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Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol. 13 n. 1 São Paulo Jan./Mar. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76381998000100001 

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Editorial

Nosso adeus ao Décio Kormann

 

        A SBCCV está enlutada pela perda do nosso Décio Kormann. Foram 6 anos de luta contra     um mal insidioso, que, se conseguiu levá-lo, não foi sem uma luta titânica para escapar de suas      garras.

Décio, com lucidez e objetividade impressionantes, enfrentou a doença e buscou todos os recursos disponíveis, com uma perseverança e uma coragem que deixaram a todos os seus amigos a imagem do lutador incansável que ele sempre foi.

Recebi o Décio como meu residente em 1965. Estava nesse ano, trabalhando no então Instituto de Cardiologia do Estado, hoje Dante Pazzanese, na busca do marcapasso artificial implantável, entre outras contribuições na área de tecnologia.

Buscávamos no mercado local, onde as resistências, diodos e demais componentes, nem sempre confiáveis, eram de difícil obtenção. Conseguí-los por importação — à época muito difícil — com especificação militar, ao lado de baterias de mercúrio foi etapa vencida, graças ao então Fundo de Pesquisas do ICESP. Construir equipamentos para soldar o conjunto de baterias, fazer os moldes para vazar a resina que os englobasse, construir eletrodos em espiral com conexão para ligá-los ao gerador e com extremidades para implante intratorácico e endovenoso foram etapas vencidas com a ajuda, sempre presente, do jovem residente, com quem ficávamos horas intermináveis no aprimoramento desta tecnologia.

Finalmente, para orgulho nosso, implantamos o primeiro marcapasso inteiramente desenvolvido e produzido no Instituto.

Conseguimos com o Governador Abreu Sodré, e por interferência de Dante Pazzanese, empréstimo para o Fundo de Pesquisas, suficiente para produzir 200 marcapassos, dos quais metade usados gratuitamente nos pacientes do Instituto e os demais, vendidos para cobrir os custos.

No período estipulado, para espanto do Governador e do Presidente do Banespa, cumprimos o que fora proposto. Usamos os aparelhos e pagamos o empréstimo.

Este, que considero um dos grandes feitos do Instituto e que, sem dúvida, contribui para o prestígio de que hoje desfruta, talvez não fora possível não tivesse eu o precioso colaborador que era o Décio Kormann.

A partir daí, entreguei-lhe o setor. O que ele fez, as contribuições que apresentou, os discípulos que formou, o reconhecimento internacional que conquistou, toda a família cardiológica conhece.

Membro do Conselho Editorial das revistas mais renomadas da especialidade, participou da elite internacional que comandava a área. Décio era figura cuja proeminência profissional convivia com a modéstia dos que efetivamente têm grandeza.

Todos os exemplos de coragem, de otimismo, de decisão, de criatividade na sua atividade profissional foram superados pelas lições — destes e outros atributos — que nos deixou quando atingido pela doença.

Foi comovente, e fez seus amigos várias vezes chegar às lágrimas, a forma corajosa, altaneira, serena, com que reagiu ao infortúnio, que ele sabia grave desde o início.

Décio lutou contra a doença como lutou na profissão. Luta sem trégua, com emocionante honestidade intelectual, com o apoio extraordinário de sua família e dos seus amigos.

Perdeu. Nos deixou materialmente, mas, com certeza, inscreveu seu nome no coração de todos nós, pelos exemplos que nos deu, pela forma como reagiu, pela maneira como lutou. Fica em todos nós um vazio com sua ausência, mas também a chama do seu entusiasmo, que nos servirá de norte diante do infortúnio.

Feliz daqueles que podem ter uma vida plena de realizações e deixar, no momento da morte, o exemplo de coragem e de fé que nos deixou Décio. Todos nós, seus amigos, choramos sua perda e nos orgulhamos de termos convivido com pessoa humana tão preciosa.

 

Descanse em paz!

 

 

Adib D. Jatene