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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.26 no.3 Belo Horizonte Sept./Dec. 2014

https://doi.org/10.1590/S0102-71822014000300023 

ARTIGOS

 

Olhares sobre o corpo na atualidade: tatuagem, visibilidade e experiência tátil

 

Miradas acerca del cuerpo en la actualidad: tatuaje, visibilidad y experiencia táctil

 

Current visions about the body: tattoo, visibility and tactile experience

 

 

Luciana da Silva Rodriguez; Teresa Cristina Othenio Cordeiro Carreteiro

Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo, com base na psicossociologia, problematiza processos de subjetivação sobre o corpo na atualidade, tomando o uso da tatuagem como analisador. O incremento das demandas para essa prática chama atenção, visto que a tatuagem remete à permanência e as subjetivações atuais prezam a efemeridade. A imagem e o tempo imediato são também valorizados, bem como a visibilidade. Estes colocam a tatuagem em sintonia com os movimentos de culto ao corpo, exacerbados atualmente. São movimentos distintos que apontam para divergências e convergências do mesmo fenômeno, e que tornam as problemáticas do corpo e tatuagens paradigmáticas na atualidade. De forma a encaminhar essas discussões, são utilizados trechos de entrevistas com adultos tatuados, realizadas durante o trabalho de campo em que se pôde notar a grande importância da visibilidade e experiência tátil no processo de escolha e feitura de tatuagens.

Palavras-chave: corpo; tatuagem; processos de subjetivação; psicossociologia.


RESUMEN

Este artículo, basado en la Psicosociología, analiza los procesos de subjetividad en el cuerpo hoy en día, teniendo el uso del tatuaje como un analizador. El aumento de la demanda de esta práctica llama la atención, ya que el tatuaje se refiere a la permanencia, cuando las subjetivaciones actuales aprecian el efémero. La imagen y el tiempo inmediato también se valoran, así como la visibilidad. El tatuaje está en sintonía con los movimientos de culto al cuerpo, exacerbados en la actualidad. Son movimientos distintos que revelan divergencias y convergencias de un mismo fenómeno, y que hacen las cuestiones del cuerpo y de los tatuajes paradigmáticos en la actualidad. Para avanzar este debate, nos utilizamos de entrevistas con adultos tatuados, hechas en trabajo de campo, donde se puede tener en cuenta la importancia de la visibilidad y la experiencia táctil en el proceso de selección y elaboración de los tatuajes.

Palabras clave: cuerpo; tatuaje; procesos de subjetividad; psicosociología.


ABSTRACT

This study is based on the Psychosociology and analyzes subjectivity's processes about the body in our days, taking the use of tattooing as a analyzer. The increased demands of this practice is interesting, because the tattoo refers to the permanence, and the current value today appreciate is the ephemerality. On the other hand, the image and the immediate time are also valued, as well as the visibility. In this way, the tattoo fits well with the movements of body's worship that is so exacerbated today. These are distinct movements that reveal divergences and convergences of the same phenomenon, and make the themes "body" and "tattoos" paradigmatic in our days. To conduct these discussions, some interviews with tattooed adults are used. They pointed the importance of visibility and tactile experience in the process of choosing and making the tattoo.

Keywords: body; tattoo; subjective processes; psychosociology.


 

 

Este artigo é fruto de uma investigação mais ampla, que buscou problematizar o aumento do número de demandas para a feitura de tatuagens e investigar concepções, ideias e valores atribuídos a ela, levando em consideração os contextos cultural e histórico-político. Para alcançar tal objetivo, tomamos a psicossociologia enquanto perspectiva teórica e lançamos mão de diversas disciplinas, como história, sociologia, antropologia, psicologia e psicanálise. Essas foram articuladas, reconhecendo-se os limites epistemológicos de cada uma, de forma a abarcar a complexidade das temáticas "corpo" e "tatuagem".

A feitura da tatuagem neste artigo é analisadora de questões importantes na atualidade, visto que as subjetivações privilegiam as mudanças rápidas, a fluidez, a efemeridade, enquanto a tatuagem evoca a permanência. Haveria, portanto, um paradoxo. Nessa perspectiva, tatuar-se vai em direção oposta à das subjetivações atuais, configurando-se como uma espécie de resistência.

Vive-se também numa sociedade que valoriza a imagem e o tempo imediato. O tratamento dado ao corpo inclui essas transformações sociais do contexto mais amplo e, com isso, traz consequências às subjetivações atuais. Uma das marcas da contemporaneidade é justamente o corpo à mostra. Ele se torna um corpo-mensagem, que cada vez menos passa despercebido. Ele se apresenta como um meio de comunicação e expressão através do qual o sujeito exterioriza seus afetos e interesses. Inscreve-se na pele a própria história, um sentido específico para o momento em que o sujeito a fez. E esse registro se revela, e se desvela, naqueles segundos em que é visto pelos outros. Encaminha-se um movimento de economia de palavras, onde cabe o dito popular em que "uma imagem valeria mais que mil delas". Se a imagem e o tempo imediato são extremamente valorizados, e o ato de olhar e a provocação para ser olhado são características de uma estética e espetáculo, partícipes do culto ao corpo tão exacerbado em nossa sociedade, tem-se que a tatuagem estaria também a serviço das subjetivações quanto ao embelezamento e culto ao corpo.

Percebe-se, portanto, a coexistência de movimentos divergentes no ato de se fazer tatuar, tornando paradigmáticas as problemáticas do corpo e das tatuagens na atualidade.

 

A tatuagem nas malhas da imagem, da visibilidade e da performance

É fato que atualmente, na sociedade ocidental, o tratamento dado ao corpo engloba a sua maior "visibilidade" e a sua "espetacularização" na esfera pública. Essa configuração acompanha movimentos do contexto histórico mais amplo, particularmente analisado por Guy Debord (1997): a emergência da sociedade do espetáculo. Preocupado em examinar a sociedade de consumo de massas nos seus aspectos culturais, o autor assinala a existência da separação e afastamento do mundo da vida em imagens, na direção da criação e crescente autonomização do "mundo das imagens", ou, em outros termos, a passagem do controle da imagem pelo homem para o controle da imagem sobre o homem.

Na contemporaneidade se observa uma tendência pela proliferação de produtos, tecnologias e saberes especializados dirigidos para o embelezamento do corpo (Sant'anna, 2000). Ocorre uma verdadeira valorização e exploração do mesmo. Esse culto ao corpo que rompe com o passado de restrições e tabus (religiosos e morais) é, segundo Sant'anna (2000), parte de um movimento mais amplo de liberação progressiva, resultando na emergência de novas experiências de subjetividade. O consumo da imagem do corpo é consonante com a lógica do espetáculo, onde o olhar ganha destaque. O olhar e o ser olhado é característica da estetização e espetacularização do corpo, tornando-o mercadoria preciosa que deve ser cuidada para continuar jovem, saudável, produtora infatigável de prazer (Sant'anna, 2002).

Há uma exacerbação desse culto, pois a imagem corporal tem influência no sentimento de pertença social. Há padrões a serem valorizados; criam-se anseios de alcançar e se incluir nesses padrões. Fala-se de uma mudança de uma sociedade de controle-repressão para um controle-estimulação (Foucault, 1979/2006). Dessa forma, modos de subjetivação são construídos de forma a alcançar sensações de prazer, status, reconhecimento social, através principalmente do consumo de bens que se voltem para a estética corporal. Necessidades são criadas, e a experiência de sua imprescindibilidade se constrói em todo indivíduo. Há transformações nas formas de poder. Essas não são mais exercidas pela repressão, mas pela produção contínua de novas estimulações.

A aparência é valorizada, e o corpo sofre um processo pelo qual o sujeito se autocontrola, autovigia e autogoverna. Nesse processo de subjetivação, Ortega (2006) aponta que "a aparência do corpo tornou-se central às noções de auto-identidade. O corpo veio representar a liberdade pessoal, o melhor de nós" (p. 46). Fato que coloca o corpo como um objeto de visão, em que se transpassa o mundo interno para a "carne externa". Nesse sentido, o olhar do outro se torna decisivo para a garantia da existência.

Essa lógica subjetiva que aponta "o ver e o ser visto" como um imperativo social faz com que as pessoas se coloquem, elas próprias, como outdoors ambulantes, em que as roupas e o próprio corpo revelam padrões fornecidos pelo mercado e pela mídia, acarretando inclusive na banalização da identidade (Menezes, 2008), no sentido de os sujeitos enxergarem em seus corpos a possibilidade de serem assemelhados à matéria plástica. Isso é o que Vladimir Safatle (2004, citado por Menezes, 2008) chama de corpo reconfigurável. É como se a existência fosse garantida pela plasticidade e a contínua reconfiguração do corpo, para satisfazer as exigências sociais que enfatizam essa performance e excluem aqueles que não a praticam.

Para Birman (2001), a subjetividade contemporânea sustenta o paradoxo de um autocentramento voltado para exterioridade, em que a dimensão estética, dada pelo olhar do outro, ganha destaque. É neste contexto que a tatuagem, junto a outras práticas de modificação corporal, tem tido presença marcante. A pele transformou-se numa tela onde se projetam desenhos, cores, ilustrações. A carne e a pele correspondem à vitrine e à propaganda que se faz de si mesmo. Esses dois elementos são fundamentais para uma sociedade que se apoia na aparência, no espetáculo, na performance. O corpo seria, portanto, um acessório da presença (Le Breton, 2008).

Se essas práticas colocam o corpo num lugar de centralidade, no sentido de que é palco para diversas modificações, levando ao limite do esgarçamento da carne, dos músculos, da pele, em que medida se pode, por outro lado, escapar da serialização, do molde, da superficialidade da aparência? Será que o corpo não pode se libertar dos constrangimentos sociais e ser tomado como lugar de emancipação?

Essas são perguntas importantes para garantir a reflexividade do tema. Acreditar que o corpo é pura reprodução é deixar de lado a sua potência criativa. É fato que ele tem sua instrumentalidade social, porém é lugar de agenciamentos, de criatividade. Essa é a aposta deste texto.

 

Entre linhas, cores e sentidos...

Evidências da história e da antropologia (Osório, 2006; Rodriguez, 2011) revelam que as práticas de modificação corporal não são em sua maioria recentes. Elas estão presentes em diversas culturas e trazem a pele como principal parte do corpo para carregar essas inscrições. Muitos povos utilizavam e ainda utilizam tatuagens e escarificações como forma de marcar rituais de passagem (nascimento, puberdade, reprodução e morte), ou como forma de embelezamento (Kury, Hargreaves, & Valença, 2000).

Tendo em vista os aspectos culturais e históricos das marcações corporais, nota-se que a apropriação dessas práticas no ocidente, assim como as conhecemos atualmente, são de outra ordem daquela vigente no passado. Durante muito tempo, grupos como prostitutas, marginais e criminosos foram fortemente associados à tatuagem. Essa associação criou condições sociais e culturais para o entendimento dessas marcas corporais como estigma (Goffman, 1988), já que passou a se configurar "como evidência ou característica corporal cuja leitura induz um efeito de descrédito sobre quem o porta" (Ferreira, 2004, p. 75). Apesar de ocorrer em menor grau, ainda é possível encontrar essa vinculação.

Se durante um tempo ela ficou circunscrita a alguns grupos, posteriormente outros grupos passaram a realizar esse tipo de prática. Nas décadas de 50 e 60 do século XX, além de ser utilizada por gangues, passou a ser vista também como emblema de movimentos contraculturais como roqueiros, motoqueiros, hippies e punks. Dessa forma, a tatuagem não estava mais ligada unicamente à marginalidade ou a determinados círculos econômicos, mas se articulava a propostas políticas, éticas e estéticas contrárias à norma social. Seu uso parecia ostentar publicamente o rompimento com as regras sociais, instituindo-se como signos expressivos de rebeldia.

Intensificadas, principalmente no fim do século XX, as práticas de marcas corporais e, em especial, a tatuagem, saíram do registro de marginalidade para permear a cultura dominante como forma de expressão corporal. Elas perderam algumas de suas características transgressivas e incorporaram possibilidades estéticas mais bem aceitas pela sociedade. A tatuagem, hoje, é praticada em condições materiais, sociais e simbólicas bastante diferentes. Constitui-se uma opção estética muito procurada pelas novas gerações. É compreendida muitas vezes como arte e forma de expressão da mesma. Em alguns casos, o corpo se torna uma obra ambulante1.

Nas últimas décadas houve uma expansão do número de estúdios que oferecem este tipo de serviço. Tatuar deixou de ser uma prática feita à mão, como um ofício artesanal, praticada por amadores, ensinada informalmente, e realizada durante festas, para dar lugar a um processo mais técnico, com lojas exclusivas, com equipamentos especializados, materiais descartáveis e a profissionalização dos seus praticantes.

Se a tatuagem durante muito tempo esteve associada à marginalidade, rebeldia e contestação, ela ganhou outros significados quando começou a se inserir em novos contextos sociais, conquistando as classes média e alta. Houve a passagem de uma concepção de estigma para ser vista e apreciada como forma de expressão, arte e adereço corporal. Não se trata de uma concepção substituir a outra, elas na verdade coexistem. O que de fato acontece é o privilégio de uma em relação à outra em diferentes momentos.

No contexto atual é frequente ver corpos tatuados em diversos segmentos sociais, sem restrições quanto à idade ou gênero. Essa mudança de perfil é bastante interessante, pois a prática da tatuagem voltava-se para uma clientela majoritariamente masculina e marginalizada. Depois a um público mais jovem, principalmente os envolvidos com os movimentos de contracultura. Mais tarde, embutida de outros valores e praticada de forma mais técnica, com preocupações com a biossegurança, conquistou outros segmentos incorporando possibilidades estéticas aceitas pela sociedade. Dessa forma, as diferenças no que concerne à idade e gênero diminuem.

 

Subjetivações inscritas com agulhas e tintas

A linha de questionamento e reflexão deste artigo esteve desde o início atrelada a movimentos divergentes quanto à investida na feitura de marcas permanentes e semipermanentes no corpo. Como apontado anteriormente, as mudanças rápidas, a fluidez, a efemeridade são características que atravessam a sociedade ocidental moderna. Num primeiro momento, essa configuração nos coloca frente a um paradoxo. Na contramão dessas subjetivações, nota-se o aumento das demandas por feituras de tatuagem, dentre outras formas de modificação corporal. Fato que chama a atenção por evocar justamente a permanência, uma temporalidade duradoura e menos flexível a mudanças. Por outro lado, a imagem e o tempo imediato são também extremamente valorizados e participam das produções subjetivas na contemporaneidade. O ato de olhar e a provocação para ser olhado são características de uma estética e do espetáculo, consonantes com os movimentos de culto ao corpo tão exacerbados em nossa sociedade.

Se, no primeiro agenciamento, realizar uma tatuagem vai em direção oposta à das subjetivações atuais, no segundo ela parece estar a serviço delas quanto ao embelezamento e culto ao corpo. Estes são movimentos distintos, que apontam para divergências e convergências do mesmo fenômeno: a realização de tatuagens. Essa dinâmica nos faz problematizar essa captura serializadora do corpo na atualidade e a possibilidade de que o mesmo também esteja a serviço de uma resistência.

O corpo ocupa um papel de destaque na sociedade ocidental contemporânea. Ele triunfa pelas exigências, mensagens e apelos dos quais é objeto. Imagens de corpos "sem defeitos", jovens, bonitos, malhados são veiculadas nas capas de revistas, nos outdoors, na televisão, no cinema, nas clínicas de estética, nas academias. Configura-se um sistema que incentiva o enquadre numa serialização de imagens, seguindo determinados padrões.

Há toda uma produção, construída socialmente, que enfatiza uma série de procedimentos quanto aos cuidados corporais e modificação do mesmo. Esta última tem atingido altos níveis, tanto no que se refere à sua presença crescente na população quanto aos limites que as diferentes técnicas de modificação chegam a atingir. São diversas as práticas cosméticas, biomédicas e estéticas pelas quais o corpo é constantemente submetido na sociedade contemporânea. Ortega (2006) nos adverte que "o imperativo do cuidado, da vigilância e da ascese constante de si, necessário para atingir e manter os ideais impostos pela ideologia da saúde, exige uma disciplina enorme" (p. 45). Sendo assim, não é suficiente um corpo, ele deve ser um corpo perfeito. É como se ele correspondesse a uma matéria bruta a ser esculpida segundo o "design do momento" (Le Breton, 2008, p. 28).

Nesse contexto, os avanços técnico-científicos estão colocados à disposição daqueles que quiserem "salvar" o corpo da sua imperfeição "natural" (Le Breton, 2008), atuando com eficácia para sua reconstrução e aperfeiçoamento.

Ortega (2006, 2008) analisa as abordagens relativas às modificações corporais em geral e, dentre elas, a tatuagem. Ele defende a ideia de que se vive num processo denominado de "somatização da subjetividade" (2006, p. 46). Nesse processo, o corpo é objeto da visão, e passa a haver uma equivalência entre corpo e self, como se houvesse uma transmutação do mundo interno para a superfície da pele, correspondendo, dessa forma, a um ponto de permanência, de estabilidade e pertencimento socioculturais.

O investimento no corpo se coloca como necessidade e resposta do indivíduo à grande insegurança vivida atualmente, decorrente da desestruturação dos laços sociais, da perda de valores e significados coletivos que contribuem para a estruturação do mundo simbólico (Ortega, 2006). Essa perda exacerba o sentimento de insegurança, levando à procura da realidade corpórea dos acontecimentos. Nesse caso, faz-se sentir literalmente na pele. A tatuagem se constituiria num "esforço no sentido de fugir da cultura da aparência e de recuperar uma dimensão do vivido corporal" (Ortega, 2006, p. 49). Essa afirmação é curiosa, pois a aposta está em "fugir" da superficialidade atribuída à aparência; no entanto, isto se dá, no caso das modificações corporais, na superfície da pele, onde se reforça a atração pelo olhar do outro. A aparência e a superfície continuam em jogo, porém num processo diferente. Não se reforça a efemeridade e instantaneidade, mas a permanência.

Considerando que a aparência do corpo tem implicações na identidade pessoal, essas marcas dão uma localização corporal específica à identidade subjetiva. Elas atestam uma realidade permanente ou semipermanente e, levando-se em conta que são processos que envolvem inclusive dor, sangramento e cuidados posteriores, não participam de uma lógica de consumo do tipo "prateleira de supermercado". Obviamente são práticas atravessadas por uma lógica mercadológica; não se trata de negá-la, mas apontar que há uma especificidade, já que está a serviço de uma simbolização.

Essa passagem do que seria da ordem simbólica para o real se dá pelo e no corpo (Ortega, 2006). Vive-se um momento em que o imediato tornou-se uma dimensão temporal quase tirânica. O presente é enfatizado, e o corpo é tomado pela sua realidade incontestável. Nesse caminho, entra em cena, no momento da feitura da tatuagem, uma vivência sensorial que envolve dor e prazer. A superfície do corpo constitui um lugar privilegiado de sensações que estabelecem, pois, um "limite senso-perceptivo delineador de uma unidade" (Moreira, Teixeira, & Nicolau, 2010, p. 592). A tatuagem pode oferecer para o sujeito uma identidade de superfície. Sentir-se vivo é sentir na pele sua existência. E a tatuagem leva ao extremo essa consideração; inscreve-se na pele a própria história do sujeito, atesta uma existência.

Frente à desestruturação dos laços sociais e ao distanciamento do outro somados à perda da capacidade de narrar (Benjamin, 1994), a superfície da pele funciona como um modo de comunicação. À medida que pouco se usa das palavras, registram-se no real do corpo, os acontecimentos.

Os sentidos atribuídos às tatuagens são muitos e, possivelmente, nem todos possuem uma clareza quanto ao motivo e o que representam, mas percebe-se que se trata de uma dominação da dor e do corpo no momento de sua execução e que está em jogo uma espécie de prazer. Há, portanto, uma reivindicação de experiência tátil e sensorial, que divide a cena com o lugar privilegiado que a visão ocupa na sociedade atual.

Entendemos que o corpo possui sua instrumentalidade social, mas não é puro reprodutor dessas práticas. Ele é ou pode ser capturado por esse investimento na valorização da imagem e ser palco para a reprodução de práticas que cultuem a aparência e se restrinjam à superficialidade, mas não apenas isso. É notório o movimento expansivo da aceitação social da tatuagem. Ele poderia se configurar enquanto um grande modismo, em que se produzem corpos tatuados em série. Desenhos parecidos ou majoritariamente numa região do corpo fariam com que as pessoas ficassem mais ou menos iguais. Essa perspectiva aponta para um corpo capturado e aprisionado a produções subjetivas que valorizam a serialização, e a imagem segundo determinados padrões divulgados e disseminados principalmente pelas mídias. A valorização do corpo enquanto uma produção de igual, de adequação, parece-nos limitadora. Se o corpo fosse apenas suporte para esse tipo de produção e reprodução, é possível que, num futuro não muito distante, a valorização depositada no corpo talvez enfatizasse a ausência de manipulações sobre ele, um corpo "como veio ao mundo".

Assim, ele pode também fazer frente à efemeridade na atualidade, buscando pontos de ancoragem através de marcas permanentes e semipermanentes. Neste último caso, a efemeridade e a instantaneidade não são reforçadas, a durabilidade e a permanência é que são evocadas. É possível verificar o desejo pela diferenciação, dentro dessa mesma valorização do corpo através de marcas corporais. A pele funciona como registro de experiências biográficas, marcas com sentido pessoal e singular. A procura por estúdios de tatuagem tem valorizado os trabalhos de caráter mais personalizados, que envolvem a exclusividade do desenho, por exemplo. Nesse sentido, o corpo toma um caráter de emancipação e resistência aos processos serializadores. Seriam sinalizadores de um corpo singularizado, com histórias e marcas particulares a cada um.

Essas diferentes perspectivas indicam que não se pode falar de tatuagem de uma única forma. Há um fascínio sobre o corpo que é aprisionador num sentido e emancipador em outro. Essas perspectivas coexistem, não sendo excludentes entre si. Elas só podem ser verificadas à medida que estão encarnadas em sujeitos com histórias particulares e que dão um lugar à tatuagem realizada.

 

Construindo possibilidades e sentidos...

O trabalho de campo que deu origem a este artigo se baseou em entrevistas semidirigidas com adultos tatuados e profissionais tatuadores. No entanto, para o objetivo deste texto, nos restringimos às entrevistas realizadas com adultos tatuados, de forma a auxiliar na discussão sobre as problemáticas visibilidade e experiência tátil.

O interesse principal esteve pautado nas concepções, ideias e valores atribuídos à tatuagem na sociedade atual. As entrevistas abarcaram eixos como: a motivação em fazer uma tatuagem; o tamanho e local do corpo em que foi feita; quais desenhos escolhidos; os sentidos atribuídos às tatuagens; a relação com o estúdio e o tatuador; a dor física envolvida; e as expectativas em relação ao efeito final. É importante destacar que se priorizou a dinâmica da entrevista, sem contudo perder o foco quanto aos eixos temáticos.

Todos os participantes eram moradores da cidade do Rio de Janeiro, totalizando 10 entrevistas, das quais destacamos algumas falas. O tamanho da amostra foi definido com base no ponto de saturação (Denzin & Lincoln, 1994, citado por Carreteiro, 20122) ou ponto de redundância (Alvez-Mazzotti & Gewandsznajder, 1999, citado por Carreteiro, 2012). Esses critérios permitem suspender a inclusão de novos participantes quando os dados obtidos passam a apresentar repetição ou certo grau de redundância. As mesmas foram autorizadas por meio de assinatura de termo de consentimento livre e esclarecido, transcritas e submetidas à análise de conteúdo (Bardin, 1995).

A análise das entrevistas mostrou que, em muitos casos, a tatuagem registra, como uma memória no corpo, momentos importantes da vida daquele que a faz. Conserva-se no corpo a história de experiências vividas ou sentimentos e representações atrelados a eles. A tatuagem, em outros momentos históricos, também carregava esse objetivo, assim como fazia parte de ritos de passagem e iniciação, que tinham um caráter coletivo e determinavam status social, e também se constituíam enquanto identidade cultural. Atualmente, a dimensão ritualística da tatuagem se diferencia grandemente dessas do passado, em função e significado. Não necessariamente está atrelada a situações coletivas, que retratam momentos de passagem institucionalizados. Ao contrário, se ancora na biografia do seu portador.

Percebe-se uma atribuição à tatuagem que comporta "o real do passado", as expectativas para o futuro ou ainda a intensidade do presente. O que há em comum nesses três tempos é o próprio sujeito, aquele que talha histórias numa corporeidade que (re)territorializa o corpo como uma forma de expressão identitária. A superfície do corpo se torna uma grande testemunha das experiências, carregada de significados. Retratam, muitas vezes, momentos de passagem, etapas da vida, conquistas ou sofrimentos, porém, enfatizam uma trajetória pessoal, tornando-a recordação de uma existência particular.

Ao longo da vida, o corpo vai sendo marcado pelas experiências e vivências que garantem não apenas a memória dos acontecimentos, mas calos e cicatrizes e também de novas áreas de investimento e libidinização. Numa sociedade onde há ênfase no aspecto visual, essa memória, para alguns, passa a ser registrada em forma de imagens na superfície da pele.

Ao falar de suas tatuagens, a entrevistada Daniele3 (28 anos) conta o que a motivou a fazê-las e retrata muito claramente essas ideias de marcar as experiências da vida e vivenciá-las na carne:

A primeira nasceu da necessidade de tatuar alguma coisa que falasse da minha identidade, o meu nome [abelha, significado de seu nome]. A segunda tinha a ver com o fim da faculdade e o desejo de sucesso [estrela], a terceira tinha a ver com a minha vida em geral, queria mais romantismo, delicadeza [rosa cercada de flores azuis]. É assim, né?! Cada tattoo sempre carrega a marca do momento que a pessoa estava vivendo quando decidiu fazer.

Ela prossegue destacando a importância da dor no ato de se fazer tatuar, no sentir literalmente na pele aquele momento de sua vida:

Cada uma tem um significado, mas a terceira marca um período de força, de ter passado por muitas coisas e de me mostrar e perceber que era capaz de superar algumas dores. Ela doeu bastante e acho que passar por aquela dor foi só um símbolo de outras dores.

A tatuagem, marca feita a "agulha e tinta", se prende à carne viva, a desenha, modifica e redesenha, registrando e reatualizando sentimentos e situações importantes para aqueles que se fazem tatuar. Representam lembranças, homenagens, eventos importantes, mudanças de etapa na vida. São datas, símbolos, retratos, com função explicitamente memorial e identitária. Frente às rápidas mudanças com que cada um se depara todos os dias na vida, a tatuagem parece funcionar como algo regular que permanece, como um depósito de memórias ou características próprias que se desejam manter, dar corpo, tornar "real".

Sabe-se que já existem algumas técnicas de clareamento e remoção dessas pigmentações da pele e que, por motivos múltiplos, pessoas fazem uso desse recurso. Isso demonstra que a tatuagem, enquanto uma modificação corporal de caráter permanente, tem sido capturada pela lógica do efêmero. Dessa forma, esses eventos ou acontecimentos da vida que são marcados no corpo em forma de tatuagem podem ser ressignificados, elaborados, mas também ser apagados ou refeitos.

Falando da distância em relação aos avós que o criaram, e que se mudaram para outro estado, Luiz (20 anos) os homenageia, simbolicamente, com a intenção de deixá-los perto de alguma maneira. Tendo em vista que sua mãe se encontra na mesma série de cuidado e quase que "como medida preventiva" antes que também se distancie dela, ele a inclui em sua homenagem:

A primeira [tatuagem] foi essa com o nome dos meus avós e da minha mãe ... porque são pessoas muito importantes na minha vida ... no caso dos meus avós foi mais por saudade ... porque eles se mudaram pra outro estado e estão longe de casa. Quero que eles continuem por perto, minha mãe também.

Nessa tatuagem há dois aspectos a serem destacados. O primeiro diz respeito a um momento de ruptura e de despedida. Há um evento doloroso de afastamento físico de familiares a quem Luiz dedica muito amor. Apesar de doloroso, é um evento marcante do qual faz questão de se recordar. O segundo, em parte consequência do primeiro, é o caráter de homenagem que sua tatuagem toma. Ele destaca dentre os seus familiares aqueles a quem tem um apreço maior e que estiveram presentes em sua vida, e tenta garantir que assim continuem.

Rogério (31 anos), ao apresentar suas diversas tatuagens, diz que já perdeu as contas de quantas possui:

se você for contar por desenho, eu não sei mais nem o que é. Agora, se for contar tatuagem, tem esse braço aqui fechado4; tem esse aqui, meia manga; aqui, tem esses que preenchem os dois lados do peito; aqui, as duas pernas do joelho pra baixo ... Essa é minha mãe, pena que tá ressecado, mas dá pra ver. Minha mãe, meu pai, meu filho mais novo. Ah, tem fechamento de pé, tem um nas costas aqui. ... Tem uma aqui de cada lado, uma mulher.

Como visto em sua fala, dentre todos esses desenhos, ele carrega três retratos tatuados em seu corpo, os quais destaca em sua fala: seus pais e seu filho. Essas são também pessoas importantes na sua vida às quais resolveu prestar homenagens carregando-as na pele. Rogério conta que seus pais nunca foram muito receptivos à ideia de que se tatuasse. Ele descreve situações em que ouviu comentários preconceituosos sobre isso, fato que em diversos momentos o revoltava. Seu relacionamento com o pai era bastante conturbado, divergiam em diversas opiniões, e atribui a isso o fato de serem também muito parecidos. O ato de tatuar principalmente o retrato de seu pai acabou sensibilizando-o, e apesar de seu pai se posicionar totalmente contra tatuagens, sentiu-se emocionado com a homenagem.

Percebe-se nesses depoimentos que as tatuagens do tipo homenagem trazem literalmente à superfície da pele sentimentos e declarações a pessoas importantes. Parece não bastar demonstrá-lo no discurso e nas práticas. É algo que se marca na pele, instituindo a eternidade de um amor, homenagem duradoura.

Joyce (29 anos) aposta em tatuagens para marcar na pele acontecimentos importantes de sua vida. Após uma série de desventuras amorosas, utiliza a tatuagem como forma de superá-las. Procura fazer um trocadilho de seu coração em situações nas quais ele fica "um lixo" e dá um toque de humor a elas. Parece que a tatuagem é suporte para lembrar das dores pelas quais já passou, mas também a possibilidades de superá-las.

Há pouco tempo fiz essa aqui no outro pulso. É um coração com o símbolo de reciclável, aquele que a gente encontra em embalagens de leite e tal, tá vendo?! Então, decidi fazer porque minha vida amorosa estava uma merda. Nunca dava certo e só sofria, quebrava a cara. Decidi encarar as coisas então que nem o Vinícius disse: "eterno enquanto dure". Se acaba, aparece outro e tudo se renova. Reciclagem, entendeu?! Foi um jeito de também brincar e rir do que acontece comigo. No fundo, no fundo, queria não ter que reciclar meus amores, mas se isso for o possível agora então é isso.

Ainda referendando seus sofrimentos e suas dificuldades, aposta em outras duas tatuagens: Flor de Lótus e Ganesha. Ambas, nas costas, combinadas, fazendo alusão à superação de obstáculos. Elas reforçam, para Joyce, a ideia de força pra continuar.

Resolvi fazer porque me identifico com a cultura hindu. Frequento às vezes um centro budista. Ganesha é um deus que remove todos os obstáculos, é o protetor e também o deus do conhecimento. Ele representa o sábio, o homem em plenitude, e os caminhos para se realizar. Acho que estava precisando de uma ajuda espiritual. Não estava conseguindo me sentir realizada no meu trabalho, queria sair de casa e morar sozinha, meus relacionamentos não estavam dando certo. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Precisava de força e apostei em Ganesha.

Parece que na história de vida dessa jovem suas tatuagens têm como traço regular a esperança, a aposta num futuro melhor e escolhas mais felizes. Pode-se pensar que marca no corpo a expectativa de tentar fazer diferente na vida amorosa. Trata-se, em parte, de preocupação em não mais repeti-las. O que chama a atenção nesse caso é que não basta se dar conta de determinados posicionamentos que tem na vida. Para ela, é necessária uma imagem inscrita na pele que a relembre disso a todo instante.

Maria Eduarda (24 anos) procurou um estúdio para colocar um piercing e se interessou pela figura de um par de andorinhas. Resolveu pesquisar e decidiu por fazer: "eu fiz pesquisa sobre a tatuagem em si; o que era o significado da andorinha. Tem esse negócio da fidelidade, porque a andorinha quando encontra seu par ela fica com ele eternamente. Se ele morrer, ela fica sozinha". Dentro de sua história pessoal, essa escolha não foi gratuita. Após algumas desventuras e frustrações amorosas, Maria Eduarda procura marcar na pele a esperança em encontrar fidelidade num relacionamento.

Os trechos destacados das entrevistas apontam para um cuidado na seleção dos desenhos escolhidos. Há uma preocupação com o gosto estético, porém a ênfase está no recurso metafórico no processo de feitura da tatuagem. Essas imagens carregam em si vivências e configuram projetos de corpos, de identidades, de estilo de vida. Ficam evidenciados o valor biográfico do desenho escolhido e a necessidade de reviver certos acontecimentos e de, alguma forma, "senti-los na pele".

 

Considerações finais

Atualmente há uma tendência em tomar o corpo como palco do prazer. Ele se encontra a serviço de uma autorrealização que comporta as dimensões afetiva, econômica, de bem-estar físico e sucesso pessoal (Costa, 2001). Esse autorreferenciamento gera uma associação entre felicidade, sucesso e prazer. O corpo é hipervalorizado como sede de acontecimentos e há um imperativo para sua apreciação, configurando-se como "sede do espetáculo". É neste contexto que se observa um "boom" de estabelecimentos voltados para a bioestética. Estabelece-se uma "cultura de si mesmo", onde há exacerbação da estetização física e do culto ao corpo. Ele toma dimensões plásticas, que possibilitam sua construção e reconstrução contínua. A imagem conquistou um lugar privilegiado, e a tatuagem, junto a outras práticas de modificações corporais, ganhou espaço.

A tatuagem tem conquistado vários adeptos nos últimos anos. Essa expansão é notória tendo em vista não apenas as pessoas tatuadas nos círculos de convivência, mas pelo aumento do número de estabelecimentos voltados a essa atividade e a grande atenção que as ciências humanas têm dispensado a problemáticas que envolvem o lugar do corpo na contemporaneidade. Não há como negar que houve uma grande popularização dessa prática no Rio de Janeiro e, com isso, uma alimentação mútua entre o público e os empreendimentos comerciais. É frequente ver corpos tatuados em diversos segmentos sociais, sem restrições quanto à idade ou gênero. Frente a esse contexto de expansão, estivemos atentos a movimentos divergentes quanto à investida na feitura de marcas permanentes e semipermanentes no corpo e destacamos o delineamento de dois movimentos, que apontam para divergências e convergências do mesmo fenômeno, a realização de tatuagens. Por um lado, há um privilégio pela fugacidade e efemeridade nas subjetivações. Por outro, a imagem e a aparência são valorizadas. Frente a esses dois agenciamentos, a tatuagem encontra-se respectivamente na contramão e a serviço desses processos.

A partir das entrevistas realizadas, notamos que o uso da tatuagem está para além da reprodução pura e simples de subjetividade em voga. Em muitos casos, ela está a serviço de simbolizações. Ela apresenta uma potência criativa e de emancipação. Observou-se, na análise do material colhido, que as feituras de tatuagem eram em certa medida portadoras de traços biográficos do sujeito, de significados importantes, e diziam de sua história singular. As escolhas não eram gratuitas; estavam intimamente relacionadas ao momento experienciado pelo sujeito quando as fez. Muitas delas privilegiavam o sentido particular, do qual a tatuagem era símbolo.

Os sentidos atribuídos às tatuagens são diversos, e nem todas as pessoas apresentam uma clareza quanto à motivação e o que desejam representar. Apesar disso, notou-se uma reivindicação de experiência tátil e sensorial das vivências. Há uma busca pela realidade corpórea dos acontecimentos. É preciso sentir literalmente na pele. Para algumas pessoas, as tatuagens se tornaram recursos mnemônicos e busca de elaboração.

O corpo foi privilegiado como um meio de comunicação e expressão através do qual o sujeito exterioriza seus afetos e interesses. Através da tatuagem, a sua história é escrita e inscrita. Não é possível ficar completamente nu quando se porta uma tatuagem. Ela possui um sentido específico para o momento em que o sujeito a fez. E esse registro se revela e desvela naqueles segundos em que é visto pelos outros. Há uma economia de palavras e excesso de imagens em jogo que é consonante com as subjetivações atuais.

Como pôde ser visto no decorrer deste trabalho, são muitas as modificações em curso no campo das práticas corporais contemporâneas. Há preocupações com o corpo e a imagem, que são fortalecidas e incentivadas por estudos científicos e aprimoramentos técnicos. Apesar de ser notável o aumento de exigências sobre as pessoas, o imperativo da velocidade e de mudanças rápidas, o corpo tem sido investido de técnicas para "retardar" o envelhecimento, mantê-lo bonito, com aspecto jovial. Por um lado, está a serviço de uma preocupação estética e submetido a um mercado que produz essas necessidades; por outro, tenta adiar as mudanças. Servindo do mesmo modo a vários senhores, está a tatuagem. Ao mesmo tempo em que é capturada pelo valor estético e incentivo mercadológico, que a acomete há anos, também tem sido valorizada pela possibilidade de diferenciação e personalização que a marca confere àquele que a porta.

Este estudo é apenas um dos inúmeros recortes possíveis para tratar essas problemáticas. Também não houve a pretensão de esgotar o assunto, tão amplo e complexo, mas sim a de encaminhar questionamentos sobre ele. A tatuagem, dentro das práticas de modificação corporal, faz parte de uma dinâmica social mais ampla e que tem implicações importantes na vida das pessoas.

 

Notas

1 Expressão utilizada neste trabalho para designar pessoas que possuem grandes quantidades de tatuagens no corpo.

2 Carreteiro, T. C. O. C. (2012). Trabalho em tempos Hiper-modernos e construção de projetos no funcionalismo público. Pesquisa CNPq.

3 Todos os nomes dos entrevistados foram modificados neste trabalho.

4 O verbo "fechar" e suas variações significam, na linguagem de tatuados e tatuadores, a combinação de figuras, imagens e/ou palavras que ocupam alguma extensão maior do corpo, como, por exemplo, o fechamento de costas, do braço, antebraço, perna, pé etc.

 

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Submissão em: 03/07/2012
Revisão em: 19/10/2013
Aceite em: 11/11/2013

 

 

Luciana da Silva Rodriguez é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense - UFF. Endereço: Rua Dr. Gastão Reis, 543, Paulicéia. Duque de Caxias/RJ, Brasil. CEP 25080-040. E-mail: lulu_psico@hotmail.com

Teresa Cristina Othenio Cordeiro Carreteiro é professora Titular da Universidade Federal Fluminense - UFF. Niterói/RJ, Brasil. E-mail: tecar2@uol.com.br

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