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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.30  Belo Horizonte  2018  Epub Oct 08, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30176687 

Artigos

A ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA NA INVESTIGAÇÃO DO RETORNO AO TRABALHO NOS CASOS DE TRANSTORNO MENTAL

EL ENFOQUE FENOMENOLÓGICO EN LA INVESTIGACIÓN DEL RETORNO AL TRABAJO EN LOS CASOS DE TRASTORNO MENTAL

THE PHENOMENOLOGICAL APPROACH IN THE INVESTIGATION OF THE RETURN TO WORK IN CASES OF MENTAL DISORDER

Robson da Fonseca Neves1 

Mônica de Oliveira Nunes2 

Mônica Angelim Gomes de Lima2 

1 Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa/PB, Brasil

2 Universidade Federal da Bahia, Salvador/BA, Brasil

RESUMO

O objetivo deste estudo é apresentar e discutir as bases metodológicas que fundamentam as escolhas analíticas adotadas para estudar as experiências e significados do retorno ao trabalho nos casos de transtorno mental. Para isso, adotaram-se os fundamentos da teoria fenomenológica de Alfred Schutz sobre experiência significativa, mundo da vida e estoque de conhecimento, bem como se articularam esses conceitos à abordagem de Paul Ricoeur sobre a ação transformada em texto. Essa articulação pode fazer avançar o processo interpretativo, visto que incita o fortalecimento da experiência individual como elemento capaz de revelar aspectos sociais, políticos, culturais, econômicos, dentre outros, bem como aponta para a possibilidade da crítica com vistas à transformação do meio social, do participante e do próprio pesquisador.

Palavras-chave: fenomenologia hermenêutica; interpretação; narrativa; experiência; retorno ao trabalho

RESUMEN

El objetivo de este estudio es presentar y discutir las bases metodológicas que fundamentan elabordaje analítico adoptado para estudiar las experiencias y significados del retorno al trabajo en casos de trastorno mental. Para ello, se adoptaron los fundamentos de la teoría fenomenológica de Alfred Schutz sobre: experiencia significativa, mundo de la vida y stock de conocimiento, articulándolos al enfoque de Paul Ricoeur sobre la acción transformada en texto. Esta articulación fortalece el proceso interpretativo, ya que permite el fortalecimiento de la experiencia individual como elemento capaz de revelar aspectos sociales, políticos, culturales, económicos, entre otros; así como apunta la posibilidad de la crítica con vistas a la transformación del medio social, de los participantes y del propio investigador.

Palabras-clave: fenomenología hermenéutica; interpretación; narrativa; experiencia; retorno al trabajo

ABSTRACT

The aim of this study is to present and discuss the methodological basis underlying the analytical choices adopted to investigate the experiences and meanings of the return to work in cases of mental disorder. For this, was adopted the fundamentals of the phenomenological theory of Alfred Schutz on meaningful experience, world of life and stock of knowledge, as well as Paul Ricoeur’s approach to action transformed into text. This articulation can advance the interpretive process by strengthening the individual experience as an element capable of revealing social, political,cultural and economic aspects, among others. Moreover, it points to the possibility of a critical position to the transformation of the society, the participant and the researcher.

Keywords: hermeneutic phenomenology; interpretation; narrative; experience; return to work

Introdução

A prevenção da incapacidade prolongada para o trabalho nos casos de Transtorno Mental (TM) vem sendo introduzida como boas práticas em países da Europa e América do Norte desde os anos de 1990. Uma de suas principais bandeiras é o Retorno ao Trabalho (RT), cujo objetivo é aprimorar a reabilitação dos trabalhadores através de um conjunto de práticas que primem, sobretudo, por diminuir o tempo de afastamento do trabalho com retorno o mais breve possível ao ambiente de trabalho (Maceachen, Clarke, Franche, & Irvin, 2006).

No que tange à abordagem metodológica, o RT tem ganhado outros contornos com o deslocamento da discussão do campo dos marcadores pessoais e ambientais, representados pelos preditores epidemiológicos e clínicos de sucesso ou fracasso no RT, para questões mais complexas que envolvem as interações no RT (Blank, Peters, Pickvance, Wilford, & Macdonald, 2008; Neves, Nunes, & Magalhães, 2015; Nielsen, Madsen, & Bültmann, 2011). Andersen, Nielsen e Brinkmann (2012) e Gewurtz e Kirsh (2009) estudaram o RT nos casos de TM e constataram que parte dessa complexidade está na relação entre o trabalhador que retorna e outros agentes, como: os colegas, o supervisor, o gerente, os profissionais de saúde e outros atores dentro e fora do espaço onde se estabelecem as relações de trabalho, de reabilitação e de seguridade social.

O esforço para compreender essas relações requer metodologias sensíveis. A metassíntese de Andersen, Nielsen e Brinkmann (2012) mostrou que essas relações têm sido preponderantemente abordadas pela Grounded theory e pelas análises temáticas e de conteúdo, usando, para isso, as técnicas de grupo focal e das entrevistas (Starks & Trinidad, 2007). Essa tendência também se observa em metassíntese recente (Neves, Nunes, & Magalhães, 2015).

Almejamos aqui avançar no conhecimento acerca da abordagem metodológica adotada para compreender as relações que se estabelecem nas interações entre os atores sociais no RT recorrendo a metodologias que primam pela coprodução do conhecimento e pela reflexividade (Doyle, 2013; Holloway & Biley, 2011; Wimpenny & Gass, 2000). Tomamos, portanto, a fenomenologia hermenêutica como guia para aproximação do objeto acima.

Advogamos aqui que a fenomenologia hermenêutica pode oferecer contribuições para o avanço do conhecimento sobre as relações entre os agentes envolvidos com o RT nos casos de TM, visto que a análise da experiência de quem passou ou passa por esse processo pode levar à explicação e à compreensão sobre as interações entre os atores e seus contextos, com base em parâmetros culturais aceitáveis. Isso pode favorecer a emersão dos dramas que estão por detrás do adoecer, do afastamento do trabalho, do retorno ao trabalho e do manter-se trabalhando; afinal, esses são indissociáveis da subjetividade e das construções intersubjetivas que os constituem, permitindo aproximações e alargamento de coproduções no sentido do cuidado à saúde (Alves & Rabelo, 1999; Good, 1994; Poersch & Merlo, 2017).

Essa indissociação também é defendida pelo campo da Psicologia Social que, ao longo dos anos, vem mostrando que são os tensionamentos da vida cotidiana (trabalho, família, doença etc.) que conferem a condição ontológica do homem. Essa perspectiva rompe com a “dicotomia da díade saúde-doença” e aponta para “a compreensão da formação do sintoma no âmbito da totalidade do sujeito” (Zurba, 2011, p. 7). Consequentemente, assumimos um posicionamento que valoriza a subjetividade, intersubjetividade e a interação com o contexto, apresentado aqui como mundo da vida, para articularmos a proposta teórico-metodológica que se segue.

Não obstante o potencial que os conceitos e construtos acima têm em revelar significados que tenham implicações para a teoria, para as práticas, para as políticas e também para a vida do próprio trabalhador (Munhall, 2007), ainda são escassos os estudos que se debruçam sobre o RT nos casos de TM tomando a metodologia fenomenológica e hermenêutica, bem como a experiência como elementos centrais para a investigação, com exceção daqueles realizados por Hatchard, Henderson e Stanton (2012) e Millward, Lutte e Purvis (2005). De fato, esse esforço depende de fundamentos metodológicos claros que orientem a análise a ser adotada. Nesse sentido, questionamos: quais fundamentos metodológicos articulam a experiência, a coprodução e a reflexividade com vistas à análise da experiência de retorno ao trabalho após afastamento por transtorno mental?

Para responder a essa pergunta, pretendemos apresentar uma aproximação teórica da fenomenologia de Alfred Schutz e da fenomenologia hermenêutica de Paul Ricoeur, bem como dos construtos sobre narrativa, narratividade, mundo da vida e intersubjetividade, os quais foram adotados como base para apresentar as escolhas analíticas na investigação do RT nos casos de TM.

As imersões necessárias

Partimos do pressuposto de que há uma necessidade primeira de se fazer um retorno nas trajetórias, nas descobertas, nas interlocuções, nas tensões e nas decisões, o que nos levou a discutir a pertinência da metodologia fenomenológica e hermenêutica na abordagem da experiência do RT de trabalhadores com TM.

Para isso, começaremos a tarefa de escrever sobre a metodologia fenomenológica hermenêutica realizando o exercício de imersão proposto por Munhall (2007), cujo objetivo é conhecer os autores e fundamentos teóricos do campo metodológico, no qual o objeto de estudo se situa. Antes disso, proporemos uma dupla imersão: a primeira, uma imersão em si mesmo, uma volta ao conjunto de interesses pessoais e acúmulos no campo de estudo apresentado aqui, os quais poderão ajudar a responder a pergunta: por que nosso interesse pela experiência de trabalhadores com transtorno mental que retornam ao trabalho? A segunda, seguindo a proposta original de Munhall (2007): imergir na perspectiva dos autores e nas teorias que fundamentam o campo onde se situa a metodologia que pretendemos usar.

Ao tratar da autoimersão, o motivo que nos uniu foi o interesse em continuar investigando a prevenção da incapacidade prolongada e o RT de trabalhadores. Agora, com ênfase naqueles que sofrem com transtornos mentais, pois se trata de um problema ainda emblemático e escasso na produção científica brasileira (Neves, Nunes, & Magalhães, 2015).

Particularmente, o interesse pela narrativa e pela experiência humana de quem sofre levou-nos ao segundo movimento proposto nessa imersão e, consequentemente, nos fez investir no significado da narrativa e no seu papel para a compreensão da ação social (Schutz, 2012a), além de examinar a pertinência da análise hermenêutica da ação proposta por Paul Ricoeur para o estudo da experiência (Ricoeur, 1989c). Esse esforço será detalhado nas aproximações teóricas abaixo.

Realizar esses dois movimentos fez com que a imersão proposta por Munhall (2007) parecesse mais significativa, pois, no ato de rememoração dos caminhos percorridos até aqui, conseguimos perceber como se deram as aproximações e escolhas e as lacunas deixadas para trás. Tudo isso reforçou as nossas impressões sobre as potencialidades da metodologia fenomenológica hermenêutica para abordar a experiência dos trabalhadores no retorno ao trabalho.

Aproximações teóricas

As imersões acima levaram-nos a alguns conceitos da fenomenologia e da hermenêutica, tais como mundo da vida, experiência significativa, referencialidade e ser no mundo, dentre outros, os quais nos fizeram examinar algumas assertivas teóricas propostas por Husserl e Heidegger, que adotamos como ponto de início para apresentar a teoria que embasa a construção que se objetiva neste texto (Heidegger, 2007a, 2007b; Schutz, 2012a).

Partimos, então, da perspectiva de Husserl sobre experiência como vivência da consciência para daí avançar até a compreensão de experiência que adotamos nesse estudo.

Para Schutz (2012a), o viver compreende viver nas próprias experiências; com isso não se percebem os atos subjetivos da experiência em si mesmos, pois as experiências subsistem no fluxo da duração interna, ou seja, num fluxo contínuo de vir a ser e deixar de existir, chamado de durée (Schutz, 2012a). Neste caso, o que nós experenciamos não está inscrito num tempo bem definido, mas sim numa “constante transição de um aqui e agora para um novo aqui e agora” (Schutz, 2012a, p. 72). Para sairmos desse fluxo e podermos revelar esses atos, é preciso que nos voltemos para as nossas próprias experiências, em um ato específico de reflexão.

A partir dos pressupostos acima, adotamos neste trabalho o conceito de Experiência Significativa definida por Schutz (2012a) como aquela que, por um ato de reflexão, é apreendida, distinguida, colocada em relevo, diferenciada de outras, ou seja, cujo ato reflexivo a tira do fluxo da duração e agora se torna objeto da atenção enquanto experiência constituída, acabada, já vivida, que está no passado, mas que contém vivências do presente e antecipações futuras. Schutz (2012a) justifica o termo significativa por entender que significado é uma operação de intencionalidade e somente a experiência passada, aquela que se apresenta para o olhar retrospectivo como já estando pronta e acabada, pode ser apreendida e ter significado como predicado.

Para além disso, as atitudes que se assumem em relação às experiências sentidas ou sofridas são chamadas de comportamento. Para Schutz (2012b), as nossas atitudes constituem mundo, ou seja, experenciamos as ações no espaço e no tempo cotidiano. Segundo Schutz (2012b), o homem em cada momento de sua vida cotidiana encontra um estoque de conhecimento; é esse conhecimento à mão, constituído em nossas vivências, que serve como um esquema interpretativo de experiências passadas e presentes, e também das antecipações das coisas que virão. O estoque de conhecimento existe em um fluxo contínuo; é neste último que as nossas experiências são conectadas com o passado, mediante recordações e retenções, e com o futuro, a partir das projeções e antecipações (Schutz, 2012b).

Contudo, a experiência não é descontextualizada. Assim, o conceito de “mundo da vida” nos parece útil nesse empreendimento, pois é concebido não como o mundo da atitude natural composto por objetos bem delimitados com qualidades definidas, os quais conhecemos - mundo que já foi interpretado por outros (Schutz, 2012b). O mundo da vida, ao contrário, é um mundo intersubjetivo, objeto de nossas ações e interações (Zurba, 2011). Dessa forma, nossa atitude se dá sobre o mundo afetando-o, modificando seus objetos e suas relações mútuas; por sua vez, esses objetos também oferecem resistência às nossas ações, “o mundo, assim concebido, é algo que temos de modificar com nossas ações ou que as modifica” (Schutz, 2012b, p. 85).

Os conceitos tratados até aqui dialogam com a noção heideggariana de ser-no-mundo, pois, para Heidegger, o sentido é interpretado, portanto, hermenêutico. É na interpretação que se elabora o sentido do ser, mas, para isso, segundo Heidegger, é preciso conhecer o Dasein1 e trazê-lo para a cotidianidade, uma vez que ela é que testemunha como o Dasein é a cada vez. Para isso, Heidegger advoga que é preciso tratar da facticidade, da consciência no mundo, ou seja, o ser intencionado precisa ser constituído dessa significação de mundo, pois é nesse encontro com o mundo que o Dasein mostra aquilo que o mundo é (Heidegger, 2007a). Moretti, Asbahr e Rigon (2011, p. 479) ratificam isso dizendo que: "A consciência refere-se, assim, à possibilidade humana de compreender o mundo social e individual como passíveis de análise".

Ricoeur (1988) usa os pressupostos teóricos de Heidegger para formular sua teoria hermenêutica do texto. Para efetuá-la, apoia-se na noção de “ser-no-mundo” como esse ser lançado no mundo e que nele se orienta

interpretar é explicitar o modo de ser-no-mundo exposto diante do texto. ... O que se deve, de fato, interpretar num texto é uma proposta de mundo, de um mundo tal que eu possa habitar e nele projetar um dos meus possíveis mais próprios. (Ricoeur, 1989a, pp. 121-122)

Ricoeur (1989a), ainda tratando da interpretação, salienta que o texto não é sem referência e que a tarefa da leitura, enquanto interpretação, será precisamente a de efetuar a referência como parte inegável de um pressuposto que quer trazer à linguagem uma experiência, uma maneira de habitar e de ser-no-mundo. Essa mesma afirmação é assumida pela psicologia social quando trata da produção de subjetividade e linguagem, ou seja, ao afirmar que, ao observar o sintoma como linguagem numa perspectiva sócio-histórica supera-se a visão dualista e cartesiana do sintoma como fechado em si, ou meramente somático. Em última instância, o sintoma narrado também fala do contexto.

Ao assumir também a referencialidade, ou seja, o conjunto de relações referenciais como aspecto primordial para interpretação, Ricoeur afasta-se de uma ideia romântica, contida na hermenêutica de autores como Schleiemacher e Dilthey (Casal, 1996; Ricoeur, 1989a), que buscavam o entendimento do pensamento do autor da obra. A referencialidade desloca essa questão, pois, ao tomar como um dos seus elementos centrais a referência não ostensiva, aquela dos enunciados, e não da ação em si, possibilita a despsicologização do compreender e da ênfase ao contexto (Ricoeur, 1989a).

Os conceitos apresentados acima apontam para aquilo que Ricoeur (1997) chama de Mimese II, ou seja, a configuração na qual a ação é transmudada para linguagem. Nesse estudo em particular, essa linguagem é o texto escrito. Por isso, apresentaremos agora as bases teóricas que fizeram desse texto uma narrativa útil para os propósitos que se almejam na produção e análise de dados na fenomenologia. Sendo assim, tomamos a proposição de Ricoeur sobre a ação transformada em texto para fundamentar as escolhas que orientam a organização e análise do texto narrativo produzido a partir da experiência relatada (Ricoeur, 1989c).

Para esse processo, recorremos à proposição de que da mesma forma que a interlocução sofre uma transmutação para a escrita, “a interação sofre uma transformação análoga nas inúmeras situações em que a acção se deixa tratar como texto fixado [citação no original escrita em português de Portugal]” (Ricoeur, 1989c, p. 192).

Assim, segundo Ricoeur (1989c), a objetivação dada pela fixação da ação pela escrita se constitui numa configuração que reclama pela interpretação em função de suas conexões internas, a saber: (a) a ação oferece a estrutura de um ato locucionário, visto que seu conteúdo proposicional, que são aquelas estruturas que se revelam através dos verbos de ação e dos predicados que os acompanham, oferecem pistas valiosas para a produção de sentidos pela pluralidade de argumentos que carregam; (b) a ação pode ser descrita em termos das características de sua atuação, denominada de forças ilocucionárias, as quais se constituem nos atos performativos de discurso e que também são passíveis de fixação pela escrita. O ato locucionário e a força ilocucionária tomados em conjunto constituem o conteúdo de sentido (Ricoeur, 1989c).

A fixação pela escrita é uma primeira distanciação que garante o aspecto de autonomização da ação humana que se desliga do seu agente e produz as suas próprias consequências. Para Ricoeur (1989a), a história é outro argumento válido de distanciação, pois “a acção humana se torna acção social, quando ela se inscreve nos arquivos da história. Graças a esta sedimentação no tempo social, as significações já não coincidem com as intenções dos seus agentes [citação no original escrita em português de Portugal]” (Ricoeur, 1989c, p. 196), uma vez que as significações agora residem nas próprias obras de forma sedimentada e instituída.

Apresentamos aqui a narrativa como um veículo para a sedimentação da experiência e como elemento capaz de acolher os conceitos referidos acima e de articulá-los criativamente com a problemática do RT nos casos de TM com vistas à interpretação, uma vez que compreendemos a narrativa como um tipo particular de organização de um enunciado - escrito, oral, pictórico, teatral etc. - representando uma ação. Dito de outra forma, a narrativa é uma transposição de ações para um plano do enunciado. Contudo, não se trata de uma imitação da ação; a narrativa é criativa e depende de uma performance de quem narra, do meio e do receptor. Na ação, a figura do agente e sua motivação são fundamentais, pois, quando o narrador seleciona e combina tempos e elementos, está abrindo sentidos possíveis (Adam & Revaz, 1997).

Partindo dessa premissa e retomando o tema central deste estudo, podemos concluir que a história do RT de trabalhadores com TM possui os elementos básicos que a configuram como narrativa por possuir uma situação inicial (SI) problemática: a volta ao trabalho depois de serem afastados por transtornos mentais. Possui também um processo de transformação (T), que traz a reboque uma série de elementos que se estabelecem como nós e tensões vivenciados pelo indivíduo que sofre e por outros atores em torno do curso do RT. Por fim, uma situação final (SF), que comporta uma resolução qualquer, ou mesmo a continuidade da situação inicial, ambas acrescidas de elementos resultantes do processo de transformação (Adam & Revaz, 1997).

As proposições sobre a ação acima pressupõem um ponto de partida, um de chegada e um caminho para lá chegar. É nesse caminho que se infiltram o nó e a intriga. O nó corresponde ao conjunto de motivos que interrompem o curso da situação inicial e que desencadeiam a ação. Já a intriga corresponde às variações dos principais motivos introduzidos pelo nó. Esses elementos guardam estreita relação com os conceitos de ato locucionário, força ilocucionária e conteúdo de sentido descritos acima (Adam & Revaz, 1997). Em suma, devemos buscar na narrativa do RT de trabalhadores com TM aquilo que identificamos como ações no entorno do RT e dentro dessas ações os pontos de tensão que se traduzirão em motivos.

As noções de nó e de intriga foram incluídas, pois provocam uma ruptura nos fundamentos onde se assentam os parâmetros da vida cotidiana, produzindo as dificuldades e facilidades na execução das intenções iniciais, nesse caso em especial, o RT após afastamento por TM. E é isso que está na essência da produção de significado (Adam & Revaz, 1997).

Portanto, a experiência, inegavelmente, pode produzir significado, sobretudo quando se articulam ação - agente - motivo com vistas à construção de sentidos possíveis (Adam & Revaz, 1997). Mais que isso, advogamos também que, ao narrar, estamos construindo algo com o outro. Esse processo de coprodução mediado pela narrativa se estabelece como elemento importante para ascender ao processo interpretativo.

A interpretação nessa perspectiva requer inicialmente a reflexão sobre como a ação fixada em texto rompe os laços com suas referências ostensivas. Esse parece ser o primeiro passo para construir as bases teóricas que podem alicerçar o contexto na perspectiva fenomenológica que se adota aqui. Ricoeur (1989c) responde a essa suposição dizendo que o mundo do texto já não corresponde ostensivamente às referências da noção de Umwelt (como meio natural ou ambiente), mas ao Welt (mundo projetado pelas referências não ostensivas do texto). Essa noção aponta para uma importante etapa do processo de significação que é identificar no texto as referências não ostensivas. Ricoeur ratifica:

Compreender um texto é, ao mesmo tempo, elucidar a nossa própria situação ou, se quiser, interpolar entre os predicados da nossa situação todas as significações que fazem do nosso Umwelt um Welt. É este alargamento do Umwelt às dimensões do Welt que nos permite falar das referências abertas pelo texto; seria melhor dizer que estas referências abrem o mundo ... libertando-nos da visibilidade e da limitação das situações, abrindo-nos um mundo, a saber, novas dimensões do nosso ser-no-mundo. (Ricoeur, 1989c, p. 190)

Articulada aos pressupostos acima, apresento a noção de contexto adotada aqui, a qual parece apropriada para olhar o objeto em questão. Munhall (2007) se refere a contexto de uma forma singular, pois fala de algo que vai além da localização. Para ela, contexto se aproxima mais da noção de “estar numa condição particular”. Essa ideia de particular é bem oportuna, pois, na perspectiva fenomenológica, o contexto é de cada um na sua experiência.

O corolário das afirmações acima é que cada participante do estudo, incluindo o pesquisador, fornece um contexto. Como abordar esse contexto? Quais elementos são constitutivos dele? Qual a relação entre esses elementos e a noção de referencialidade?

Munhall (2007) apresenta o contexto composto por duas partes. A primeira diz respeito às contingências que estão relacionadas ao fato de termos nascido em um determinado período histórico, numa cultura, numa família, com uma determinada linguagem e com uma visão de mundo específica, os quais não nos foram dados por escolha e dos quais não tínhamos qualquer conhecimento prévio. A segunda parte do contexto vem do mundo da vida das experiências. Munhall (2007), apoiada na proposta de Van Manen (1990), propõe avaliar essa segunda parte através de quatro dimensões, que ela chama de “mundos da vida”: a espacialidade, a corporalidade, a temporalidade e a relacionalidade. Esses quatro mundos se interconectam e se associam às contingências, formando uma unidade, o contexto.

A espacialidade se refere ao espaço em que estamos, nosso ambiente, o qual pode assumir diferentes significados para diferentes experiências. Assim, o material fenomenológico produzido no trabalho de campo invariavelmente situa-se num espaço, melhor dizendo, a experiência conduz o ouvinte ou leitor para o lugar particular onde ela se situa (Munhall, 2007).

A corporalidade se refere tanto ao corpo que habitamos como também é referida à noção de embodiment (Munhall, 2007), que coloca o corpo não apenas como um produto de práticas culturais e subjetivas, mas também como um dos agentes dessas práticas por meio de características somáticas, fisiológicas e funcionais (Csordas, 1997).

Para Munhall (2007), a temporalidade reflete um tempo que se passa no mundo da vida. Nesses termos, a percepção da passagem do tempo pode variar de incríveis e significativas maneiras, conforme a experiência. Comte-Sponville (2006, p. 32) oferece outros contornos à perspectiva de Munhall ao afirmar que: "a temporalidade não é o tempo tal como ele é, ou seja, tal como passa; é o tempo tal como dele nos lembramos, ou como o imaginamos, é o tempo tal como o percebemos e o negamos, é o tempo da consciência".

Por fim, a relacionalidade é a dimensão que trata do modo pelo qual nos achamos em relação aos outros e a nós mesmos, mas também diz respeito à forma e intensidade como nos relacionamos com os demais componentes do mundo em que vivemos. Essa intensidade pode variar da potencialidade para agir e receber ações até a participação ativa na ação (Mol & Law, 2004; Munhall, 2007).

Julgamos importante apresentar neste momento como os elementos conceituais acima se articulam com o conteúdo de sentidos e como essa articulação pode apontar para a maneira como se constroem os significados.

Retomamos o conceito de referencialidade, que é traduzido aqui nas relações que se estabelecem entre o conteúdo de sentido, os mundos da vida e as contingências de cada experiência. O que se estabelece no seio dessas relações é, em essência, a construção de significados da experiência de cada um (Heidegger, 2007b; Ricoeur, 1989b). Contudo, o processo interpretativo não termina aqui; trataremos, mais adiante, dos desdobramentos que o significado da experiência traz.

A heurística da experiência

A tarefa de analisar dados na perspectiva fenomenológica hermenêutica é complexa e plural, uma vez que são variados e singulares os caminhos que podem ser trilhados a depender da filiação teórica adotada nessa corrente de pesquisa. Dito isso, intentamos apenas apresentar a análise da experiência, por meio da ação transformada em texto narrativo, fruto das nossas inquietações e reflexões teóricas, as quais não se constituem um manual padrão de como proceder na organização e análise dos dados de toda e qualquer experiência.

Pretendemos, portanto, partir da noção de que cada participante do estudo traz uma biografia pessoal e já formou um sistema interpretativo a partir do qual ele dará voz a sua experiência. Cada um já possui sua maneira de interagir com o mundo, cada um goza de situações diferentes no mundo da vida. Além disso, contingências particulares influenciarão suas descrições, interpretações e o significado formulado da experiência (Munhall, 2007). Em outros termos, não pretendemos fazer aqui uma homogeneização de diferenças, mas sim tentaremos conseguir dos participantes e de nós mesmos (pesquisadores) as interpretações das interações entre o contexto e a experiência conforme cada um experenciou, para, a partir daí, poder escrever uma rica descrição dessa experiência.

O material obtido da entrevista, bem como das outras fontes de dados, devem ser organizados de tal forma que o pesquisador possa ser capaz de capturar as experiências, contingências e mundos da vida a fim de que se possa chegar aos significados das experiências (Munhall, 2007). Para isso, lançamos mão de algumas questões que serão feitas ao material empírico visando ao êxito nesse processo de análise: neste material você conseguiu identificar a experiência significativa? Quais foram os conteúdos de sentido, os nós e as intrigas inflitrados nesse material? Quais elementos contextuais você conseguiu identificar e caracterizar?

O material empírico produzido no trabalho de campo será analisado a partir da abordagem analítica de Ricoeur para a ação, assumindo a dialética entre explicação e compreensão para a produção de interpretações ingênuas sobre a experiência. Esse processo é seguido das reflexões e críticas sobre os significados que podem apontar para implicações práticas e políticas do significado da experiência, tendo no círculo hermenêutico um operador desse processo (Munhall, 2007; Ricoeur, 1989b).

Ricoeur advoga que a dialética entre o explicar e o compreender é válida não só para a análise do texto, mas também para todo o campo das ciências sociais. Dessa forma, esse autor assume o modelo estrutural como paradigma da explicação e sua utilização para todos os fenômenos sociais. Além disso, Ricoeur afirma que:

Por dialética, entendo a consideração segundo a qual explicar e compreender não constituem os pólos de uma relação de exclusão, mas os momentos relativos de um processo complexo a que se pode chamar interpretação. (Ricoeur, 1989b, p. 164)

O modelo estrutural

Uma narrativa é válida como geradora de conteúdo de sentido quando, no entorno dos verbos de ação, podemos identificar o ato locucionário (o quê) e a força ilocucionária (o como quê) ou ato performativo da ação (Ricoeur, 1989b, 1989c). Essa é a base do processo estrutural de explicação adotado aqui. Assim, com base na entrevista narrativa transcrita, localizamos os trechos que descreviam ações na experiência de retorno ao trabalho.

Associado a esse processo, foi possível chegar ao nó e às intrigas, os quais estão na base do ato de compreensão assumido neste trabalho, pois favorecem a construção de um conjunto de possibilidades e motivos para a ação que Ricoeur (1989b) chamou de “interpretações ingênuas”. Com efeito, ingênuas porque faltam a elas as referencialidades que as sustentem. Nesta etapa, o importante é identificar, em cada ação extraída do texto narrativo, o motivo informado pelos agentes; no nosso caso, o que motivou aquela ação que envolvia o RT para o agente ou para os agentes envolvidos. Daí em diante, é possível ascender ao processo de significação (Adam & Revaz, 1997; Ricoeur, 1989b).

A significação

A interpretação requer o movimento de afastar-se um pouco do escrutínio das partes e revisitar o todo da história narrada para entender como o indivíduo efetua o processo de construção da significação. No todo da história narrada, podemos encontrar as marcas da história, as quais se referem aos elementos contextuais desvelados pelas referências não ostensivas e também as contingências desse ser lançado no mundo. Empiricamente falando, neste momento o pesquisador (ouvinte/leitor) deve buscar no texto as referências que ratificam, refutam ou ampliam a compreensão daquele motivo apresentado.

Quando relacionamos os elementos acima com o conteúdo de sentidos, podemos compreender os significados nos quais os indivíduos têm construído socialmente suas experiências, que são as novas possibilidades de “ser no mundo” (Munhall, 2007; Ricoeur, 1989b).

Em outras palavras, no mover-se da explicação à compreensão, ou vice-versa, e no ato de relacionar as partes ao todo e reconstruir esse todo pelas suas partes, está a tônica de base que fundamenta o processo interpretativo. Contudo, é importante enfatizar que esse círculo não é vicioso, pois não se descarta a presença do pessoal, ou seja, da singularidade do leitor, que contribui para que essa seja uma interpretação dentre outras, pois a ação fixada como texto é uma obra aberta (Ricoeur, 1989b).

A reflexividade

A abertura citada acima está no cerne da questão enfrentada por Ricoeur quando discute sobre a tríplice mimese. Seguindo as suas proposições, fundamentaremos a próxima etapa da análise que compreende efetuar a mimese III ou (re)figuração que se estabelece no ato da leitura. Para Ricoeur é o leitor que finaliza a obra, na medida em que a obra escrita é um esboço para a leitura, cujo texto apresenta lacunas, buracos e zonas de indeterminação que desafiam o leitor a (re)figurar o texto (Ricoeur, 1997).

Quando o pesquisador encontra no texto as referências que o fazem refletir mais profundamente sobre os motivos, ele se depara com novas possibilidades. Falando do RT, uma gama de interpretações sócio-históricas, culturais e políticas podem se tornar possíveis. A isso chamamos de (re)figurar o texto da experiência narrada sobre o RT, ou seja, é o ato do pesquisador (leitor/ouvinte) de oferecer outras possibilidades de significação, as quais não estão necessariamente comprometidas com aquilo que foi pensado pelo agente da ação.

Ricoeur compreende que a transição da escrita para a leitura é apenas uma primeira etapa da mimese III. Essa transcrição modifica não só a estética da comunicação, mas também modifica a referência: “o que é comunicado, em última instância, é, para além do sentido de uma obra, o mundo que ela projeta e que constitui seu horizonte” (Ricoeur, 1997, p. 119). Aqui o termo horizonte traz à tona a referência de “fusão de horizonte” de Gadamer (2011), que coloca em evidência o horizonte representado pelo mundo do texto e o horizonte do leitor/ouvinte. Isso implica também sua capacidade de acolhimento, pois o leitor/ouvinte está no mundo, é afetado pelas situações do mundo e tenta nelas se orientar por intermédio da compreensão. Por isso, o leitor tem algo a dizer, tem uma experiência a compartilhar (Ricoeur, 1997).

Nesse sentido, abrimos parênteses nessa explanação para dizer que, no presente artigo, a mimese III e a fusão de horizontes se deu também na ação dialógica que estabelecemos entre nós, coautores deste texto, no empreendimento de importantes reflexões acerca das questões metodológicas e do objeto retorno ao trabalho, amalgamando os nossos horizontes, e, como resultado disso, percebemos que o objeto que quer se mostrar aqui é a experiência no retorno ao trabalho (processo), e não a experiência do retorno (instante). Além disso, nós dividimos também o aprendizado de que a experiência da qual estamos falando é singular, porém não enclausurada em sim mesma, ela pode ser partilhada intersubjetivamente e, por isso, se permite modificar.

Retomamos então à proposição da mimese III acima para questionar: como realizar essa (re)figuração? Para essa tarefa, é preciso ter em mente pressupostos já mencionados - embora existam percepções comuns sobre a experiência entre os participantes da pesquisa, isso é diferente de ter significados comuns. Por isso, reforçamos a ideia de que não se buscam aqui categorias, temas ou essências comuns aos participantes, mas sim uma aproximação do significado da experiência de cada um (Munhall, 2007).

Mais que isso, a narrativa final tem a incumbência de implicar ética e moralmente o pesquisador com o objeto investigado a fim de preenchê-lo (Munhall, 2007). Com esse propósito, usamos o autoquestionamento proposto por Munhall (2007) para conduzir esse processo. Para tanto, propomos as seguintes perguntas: a interpretação adotada conduziu-me a novas maneiras de compreender a experiência do RT? A interpretação me libertou de suposições preexistentes? Qual o significado dos achados obtidos para as teorias que tenho estudado sobre o retorno ao trabalho de pessoas com transtorno mental? Em que medida os significados apresentados se constituem em críticas às práticas e políticas atuais que envolvem o retorno ao trabalho de pessoas com transtorno mental?

Com isso, consideramos parte do nosso trabalho de pesquisadores interpretar as narrativas dos significados das experiências dos participantes para achar suas implicações para os sistemas social, cultural, político, assistencial e familiar, dentre outros (Munhall, 2007). Mais que isso, o olhar sobre essas implicações deve se dar numa perspectiva crítica que aponte para mudanças, as quais também recaem sobre nós, pois esse universo de incertezas, de deslocamento das verdades aparentes e compreensão do significado da experiência certamente enriquecerá as nossas experiências e, sem dúvida, mudará o nosso modo de ser no mundo.

Conclusão

No que se refere aos aspectos metodológicos, é renovador e revelador realizar as etapas de imersão. Esse processo fez emergir os nossos preconceitos, nossas fragilidades, mas também potencializou os insights teóricos que já tinhamos. Nesse sentido, a imersão é um processo que pode desvelar o lugar do sujeito pesquisador no mundo, e isso tem implicações importantes, pois, na metodologia fenomenológica, o pesquisador também é instrumento da pesquisa.

A articulação entre a teoria narrativa e as bases fenomenológicas e hermenêuticas adotadas neste trabalho pode trazer avanços para o processo interpetativo nos estudos fenomenológicos, sobretudo porque propõe o fortalecimento da experiência individual como elemento capaz de revelar aspectos sociais, políticos, culturais e econômicos, dentre outros, bem como aponta para a possibilidade da crítica com vistas à transformação do meio social, do participante e do próprio pesquisador.

No que se refere aos aspectos conceituais, ressaltamos a ideia de que a experiência possibilita diálogos com questões mais amplas, tendo como ponto de partida a história narrada de quem detém a experiência e, como ponto de chegada, a crítica e o diálogo com quem se debruçou sobre o objeto em análise. Assim, essa perspectiva convocou-nos a lançar uma aproximação implicada, sempre revisitada e reflexiva, para que o nosso mundo (o mundo dos leitores) possa ser ampliado diante do que o mundo da atitude natural apresenta para nós.

Por fim, notadamente, foi possivel articular conceitos da fenomenologia hermenêutica e da Psicologia Social. Sem dúvida, o objeto RT nos casos de TM, olhado pelas lentes dos seus determinates e numa perspectiva sócio-histórica e cultural, revelou que a produção de subjetividades, o avanço da noção de contexto e as ações dialógicas articuladas epistemologicamente e metodologicamente pela narrativa e pela teoria hermenêutica da ação transformada em texto pode ser capaz de nos levar à produção de significados que vão além dos limites do próprio texto narrativo e promover aberturas para criar e operar mudanças nas ações de saúde do trabalhador, incluindo o RT enquanto um momento oportuno para o exercício do cuidado ao indivíduo e ao seu entorno.

Agradecimento

Ao Prodoutoral/UFPB pela bolsa de estudo e à CAPES - bolsa sanduíche (Processo no 99999.002786/2014-01).

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1Dasein é traduzido como “presença” (p. 10), na tradução para a língua portuguesa do livro Ser e Tempo, no Brasil, e significa, em linhas gerais, a forma como o ser da consciência coloca-se no mundo: dentro do mundo, junto ao mundo e com o mundo (Heidegger, M. (2012). Ser e tempo (6a ed.). Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco).

Recebido: 06 de Março de 2017; Revisado: 18 de Dezembro de 2017; Aceito: 12 de Fevereiro de 2018

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Robson da Fonseca Neves é doutor em Saúde Coletiva pelo ISC/UFBA. Atualemente é professor do Departamento de Fisioterapia da UFPB e membro do grupo de pesquisa CNPq/UFBA: Atenção Integral à Saúde: Saúde, Trabalho e Funcionalidade.

Mônica de Oliveira Nunes é doutora em Antropologia pelo Université de Montreal, Canadá. Atualmente é professora do Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA).

Mônica Angelim Gomes de Lima é doutora em Saúde Coletiva pelo ISC/UFBA. Atualmente é professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social e do Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho (PPGSAT/UFBA).

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