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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.30  Belo Horizonte  2018  Epub June 07, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1807-0310/2018v30167038 

Resenhas

BECKER E O SILÊNCIO SOBRE A ESCRITA NA PÓS-GRADUAÇÃO: SOLUÇÕES ANTIGAS PARA O CENÁRIO BRASILEIRO ATUAL?

BECKER AND THE SILENCE ABOUT WRITING IN GRADUATE SCHOOL: OLD SOLUTIONS TO THE CURRENT BRAZILIAN SCENARIO?

BECKER Y EL SILENCIO ACERCA DE LA ESCRITURA EN EL POSGRADO: ¿SOLUCIONES ANTIGUAS PARA EL ESCENARIO ACTUAL BRASILEÑO?

Robson Nascimento Cruz1 

1 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte/MG, Brasil

Becker, H. S.. 2015. Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos. Bottmann, D.. Kuschnir, K.. Rio de Janeiro: Zahar,

Em 2015, foi publicado no Brasil o livro Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos. Lançado há três décadas, nos Estados Unidos, com o título original Writing for Social Scientists: How to Start and Finish Your Thesis, Book, or Article (1986), o livro do sociólogo estadunidense Howard Becker é um misto de sociologia das ciências sociais, manual informal de redação acadêmica e, como o próprio autor assume, “uma espécie de terapia diletante para os desesperados por alguma ajuda” (Becker, 2015, p. 2).

A distância temporal de três décadas entre as publicações da primeira edição do livro de Becker e da sua recente tradução para o português brasileiro exige uma justificativa para necessidade da escrita desta resenha, o que faço com base no pressuposto de que o silêncio atual sobre os problemas da escrita nas Ciências Sociais e Humanas no Brasil seja tão ou mais expressivo do que aquele denunciado por Becker nas Ciências Sociais dos Estados Unidos das décadas de 1970 e 1980. A primeira prova desse silêncio é o próprio fato de que o livro de Becker somente agora tenha sido publicado no Brasil. É também sinal desse silêncio a ausência de traduções de outras conhecidas obras sobre a temática, além da própria inexistência de uma literatura nacional que ultrapasse a preocupação com os aspectos formais da produção textual acadêmica, cujo foco é quase sempre voltado para termos normatizadores (“escrita aceitável/correta” e “escrita inaceitável/incorreta”). Por outro lado, no livro de Becker o que se vislumbra é o esforço para evidenciar os limites das regras formais no ensino da escrita acadêmica, posto que parte da aprendizagem dessa habilidade resultaria de processos da aprendizagem tácita e informal. Tendência essa contínua e crescente na literatura internacional sobre o tema, nas três últimas décadas (Belcher, 2009; Pinker, 2014)

Assim, o livro de Becker aparece como possibilidade ímpar de refletir sobre as fragilidades do processo de escrita, especialmente nas ciências humanas e sociais brasileiras. Nessa perspectiva, o objetivo desta resenha é duplo: primeiro, posicionar o livro de Becker como singular esforço de interpretação dos problemas da escrita acadêmica como consequência direta da organização social das ciências humanas e sociais; segundo, expor as estratégias sugeridas por Becker para o enfrentamento das dificuldades que escritores e escritoras acadêmicos(as) sofrem para começar e finalizar seus textos. Além disso, defenderei dois argumentos. O primeiro é que a teoria da organização social da escrita na pós-graduação, tal como é desenvolvida por Becker, designa valor heurístico para interpretar o fenômeno no Brasil. Já o segundo argumento é que Becker acaba por incorrer em erro que ele mesmo visa a denunciar, a saber, pautar muitas das estratégias descritas em seu livro em sua experiência individual. Com isso, parte de suas sugestões para que pesquisadores e pesquisadoras escrevam de forma mais efetiva é limitada e, em alguns casos, incompatível com formulações amplamente aceitas, ainda nos dias de hoje, na literatura sobre o tema.

Da organização social à concretude do ofício da escrita acadêmica

No primeiro capítulo de seu livro, “’Introdução à redação’ para estudantes de pós-graduação: um caso e duas teorias”, Becker formula uma teoria da organização social da escrita derivada de sua experiência como pesquisador preocupado com fenômenos sociais cotidianos, como os da marginalização de grupos e pessoas, e de sua reconhecida redação objetiva e elegante. São essas características, segundo ele, decorrentes de sua formação em Sociologia na Universidade de Chicago sob a orientação de pesquisadores que deram centralidade ao papel da produção textual na pesquisa sociológica, como Everett Hughes, Herbert Blumer, Robert Redfield, Ervin Goffman e Charles Wright Mills. Influenciado especialmente pelo último, Becker (1986/2015, p. 8) transpõe a premissa sociológica de que os problemas pessoais são problemas da organização social para o universo da pós-graduação em Ciências Sociais nos Estados Unidos. Assim, sugere que as dificuldades da escrita acadêmica, muitas das quais vivenciadas como problemas de ordem individual por pesquisadores e pesquisadoras dos mais diferentes níveis de formação, seriam problemas da organização social da escrita no ambiente acadêmico.

Com base nesse critério, Becker inicia seu livro delatando o que considera ser um pacto de silêncio sobre práticas sociais sedimentadas, na pós-graduação, que impactam negativamente a escrita e a vida de estudantes e professores. Assim, ele discorre primeiramente sobre como hábitos naturalizados nas Ciências Sociais, tais como escrever de forma compreensível apenas para os iniciados, teriam menos a ver com a capacidade intelectual de escritores ou escritoras - e com a complexidade do fenômeno estudado - do que com a manutenção de espaços de poder e hierarquia no interior das instituições acadêmicas.

Em continuidade, no segundo capítulo de seu livro, intitulado “Persona e autoridade”, Becker observa como estudantes de pós-graduação experimentam um tipo de socialização durante a qual adquirem a crença de que escrever de maneira o mais distante possível de uma linguagem inteligível para os participantes de suas pesquisas, para o público leigo e, muitas vezes, para os próprios pares produziria uma imagem pública - uma persona - de autoridade na comunidade científica. Sobre isso, Becker recorda que muitos estudantes com quais teve contato possuíam a capacidade de escrever de forma acessível, mas supunham que, se assim o fizessem, não seriam admirados nem aceitos. E, pior do que isso, muitos estudantes acreditavam serem péssimos escritores e escritoras porque seus textos eram compreendidos por leigos e colegas de profissão.

Consequência desse cenário seria a perpetuação e, em alguns casos, a veneração da escrita rebuscada, uma vez que ser compreensível - mesmo entre os pares - diminuiria chances futuras de novos pesquisadores ou pesquisadoras serem respeitados pela elite do grupo científico do qual fazem ou tentam fazer parte. Por isso, para Becker, os estudantes “são assim, conhecem a linguagem simples, mas não querem usá-la para expressar o conhecimento que ganharam a duras penas” (p. 68). Ademais, creem que escrever de maneira clara implicaria nunca fazer algo como os líderes da pesquisa em seus campos do conhecimento e, por conseguinte, nunca ocupar posições superiores na hierarquia acadêmica. Decorrência dessa crença não declarada, mas compartilhada amplamente na pós-graduação, seria o fato de que muitos estudantes “simplesmente” se veem paralisados perante a tentativa de escrever, restando apenas o forte sentimento de que são inferiores e incapazes desse ato.

No terceiro capítulo, “A única maneira certa”, Becker introduz duas regras práticas e informais que se fazem presentes ao longo do restante do livro: escrever é reescrever, e não há uma única maneira certa de escrever, como tantos pesquisadores e pesquisadoras experientes insistem em afirmar - ou mesmo impor - a seus estudantes. Ainda no terceiro capítulo, Becker alega que a organização social da escrita produziria um efeito paradoxal no interior das Ciências Sociais, posto que, ao tratarem a escrita como resultado de regras formais e de modos restritos de proceder na redação acadêmica, aqueles que têm como ofício justamente desvendar o caráter social de fenômenos vivenciados como naturais desconsiderariam que aquilo que está no cerne de seus ofícios, escrever, resultaria de condições sociais específicas e não de habilidade individual como um dom ou inteligência superior.

A partir do quarto capítulo, “Editando de ouvido”, Becker expõe princípios informais utilizados por ele para revisar seus textos, como o esforço em diminuir o número de palavras de um texto, os perigos do uso de metáforas e a necessidade de encontrar bons modelos textuais em Ciências Sociais. Becker ainda sugere como determinados aspectos, tratados como secundários na composição da escrita acadêmica, como aqueles referentes ao estilo, estariam vinculados às consequências teóricas, éticas e metodológicas da pesquisa em Ciências Sociais. Como exemplo, ele adverte sobre os efeitos do uso da voz passiva, procedimento que, segundo Becker, é amplamente adotado de maneira irrefletida por cientistas sociais, e que reverbera, entre outras coisas, na alocação da função, ativa ou passiva, desempenhada por sujeitos e grupos investigados, questão central em qualquer pesquisa social.

Já no quinto capítulo, intitulado “Aprendendo a escrever como profissional”, Becker defende o compartilhamento de textos ainda em fase de rascunho como prática altamente efetiva. Esse princípio, alinhado com o trabalho de teóricos da composição e da psicologia da escrita (e.g.Boice, 1997, 2000), objetiva ir além do simples auxílio na revisão de conteúdo e de análises formais do texto. Ele teria, sobretudo, a finalidade de ajudar escritores e escritoras a lidar com os efeitos psicológicos de duas circunstâncias inerentes à vida acadêmica: a rejeição e a crítica.

A possibilidade de ter o texto lido e criticado por outras pessoas, segundo Becker, teria sentido diverso do tradicionalmente experimentado no ambiente da pós-graduação: um evento quase sempre traumático. Para ele, compartilhar textos ainda rascunhados amenizaria os efeitos psicológicos da crítica e da rejeição. Ademais, esse processo transformaria a escrita em algo satisfatório. Lembrando-se de sua própria trajetória, Becker defende que compartilhar seus textos, quando ainda em fase de construção, tornou-se com o tempo um jogo prazeroso, e isso talvez “tenha me imunizado contra as ansiedades de que outras pessoas falam, mas minha relativa falta de ansiedade para redigir também tinha raízes sociológicas” (p. 133).

O sexto capítulo, intitulado “Riscos”, foi escrito por Pamela Richards, uma ex-aluna de Becker. A convite de Becker, Pamela descreve as dificuldades de escrever um artigo de uma pesquisa qualitativa, sendo ela uma pesquisadora, até aquele momento, com experiência em redigir apenas textos de pesquisas quantitativas. No relato de Pamela, são notáveis os sintomas psicológicos e psicopatológicos oriundos da incidência de vários dos elementos presentes até então na análise de Becker. Nessa perspectiva, a narrativa autobiográfica de Pamela denota o entrelaçamento da organização social da ciência com a história de vida da pesquisadora e os decorrentes efeitos psicológicos experimentados por ela. Assim, seu relato de pesadelos, isolamento, solidão, medo, tristeza, ansiedade e outros sentimentos e estados emocionais é, na visão de Becker, exemplar daquilo que muitos pesquisadores e pesquisadoras experienciam cotidianamente ao tentar escrever.

Ainda sobre a narrativa de Pamela, vale notar que Becker propicia uma interpretação ainda atual sobre o tema. Mais especificamente ao incluir a narrativa de sofrimento psicológico de Pamela e de muitos de seus estudantes em relação à escrita, Becker explicita como esse tipo de relato faz parte do cotidiano acadêmico, sendo, na verdade, uma espécie de ritual compartilhado especialmente entre estudantes de pós-graduação. Como bem sugeriu um dos pareceristas desta resenha, a expressão pública desse sofrimento comporia provavelmente um dos ritos de pertença para estudantes de pós-graduação. Contudo, essa narrativa partilhada e publicizada não significa de forma alguma o desvelamento dos determinantes, especialmente os microssociais, do controle da escrita naquele ambiente e nem a ausência de sofrimento por parte daquelas pessoas. Em outros termos, falar do sofrimento da escrita não implica dissolver o silêncio sobre a estrutura que produz muitas das dificuldades de escrever na pós-graduação; haja vista que a própria organização social da pós-graduação impediria, como indica Becker,

uma consciência crítica dos elementos constituintes centrais de seu funcionamento, tais como o elitismo e os modos de hierarquização. Nesse sentido, o compartilhamento do sofrimento, tão facilmente identificável entre estudantes de pós-graduação, pouco resulta em explicações que superem o olhar psicologizante da questão.

Por último, ainda sobre o sexto capítulo, há que se considerar um aspecto cultural que o livro de Becker não poderia ter abarcado, a saber, a manutenção histórica do preconceito linguístico no Brasil. Sobre essa forma de discriminação e exclusão social, tão presente em nosso país (Bagno, 2002), é de no mínimo supor que ela se faça valer, também no âmbito da pós-graduação em ciências humanas e sociais, uma vez que o uso das normas cultas do português brasileiro é altamente necessário e exigido nesse ambiente, como parte do repertório acadêmico mínimo de estudantes e pesquisadores experientes.

No sétimo capítulo, “Soltando o texto”, Becker discute os empecilhos que pesquisadores e pesquisadoras sofrem ao tornarem públicos seus trabalhos. Além de manter sua defesa do abandono do pudor com o texto, Becker defende que assumir a escrita como um trabalho material dissolveria parte do elitismo predominante sobre tal atividade. Isso porque, ao manter a escrita como uma atividade puramente intelecual, cientistas sociais reproduziriam a divisão social clássica do trabalho em material e intelectual. Com isso, viria a ideia de que a escrita é uma atividade reservada a indivíduos naturalmente oriundos de classes dominantes, que supostamente seriam dotados de habilidades intelectuais especiais, executadas naturalmente, como a capacidade de escrever sem esforço.

No oitavo capítulo, intitulado “Apavorado com a bibliografia”, Becker avalia os usos da bibliografia também como uma prática social. De destaque nesse capítulo é a sua análise da privacidade envolvida também nos usos da literatura acadêmica. Sobre isso, Becker sugere que, ao desconhecerem o modo como pesquisadores e pesquisadoras experientes trabalham concretamente com a literatura, estudantes de pós-graduação supõem que todos, menos eles, conheçam com profundidade os clássicos e, o que é pior, imaginam que o verdadeiro escritor e escritora é aquele que só começa a escrever após obter conhecimento completo e seguro das referências sobre um determinado tema. Por causa dessa concepção, no mínimo ingênua, estudantes experimentam o constante sentimento de desconhecimento e incapacidade de saber “tudo”. Para Becker, assim como no caso do apagamento das condições materiais da produção da escrita, com frequência esse cenário implica ignorar que a imagem de saber profundo e real da literatura serve menos como uma bussóla segura para definir o que se estuda e como se estuda e mais para estabelecer a autoridade e a hierarquia no interior das instituições acadêmicas.

No nono capítulo, “Usando o computador para escrever”, Becker retoma sua preocupação em mostrar como a divisão social do trabalho afetaria a vida acadêmica, nas Ciências Sociais, sugerindo como inúmeros elementos inerentes ao trabalho de redigir um texto possuem dimensão material, tal como o ato de digitar. E, por fim, no último capítulo, “Uma palavra final”, Becker analisa as diferenças entre o momento da primeira edição do seu livro, em 1986, e o momento de sua última edição, em 2007. O tom nesse capítulo é o de pessimismo, pois, para ele, a publicação científica no campo das Ciências Sociais sofreu mudanças que são representadas, sobretudo, pelo enrijecimento das normas da comunicação científica, o que inibia variações literárias como aquelas que ele e muitos de seus colegas, professores e estudantes empreenderam de forma a criar melhores maneiras de representar diferentes fenômenos. Becker conclui, com isso, que provavemente muitos de seus trabalhos não seriam publicados na atualidade.

A relevância atual de uma teoria da organização social da escrita

Uma característica marcante no livro de Becker é a sua capacidade de evocar reminiscências em seus leitores e leitoras. Esse foi o efeito em mim, e suponho que seja o efeito em outros pesquisadores e pesquisadoras. Nesse sentido, um mérito do livro de Becker é a sua capacidade de fazer com que as narrativas de sofrimento entre estudantes de pós-graduação deixem de ser interpretadas como meros estados psicológicos em um vácuo social. Em outras palavras, o livro de Becker propricia a expansão da memória individual e coletiva ao incluir dimensões psicossocias do processo de escrita parcamente consideradas no universo da pós-graduação.

Outro predicado do livro de Becker, exposto ao longo desta resenha, é seu valor para o contexto brasileiro. Conquanto refira-se a outro momento histórico e a outro cenário social, o trabalho de Becker apresenta-se como instrumental para refletir sobre a realidade da pós-graduação brasileira, especialmente em ciências humanas e sociais. Admitir essa premissa exige considerar que as diversas disciplinas dessas duas grandes áreas do conhecimento, no Brasil, têm reproduzido e produzido formas de controle, coercitivas e silenciadas, que impactam negativamente a relação que seus praticantes estabelecem com este elemento tão central da vida acadêmica: a escrita. Evidência dessa hipótese é que, a despeito da significativa expansão da pós-graduação brasileira nas três últimas décadas (Mancebo, Araujo Vale, & Martins, 2015; Steiner, 2005), esse desenvolvimento tenha sido acompanhado de relatos de piora nas condições de trabalho de funcionários técnico-administrativos, professores, professoras e estudantes (sim, ser estudante de pós-graduação é exercer uma atividade de trabalho, às vezes sem remuneração), o que, por sua vez, tem afetado diretamente a saúde física e mental desses sujeitos.

A pressão por resultados métricos, mesmo por parte daqueles que se denominam críticos do mercantilismo científico; o excesso de competição e elitismo, instaurado já na iniciação científica; a intolerância com as divergências de posicionamentos teóricos e metodológicos, que resultam absurdamente em punições declaradas e não declaradas, mas muitas vezes injustas, no interior das instituições acadêmicas; entre outros fenômenos sociais cotidianos do úniverso científico, os quais afetam as carreiras e as vidas de pesquisadores e pesquisadoras dos mais diferentes níveis, têm gerado uma percepção na comunidade científica (Guazi & Laurenti, 2015) - e agora também pública - da pós-graduação como um ambiente insalubre de trabalho (Pinheiro-Machado, 2016).

O valor e os limites das propostas interventivas de Becker

O silêncio sobre a organização social da escrita na pós-graduação e seus efeitos nefastos na vida de estudantes, pesquisadores e pesquisadoras seriam tão significativos, e difíceis de enfrentar, que o próprio Becker acaba por reproduzir, em alguns momentos, preceitos individualistas com respeito às dificuldades enfrentadas por estudantes de pós-graduação. Tais preceitos aparecem em momentos nos quais ele se diz impressionado, por exemplo, com a incapacidade de muitos alunos e alunas em simplesmente sentar e escrever sem se preocupar com as primeiras versões de seus textos (Becker, 1986/2015, p. 169).

Ao constatar o incômodo com esse tipo de situação, Becker sugere uma série de regras derivadas da sua experiência e do trabalho de importantes nomes da psicologia da escrita e da teoria da composição, tais como Linda Flower, Mike Rose e Peter Elbow, como prováveis soluções para as dificuldades que acadêmicos e acadêmicas experimentam para iniciar e finalizar projetos textuais. As pesquisas daqueles três autores compõem duas das principais tendências teóricas e aplicadas do tratamento do bloqueio da escrita em escritores e escritoras de diferentes gêneros literários. Como representantes da primeira perspectiva, Linda Flower (1979) e Mike Rose (1983) propõem um modelo no qual as dificuldades de escrita deveriam ser tratadas por meio de estratégias preestabelecidas de resolução de problemas cognitivos, comuns entre os mais diferentes tipos de escritores e escritoras; e formas de dissolução de crenças rígidas também comuns nesse tipo de população. Já Peter Elbow (1981), um dos maiores nomes da teoria da composição, nos Estados Unidos, investigou e sistematizou, ao longo de três décadas, uma das mais antigas técnicas utilizadas para o tratamento do bloqueio da escrita: a escrita livre. Trata-se de um procedimento definido como o ato de “colocar no papel as palavras que vêm à mente e, em seguida, continuar a respeitar e colocar no papel as próximas palavras que vêm à mente” (p. 181). A escrita livre, na visão de Elbow, é “uma ferramenta particularmente apta para a construção de pontes entre a linguagem e o senso de autoria” (p. 181).

O preceito que sustenta o trabalho de Elbow (1981), e perpassa muitas das sugestões oferecidas por Becker em seu livro, é o de que editar e gerar textos são comportamentos incompatíveis. Deveriam, portanto, ocorrer separadamente, uma vez que seria impossível criar e criticar um texto ao mesmo tempo e conseguir, ainda assim, um resultado satisfatório. Para ele a escrita livre é uma estratégia que amenizaria os efeitos do controle social sobre o ato de escrever, uma vez que escrever editando, como todos nós aprendemos a fazer, significa escrever sob o julgo de uma história de punição social instaurada quando do início da alfabetização e intensificada à medida que se avança na formação acadêmica. Nesse sentido, para Elbow (1981), escrever editando é escrever com o constante senso de ameaça de que o menor dos erros incorrerá em punição. Evita-se, assim, experimentar aquilo que, na opinião de Elbow, propiciaria fluência em um texto: a permissão para escrever errado antes de escrever certo.

A defesa da escrita livre é notável no rol de estratégias apresentadas por Becker. Contudo, sua apresentação de tal procedimento ocorre de maneira generalista, ainda que Elbow tenha sido taxativo em afirmar que há inúmeras variações da técnica, que deve ser aplicada em função de critérios bastante específicos, tais como o perfil do autor ou da autora e a dificuldade enfrentada pelos mesmos. Assim, a regra tão recorrente no livro de Becker de sentar e escrever sem se preocupar com a primeira versão é apenas parcialmente válida, uma vez que há um espectro considerável de modos de uso da escrita livre em função das dificuldades individuais de escritores e escritoras, sendo desaconselhável em algumas situações, posto que intensificaria os sintomas de determinados distúrbios da escrita (Pennebaker, 1997).

Outro fator indicativo das limitações de algumas das soluções sugeridas por Becker refere-se à ausência de referência, em seu livro, de outros nomes da literatura sobre o tema, como o psicólogo Robert Boice, principal nome da pesquisa psicológica sobre as dificuldades da escrita acadêmica. Boice mostra-se relevante dentro do debate proposto por Becker porque, embora tenha reconhecido o valor de autores como Linda Flower e Peter Elbow, criticou esses pesquisadores por reforçarem a concepção essencialista da escrita como uma habilidade que independeria do ambiente físico e social e calcarem suas explicações em estruturas mentais, cognitivas e preceitos mentalistas do senso comum, como força de vontade e desejo. Ademais, a perspectiva teórica e aplicada de Boice é a que mais se aproxima da posição defendida por Becker porque é crítica das explicações individualistas do comportamento de escrita; com a diferença que se apresenta como mais sofisticada e desenvolvida, uma vez que o autor se baseia em sua extensa experiência de atendimentos clínicos de escritores e escritoras e na realização de pesquisas experimentais e aplicadas na área.

Por isso, o trabalho de Boice acaba por expor outras limitações de regras apregoadas por Becker como efetivas para a redação acadêmica. Por exemplo, quando Becker discute um dos maiores obstáculos enfrentados por escritores e escritoras, a saber a alocação do tempo para escrever, afirma que não se dedicava diariamente à escrita e que as primeiras versões de seus textos eram produzidas por meio de sessões de oito horas de escrita, ou mais, em um único dia. Com isso, Becker descreve e prescreve como lidar com um problema, estando fundamentado principalmente em sua experiência pessoal no ambiente da Universidade de Chicago, onde experimentou condições propícias para se tornar um profícuo escritor. Porém, bem diferente disso é a conclusão dos estudos de Boice (1997, 2000), que indica que escrever por longos períodos de tempo seria uma das mais nocivas práticas compartilhadas entre escritores e escritoras.

Para Boice (1997, p. 435), “aqueles que escrevem em sessões regulares, sem muita emoção, gostam mais do que escrevem, completam mais páginas, sentem-se menos deprimidos e mais criativos do que aqueles autores que escrevem de forma emocionalmente carregada”. Essa afirmação, fundamentada em três décadas de pesquisas, se tornou em um dos poucos consensos na difusa e controversa literatura sobre o bloqueio da escrita acadêmica (Belcher, 2009; Skinner, 1981; Sullivan, 2013). O preceito comportamental que explica a ineficácia da prática de escrever por longos períodos de tempo, tão adotada no cotidiano acadêmico, é o de que, ao condicionar o término da redação à fadiga, ao excesso de autocritica, à ausência de ideias e a outros estados psicológicos e corporais desagradáveis, o comportamento de escrever em si adquire função negativa. Assim, o simples ato de pensar em começar a escrever evoca emoções, pensamentos e sentimentos negativos que diminuem substancialmente a probabilidade de emitir aquele comportamento. Por isso, é tão comum que estudantes de pós-graduação, um público adepto da escrita por grandes períodos de tempo em um espaço limitado de dias, após finalizarem suas dissertações ou teses, demorem às vezes meses, anos ou até mesmo nunca mais retomem seus textos por sentirem elevados níveis de mal-estar psicológico com a simples lembrança daqueles trabalhos.

Ainda sobre isso, vale dizer que um aspecto ausente no livro de Becker, talvez devido à sua formação sociológica, diz respeito às dificuldades de escrita relacionadas com a alta taxa de psicopatologias na população acadêmica. As relações entre as psicopatologias, tais como o transtorno de ansiedade e a depressão, e os problemas de escrita evidenciam os limites das propostas interventivas baseadas apenas na consciência das causas sociais e prescrição de regras para lidar com as dificuldades de começar e finalizar projetos escritos. Como a literatura tem sugerido, inúmeros são os casos que necessitam de intervenções sistematizadas, por meio de atendimentos psicológicos individuais e, às vezes, psiquiátricos (Ver Chapell et al., 2005; e Eisenberg et al., 2007).

Uma triste palavra final

Por fim, vale lembrar que a história das ciências humanas e sociais é repleta de exemplos de como a repercussão de determinadas obras se deve à qualidade literária dos escritos de seus autores e autoras. Levi-Strauss (Wilcken, 2011), Freud (Gay, 1989), Gilberto Freyre (Pallares-Burke, 2005) e Hannah Arendt (Adler, 2007) são exemplos dessa relação quase inevitável entre escrita e impacto acadêmico e cultural de um pensamento. No entanto, o que talvez seja menos óbvio é que todos esses nomes, para dizer só de alguns, escreveram seus mais importantes livros, total ou parcialmente, fora das instituições acadêmicas ou com parco controle social dessas mesmas instituições sobre suas produções e vidas. Mas bem diferente disso parece ser o ambiente atual da pós-graduação, no qual predominam práticas de controle que impossibilitam cada vez mais o prazer da escrita, tão necessário para a criatividade literária. Condição que nos leva a ter consciência de uma contradição no mínimo estranha: quanto mais a organização da pós-graduação se expande e, supostamente, se desenvolve - como sempre ouvimos na divulgação dos resultados de relatórios de avaliação -, mais difícil torna-se escrever estando dentro dela. Essa é uma afirmação que não se encontra no livro de Becker, mas que dele fácil e tristemente extraímos.

Agência de fomento

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo [FAPESP] - Processo 15/00514-0.

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Recebido: 25 de Julho de 2016; Revisado: 06 de Dezembro de 2016; Aceito: 07 de Fevereiro de 2017

Endereço para correspondência: Departamento de Psicologia. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, sala 4080. UFMG. Av. Antônio Carlos, 6.627, Campus Pampulha. Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: robsoncruz78@yahoo.com.br

Robson Nascimento Cruz possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2005), especialização em História da Ciência pela Universidade Federal de Minas Gerais (2006), mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008), doutorado em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e estágio pós-doutoral na Universidade Federal de São João Del-Rei (2015) e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2015-2017).

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