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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.30  Belo Horizonte  2018  Epub Dec 03, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30178463 

Artigos

A BICHA NA EMERGÊNCIA DA HOMOSSEXUALIDADE CULTURAL: PETER FRY E O QUE O INGLÊS NÃO VIU

LA BICHA EN LA APARICIÓN DE LA HOMOSEXUALIDAD CULTURAL: PETER FRY Y LO QUE EL INGLÉS NO VIO

BICHA IN THE EMERGENCE OF CULTURAL HOMOSEXUALITY: PETER FRY AND WHAT THE ENGLISHMAN DIDN’T SEE

1 Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória/ES, Brasil

Resumo

Procurando desenvolver a perspectiva da bicha, empreende-se uma leitura crítica da obra de Peter Fry relativa à antropologia da homossexualidade como um meio para promover questionamentos à formação identitária do gay, que é base das políticas de diversidade sexual no Brasil. O paradigma cultural que Fry ajuda a estabelecer, contestando a abordagem naturalista da homossexualidade, possibilita um lugar para a bicha nas tramas do saber científico. Mas o impasse representacional em relação ao devir marca a obra de Fry. O resultado da reviravolta é a redução da bicha ao negativo, como o contrário da homossexualidade. Extemporânea e involuída, contudo, não seria a bicha produzida no seio da modernidade uma ruptura na ordem da evolução e do progresso, signo de um desvio histórico?

Palavras-chave: bicha; homossexualidade; Peter Henry Fry (1941- )

Resumen

Buscando desarrollar la perspectiva de la bicha (el maricón), se emprende una lectura crítica de la obra de Peter Fry en la antropología de la homosexualidad como un medio para promover el cuestionamiento de la formación de la identidad de la comunidad gay, que es la base de las políticas de diversidad sexual en Brasil. El paradigma cultural que Fry ayuda a establecer, desafiando el enfoque naturalista de la homosexualidad, proporciona un lugar para la bicha en las parcelas del conocimiento científico. Pero un atolladero representacional en relación con el devenir marca el trabajo de Fry. El resultado de la voltereta es la reducción de la bicha a la negativa, como lo contrario de la homosexualidad. Extemporánea e involutiva, sin embargo, no sería la bicha producida dentro de la modernidad una ruptura en el orden de la evolución y del progreso, ¿signo de un desvío histórico?

Palabras-clave: bicha; homosexualidad; Peter Henry Fry (1941- )

Abstract

In order to develop abichaperspective, a critical reading of Peter Fry's work on the anthropology of homosexuality functions as a means to promote questions about the identity construction of gays, which is the basis of sexual diversity policies in Brazil. The cultural paradigm that Fry helps to establish by challenging the naturalistic approach to homosexuality provides a place for the bicha in the scientific knowledge. However, a representational impasse in relation to its development marks Fry's work. It results on the reduction of thebichato a negative, as being the opposite of homosexuality. Being seen as extemporaneous and “un-evolved”, however, wouldn’t thebichaproduced within modernity be a rupture in the order of evolution and progress, and therefore a sign of historical deviation?

Keywords: bicha; homosexuality; Peter Henry Fry (1941- )

Introdução

Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. (Benjamin, 1940/1987, p. 225)

Bichas e gays vivem em conflito há muito tempo, o que é perceptível nos mais diversos guetos homossexuais (praças, banheiros, saunas, bares, boates, chats, aplicativos etc.), inclusive nos espaços de militância política organizada. Como, historicamente, surgiu tal combate? A partir do incômodo com essa situação cotidiana, constrói-se este ensaio teórico-crítico ao encontrarmos na obra de Peter Henry Fry (1941- ) um foco crucial para o complexo problema da bicha. O trabalho desse antropólogo inglês radicado no Brasil constitui um corte decisivo para a bicha em meio à emergência da homossexualidade como forma cultural no país a partir da década de 1970. Pretendemos desenvolver um ponto de vista da bicha sobre o gay, compreendendo ambos como modos de subjetivação diversos. Segue-se, assim, a trilha aberta por Fry (1982a, 1982c, 1982e), mas em sentido divergente. Tencionamos provocar, com isso, modificações nas perspectivas de gênero e sexualidade. No discurso científico-acadêmico, a conceituação da bicha predominantemente acontece sob o ponto de vista do homossexual, mais especificamente do gay como personagem da homossexualidade cultural. Para produzir uma perspectiva bicha da diversidade sexual, recorremos à análise da produção conceitual em relação com as condições históricas de invenção dos discursos. Essa estratégia analítica possibilita abordar as relações de poder que permeiam e constituem os dispositivos de saber. Desse modo, também, há um posicionamento contra o modo de pensar representacional, que trata o conhecimento como reflexo estático da realidade, e assume-se que as produções de saber são peças que intervêm na construção dos mundos que se vive.

Sendo assim, sustentamos uma posição radicalmente distinta daquela operada por Fry (1982a, 1982c) ao considerar a bicha como forma de representação cultural da homossexualidade. Logo, retomamos a senda crítica aberta por Perlongher (1993), segundo a qual é preciso recusar a lógica da representação e da identidade, ligada ao gay, para poder pensar a bicha. Tal deslocamento na abordagem da bicha possibilita um tensionamento crítico entre divergentes modos de saber, os quais correspondem a uma agonística entre políticas da identidade e políticas da diferença. O conceito de identidade remonta à imagem do pensamento representacional, que postula a existência de uma dimensão transcendente explicativa da realidade, onde seria possível encontrar formas ideais, fixas e inteligíveis; o conceito de diferença, por sua vez, remete a um pensamento sem imagem e imanente ao devir incessante da realidade, de maneira que a diferença não se define pela ausência de identidade, mas pela criação de novas formas de realidade (Deleuze, 1968/2006). Esses modos de pensar correspondem a jogos de força em conflito incessante. No pensamento ocidental, é hegemônico o modo representacional, o qual subsume o conceito de diferença ao de identidade. Em função disso, pensa-se frequentemente a diferença como conjunto de identidades variadas. Os movimentos de diversidade sexual, acionando a lógica da representação, pensam a diferença em função da identidade. Muitos dos conceitos e categorias utilizados para pensar a diversidade sexual no Brasil derivam do trabalho de Fry, que promoveu o desenvolvimento da abordagem representacional nos estudos da sexualidade. Dessa maneira, ainda que sejam frequentemente ressaltadas desavenças entre a produção acadêmico-científica sobre sexualidade e os movimentos sociais de diversidade sexual, pode-se notar que ambos estão firmemente instalados no âmbito da política representacional.

Procurando nos situar no ponto de vista da bicha, empreendemos uma leitura crítica da obra de Fry relativa à antropologia da (homo)sexualidade como um meio para promover questionamentos à formação identitária do gay, que é base das políticas de diversidade sexual no Brasil. A tese que atravessa essa discussão é a de que a cultura gay corresponde ao extermínio da bicha no plano do saber, o que nos lança ao fato de que bicha não se constituiu em uma identidade reconhecível para as lutas da diversidade sexual. O surgimento do gay como formação identitária, durante os anos 1970 e 1980, choca-se com a existência da bicha como modo de vida arraigado historicamente na cultura brasileira. Uma série de embates se desdobra perturbando as formações da bicha. A produção teórica de Peter Fry é um aparelho crucial no conflito pois compõe, durante a década de 1970, o plano discursivo onde se instalam os debates dos primeiros militantes homossexuais organizados no país, armando-os para o ataque à bicha. Neste ensaio pretendemos, cerca de 40 anos depois, criar algumas condições para uma revanche da vencida bicha nessa história dos saberes relativos às sexualidades. Para tanto, a seguir, serão analisadas as variações de movimentos táticos que compõem a estratégia discursiva, elaborada na obra de Fry, para construir uma forma cultural gay e eliminar a bicha. Focaremos o homossexual como produção histórico-política, colocando-o em questão, deixando a bicha na penumbra em que foi lançada pelos discursos científicos. A potência sombria, disforme e fantasmática da bicha é o que anima nosso ensaio.

A emergência da bicha no saber científico-acadêmico

Fry parte do modelo de luta política que define o poder como relação entre dominado e dominador, implicando uma mútua exclusão entre esses lugares universalizados e bem delimitados. A antropologia cultural da homossexualidade, tal qual estabelecida por Fry no Brasil, avaliará as lutas homossexuais emergentes em função do seu compromisso ou da sua oposição intransigente em relação aos poderes dominantes na sociedade. A partir de um trabalho de 1974 sobre “homossexualidade masculina e cultos afro-brasileiros” (Fry, 1982c), baseado em pesquisa de campo realizada durante quatro semanas e meia com umbandistas da periferia de Belém do Pará, “a construção histórica da homossexualidade no Brasil” será discutida (Fry, 1982a). Fry localiza, entre a classe média urbana, o surgimento da figura do homossexual na cultura brasileira, compreendendo-o em termos de passagem da hierarquia à igualdade. Tal passagem acontece pelo entrecruzamento de dois aspectos na transformação cultural que o antropólogo inglês percebe ocorrer no país, naquele momento. Em primeiro lugar, Fry (1982a, p. 93) atribui às “classes médias das grandes metrópoles” brasileiras uma flexibilização no tradicional código social e sexual rigidamente hierárquico que se poderia encontrar “bastante hegemônico nas classes mais baixas e no interior do país”. Atrelado a esse aspecto, há a organização de novos movimentos sociais nas grandes cidades, dentre os quais está o dos homossexuais. Até então, homossexual era uma categoria bastante restrita aos meios jurídicos e médicos, especialmente o psiquiátrico. De acordo com Fry, o homossexual torna-se uma forma de inteligibilidade cultural presente na sociedade brasileira apenas a partir da segunda metade do século XX, limitado inicialmente às classes médias das grandes metrópoles. Os primeiros grupos articulados em torno da identidade homossexual no Brasil, conscientes das relações hierárquicas em funcionamento na sociedade, dispõem-se a combatê-las seguindo o princípio da igualdade. A gênese teórica da obra de Fry sobre a homossexualidade articula-se inextricavelmente à gênese histórica dos movimentos homossexuais organizados. A emergente personagem do homossexual, militante político da classe média urbana, surge em conflito com a figura da bicha, inscrita na tradição popular como desviante sexual e social.

A bicha se arranja em um lugar significativo nas análises de Fry (1982a, 1982c), definida como papel social e sexual, categoria classificatória, representação social ou coletiva que é preciso distinguir do homossexual. O antropólogo inglês, há poucos anos no Brasil, rapidamente discrimina os traços da bicha brasileira e os da homossexualidade europeia. Quando Fry questiona o valor analítico da categoria homossexual, caracterizada como indefinida, a personagem bicha vem à tona como diferença que interrompe a pretensão de universalidade categórica. Essa figura disruptiva, recoberta até então pelo léxico científico em voga, invade assim o discurso acadêmico, dominado pelo pensamento psiquiátrico e criminal sobre a homossexualidade. A partir daí, promove-se a “tentativa de desfocar a discussão da sexualidade do campo da medicina e da psicologia para colocá-la firmemente no campo da antropologia social” (Fry, 1982a, p. 87). Por conta dessa transferência conceitual entre disciplinas acadêmicas, Fry (1982c, pp. 67-68) não deixa de usar o termo homossexualidade, mesmo considerando que, pela população, é “raramente usado” e que “a palavra ‘homossexual’ é uma tradução inadequada para qualquer dos termos usados [no] mundo masculino de Belém”. Sustentando a necessidade de estabelecer uma “clara distinção entre as suas categorias analíticas e as dos pesquisados” para produzir a “informação etnográfica relativa ao esquema classificatório das pessoas envolvidas” (Fry, 1982c, p. 64), justifica-se a manutenção da categoria homossexual no novo horizonte arrumado para a produção de saber sobre a homossexualidade no Brasil. Como a bicha aparece a partir dessa alteração de regime discursivo em terras brasileiras? Para Fry (1982c, p. 68), “o papel de bicha é um papel essencialmente atribuído”, de maneira que não lhe interessa mais do que o “significado da categoria”. A bicha é, assim, entendida como sendo significada por uma cultura, abordada como “sistema de representações sociais … fundamentalmente dualistas … na qual as coisas tendem a ser classificadas em termos de oposições binárias” (Fry, 1982a, pp. 88-109). A dicotomia sexual entre ativos e passivos torna-se o esquema compreensivo da bicha, a essência de sua representação. A bicha que o inglês viu pode ser resumida no seguinte:

A categoria "bicha" se define em relação à categoria "homem" em termos do comportamento social e sexual. Enquanto o "homem" deveria se comportar de uma maneira "masculina", a "bicha" tende a reproduzir comportamentos geralmente associados ao papel de gênero (gender role) feminino. No ato sexual, o "homem" penetra, enquanto a "bicha" é penetrada. … o ato de penetrar e o de ser penetrado adquirem, nessa área cultural, através dos conceitos de "atividade" e "passividade", o sentido de dominação e submissão. Assim o "homem" idealmente domina a "bicha". Além disso, a relação entre "homens" e "bichas" é análoga à que se estabelece entre "homens" e "mulheres" no mesmo contexto social, onde os papéis de gênero masculino e feminino são altamente segregados e hierarquizados. (Fry, 1982a, p. 90)

Qual o sentido dessa definição sumária? Primeiramente, percebe-se que já não se trata meramente de uma relação geral entre pessoas do mesmo sexo e que há referência a um tipo de formação cultural específico. A bicha, desenvolvendo-se como modo de vida durante o século XX (Green, 2000), interfere de maneira decisiva na modificação brasileira dos saberes acadêmico-científicos sobre a homossexualidade, inventada na Europa durante a segunda metade do século XIX (Foucault, 1976/2014; Hocquenghem, 1977). Na primeira metade do século XX, no Brasil, a bicha desaparece sob o olhar médico e jurídico vigente, sendo tratada como sinônimo popular para a ideia científica de homossexual. Ao bom senso homossexual corresponde, em tal caso, o senso comum da bicha. Desse jeito, a bicha acaba por desaparecer no discurso acadêmico, restando apenas seus vestígios neutralizados pela sinonímia. Nessa estruturação do saber, a bicha não chega a ocupar um local discursivo próprio no campo acadêmico e científico, pois é identificada com o homossexual, tratada como uma cópia popular do conceito universal de homossexualidade. Na segunda metade do século XX, o paradigma cultural que Fry ajuda a estabelecer, contestando a abordagem natural da homossexualidade, possibilita um lugar para a bicha nas tramas do saber científico. Nesse novo horizonte do saber, a bicha não deve ser confundida com o homossexual, pois ambos referem-se a conceitos culturalmente construídos e designam distintas realidades sociopolíticas (Fry, 1982a, 1982c). O deslocamento epistemológico operado pela antropologia cultural permite relativizar o conceito de homossexualidade, questionando a presunção de constituir um invariável do comportamento humano. Procede-se, assim, a uma destotalização da categoria homossexual, possibilitando que a bicha não seja mais recoberta e abafada pelo discurso científico da homossexualidade, e que emerja em sua diferença nesse discurso.

A mesma mudança cultural que condiciona a reviravolta epistemológica nos estudos da homossexualidade durante o século XX permite a invenção do homossexual na vida social. A bicha penetra a produção de saber acadêmico, enquanto o homossexual escapa dos textos científicos importados da Europa e torna-se uma personagem das classes médias urbanas. Entretanto, no mesmo movimento pelo qual passa a ser reconhecida pelo discurso acadêmico em sua originalidade, toda a configuração social em que a bicha vive é reduzida em função da lógica classificatória, sistemática e identitária que pretende estabelecer uma definição do que seja a bicha. Basicamente, Peter Fry define a bicha pelo esquema ativo-passivo de relação sexual, na pretensão de compreendê-la. Essa definição é redutora por relançar a bicha ao ideal de um conceito científico pretensamente universal, não mais preso ao domínio naturalizado do biológico, e, sim, a um padrão social e cultural da política: a relação de opressão entre dominador e dominado. No fim das contas, o que define a bicha é essa relação tratada como sua essência, e nada além. A bicha é apreendida por Fry como a atualização em um contexto cultural específico de um modelo universal da política, ao qual o olhar do antropólogo inglês está preso. Nesse procedimento de produção do saber, a bicha prossegue como mera reprodução, reles cópia de um modelo. No âmbito naturalista, a bicha é uma reprodução cultural da essência biológica da homossexualidade. Já no âmbito culturalista, a bicha é cópia de um modelo político em uma sociedade específica. Em ambos os casos, o pensamento baseado na lógica identitária modelo-cópia persiste e esmaga a bicha como singularidade histórica, social e política. A bicha que, relativizada, corresponde a uma sociedade específica, é prontamente esmagada e resumida a um modelo geral da política, o jogo entre oprimido e opressor, e assim desaparece. A peculiaridade da bicha, que emerge no tumulto da reviravolta epistemológica do saber homossexual, perde-se de vista novamente.

Da perspectiva naturalista à culturalista

Após escapar ao modelo totalizante do homossexual biológico-natural - que seria possível encontrar em qualquer parte do mundo, independente da cultura e da história - por meio do abalo relativizante das ciências humanas e sociais, a bicha é logo capturada por uma nova totalização: o modelo da homossexualidade cultural que define a vida social como relação entre oprimidos e opressores. A diferença da bicha em relação ao homossexual é estabelecida, de acordo com esse modelo sucessor, no campo demarcado do político, do social e do cultural, por exclusão da perspectiva essencialista, biológica e psicológica. Fry ataca por diversas vias a concepção naturalista da homossexualidade, a fim de efetivar a transição paradigmática nos estudos da homossexualidade. Essa modificação implica embate em torno de quais disciplinas acadêmicas irão dominar o discurso sobre a homossexualidade. Por isso, em favor das ciências humanas e sociais, Fry (1982b, p. 79) denuncia como a psiquiatria “se consolida como instrumento legítimo de controle social” ao definir a homossexualidade como loucura moral, associando-a à anormalidade, à violência e ao misticismo no caso de Febrônio Índio do Brasil. Ele critica ainda o naturalismo presente em romances do final do século XIX que apresentam relações homossexuais, resultando em “um discurso essencialmente contraditório, caindo ora no determinismo biológico e social, ora naquilo que mais tarde irá constituir a tradição antropológica que hoje conhecemos” (Fry, 1982d, p. 36). Mais recentemente, Fry (2015) insiste ainda em remeter o conflito paradigmático à disputa entre disciplinas acadêmicas, questionando explicações psicológicas familiaristas e personológicas ao decretar a incompatibilidade entre psicologia e antropologia. Diante desses enfrentamentos teóricos, parece interessante retomar o sentido dessas críticas e indagar a vitória do discurso antropológico sobre a sexualidade, as contradições que ele encerra e a pretensão de pureza categórica a que aspira. Nesse sentido, o desaparecimento da bicha nesses debates é bastante revelador. O que aconteceu com a bicha na transição paradigmática da homossexualidade natural à cultural?

Na lógica naturalista, a homossexualidade verdadeira é a da bicha afeminada e passiva sexual, sendo a partir dela que se podem compreender os diversos tipos de homossexualidade (Fry, 1982a; Green, 2000). Pelo olhar psiquiátrico-criminal da primeira metade do século XX no Brasil, a bicha torna-se um parâmetro para avaliar se um indivíduo é homossexual ou não, considerando o quanto se aproxima ou se afasta daquela personagem. Tal parâmetro se estabelece pela colocação da bicha como boa cópia do modelo homossexual, caracterizado como degenerescente, criminoso e doente mental. Nesse primeiro período de constituição de um saber científico sobre homossexualidade no Brasil, a bicha é situada como um fundamento empírico de explicação, exemplar verossímil da homossexualidade universal, configuração local de um padrão global. A empiricidade da bicha é a base para a construção do saber homossexual em terras brasileiras, o meio de comprovação das teorias importadas. Estabelecida a base, a própria construção do saber, no entanto, acompanha a estrutura racional europeia sobre o homossexual. Por exemplo, o trabalho do médico Leonidio Ribeiro (1938), que tanto interessou a Fry criticar (1982a, 1982b), pode ser lido como a tentativa de caracterizar a natureza homossexual através da pesquisa sobre os corpos das bichas ou, mais precisamente, sobre sua estrutura biológica.

Posteriormente, pela lógica cultural, a antropologia subverte tal jogo. Nega-se a tese de que a bicha seja um fundamento empírico para a verdade homossexual, pela rejeição a situá-la como um eixo da matriz geral das homossexualidades. A partir daí, a bicha é tomada como antítese para desenvolver o conceito de homossexualidade, como uma particularidade que nega a universalidade do homossexual. Contudo, essa negação não implica a destruição da perspectiva universalizante ou totalizante do conceito de homossexualidade. Após a crítica relativizadora, que desloca a bicha do lugar de eixo geral para o de situação particular, sintetiza-se uma nova racionalidade homossexual, que retoma a função de base. Com Fry (1982a; Fry & MacRae, 1984), a antropologia assume a vanguarda dos estudos da homossexualidade na vertente cultural, considerando-a uma virtualidade abstrata que se concretiza em formas sociais particulares. No paradigma psiquiátrico, a totalização da homossexualidade se estabelece pela ideia de uma natureza homossexual, uma essência humana independente da cultura e da história. Por outro lado, no paradigma cultural, a homossexualidade é totalizada como plano virtual, sem essência natural, um conjunto de possibilidades que se formam em cada cultura. Em suma, nesse caso, trata-se de “uma infinita variação sobre um mesmo tema” (Fry & MacRae, 1984, p. 7), uma multiplicidade que retorna à identidade. A totalização cultural permite falar em homossexualidades, em diversas maneiras de ser homossexual, interligando-as não mais por uma natureza biológica ou psicológica, mas por um processo identitário construído transculturalmente. Essa lógica corresponde ao processo de universalização do movimento gay. Na nova abordagem do homossexual, já não se toma a bicha como fundamento concreto de uma tese abstrata. Ela torna-se a particularidade concreta que, ao mesmo tempo, nega e confirma a universalidade do homossexual. As ciências humanas e sociais, buscando romper com o paradigma naturalista, paradoxalmente prolongaram o conceito de homossexualidade. O resultado da reviravolta é a redução da bicha ao lugar do negativo, como o contrário da homossexualidade pretensamente abstrata. A bicha torna-se, sob o olhar das ciências humanas e sociais, um fragmento histórico prisioneiro de condições culturais determinadas.

Partiremos do pressuposto de que não há nenhuma verdade absoluta sobre o que é a homossexualidade e que as idéias e práticas a ele [sic] associadas são produzidas historicamente no interior de sociedades concretas e que são intimamente relacionadas com o todo destas sociedades. (Fry & MacRae, 1984, p. 10, grifo dos autores)

A totalização médica do homossexual como uma natureza é substituída pelo “todo” de cada sociedade, o que faz da homossexualidade um conjunto de formas culturais. A noção de totalidade permanece presente no pensamento científico da homossexualidade, desde a perspectiva naturalista até a culturalista. Assim como médicos e juristas das primeiras décadas do século XX, o antropólogo das últimas décadas desse século desenvolve a bicha como figura chave para entender a homossexualidade a partir da realidade brasileira. Essa chave, no entanto, muda de configuração, passando de fundamento empírico a exemplar estratégico. De modo a escapar da imagem unificada do homossexual como natureza e abordá-lo como sendo composto por uma diversidade de formas culturais, na nova perspectiva antropológica, forja-se uma série de sistemas representacionais baseados em categorizações. Assim, a bicha passa a ser definida como uma das formas culturais da homossexualidade, derivada de um dos sistemas de representação sexual que se desenvolve no Brasil. Na perspectiva antropológica, a bicha é inscrita na totalidade de um sistema cultural e explicada como definida nesse sistema. Por essa articulação da bicha em um conjunto de representações sociais, tenciona-se que seja possível compreender sua significação sociocultural, o que corresponderia à sua existência social. Esse processo sistemático de ordenamento representacional da realidade conduz a que o mundo da bicha seja interpretado como resultado de um determinado arranjo cultural. Fry (1982a) remete a bicha à cultura tradicional brasileira, a fim de situá-la em um contexto bem preciso e demarcado. Embora haja a intenção de renunciar a toda ideia de determinismo social (Fry, 1982d), é possível compreender de maneira diferente o esquema que faz a bicha depender completamente de padrões culturais? Mesmo que se argumente sobre a mudança de representações sexuais em uma dada cultura como a brasileira (Fry, 1982a), cada uma delas é explicada por uma variação da própria cultura. Portanto, do todo bem delimitado culturalmente, a bicha seria um produto, um efeito, um elemento dependente, enfim, uma representação. Seguindo esse olhar, a bicha reapresenta uma realidade que está em sua origem, numa cultura particular, o Brasil tradicional. Dessa maneira, a bicha é situada no plano das categorias classificatórias da realidade no pensamento coletivo. O raciocínio categórico, pelo qual se propõe uma definição lógica da bicha a partir da cultura a que está condicionada, é o que insere a perspectiva cultural de Fry na tradição da homossexualidade moderna, que procura compreender o homossexual como um tipo humano marcado por uma condição específica. A bicha torna-se, sob o olhar do antropólogo inglês, uma categoria classificatória, e é nessa condição que ela passa a ser hegemonicamente compreendida desde então.

Impasse paradigmático

A perspectiva representacional, no entanto, torna-se cada vez mais problemática para Peter Fry, na medida em que a personagem gay se desenvolve. Há, no pensamento de Fry, uma trama problemática que consiste em conjugar a ordem e a desordem no conhecimento e na vida. Definir, categorizar e sistematizar apresentam-se, para Fry, como condições de produção do conhecimento da realidade. A ordem resulta da produção sistemática do conhecimento, tomado como representação. Esse saber corresponde à estrutura social, abordada como constrangimento aos indivíduos. Por outro lado, a desordem se manifesta como ambiguidade e anomalia que desmontam os modelos cognitivos, e como transformação social, rompendo o ordenamento hierárquico. Nessa lógica, a rigidez das relações sociais estabelecidas remete aos códigos culturais estritamente definidos, assim como a mudança social está associada à imprecisão ou destruição das categorias. Essa política cognitiva recai no impasse que caracteriza o pensamento representacional: a ideia de que o devir é negativo, definido por sua oposição à ordem positiva, e de que o conhecimento só pode estar associado à ordem, como sua representação. O pensamento da diferença, em vez de opor ordem e desordem, compreende que há um tensionamento ou relação paradoxal entre essas condições (Deleuze, 1969/2007), que há uma regularidade própria ao devir na luta constante que caracteriza o mundo (Lucchesi, 1996) e que há uma produtividade das normas, que não podem ser definidas como impedimento ou barreira transcendente (Rodrigues, 2012). O impasse representacional em relação ao devir marca a obra de Fry referente à homossexualidade, produzindo uma série de equívocos.

Na arrumação de pressupostos epistemológicos e políticos, a perspectiva cultural precisa enfrentar a questão da natureza, efeito do pensamento representacional. Exatamente devido à oposição entre natureza e cultura, encontra-se, no avesso das formações sociais, a natureza como estado de fluidez, como impensável na lógica da representação. Dessa maneira, o social, histórico e cultural, só pode ser pensado como estagnação da realidade em sua natureza fluida. Essa concepção estática do social faz a revolução social, implicando o desmonte das estruturas vigentes, confundir-se com a própria natureza, definida como o exterior da cultura. A perspectiva revolucionária de Fry acaba por corresponder ao retorno a uma natureza ideal, baseada na igualdade, que coincidiria com a fluidificação de práticas e representações. Fry compreende o objetivo político da igualdade como mudança social rumo à desestratificação, formando uma sociedade o mais flexível possível, sem normas e categorias. A igualdade como ideal democrático das sociedades modernas torna-se também o objetivo dos movimentos homossexuais organizados. O impasse desse ideal se localiza na identificação, logicamente implícita em Fry, entre natureza e revolução. Eis o embaraço onde a antropologia cultural da homossexualidade se instala desde sua emergência. A partir daí, a revolução é compreendida como utópica, pois as sociedades não podem prescindir de sistemas normativos e categóricos. O devir tomado como negativo só pode localizar-se em lugar nenhum. “Pergunto se os sistemas de classificação dualistas não seriam o preço que pagamos pela magia da criatividade, e se é possível vislumbrar uma sociedade que repudiasse tais classificações. Acredito que não” (Fry, 1982a, p. 109). Na imprecisão dessa negativa, que não se sabe responder à primeira ou à segunda das perguntas, aloja-se a questão crucial que arruma os discursos de Fry em relação à homossexualidade.

O impasse relativo ao social como ordenamento aprofunda-se na análise dos movimentos homossexuais organizados no Brasil. Fry (1982a) assinala que é possível encontrar fortemente, entre a classe média nas grandes cidades brasileiras, a afirmação do princípio de igualdade nos movimentos homossexuais organizados que aí emergem; princípio que tenderia, no fim das contas, para uma abolição da codificação e da própria estruturação social. Nas regiões menos urbanizadas e mais pobres do país, a codificação sexual seria mais restrita, rígida e incomplexa, por oposição aos grandes centros urbanos, nos quais o código sexual estaria se tornando mais elaborado e as categorias, menos rígidas e mais fluidas. Na visão de Peter Fry, os homossexuais da classe média urbana são, portanto, mais conscientes e próximos da natureza da realidade, considerada fluida e inclassificável, do que as bichas pobres e suburbanas, que estão presas às representações definidas pela relação de dominação. Considerada alienada ideologicamente, a pobre bicha torna-se cúmplice das classes dominantes na responsabilidade pelas relações sociais desiguais, enquanto o homossexual classe média ocupa o lugar de sujeito da revolução, sob o olhar do antropólogo inglês que também se define membro dessa classe. Mas se o pensamento mais consciente do homossexual revolucionário de classe média enxerga melhor a realidade, vista como fluidez e impossibilidade de separação categórica, por que o antropólogo membro dessa classe média recorre ainda tão firmemente às categorias e classificações para pensar a realidade do homossexual? Se o pensamento avançado, que se encontraria entre a homossexualidade da classe média e seu antropólogo, persiste na utilização de categorizações, qual seria a diferença em relação às bichas pobres, que são definidas como estando atreladas às classificações sociais? “As categorias sexuais não são questionadas, mas atribuídas”, nas regiões mais pobres e menos urbanizadas do país, onde habitam as bichas, argumenta Fry (1982c, p. 81). Por sua vez, a categoria homossexual, apropriada do discurso psiquiátrico por movimentos organizados da classe média metropolitana, seria questionada, modificada e autoatribuída em uma nova significação. A bicha de Fry, portanto, é um sujeito incapaz de construir e transformar o próprio lugar social que habita, diferentemente do homossexual classe média. A possibilidade de modificar e, no limite, destruir as categorias identitárias é o que fascina Fry. A partir da crise nas primeiras organizações do movimento homossexual já no começo dos anos 1980 (MacRae, 1990; Míccolis, 1983), Fry cada vez mais rejeita a política identitária que tende a predominar no movimento homossexual organizado.

Foi por essa a razão que não me identifiquei com a militância! … O que começou como processo de libertação, acabou se tornando mais uma forma de controle. Como sou partidário de uma ideologia que dá extrema primazia à liberdade individual, nunca poderia me dar bem com essas coisas… e acabei me dando mal! … Custei a perceber que não poderia olhar o Brasil com o meu olhar inglês. (Fry, 1995, citado por Silva, 1998, p. 284).

Fry (1982a, 1982c) produziu textos fundamentais para a constituição dos estudos da homossexualidade cultural no Brasil durante os anos 1970, publicando as versões definitivas em 1982. Neles, a perspectiva de uma saída das categorizações representacionais identitárias aparece muito brevemente e é logo sufocada pela constatação de suas impossibilidades. No entanto, a partir do mesmo ano de 1982, Fry (1982e; Fry & MacRae, 1984) acirra sua posição contra a identidade e abandona o problema da homossexualidade como foco de pesquisa. Desde então, em entrevistas e breves textos sobre o assunto, ataca as políticas identitárias que dominam tanto os estudos como as organizações da diversidade sexual, por um lado, e faz apologia da ambiguidade e da fluidez culturais, por outro. A ambiguidade tão desejada manifesta-se então nos posicionamentos oscilantes do antropólogo. Ora denuncia o individualismo como ideologia dominante (Fry, 1987), ora assume-o como perspectiva libertária (Fry, 1995, citado por Silva, 1998; Fry, 2008); ora regozija-se com a potência fluídica da sexualidade nas formas específicas da cultura tradicional brasileira (Fry, 1995, 2000), ora torna a simpatizar com a homossexualidade classe média dos grandes centros urbanos (Fry, 2005, 2011); até mesmo chega, em certo ponto, a atenuar a distinção entre constituição de identidades e celebração da diversidade (Fry, 2013). A complicação dessa série de meneios está em que ela impossibilita uma reconsideração da bicha, já que a obsessão por desessencializar a homossexualidade acaba por aprofundar a ideia da bicha como uma concepção naturalizante.

Os esforços para retirar a homossexualidade da condição de natureza imutável, independente da cultura, resultaram em um rearranjo epistemológico, que relevou o lugar das culturas particulares, mas manteve a ideia de uma matriz abstrata e geral, que não pode deixar de remeter à noção de natureza. Eis o imbróglio que se tenta contornar no pensamento fryniano. Com a ajuda de seu aluno Edward, Peter (Fry & MacRae, 1984) desloca então a bicha para o lugar da natureza, confundindo-a com a presunção de uma realidade primordial, de modo a livrar o homossexual do seu fantasma naturalista. “É tido como ‘natural’ que o homossexual masculino seja ‘afeminado’ e a homossexual feminina ‘máscula’, e assim as ‘bichas’ e ‘sapatões’ do folclore brasileiro adquirem o status de uma condição que nunca é social, mas sim natural” (Fry & MacRae, 1983/1984, p. 11, grifo dos autores). Anteriormente, na versão psiquiátrica da homossexualidade, a bicha foi encarada como uma natureza a ser estudada para encontrar nela a verdade do homossexual. Mas, na versão cultural, embora a bicha continue a ser identificada com a natureza, nela não se espera encontrar a verdade universal da homossexualidade, mas o contrário disso. Assim, tenta-se retirar a ideia de natureza da posição de fundamento para a compreensão da homossexualidade, tratando-a como um efeito ideológico relativo à homossexualidade reproduzida pela estrutura social dominante. Contudo, a noção mesma de natureza não é eliminada, sendo a condição negativa para a existência de um pensamento cultural, um contraponto sem o qual a ideia de cultura não pode se desenvolver. Essa dependência entre os conceitos de natureza e cultura aparece nitidamente na distinção entre sexo e gênero (Butler, 2010). A ideia de natureza insiste em fundamentar o pensamento da homossexualidade cultural, ainda que virtualmente e negativamente. A natureza, assumida como o inimigo interior da visada cultural, é identificada à bicha e arranjada como categoria a ser combatida pelo paradigma cultural da homossexualidade. A bicha torna-se o outro do homossexual emergente na cultura brasileira, seu revés e sua inimiga interior.

O analisador bicha

A bicha é o solo fértil que possibilita o estabelecimento do discurso moderno da homossexualidade no Brasil desde a perspectiva psiquiátrica, relativamente restrita ao meio acadêmico e científico, até a perspectiva cultural, dispersa entre a classe média urbana graças aos homossexuais militantes. Deslocando-se por entre essas diferentes perspectivas, a bicha interfere nos saberes da homossexualidade. Ela funciona como um analisador, perturbando as concepções vigentes de maneira que não conseguem dela se esquivar. A bicha, por meio de Fry, coloca em análise a categoria da homossexualidade, considerada até então natural e universal. O que o antropólogo inglês recolhe desse processo analítico é a ideia de diversas formas culturais de homossexualidade, relativas a sociedades com características e funcionamentos específicos. Essa função analítica, entretanto, a bicha já exercia desde a chegada da noção de homossexualidade no Brasil, por meio de juristas e médicos envolvidos com a antropologia criminal e a medicina legal. No momento em que chega ao país, a categoria de homossexual logo se confronta com os corpos das bichas brasileiras. As estrangeiras definições da homossexualidade serão cotejadas diante dos corpos das bichas. Nesse confronto, travado na linha de disputa entre os aparelhos jurídico e médico (Fry, 1982b), as transformações corporais da bicha colocarão à prova a transformação incorporal que acontece com a chegada do discurso homossexual, e vice-versa. Experimentam-se os conceitos importados na materialidade da bicha constituída em territórios brasileiros. Desde a chegada da personagem homossexual, a bicha problematiza a totalização e a homogeneização promovidas pela noção importada, forjada nos embates do século XIX na Europa para que a sociedade aceitasse como naturais práticas demonizadas pela moral, condenadas pela legislação e patologizadas pela medicina. Os movimentos contraculturais da segunda metade do século XX, ao retomarem com novo fôlego a luta homossexual, buscam se livrar, sob inspiração das ciências humanas e sociais, da perspectiva naturalista que se encontra na concepção da homossexualidade, para afirmar a construção social do homossexual. É nessa vaga que se situa Fry, buscando desenvolver o conceito de homossexualidade numa perspectiva cultural. A bicha será crucial nesse desenvolvimento, um catalisador que acelera o processo de mutação conceitual e, sobretudo, um analisador que possibilita a fragmentação da categoria universalizante da homossexualidade natural em distintas e particulares homossexualidades históricas e culturais. Logo, o trabalho de Fry precisa retomar a bicha como eixo por meio do qual os saberes da homossexualidade podem se reorganizar.

Por que, então, a bicha é escorraçada, política e teoricamente, das formações homossexuais culturalistas, como sua opositora? O olhar antropológico matizou a noção de homossexualidade e reforçou-a ao reformulá-la, mas não pôde permitir que o analisador bicha prosseguisse com sua operação crítica, o que poderia colocar em risco a nova estruturação conceitual. Prontamente, a bicha será transferida da posição de analisadora problematizante para a de categoria essencializante durante o processo de construção do novo conceito de homossexualidade. O procedimento é simultâneo ao esforço para resguardar a noção de homossexualidade em sua proposta originária de diversificação do gênero humano sob o princípio da igualdade. Ou seja, por esse ponto, inscreve-se uma linha de continuidade entre os movimentos homossexuais naturalistas do século XIX, que argumentavam em favor da homossexualidade como inerente a alguns seres humanos e da igualdade da condição humana nos homossexuais, e os culturalistas do século XX, que defendem seu direito de existência e dignidade pela afirmação de uma identidade homossexual baseada na igualdade e na diversidade cultural. O liame que atravessa essas distintas perspectivas da homossexualidade é constituinte do modelo democrático moderno instaurado pela revolução burguesa, cujo ideário sintetiza-se como liberdade, igualdade e fraternidade. Sob o signo da democracia burguesa, o homossexual avança. Para que a base cultural da nova conceituação da homossexualidade não fosse desmontada em função da análise crítica disparada pela bicha e conservasse seu ímpeto revolucionário burguês, foi preciso conter a potência questionadora da bicha. O lugar para alojá-la, neutralizando-a, será o negativo, não-lugar ou exterior, na constituição conceitual da homossexualidade, de modo que o homossexual não se reconheça na bicha e discrimine-se de uma vez por todas dela. Em um dos primeiros debates do grupo Somos de São Paulo, considerado pioneiro na organização do movimento homossexual no Brasil (Green, 2000; MacRae, 1990), pode-se encontrar explicitamente a vontade de eliminação da bicha, considerada mero estereótipo: “Se os homossexuais tivessem os mesmos direitos que os heterossexuais, acredito que acabaria o homossexual ‘folclórico’, quero dizer, ‘a bicha louca’”, afirma Marisa nesse debate (Mantega, 1986, p. 137).

A homossexualidade, na perspectiva da natureza como na da cultura, produz-se e gira em torno do eixo revolucionário burguês com seu apelo universalista, homogeneizador e individualista. Por isso, os movimentos homossexuais culturalistas não fraternizam com as bichas, que rejeitam a individualização cidadã; não reconhecem como iguais as bichas que não se homogeneízam transculturalmente; não universalizam sua proposta de libertação até elas, pois as consideram determinadas por uma formação cultural particular. Desse ponto de vista, a bicha não pode participar da modernidade ocidental, sendo algo como um anacronismo incorporado em figuras perdidas nos trópicos. Mesmo com a demonstração de que o modelo hierárquico de relação sexual é plenamente parte do mundo ocidental (Carrara & Simões, 2007), a ideia de que está sendo superado pelo modelo igualitário gay relega a bicha à condição de retrógrada. Extemporânea e involuída, contudo, não seria a bicha produzida no seio da modernidade uma ruptura na ordem da evolução e do progresso, signo de um desvio histórico?

Referências

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Recebido: 12 de Abril de 2017; Revisado: 22 de Fevereiro de 2018; Aceito: 13 de Março de 2018

Endereço para correspondência: Rua Vicente de Carvalho, s/n, Ed. Canela, Bloco 507, Ala A, apto 403, Boa Vista II, Vila Velha, Espírito Santo, CEP 29107-358. E-mail: jesiozamboni@gmail.com

Jésio Zamboni é graduado em Psicologia, mestre em Psicologia Institucional, doutor em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pós-doutorando e professor no Programa de Pós-graduação em Psicologia Institucional da Universidade Federal do Espírito Santo, ES.” por “Jésio Zamboni é graduado em Psicologia, mestre em Psicologia Institucional, doutor em Educação e pós-doutor em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professor Adjunto no Departamento de Psicologia e Professor Permanente no Programa de Pós-graduação em Psicologia Institucional da Universidade Federal do Espírito Santo.

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