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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.30  Belo Horizonte  2018  Epub June 07, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30165759 

Artigos

AMAR AMORES: O POLIAMOR NA CONTEMPORANEIDADE

AMAR AMORES: EL POLIAMOR EN LA CONTEMPORANEIDAD

LOVES TO LOVE: POLYAMORY AT CONTEMPORANEITY

Tatiana Spalding Perez1 

Yáskara Arrial Palma1 

1 Centro Universitário FADERGS - Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS, Brasil

RESUMO

O amor construiu-se historicamente com base no amor romântico, patriarcal, heteronormativo e de monogamia compulsória. Atualmente, novas construções - dentre elas o poliamor - defendem a possibilidade de amar e/ou se relacionar sexualmente com mais de uma pessoa simultaneamente. O objetivo desta pesquisa - qualitativa descritiva e exploratória - foi compreender as expressões do poliamor. Foram realizadas entrevistas narrativas com seis participantes que se identificaram como poliamoristas ou declararam estar envolvidos em relação amorosa e/ou sexual múltipla consentida por todos. Os dados foram analisados pela análise do discurso sob a perspectiva da psicologia social sócio-histórica e pós- estruturalista. A pesquisa demonstra que o poliamor baseia-se no amor livre, na não monogamia, na responsabilidade, na compersão, no respeito à individualidade, na liberdade sexual, na equidade de gênero e no diálogo. Evidenciou também as dificuldades enfrentadas pelos poliamoristas, tais como insegurança na exposição pública da relação e pressões sociais de estereótipos de gênero.

Palavras-chave: poliamor; psicologia social; dispositivo da sexualidade; relações de gênero

El amor se construyó históricamente basado en el amor romántico, patriarcal, heteronormativo y de monogamia obligatoria. Actualmente nuevas construcciones - entre ellas el poliamor - defienden la posibilidad de relaciones amorosas y/o sexuales con más de una persona al mismo tiempo. El objetivo de este estudio - cualitativo, descriptivo y exploratorio - fué comprender los fundamentos del poliamor. Se llevaron a cabo entrevistas con seis participantes que se identificaron como poliamoristas o declararon vivir relación amorosa y/o sexual múltiple consentida por todos. Los datos fueron analizados mediante el análisis del discurso por la perspectiva de la psicología social socio-histórica y post estructuralista. La investigación demuestra que el poliamor se basa en el amor libre, no monogamia, responsabilidad, compersión, respeto a la individualidad, libertad sexual, equidad de género y diálogo. Se evidenció también las dificultades enfrentadas por los poliamoristas, como inseguridad con la exposición pública y presiones sociales de estereotipos de género.

Palabras clave: poliamor; psicología social; dispositivo de la sexualidad; relaciones de género

ABSTRACT

Historically love was built based on the constructs of romantic love, patriarchate, heteronormativity and compulsory monogamy. Currently new constructions - among them polyamory - defend the possibility love and/or sexual relations with more than one person simultaneously. The aim of this qualitative exploratory and descriptive study was to understand polyamory and its constructs. Narrative interviews were conducted with six participants who identified themselves as “polyamorish” or declared to be involved in multiple relationship consent by all. Data were analyzed by discourse analysis from the perspective of post structuralist and socio-historical psychology. As result polyamory constructs identified were non-monogamy, free love, responsibility, compersion, respect for individuality, sexual freedom, gender equality and dialogue. The results also highlighted the difficulties faced at polyamory, as insecurity on public exposure and gender stereotypes social pressures.

Keywords: polyamory; social psychology; sexuality dispositive; gender relations

Introdução

Em sua construção histórica e social, o amor traz consigo o entendimento de que deve ser vivido (e sentido) de acordo com algumas normas - do amor romântico, patriarcal, heteronormativo e de monogamia compulsória. A partir dessa compreensão, o poliamor - relações amorosas e/ou sexuais que envolvem mais de duas pessoas com o consentimento de todas - surge procurando despir o amor das regras que o imobilizam, atribuindo-lhe novos significados. Assim, torna-se relevante a compreensão das expressões do poliamor e da vivência do mesmo pelos poliamoristas.

O objetivo deste trabalho está em compreender como os poliamoristas vivem o poliamor em uma sociedade sustentada por um conjunto de elementos sociais heterogêneos cuja relação constitui a produção de formas legítimas e ilegítimas de exercício da sexualidade, resultando no gerenciamento e controle dos corpos e de seus modos de ser. Tal conceituação é fundamentada por Foucalt nos três volumes da obra História da Sexualidade (Foucault, 1988) e é denominada dispositivo da sexualidade. Neste trabalho, portanto, analisamos as expressões do poliamor e como ele é vivenciado, apesar das repressões sociais impostas pelas normativas do amor romântico.

Ao estudar a história do amor na sociedade ocidental, as configurações de saber que o circundam e as relações de força que se estabelecem, é possível notar mecanismos do dispositivo da sexualidade que controlam os corpos nas suas possibilidades de amar. O amor é, portanto, socialmente construído, sendo produto e reflexo de sua época e sociedade, não podendo ser simplesmente entendido como algo já preestabelecido.

Historicamente, o amor transitou da idealização para a vigilância, para a ridicularização, e retornou à idealização. Inicialmente, na Idade Média, o amor cortês, trovadoresco, ideal e inatingível, foi a primeira manifestação do amor como relação pessoal. No Renascimento, se fortaleceu a vigilância moral e o casamento como negociação, e o amor ganhou uma tentativa tímida de associação entre espírito e matéria, através da popularização do ritual do casamento religioso. Na Idade Moderna, Igreja e Medicina procuraram separar amizade (direcionada ao casamento) e paixão (próxima à loucura e ao adoecimento). O amor, com o despertar do Iluminismo, passou a ser vinculado ao ridículo, ante um mundo que deveria ser voltado à razão. Desse período, o amor retornou à idealização, ao amor romântico, no século XIX, que se transformou em um fenômeno de massa na primeira metade do século XX, ambicionado por todos até os dias de hoje (Del Priore, 2006; Lins, 2012).

O amor romântico surgiu no século XIX como uma possibilidade de libertação. O romantismo emerge da literatura em contraposição à racionalização excessiva pregada pelo Iluminismo. Se na Idade da Razão os homens consideravam o amor um passatempo, uma prática de sedução indispensável ao cortejo das mulheres, no século XIX os homens passam a considerar o amor uma finalidade nobre da vida. Os romances literários propõem novos sentimentos, em que a escolha conjugal é condição para a felicidade. Fala-se de amor poeticamente, transferindo-se a admiração da mulher exuberante para a mulher virginal. Constrói-se o mito de um amor doméstico, puritano, casto, controlado e cauteloso, sob medida para a classe média e possível para todos. Sua possibilidade universal, se não fosse concreta, tornava-se real no mundo dos sonhos e da fantasia, estimulada pela literatura da época (D’Incao, 2013; Lins, 2012).

Além de puro, o amor romântico é também vitorioso. Vence, inclusive, o interesse econômico dos casamentos. Até então, a sobrevivência era o que sustentava o casamento e a família. O amor não era condição para tal, sendo, até mesmo, evitado. Os românticos se opõem a essa lógica, criticando os casamentos de conveniência como moralmente errados e prevendo para seus participantes a infelicidade perpétua. O romantismo defende, assim, a liberdade de escolha do cônjuge e a novidade de que o casamento deveria ser baseado no amor (D’Incao, 2013; Lins, 2014).

A libertação romântica é, porém, insatisfatória. Calcada na idealização, oferece ao indivíduo um modelo de conduta amorosa. O mito do amor romântico, como relação estável e duradoura, é moldado no ideal da família burguesa e determina o papel que homens e mulheres devem desempenhar no romance. Enquanto aos homens novas oportunidades e posições de poder se estabelecem, às mulheres novas normas as submetem à vigilância moral. Os estereótipos de gênero são, assim, reiterados. Sustentado pelo ideal da família burguesa, o amor romântico fragiliza a mulher e reforça o papel do homem como patriarca. Se os homens passam a ter o direito de escolher sua noiva, as mulheres devem preservar sua castidade, aguardando, ansiosamente, pelo homem que irá salvá-la. Daí o sucesso dos contos de fadas, em que as mulheres são salvas ou melhoram de vida por meio da relação com um homem. A virgindade se transforma em um objeto de valor econômico e político, elevando o status da noiva. Dessa forma, se impõe à mulher a monogamia compulsória, e a família monogâmica garante a transmissão da herança gerada pela acumulação de bens do sistema capitalista (Castilhos, 2009; Del Priore, 2006; D’Incao, 2013; Lins, 2012, 2014; Sangrador, 1993).

Essa família nuclear monogâmica é considerada o símbolo da felicidade amorosa na primeira metade do século XX, quando o amor toma grande importância. A velocidade das modificações sociais, após a industrialização, gerou insegurança, e o amor foi elevado ao status de cura para todos os males. O casamento de conveniência passou a ser considerado vergonhoso - o que permitiu agora também às mulheres a liberdade de escolha -, e o amor passou a ser não só um ideal romântico como o cimento da relação. A partir da década de 1940, estima-se que a maioria das pessoas já se casava por amor. Com isso, se intensifica a convicção de que, para cada indivíduo, existe a pessoa certa à espera de seu encontro. O amor se estabelece assim como um ideal a ser alcançado, uma busca eterna pelo “felizes para sempre” (Castilhos, 2009; Del Priore, 2006; Lins, 2012).

O final eternamente feliz, entretanto, não era para todos/as. O amor romântico é heteronormativo. As representações sociais do amor romântico estão vinculadas à família nuclear burguesa, que - sendo redundante - é heterossexual. Até os anos 1960, os homossexuais tiveram de manter seu amor nas sombras. Foi apenas após a revolução sexual dos anos 1960 e 1970, contra a repressão e a favor da liberdade sexual, que as relações homoafetivas ganharam espaço na luta pelos seus direitos, visibilizando-se. No Brasil, o movimento homossexual surgiu no final dos anos 1960, sendo que a homossexualidade deixou de ser considerada como “desvio” somente em meados dos anos 1980, quando retirada do DSM-III (Del Priore, 2006; Toniette, 2005).

Ao questionar a sexualidade e dar voz aos menos visibilizados, a revolução sexual da segunda metade do século XX permitiu o questionamento de algumas normas do amor até aqui atuantes. O casamento deixou de ser visto como uma decisão eterna, de forma que o divórcio de tragédia tornou-se a resolução do problema de não ter sido bem-sucedido na escolha do cônjuge. O divórcio, por sua vez, modificou alguns papéis de gênero. A inserção da mulher no mercado de trabalho e o advento da pílula anticoncepcional permitiram liberdade financeira e sexual para a mulher, que ganhou maior autonomia para suas decisões. Ao final do século XX, o amor romântico, apesar de ainda almejado, mostrou sua face fugaz, podendo ser vivido de forma provisória (Del Priore, 2006; Lins, 2012).

Se as mudanças sociais no século XX assustaram devido à velocidade em que ocorreram, no século XXI a tecnologia e a globalização aumentam ainda mais a velocidade dessas mudanças. Com tantas opções de vida, os objetivos dos indivíduos se dividem entre a liberdade, a estabilidade e a incerteza entre uma ou outra. O amor romântico começou a sair de cena, levando com ele a ideia de exclusividade. Entre as diversas alternativas que surgem, emerge a possibilidade de se amar e de se relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo (Lins, 2014).

Nesse contexto, surge o poliamor. Colocando o amor como centro das relações afetivas, o poliamor nasce do entendimento de que o amor não pode ser forçado, direcionado ou impedido de ser sentido. O poliamor defende, assim, que é possível e válido manter relações íntimas e/ou sexuais com múltiplos parceiros simultaneamente, com a concordância de todos os envolvidos (Haritaworn, Lin, & Klesse, 2006).

O termo original da palavra polyamory surgiu nos Estados Unidos, em 1990, no Glossário de Terminologia Relacional escrito pela Igreja de Todos os Mundos, instituição neo-pagã. Nesse contexto, a palavra ficou inicialmente restrita a um público específico, tendo sido criada, mas não desfrutando de circulação suficiente para tornar-se referência. Saindo do espaço restrito para o mundo externo em 1992, o termo surgiu em grupos de discussão pela internet que buscavam solucionar problemas práticos amorosos como sinônimo de “não monogamia”. Foi a partir da internet, então, que o termo espalhou-se pelo mundo, sendo nos países de língua portuguesa traduzido para poliamor (Cardoso, 2010). Nos anos 2000, a criação de blogs oficiais no Brasil e a expansão das redes sociais ampliaram a discussão sobre a prática entre brasileiros. Em suas pesquisas realizadas no Brasil, Pilão (2012, 2015) utilizou esses espaços como fontes de pesquisa.

A busca por uma definição específica para o poliamor tem levantado debates nos estudos norte-americanos. As discussões ocorrem pois o termo engloba diferentes arranjos relacionais poliamoristas. Os contratos íntimos são realizados entre parceiros, podendo apresentar configurações diversas. O termo poliamor é importante, portanto, para nomear relações que não se encaixam nas formas como o amor tem sido construído socialmente. Ou seja, o poliamor não é monogamia, pois pressupõe a relação com mais de um parceiro; mas também não é necessariamente contrário a seus princípios, pois o construto principal da monogamia, a fidelidade, pode fazer parte do contrato. Por outro lado, o poliamor também não deve ser comparado à poligamia, pois não pressupõe assimetria de gênero (Klesse, 2006; Lins, 2014; Pilão & Goldenberg, 2012).

Estudos sobre o poliamor têm se concentrado nos Estados Unidos, principalmente com os trabalhos de Christian Klesse (2006, 2011, 2014). As pesquisas com poliamoristas brasileiros são ainda escassas (Pilão, 2015; Pilão & Goldenberg, 2012), mas já apontam diferenças na forma como o poliamor é compreendido pelos brasileiros em relação às visões estado-unidenses e europeias. Pilão (2015) percebe a prevalência dos valores de liberdade e espontaneidade no poliamor brasileiro, enquanto entende que os estudos nos Estados Unidos e Europa apontam para os valores de compromisso, responsabilidade e negociação.

Independente dos valores atribuídos aos poliamoristas, o poliamor se contrapõe aos mecanismos do amor romântico por aceitar que o ser humano é capaz de amar mais de uma pessoa. O poliamor defende o sentimento do amor, a possibilidade de relação pela atração sexual ou emocional entre as pessoas, independente do sexo ou de outras normas socialmente impostas para a escolha de parceiros. Admite a variedade de sentimentos que se desenvolvem em relação a várias pessoas e que vão além da relação sexual.

Portanto, o poliamor amplia, de forma inovadora, o modo de sentir o amor. E, como tudo que é novo, impacta e traz resistência, gerando preconceitos. A vida social é circunscrita a uma constante vigilância que, como coloca Foucault (2007), define o que é suportado ou não pela sociedade, pressionando nossa subjetividade à disciplina dos corpos para a ordem social. Nesse sentido, viver o poliamor em uma sociedade que idealiza o amor romântico, patriarcal, heteronormativo e de monogamia compulsória exige dos poliamoristas constante enfrentamento e desconstrução das pressões sociais que envolvem sua compreensão do amor.

O presente estudo, assim, se faz relevante para ampliar os conhecimentos acerca dessa organização da vivência do amor. Uma visão que mostra a possibilidade de reinvenção das maneiras de se relacionar no mundo, destituindo antigos dispositivos. Entre tantos engolfamentos sociais, o poliamor anuncia uma transformação nas formas de amar, modelando novas texturas e dimensões.

Método

Foi realizada pesquisa qualitativa descritiva e exploratória. A pesquisa qualitativa caracteriza-se por considerar a complexidade dos fenômenos sociais, a partir daqueles que vivem o que está sendo estudado (World Health Association [WHA], 1994). Na perspectiva descritiva, a pesquisa tem por objetivo descrever um fenômeno. Já na exploratória, procura promover o aprimoramento das ideias, possibilitando maior familiaridade da sociedade com o problema (Gil, 2002). Foi escolhido o método qualitativo descritivo e exploratório por permitir a descrição e o aprimoramento do conhecimento acerca do poliamor a partir do olhar dos poliamoristas.

Participaram do estudo seis pessoas - quatro mulheres e dois homens -, jovens (21-27 anos), sem filhos, com formação superior concluída ou em andamento e de classe média. Todos se identificaram como poliamoristas ou autodeclararam estar envolvidos em relação amorosa e/ou sexual múltipla consentida por todos.

A identificação dos participantes ocorreu através da técnica snowball sampling (bola de neve), proposta por Goodman (1961). Aos participantes iniciais do estudo foi solicitado que indicassem novos participantes que, por sua vez, indicaram novos participantes. As indicações foram solicitadas até que o ponto de saturação fosse atingido, ou seja, quando as falas dos novos entrevistados passaram a repetir o discurso já identificado nas entrevistas anteriores. Os participantes iniciais foram identificados pela rede de contatos da pesquisadora (WHA, 1994).

Para coleta dos dados foi realizada entrevista narrativa individualmente com cada participante em local escolhido pelo mesmo. A narrativa como instrumento de pesquisa qualitativa tem por objetivo a não diretividade, sendo uma técnica discursiva não estruturada em que há um controle mínimo sobre as respostas dos/as entrevistados/as, apesar do conhecimento prévio sobre o assunto por parte do pesquisador. A partir de uma questão aberta, a entrevista narrativa propõe um espaço ao entrevistado para discorrer sobre o assunto da pesquisa. Nesse sentido, o/a pesquisador/a não utiliza de roteiros estruturados ou semiestruturados, pois seu papel é estimular o relato da experiência do entrevistado (Muylaert, Sarubbi, Gallo, Rolim, & Reis, 2014).

Os dados foram analisados através da Análise do Discurso sob a perspectiva dos autores da psicologia social sócio-histórica e pós-estruturalistas (Butler, 2008; Foucault, 2007; Lane & Codo, 1984). Tal análise visa à compreensão do enunciado em sua singularidade, levando em consideração: as condições sócio-históricas para sua existência, as limitações que permeiam a construção da fala, e seus atravessamentos com os demais enunciados evidenciando aproximações e distanciamentos. A análise de discurso procura, assim, descrever os jogos de relações que estão dentro e fora do discurso. Entende-se, portanto, que os sujeitos, através de seus discursos, expressam além de seus entendimentos, aquilo que lhe está subjetivado, que lhe constitui pelo momento histórico em que o vive e por suas experiências de vida.

Sendo assim, nesse estudo, as expressões do poliamor foram analisados através do discurso dos entrevistados. Para a identificação desses se levou em consideração a história do amor na sociedade ocidental, apresentada na introdução desse trabalho, e se procurou analisar a maneira como o enunciado dos entrevistados se articula com a construção histórica do amor - romântica, patriarcal, heteronormativa, de monogamia compulsória.

A pesquisa seguiu a Resolução n. 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), de 12 de dezembro de 2012, sendo aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa. As pesquisadoras declaram não ter conflito de interesses, sendo o estudo realizado com pessoas voluntárias sem associação com qualquer instituição. Os participantes não receberam qualquer remuneração ou incentivo financeiro para contribuição na pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os dados de identificação dos participantes foram preservados, visando o sigilo, procurando minimizar o risco de exposição, sendo os mesmos apagados dos resultados. Foram utilizados nomes fictícios para referir-se aos participantes.

Resultados e discussão

O termo poliamor tem sido utilizado no âmbito acadêmico para definir relações amorosas e/ou sexuais que envolvem mais de duas pessoas com o consentimento de todas. Poliamor, porém, através do olhar de seus adeptos vai além do conceito acadêmico por ressignificar o amor.

No poliamor, como a palavra em si defende, há a possibilidade de muitos amores, ao mesmo tempo, com mesmo nível de importância ou não. O entendimento se fundamenta em alguns princípios, porém a vivência é acordada entre os envolvidos1. Nesta pesquisa, foi possível identificar que o poliamor baseia-se na não monogamia, no amor livre, na responsabilidade, na compersão, no respeito à individualidade, na liberdade sexual, na equidade de gênero e no diálogo.

Quando se pensa o amor para além de duas pessoas, a não monogamia vem como desconstrução imediata do próprio conceito, uma vez que “mono” = “um” e “gamia” = “casamento”. Na pesquisa realizada por Pilão e Goldenberg (2012) no Brasil, foi indicado que os pesquisados entendiam a monogamia como “menos desenvolvida”, por envolver ciúme, competição, controle, posse e mentira em grau mais elevado que no poliamor.

Nesta pesquisa, os poliamoristas compreendem que o termo traz consigo entendimentos que vão além da palavra, mas não elevam o poliamor a um grau de maior desenvolvimento. Rafael vive há oito anos o poliamor e entende que “a monogamia pressupõe que as coisas têm que ser pra sempre e eternas” e para ele “essa história de amor eterno é uma fraude, porque a gente só vai ser feliz quando morrer então, porque se não, não foi eterno” (Rafael).

A fala de Rafael evidencia o questionamento à monogamia e sua sustentação histórica na lógica do amor romântico, em que o casamento é a união entre duas metades que se complementam e se completam até o fim dos seus dias. Em contraposição ao amor romântico, o poliamor se sustenta no amor livre.

Ana vive uma relação trisal há 6 meses e diz: “nas minhas relações anteriores eu era extremamente ciumenta, possessiva e tudo mais. ... na minha concepção ciúmes e possessão não significa mais amor como eu achei que era. É mais uma coisa que a sociedade criou, entende?”. A transformação na forma de ver o amor permitiu que Ana ampliasse sua compreensão da posse para a ideia de liberdade. Seguindo sua fala: “O meu conceito de amor é esse: que a gente pode amar mais de uma pessoa e que o amor é liberdade! É poder estar livre para fazer o que a gente sente vontade. Não uma obrigação, sabe?” (Ana).

O amor livre compreende que o sentimento em relação a outras pessoas para além de um único parceiro acontece de forma natural e não deve ser reprimido, forçando às pessoas a uma escolha conjugal eterna. Para o poliamor, o fato de que todas as pessoas têm sentimentos em relação àquelas que as rodeiam é visto como algo bastante evidente (Lins, 2014). No lugar do ciúme e, consequentemente, da posse, os entrevistados apontam como uma das expressões do poliamor a compreensão da responsabilidade na relação, responsabilidade sobre os próprios sentimentos e compersão.

Em termos de responsabilidade, os entrevistados entendem que não vivenciam o ciúme como algo destrutivo, e sim como parte dos seus sentimentos. Débora vive há oito anos o poliamor e coloca: “Eu posso sentir ciúmes do Rafael, mas eu sei que eu sou responsável pelo meu ciúme e por dar um encaminhamento a ele ... ele não tem nenhuma obrigação de resolver o meu ciúme”. A responsabilidade dos sentimentos vai ao encontro da responsabilidade na relação, que se sustenta por sua própria capacidade de manter-se ou não (Lins, 2014). Débora segue:

O que interessa numa relação é o processo, e não o fim. Então, sei lá, se a gente terminar amanhã, obviamente eu ia ficar muito triste, mas jamais eu ia dizer ‘não funcionou, não deu certo’. Claro que deu! Olha todo o período que isso, né, me fez feliz e que, né, contribuiu na minha vida. (Débora)

A relação poliamorista se sustenta, assim, não na certeza de que o outro é “a escolha certa”, mas sim na troca que a relação pode proporcionar. A percepção do amor como troca coloca todos os envolvidos na posição de responsabilidade pela manutenção da relação de forma a valorizar o processo, a relação em si, e não necessariamente os atos individuais de uma ou de outra pessoa.

O reconhecimento da responsabilidade na relação permite que o ciúme se transforme em compersão. Compersão é o nome dado ao sentimento oposto ao ciúme e se baseia na capacidade de sentir-se feliz por seu parceiro ser capaz de envolver-se com outra(s) pessoa(s) (Lins, 2014; Pilão, 2015). É visível a felicidade pela liberdade do outro na frase de Natália, solteira e poliamorista há 10 anos:

Hoje mesmo eu vou encontrar uma pessoa e ele me perguntou ‘o que tu vai fazer hoje’ e eu ‘eu vou sair com o fulano’ e ele ‘então tá, vai lá e aproveita! eu tô te ligando para contar que eu fiquei com a ciclana’ e eu ‘sério! que legal! e ai? como foi?’ e isso eu acho a coisa mais linda, eu acho o amor mais lindo que eu tenho, porque isso não diminui em nada a minha vontade de estar com ele, o meu amor por ele. (Natália)

O poliamor entende que somos capazes de amar mais de uma pessoa sem competição, sem tentar medir o amor, da mesma forma que não medimos o amor que temos por amigos ou familiares. A compersão, então, legitima o próprio desejo e o desejo do outro pelo envolvimento com outras pessoas. Tal reconhecimento toma como base o entendimento de que as relações não pressupõem posse. Débora diz: “A gente sempre tentou não ver a liberdade do outro como uma moeda de troca. ... A tua liberdade não é minha, na verdade pra eu te dar, né?! ... A tua vida não me pertence pra eu controlar ela” (Débora). Nesse sentido, o poliamor preserva também o respeito à individualidade em oposição à posse. A relação se estabelece pela aproximação entre pessoas inteiras, e não pela fusão de metades (Lins, 2014).

A liberdade do amor se expande também para a liberdade sexual. Rafael, ao explicar sobre seu processo de abrir a relação para envolvimentos com outros homens e com outras mulheres, diz: “eu me considero pansexual também, e daí, pra mim, eu tento não botar essa diferenciação [homo/hetero]”. A heteronormatividade é, assim, questionada, pois as relações amorosas acontecem pelo interesse entre as pessoas, e não necessariamente pela condição de ser homem ou mulher (Lins, 2014).

Cabe salientar que a liberdade sexual é válida tanto para homens como para mulheres. Desse modo, o poliamor defende ainda a simetria de gênero. A família monogâmica tradicional apoia-se no patriarcado, que coloca o homem como centro e oprime a mulher, determinando os papéis sociais de predomínio do homem (a quem se permite a infidelidade conjugal) e de tolerância/submissão da mulher (a quem a fidelidade era vigiada de forma rigorosa) (Lins, 2012). Já o poliamor defende um combate aos privilégios dos homens na vivência de seus desejos, abrindo a possibilidade para ambos (Pilão & Goldenberg, 2012). Rafael sinaliza: “o feminismo acabou entrando na nossa vida antes do poliamor até e o feminismo já fala muito disso, de relações de poder e de liberdade, que o poliamor também vai considerar muito”.

Nas relações de gênero, podemos entender que os entrevistados sinalizam como expressão a equidade de gênero. A simetria de gênero aparece como um ideal mais complexo ainda não alcançado devido aos atravessamentos sociais. Os entrevistados atentam para as diferenças de gênero por entenderem que a desconstrução do amor romântico na perspectiva feminina se dá de forma mais gradual que na masculina. Pedro diz: “era muito fácil, tanto socialmente quanto emocionalmente, me colocar em uma situação, em uma relação não monogâmica, enquanto pra ela, é, quer dizer, em contrapartida pra ela era uma situação muito difícil, né?” E Bianca explica:

Tem esse recorte de a gente [mulheres] tá muito mais preocupada do que vão pensar da gente e do que a gente pode ou não fazer do que eles. E essa educação sexual mesmo, que é bastante diferente. Eles sempre tiveram mais liberdade e a gente sempre teve essa educação pra gente ser mais... contida, digamos assim. E superar isso é uma coisa que eu acho que se dá muito aos poucos, assim. Essas barreiras das diferenças de gênero e de educação e de liberdade sexual. (Bianca)

Tal compreensão fez com que os dois casais - Débora e Rafael, Pedro e Bianca - já tenham vivido momentos em que foi acordada maior liberdade na relação para a mulher que para o homem, na busca pela simetria de gênero. Nesse sentido, o conceito de equidade vai ao encontro do trazido pelos pesquisados, pois permite problematizar as diferenças e as desigualdades geradas pelas relações. Diferenças que vão além da compreensão do amor, pois estão subjetivadas nos estereótipos de gênero. O uso do termo equidade permite a busca pela solução dessa em direção à igualdade de valor e de oportunidades, considerando as particularidades de cada um (Couto & Gomes, 2012).

Pedro observa ainda que não entender essas diferenças de gênero coloca em risco a relação em si, uma vez que os jogos de poder podem acabar pendendo para a concepção patriarcal de o homem ter mais liberdade sexual que a mulher: “É muito fácil tu se colocar numa situação abusiva, assim. De colocar outra pessoa, né? No caso eu, sendo homem, enfim...” (Pedro).

O diálogo aparece, assim, como estratégia fundamental para minimizar os desentendimentos, permitir que as pessoas envolvidas nas relações estejam cientes das regras acordadas e evitar situações de abuso ou assimetria nas relações de gênero. Bianca diz “o primeiro contato que eu tive com isso [o poliamor] foi um pouco fantasiado ... como se não precisasse de tanta conversa, que todo mundo simplesmente só se aceitasse e se respeitasse e a coisa praticamente fluísse sozinha, assim”. A visão inicial idealizada de Bianca sobre o poliamor condiz com a visão idealizada sustentada pelo amor romântico, que dispensa diálogos longos, uma vez que a unidade do par pressupõe o entendimento apenas pela troca de olhar e pela paixão (Lins, 2014).

O diálogo se mostra essencial para os poliamoristas, pois a desconstrução do amor romântico é vista como um processo constante. Natália lembra: “Ninguém vem desconstruído de fábrica, né?” O diálogo vem para promover a desconstrução e avaliar se todos se sentem confortáveis com o que está sendo construído em seu lugar.

Para além das dificuldades intrínsecas da relação, todos os entrevistados mencionam não se expor em ambientes em que não se sintam seguros, evitando situações que poderiam causar preconceito. Tanto Débora e Rafael quanto Bianca e Pedro têm uma relação heterossexual primária e entendem que nunca vivenciaram situações específicas de preconceito, pois a aparência externa de uma relação monogâmica heterossexual os protege de certa forma. A evitação do preconceito mostra a importância de ampliar socialmente a compreensão do poliamor e torná-lo visível. Segundo Costa e Nardi (2015), os estereótipos presentes na nossa cultura dão forma ao preconceito que geralmente é utilizado para a manutenção da desigualdade e da marginalização do outro, diferente e desconhecido.

Ana, que vive uma relação trisal, narra sentir o preconceito nos olhares das pessoas na rua ao se despedir de seu namorado e de sua namorada: “As pessoas já olham assim tipo ‘como assim? Os três se beijaram!’, sabe? Algumas pessoas eu vejo que é mais curiosidade, mas outras eu percebo que é desprezo, com mais preconceito mesmo” (Ana). Os olhares preconceituosos na rua colocam a relação de Ana à margem da sociedade, reforçando a ideia de que a monogamia deveria ser a única forma aceitável para um relacionamento amoroso. Ana acaba por evitar a rua, deixando as trocas afetivas para locais mais preservados. Paradoxalmente, ao tentar fugir da marginalização, os poliamoristas se colocam à margem, não dando visibilidade às suas relações.

Natália, por outro lado, sinaliza: “sofro o preconceito toda vez que tento falar sobre isso”. Ter de explicar sua forma de viver o amor faz com que ela se sinta discriminada: “é só amor, sabe? É uma coisa tão... parece que eu tô defendendo a causa, sei lá, de matar animais, sabe? Chutar crianças na rua!” (Natália). Como solteira, Natália lida com insultos e incompreensão com mais frequência, cada vez que inicia um novo relacionamento heterossexual.

Desde que eu assumi pra mim que eu não ia mais me envolver em relacionamentos monogâmicos tradicionais, isso sempre foi um problema, porque aí quando eu ia tocar nesse assunto: ‘Ah! Então tu quer putaria! Então tu não te satisfaz com uma pessoa só!’ Era difícil da pessoa entender que, na verdade, não é que eu quero tá com outras pessoas, é só que eu não quero fechar isso, entende? (Natália)

No caso de Natália, a identificação do preconceito está atravessada também pelas relações de gênero. É possível perceber que nesses casos o medo não é só do preconceito, mas também do risco de sofrer violência. Todas as mulheres entrevistadas mencionaram não se envolver com homens antes de conhecê-los e acharem que estão seguras para expor seu ponto de vista. Bianca narra um episódio em que sentiu medo ao perceber que estava sendo perseguida durante uma festa por um homem com quem ficou e que não queria deixá-la livre quando contou sobre sua relação aberta com Pedro. Ela diz: “ele falou ‘Não. Hoje tu tá comigo, tu tá comigo. Tu não tem outra pessoa’”. O medo de relacionar-se com homens desconhecidos remete ao temor da violência contra a mulher, por muitos anos autorizada pela lógica do patriarcado e ainda uma realidade no Brasil. O mapa da violência de 2015 (Waiselfisz, 2015) aponta o aumento das taxas de homicídio de mulheres no país, sendo que em 2013 o número de mulheres assassinadas chegou próximo aos quinhentos mil. Cabe salientar aqui que, apesar das entrevistadas associarem o medo de violência a pessoas desconhecidas e de existir um certo temor das mulheres em geral de que na rua estarão mais vulneráveis à violência, na prática é o oposto. O mapa da violência de 2015 (Waiselfisz, 2015) mostra que 67,5% do total de atendimentos foram decorrentes de violência doméstica, ou seja, a maior incidência de violência contra a mulher não é com pessoas desconhecidas, mas, ao contrário, com pessoas próximas, com quem mantêm ou mantiveram um relacionamento.

O cuidado na relação com homens faz com que as mulheres se sintam mais à vontade para se relacionar com outras mulheres. Essa escolha, por sua vez, acaba reforçando o machismo, uma vez que dentro da lógica do patriarcado os homens tendem a fetichizar as relações homoafetivas femininas. Natália, por exemplo, diz que com frequência os homens aceitam sua forma de relacionar-se num primeiro momento, mas depois recuam quando ela relata estar se envolvendo com outro homem.

Eu sou bissexual e pra ele não havia problema que eu ficasse com outras meninas. Muito machista, né? Do tipo ‘Ah! com outra mulher tudo bem’. Ele até erotizava isso, do tipo ‘ah! que legal!’. Mas agora quando era eu tá com outro cara ele achava péssimo. Feria a... A masculinidade dele, sabe?! ‘Como assim? Tu tá com outra pessoa?’ Como se eu fosse um pouco dele, sabe? Tipo, ‘alguém tá brincando com os meus brinquedos!’ (Natália)

O preconceito e o medo aparecem com menor intensidade nas relações de amizade, principalmente porque em grupos de amigos as afinidades permitem que esses estejam mais abertos ao diálogo. Como coloca Pedro, “eu não cultivo muitas amizades que ... divergem muito assim politicamente em relação à vida e à postura, machismo etc.”.

Já nas relações familiares e de trabalho, o assunto é aberto ou fechado de acordo com o contexto. No trabalho, Pedro, Natália, Ana e Bianca não falam sobre o poliamor, por diferentes razões, mas principalmente por não se sentirem à vontade ou pela certeza de que ficariam expostos a julgamentos que não dizem respeito ao ambiente profissional. Por sua vez, Débora e Rafael não se sentem reprimidos, mas Débora assinala: “eu cheguei num contexto mais de trabalho, em contextos mais formais depois de já viver dessa forma há anos, né? Então eu tinha segurança pra falar sobre isso já. Eu falava e falava com certeza”.

Na família, Ana, Natália e Débora já conversaram com seus familiares sobre a forma como se relacionam, explicaram sobre o poliamor; apesar de um estranhamento inicial, não houve rompimento das relações. Como diz Natália, “Pra eles, assim, é uma coisa incomum. Mas eles já me aceitaram, entende? Mas eu acho que aceitar é diferente de entender. Eu acho que eles não entendem, mas de qualquer maneira eles aceitam”. Já Pedro, Bianca e Rafael não se sentiram à vontade para falar sobre o assunto. Bianca diz: “a minha família é muito preconceituosa, é muito conservadora”. Rafael coloca: “minha família é muito desligada. Eles nunca quiseram saber muito da forma como eu me identifico enquanto orientação sexual, formas de se relacionar, qualquer coisa. ... há várias outras coisas que eu também não posso comentar com a minha família”.

Independente das dificuldades e preconceitos enfrentados, para os entrevistados o poliamor surgiu a partir de seus questionamentos, seus desejos e experiências. Débora, no início de sua narrativa, aponta: “na real, acaba sendo uma experiência em termos de poliamor, mas eu fui nomear assim não faz muito tempo, né?”. Assim, a palavra “poliamor” entrou na vida dos entrevistados depois de a vivência já ser algo real. Rafael coloca que “acabou só dando nome aos bois”.

O uso do termo poliamor se faz importante, portanto, para nomear relações que não se encaixam nas formas como o amor tem sido construído socialmente. As expressões do poliamor permitem a criação de representações sociais que tornam familiar o não familiar. Nomear o poliamor vem a serviço do bem-estar ao possibilitar a legitimação da experiência dos poliamoristas dando nome à sua prática (Jacques et al., 2013).

O processo inicial de nomeação, porém, dá espaço a concepções diferentes do uso do termo “poliamor”. Ana e Rafael entendem que “poliamor” é a palavra que melhor define suas vivências. Débora e Natália compreendem o poliamor como filosofia de vida. Já Bianca e Pedro preferem não nomear a relação. Nos estudos norte-americanos, segundo Klesse (2014), o poliamor já foi interpretado de diversas formas: prática de relacionamento, filosofia, teoria, “estilo de amar” (lovestyle), “orientação de relacionamento” (relantionship orientation) e identidade. No Brasil, o trabalho de Pilão (2015) também aponta as dificuldades para definição do termo como um dos impasses do poliamor.

A dificuldade em fechar o conceito se relaciona também ao fato de que as configurações das relações poliamoristas não são únicas. Pilão (2015) aponta três tipos de arranjos no poliamor, que podem ser abertos - em que existe a possibilidade de novos envolvimentos - ou fechados - em que os envolvimentos se restringem ao grupo, se consolidando uma “polifidelidade”. São os arranjos: (a) “relação em grupo” - todos se relacionam entre si; (b) “rede de relacionamentos interconectados” - cada pessoa da relação tem outros relacionamentos distintos; e (c) “relação mono/poli” - casal em que um é poliamorista e outro não, por opção (Pilão, 2015).

Podemos observar as diferentes configurações nesta pesquisa. O arranjo “relação em grupo” é vivido por Ana, que tem uma relação fechada de três pessoas (trisal). O arranjo “rede de relacionamentos interconectados” é vivido pelos casais Débora e Rafael, que vivem o poliamor há oito anos, e Bianca e Pedro, que intitulam sua relação como “aberta” há dois anos. A “relação mono/poli” não apareceu na pesquisa e nos parece que precisa ser melhor estudada, uma vez que os entrevistados sinalizaram os riscos de acabar gerando relacionamentos abusivos. E a vivência de Natália nos permite pensar um quarto arranjo: “poliamorista solteir@”, pois apesar de Natália ter um relacionamento livre há dez anos com a mesma pessoa, ela se entende como solteira.

Para além da configuração, todos mencionaram a possibilidade de mudança da mesma, uma vez que ela se estabelece através do acordo entre os envolvidos e esse está aberto a mudanças. Independente do entendimento do termo ou do arranjo da relação, se percebe que o acordo entre as pessoas influencia no entendimento sobre o poliamor. Neste estudo não se identificou, portanto, a diferenciação apresentada por Pilão (2015) da prevalência dos valores de liberdade e espontaneidade no poliamor brasileiro, em contraposição aos valores de compromisso, responsabilidade e negociação norte-americanos e europeus.

Conclusão

O amor construiu-se historicamente com base no amor romântico, patriarcal, heteronormativo e de monogamia compulsória. No tempo presente, novas construções questionam as normativas do amor romântico, defendendo a possibilidade de amar e/ou se relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. O poliamor surge como uma das possibilidades e nos convida a pensar o amor, despindo-o das regras que o imobilizam e atribuindo-lhe novos significados.

O objetivo desta pesquisa foi compreender as expressões do poliamor e o modo como são vivenciadas por seus praticantes. Os dados levantados através das entrevistas narrativas dos participantes e analisados com base na Análise do Discurso sob a perspectiva da Psicologia Social Sócio-Histórica e dos autores pós-estruturalistas elucidaram as expressões do poliamor. Através desses, foi possível perceber que o poliamor vai além da definição acadêmica do termo, que o utiliza para definir as relações íntimas e/ou sexuais com múltiplos parceiros simultaneamente com a concordância de todos os envolvidos.

Para além das relações, a pesquisa demonstra que o poliamor fundamenta sua compreensão do amor a partir do amor livre, da não monogamia, da responsabilidade, da compersão, do respeito à individualidade, da liberdade sexual, da equidade de gênero e do diálogo. Tais fundamentos permitem que os poliamoristas enfrentem as pressões sociais e estejam constantemente se (des)construindo e refletindo sobre suas relações.

Por outro lado, a desconstrução acontece muito mais no âmbito interno das relações. Os pesquisados procuram manter suas relações em espaços que consideram seguros, na tentativa de evitar situações explícitas de preconceito. O preconceito e o medo aparecem com menor intensidade nas relações de amizade. Já nas relações familiares e de trabalho o assunto é aberto ou fechado de acordo com o contexto. Percebemos, assim, que a vivência do amor livre ainda está aprisionada a contextos específicos.

Observou-se também que o poliamor é vivido de forma diferente por homens e mulheres devido às pressões sociais que constroem os estereótipos de gênero. Enquanto os homens parecem ter mais facilidade em viver na prática o poliamor, as mulheres o exaltam como um suporte filosófico que as tira do papel de propriedade de seus companheiros e permite que sejam, de fato, livres.

O presente estudo apresenta como limitação o fato de todos os entrevistados morarem na capital do Rio Grande do Sul. Compreendemos que a cultura no interior do nosso Estado tende a exaltar e valorizar as relações tradicionais de forma mais intensa, o que provavelmente influencia a vivência do poliamor nesses locais. A continuidade dos estudos na área se faz necessária para verificação dessas hipóteses.

Cabe salientar ainda que os entrevistados identificaram que o poliamor surgiu na vida deles através de seus desejos e experiências, de maneira que a palavra poliamor em si passou a nomear sua vivência a posteriori. Pesquisas com poliamoristas que passaram a viver o poliamor depois de conhecer o termo podem elucidar questões diferentes das aqui apresentadas. Igualmente, os participantes desta pesquisa apresentavam diferentes arranjos de relacionamento, o que num primeiro momento contribui para a ampliação do conhecimento acerca do tema. Porém, no futuro, pode ser que os arranjos sejam nomeados de formas diferentes e não se entendam mais como parte do poliamor, como hoje o entendemos. O movimento das Relações Livres (Rli), por exemplo, já tem diferenciado os termos para explicar a vivência das Rli.

Espera-se com esta pesquisa ampliar o conhecimento sobre o poliamor tanto para a comunidade científica quanto para a sociedade em geral. Entendemos que nomear as relações múltiplas como poliamor traz visibilidade a formas de viver que ficam silenciadas e acabam marginalizadas pelas configurações dominantes. A evitação do preconceito evidencia a importância de ampliar socialmente a compreensão do poliamor e torná-lo visível, para que se possa de fato lutar contra os preconceitos que ainda estão por vir.

Dar visibilidade ao poliamor permite que o termo seja conhecido e discutido em diversos âmbitos, possibilitando a inclusão das relações múltiplas consentidas nas discussões estruturantes da sociedade. No âmbito jurídico, por exemplo, o termo tem sido discutido na esfera do direito de família e vem levantando questionamentos sobre como integrar nas leis as relações poliafetivas.

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1Cabe salientar que poliamor diferencia-se de “relações livres”, pois na última a autonomia plena é ponto de partida, ou seja, não se faz necessário o acordo entre os envolvidos, uma vez que todos são livres para viver, amar, transar, se relacionar com quem quiserem e quando quiserem (Rodrigues, Campos, Sieber, Soares, & Faria, 2017).

Recebido: 26 de Junho de 2016; Revisado: 16 de Outubro de 2017; Aceito: 16 de Fevereiro de 2018

Endereço para correspondência: Av. Getulio Vargas, 1691/405, Menino Deus, Porto Alegre/RS, Brasil. CEP 90150-005. E-mail: psicologa@tatianaperez.com.br

E-mail: yaskara.palma@fadergs.edu.br

Tatiana Spalding Perez é psicóloga graduada pela FADERGS e bacharel em História, graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Possui especialização em Terapia Sistêmico-Cognitivo de Famílias e Casais pelo InTCC e atua como psicóloga clínica em Porto Alegre.

Yáskara Arrial Palma possui graduação em Psicologia pela Universidade de Caxias do Sul, mestrado em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutorado em Psicologia Social pela PUCRS - bolsa sanduíche na Universidad Rey Juan Carlos, Espanha, pela CAPES. Coordena o grupo de pesquisa Produções de Subjetividade e Saúde e o Curso de Psicologia do Centro Universitário FADERGS- Laureate International Universities.

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