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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.30  Belo Horizonte  2018  Epub June 07, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30160054 

Artigos

SENTIDOS DO TRABALHO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA ADQUIRIDA

SIGNIFICADOS DEL TRABAJO PARA PERSONAS CON DISCAPACIDADES ADQUIRIDAS

THE MEANINGS OF WORK FOR PEOPLE WITH ACQUIRED DISABILITIES

Joelma Cristina Santos1 

Maria Nivalda de Carvalho-Freitas1 

1 Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei/MG, Brasil

RESUMO

Tendo em vista que o trabalho pode ter grande impacto no cotidiano e na subjetividade das pessoas e que o processo de aquisição de uma deficiência gera efeitos psicossociais singulares, esta pesquisa buscou compreender os sentidos do trabalho para pessoas com deficiência adquirida. Para isso, foram entrevistadas 13 pessoas com deficiência (física, auditiva ou visual) adquirida, que estavam exercendo atividades remuneradas após a aquisição da deficiência. As entrevistas foram transcritas e analisadas pelo método de análise de conteúdo, o qual permitiu a elaboração de seis categorias temáticas referentes aos sentidos atribuídos ao trabalho: (a) distração, ocupação e realização de atividades, (b) independência e sobrevivência, (c) prazer e satisfação, (d) preenchimento da vida, (e) utilidade e (f) valorização pessoal. Considera-se que esta pesquisa contribuiu para a reflexão e a compreensão dos fatores subjetivos relacionados ao trabalho das pessoas com deficiência adquirida, abrindo perspectivas para estudos mais aprofundados na área.

Palavras-chave: sentidos do trabalho; pessoas com deficiência adquirida; aquisição de deficiência e trabalho

RESUMEN

Teniendo en cuenta que el trabajo puede tener un gran impacto en la vida diaria y la subjetividad de las personas y que el proceso de adquirir una discapacidad genera efectos psicosociales únicos, el presente estudio tuvo como objetivo comprender los significados atribuidos al trabajo por las personas con discapacidades adquiridas. Para ello, se entrevistaron 13 personas con discapacidades (físicas, auditivas o visuales) adquiridas, que estaban insertadas en el mercado laboral después de la adquisición de discapacidad. Las entrevistas fueron transcritas y analizadas por el método de análisis de contenido, que permitió el elaboración de seis categorías temáticas relacionadas con los significados atribuidos al trabajo: (a) distracción, ocupación y realización de actividades, (b) independencia y supervivencia, (c) placer y satisfacción, (d) centralidad de la vida, (e) utilidad y (f) apreciación personal. Se considera que esta investigación ha contribuido a la reflexión y la comprensión de los factores subjetivos relacionados con el trabajo de las personas con discapacidades adquiridas, abriendo nuevas perspectivas para estudios posteriores en la área.

Palabras clave: Significados del trabajo; personas con discapacidad adquirida; adquisición de deficiencia y trabajo

ABSTRACT

Considering both the work may have great impact on daily life and the fact that a person is psychosocially affected in an unparalleled way when he or she acquires a disability, this research aims to comprehend the meanings of work for those people. The study was carried out with 13 people with acquired disability who were working before the disability (physical, hearing, or visual) and who stayed in the work market.. The instrument used was an interview which were transcribed and analyzed through method of content analysis. Six thematic categorization of meanings of work were identified (a) distraction, occupation and execution of activities, (b) independence and survival, (c) pleasure and satisfaction, (d) fulfillment of life, (e) utility and (f) self appreciation. The main contribution was to understand subjective aspects related to work for people with acquired disability. Future research should be made to deep these comprehensions.

Keywords: Meanings of work; people with acquired disability; getting of a disability and work

Introdução

Em alinhamento às mudanças sociais e políticas das últimas décadas que atingiram a população de pessoas com deficiência (PcD’s), a produção acadêmica sobre questões relacionadas a essa temática aumentou e se tornou foco de maior produção científica (Suzano, Nepomuceno, Ávila, Lara, & Carvalho-Freitas, 2008). No entanto, a grande maioria dos estudos acadêmicos na área analisa pessoas com deficiências diversas sem distinção entre os tipos existentes, originando uma lacuna no campo do conhecimento sobre as implicações da deficiência adquirida, especialmente, no contexto de trabalho. Como relata Coelho (2009), pouca atenção tem sido dada à percepção do trabalhador com deficiência inserido no mercado formal ou informal de trabalho, sendo que a maior parte das pesquisas que investiga a intercessão entre deficiência e trabalho ainda é recente. Tendo em vista que a perspectiva das PcD’s inseridas no mercado de trabalho ainda não foi suficientemente estudada, bem como o ponto de vista das pessoas com deficiência adquirida sobre diversos aspectos também necessita de maior aprofundamento, este estudo teve o objetivo de contribuir para a compreensão dos sentidos atribuídos ao trabalho por pessoas com deficiência adquirida.

Como destacam Bernardes, Maior, Spezia e Araújo (2009), a noção de deficiência pode ser investigada por perspectivas contrastantes e envolver uma multiplicidade de conceitos, que vão do plano técnico ao plano existencial. Nesse sentido, estudos que partem do ponto de vista social levam em conta aspectos do contexto em que as pessoas estão inseridas e propõem que as pessoas são consideradas deficientes, em razão do fracasso manifestado pela sociedade em acomodar suas necessidades e incluí-las na vida cotidiana (Barnes, Mercer, & Shakespeare, 2005). Entende-se, portanto, com base em Carvalho-Freitas e Marques (2007, p. 75), que a deficiência consiste no “produto da articulação entre condição biológica e contingências históricas, sociais e espaciais”.

Não existe um método consistente, entre países, que possa estimar com precisão o número de pessoas com deficiência em todo o mundo. Ainda assim, a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2011) avalia que existam mais de um bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência no mundo. O censo mais recente realizado no Brasil, em 2010, revelou que cerca de 45,6 milhões de pessoas ou 23,9% da população tem deficiência (IBGE, 2012). Analisando os dados do censo 2010, Garcia (2014) estima que o Brasil tenha cerca de 6,5 milhões de pessoas com deficiência que potencialmente poderiam estar no mercado de trabalho. No entanto, os dados mais recentes da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) indicaram que o país possuía cerca de 381,3 mil PcD’s com vínculo empregatício formal em 2014, o que representa 0,77% do total de mais de 49 milhões de contratos de trabalho (Ministério do Trabalho e Emprego, 2015).

De acordo com dados da Conferencia Internacional del Trabajo (2007), mais da metade das PcD’s do mundo adquire algum tipo de deficiência depois dos 16 anos de idade, principalmente durante a vida laboral. Em pesquisas de grande abrangência, como os censos nacionais, informações acerca das causas das deficiências não são comuns, no entanto, estudo de base populacional, feito por Castro et al. (2008), identificou que doenças e causas externas - fatores ambientais, acidentes domésticos, de trabalho e de trânsito - constituem as principais causas de deficiências, ao passo que fatores congênitos e devido ao envelhecimento representam uma proporção menor na maioria dos casos.

Este artigo pretende proporcionar uma contribuição sobre a temática apresentada, de modo a construir e difundir conhecimentos sobre processos psicossociais relacionados à diversidade e à inclusão social nos contextos de trabalho. Em relação aos significados e sentidos que podem ser atribuídos ao trabalho, entende-se que esses são conceitos distintos apenas do ponto de vista teórico, pois estão situados em um contexto material e sociopolítico concreto e fazem parte do mesmo fenômeno, compondo uma unidade indivisível, mediada pela atividade (Bendassolli & Coelho-Lima, 2015). De acordo com Tolfo e Piccinini (2007), os significados são construídos num contexto histórico, econômico e social de forma coletiva, enquanto os sentidos são uma produção individual diante dos significados grupais. Os significados são, portanto, transformados em sentidos, num processo subjetivo em que a realidade objetiva é o principal fundamento. A construção dos sentidos do trabalho depende da personalidade de cada pessoa, da natureza e das características da atividade que ela desenvolve, das condições em que ela a realiza, bem como das escolhas e experiências individuais. Além disso, a atribuição de sentidos está condicionada à importância dada ao trabalho, o que é, em boa parte, influenciado por questões históricas e socioculturais, além de se modificar nas diferentes etapas da vida.

Nesse contexto, Morin (2004) define o sentido do trabalho como uma estrutura formada por três componentes: (a) significado, (b) orientação e (c) coerência. O significado inclui as representações, a centralidade e o valor do trabalho para uma pessoa; a orientação refere-se a sua inclinação para o trabalho, ou seja, àquilo que ela busca alcançar por meio do trabalho e ao que guia as suas ações; e a coerência diz respeito à harmonia e ao equilíbrio que ela espera de sua relação com o trabalho (Morin, 2004). Morin et al. (2007) também identificam que o sentido do trabalho pode apresentar três dimensões: individual, organizacional e social. A primeira dimensão consiste no sentido que o trabalho assume para a pessoa, como a satisfação, a independência, a aprendizagem e a coerência com os valores morais e crenças pessoais. Na segunda dimensão, o sentido é encontrado na relação da pessoa com a organização, o que pode ser exemplificado pela utilidade do que é realizado, pela organização do trabalho, pela possibilidade de inserção social e pelas relações vivenciadas nesse contexto. A dimensão social é observada na relação da pessoa com a sociedade, como a capacidade de contribuir e ser útil por meio de um trabalho moralmente aceitável (Bitencourt et al., 2011). Assim, o presente estudo buscou compreender os sentidos do trabalho para pessoas com deficiência adquirida, partindo do entendimento de que, na maioria dos casos, este episódio biográfico pode impor a abertura de novos caminhos de funcionamento e novas perspectivas de vida. Entre as contribuições desta pesquisa, enfatiza-se o aprofundamento da temática acerca dos sentidos atribuídos ao trabalho e a ampliação da perspectiva a respeito da deficiência adquirida, a qual possui aspectos particulares, em comparação à deficiência congênita ou hereditária, e que merecem análise mais aprofundada. Além disso, acredita-se que este estudo pode levar a novos olhares e questionamentos sobre a inserção de pessoas com deficiência nos diversos espaços sociais de trabalho, de modo a possibilitar a tomada de iniciativas verdadeiramente inclusivas e que promovam o respeito à diversidade organizacional e a vivência de experiências laborais positivas.

Método

A pesquisa foi realizada em São João del-Rei/MG, sendo que o acesso aos participantes foi feito a partir do contato com o Serviço Municipal de Fisioterapia da Secretaria Municipal de Saúde da cidade (que dá suporte ao Programa de Órtese e Prótese do governo estadual), além de empresas que pudessem ter pessoas com deficiência adquirida no seu quadro de funcionários. Outra forma de recrutamento de sujeitos foi por meio do banco de dados do Núcleo de Pesquisa em Acessibilidade, Diversidade e Trabalho (NACE), da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), contatando participantes de pesquisas já desenvolvidas ou em desenvolvimento, e que atendiam aos pré-requisitos estipulados neste estudo. Participaram, ainda, pessoas com deficiência adquirida indicadas pelos próprios participantes ou por outros profissionais, no processo conhecido como “bola de neve”.

Sob a perspectiva qualitativa, a coleta de dados foi feita mediante entrevistas semiestruturadas, visando a coletar, inicialmente, algumas informações objetivas acerca dos participantes, tais como formação escolar, trajetória profissional e circunstâncias de aquisição da deficiência. A partir desses pontos, eram abordadas questões que pudessem se referir aos sentidos atribuídos ao trabalho, como a que o trabalho representava na vida dos entrevistados e se o trabalho era percebido de maneira diferente antes e depois da aquisição da deficiência. O tempo de duração de cada entrevista diferiu entre os entrevistados, mas teve o tempo médio de 33 minutos, sendo que todas as entrevistas foram gravadas e transcritas integralmente num momento posterior, a fim de permitir uma análise mais apurada das informações obtidas.

O fechamento do número de participantes foi definido pelo critério de saturação teórica, em que, com base na análise contínua dos dados, a inclusão de novos participantes foi suspensa quando os elementos fornecidos passassem a apresentar redundâncias e repetições, acrescentando pouca informação ao material já coletado, conforme definido por Fontanella, Ricas e Turato (2008). Neste estudo, a repetição dos dados passou a ocorrer de forma mais acentuada a partir da décima entrevista, porém foram realizadas outras três entrevistas adicionais, a fim de se confirmar as redundâncias.

Todo o processo de análise das entrevistas foi feito utilizando-se análise de conteúdo, definida, por Bardin (2011), como um conjunto de instrumentos, de caráter metodológico, aplicado a diversos tipos de discursos. Esse método considera a parte comum existente entre os elementos de um conjunto, gerando categorias conforme critérios estabelecidos. Nesta pesquisa, cada transcrição foi subdividida, procurando identificar frases/conjuntos de frases que remetiam a temas recorrentes para o mesmo entrevistado, tais como aspectos referentes aos sentidos do trabalho. Com base nesse levantamento individual, foi feito o agrupamento por temas comuns entre todos os pesquisados, destacando-se os mais frequentes. O critério semântico de categorização por temas foi adotado por se adequar melhor à identificação das construções subjetivas dos sentidos do trabalho.

Participaram deste estudo oito homens e cinco mulheres, sendo que, quanto ao tipo de deficiência, nove participantes tinham deficiência física, três possuíam deficiência auditiva e um tinha deficiência visual. Entre as causas das deficiências dos pesquisados, cinco foram devido a acidentes de trabalho, três por motivo de doença, dois devido a acidentes de motocicleta e três provocadas por outras causas diversas.

Dos participantes, três tinham ensino fundamental incompleto quando adquiriram a deficiência, um tinha ensino fundamental completo, seis possuíam ensino médio completo e três possuíam ensino superior completo. Das cinco pessoas que tinham ensino médio na época de aquisição da deficiência, duas ingressaram no ensino superior e concluíram curso de graduação após adquirirem deficiência. Entre as ocupações dos pesquisados, quatro exerciam atividades administrativas, três atuavam na área de vendas, um era artesão, um era taxista, um era auxiliar de produção, uma era professora, uma era cobradora de ônibus e uma era auxiliar de serviços gerais.

Ao adquirir deficiência, os participantes do estudo tinham entre 22 anos e 52 anos, sendo a média de idade de 34,9 anos (desvio padrão de 9,1 anos). A idade média dos pesquisados, na época das entrevistas, girou em torno dos 45,1 anos (desvio padrão de 10,5 anos), sendo que o mais jovem tinha 27 anos e o mais velho, 59 anos. O tempo de convívio com a deficiência variou de um a 26 anos, sendo que, em média, os entrevistados lidavam com a deficiência há cerca de 10,2 anos (desvio padrão de 7,4 anos). Todas as pessoas que participaram deste estudo estavam inseridas no mercado de trabalho (formal ou informal) quando adquiriram a deficiência e continuaram ou voltaram (após receberem auxílio doença ou se aposentarem por invalidez) a exercer alguma atividade produtiva remunerada depois da aquisição da deficiência. Os nomes atribuídos aos entrevistados são fictícios, a fim de resguardar a identidade dos participantes, tal como assegurado no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Apresentação e análise dos resultados

Percebeu-se, pela fala dos 13 entrevistados, que o trabalho é de grande importância no projeto de vida da grande maioria desses, sendo que para nenhum dos participantes o trabalho possuía um sentido único. Observou-se que o exercício da atividade profissional não passou por grandes reestruturações subjetivas após a aquisição da deficiência, mantendo os mesmos sentidos para a maioria dos pesquisados. Os dados que contrastam com esse resultado geral e que devem ser destacados são os de pessoas cuja deficiência gerou um impacto maior na vida cotidiana, como são os casos de Cláudio, que ficou cego, e de Dirce, que ficou paraplégica. Nessas situações, percebeu-se que o trabalho ganhou maior relevância e novos sentidos, sendo que a relação com o trabalho se alterou em função da aquisição da deficiência.

Pela análise de conteúdo realizada, identificou-se que muitos dos sentidos atribuídos ao trabalho, pelas pessoas com deficiência adquirida, são coincidentes, se inter-relacionam por diversas vezes e podem ser agrupados em seis categorias. Estas perspectivas retratam os temas mais comuns nas falas dos participantes do estudo que, em ordem decrescente de repetições entre os entrevistados, são: (a) distração, ocupação e realização de atividades, (b) independência e sobrevivência, (c) prazer e satisfação, (d) preenchimento da vida, (e) utilidade e (f) valorização pessoal. Na descrição dos resultados, buscou-se traçar algumas comparações entre as análises aqui apresentadas e os resultados encontrados em estudos já realizados, de modo a assinalar convergências e divergências sobre o tema, mesmo que, em algumas análises, o público pesquisado seja distinto, o que foi sempre assinalado, quando necessário. Além disso, a descrição das categorias, feita a seguir, é acompanhada pelos relatos mais representativos das pessoas entrevistadas nesta pesquisa e que possibilitaram a emergência desta classificação.

Distração, ocupação e realização de atividades

Embora não seja uma unanimidade entre todos os entrevistados, a primeira categoria distração, ocupação e realização de atividades está presente na grande maioria das falas e é o tema mais recorrente. Nessa perspectiva, o sentido do trabalho é visto como aquilo que livra a pessoa da ociosidade (nesse caso, tida com algo negativo), evitando que ela fique parada, além de ocupar a mente, preencher o tempo e organizar o ritmo das demais atividades cotidianas. Para alguns dos participantes da pesquisa, o trabalho, por si só, pode motivar e estabelecer objetivos para a vida, sendo esse um sentido comum, independentemente do tipo de deficiência ou do trabalho executado. Esta categoria pode ser ilustrada pelas falas de Bernardo, Eduardo e Antônio, os três com amputações de membro inferior:

Trabalho ocupa a mente, eu acho que preenche tudo, tudo que é vazio na gente, é preenchido pelo trabalho. (Bernardo)

Sem trabalho você fica ocioso, e ocioso a cabeça fica ruim, então, eu acho que o trabalho pra qualquer pessoa é a motivação, é a razão. (Eduardo)

Como é que você fica sem trabalhar, sem nada, ficar andando aí pra rua, pra baixo e pra cima, isso aí não é pra mim, entendeu? (Antônio)

Categoria semelhante foi definida por Morin (2001) em pesquisa com administradores e estudantes de graduação em Administração, em que o sentido do trabalho consistia em realizar uma atividade que organizava o tempo e cujas ocupações protegiam contra o vazio e a ansiedade da morte. Ressalta-se que, no estudo da autora, a ocupação pelo trabalho partia da noção de emprego, uma vez que esse sentido estava vinculado a uma atividade estruturada em rotinas e programada em dias e horários, a qual tornava legítimos os períodos de férias e descanso, sendo que um dos fatores que provocava a ausência de sentido era ser pago para não fazer nada (Morin, 2001). Essas características específicas não apareceram nas falas das pessoas aqui entrevistadas e, na presente pesquisa, portanto, esse sentido do trabalho não apareceu diretamente associado à ideia da rotina estruturada de um emprego, mas a atividades gerais que ocupam o tempo.

Independência e sobrevivência

Esta categoria, independência e sobrevivência, também surge, na maioria dos relatos, como um dos principais sentidos atribuídos ao trabalho, além de ser considerada a principal motivação para se trabalhar. Assim, incluem-se falas relacionadas à contrapartida financeira e ao trabalho como forma de garantir o sustento da família e atingir objetivos, aspectos bastante ressaltados por muitos participantes. Nesse contexto, destacam-se as falas de alguns participantes, como Irene, que tem dificuldades de locomoção como sequela de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), e para quem o trabalho também representa autonomia e liberdade pessoal: “Independência, né, nossa, ser independente, não ficar dependendo de ninguém, porque eu nunca dependi, assim, praticamente, de ninguém, né, depois que eu cresci, não dependi de ninguém...”. Outros exemplos podem ser extraídos dos relatos de Bernardo e Eduardo, em que se pode observar a remuneração pelo trabalho associada tanto a um critério objetivo - a noção de emprego - quanto a fatores subjetivos, como satisfação e autoestima:

Quando você precisar de alguma coisa e não ter o dinheiro, é triste, a família, às vezes, tá precisando de alguma coisa e não ter o dinheiro é lamentável, né? É um dos pontos principais. ... Eu preciso trabalhar, é um compromisso, a gente tem que ter responsabilidade com a vida, eu compro carro financiado, eu tenho contas, eu tenho que ser independente, se eu precisar de alguma coisa, eu não vou pedir, eu vou trabalhar. É o motivo, é a razão, né, e dou muito graças a Deus, de conseguir ter onde trabalhar, sempre, tudo que eu tenho na minha vida é trabalho. (Bernardo)

Eu procuro uma estabilidade financeira, procuro uma renda, claro, não adianta eu puxar o aspecto só emocional, mentira, eu tenho as minhas obrigações, quero, tenho os objetivos, eu continuo sonhando, eu quero ainda sonhar, eu quero ainda alcançar meus objetivos, eu tenho sonhos, o trabalho faz com que isso aconteça. (Eduardo)

O retorno material é um dos sentidos mais frequentemente atribuídos ao trabalho em praticamente todos os estudos a respeito (como pode ser visto em Bitecourt et al., 2014; Lima et al., 2013; Magro & Coutinho, 2008; Morin, 2001; Morin et al. 2007; Oliveira, 2004), ao garantir a sobrevivência e o provimento das necessidades básicas, conferindo segurança, independência e autonomia. Considerando que os sentidos do trabalho são investigados em sociedades capitalistas na maioria das pesquisas a que se tem acesso, o caráter de subsistência atribuído, tal como assinalado por Magro e Coutinho (2008), pode ser tido como uma influência do sistema econômico que transformou o trabalho de uma finalidade em si mesma para uma forma de manutenção da vida. Dessa forma, o predomínio de características de racionalidade do tipo instrumental, na determinação de sentidos, chega ser esperado, tendo em vista que o cálculo utilitário das consequências e a relação entre meios e fins são altamente valorizados (Andrade et al., 2012). Entende-se, portanto, que o trabalho é, em grande parte, visto como possibilidade de inserção no circuito de produção-consumo e, pela perspectiva do reconhecimento material e financeiro, consiste num dos reflexos do modo de produção capitalista na subjetividade das pessoas.

Num outro aspecto e visando a ampliar a discussão do trabalho como independência e sobrevivência, destaca-se, ainda, a fala de Irene, para quem tal sentido predomina como uma forma de proporcionar melhor padrão de vida para o filho, que tem quatro anos de idade:

tenho que trabalhar, eu preciso trabalhar, então, não posso parar, fazer o quê? Eu queria parar, juro, que é muito estressante, só que, no momento, eu não tenho condições. Eu ia ter tempo pro meu filho, hoje não tenho tempo pra ele, fica o dia inteiro na escolinha, na creche, né, queria ter tempo pra ele. A única coisa que eu espero é criar meu filho, que ele estude bem, muito, seja alguém na vida.

Esse relato demonstra que a vinculação de uma pessoa ao seu trabalho nem sempre se dá em função de uma necessidade psicológica de ocupar o tempo livre, por exemplo, mas pode ocorrer devido a pressões sociais ou a um imperativo econômico que se impõe. Ainda que os estudos empíricos sobre os sentidos do trabalho identifiquem a preponderância de percepções positivas acerca do trabalho (Silva & Tolfo, 2012), essa perspectiva não é unânime, e a pesquisada pontua aspectos negativos do trabalho (estresse, como citado). Durante a entrevista, Irene até pondera entre a necessidade de obter uma renda maior e o desejo de estar mais presente na vida do filho, mas considera que, na condição atual em que vive, os ganhos advindos do trabalho ainda são maiores que os danos. Além disso, sua fala sinaliza para os outros espaços sociais e circunstâncias capazes de proporcionar realização pessoal e sentido à vida, como a maternidade, nesse caso. Como uma das várias dimensões da vida, percebe-se que o trabalho, portanto, não pode ser considerado o lugar de excelência ou a atividade privilegiada para a realização pessoal de todos os indivíduos. Atrelados à subjetividade e à percepção individual, os sentidos atribuídos podem corresponder tanto à perspectiva de que o trabalho é um entre vários outros pontos de manutenção da vida quanto a que o considera um dos pilares principais de sustentação da subjetividade, como será discutido com a apresentação da próxima categoria.

Prazer e satisfação

O sentido como prazer e satisfação refere-se a vivências de contentamento provocadas pelas atividades de trabalho, além de pontos de vista que destacam o gosto pela atividade realizada ou que consideram o trabalho como missão ou vocação. Esse aspecto pode ser demonstrado pelos relatos de Eduardo e Dirce sobre o trabalho:

tem que dar prazer, você tem que gostar do que faz, se você não gostar do que você faz, você pode ganhar um rio de dinheiro que não vai te completar, trabalho tem que ser complemento, família, trabalho, lazer, são partes que fazem parte do ser humano, então, se você faz uma coisa que você não gosta, você pode até ganhar muito financeiramente, que não é tudo, você tem que gostar do que faz. (Eduardo)

primeira regra, tem que fazer o que gosta, essa é a motivação. Eu acho que deve ser muito ruim, quem não gosta de um serviço ficar naquele lugar trabalhando... . Eu amo o que eu faço, então essa é a condição básica, porque não é profissão, eu não enxergo como profissão, é missão. Eu não saberia fazer outra coisa. (Dirce)

Essa perspectiva sobre o trabalho é comum em pesquisas sobre o tema, como pode ser observado em Morin (2001), Morin et al. (2007) e Viana e Machado (2011). Esse sentido destaca o trabalho como espaço de identificação e de realização pessoal, indo além das definições de emprego e destacando o valor positivo do trabalho por si só. De acordo com Morin (2001), um trabalho com sentido corresponde à personalidade, aos interesses e aos valores do indivíduo, sendo intrinsecamente satisfatório. Por outro lado, segundo Morin et al. (2007), um trabalho que é enfadonho e tedioso não tem sentido.

Preenchimento da vida

O sentido do trabalho como preenchimento da vida também é muito presente nos depoimentos das pessoas com deficiência adquirida pesquisadas, sendo esta uma categoria diretamente relacionada à centralidade do trabalho, dando mostras de que, mesmo num sistema capitalista controverso e mutante, o trabalho, para muitos, ainda pode dar sentido à vida, como um todo. Nesta pesquisa, Eduardo afirma que: “Trabalho é vida, dignidade, trabalho é a motivação que você tem de se superar, na minha opinião, entendeu?”, e Bernardo pontua: “ acho que a pessoa que não trabalha, que não gosta de trabalhar, eu acho que não tem como ela ser feliz...”. Para Geraldo, que apresenta dificuldades de locomoção como consequência de um acidente de motocicleta:

se eu não tivesse condição de fazer nada, ficar dentro de casa, ali só de barriga pra cima, conversando na rua, jogando um baralho, uma coisa assim, eu acho que eu não ia me sentir muito bem, não, eu acho que eu ia, eu acho que eu não ia ter muitos anos de vida, não, sabe?

Em estudo sobre os sentidos do trabalho para pessoas com deficiências física, auditiva, visual e intelectual, Lima et al. (2013) também identificaram a presença da centralidade do trabalho, sendo o trabalho visto como o eixo principal da vida das PcD’s pesquisadas. Segundo as autoras, a centralidade foi evidenciada, principalmente, pelo caráter instrumental do trabalho, ou seja, sua função de manutenção e reprodução da vida. Apesar de terem públicos diferentes do pesquisado neste estudo, Bitencourt, Gallon, Batista e Piccinini (2011) e Bitencourt, Onuma, Piccinini, Moreira e Severo (2014) também identificaram aspectos de centralidade do trabalho, em que este foi caracterizado como um componente importante na vida dos respectivos pesquisados. Sabe-se que os sentidos atribuídos ao trabalho são produzidos individualmente no contexto vivenciado por cada pessoa, então, compreende-se que, inevitavelmente, eles serão permeados pela lógica de produção do mercado. Assim, tais falas estão permeadas por maneiras de pensar que foram, ao longo do tempo, encravadas culturalmente.

Os pesquisados que adquiriram a deficiência devido a acidentes de trabalho não conferiram sentidos substancialmente diferentes dos atribuídos por pessoas que adquiriram a deficiência por outras causas e, de modo geral, as percepções sobre o trabalho se mostraram bastante semelhantes. Cabe destacar, no entanto, uma única diferença considerável quanto ao sentido como preenchimento da vida, pois esse sentido marcou a fala de metade das pessoas que adquiriram deficiência por motivos não relacionados ao trabalho, enquanto somente uma pessoa que adquiriu deficiência por acidente laboral mencionou tal aspecto.

Apesar de não ser possível afirmar que o trabalho era central na vida das pessoas que adquiriram deficiência por causa de acidentes de trabalho antes de elas sofrerem o acidente, acredita-se que, de qualquer forma, a ausência do sentido de preenchimento da vida sinaliza que o lugar ocupado pelo trabalho na vida dessas pessoas é diferenciado. Observou-se que o trabalho não deixou de ser importante para a pessoa que sofreu um acidente laboral, mas não apresentou aspectos de centralidade, como para outros pesquisados, possivelmente, pelos danos decorrentes do trabalho. Além disso, a ausência desse sentido específico reforça os demais sentidos associados ao trabalho e aponta para a valorização de outros aspectos da vida, mediante as consequências do acidente e a proximidade da morte, em alguns casos. É importante destacar que, mesmo para os pesquisados que adquiriram deficiência por causa do acidente de trabalho, não foram atribuídos sentidos negativos ao trabalho e todos buscaram a reinserção profissional, seja por motivos financeiros ou visando a dar continuidade às atividades cotidianas. Esse posicionamento sugere que, apesar da centralidade do trabalho ser um elemento ainda bastante sujeito a debate na sociedade atual, pode apresentar diferenças bastante acentuadas, de acordo com as características da população pesquisada, o que demanda futuras investigações.

Utilidade

O sentido de utilidade também demarca o espaço ocupado pelo trabalho na vida das pessoas com deficiência adquirida e é um aspecto muito recorrente, englobando pontos como “geração de resultados” e “ajuda aos outros”, como pode ser ilustrado pelas falas de Dirce, que é paraplégica, e de Luís, que teve um dos braços amputados devido a um acidente de trabalho:

eu quero é fazer uma coisa que eu vejo resultado, se eu puder contribuir, ajudar o outro. ... enquanto eu tiver podendo contribuir, ajudar meus alunos, né, orientar, fazer qualquer coisa, eu tô sendo útil, então, pra mim, é muito importante isso. (Dirce)

Mas pra você ter uma... tá fazendo alguma coisa também, utilidade, não é só o dinheiro também não, é bom também, eu acho que você estaria fazendo uma... tipo assim, estaria fazendo alguma coisa útil, seria útil também, dizemos assim, até pra sociedade, mais útil pra sociedade, entendeu? (Luís)

Ser útil é considerado um dos sentidos pertencentes à dimensão social do trabalho, conforme Morin et al. (2007) e Oliveira (2004), representando uma contribuição do indivíduo para a sociedade. Em pesquisa com dentistas filiados a uma cooperativa, o autor observou que um trabalho que não gera benefícios para alguém não tem sentido para quem o realiza. O sentido de utilidade atribuído ao trabalho também foi identificado no estudo de Bitencourt et al. (2011).

Destaca-se que o sentido de utilidade se fez muito mais presente na fala das pessoas que possuíam ensino superior completo do que nos relatos das pessoas com ensino fundamental e médio, para as quais predominou o sentido de distração, ocupação e realização de tarefas. Considera-se que profissionais de nível superior tendem a realizar trabalhos mais valorizados socialmente, menos repetitivos, com maior variedade de tarefas e nível mais elevado de abstração, características que podem contribuir para proporcionar maior sentido de utilidade a essas pessoas. Bitencourt et al. (2014) consideram que um grau de escolaridade maior e uma situação econômica mais favorável podem influenciar a visão de mundo e do trabalho, porém não foram localizados estudos aprofundados a esse respeito, o que abre margem para futuras pesquisas que enfoquem a relação entre sentidos de trabalhos e níveis de escolaridade.

Valorização pessoal

Esta categoria reflete o sentido do trabalho como algo que eleva a autoestima e o apreço por si mesmo. Como destaca Morin (2004), um trabalho com sentido fortalece a identidade pessoal, eleva a autoestima e desenvolve um senso de valor e dignidade.

Eu acho que o maior aspecto positivo é dignidade, é autoconfiança, respeito próprio, qualquer pessoa que trabalhe em qualquer tipo de setor, em qualquer setor, trabalho que vai fazer, ele tem, e se gosta, isso é primordial, ele se sente realizado, ele se sente digno, dignidade. ... ah, hoje, eu acho que o trabalho é muito vinculado com o que, com o autorrespeito, a pessoa que trabalha ela é digna, ela se respeita, e ela se respeitando, as outras pessoas também vêm a respeitá-la. (Eduardo)

Aí quando você consertava as coisas, o negócio tava correto, pra mim eu achava muito bom, tipo assim, porque muito importante, porque tipo assim, a gente se sentia importante, porque tinha uma responsabilidade muito grande e você ia lá, dava conta e resolvia, então você se sente mais, como diz assim, dono da situação, você sente assim, que você vai lá e consegue fazer as coisas, eu achava muito importante, era bom. (Luís)

Estudo semelhante a este, realizado por Nohara et al. (2008), com pessoas com deficiência, observou que as representações sociais sobre os sentidos do trabalho apareceram, primeiramente, relacionadas à dignidade e, em seguida, à autonomia, sustento, sentimentos de valorização, cidadania e bem-estar. De acordo com os autores, este último aspecto está associado ao reconhecimento social da conquista do emprego, ao contribuir para a redução do estigma social. Aspecto similar foi identificado por Magro e Coutinho (2008), em que a dignidade, o respeito e o reconhecimento social de trabalhadores de empreendimentos solidários foram os principais sentidos atribuídos ao trabalho, pois contrastavam com o sofrimento vivido na experiência de exclusão do mercado de trabalho, traço comum às experiências de muitas pessoas com deficiência, de modo geral.

Destaca-se que o sentido do trabalho como valorização pessoal também apresentou uma relevância maior para os homens em comparação às mulheres. Supõe-se que tal fato ocorra em função da divisão sexual do trabalho e dos papéis sociais que ainda consideram que trabalhar é uma atribuição fundamental dos homens, enquanto para as mulheres são mais bem aceitas outras possibilidades, inclusive o não trabalho. Segundo Marcondes, Rotenberg, Portela e Moreno (2003), as obrigações ditas masculinas perante a família podem gerar angústia e sofrimento, no caso de perda do emprego ou de provimento insatisfatório das necessidades familiares, o que pode acarretar, para o homem, a perda do seu “ingresso” na esfera domiciliar. A fala de Geraldo ilustra parte desse aspecto do trabalho:

É uma importância muito grande, por exemplo, na sua moral, por exemplo, diante de meus filhos, por exemplo, eles me veem como um trabalhador, uma pessoa grande, uma pessoa honesta, uma pessoa que põe as coisas dentro de casa, uma pessoa que resolve tudo na hora que precisa, então, o trabalho me faz pensar desta forma, entendeu? ... se eu não estiver trabalhando, acho que eu me sinto, automaticamente, eu já me sinto pra baixo, então eu não tenho coragem, acho que nem de levantar a cabeça, assim, conforme, se eu estiver trabalhando, por exemplo, cumprimentar as pessoas, tem pessoas na rua que, de repente, eu até abaixo a cabeça pra não ver que ele tá passando lá do outro lado, porque eu tô, tô caminhando ali, entendeu, tô desempregado, eu sinto, eu quando tô desempregado, eu me sinto dessa forma, entendeu? (Geraldo)

Além disso, a assimetria e a hierarquia entre os trabalhos desenvolvidos por homens e mulheres, bem como a organização do mundo do trabalho que segue permeada pelas relações de gênero (Marcondes et al., 2003), auxiliam na compreensão de que este sentido pode assumir conotações diferentes, dependendo do sexo pesquisado. Pesquisa de Matsuo (1999), com amputados por causa de acidentes de trabalho, revelou que, no caso dos homens, a virilidade, a força, a produtividade e a potência eram colocadas à prova, enquanto que, para as mulheres, o maior impacto da deficiência adquirida era sobre a beleza e a vaidade feminina, o que ressalta a diferença entre gêneros, estabelecida socialmente. Obviamente, outros estudos devem ser desenvolvidos a fim de averiguar essa relação entre papéis designados socialmente e sentidos atribuídos ao trabalho.

Propostas para futuras investigações

Além das questões que foram sinalizadas ao longo desta análise de resultados - a influência do nível de escolaridade sobre a atribuição do sentido de utilidade ao trabalho, a questão da centralidade do trabalho para pessoas que sofreram acidentes de trabalho e a influência do gênero no sentido de valorização pessoal pelo trabalho -, ressalta-se outra questão que merece a atenção de estudos mais específicos: a perspectiva do trabalho como promoção de disposição física e qualidade de vida para os homens com deficiência física. Este sentido, na configuração de algo que gera bem-estar e saúde, surgiu em falas, como as de Eduardo, Flávio e Geraldo:

E tem o lado pessoal, o trabalho me coloca ainda útil, me coloca ainda no mercado, me coloca mais jovem, à disposição, hoje eu tenho 51, igual eu te falei, e me sinto com força pra trabalhar mais 20 anos se tiver saúde pra isso. (Eduardo)

Eu acho que a gente fica assim mais disposto, eu me sinto trabalhando, me sinto bem disposto. ... eu acho importante o trabalho, acho que não só financeiramente, como fisicamente, eu acho que a gente fica um pouco mais preparado. (Flávio)

Eu me sinto bem, tem quatro semanas que eu tô aqui, tô me sentindo bem pra caramba, dormindo melhor, alimentando melhor..., é a gente não ficar parado, porque ficar parado é ruim, até pra saúde é muito ruim, né? Então, você tem que estar sempre mexendo, enquanto você tá trabalhando, você tá vivo, se sentindo vivo mesmo, ativo, né, ativo com as coisas. (Geraldo)

Considerando o número pequeno de homens com deficiência física entrevistados neste estudo, este sentido foi frequente e relevante para pessoas com essas características, porém não permite que sejam feitas generalizações para as mulheres ou outros tipos de deficiência. A percepção do trabalho como saúde e disposição física não foi identificada como resultado em estudos semelhantes a este, talvez pela ênfase que esta pesquisa dá à deficiência adquirida. Considerando-se que todos os entrevistados tiveram que se afastar do trabalho devido à aquisição da deficiência (por meses ou anos), tem-se como hipótese que a retomada das atividades profissionais possa trazer consigo a sensação de bem-estar físico após o tempo no qual a pessoa permaneceu acamada e/ou impossibilitada de desempenhar suas atividades com a desenvoltura que tinha antes da aquisição da deficiência. Entretanto, esse ponto de vista deve ser mais bem investigado em futuras pesquisas que busquem conhecer pontos de vista mais específicos.

Considerações finais

Este estudo teve por objetivo principal investigar e compreender os sentidos atribuídos ao trabalho por pessoas com deficiência adquirida, a partir de um olhar qualitativo. Considerando-se que a grande maioria das pesquisas sobre deficiência focaliza pessoas com todos os tipos de deficiência de forma ampla, muitas vezes sem fazer nenhuma distinção entre esses, entende-se que os aspectos psicossociais das pessoas com deficiência adquirida ainda são pouco estudados. Além disso, a aquisição de uma deficiência, muitas vezes, ocorre em condições difíceis de lidar e exige a readaptação a muitos aspectos da vivência diária, trazendo ainda outras questões a serem investigadas. Percebeu-se, por este estudo, que alguns dos sentidos do trabalho para adultos com deficiência adquirida reinseridos no mercado apresentaram contornos diferenciados dos que já foram relatados em outros estudos sobre os sentidos do trabalho ou que trataram da percepção de pessoas com deficiência (sem distinção dos tipos ou causas) sobre esse tema. Aspectos relacionados à autoavaliação da competência para o exercício do trabalho ou a necessidade de adequação/adaptação das condições e práticas das atividades de trabalho não foram contemplados pelos entrevistados. Verificamos que, quando interrogados sobre os sentidos atribuídos ao trabalho, as respostas foram relacionadas principalmente ao trabalho como uma dimensão da vida, talvez porque se interrogou sobre o sentido do trabalho de uma forma mais geral, diferentemente das pesquisas desenvolvidas por Morin (2001), que interrogava sobre “um trabalho que tem sentido”, que facilitava o aparecimento de questões mais específicas relacionadas ao exercício cotidiano do trabalho, sendo essa uma lacuna a ser objeto de futuras investigações.

Ressalta-se que as pessoas e o mundo do trabalho estão em contínua mudança e que não se pretende que os presentes resultados sejam tomados como definitivos nem como característicos de todas as pessoas com deficiência adquirida. Além disso, considera-se que algumas questões levantadas precisam e devem ser discutidas à luz de mais dados e informações, a fim de que possam ser tratadas com maior profundidade, como assinalado ao longo do texto. O aprofundamento nestas discussões pode possibilitar que se compreenda melhor a interação entre fatores objetivos e elementos subjetivos das pessoas com deficiência, bem como os seus impactos diferenciados em relação ao trabalho.

Esta pesquisa considerou que o aprimoramento e a adoção de atitudes inclusivas em relação à deficiência parte, principalmente, da abertura de espaço para a fala e a escuta das PcD’s e das suas vivências, uma vez que tal experiência possibilita a visibilidades das suas questões, assim como o debate contínuo sobre a inclusão e o respeito à diversidade. Assim, espera-se que a discussão e a análise aqui apresentadas possam gerar reflexões sobre esta temática e viabilizar práticas que colaborem para a plena (re)inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, em associação à qualidade de vida e à satisfação dos trabalhadores com deficiência. Como Morin (2001) argumenta, para os psicólogos, a compreensão dos sentidos do trabalho é uma oportunidade de atuar na reorganização dos processos de trabalho, de modo a favorecer a realização de algo que tenha sentido, podendo possibilitar ainda que os trabalhadores desenvolvam atitudes positivas em relação a si mesmos e às atividades que realizam. Dessa forma, por meio de estudos como este, é possível aliar o conhecimento gerado à prática organizacional efetiva, atendendo ao legítimo propósito da pesquisa acadêmica: produzir teorias, mas também ação na sociedade.

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior [CAPES] - Edital de Seleção de Bolsistas PPGPSI/UFSJ 2014, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq] - Edital de Bolsas de Produtividade em Pesquisa (PQ), Processo 306578/2016-6, e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais [FAPEMIG] - Edital Universal CHE - APQ-01187-17.

Referências

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Recebido: 19 de Fevereiro de 2016; Revisado: 15 de Dezembro de 2016; Aceito: 28 de Fevereiro de 2018

Endereço para correspondência: Rua Sargento Orlando Randi, nº 55, apto. 302, bairro Fábricas. São João del-Rei/MG, Brasil. E-mail: cristina.joelma@gmail.com

E-mail: nivalda@ufsj.edu.br

Joelma Cristina Santos é psicóloga, pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas e mestra em Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

Maria Nivalda de Carvalho-Freitas é professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei, doutora em Administração com Pós-Doutorado em Psicologia na University of Greenwich, Inglaterra. Bolsista de Produtividade do CNPq. Líder do NACE (Núcleo de Pesquisa em Acessibilidade, Diversidade e Trabalho).

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