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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.30  Belo Horizonte  2018  Epub Dec 03, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30185097 

Artigos

PROBLEMATIZAR O CAMPO DE SABER PSICOLÓGICO: AUSÊNCIAS E EMERGÊNCIAS DO TRABALHO PÓS-INCÊNDIO DA KISS

PROBLEMATIZAR EL CAMPO DE SABER PSICOLÓGICO: AUSENCIAS Y EMERGENCIAS DEL TRABAJO PÓS-INCENDIO DE KISS

Camila dos Santos Gonçalves1 
http://orcid.org/0000-0002-0655-8895

Pedrinho Guareschi2 
http://orcid.org/0000-0003-0875-5865

Adriane Roso3 
http://orcid.org/0000-0001-7471-133X

1Universidade Franciscana, Santa Maria/RS, Brasil

2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS, Brasil

3 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria/RS, Brasil

Resumo

Este artigo visa a analisar ausências e emergências de saberes e práticas psicológicas das ações realizadas diante do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria/RS/Brasil, ocorrido em janeiro de 2013, a partir das narrativas de psicólogos/as voluntários/as. Foram entrevistados/as 13 profissionais de ambos os sexos. A partir da sociologia das ausências e da sociologia das emergências e de autores que trabalham uma perspectiva crítica da Psicologia, foram delimitadas as ausências que emergiram desse trabalho quanto aos aspectos da formação em Psicologia, das técnicas e da relação das intervenções com a cidade e os coletivos. As emergências referiram-se ao fortalecimento das experiências pelo protagonismo local, à criação de práticas singulares e redes colaborativas afetivas na construção coletiva de trabalho. Foi possível colocar o campo de saber em análise e problematizar a formação quanto ao seu compromisso social, implicado com a defesa de uma perspectiva integral dos sujeitos e articulada com diferentes saberes.

Palavras-chave: Psicologia Social; intervenção psicossocial; formação do psicólogo

Resumen

Este artículo busca analizar ausencias y emergencias de los saberes y prácticas psicológicas de las acciones realizadas frente al incendio en la casa nocturna Boate Kiss, en Santa Maria/RS/Brasil, ocurrido en enero de 2013, a través de las narrativas de psicólogos/as voluntarios/as. Fueron entrevistados/as 13 profesionales de ambos sexos. A partir de la sociología de las ausencias y la sociología de las emergencias y de autores que trabajan una perspectiva crítica de la Psicología, se delimitaron las ausencias que emergieron de ese trabajo cuanto a los aspectos de la formación en Psicología, de las técnicas y de la relación de las intervenciones con la ciudad y los colectivos. Las emergencias se refirieron al fortalecimiento de las experiencias por el protagonismo local, la creación de prácticas singulares y redes colaborativas afectivas en la construcción colectiva de trabajo. Fue posible colocar el campo del saber en análisis y problematizar la formación en cuanto a su compromiso social, implicado con la defensa de una perspectiva integral de los sujetos y articulada con distintos saberes.

Palabras clave: Psicología Social; intervención psicosocial; formación del psicólogo

Abstract

This article aims to analyze absences and emergencies of knowledge and psychological practices of the actions at the fire at Boate Kiss, in Santa Maria/RS/Brazil, in January 2013, based on the narratives of psychologists volunteers. Thirteen professionals of both genders were interviewed. From the sociology of absences and the sociology of emergencies and authors who work on a critical perspective of Psychology, we delimited the absences that emerged from this work concerning aspects of Psychology Education, techniques and the relation of interventions with the city and collectives. The emergencies referred to the strengthening of the experiences by the local protagonism, the creation of singular practices and affective collaborative networks in the collective construction of work. It was possible to analyze the field of knowledge and to problematize the formation regarding its social commitment, implied with the defense of an integral perspective of the subjects and articulated with different knowledge.

Keywords: Social Psychology; Psychosocial intervention; Psychologist Education

Introdução

Em 27 de janeiro de 2013 ocorreu um incêndio em uma casa noturna, no centro da cidade de Santa Maria/Rio Grande do Sul/Brasil. A estimativa é de mais de 600 feridos e 242 mortos (Krum & Mafacioli, 2016; Noal,Vicente, & Weintraub, 2016; Siqueira & Víctora, 2017). As ações em resposta aos efeitos gerados nessa madrugada foram caracterizadas por uma rede de apoio entre os diferentes órgãos, como a Força Nacional do Sistema Único de Saúde (FN-SUS), a Defesa Civil, a Força Aérea Brasileira, Conselhos Profissionais, a 4ª Coordenadoria Regional de Saúde e as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde (Noal et al., 2016; SES/RS, 2014). Muitos voluntários/as que auxiliaram nas ações eram profissionais de saúde com distintos níveis de formação e trajetórias de experiência, com preocupações e metodologias diferentes, e muitos nunca tinham trabalhado juntos anteriormente, revelando o desafio para uma comunicação coerente para o alinhamento de ações (Cabral, Simoni, Adamy, & Belloc, 2016).

Partimos da noção de “acontecimento” como algo que pode ser tomado como fato histórico, mas que é pautado por uma experiência singular (Sodré, 2012). Logo, o sentido, aqui, infligido está na construção narrativa atribuída às memórias sobre um fato e as reflexões feitas sobre ele depois de certo afastamento temporal. Essa construção “reinventa a própria vida, em vez de somente explicá-la ou compreendê-la” (Zanella, 2013, p. 21).

Para compor a reflexão sobre esse acontecimento, relacionamos a concepção de sociologia das ausências e emergências, trabalhada por Boaventura de Sousa Santos (2002, 2007), enquanto investigação e ampliação dos saberes e práticas camuflados por uma racionalidade conservadora. O autor parte do que nomeou como sociologia das ausências, isto é, a superação das monoculturas do saber científico, do tempo linear e da naturalização das diferenças tão presentes em muitos campos de saber, influenciados pela visão dos modos de ação das ciências modernas. Além disso, busca romper com o universalismo a partir da proposta de cinco ecologias, sendo elas: a ecologia dos saberes, que postula um diálogo do saber científico com o saber popular e laico; das temporalidades, que compreende diferentes tempos históricos; do reconhecimento, que propõe a superação das hierarquias de saberes; da transescala, que permite a articulação entre aspectos locais, nacionais e globais; da produtividade, centrada nos aparelhos alternativos de produção.

Neste artigo, buscamos analisar as ausências e emergências nas narrativas dos/as profissionais quanto a saberes e práticas psicológicas diante do acontecimento crítico, problematizando o campo de saber psicológico. Desse modo, partimos da premissa de que esse acontecimento crítico serviu como um dispositivo analisador do campo de saber da Psicologia e nos auxiliou a problematizar as demandas que a Psicologia tem recebido na atualidade e nas ofertas que ela propõe.

Método

Este artigo é proveniente de uma pesquisa que resultou na tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e institucional da UFRGS. Foram entrevistados/as 13 psicólogos/as que trabalharam como voluntários/as nos atendimentos emergenciais gerados pelo incêndio na boate Kiss em Santa Maria em 2013. Realizamos 11 entrevistas presenciais e duas por escrito e criamos um grupo focal com três psicólogos/as que tinham participado das entrevistas individuais, realizadas no período de janeiro a agosto de 2016. Os extratos serão identificados com a letra C (colaboradores/as) seguida do número em ordem da realização das entrevistas; as falas retiradas do grupo focal são antecedidas pela letra G.

A solicitação inicial para a entrevista narrativa foi baseada em Jovchelovitch e Bauer (2008): gostaria que você me falasse (escrevesse) sobre a tua experiência (sensações e percepções) diante da notícia do incêndio na boate Kiss em Santa Maria no dia 27 de janeiro de 2013, e como foi tua participação neste acontecimento? Após concluir essa parte, que era livre e percorria o tempo e a sequência que julgassem necessários, eram feitas outras perguntas mais orientadas aos objetivos da pesquisa. Buscamos manter a mesma abordagem das entrevistas presenciais com as entrevistas enviadas por escrito. Enviamos por e-mail a pergunta ampla sobre a experiência e, depois do envio da resposta desta, um segundo e-mail com o restante das questões.

O artigo atende aos procedimentos éticos do Conselho Nacional de Saúde. A pesquisa foi submetida à aprovação de comitê de ética da UFRGS sob parecer nº 1532874. Os/As colaboradores/as que aceitaram participar das entrevistas e do grupo focal acordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

As análises das narrativas foram entrelaçadas com elementos da teoria da sociologia das ausências e da sociologia das emergências, trabalhadas por Boaventura de Sousa Santos (2002, 2007) e por autores com uma perspectiva crítica da psicologia (como Guareschi, 2012; Jovchelovitch, 2008; Rose, 2011). Após a análise das entrevistas, delimitamos conjuntos de análise e, neste artigo, serão apresentados dois deles: “o acontecimento crítico como campo de análise do saber psicológico: as ausências dos saberes” e “emergências no campo psicológico diante do acontecimento crítico: a construção dos saberes contra o desperdício da experiência”.

Resultados

O acontecimento crítico como campo de análise do saber psicológico: as ausências dos saberes

Os/As profissionais trouxeram a lembrança da desacomodação gerada por tal experiência, apontando que foram para o local de trabalho com aparatos teóricos e práticos utilizados nas rotinas de trabalho, mas precisaram ser reformulados. A partir dos extratos a seguir, acompanhamos o processo que colocou a formação à prova diante dessa demanda:

Sendo muito transparente contigo, acho que foi um trabalho que pôs em cheque a formação que a gente tem, porque no lugar [de gestão] que eu estava, eu me preocupava muito sobre como estava sendo conduzido, porque era um papel um pouco assim, de nortear, de acolher, de refletir. (C2)

E o que nos toca, em uma situação como esta, a da urgência, é a facilidade com que nos perdemos. Colocamos em jogo tudo o que aprendemos até então, nos tornamos vulneráveis também, para assim podermos suportar as incertezas, o não sabido. (C12)

Quando os/as colaboradores/as colocam em cheque a formação, evidenciam a intensidade da desestabilização diante de tal desafio e revelam o quanto isso pode fragilizar os saberes dos profissionais diante de um embate com o não familiar, em que sua vulnerabilidade é exposta e o sentido de desamparo germina. Estes extratos descortinam o desassossego perante essa experiência:

Mesmo se fosse super seguro, desmontava em algum momento, porque em algum momento aquela técnica não ia fazer efeito, ou não ia conseguir aplicar, e ia ter que desestruturar, desorganizar e fazer de outra forma, mais coletivamente, menos individual, menos com essa visão individualista da psicologia. (C3)

Então, foi bem, foi bem disruptivo nesse sentido, estava para além de qualquer ensino acadêmico no sentido de que não tinha essa segurança, de estar cercado por algum tipo de diagnóstico ou instituição que desse conta disso, não. Era um negócio meio caótico mesmo e que era esse ponto que essa pessoa, que cada pessoa conseguia fazer com aquilo que estava aparecendo. (C1)

Algumas características que marcam a formação, como ser centrada na individualidade e regida por parâmetros diagnósticos, foram problematizadas. O acontecimento crítico tornou-se um dispositivo analisador por proporcionar esse tipo de exame ao pensar que a Psicologia precisou “se colocar em questão” ao revelar um contraste entre diferentes representações dos próprios profissionais sobre o campo de saber, das práticas, das demandas que devemos atender, quem devemos ouvir, onde devemos (ou não) ir.

Acredito que em uma situação como essa precisamos de uma orientação sim, seja de equipes mais experientes em situações como essa, ou de uma estratégia de conduta, mas apenas para nos ajudar a nos ressituarmos para assim podermos ter condições mínimas de trabalho, já que se trata de uma experiência que movimenta tudo na gente, emoção, corpo, sentimentos de impotência, de desamparo compartilhado, de dor. E não para padronizar uma prática ou aplicar uma técnica ... Como sustentar uma posição diante de tanta diferença? Acredito que esse foi e é o maior desafio. (C12)

Eu ouvi de algumas pessoas de dizer “a gente não tinha nada”, eu também acho que não, talvez essa pessoa não percebesse, ou não tenha noção de que algumas coisas, não é ter uma disciplina para tratar de Emergências e Desastres, mas a questão, porque eu acho que exatamente a nossa profissão lida com o inusitado, só que o inusitado do consultório, por exemplo, é aquele que tu tenha, tu consegue se preparar antes, minimamente ... ao contrário dessa situação que não, a gente estava exposto. (C9)

Essas falas nos auxiliaram a refletir sobre ausências existentes no modelo de formação que temos, enraizado em uma estrutura padronizada que guia os modos de agir em Psicologia e que desampara os/as profissionais diante de situações que fujam desse padrão.

O acontecimento provocou os/as profissionais a pensarem o que fazer com seu aparato teórico e técnico, bem como desnudou a confiança nas tecnologias de intervenção convencionais centradas nas palavras e em um espaço delimitado/instituído de ação. A provocação de estar diante de uma “vivência pura”, invasiva, colocou o/a psicólogo/a diante de suas limitações físicas, como trazem as falas:

Mas, esse fator humano, ele teve muito desnudo para Psicologia, eu acho que é essa a questão que aconteceu lá, eu acho que isso gritou assim lá, de: “Olha, eu acho que vocês têm um monte de técnicas, mas tem alguma coisa berrando que está junto ali daquele fazer e que estava ensanguentado ali, estava na coisa da vivência pura”. Porque aí tu não consegue teorizar sobre isso. (C5)

Tem que saber silenciar-se para poder deixar que o outro venha ou não venha ... quem trabalha com a Emergência tem que saber fazer isso, porque, às vezes, a gente se atrapalha com a nossa ansiedade, de querer botar palavras onde não tem palavras, porque quando é uma situação desse nível, ela não tem palavras para dizer. (G, C6)

Os extratos delineiam que uma das dificuldades do trabalho foi a limitação de técnicas hegemônicas, perspectivas racionalistas, centradas na palavra. As questões que permearam as lembranças dos/as colaboradores/as perante suas práticas também denunciaram a impossibilidade de manutenção da invisibilidade dos corpos, tanto o seu quanto dos outros. A relação literal do lugar do corpo do/a psicólogo/a na intervenção é algo presente nas narrativas e faz pensar sobre a desacomodação do profissional diante da emergência corporal, que diluiu o espaço profissional seguro familiarizado.

Logo, ao considerarmos a relação com o corpo físico uma ausência do campo de saber psicológico, temos um desafio “em mãos”, o de incluir aspectos significativos ligados às relações que extrapolam as palavras e atingem, literalmente, o corpo do outro e do/a próprio/a psicólogo/a nas rotinas de trabalho. Contudo, não nos referimos, aqui, a um corpo-máquina, manifesto apenas em comportamentos que podem ser mensurados em protocolos, mas sim um corpo-linguagem, que se revela nas entrelinhas do sofrimento.

A extensa afetação gerada pelo acontecimento crítico atingiu diretamente os/as sobreviventes e seus familiares e os familiares dos/as não sobreviventes, e os/as profissionais que atuaram, diretamente, na assistência dessas pessoas. Entretanto, também alcançou os moradores da cidade, envolvidos direta ou indiretamente no apoio depois do incêndio. Assim, a cidade passou a representar esse coletivo enlutado, em sofrimento. Em um acontecimento desses, a cidade passa a ser o setting de atuação, as paredes dos espaços de escuta desabam, e a rua passa a ser a arena para se falar em sofrimento. Desse modo, a frágil relação com os coletivos e a atuação política são aspectos trazidos nas narrativas. Os extratos a seguir apontam para a fragilidade das ações perante as demandas coletivas e da cidade:

A gente trabalhou muito pouco em termos de cidade, eu percebo isso, porque há uma dificuldade de se deparar com esse sofrimento, porque para onde que vai escoar isso? Tu entendeu? É isso que eu sinto. (G, C3)

Acho que [a cidade] era o setting, mas que a psico não conseguiu atuar. Acho que era o setting, mas foi atuado de forma setorizada, ou seria, setorizada, então assim, é isso que eu vejo . (G, C6)

Nesse aspecto, há uma sinalização de que a Psicologia não teve maior atuação e visibilidade junto aos coletivos e/ou nos espaços públicos. Em um acontecimento como esse, a dimensão coletiva emerge e ganha maior visibilidade, além de tentar ampliar a possibilidade de escuta e olhar diante do sofrimento na esfera pública. A percepção do movimento dos efeitos na cidade sensibilizou os/as colaboradores/as enquanto profissionais de saúde mental e também enquanto moradores/as desse território, como apontam as falas:

Então são outras coisas e que eu percebo muito do movimento da cidade, e é isso uma queixa que eu vejo dos pais é que ninguém mais quer falar sobre isso, e isso é um sintoma de que talvez seja muito difícil falar, então eu não quero falar, não vou, não existe alguém que faça essa mediação e possa ajudar com que se fale e dê um destino para essas palavras. (G, C6)

As pessoas querem saber, quando saí daqui eu fiz esse movimento, fui pra Porto Alegre ... e parecia que lá existia um interesse muito maior de saber, eu me senti melhor para falar do que estando aqui, porque daí as pessoas querem saber, ou vinculam Santa Maria ao que aconteceu ainda lá, e aqui a coisa fica calada. (G, C3)

Essas narrativas provocam olhar para algo que não aparece: a implicação da Psicologia com a cidade, a cidade como setting, a cidade e suas vontades de calar ou de falar. A dificuldade de tratar com esse aspecto macropolítico é recorrente do campo psicológico preso à tradição privatista e individualizante. Assim, a partir das falas dos/as colaboradores/as, na sequência, entendemos que, passados anos do incêndio, pouco foi feito para avaliar as ações locais e preparar os/as profissionais para situações e olhar para as necessidades da cidade.

É que eu não sei se eu diria visibilidade, acho que eu diria efeito, porque assim como talvez eu sinto uma falta de enxergar esses efeitos e daí claro, da visibilidade, mas eu acho que é efeito, é poder enxergar esses efeitos na cidade, eu acho que, escoou muito pouco para a cidade como um todo. (G, C3)

parece que foi apagando e aí? E politicamente tem gente que vai ganhar com isso, né? Então esse é o risco de não aparecer, de não ser feito esse outro trabalho, porque daí a gente não força politicamente no sentido disso assim, de quem estava aqui, da parte do Estado, da parte do Governo Federal ou do Conselho de Psicologia de chamar isso e poder fazer, de pensar, porque nessa época podia ter exatamente isso, vamos pensar a cidade e vamos pensar a cidade culturalmente. (G, C9)

O que se observa é que há uma diminuição do presente, via individualização dos sentimentos, isto é, uma reduzida escuta do coletivo, reforçando uma cultura de silenciamento do sofrimento, ou particularização do sofrimento. Assim, a relação com a cidade e com os coletivos são aspectos diluídos nas memórias de um trabalho que escoou entre os dedos da Psicologia. A seguir, trataremos do que chamamos das emergências engendradas pelo acontecimento crítico e efetivadas pelo trabalho dos/as psicólogos/as.

Emergências do campo psicológico diante do acontecimento crítico: a construção de saberes contra o desperdício da experiência

Apesar de o acontecimento crítico ter tido uma vasta repercussão nacional e internacional, foi significativa a predominância da atuação de profissionais locais nas ações. Orientados/as pelas diretrizes das políticas públicas e dos/as profissionais com outras experiências em situações críticas, muito do produzido em Santa Maria foi singular e entrou para a história das práticas em Psicologia em eventos críticos, como mostram os extratos:

Eu acho que a Psicologia de Santa Maria foi muito protagonista nesse processo, não que os psicólogos de fora não tiveram papéis importantes, isso já virou piada entre os meus amigos, daí tu vai lá, uma semana depois no Fantástico e tem um Psicólogo de fora de Santa Maria numa coletiva de imprensa, veja bem, não que eu ache, desmerecendo o trabalho do Psicólogo de fora, mas Santa Maria tem psicólogo suficiente pra poder falar sobre isso, e se organizou para isso, batalhou, então, eu senti falta de naquele momento também ter algum Psicólogo de Santa Maria falando do seu processo. (C5)

Teve uma “hiper” exposição da cidade a isso e eu acho que é um pouco, talvez essa associação desse lugar, o psicólogo é quem trata com isso, eu acho que fortaleceu essa marca, é uma coisa de ficar mais claro, não sei, de repente o reconhecimento desse lugar e da função... da relevância ou do alcance do lugar da Psicologia e parece que esse evento meio que escrachou isso. (C1)

Essas narrativas lançam luz sobre a valorização da experiência local. A composição de saberes diferentes dentro do próprio campo “psi” e de outros campos gerou uma trama de respostas ofertadas pela Psicologia diante desse incêndio. Contudo, ao considerar que cada evento é singular, os colaboradores/as chamam atenção para essa produção, desvelando que os restos dessa experiência ainda produzem efeitos na reflexão e ação desses/as profissionais.

Após o estranhamento inicial, houve a necessidade de resgatarem os aspectos sensíveis das práticas de uma formação profissional que atua por meio da criatividade. Esses aspectos, trazidos pelos/as colaboradores/as, estão em contraposição a ausências produzidas em relação à padronização de práticas, a avaliações deterministas e homogêneas, como mostram as falas:

Acho que preparar nos prepara [a formação] , mas nós temos uma insegurança do que fazer diante de um desastre, ou de algo novo, acho que a psicologia, a formação da psicologia é muito de usar a questão da criatividade, isso faz parte do nosso trabalho, então isso está lá desde o início da faculdade ao final da faculdade, de como é que tu trabalha com o improviso. (G, C6)

No final das contas, não sei ao certo o que sobrou desta experiência enquanto trabalho em equipe, em rede, nas emergências... Sempre acreditei na importância da plasticidade/flexibilidade na e da nossa prática enquanto psicólogos, área de um conhecimento/fazer que não conta com as certezas e previsões do campo das Exatas. (C12)

Nas narrativas, surgem possibilidades de contornar essa adversidade, convocando aspectos do improviso e flexibilidade perante as ações a serem realizadas. O recurso da criação é acessado diante das novas demandas, mantendo o respeito às singularidades.

É interessante acompanhar, pelas falas, esse movimento de apropriação do trabalho e do lugar diante de um incidente que surpreendeu todos/as e gerou, inicialmente, um espanto e uma sensação de vazio. Após saírem da posição de congelamento e questionamento de “não saber o que fazer”, as narrativas revelam um lugar profissional bem demarcado, em que há um reconhecimento da potência da formação profissional. Existe uma distinção fundamental entre o saber teórico e o saber de ação, este último ligado às competências práticas, às aptidões adquiridas na e pela ação afetivas, flexíveis.

Passamos ao último aspecto que caracteriza os saberes e práticas emergentes da experiência demonstrados pelas narrativas dos/as colaboradores/as, que salientam que o conhecimento é algo provisório e construído em conjunto, por meio da alteridade, e composto por afetos e solidariedade. Ao acessarem os saberes formais e teóricos como primeiros recursos perante o chamado para o trabalho, depararam-se com sua falibilidade. Assim, outros saberes foram ativados, como os relacionados à alteridade e à solidariedade:

eu acho que essa experiência serviu para um pouco fazer esse processo se expandir, para ver em outros cenários da prática ... a sensação que eu tenho é que esse saber foi, esse saber é construído e é construído quando a gente trabalha com o outro. (C2)

Se sentiu convocado por si e foi, mas aí, quando se esteve lá, ele virou um trabalho coletivo da Psicologia ... eu acho que tinha um apoio dos Psicólogos juntos lá, do olhar, do abraço, de se encontrar, que ao mesmo tempo muitos colegas a gente não via há muita tempo e a gente estava se encontrando, naquele momento e existia esse apoio, então por isso que eu falo do individual pro coletivo. (G, C6)

Os afetos embricados no trabalho promovidos por meio dos encontros com o outro alimentaram a travessia profissional nesse trabalho. A alteridade está na base das representações sociais, e essas são a expressão mais clara dos saberes consensuais. É desse lugar que se pode falar que tal saber é “construído quando a gente trabalha com o outro”.

As ações exigidas pelo acontecimento crítico não tinham precedentes nos repertórios dos/as profissionais nem grande visibilidade nos cursos de formação. Uma das respostas à sensação de desestabilidade gerada pelo desafio do novo foi a ativação de uma afiliação e pertença com a profissão, a qual pode gerar sentimentos de pertencimento e reconhecimento:

“eu sou psicólogo, vim ajudar”, esse “eu sou psicólogo” quando eu falei “eu sou psicólogo, vim ajudar” tipo assim, bom pera aí, eu posso fazer alguma coisa com isso, sabe? e foi tudo muito automático esse gatilho, eu ouvi pessoas que falaram assim que ‘ah eu estava em casa ouvindo, pensando se eu ia ou não ia e tal’, comigo a coisa foi mais direta, sabe? (C1)

Uma coisa é eu [nome próprio] fazer um bolo, comprar uma água e levar para os familiares, ok! muitos colegas fizeram e eu acho isso tão válido quanto terem ido como psicólogos, agora na medida que tu te voluntaria como um trabalhador da Psicologia, tu entende? Tu tem que saber qual é o teu papel lá ... então eu acho que a organização do voluntariado vai muito dessa convocatória que vem de tu te reconhecer Psicólogo, ter um compromisso social ali. (C5)

Não podemos afirmar que uma experiência seja melhor do que a outra ou dispensar certas práticas realizadas por diferentes perspectivas teóricas dentro da Psicologia. Entretanto, podemos dizer que são formas de ação e experiências diferentes e, por isso, os intercâmbios podem ser enriquecedores, já que cada evento crítico é único e evoca a criação de práticas singulares coerentes às condições de resposta existentes em cada território.

Discussão

As ausências emergentes nas narrativas dos/as colaboradores/as ilustram aspectos invisibilizados no campo de saber da Psicologia, desvelando aquilo que nos falta ou que não é valorizado. A primeira ausência apontada foi quanto a uma crítica de si mesma tão necessária para uma perspectiva crítica de ciência; a segunda foi quanto ao distanciamento em relação aos corpos; a terceira desvela a frágil relação com a cidade e a atuação política. Os saberes e as práticas emergentes nas narrativas sobre a experiência apontam para três aspectos: uma valorização do saber psicológico dos profissionais locais; a inventividade, a improvisação e a singularização das práticas psicológicas; um trabalho coletivo-afetivo e que reforçou um sentimento de pertencimento à categoria profissional.

Foi preciso um acontecimento crítico para a emergência de um modo de fazer Psicologia que resiste e está tentando fazer lugar nas brechas dos saberes dominantes guiados pelos valores da modernidade. Refletir diante dos questionamentos feitos pelos profissionais perante o chamado e as práticas feitas por muitos colegas tornou-se um disparador para buscarmos compreender como isso “co-moveu” a Psicologia diante dos efeitos do incêndio. O exercício de desacomodação dos saberes vigentes e dominantes no campo da Psicologia, ao criar origens, estratégias e soluções para experiências do cotidiano, parte do reconhecimento da incompletude dos saberes em si e da possibilidade de falibilidade de saberes instituídos.

Dentre as ausências que traduzem saberes e práticas pouco visibilizadas na atuação profissional diante do acontecimento crítico em Santa Maria, surgiu a frágil relação com os coletivos, aspecto relevante frente às potencialidades de se escutar o território. A experiência argentina frente aos efeitos do incêndio acontecido em Buenos Aires (na República Cromañón) alerta para o valor simbólico das questões coletivas, como a justiça e o reconhecimento social como importantes para a reparação mínima da dor, pois é preciso vê-lo como uma emergência social (Aronowics, Marina, & Romero, 2007).

As ausências que percorreram as narrativas dos/as colaboradores/as reforçam a concepção epistemológica que percorre a história da Psicologia enquanto visão predominantemente positivista que temos de conhecimento. A sociologia das ausências busca romper com aquilo que está posto e tornar visíveis aspectos que não são valorizados. Existem saberes e práticas que não são visibilizados diante das hegemonias de certos modos de saber. A sociologia das ausências surge para combater a desvalorização desses modos de saber e a tendência ao enxugamento do presente a partir das invisibilidades das experiências locais (Sousa Santos, 2007).

Diante da problemática colocada, a busca pela compreensão dos saberes e das práticas produzidos a partir das experiências dos/as psicólogos/as nesse acontecimento crítico pode fazer deslocar/desacomodar o lugar instituído da formação em Psicologia como predominantemente vinculada às questões do âmbito individual e privado, com técnicas focadas na palavra e com poucas interações com o corpo. Além disso, tal busca pode desacomodar uma atuação desvinculada de aspectos públicos e políticos, focada na patologização do cotidiano. Assim, para a leitura das ausências no campo de saber da Psicologia, precisamos partir da ideia de que os saberes não existem isoladamente: são as vivências que delineiam sua produção e sua empregabilidade a partir da improvisação e singularização de saberes e práticas. Há um exercício tecnicista de acomodar e determinar as realidades, reforçando a fidelização a protocolos. Podemos pensar sobre a questão das diferenças geradas pelas especialidades não dialógicas dentro do próprio campo de saber psicológico. Para tanto, Sousa Santos (2002, 2007) defende que a eliminação de outras formas de saber reduz o presente ao eliminar outras realidades que ficam fora das concepções de ciência, ignorando que a possibilidade de coexistências de diversos saberes possibilita um espaço de potência e criação. Essa perspectiva corrobora o princípio de polifasia cognitiva de Moscovici (2012), o qual reconhece que o essencial não é o estudo de um pensamento especializado, seja ele científico, “psicológico” ou de um estilo cognitivo, isto é, uma atribuição exclusiva a um tipo de pensamento egocêntrico. A ausência se constituiu nessa experiência à medida que houve a negação da pluralidade de recursos e o desrespeito à singularidade das demandas.

Para Coimbra e Leitão (2003), o homem e a sociedade, a Psicologia e a política são territórios produzidos historicamente, que se atravessam e se constituem, e nos quais as lutas se fazem cotidianamente. “Ao afirmarmos esses saberes específicos estamos abandonando as hierarquias, os cristalizados, duros e inflexíveis limites que tentam demarcar os sagrados territórios de cada um desses saberes, que tentam isolá-los e, portanto, hierarquizá-los” (Coimbra & Leitão, 2003, p. 14). Para Sousa Santos (2002, 2007), precisamos de um novo modo de produção de conhecimento, pois a racionalidade que predomina influencia as maneiras de pensar, de fazer ciência, na concepção de vida e de mundo. A esse tipo de pensamento predominante, que se considera único e que não reconhece sua necessidade de se rever, o autor chamou de razão indolente.

O conceito de expertise evoca um tipo de autoridade específica empregada pelo especialista. Nesse sentido, os experts “psi” conquistaram certa posição privilegiada, porque é esse saber que assegura entender os determinantes internos da conduta humana. Logo, tal saber “afirma sua habilidade de prover os alicerces apropriados no conhecimento, no julgamento e na técnica, para os poderes dos ‘experts’ da conduta onde quer que tenham que ser exercidos” (Rose, 2011, p. 26). Essa herança de psicologização do cotidiano também se revelou no acontecimento crítico: “Com essa ‘tirania da intimidade’, qualquer angústia do cotidiano, qualquer sentimento de mal-estar é remetido imediatamente para o território da ‘falta’, da ‘carência’, no qual os especialistas ‘psi’ estão vigilantes e atentos” (Coimbra, 2004, p. 46). São atribuições construídas historicamente para a Psicologia “dar conta” do sofrimento humano, viabilizar a expressão do não dito, lidar com o indizível.

Ao historicizarmos essa experiência de Santa Maria, oferecemos uma alternativa que cabe no horizonte concreto e visa a conhecer mais as reais possibilidades de atuação da Psicologia perante esse acontecimento crítico. Essa reavaliação da filiação e pertença, enquanto atores do campo de saber psicológico, revelou-se como uma das emergências que o acontecimento crítico produziu. As reflexões que essa experiência proporcionou para tais profissionais reforçaram seus posicionamentos diante dos saberes e das práticas psicológicos.

As emergências são produções criadas a partir da crítica ao que Sousa Santos (2002) chama de razão indolente, que são as várias formas subjacentes de conhecimento hegemônico, tanto filosófico como científico. Ao tratar do “protagonismo dos atores locais” enquanto uma emergência, defendemos que precisamos abandonar a ideia de que existe apenas um modo de conhecer (ciência), pois ela ignora a complexidade dos saberes e as riquezas implícitas nas estratégias construídas por sujeitos comuns para lidar com ambientes naturais e sociais. Esse tipo de postura não dialógica tem por objetivo desautorizar o conhecimento que está na experiência comum, considerando-o como um desvio ou uma distorção. Pensando sob esse aspecto, Sousa Santos (2002, 2007) indica que é insustentável amparar-nos apenas em uma evolução linear de saberes, mas é preciso reconhecermos a partilha de tradições e inovações que coexistem nas relações sociais.

O processo de “criação e hibridização de práticas singulares” é possibilitado a partir do diálogo entre diferentes saberes e parte do sentido de incompletude de todo e qualquer modo de saber, isto é, o confronto e o diálogo são regidos pelo modo como cada um dos saberes em disputa orienta suas práticas na superação de desafios, incluindo as diferenças nos processos de trocas e na construção de soluções. As “redes colaborativas afetivas na construção coletiva de trabalho” buscaram a autonomia e a cogestão das ações. Esse reconhecimento de que as sociedades são constituídas por diversas temporalidades recupera e torna visíveis as práticas e as sociabilidades, tornando-as inteligíveis e objetos críveis de argumentação e disputa política. Reconhecermos que a pluralidade de saberes não é suficiente: precisamos visibilizar os chamados saberes locais e “questionar por que alguns saberes são localizados enquanto outros recebem o estatuto e a legitimidade da universalidade. Daí a necessidade de avaliar as formas dominantes de produção do saber de forma a produzir uma crítica das ações estratégicas” (Jovchelovitch, 2004, p. 28).

A base de uma psicologia das emergências está na investigação das alternativas que cabem no horizonte das possibilidades. Para tanto, buscamos a ampliação do presente pela valorização dessas experiências e pelas possibilidades futuras no campo de saber da Psicologia, visto o futuro não como infinito e vago, mas como concreto mesmo que incerto. Segundo Mayorga (2012), é preciso tomar nós mesmos como ponto de reflexão e identificar pontos que ocupam lugares secundários em diferentes espaços. Fazer uma análise do campo emergente de saberes e práticas da Psicologia não é algo simples; para tanto, partimos de uma experiência potente, como um evento analisador das emergências desveladas pelas práticas da Psicologia.

A sensação da carência e incompletude dos campos de saber na Psicologia são potentes motivações para o trabalho de tradução dentro do saber psicológico. Conforme Veronese (2007, p. 55), o objetivo é construir alianças entre diferentes saberes e práticas na busca de certa unidade “que só é válida enquanto unidade na divergência, enquanto diálogo na diversidade”. Assim, cabe à Psicologia lutar pelo resgate de criação e emergência de formas emancipatórias de subjetivação pela busca de outros modos de agir nessa área, e, para isso, precisamos ter espaço para produzi-las e garantir-lhes reconhecimento.

Considerações finais

Ao buscarmos analisar as ausências e emergências que surgiram das narrativas dos/as profissionais quanto aos saberes e às práticas psicológicas, identificamos as problematizações diante das demandas geradas. Ao considerarmos o acontecimento crítico como um dispositivo analisador das ausências e emergências de saberes e práticas psicológicos, levantamos ausências referentes à formação em Psicologia, às técnicas e quanto à relação com a cidade e os coletivos. A partir disso, avançamos na análise e nomeamos de psicologia das ausências as limitações encontradas no campo de saber perante a arena de atuação que se centraliza na palavra, na qual os aspectos subjetivos sobrepõem-se ao contato e aos sinais físicos, perdendo, assim, a noção de integralidade. Além disso, nessa perspectiva de psicologia das ausências, damos ênfase ao tratamento dos efeitos individuais e privados em detrimento de uma compreensão ampliada dos efeitos coletivos e públicos, potencializados por esse acontecimento crítico. A formação foi posta em análise a partir dos questionamentos que o acontecimento crítico produziu no campo de saberes e práticas psicológicas. Essa experiência “balançou” a formação em Psicologia nas suas certezas de modelos e na questão das fragilidades das especialidades e mobilizou os/as profissionais à criação de novas formas de agir, nos “co-moveu”, isto é, ao mesmo tempo o acontecimento crítico gerou comoção e mobilização.

Em contrapartida, as emergências levantadas pelo/as profissionais referiram-se ao fortalecimento das experiências e saberes locais, por meio do protagonismo local, da criação de práticas singulares e das redes colaborativas afetivas na construção coletiva de trabalho. A psicologia das emergências, que delimitamos, alerta para a contradição e a incerteza que coabitam a rotina de trabalho da Psicologia. Logo, esse acontecimento crítico fez-nos pensar o quanto acabamos normatizando certos modos de atuação, em que a busca por legitimar evidências sobressai-se às vivências criativas que possibilitam acolher o sofrimento e não recorrer a recursos para controlá-lo ou evitá-lo.

Os saberes e as práticas psicológicas que emergiram a partir do acontecimento crítico revelaram que o trabalho em resposta aos efeitos do incêndio foi um disparador para pensarmos o campo de saber psicológico. O acontecimento crítico dissipou certezas no campo psicológico. A formação da Psicologia, que se centra no uso da palavra como pilar de sustentação para suas práticas, foi colocada em questão diante de ações que demandavam o uso do corpo como principal ferramenta de trabalho. O estranhamento diante do contato com o corpo do outro e com as sensações e limitações do próprio corpo do/a psicólogo/a foram temas que emergiram. Entendemos que o uso da palavra envolve sempre certa racionalidade, e as manifestações vindas dos corpos em forma de abraços, lamento e gemidos prescindem das racionalizações, pois são pura expressão de emoções e afetos.

Refletir sobre o compromisso social da Psicologia diante desse acontecimento crítico não se esgotou, pois sempre há muito que fazer para ampliarmos o presente. Cabe a ela, por meio de seus saberes e práticas, não contribuir para a legitimação de uma sociedade individualista ao resumir o sofrimento à esfera privada, como também questionar a patologização da vida e dos sofrimentos se autoelegendo arauto do saber. A experiência de trabalho aqui estudada foi um sinalizador do possível, em que marcas significativas foram construídas e precisam ser resgatadas para a formação e o cotidiano de trabalho, e não apenas em situações atípicas. É nos encontros dos coletivos que emergem as possibilidades de produção de cuidado e produção de saberes psicológicos. Para tanto, é a partir das nossas experiências que podemos refletir sobre as (im)possibilidades de construir a realidade e interferir no mundo.

Referências

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Agência de fomento: o presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil [CAPES], nº do processo 1532805.

Recebido: 08 de Setembro de 2017; Aceito: 25 de Junho de 2018

Endereço para correspondência: Rua Silva Jardim, 1175. Nossa Senhora do Rosário. Santa Maria/RS. 97010-491. E-mail: camilag@unifra.br

E-mail: pedrinho.guareschi@ufrgs.br

E-mail: adriane.roso@ufsm.br

Camila dos Santos Gonçalves é Doutora em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente do Curso de Psicologia da Universidade Franciscana, Santa Maria/RS.

Pedrinho Guareschi é professor convidado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional - PPGPSI. Porto Alegre/RS.

Adriane Roso é docente da Universidade Federal de Santa Maria, Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Santa Maria/RS. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (2015-2018).

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