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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.27 no.1 Belo Horizonte Jan./Apr. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1807-03102015v27n1p080 

Artigos

PSICOLOGIA AMBIENTAL: UM ESTUDO ACERCA DA RESISTÊNCIA FRENTE À MINERAÇÃO EM IÇARA, SC

PSICOLOGÍA AMBIENTAL: UN ESTUDIO SOBRE LA RESISTENCIA A LA MINERÍA EN ICARA, SC

ENVIRONMENTAL PSYCHOLOGY: A STUDY ON THE RESISTANCE TO MINING IN IÇARA, SC

Rosa Nadir Teixeira Jerônimo1 

Rosimeri Vieira da Cruz de Souza1 

1 Universidade do Extremo Sul Catarinense, Criciúma/SC, Brasil

RESUMO

O presente estudo insere-se no âmbito da Psicologia Ambiental, o qual investiga a resistência dos moradores das comunidades de Santa Cruz e Esperança (Içara/SC) à abertura de uma mineradora de carvão. Realizou-se um estudo de caso por meio de entrevistas semiestruturadas com seis sujeitos de duas famílias destas comunidades, abrangendo três gerações. Buscou-se compreender os significados psicossocioambientais que os agricultores das comunidades de Santa Cruz e Esperança atribuem às possíveis ameaças das atividades da mineradora no local. Os resultados inferem que resistir à mineradora em tais comunidades significa preservar a identidade cultural e de lugar. Os sujeitos demonstram uma identificação com a comunidade e com o trabalho que desenvolvem, a agricultura familiar aponta como um elo entre as gerações, que influencia na construção da identidade social destes, e por fim, permite compreender o seu sentimento de pertença e a luta pela preservação do seu lugar.

Palavras-Chave: psicologia ambiental; mineração; identidade social; resistência.

RESUMEN

El estudio se insere en el ámbito de la Psicología ambiental, investigando la resistencia de los habitantes de las comunidades de Santa Cruz y Esperanza (Içara/SC) a la apertura de un minero de carbón. Se llevó a cabo un estudio de caso a través de entrevistas semi-estructuradas con seis sujetos de dos familias, incluyendo a tres generaciones. Tratamos de entender los significados psicosocioambientales que los agricultores atribuyen a las amenazas potenciales de la actividad minera en el lugar. Los resultados sugieren que resistir a la minería significa preservar la identidad cultural y de lugar. Los sujetos muestran una identificación con la comunidad y el trabajo que hacen. La agricultura familiar se presenta como un lazo que une generaciones, influyendo en la construcción de la identidad social de los mismos, y, finalmente, nos permite entender el sentido de pertenencia de éstos y la lucha por preservar su lugar.

Palabras-clave: Psicología ambiental; minería; identidad social; resistencia.

ABSTRACT

This study is inserted in the context of Environmental Psychology to investigate the resistance of residents in the communities of Santa Cruz and Esperança (Içara/SC) to the opening of a coal mining. A study of case using semi-structured interviews as methodology was realized, with six persons in two families, comprising three generations. We sought to understand the psychosocial and environmental meanings that the farmers attribute to the possible threats of mining activities in the place. They suggest that resisting the mining company in these communities means preserving their place and cultural identity. The subjects showed identification with the community and the work they do. Family farming stands as a link that connects the generations, influencing the construction of social identity and allows us to understand their sense of belonging, as well as the fight to preserve it.

Key words: Environmental psychology; mining; social identity; resistance.

Introdução

A temática do presente estudo insere-se na área da Psicologia Ambiental, com o intento de compreender os significados psicossocioambientais que os agricultores das comunidades de Santa Cruz e Esperança atribuíam às ameaças das atividades da mineradora no local.

Com base neste processo de aproximação com as comunidades, obteve-se o conhecimento de que o início do conflito se deu em 2004, quando os moradores locais presenciaram com surpresa uma atividade estranha ao local: intenso barulho, máquinas, ferros, perfuração do solo. Os agricultores tomaram a medida de ir às cidades vizinhas, onde a mineração é uma realidade. Por conta disso, iniciaram um movimento de resistência. Nascia, assim, "o Movimento Pela Vida", que tinha por bandeira: Acorda, Içara. Carvão traz degradação, de acordo com Souza (2009).

Nessa perspectiva, Günther, Pinheiro e Guzzo (2004) relacionam atitudes de defesa do espaço à Psicologia Ambiental, que trata do relacionamento recíproco entre comportamento e ambiente físico, tanto construído quanto natural. Assim, pode-se dizer que este movimento, além de ser uma tentativa de impedir tal degradação, revela também um pedido de socorro das pessoas que ali habitam há tantas gerações. A terra à qual pertencem e pela qual eles têm lutado com unhas e dentes possui um significado que transcende ao material.

Nesse rumo, Gonçalves (2007) afirma que a Psicologia Ambiental explica o referido fenômeno, pois tem por objeto de estudo o significado simbólico do espaço e a compreensão dos processos psicossociais derivados das relações e interações das pessoas, grupos, comunidades e seus entornos sociofísicos. Refere-se a uma área da psicologia que busca explicar os motivos, neste caso, da resistência dos agricultores dessa região, que estão sendo ameaçados de desapropriação do lugar.

Segundo Heimstra (1978), uma atividade considerada como ameaçadora de estresse poderá acarretar danos físicos e psíquicos à pessoa. Por perceber que os aspectos e prejuízos psicológicos de tais famílias não foram levados em conta, caracteriza-se como problema da presente pesquisa responder a seguinte questão: qual o significado psicossocioambiental que os agricultores das comunidades de Santa Cruz e Esperança atribuem à ativação da Mineradora no local?

Método

O estudo configura-se numa pesquisa empírica tendo como método um estudo de caso. A pesquisa foi desenvolvida dentro de uma abordagem qualitativa para melhor análise do problema, que considera a existência da relação entre a realidade e o sujeito.

Participaram do estudo seis sujeitos de duas famílias de agricultores-familiares, envolvendo pessoas de até três gerações (idosos, adultos e jovens) numa mesma família. No total, foram analisados os relatos de seis pessoas nas comunidades de Santa Cruz e Esperança, município de Içara, Santa Catarina. Os mencionados sujeitos foram contatados por intermédio de uma família que já participou de um projeto acadêmico na disciplina de Psicologia Ambiental (2009), a qual indicou a segunda família. O instrumento deste estudo foi uma entrevista semiestruturada, com roteiro de questões previamente formulado, possibilitando uma abertura para alterações necessárias ou mesmo para que os sujeitos pudessem fazer depoimentos, conforme sua própria linha de raciocínio.

As entrevistas foram gravadas e transcritas na íntegra. Para tanto, foi firmado com os sujeitos participantes da investigação um termo de consentimento, no qual autorizaram a publicação das informações, de acordo com a Resolução 196 e o Comitê de Pesquisa. Os nomes dos entrevistados foram preservados, sendo usado assim um pseudônimo.

Resultados e discussão

O significado do espaço/lugar na construção da subjetividade dos agricultores

A Psicologia Ambiental busca compreender de forma interdisciplinar o homem em seu contexto físico, social, cultural e psíquico. Busca, nessas inter-relações homem e ambiente, a compreensão das percepções, atitudes, significados ambientais, ao mesmo tempo considerando os comportamentos associados a elas. Entre os ambientes significativos, encontram-se as categorias de espaço e lugar, que são indicadas por Tuan (1980) pelas experiências comuns. Portanto, segundo o autor, o espaço é a liberdade e o lugar é a segurança. A noção de espaço e lugar ocupa uma posição central na compreensão das relações do homem com seu ambiente.

Seguindo as categorias acima, a Psicologia Ambiental descreve que os lugares, para o sujeito, traduzem sua subjetividade. Pazzini e Jerônimo (2009) salientam que os lugares manifestam a obra simbólica do ser humano, contemplando a emoção e a afetividade da sua vida. Conforme Gonçalves (2002), o lugar apresenta-se carregado de emoções, pois é nesse ambiente constituído que as marcas são postas e configuram-se nas lembranças. Lugar e subjetividade se entrelaçam pelas vivências, pelo simbolismo, pela dimensão identitária que faz parte tanto da singularidade de cada sujeito, quanto da manifestação das aprendizagens sociais que se voltam ao coletivo. O sujeito constrói e revela sua subjetividade nos lugares.

Por meio de entrevistas, José (20 anos, Santa Cruz) aciona o significado do seu lugar da seguinte maneira: "é mais do que morar, tem a questão das raízes, a gente tem aqui as amizades, estão toda aqui"1. Para José, a comunidade tornou-se o lugar, ampliando o modo de ser e de habitar no espaço ao inserir as relações de amizade. Tais aspectos envolvem afetiva, cognitiva e socialmente. Em José, constata-se que sua identidade demonstra seu sentimento de pertença ao lugar.

Para Jerônimo (2012), a construção dos laços com o lugar se dá a partir da cultura, do espaço geográfico, das relações sociais e ambientais. Assim, a Psicologia Ambiental procura estudar os aspectos psicoemocionais (o significado) do espaço para o indivíduo ou grupo, inserido num entorno físico-social. Enfatiza-se a relação recíproca, ou seja, tanto o ambiente influencia o comportamento, quanto é influenciado por ele. Para viver, segundo Tuan (1980), o ser humano atribui algum valor ao seu mundo e, dessa forma, João (48 anos, Santa Cruz) relata o significado e o valor do espaço que escolheu para viver:

Eu moro então nesse local, nessa propriedade há 48 ano, ahn... meu trabalho é aqui que eu vivo da agricultura, ahn... passei minha infância tudo aqui, casei, formei minha família, tenho meus 4 filho aqui vivendo socialmente bem, economicamente bem, porque a agricultura é viável e dá uma vida tranquila pra gente.

João, ao retratar a sua identidade com o lugar, vai realizando um discurso de construção de sua subjetividade por intermédio da identificação com a família, com a vizinhança e com o seu trabalho, significando no sujeito a relação de apropriação com o espaço que ocupa.

O trabalho pode ser definido como um espaço de dedicação humana, bem como a dignidade e vitalidade do sujeito. Os entrevistados possuem uma relação de trabalho com a terra, o que, conforme Jerônimo (2012), traz ao trabalhador rural uma união com a natureza. A terra na qual trabalha e vive é sua grande parceira. Desse modo, Margarida (80 anos, Santa Cruz) elucida seus sentimentos com relação ao espaço e lugar:

Eu acho que assim... uma coisa muito boa, porque aqui a gente trabalhô, a gente criô nossos filho, a gente adquiriu mais alguma coisa, aqui a gente fez amigos na comunidade a gente, na comunidade aqui da Santa Cruz a gente já é bem conhecido, a gente gosta de todo mundo, então a gente se senti feliz. [Grifo nosso]

Como se percebe nas entrevistas, os sujeitos vão transformando o espaço de vida mediante a ação sobre o entorno através de suas marcas. No caso desta pesquisa, por meio da agricultura, foram personificando, coletivamente, o que hoje eles denominam de seu lugar. Gonçalves (2007) diz que o ser humano projeta-se sobre o espaço que se apropria, produzindo uma identificação entre sujeito e espaço que reflete no modo de vida daqueles que o habitam. Dessa maneira, a autora supracitada ressalta que o modo de apropriação de cada grupo, de cada família, de cada indivíduo, depende dos modelos culturais, papéis sociais, formas e estilos de vida.

Refere Hall (2005) que as comunidades ditas tradicionais se diferenciam das sociedades modernas porque mantêm laços com seus lugares, reconduzindo os espaços simbólicos, afetivos e culturais que se refletem na construção da subjetividade individual e coletiva. Essas pessoas mantêm, por meio das gerações, o vínculo ou pertencimento à terra natal.

A agricultura familiar como elo entre as gerações e a identidade social

Para Tuan (1980), o afeto à terra do pequeno agricultor ou camponês é profundo. Conhecem a natureza porque ganham a vida com ela. Por acreditarem no valor e no respeito ao ambiente em que moram e trabalham, também sofrem com o desenvolvimento econômico que se acelera em tempos pós-modernos. Estes novos tempos se traduzem em monoagricultura mecanizada, uso intensivo de agrotóxicos, que pouco lembra o trabalho da poliagricultura familiar.

De acordo com Berezanski (2007), a inquietação com a agricultura familiar, nos últimos anos, vem ganhando força e, portanto, ocupando o seu espaço nas alterações que envolvem desenvolvimento. Os debates em torno da agricultura familiar produzem propostas de modelos que possibilitem a melhoria de vida dos pequenos agricultores.

Segundo Tuan (1980), o trabalhador rural não emoldura a natureza em lindos quadros, mas pode estar profundamente consciente da sua beleza. A natureza desenha sua personalidade e também seu corpo, pois, para Tuan (1980), os músculos e os estigmas testemunham a intimidade física do contato. A topofilia do agricultor está formada dessa familiaridade física, da dependência material e do fato de que a terra é um repositório de frutos.

Assim, Jorge (49 anos, Santa Cruz) é um nativo que construiu seu lar e sua própria família no mesmo lugar, e com tal comportamento fortalece o elo que existe entre agricultura e o valor atribuído à tradição familiar. Conforme Jorge, essas terras lhes pertencem há quatro gerações e não pretende quebrar tal ciclo. Em sua narrativa, comenta que se preocupa com a dureza que atribui à vida do sujeito urbano, e por isso não pretende ir para a cidade, esclarecendo e justificando o seu enraizamento à comunidade e à sua cultura. Diz Jorge (49 anos, Santa Cruz): "queremos passa isso pros nossos filhos também e deixa raiz aqui, não adianta nada vive , acaba aqui pra ir pra cidade, né, pois nóis já vê a dificuldade nas cidade e queremos permanecê sempre aqui, né." [Grifo nosso]

Nesse viés, o grande elo entre as pessoas de uma comunidade é a cultura. Em Claval e Pimenta (2001, p. 63), para cada indivíduo a cultura é a primeira herança que se transmite de uma geração a outra, constituindo-se "da soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas, e em uma nova escala, pelo conjunto dos grupos de que fazem parte."

Portanto, Jorge, o entrevistado citado acima, remete-se às palavras de Claval e Pimenta (2001), de que seu enraizamento e a manutenção da agricultura familiar nas próximas gerações significam, também, manter a identidade sociocultural com o espaço físico, e da família com seus valores, crenças, tradições e significados. Confirma-se, desse modo, que a agricultura familiar torna-se um elo entre as gerações e a identidade social dos habitantes das comunidades de Santa Cruz e Esperança.

O entendimento da mineração e a resistência dos sujeitos por meio da organização social

Desde a experiência da pesquisadora com o local, ao desenvolver um estudo disciplinar na área de orientação profissional, constatou-se que a ideia da instalação de uma mina nas comunidades de Santa Cruz e Esperança não era tida como positiva aos agricultores, uma vez que, além de ferir a terra, que é seu meio de sustento, significa grande ameaça à ruptura de sua identidade.

Dessa forma, Volpato (1984), em seus estudos sobre mineração no sul do Estado de Santa Catarina, já percebia quão grande era a banalização da terra. A autora disserta a respeito de uma draga chamada "Marion", que, com sua concha gigante, retirava várias toneladas de terra, removendo, em uma hora de trabalho, quase mil metros cúbicos de terra e pedra, deixando a superfície desnuda, sem vegetação, transformando o solo por onde passava em deserto negro e árido. Costa e Koppe (2008) assinalam que as lavras de carvão no passado eram feitas, na maioria das vezes, a céu aberto, sendo completamente inadequadas. Hoje, a maioria delas acontece no subsolo. Tal método faz com que a poluição, principalmente do ar, seja menor. A grande preocupação de José (20 anos, Santa Cruz) é esplanada em sua entrevista, quando, ao final, faz uma pergunta a si mesmo:

Significado da mineração: é um negócio meio complicado, né, a gente tem visto mineração em todas as comunidades que a gente visitô, tudo a cerca de destruição, e onde passou mineração não tem mais água, as famílias vivem em constante perca de família, enfim, tudo mais, e aqui não, aqui a gente tá toda vida unido, sempre junto, todo mundo junto, aí, se a mineração vir prá cá, o que será que pode acontecer, né? Será que a gente vai permanecer assim, ou cada um vai para um canto, né? [Grifo nosso]

O medo de uma possível desapropriação fere profundamente o sentimento de pertença, pois, segundo Jerônimo (2012), este sentimento está associado à apropriação e identidade do sujeito. O impacto causado pela possibilidade da mineração gera na comunidade um reforço nos laços mantidos ao seu lugar de origem.

Portanto, o motivo da resistência desses agricultores à mineradora se dá a partir das investigações feitas por eles nas cidades vizinhas do município de Içara. Ficaram chocados ao ver a destruição causada pela extração do carvão. Chaves (2008) enfatiza que o carvão mineral não é mineral literalmente, visto que não tem composição química definida e seu reinado durou somente até o século passado, quando o petróleo adquiriu a importância que hoje tem. O autor ressalta, ainda, que no Brasil não existe a cultura do uso do carvão, pois não há invernos frios para aquecer as casas como em outros países, onde os invernos são rigorosos e eles jamais se imaginariam sem tal minério. O nosso carvão é pouco desejado pelo exterior, porque, conforme o autor, o carvão brasileiro é considerado de qualidade inferior devido aos elevados teores de cinzas e enxofre (carvões de Santa Catarina e do Paraná).

De acordo com Costa e Koppe (2008), os principais métodos de lavra de carvão em Santa Catarina são o subterrâneo e o "a céu aberto", a extração foi semimecanizada, passando para a mecanizada, garantindo o comprometimento do meio ambiente. Com o processo mecanizado, a degradação é mais rápida, o subsolo é escavado, o carvão é transportado e o rejeito, depositado, em grande escala, por longos espaços da região, compromete o solo, os rios e o ar com poluentes advindos da mineração. Dizem os autores que a lavra subterrânea é vista como uma alternativa mais aceita em Santa Catarina, pois o impacto visual é bem menor, porém tem causado grandes alterações no lençol freático, comprometendo a qualidade da água.

Observou-se que os sujeitos desta pesquisa têm um entendimento realista acerca da destruição causada com as atividades da mineração, e a resistência deles, por meio da organização social, remete à defesa coletiva do espaço, constituída na valoração do ambiente de forma ampliada, ou seja, naquilo que traduz a sobrevivência da vida no lugar em que nasceram e pretendem deixar para as próximas gerações.

A luta pela preservação do lugar

O Movimento Içarense pela Vida nasceu após uma mineradora tentar instalar-se nas comunidades de Santa Cruz e Esperança. O referido movimento iniciou com pequenas manifestações de alguns agricultores. No início, suas reuniões eram realizadas nos centros comunitários dos bairros Santa Cruz e Esperança, onde discutiam e recebiam as autoridades envolvidas. Após muitas manifestações, o movimento ganhou espaço na imprensa nacional, por tratar-se de uma ação coletiva, de interesse não só dos agricultores, mas de toda a comunidade, já que, além de lutarem pela subsistência, lutavam também pelo meio ambiente. Assim, os agricultores foram conquistando espaço e também muitos aliados como entidades, movimentos do município e algumas ONGs.

Segundo Verhelst (citado por Carvalho, 2006), os movimentos sociais e as ONGs tiveram grandes contribuições nas definições de novas formas de política e financeira tornando-as mais justas, obtendo resultados positivos através do diálogo, parceria e autocrítica, com êxito mais próximo da realidade social do que muitas outras instâncias. Guadagnin (2001) complementa que as ONGs, associações conectadas a outros grupos não governamentais que se articulam em nível nacional e internacional, obtêm grande êxito nos movimentos ambientalistas.

Guadagnin (2001) afirma que, nos anos oitenta e noventa, os movimentos ecológicos trouxeram à sociedade uma nova forma de pensar e de agir sobre a relação homem-natureza, dando ênfase à qualidade de vida. Por meio desta pesquisa, verifica-se que a luta dos agricultores transcende à preservação do lugar, tendo em vista a preservação da qualidade de vida, e, no presente sentido, João (48 anos, Santa Cruz) expressa:

Por que se nóis não protegermos o meio ambiente, automaticamente nóis mesmo estaremos nos matando, então, por isso que a gente tem que preserva a água, as nascente, preserva o solo, que ele vai fica produzindo, e a gente vai ter uma garantia de vida pras futuras gerações. Nóis já tamo aqui nessa propriedade já na quarta geração e futuramente isso aqui vai, não só prá quarta, mais pra oitava, pra décima, pra quinta e vai embora e onde vem a mineração isso ser rompe esse ciclo de sobrevivência por que onde a mina passa ela destrói ela, veta uma sequência de vida porque ali morreu os rio, morre as nascente, tem a perca da água, e o que é mais importante tem a perca das futuras gerações pra dá um seguimento de produção de alimento para, garantia de sobrevivência para todos nos ser humano. [Grifo nosso]

Com base na fala de João, constata-se que ele se encontra com fortes ligações e inquietações com a relação homem-natureza, trazendo em sua narrativa não só a questão da preservação das nascentes e solos, mas também a herança ambiental que perdura há quatro gerações. Garcia (2009) percebeu que a trajetória simbólica da água, em todas as culturas e em todos os tempos, esteve associada tanto à possibilidade da vida, quanto sua transitoriedade.

Segundo Barlow e Clarke (2003), os recursos da água e sistemas de distribuição do planeta são uma ameaça ao bem-estar do ser humano, pois a água é fundamental à vida. Todos os ecossistemas vivos são mantidos pela água. Os autores mencionam que os povos da antiguidade sabiam que destruir a água significava a autodestruição. Apenas culturas guiadas pela ganância e convencidas de sua supremacia sobre a natureza não reverenciam a água. Nesse viés, a preservação do lugar remete ao agricultor também preservar sua subsistência. Embora tenham o posicionamento crítico e pertinente quanto à degradação causada pela mineração, os sujeitos da presente pesquisa trabalham com a fumicultura, que garante a sobrevivência econômica dessas duas comunidades. Contraditoriamente, o trabalho deles envolve grandes porções de terra nas referidas comunidades e, para garantir a produção do fumo, observa-se que as nascentes não são preservadas. São apropriadas por tais agricultores, e agindo desse modo, também degradam, não apenas a terra, com o cultivo da poliagricultura do fumo, mas, também, a água, tão importante em seus discursos.

Sabe-se que a indústria de tabaco gera grandes riquezas ao Brasil, mas isso não quer dizer que os benefícios sociais dessa inserção se traduzam em melhor qualidade de vida aos agricultores. Seguindo a lógica capitalista trazida acima, Leff (2000) afirma que a racionalidade econômica baniu a natureza, gerando processos de destruição e degradação ambiental.

Vale destacar que a possível instalação de uma mineradora em tal local traria uma degradação ambiental incomparável com relação à agricultura atual, pois, para Mattiola, líder do MIV (Movimento Içarense pela Vida), a agricultura pode poluir o meio ambiente com o uso incorreto de agrotóxico. Mas basta parar com seu uso que, em poucos meses, o ambiente se recupera sozinho. Conforme João (49 anos), preservar o lugar em que vive é preservar o ciclo geracional que permeia há quatro gerações sua família. Quebrar esse ciclo seria romper com sua identidade, de acordo com Claval e Pimenta (2001).

Portanto, para os referidos agricultores, preservar o lugar é preservar sua cultura, as experiências e vivências do lugar e a afetividade pela terra. Assim, seus valores são referenciados, sendo fundamentais para a preservação da sua identidade.

Considerações finais

As experiências obtidas tiveram como base a inquietação dos agricultores das comunidades de Santa Cruz e Esperança, no município de Içara, frente às dificuldades enfrentadas com relação à possível instalação de uma mineradora no local.

Para a Psicologia Ambiental, o ambiente influencia o comportamento, pois procura compreender como o indivíduo analisa, entende e interage com o ambiente e, ao mesmo tempo, como ele está sendo influenciado por ele. Diante da possibilidade de se apropriar do espaço, o Movimento Içarense pela vida também nos lembra que a Psicologia Ambiental e a Geografia têm andado de mãos dadas. Sendo assim, essas duas ciências estão interligadas já há algum tempo, tornando-se indissociável o objeto geográfico e a vida que preenche e anima o ser humano.

Portanto, verifica-se que, para a Geografia, ambiente, processos psicológicos e sujeito são temas conhecidos e trazem benefícios positivos a tal movimento social, o qual tem crescido a cada dia, recebendo apoio de várias entidades sociais da cidade de Içara.

Percebeu-se também que a adesão das famílias ao Movimento Içarense pela Vida é uma forma de resistência à degradação do lugar pela mineração, identificando o significado e a relação de pertencimento do espaço para os moradores do lugar. Através das entrevistas efetuadas com os agricultores, foi possível notar que resistir à inserção desta mineradora no espaço em que vivem é também uma maneira de estar seguro de que sua identidade sociocultural estará sendo mantida. Por conseguinte, entendeu-se que a cultura é uma herança geracional, como no caso dos referidos agricultores, uma vez que estão neste lugar há mais de quatro gerações e tal transmissão é realizada em diversas etapas no decorrer das fases do desenvolvimento humano e, neste âmbito, Claval e Pimenta (2001) nos dizem que a família tem um papel fundamental.

Para os agricultores das comunidades pesquisadas, evidenciaram-se as palavras de Tuan (1980), de que a preservação do lugar potencializa as táticas de sobrevivência, visto que é no lugar e na esfera do vivido que se localizam as probabilidades de alteração e mudança. Entende-se, então, que o lugar se revela como panorama de trocas e experiências, de concepção de conexão e afetividades, de pertencimento e oposições, edificação e afirmação da analogia, ambiente de conflitos e palco de lutas, em que se desenrolam afinidades conflitantes do sujeito com o lugar, do sujeito com o outro. O lugar cogita a construção e invariável afirmação/negação identitária do sujeito, a partir das inclusões sociais que se formam numa determinada área.

Por fim, outro objetivo que levou a tal investigação foi pontuar as características da agricultura familiar e a preservação ambiental relacionadas à sobrevivência das famílias neste espaço. Assim, o presente estudo também possibilitou conhecer algumas realidades como a econômica, a social e a cultural da agricultura familiar. Percebeu-se, nas entrevistas, uma intensificação ao atrelamento do homem do campo ao homem das atividades, das técnicas, da integração de gênero na vida ao meio agrícola em que laboram e vivem. Dessa maneira, sugere-se que sejam realizados mais estudos sobre o papel da mulher na agricultura familiar, pois as bibliografias encontradas são escassas, e este papel no seio familiar e agrícola é de importância inquestionável. Então, a agricultura familiar nesta região é um dos meios mais importantes de subsistência. Embora a fumicultura seja a principal fonte de renda de tais comunidades, também causa danos ambientais, os quais, segundo os agricultores, são bem menores do que a mineração. Logo, para eles, preservar a natureza e o espaço em que vivem significa preservar sua própria vida.

Foi imprescindível, para enriquecer os conhecimentos da pesquisadora, entender que a mineração é uma atividade que retira um recurso natural não renovável e, por consequência, agride o meio ambiente, poluindo a terra, a água e o ar, trazendo prejuízos irreversíveis para as comunidades de Santa Cruz e Esperança, como também ao entorno. Dessa forma, entendeu-se que, para tomar consciência da preservação ambiental, é necessária a organização por meio dos movimentos sociais e ecológicos, transformando pensamentos, sentimentos e principalmente as atitudes individuais, que, somadas, atuam como uma fortaleza coletiva.

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1As narrativas trazidas no presente artigo concernem a trechos em linguagem típica dos agricultores sujeitos desta pesquisa e que ilustram os significados deles quanto aos sentimentos, simbolismos, modos de viver e trabalhar nos espaços que foram por eles transformados em lugar, de pertencimento.

Received: March 19, 2013; Revised: July 07, 2014; Accepted: September 14, 2014

Rosa Nadir Teixeira Jerônimo possui Licenciatura e Bacharelado em Psicologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL (1996), Graduação em Psicologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL (1997), Especialização em Saúde da Família pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL (2002) e Mestrado em Ciências Ambientais pela Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC (2007). Email: rnj@unesc.net

Rosimeri Vieira da Cruz de Souza possui Graduação em Psicologia pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (2010). Pós Graduação em Psicopedagogia Escolar e Especialização em Terapia Cognitiva Comportamental. Formação em Coaching e Neurocoaching para Lideranças, Capacitação pela FGV em RH Estratégico.E-mail: merynha_vieira@hotmail.com

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