Informações colhidas na matéria "Social networking sites share breaking news", publicada em CNN.com/technology, em 22/01/2009, capturada em http://articles.cnn.com/2009-01-22/tech/social.networking.news_1_tweets-twitter-co-founder-biz-stone-twitter-users?_s=PM:TECH, acessada em 07/09/2009.

7 A esse propósito, ver, por exemplo, "Dear CNN, Please Check Twitter for News About Iran", matéria publicada pelo site ReadWriteWeb, em 13/06/2009, capturada em http://www.readwriteweb.com/archives/dear_cnn_please_check_twitter_for_news_about_iran.php ou, então, "'#CNN Fail': Twitterverse slams network's Iran absence", matéria publicada na CNET News, em 14/06/2009, capturada em http://news.cnet.com/8301-17939_109-10264398-2.html, O acesso aos dois textos foi feito em 05/08/2009.

8 Apesar dos teetws terem sido vencidos pelas balas, como se sabe, de acordo com Buzz Webster, a utilização das TICs — em particular do Twitter — como armas de oposição nas manifestaçõoes "people-powered" deve ter um papel de crescente importância. Num post publicado no PoliticsOnLine em 19/06/2009, ele aponta quatro razões que sustentam seu ponto de vista: a experiência adquirida, o incremento da educação e do domínio das tecnologias (especialmente pelos jovens), o limitado sucesso do controle das TICs pelos regimes repressivos e o uso do Twitter e das novas ferramentas, ao ver dele poderosas "breakthrough technologies", tecnologias que abrem brechas. Cf. "Online Revolutions: A Glimpse of the Future in Iran". Texto capturado em http://www.politicsonline.com/blog/archives/2009/06/online_revoluti.php, acessado em 21/06/2009.

9 Esse deslocamento é comentado em http://blog.twitter.com/2009/11/whats-happening.html, acesso em 17/01/2010.

10 Sobre o assunto, ver, por exemplo, "Ashton Kutcher challenges CNN to Twitter popularity contest", matéria publicada em CNN.com/technology, em 15/04/2009, capturada em http://www.cnn.com/2009/TECH/04/15/ashton.cnn.twitter.battle/ ou "Ashton Kutcher out to beat CNN to a million on Twitter", matéria publicada no TimesOnLine, em 16/04/2009, capturada em http://women.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/women/celebrity/article6105466.ece. Os dois textos foram acessados em 12/09/2009.

11 Sobre a ligação horizontal e solidária entre desconhecidos, ver B. Anderson, 2008.

12 Esse processo é compreendido por Simmel como uma "cadeia do ser ao ter e do ter ao ser". Ver Simmel, 1987, p. 378.

13 A integração entre o homem e a máquina é tratada por Latour como a formação de um "ator híbrido". Ver a discussão sobre a interseção entre humanos e não humanos em Latour, 2001. Pela perspectiva de Lash, uma outra abordagem se dá a essa junção. Segundo ele, "como produtores de sentido, nós operamos menos como ciborgues que como interfaces. Essas interfaces de humanos e máquinas são conjunções de sistemas orgânicos e tecnológicos". Ver Lash, 2001, p.107.

14 A ideia de que o tempo real provoca uma tensão dilacerante entre as coisas, diferentemente do tempo ideal, que pertence ao sujeito, é tratada no ensaio sobre Florença em Simmel (1989, pp. 265-270).

15 "Para que esses valores contrários ... possam se opor, assinala Derrida, é preciso que cada um dos termos seja simplesmente exterior ao outro, isto é, que uma das oposições (dentro/fora) seja desde logo creditada como matriz de toda oposição possível. É preciso que um dos elementos do sistema (ou da série) valha também como possibilidade geral da sistematicidade ou da serialidade." Veja-se Derrida, 2005, p. 50.

16 Como observa Elias, existe "'uma padronização muito difundida da auto-imagem que induz o indivíduo a se sentir e pensar assim: 'Estou aqui, inteiramente só; todos os outros estão lá, fora de mim; e cada um deles segue seu caminho, tal como eu, com um eu interior que é seu eu verdadeiro, seu puro 'eu', e uma roupagem externa, suas relações com as outras pessoas'". Ver Elias, 1994, p. 32.

17 A esse propósito, veja também Santos e Cypriano, 2011.

18 Uma primeira abordagem dessas questões foi testada em Santos, 2008.

 

 

Submissão em: 02/02/2012
Revisão em: 24/05/2012
Aceite em: 17/07/2012

 

 

Francisco Coelho dos Santos é doutor em Sociologia, Université René Descartes, Paris V, Sorbonne. Professor associado do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG. Atua na grande área da Sociologia da Cultura. Atualmente desenvolve pesquisas que dizem respeito às repercussões socioculturais das tecnologias de informação e comunicação, com especial ênfase na incorporação das novas tecnologias, nas experiências sociais ligadas às culturas de rede, de consumo e nas diversas manifestações da cibercultura. Endereço: Departamento de Sociologia e Antropologia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFMG. Av. Antônio Carlos, 6627. 31270-901 Belo Horizonte/MG, Brasil. Email: fransan@uol.com.br

Cristina Petersen Cypriano é doutora em Sociologia pela UFMG com a tese intitulada "Nas travessias da interface: as novas formas da vida social em rede" (2013). Integra grupos de pesquisa onde realiza estudos sobre diversos aspectos sociais e culturais implicados nas dinâmicas das redes sociais contemporâneas, com destaque para os seguintes temas: culturas de rede, estilos de vida e modos de subjetivação. Email: cristinacypriano@uol.com.br

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