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Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.7 no.4 São José do Rio Preto Oct./Dec. 1992

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76381992000400009 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Autotransfusão intra-operatória em cirurgia cardíaca: estudo comparativo de 140 casos

 

Intraoperative autotransfusion in heart surgery: comparative study of 140 cases

 

 

Sérgio Domingos VieiraI; Marielza dos SantosI; Thucydides RosalesI; Luiz Carlos Bento de SouzaI; Jarbas J. DinkhuysenI; Paulo ChaccurI; Camilo Abdulmassih Neto; Ricardo PavanelloI; Adib D. JateneI

IDo Hospital do Coração

Endereço para separatas

 

 


RESUMO

Utilizando-se programa dirigido para diminuição ou eliminação do uso de sangue homólogo, em pacientes cirúrgicos graves, foi realizado um estudo comparativo entre 14 0 casos. Os pacientes foram divididos em 2 grupos de 70 casos cada, onde o Grupo A representava aqueles submetidos a cirurgia cardíaca com o uso de recuperadores celulares automatizados de sangue cell-saver, no Grupo B, os pacientes que não utilizaram cell-saver durante o ato cirúrgico (Grupo controle). A maioria era de reoperações: 71,1 % no Grupo A e 74,2 % no Grupo B, observando-se, ainda, semelhança entre os respectivos grupos em relação a: idade, distribuição por sexo, tipo de operação, condições clínicas e aspectos laboratoriais pré-operatórios (coagulograma; eritrograma; série bioquímica). No Grupo A a utilização média de sangue homólogo, durante o ato cirúrgico, foi de 628 ml, e 479 ml no pós-operatório imediato. Já no Grupo B o uso de sangue homólogo foi de 1.271 ml e 1.095 ml, respectivamente. A perda sangüínea média na sala cirúrgica do Grupo A foi de 380 ml, enquanto que a do Grupo B foi de 89 9 ml. O número de pacientes do Grupo A que não necessitou de sangue homólogo durante o período de internação foi o dobro (5,7%) em relação ao Grupo B (2,8%). A maioria dos pacientes do Grupo A (51,4%) utilizou no máximo 2 unidades de sangue homólogo, enquanto que a maioria dos paciientes do Grupo B (78,6%) utilizou entre 3 ou mais de 5 unidades de sangue homólogo. O estudo mostra, portanto, que a utilização da autotransfusão intra-operatória (ATI) através de processadores celulares automatizados (cell-saver) em cirurgia cardíaca é um procedimento seguro e eficaz, reduzindo em aproximadamente 50 % a utilização de sangue homólogo, com as possíveis reações transfusionais e, principalmente, o risco da transmissão de doenças infecto-contagiosas.

Descritores: sangue, autotransfusão, cirurgia cardíaca.


ABSTRACT

An intraoperative autotransfusion was planned in order to decrease or to avoid transfusion of blood in severe surgical cases. It was done a comparative study in 14 0 heart surgeries; 70 cases (Group A) were submitted to heart surgery making use of Cell-Saver and 70 without the use of it. The majority of the cases have had a previous surgery; 77.1 % of the cases in Group A and 74.2 % in Group B. Besides this similarity other likeness included age, sex, kind of surgery, clinical conditions and laboratory data concerning coagulation, erythrocyte count and blood biochemistry. The averaged homologous blood volume intraoperative transfused was 628 ml in Group A and 1271 ml in Group B, but it was 479 ml in Group A and 1095 ml in Group B after surgery. The intraoperative blood lost was 38 0 ml in Group B. During the hospitalization time the percentage of cases that did not receive blood was 5.7 % in Group A and 2,8 % in Group B. The average amount of units transfused was 2 in Group A and 3 ro 5 or higher in Group B. The study pointed out that intraoperative autologous transfusion using Cell Saver is a safety and efficient procedure. The transfusion of homologous blood decreased in 50 % as well as the risk of infection disease to be transmited.

Descriptors: blood, autotransfusion in heart surgery.


 

 

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

 

 

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Endereço para separatas:
Sérgio Domingos Vieira
Rua Desembargador Eliseu Guilherme, 123
04004 São Paulo, SP, Brasil

 

 

Trabalho realizado no Hospital do Coração da Associação do Sanatório Sírio. São Paulo, SP, Brasil.
Apresentado ao 19º Congresso Nacional de Cirurgia Cardíaca. São Paulo, SP, 7 a 9 de maio, 1992.

 

 

Discussão

DR. OTONI MOREIRA GOMES
Belo Horizonte, MG

Em nome do Serviço do Coração do Hospital São Francisco de Assis de Belo Horizonte, agradecemos à Comissão Organizadora do Congresso o privilégio desta participação, enaltecemos a grande importância prática da experiência relatada e parabenizamos a Equipe de Cirurgia Cardíaca do Hospital do Coração de São Paulo, pela excelência dos resultados obtidos no tratamento de patologias de alto risco, como se depreende da casuística estudada. Nossa interpretação do presente trabalho oferece oportunidade para uma discussão muito prdutiva. Entendemos que não existe homogeneidade que permita comparação fidedigna entre os dois grupos, o que é quase impossível no âmbito clínico, porque o fato de dois pacientes de mesmo sexo e idade serem reoperados não os torna semelhantes quanto à possibilidade de sangramento. A hemorragia nas reoperações depende da localização, intensidade e extensão das aderências teciduais e da habilidade e tática de cada cirugião em desfazêlas. A análise numérica da casuística favorece a conclusão de que no grupo controle foram mais freqüentes as cirurgias potencialmente mais hemorrágicas. Também existe uma descrição de casos operados sem circulação extracorpórea e que, não sendo definidos quanto ao grupo alocado, parecem estar no Grupo A, ou seja, de autotransfusáo. A Tabela 3 mostra que no grupo de autotransfusão o volume aspirado no campo variou de 50 a 4.473 ml, com média de 513 ml. Não existe referência à intensidade de sangramento do grupo controle e, ademais, um desvio padrão com valores diferenciando da média em até 8 vezes (800%) é impróprio para qualquer consideração estatística. Outro fator que distancia da homogeneidade os dois grupos considerados é o período de estudo: todos os pacientes do Grupo A (autotransfusáo) foram operados entre abril e outubro de 1991, ou seja, num interlúdio de sete meses, compatível com a atuação praticamente de uma mesma equipe. Já os pacientes do grupo controle (B) foram operados entre novembro de 1988 e dezembro de 1991, ou seja, num espaço de três anos, e todos sabemos o que acontece com a estabilidade da cirurgia a cada nova safra de residentes no campo operatório. Se fosse possível uma conclusão científica, ela seria exatamente o oposto daquela descrita. Os números provam que a recuperação celular cell-saver prejudicou significantemente a hemostasia dos pacientes, tendo evoluído muito melhor o grupo controle, no qual foi, inclusive, menor a mortalidade. Uma revisão atenciosa da Tabela 4 confirma nosso entendimento, pois observamos que os pacientes com autotransfusáo de sangue lavado necessitam cinco vezes mais de transfusão de plaquetes e criofatores do que o grupo controle. Sabemos, ainda, que o risco de contaminação, sensibilização e embolia na transfusão de concentrados de plaquetas não é menor do que na do sangue homólogo. Dr. Vieira, não podemos deixar de lamentar o fato de que, em toda sua bibliografia, não conste nenhum dos excelentes trabalhos brasileiros sobre autotransfusão em cirurgia cardíaca, alguns com recursos originais e importante contribuição tecnológica. Finalizando, gostaríamos de ressaltar o fato de que, apesar de todo empenho para evitar a transfusão de sangue, ela foi necessária em 95% dos casos, o que contra-indica formalmente cirurgia de reoperação cardíaca em pacientes Testemunhas de Jeová. O senhor já vivencicou alguma vez este problema? Muito obrigado.

 

 

 

 

DR. VIEIRA
(Encerrando)

Os estudos comparativos, utilizados em trabalhos científicos, consistem numa técnica utilizada mundialmente há várias décadas, justificando, portanto, a realização do trabalho, visto que os grupos em questão são extremamente semelhantes entre si. A introdução dessa técnica no Hospital do Coração, a partir de abril de 1991, se orientou na experiência de outros Serviços, e de vasta literatura científica, pois, na América, esse mesmo procedimento já é realizado há 19 anos, com excelentes benefícios aos pacientes. Por isso, desde então, todos os pacientes graves, ou seja, aqueles que poderiam se beneficiar desse procedimento, foram incluídos nesse programa, não havendo, portanto, preocupação quanto à mesma periodicidade de estudo entre os grupos e muito menos à "nova safra de residentes" no campo operatório, pois é inadmissível pensar que, a cada nova safra de residentes, haja um prejuízo ao Serviço e, principalmente, aos pacientes. Conforme podemos observar na Tabela 6, a maioria dos pacientes que utilizaram a cell-saver (51,4%) necessitaram no máximo de 2 unidades de sangue e/ou derivados homólogos (sendo incluídos aqui, plaquetas, crioprecipitado etc), enquanto que a maioria dos pacientes do Grupo controle (78,6%) utilizou entre 3 a 5 unidades, comprovando que essa técnica é um procedimento seguro e eficaz na redução do uso de sangue homólogo, e recomendada pelos pacientes Testemunhas de Jeová.

 

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