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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.30  Belo Horizonte  2018  Epub Nov 14, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30173003 

Artigos

FREQUENTADORAS DE ACADEMIAS DE GINÁSTICA PARA MULHERES E TRADIÇÃO FAMILIAR: SUBORDINAÇÃO OU EMANCIPAÇÃO?

FREQUENTADORAS DE ACADEMIAS DE GIMNASIA PARA MUJERES Y TRADICIÓN FAMILIAR: SUBORDINACIÓN O EMANCIPACIÓN?

WOMEN WHO USE WOMEN-ONLY GYMS AND FAMILY TRADITIONS: SUBORDINATION OR EMANCIPATION?

Deimersom Pereira Frazão1 
http://orcid.org/0000-0002-3067-6429

Neil Franco1 
http://orcid.org/0000-0002-1276-8901

Carlos Alberto de Andrade Coelho Filho1 
http://orcid.org/0000-0002-3417-2033

1 Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora/MG, Brasil

Resumo

Esta pesquisa, de natureza qualitativa, objetiva desvelar algumas das complexas estruturas de tensão presentes na trajetória de mulheres nos espaços sociais em que processos de subordinação e de emancipação podem emergir. Vinte e três frequentadoras de três academias de ginástica exclusivas para mulheres foram entrevistadas. Para tratamento dos dados coletados foi utilizada a análise de conteúdo. Concluímos que: (a) na correlação de forças que levaram algumas das entrevistadas a optarem pela academia destinada à mulher, os ciúmes de maridos e namorados tornaram-se representativos; (b) as mulheres que compõem nossa amostra demonstram investir na vida profissional e na construção de uma identidade social associada ao trabalho. Decerto, as identidades profissional, domiciliar e materna reivindicam espaço no corpo das mulheres entrevistadas e nos levam a perguntar: lidamos com um movimento que mostra uma mulher não assujeitada à moral patriarcal que flerta, em certo sentido, com valores da tradição familiar?

Palavras-chave: mulher; autonomia; tradição familiar; gênero

Resumen

Esta investigación, de naturaleza cualitativa, objetiva desvelar algunas de las complejas estructuras de tensión presentes en la trayectoria de mujeres en los espacios sociales en que procesos de subordinación y de emancipación pueden emerger. Veintitrés frequentadoras de tres academias de gimnasia exclusivas para mujeres fueron entrevistadas. Para el tratamiento de los datos recogidos se utilizó el análisis de contenido. Llegamos a la conclusión de que: (a) en la correlación de fuerzas que llevaron algunas de las entrevistadas a optar por la academia destinada a la mujer, los celos de maridos y novios se hicieron representativos; (b) las mujeres que componen nuestra muestra demuestran invertir en la vida profesional y en la construcción de una identidad social asociada al trabajo. En definitiva, las identidades profesionales, domiciliar y materna reivindican espacio en el cuerpo de las mujeres entrevistadas y nos llevan a preguntar: ¿lidiamos con un movimiento que muestra una mujer no sumisa a la moral patriarcal que coquetea, en cierto sentido, con valores de la tradición familiar?

Palabras clave: mujer; autonomía; tradición familiar; género

Abstract

This qualitative research aims to unveil some of the complex tension structures seen in the trajectories of women in social spaces where subordination and emancipation processes may emerge. We have interviewed twenty-three women who use three women-only gyms. Content analysis was used for the treatment of the collected data. We have reached the following conclusions: (a) in the correlation of forces that led some of the interviewees to choose women-only gyms, the jealousy of husbands and boyfriends has become a representative factor; (b) the women in the sample demonstrated to invest in their professional lives and in the construction of a social identity associated to work. Undoubtedly, the professional, household and maternal identities claim for a space in the bodies of the women interviewed, which makes us question: do we deal with a movement that shows women who are not subject to the patriarchal moral values but who, to a certain extent, flirt with family traditional values?

Keywords: woman; autonomy; family traditions; gender

Introdução

Estando as diferenças entre homens e mulheres estabelecidas unicamente com base em preceitos ou pareceres biofisiológicos, a supremacia do homem em relação à mulher se tornou naturalizada (Okin, 2008). No Brasil, essa supremacia ganha amparo legal no Código Civil de 1916, que indica às mulheres os afazeres domiciliares e restritos à esfera privada (Mathias & Rubio, 2009). A mulher é então constituída assumindo uma identidade associada à lógica patriarcal submissa aos deveres familiares e ao homem.

Pari passu a conquista de direitos correlata ao movimento feminista, as mulheres se tornaram independentes em várias instâncias, como a financeira, a intelectual e a política (Prá & Epping, 2012). São mudanças que iluminam a autonomização em relação à influência tradicional exercida pelos homens sobre as definições e significações imaginário-sociais da mulher (Lipovetsky, 1997/2000). Contudo, simultaneamente às conquistas, registre-se a crítica que é direcionada à fatia do movimento feminista que passa a advogar em benefício de uma identidade obtida, compreendida pela categoria de mulheres, que constitui o sujeito mesmo em nome de quem a representação política é almejada (Butler, 2010). Evidencia-se, nesse diapasão, um feminismo radical que é denunciado por ir além das medidas, se transformando numa luta contra os homens, e não mais em favor das mulheres (Votre & Lovisolo, 2007).

No quadro delineado, realça-se a história de lutas contra a condição de submissão da mulher às obrigações da vida privada e à identidade constituída sob a égide do patriarcado, mas também o julgamento que coloca em xeque uma identidade que se edifica estruturada em certo discurso feminista racional, universalista e radical. Decerto, transitamos por um universo de linguagem que nos conduz a pensar em subjetividades que são produzidas e assujeitadas a certos discursos (sexistas), no momento em que, como indica Butler (2010), a ideia de sujeito liberto das predeterminações de uma natureza sexuada é tema de interesse. A estruturação de novos entendimentos acerca da categoria gênero vem de encontro a essas argumentações.

A discussão sobre gênero em nossa história social é relativamente recente. Saído da gramática em que se restringia à designação do sexo dos substantivos, tem-se o registro de que o termo gênero foi utilizado pela primeira vez em 1955 pelo biólogo estadunidense Jhon Money, como possibilidade de identificar os aspectos sociais do sexo. Com isso, definiu-se a oposição entre as categorias sexo e gênero, referindo a primeira aos aspectos biológicos da identidade sexual, e a segunda aos aspectos sociais construídos no processo de identificação (Silva, 2007).

No início da década de 1970, representado principalmente por um grupo de estudiosas anglo-saxãs, o movimento feminista começou a utilizar o termo gênero (em inglês, gender) em suas lutas políticas contra as desigualdades sociais existentes entre homens e mulheres. Segundo Meyer (2003), apesar da introdução do termo gênero ter causado controvérsias e debates pelo receio de sua inclusão causar a invisibilidade do sujeito da luta feminista (as mulheres), diversas correntes feministas passaram a utilizá-lo, mas com múltiplas definições:

De forma genérica, no entanto, pode-se dizer que as diferentes definições convergiam em um ponto: com o conceito de gênero pretendia-se romper a equação na qual a colagem de um determinado gênero a um sexo anatômico que lhe seria “naturalmente” correspondente resultava em diferenças inatas e essenciais, para argumentar que diferenças e desigualdades entre mulheres e homens eram social e culturalmente construídas e não biologicamente determinadas. (Meyer, 2003, p. 15)

A relação sexo-gênero, sustentada sob as inscrições biológicas dos corpos, foi definidora de representações e valores sociais, atribuindo uma hipervalorização do masculino sobre o feminino, como já indicado acima. Com efeito, os anatomistas (médicos) da Antiguidade que buscavam descrever a diferença entre os sexos conceituavam (biologicamente) a mulher como um “invertido sexual”, no sentido real da expressão. Acreditava-se que a mulher possuía órgãos sexuais idênticos aos do homem, mas posicionados em seu corpo de forma contrária, que não explodiram para fora por uma deficiência de calor interior. Assim justificava-se a inferioridade do sexo-gênero feminino, considerado evolutivamente imperfeito (Laqueur, 2001).

É a força operante dessas construções históricas e culturais que levou o movimento feminista a promover um processo de ressignificação do conceito de gênero, tanto no campo teórico como no campo político. Esse processo foi desencadeado especialmente pelas feministas pós-estruturalistas, que pautaram a discussão de gênero em abordagens que enfocam a centralidade da linguagem como produtora de subjetividades (Meyer, 2003).

Com este campo de reflexão e seus desdobramentos teóricos em foco, e ancorados nas contextualizações de Butler (2010), concebemos o gênero como uma construção cultural, rejeitando a ideia de que ele seja aparentemente fixo como o sexo ou um resultado casual definido por sua estrutura biológica, assim como negamos a possibilidade de compreender o sexo apenas como um dado da natureza. Para a autora, sexo foi desde sempre gênero, porque matizado pelo discurso. Nessa perspectiva, abre-se espaço para se pensar o gênero como a interpretação múltipla do sexo, ou ainda os significados culturais assumidos pelos corpos sexuados, não decorrendo de um sexo propriamente dito, mas considerando que “a distinção sexo/gênero sugere uma descontinuidade radical entre corpos sexuados e gêneros culturalmente construídos” (Butler, 2010, p. 24). Assim,

os corpos sexuados podem dar ensejo a uma variedade de gêneros diferentes, e que, além disso, o gênero em si não está necessariamente restrito aos dois usuais. Se o sexo não limita o gênero, então talvez haja gêneros, maneiras de interpretar culturalmente o corpo sexuado, que não são de forma alguma limitados pela aparente dualidade do sexo. (Butler, 2010, p. 163)

Empiricamente, nosso objeto de estudo está associado à frequência comprovada nas academias de ginástica1 exclusivas para mulheres, pois a prática de exercícios físicos nesses locais indica um movimento correlato à estabilidade do sexo binário (Frazão & Coelho Filho, 2015) e pode remeter-se, ao mesmo tempo, à ideia de liberdade da mulher, no sentido de assumir, despreocupadamente no dia a dia, tanto comportamentos atribuídos à “independência feminista” quanto outros eventualmente interpretados como relacionados à tradição familiar (Coelho Filho & Frazão, 2010). Quanto a essa ideia de liberdade, Lipovetsky (2000), por exemplo, nos diz que a mulher autogovernada de hoje pode optar por não abdicar de certos papéis tradicionais.

Tendo por base o discurso de praticantes de ginástica em academias exclusivas para mulheres, o objetivo desta pesquisa é desvelar algumas das complexas estruturas de tensão presentes na trajetória de mulheres nos espaços sociais em que processos de subordinação e de emancipação podem emergir. É uma pesquisa que se justifica nas contribuições que, espera-se, ela venha a trazer para o campo dos estudos de gênero com foco nas mulheres, peculiarmente, no sentido de suscitar olhares mais apurados sobre um espaço de convivência social que pode, em razão de suas especificidades, trazer à discussão situações inusitadas que se relacionam à construção identitária da mulher na contemporaneidade.

Método

Esta pesquisa é de natureza qualitativa. A tradição hermenêutica das abordagens qualitativas parte do pressuposto de que as pessoas agem em função de suas crenças, percepções, sentimentos e valores, e que seus comportamentos seguem a ordenação de um sentido, que não se dá a conhecer de modo imediato, necessitando ser desvelado (Alves, 1991). O projeto, do qual o presente artigo é um produto, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Humana da Universidade Federal de Juiz de Fora com o parecer n° 204 de 2011.

Participantes

Esta pesquisa contou com a participação de 23 frequentadoras de três academias de ginástica exclusivas para mulheres situadas na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais.

Tabela 1: Caracterização do grupo participante 

Entrevistada* Estado Civil Idade Renda** Profissão Trabalha X Y
E1 Solteira 26 3.500,00 Estudante ‒ Pedagogia Sim 0,5 Sim
E2 Solteira 21 4.500,00 Estudante ‒ Jornalismo Sim 5 Sim
E3 Casada 30 5.000,00 Gerente de Loja Sim 2 Sim
E4 Casada 46 6.000,00 “Do Lar” Não 9 Não
E5 Solteira 21 4.500,00 Estudante ‒ Jornalismo Sim 0,5 Sim
E6 Casada 26 5.000,00 Mestranda ‒ Biologia Não 4 Sim
E7 Solteira 29 2.500,00 Psicóloga Sim 1,5 Sim
E8 Solteira 18 4.000,00 Estudante ‒ Ensino Médio Não 2 Sim
E9 Solteira 20 *** Estudante ‒ Ensino Médio Não 2 Não
E10 Casada 35 5.000,00 Enfermeira Sim 4 Sim
E11 Solteira 21 3.500,00 Estudante ‒ Jornalismo Não 1 Sim
E12 Solteira 25 3.500,00 Jornalista Sim 2 Sim
E13 Casada 43 2.000,00 Doméstica Sim 10 Não
E14 Solteira 29 3.500,00 Pedagoga Sim *** Sim
E15 Solteira 21 13.500,00 Estudante ‒ Direito Não 4 Não
E16 Solteira 25 *** Pedagoga Sim 9 Não
E17 Casada 58 4.000,00 Professora Aposentada Não 15 Não
E18 Casada 54 2.500,00 Doméstica Sim 6 Não
E19 Solteira 20 *** Estudante ‒ Medicina Não 2 Sim
E20 Solteira 29 4.500,00 Professora Sim 3 Sim
E21 Divorciada 38 3.000,00 Professora Sim 4 Sim
E22 Divorciada 29 2.000,00 Representante Comercial Sim 2 Sim
E23 Divorciada 35 5.000,00 Professora Sim 4 Sim

* As entrevistadas são identificadas pela letra E, seguida dos números 1 a 23. Ou seja, a entrevistada 1 é identificada como E1, e assim sucessivamente.

** Renda familiar ou pessoal informada, em Reais (R$).

*** Não informou.

X Tempo (em anos) de prática de ginástica em academias exclusivas para mulheres.

Y Se já frequentou academias de ginástica mistas.

Instrumento

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a entrevista. O roteiro de questões semiestruturado que norteou as reflexões durante as entrevistas é o seguinte: (a) Qual a sua profissão? Exerce atualmente? Se não exerce, por quê? (b) Há quanto tempo pratica ginástica em academia? (c) Há quanto tempo pratica ginástica em academia exclusiva para mulheres? (d) Por que você pratica ginástica? (e) Qual o motivo, ou quais os motivos, de você frequentar uma academia de ginástica exclusiva para mulheres? (f) Se você já frequentou academias de ginástica mistas, comparativamente, o que a trouxe para a destinada exclusivamente às mulheres? (g) Você nota algo que considere importante mencionar relacionado ao comportamento de homens e de mulheres no ambiente de academia? (h) Há influência do seu companheiro ou da sua companheira na sua opção pela prática de ginástica em academias exclusivas para mulheres?

Procedimentos

As entrevistas, registradas em minigravador, ocorreram em dia, horário e local de maior conveniência para as participantes. A coleta de dados foi interrompida mediante a consideração de que as informações captadas atingiram um “ponto de redundância” (Alves, 1991), isto é, estavam suficientemente confirmadas e com poucas possibilidades de emergirem novas informações relevantes que justificassem a continuidade da coleta.

Para tratamento dos dados produzidos com a transcrição das entrevistas, privilegiamos a proposta de “análise temática/categorial” de Bardin (1977). A fim de nos familiarizarmos com os dados empíricos coletados e nos deixarmos contaminar, mais ainda, pelo universo investigado, foram realizadas leituras flutuantes2 do arquivo contendo a transcrição das entrevistas. Na sequência, foi iniciado o trabalho de categorização. A categorização temática foi usada para que pudéssemos organizar a análise através de uma condensação dos dados brutos.

Do corpus (material empírico coletado e transcrito) se estabeleceram, a posteriori (porquanto resultantes das acima mencionadas leituras flutuantes), duas categorias-chave, que optamos por apresentar separadamente em dois artigos. Neste artigo, portanto, diretamente associada ao seu objeto de estudo, a categoria elegida se estabelece relacionada às mulheres e aos espaços sociais em que processos de subordinação e de emancipação podem emergir.

Análise e interpretação das informações

Quando olhamos as profissões anunciadas pelas participantes (Tabela 1), somos fisgados pela afirmativa de Louro (1997) de que a inserção da mulher no mundo do trabalho no espaço público, que veio a se instituir de forma mais acentuada durante as primeiras décadas do século XX, aconteceu atrelada às necessidades do sistema capitalista, especialmente, que imputava às mulheres os campos profissionais voltados para o cuidado do/a outro/a; decerto, profissões que não exigissem dedicação em tempo integral, que não impedissem as mulheres de continuarem a se dedicar às funções do lar. Nesse diapasão, a profissão docente e as profissões relacionadas à área da saúde foram interpretadas como as mais adequadas.

São constatações que nos remetem para uma realidade que parece encontrar lugar na atualidade. Das 23 participantes desta pesquisa, 14 estão3 vinculadas a trabalhos ou a profissões que envolvem certo tipo de cuidado com o/a outro/a: quatro professoras (sendo uma aposentada); duas pedagogas (que podem atuar como professoras regentes de turma no campo escolar); uma estudante de pedagogia; uma mestranda em biologia (formação que, em certa direção, está relacionada ao campo da docência); uma enfermeira; uma estudante de medicina; uma psicóloga; duas domésticas; uma “do lar” (analisamos como trabalho em contexto não formal). Importa observar que duas participantes cursavam o ensino médio e não exerciam ainda atividade profissional na ocasião das entrevistas.

Tendo em vista o panorama acima delineado, parece prudente reavivar que a mulher esteve subjugada, durante longo período de tempo, a uma moral estabelecida que a localizasse apenas nos cargos ou papéis correlacionados a uma identidade domiciliar e materna, o que pressupõe consequências, ainda nos dias de hoje, com dificuldades de a mulher se afastar desse lugar (Oliveira, Gaio, & Bonacim, 2009). Podemos exemplificar com o trabalho doméstico que emerge no discurso da entrevistada como ponto importante na gestão do lar e na manutenção de uma ordem que favorece todos os/as atores/as que compõem a família:

Eu agora sou “do lar”, mas já trabalhei na firma do meu marido, mas me tomava muito tempo. Tem uns dois anos já que eu parei... para eu poder ficar em casa e poder cuidar da casa. A gente pensa aqui que a casa também é uma empresa, e sou eu quem toma conta daqui. (E4)

Como indica Lipovetsky (2000):

A mulher no lar, tal como é pensada nos séculos XIX e XX, está de fato profundamente associada aos princípios de gestão, de trabalho, de eficácia típicos da idade moderna. Testemunham isso as tarefas que lhe cabem: trata-se de administrar racionalmente o home, de mostrar-se econômica e boa gerente, de fazer reinar a ordem e a limpeza no lar, de ser guardiã da saúde da família, de fazer tudo para que os filhos ascendam na pirâmide social. (p. 213)

Observemos também o que elabora a entrevistada (uma mulher casada) sobre sua rotina cotidiana:

Essa coisa do trabalho em hospital que varia muito, e tem plantão e tal, me deixa um pouco sem uma rotina de tempo muito definida. Então eu posso ir à hora que eu quiser para lá [para a academia de ginástica]. Ah, e eu também tenho um filho; ele tem 10 anos e fica na casa da avó. Se eu deixar ele muito solto, ele apronta; então, também tenho, lógico, que marcar presença. (E10)

Nos depoimentos acima destacados, encontramos a gestora do lar, mas também a (prática profissional da) enfermeira e sua responsabilidade com o cuidado do filho, contribuindo para a interpretação que busca reconhecer a força da experiência social e histórica no movimento corporal da mulher na atualidade. Contudo, trata-se de uma interpretação que, ao mesmo tempo, por coerência com o próprio movimento da sociedade, não pode deixar de observar que as representações acerca da mulher, principalmente durante o século XX, sofreram fortes e importantes modificações; acredita-se que o constante câmbio entre seus papéis tornou diferente algumas relações que sustentavam seus modos de vida, como aquelas associadas à submissão patriarcal (Mathias & Rubio, 2009). Vejamos o que diz a entrevistada:

Essa coisa forçada de mulherzinha é complicada, porque eu, por exemplo, não gosto de rosa, minha cor preferida é azul. Essa coisa de depender de homem está acabando. Outro dia mesmo estava conversando com um amigo meu, e eu disse que hoje em dia a maioria das mulheres, por exemplo, têm carro e não dependem do homem para poder sair; se a gente quiser, a gente sai sozinha! E assim, ele ainda me falou que às vezes o carro dela é muito melhor do que o do homem; a autonomia está muito grande hoje em dia. (E7)

Consideremos então, com base no extrato acima, o posicionamento crítico acerca da ideia de mulherzinha, assujeitada ao homem, evidenciando as características daquela que Lipovetsky (2000)4 denomina de “terceira mulher”. Segundo esse autor, a “primeira mulher” correspondia à Eva da tradição judaico-cristã, ser nefasto e diabólico, agente da infelicidade do homem. A “segunda mulher”, posta em cena a partir da Idade Média, é uma espécie de anjo idealizado por sua beleza e qualidades “passivas”; glorificada em verso e prosa pelos homens, está longe de conquistar sua autonomia individual diante do macho dominador. Já a terceira mulher, que sugere o autor ter marcado o espaço social da segunda metade do século XX, deixou de ser uma criação do homem para se instituir como invenção de si mesma. Nesse sentido ela é, segundo Lipovetsky, indeterminada; é o ser moderno por excelência, que resultou da pílula anticoncepcional, desvinculando sexo e procriação, e da sua definitiva inserção no mercado de trabalho. Contudo, Lipovetsky observa que essa mulher autogovernada pode optar por não abdicar de certos papéis tradicionais. Indícios parciais dessa perspectiva desvelam-se no seguinte relato:

Quando eu saio com alguém, geralmente eu racho a conta, mas se ele quiser pagar, eu não me oponho... Mas quando eu saio com alguém, eu sempre levo dinheiro, porque parto do princípio de que eu vou pagar também; mas se ele quiser pagar, não faço nenhuma objeção. Você vai fazer o seu papel de cavalheiro e eu o papel de dama. Isso é um jogo. O jogo da conquista tem isso. É legal você ver o cara pagando, é como se ele estivesse dando um presente para você. Mas depois, com o tempo, você não pode deixar só o homem pagando, ele também tem as contas dele. (E7)

A interpretação relacionada ao fato de a mulher de hoje assumir certos papéis que possam ser associados à tradição familiar encontra respaldo no discurso das entrevistadas, quando a escolha pela academia de ginástica exclusiva para mulheres se estabelece atrelada, de certo modo, à voz do homem:

Ah, eu gosto de lá, o ambiente é muito bom, todo mundo conhece todo mundo, é ótimo. As aulas também contam muito, tem de tudo o dia inteiro lá. E também porque meu marido do jeito que é, se eu fosse para outra, daí já viu, homem olhando, não ia dar certo. (E13)

Em diferentes momentos, o que dizem as mulheres entrevistadas nos provoca inquietações e questionamentos: é possível compreender, conforme Lipovetsky (2000), que nenhuma atividade mais está, em princípio, fechada às mulheres, que nada mais fixa imperativamente seu lugar na ordem social? É coerente interpretar o movimento dessas mulheres como de submissão consciente ou de relativa passividade no jogo de sedução nas suas respectivas relações de gênero? Ou seria uma opção heterônoma e acrítica?

Paralelamente aos questionamentos, o que fica evidenciado é que na correlação de forças ou de motivos que levaram as entrevistadas a optarem pela academia destinada exclusivamente à mulher, os ciúmes de maridos ou namorados tornou-se, para parte desse grupo, fator representativo, a ponto de a instituição aflorar no discurso como alternativa de “salvação”:

Eu tive um problema durante minha segunda gravidez e tive que começar a fazer ginástica para fortalecer a coluna e o joelho. Nunca mais saí; eu comecei a ficar melhor e ele começou a elogiar o resultado. Só que, ao mesmo tempo, ele morria de ciúmes, sempre dizia: “Aquele monte de homem olhando para você lá, você de quatro com a bunda para cima, só de calça colada. Um absurdo! Se eu ver alguém olhando para você!” Ele tinha certas crises e começava sempre a falar da academia, só que eu nunca larguei por isso, sempre tive meu dinheiro, me sustentava, ajudava a pagar conta de casa e fazia todo o serviço. Vez em quando ele dava umas incertas na porta da academia. Teve uma vez que eu estava saindo e um rapaz se despediu de mim. Coisa boba, sabe? Só deu um “tchau”, nada, absolutamente nada a ver; mas ele viu. Foi uma briga que quase separamos. Foi quando uma amiga minha me indicou a [nome da academia]. Acho que foi a salvação do meu casamento. (E10)

Além do movimento correlacionado ao encontro da academia destinada exclusivamente à mulher, o depoimento acima indica o trabalho extradomiciliar atrelado à ideia de emancipação e autonomia. Portanto, o trânsito da mulher para o exercício do trabalho na esfera pública concorreu para promover não somente sua alforria no campo financeiro. Como diz Lipovetsky (2000):

O reconhecimento social do trabalho feminino traduz o reconhecimento do direito a uma “vida sua”, à independência econômica, na linha direta de uma cultura que celebra cotidianamente a liberdade e o maior bem-estar individual. Espiral dos referenciais individualistas, que levou as mulheres a denunciar o trabalho doméstico como alienação e sujeição ao homem e os próprios a reconhecer a legitimidade do trabalho assalariado feminino como instrumento de autonomia e de realização pessoal. (pp. 228-229)

Na complexidade da interpretação, importa verificar que, por vezes, independe se a mulher, com o seu trabalho, auxilia na manutenção financeira da família ou surge como a principal provedora dos recursos domiciliares (Boris & Cesídio, 2007). A E10 ajuda a arcar com as despesas financeiras de casa e, além disso, executa todo o serviço; movimentos que, para ela, conferem-lhe autoridade para optar. Mas será que essa mulher avalia que o trabalho doméstico desempenhado pode representar alienação e sujeição ao homem? De todo modo, autonomamente a qualquer condição ou avaliação, é preciso registrar a vivência da dupla jornada pela mulher; ou seja, o trabalho pós-lar, mas com a continuidade do trabalho doméstico (Bruschini & Ricoldi, 2012).

Ainda que a dimensão do trabalho não esteja no cerne do que se pretende discutir neste artigo, não podemos deixar de registrar que, salvo a E17 (aposentada que exterioriza uma imagem, digamos, ruim, da carreira profissional: “Sou professora aposentada, graças a Deus, não aguentava mais trabalhar!”) e as duas “domésticas” (que interpretamos, em certo sentido, ser o salário a única motivação para o trabalho), as mulheres que compõem nossa amostra demonstram investir na vida profissional e na construção de uma identidade social associada ao trabalho, mesmo aquela (E4) que identifica sua atividade profissional como sendo “do lar” (“A gente pensa aqui que a casa também é uma empresa, e sou eu quem toma conta daqui”). Como assinala Borges (2013), “as mulheres adultas de hoje se projetam na esfera pública e consideram a profissão importante para sua realização pessoal, embora não deixem de valorizar também as relações estabelecidas no âmbito privado” (p. 80).

Retornando ao elemento salvacionista, outra entrevistada estabelece relação entre ele e a academia exclusiva para mulheres:

Lá em Ubá eu “malhava” junto com meu namorado ... Só que aí eu passei no vestibular e mudei para cá sozinha; quando eu disse que iria fazer academia aqui, ele ficou doido de ciúmes ... Mas com a ideia de eu morar sozinha e ir para academia que pudesse ter algum homem lá para me olhar, mexer comigo ... Foi muito tenso, aí que eu vi que na rua onde moro tem uma academia onde só tem mulher; aquilo foi a minha salvação! (E19)

Os depoimentos associados à ideia de a academia exclusiva para mulheres emergir como possibilidade de salvação de namoros ou casamentos nos remetem aos princípios do patriarcado vigentes em nossa sociedade. Nesse sentido, talvez valha considerar:

O patriarcado é um sistema que perdura, pelo menos, há três mil anos, um período tão extenso que não é possível dizer se é um processo cíclico ou não, pois as informações que se dispõem acerca das eras pré-patriarcais são mínimas. O que é certo, nesses últimos três mil anos, é que a civilização ocidental e suas precursoras, assim como a grande maioria das outras culturas, basearam-se em sistemas filosóficos, sociais e políticos em que homens ‒ pela força, pressão direta ou através do ritual, da tradição, lei e linguagem, costumes, etiqueta, educação, divisão do trabalho ‒ determinam que papel as mulheres devem ou não desempenhar, e no qual a fêmea está, em toda parte, submetida ao macho. (Oliveira, Gaio, & Bonacim, 2009, p. 81)

E os depoimentos também nos permitem entrever uma forma mais sutil ou menos explícita de manifestação do patriarcado. Nesse caso, não há uma imposição prévia, anunciada, mas uma satisfação diante da decisão de mudança da academia mista para a destinada exclusivamente às mulheres: “Ele não demonstrava ciúmes, mas na hora que eu saí ele gostou ... eu o senti mais aliviado” (E2).

Quando fui para a [nome da academia], eu não era casada ainda, mas já o namorava e, assim, ele nunca falou nada para mim. Agora, negar que ele ficou feliz quando fui para lá, é mentira, ele adorou, falou que agora ninguém iria olhar para mulher dele. Não que ele não confiasse em mim, mas agora ninguém ia mais olhar. Isso me deixou mais à vontade, com certeza. (E6)

Assinalamos então movimentos, mais ou menos explícitos, de sujeição a certas normas de gênero que podem ser associados ao patriarcado e à tradição familiar. Trata-se de apontar para o indivíduo absorvido por formas de saber-poder, conforme esclarecem Veiga-Neto e Nogueira (2010):

O sujeito passa a ser entendido como uma posição a ser ocupada por um indivíduo numa trama de saberes. E é o saber que estabelece as regras para o discurso que deve pronunciar o sujeito. Assim, o que chamamos de sujeito é uma posição ocupada por um indivíduo, numa complexa rede sócio-cultural cujos fios são as práticas discursivas e não discursivas que, justamente por serem práticas, são contingentes e, portanto, sempre cambiantes e mutáveis. (p. 78)

A E2 diz que sentiu o marido aliviado com o fato de ela ter optado pela academia exclusiva para mulheres. Para a E6, mesmo que o seu namorado não tenha se manifestado explicitamente sobre o assunto, ela acredita que ele ficou feliz quando a mudança da academia mista para a frequentada apenas por mulheres se efetivou. Portanto, parece coerente compreender que a escolha dessas duas mulheres pela academia exclusiva foi também motivada por práticas não discursivas que, de certo modo, desvelam concepções de gênero que, latentes em nossa sociedade, permanecem produzindo efeitos como a manutenção de certas hierarquias, culturalmente construídas, entre homens e mulheres.

Foucault (1976/2010) observa que o sexo é acesso, ao mesmo tempo, à vida do corpo e à vida da espécie” (p. 159), tempo em que serve como matriz das disciplinas que tratam, por exemplo, da regulação das populações no século XVIII e, principalmente, no século XIX. O autor destaca, nesse sentido, uma política do sexo que tem importantes linhas de atuação, dentre as quais aquela ancorada à ideia de histerização das mulheres, na qual seus corpos e seus sexos são levados a uma medicalização minuciosa, “em nome de uma responsabilidade que elas teriam no que diz respeito à saúde de seus filhos, à solidez da instituição familiar e à salvação da sociedade” (p. 160). Assim, sendo esses os objetivos em foco na ocasião, o espaço privado da casa torna-se adequado às mulheres, pois ali elas encontram proteção e podem se dedicar.

Talvez seja mesmo possível considerar a hipótese de que a tendenciosidade de maridos e namorados em abraçar (valorizar, gostar, incentivar) a ideia de que suas esposas e namoradas pratiquem exercícios físicos em academias exclusivas para mulheres se justifique pela proximidade que essas instituições comerciais podem estabelecer com o território privativo do lar, tradicionalmente habitado e gerido no cotidiano quase que exclusivamente por mulheres.

Com efeito, especialmente pautados nas diferenças biológicas entre homens e mulheres, constructos tradicionais reafirmam as dimensões socioculturais como de (pre)domínio masculino (Bourdieu, 2014). Nesse sentido, no quadro de tradição que se espera aqui recuperar, o espaço público seria o campo a ser desbravado e dominado por aqueles providos de força, virilidade e coragem, indivíduos biologicamente preparados para determinar os rumos da sociedade (Laqueur, 2001; Louro, 1997). O espaço do lar, por seu turno, associa-se estreitamente aos princípios da higiene, da limpeza, do cuidado com o outro, domínios atribuídos à feminilidade. Indícios dessas concepções sexistas parecem insurgir nos relatos de algumas das entrevistadas, ao desvelarem o incômodo causado pela presença dos homens em academias mistas:

Ah, não sei; sinceramente, não sei. Eu nunca tive interesse em “malhar” em um lugar que tivesse homem. Assim, não sei, acho que até por uma questão de higiene ... Não sei, acho que academia só de mulher deve ser mais limpa. Já pensei nisso várias vezes. Sei lá. (E16)

É isso mesmo, é no centro, é barato, tem muita aula, não tem homem. Quer dizer, até que tem homem, mas é só professor. Aí não vale; eles ficam lá, mas ninguém liga. Se fosse outro homem, com certeza a mulherada iria reclamar. Eles atrapalham mesmo; pegam muito peso nos aparelhos, suam demais, cheiram mal e fazem cara feia quando fazemos no lugar deles. Tudo isso, além, é claro, da coisa de ficarem olhando o tempo todo. (E22)

O encaminhamento das interpretações nos leva a pensar que, no contexto sociocultural em que o espaço público é atribuído aos homens, características desse espaço podem demarcar seus habitantes. Postulemos então a relação do espaço público com a sujeira e por analogia representemos os homens que o habitam como pouco providos de higiene, que suam demais e cheiram mal.

Importa registrar a abrangência da rejeição das mulheres à presença de homens em academias de ginástica mistas. O extrato abaixo também é ilustrativo:

Quando me casei, já frequentava a [nome da academia]. Ficamos 10 anos juntos, e nesse tempo fui para outras academias também. Ele não gostava muito, falava que eu ia arrumada demais para a academia e os homens iam ficar olhando e mexendo. Era sempre isso, a mesma ladainha. Direto a gente discutia por isso, mas acaba que no final ele estava certo. Os homens me atrapalhavam e ficavam realmente olhando, isso atrapalha a gente concentrar no exercício. (E23)

Como observam Frazão e Coelho Filho (2015), é possível que nas academias exclusivas as mulheres fiquem mais focadas na exercitação física; pelo fato de sentirem-se mais à vontade, consequentemente, podem se concentrar mais nas práticas e realizar os mais variados movimentos/exercícios sem constrangimentos provocados por olhares invasivos, de homens.

A liberdade de a mulher exercer sua escolha, independentemente da vontade do companheiro, foi objeto de reflexão durante as entrevistas. A partir da análise e interpretação dos dados coletados, é possível constatar, de um lado, processos de subordinação das mulheres à voz (a autoridade) de maridos e namorados; de outro, indícios de emancipação das mulheres, ou, dito em outras palavras, certo vetor de autonomia no exercício dos seus papéis sociais.

No depoimento a seguir, a mulher, enquanto permaneceu casada, demonstrou resistir ao desejo do companheiro e questionar. Contudo, com a condição de separada, parece ter encontrado certa liberdade que lhe proporcionou ir ao encontro ao que lhe convém:

Ele sempre quis que eu fosse para uma academia que só tivesse mulher. Ele morria de ciúmes, mas, assim, eu não fui por isso não. Achava um absurdo eu ir para um lugar onde só tem mulher se ele não fosse para um lugar que só tivesse homem. Por que ele pode ficar onde tem mulher e eu não posso ficar onde tem homem? Mas acabou que assim que separei eu mudei de academia e fui parar na [nome da academia]. Pelo menos eu, ele não influenciou não, apesar de falar muito no meu ouvido. (E22)

Trata-se de uma dinâmica que pode nos remeter ao que Foucault (1994/2006) nos ensina acerca da relação entre poder e resistência; decerto, sobre a emergência de certas estratégias de confronto. Outros extratos exemplificam: “Não, de jeito nenhum! Se eu preferisse a mista, de jeito nenhum! Eu nunca fui...; eu nunca aceitei não, alguém que mexesse na minha roupa, que falasse para eu trocar de academia; nada não” (E2); “Ah sim, já passei, passei sim, mas eu era novinha; ele tentou me dominar, mas eu não deixei não” (E7). De todo modo, convém sublinhar que as entrevistadas frequentam uma academia de ginástica destinada exclusivamente às mulheres, o que se coaduna, em certo sentido, com as crises masculinas, com as presunções de controle.

Reflexões finais

Tendo em vista o exercício de análise e interpretação realizado nesta pesquisa, destacamos as seguintes conclusões: (a) as mulheres que compõem nossa amostra demonstram investir na vida profissional e na construção de uma identidade social associada ao trabalho; (b) a interpretação relacionada ao fato de a mulher de hoje assumir certos papéis que possam ser associados à tradição familiar encontra respaldo no discurso das entrevistadas, quando a escolha pela academia de ginástica exclusiva para mulheres se estabelece atrelada, de certo modo, à voz do homem; (c) o que fica evidenciado é que na correlação de forças e de motivos que levaram algumas das entrevistadas a optarem pela academia destinada exclusivamente à mulher, os ciúmes de maridos ou namorados tornaram-se representativos; (d) processos de subordinação à voz de maridos e namorados são constatados, juntamente com indícios de emancipação das mulheres relacionados à autonomia no exercício dos seus papéis sociais.

As nossas entrevistadas, além de estudar e investir numa identidade social que se estabelece vinculada, diretamente, à suas próprias atividades produtivo-econômicas, direcionam tempo e energia para uma prática (ginástica) que contribui com a sensação de (bem) estar: “mais bonita mesmo” (E11), “e todo mundo gosta de ficar bonita” (E13); “melhor, mais disposta” (E18); “relaxada, assim, a cabeça desliga e você libera lá [na academia de ginástica] tudo o que prendeu durante o dia” (E12); “bem ao lado do marido ... porque aí ele não vai querer olhar para outra, vai olhar só para mim, e todo mundo quer isso, não tem jeito” (E4). Portanto, quiçá uma ascese5 que se desvela comprometida com a vida familiar, com o equilíbrio das relações domiciliares. Ou seja, a mulher faz ginástica, também, porque “tudo fica um pouco mais durinho”, e o “marido adora!” (E17). Parafraseando Lipovetsky (2000), se a (subjetividade da) mulher de hoje registra uma inegável ruptura histórica, evitemos assimilá-la a uma mutação que faz “tábula rasa” do passado. É o que verificamos ao examinar a discussão por nós conduzida a respeito do corpo.

Decerto, as identidades profissional, domiciliar e materna reivindicam espaço no corpo das mulheres entrevistadas e nos levam a perguntar: lidamos com um movimento que mostra uma mulher não assujeitada à moral patriarcal (Sant’Anna, 1995) que flerta, em certo sentido, com valores da tradição familiar? Trata-se de uma questão que merece atenção no atual estágio dos estudos de gênero com foco nas mulheres.

As mulheres entrevistadas apontam para a identificação com ideias culturais não necessariamente harmonizados entre si: entre a “sedução do eterno feminino” e o poder, ou “o eterno retorno do masculino”; entre a carreira e a vida familiar; entre o sucesso público e o privado. Assim, se a mulher autogovernada de hoje abdicou, relativamente, dos papéis tradicionais, possivelmente é porque a vida familiar, o íntimo, o relacional com os seus amores, podem permanecer sendo privilégios do, ou mais privilegiados pelo, “corpo feminino”; é uma identidade domiciliar e materna que se conserva, de certo modo, fixada, paradoxalmente, na mudança e no irrecusável avanço.

Por fim, importa indicar que os depoimentos coletados nesta pesquisa sugerem um grupo de mulheres marcado por uma heterossexualidade oposicional. Disso se colhe, para futuras investigações, algumas questões: qual a orientação sexual declarada de frequentadoras de academias de ginástica exclusivas para mulheres? Mulheres homossexuais apresentam motivos diversos dos que são apresentados pelas heterossexuais para a prática da ginástica em academias exclusivas para mulheres? Lésbicas frequentadoras de academias de ginástica exclusivas para mulheres podem contribuir com a pesquisa/discussão que se estabelece associada aos “problemas de gênero”? Como masculinidades e feminilidades podem se manifestar na sexualidade lésbica presente em academias de ginástica exclusivas para mulheres?

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1Utilizamos “academias de ginástica” por conta de certa tradição que assim denomina esse tipo de instituição comercial. A “ginástica” é aqui compreendida em sentido amplo, o que implica considerar o universo das práticas coletivas e individuais de exercícios físicos em academias.

2Trata-se de leituras atentas, críticas, sensíveis a diferentes associações e reflexões. Com efeito, como observa Bardin (1977), corresponde a um período de intuições que tem por objetivo tornar operacionais e sistematizar as ideias iniciais, de maneira a conduzir a um esquema preciso do desenvolvimento das operações sucessivas, num plano de análise.

3Mais precisamente, dez estão (três professoras, duas pedagogas, uma enfermeira, uma psicóloga, duas domésticas, uma “do lar”); três estarão (uma estudante de pedagogia, uma estudante de medicina, uma mestranda em biologia); uma esteve (professora aposentada).

4O trabalho do autor foi produzido no contexto francês da segunda metade da década de 1990; portanto, relativamente distante do nosso tempo e espaço, mas, a nosso ver, próximo e atual para as interpretações que encaminhamos.

5Conforme Ortega (2001), o indivíduo possui a capacidade de efetuar determinadas operações sobre si mesmo para se transformar e constituir uma forma desejada de existência, processo denominado ascese ou tecnologias de si.

Agências de fomento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. Bolsa de Mestrado, número de registro: 1104671.

Recebido: 03 de Dezembro de 2016; Revisado: 27 de Novembro de 2017; Aceito: 31 de Janeiro de 2018

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Deimersom Pereira Frazão é mestre em Educação Física pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Neil Franco é doutor em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor Adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora (Faculdade de Educação Física e Desportos).

Carlos Alberto de Andrade Coelho Filho é doutor em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor Associado da Universidade Federal de Juiz de Fora (Faculdade de Educação Física e Desportos).

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