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Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

Print version ISSN 0102-7638On-line version ISSN 1678-9741

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.19 no.3 São José do Rio Preto JUly/Sept. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382004000300006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação de nova técnica de hemoconcentração e da necessidade de transfusão de hemoderivados em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea

 

 

Dulcimar Donizete de Souza; Domingo Marcolino Braile

Hospital de Base da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar uma nova técnica de hemoconcentração e a necessidade de transfusão de hemoderivados.
MÉTODO: Foram estudados 140 indivíduos adultos submetidos à cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea (CEC), sendo 86 (61,4%) do sexo masculino e 54 (38,6%) do feminino, divididos em dois grupos de acordo com a utilização ou não de uma nova técnica com hemoconcentrador. O grupo A (sem hemoconcentrador) incluiu 70 pacientes e o B (com hemoconcentrador) 70 indivíduos.
RESULTADOS: Esta técnica de hemoconcentração mostrou-se factível, não acrescentando complicações intra e pós-operatórias para o paciente. Utilizou-se menor quantidade de sangue e de plasma durante e após CEC, nos indivíduos do grupo B. Também o balanço de líquidos, após CEC, neste grupo, foi menor quando comparado ao grupo A.
CONCLUSÕES: Concluiu-se que a nova técnica de hemoconcentração foi eficaz na remoção de líquidos, permitiu maior aproveitamento do sangue remanescente no oxigenador e reduziu o uso de hemoderivados durante e pós-CEC.

Descritores: Hemofiltração, métodos. Procedimentos cirúrgicos cardíacos. Circulação extracorpórea, métodos. Transfusão de sangue autóloga, métodos.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde a primeira operação com suporte circulatório extracorpóreo realizada por GIBBON, em 1953 [1], o desenvolvimento da circulação extracorpórea (CEC) foi bastante rápido. Atualmente, a CEC não somente substitui as funções cardiopulmonares, mas busca manter a integridade celular, a estrutura, a função e o metabolismo dos órgãos e sistemas do indivíduo, permitindo operações mais complexas e prolongadas [2].

Nas primeiras tentativas de uso clínico da CEC, admitiu-se que a conduta mais fisiológica seria o preenchimento da máquina coração-pulmão com sangue fresco [1]. Demanda para uso desse sangue gerava sobrecarga aos bancos de sangue e natural limitação ao número de procedimentos [2]. Uma alternativa foi a utilização de sangue preservado em solução de citrato, sem inconvenientes em relação ao sangue fresco heparinizado [3] Entretanto, pacientes operados com o uso de sangue homólogo, fresco ou citratado, apresentavam quadro complexo logo no início da perfusão, caracterizado por hipotensão arterial e queda do retorno venoso. Outras complicações relativas ao uso de sangue homólogo incluíam hemólise, desnaturação de proteínas e hepatite, freqüentemente com graves seqüelas [2].

Visando reduzir a necessidade de sangue, PANICO e NEPTUNE [4], em 1959, desenvolveram oxigenador no qual uma parte do perfusato era soro fisiológico. Esse sistema possibilitou a realização de muitos trabalhos experimentais e clínicos, resultando no conceito da hemodiluição. MORAIS et al. [5] foram pioneiros ao introduzir, em 1960, a hemodiluição pela utilização de plasma no oxigenador em substituição ao sangue, havendo melhora da oxigenação obtida durante a perfusão.

Por outro lado, um ganho hídrico excessivo pode resultar em complicações e levar a necessidade de utilização de técnicas de hemofiltração. Se a hemodiluição não for realizada criteriosamente pode reduzir os níveis da hemoglobina, diminuindo o transporte e a oferta de oxigênio para os tecidos, podendo ocorrer hipóxia, apesar de pO2 elevada no sangue arterial.

WALPOTH et al. [7] avaliaram a qualidade do sangue hemoconcentrado de 11 pacientes submetidos à cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea e hemofiltração e compararam com outros 11 pacientes (grupo controle) submetidos à cirurgia cardíaca com CEC sem hemofiltração. Constataram que a hemofiltração durante a CEC é um método seguro e eficaz para remoção de água e para concentração de hemácias e proteínas sem efeitos adversos sobre a hemodinâmica dos pacientes, qualidade do sangue e necessidade de volume.

Na última década, a hemoconcentração em cirurgias cardíacas com CEC tem sido muito estudada. As principais vantagens incluem filtração dos mediadores da reação inflamatória generalizada [8], diminuição da quantidade de endotoxinas circulantes [9], remoção do excesso de água corpórea e da hipertensão pulmonar [10].

No Brasil os primeiros trabalhos sobre hemofiltração durante CEC foram experimentais [11], com aplicação clínica posterior [12]. A técnica de hemofiltração foi aperfeiçoada e, posteriormente, modificada pela equipe do Dr. Elliott, que mudou a posição do hemofiltro no circuito de CEC e o momento do seu uso [13].

Atualmente, existem dois métodos de hemoconcentração: convencional e modificado. No convencional, o hemoconcentrador é instalado no circuito da CEC usualmente na linha de recirculação do oxigenador ou por meio de outra bomba para hemoconcentrar durante CEC [12]. No método modificado, a hemoconcentração é feita por meio de bomba, aspirando-se o sangue da aorta, passando pelo hemoconcentrador e injetando-se no átrio direito após CEC [13].

Diante da escassa literatura nacional existente, justifica-se o interesse em avaliar nova técnica de hemoconcentração em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea, que inclui a hemoconcentração efetuada em dois momentos, durante CEC com a velocidade de filtração dependente do hematócrito e do volume de sangue no reservatório venoso e antes da infusão do volume residual (sangue arterial e venoso) do oxigenador no paciente, visando reduzir a necessidade de transfusão de sangue e hemoderivados no pós-operatório.

Os objetivos deste trabalho foram avaliar uma nova técnica de hemoconcentração durante cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea com ou sem hemoconcentrador e a necessidade de transfusão de hemoderivados nos pacientes.

 

MÉTODO

Foram estudados 140 pacientes adultos submetidos à cirurgia cardíaca com CEC, sendo 86 (61,4%) do sexo masculino e 54 (38,6%) do feminino, com idade entre 21 e 82 anos, 55,1 ± 14,3 anos para 70 pacientes do grupo A (sem hemoconcentrador) e 16 e 74 anos, 54,8 ± 13,6 anos para 70 pacientes do grupo B (com hemoconcentrador); superfície corpórea entre 1,38 e 2,25 m2, 1,74 ± 0,16 m2 para pacientes do grupo A e 1,36 e 2 m2, 1,71 ± 0,17 m2 para pacientes do grupo B, sem distinção de grupo étnico. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

Todos os pacientes foram atendidos no Serviço de Cirurgia Cardíaca do Hospital de Base (HB) de São José do Rio Preto, SP, no período de 1999 a 2001.

Durante a operação, na substituição das funções cardiopulmonares utilizou-se bomba de CEC modelo BEC 2000 composta de quatro módulos (arterial, cardioplegia e dois aspiradores) e oxigenadores de membrana adulto ou pediátrico (Braile Biomédica, São José do Rio Preto, SP) de acordo com peso do paciente.

Para aplicação da nova técnica, o hemoconcentrador foi montado na linha de recirculação com derivação em "Y" para o sistema de cardiomicroplegia, sendo colocados derivação de 1/8" (da saída de coleta venosa até antes do rolete da cardioplegia) e tubo de 1/4" (da saída da cardiomicroplegia até a entrada do hemoconcentrador por meio de "Y" 1/4" x 1/4" x 1/4") - Figura 1.

 

 

O volume do preenchimento do circuito extracorpóreo variou de 1650 a 2000 ml, sendo constituído de ringer lactato (q.s.p.), manitol 20% (1 g/kg) e quantidade de concentrado globular determinada pelo cálculo da hemodiluição segundo KIRKLIN e BARRATT-BOYES [14]. Adicionou-se também 15.000 UI de heparina e bicarbonato de sódio 8,4% calculado empiricamente conforme a equação 1,5.EB.Vol / 1200, sendo EB = excesso de base e Vol = volume do perfusato.

Após heparinização do paciente com 2 mg/kg, o tempo de coagulação ativado (TCA) foi mensurado administrando-se heparina adicional até que o TCA estivesse acima de 480 s, conforme protocolo de BULL et al. [15]. Para conectar o paciente ao circuito extracorpóreo foram canuladas a aorta ascendente e as veias cavas superior e inferior.

A CEC foi conduzida com fluxo entre 2,4 e 2,6 l/min/m2 em isotermia com temperaturas entre 32 e 34 ºC, utilizando no perfusato a quantidade de sangue necessária obtida por meio do cálculo da hemodiluição total e parcial. Durante a CEC, a taxa de hematócrito foi mantida entre 25 e 30%. A resistência vascular sistêmica foi mantida entre 900 e 1200 dinas.s.cm-5. Quando a RVS estava abaixo de 900 dinas.s.cm-5, foi administrada por via endovenosa noradrenalina (0,01 a 0,1 µg/kg/min) e quando acima de 1200 dinas.s.cm-5, drogas anestésicas (midalozam 0,1 a 0,2 mg/kg, sufentanil 0,5 a 1,0 µg/kg) ou nitroprussiato de sódio (1 a 8 µg/kg/min).

Para otimização do uso da hemoconcentração, calculou-se a velocidade de hemofiltração, determinada pela pressão transmembrana, conforme a seguinte equação: PTM = (Pe + Ps) / 2 + PV, sendo PTM = Pressão transmembrana (mmHg), Pe = Pressão na entrada do hemoconcentrador (mmHg), Ps = Pressão na saída do hemoconcentrador (mmHg) e PV = Valor absoluto da sucção utilizada na saída do filtrado (mmHg). Pressões entre 150 e 230 mmHg correspondem de 10 a 15 ml/min de volume filtrado e entre 350 e 450 mmHg de 40 a 75 ml/min.

Os pacientes foram divididos em dois grupos. O Grupo A foi constituído de 70 indivíduos, cuja manutenção do hematócrito durante a CEC foi efetuada somente pela infusão de sangue e soluções cristalóides. O Grupo B também foi constituído de 70 pacientes, sendo que a manutenção do hematócrito foi feita pela eventual infusão de sangue e soluções cristalóides, mas principalmente pelo uso de hemoconcentração com utilização de hemoconcentrador.

O cálculo da hemodiluição total e parcial nos pacientes do grupo A foi efetuado conforme KIRKLIN e BARRATT-BOYES [14], considerando-se 28% a taxa de hematócrito.

No grupo A, a infusão do volume remanescente na câmara arterial do oxigenador foi realizada invertendo-se o tubo arterial, aspirando-se o volume dos tubos e câmara arterial para o reservatório venoso e infundindo na veia safena por meio da derivação do reservatório venoso para o sistema de cardiomicroplegia.

Nos pacientes do grupo B, considerou-se 25% a taxa de hematócrito, contando com a segurança do hemoconcentrador.

No grupo B, a nova técnica foi aplicada após o início de CEC, de acordo com os seguintes critérios:

1 - Quando o hematócrito encontrava-se entre 25 e 30% e o volume no reservatório venoso do oxigenador acima do nível de segurança, conforme especificação técnica do fabricante (Braile Biomédica), iniciou-se a hemoconcentração (Figura 2) no período de aquecimento com fluxo de filtração entre 10 e 15 ml/min determinado por meio de pressão transmembrana entre 150 e 230 mmHg;

 

 

2 - Quando o hematócrito era menor que 25% e o volume no oxigenador abaixo de 800 ml até o nível de segurança especificado pelo fabricante do oxigenador, efetuou-se infusão imediata de 300 a 400 ml de concentrado globular e, em seguida, coletada outra amostra de sangue para exame. Havendo correção do hematócrito, iniciou-se a hemoconcentração no período de aquecimento com fluxo de filtração entre 10 e 15 ml/min determinado por pressão transmembrana entre 150 e 230 mmHg;

3 - Quando o hematócrito encontrava-se menor que 25% e volume no oxigenador acima de 800 ml, iniciou-se a hemoconcentração antes do período de aquecimento com fluxo de filtração entre 45 e 70 ml/min determinado por meio de pressão transmembrana entre 350 e 450 mmHg até que o Ht ultrapassasse 25%, e a partir daí reduzindo o fluxo de filtração para 10 a 15 ml/min e a pressão transmembrana para 150 a 230 mmHg com reposição de solução cristalóide (ringer lactato 500 ml) e sulfato de magnésio (10 ml) com fluxo de filtração entre 10 e 15 ml/min para manter o nível de segurança do reservatório venoso do oxigenador, conforme especificação técnica do produto e para evitar hipovolemia no final da perfusão;

4 - Quando o hematócrito encontrava-se acima de 30%, visando evitar hemólise houve infusão imediata de solução cristalóide com fluxo de filtração entre 10 e 15 ml/min, independente do volume no oxigenador, até que o hematócrito permanecesse entre 25 e 30%, iniciando-se a hemoconcentração somente no período de aquecimento.

A saída da CEC foi efetuada reduzindo-se progressivamente o fluxo arterial e ajustando-se a volemia do paciente, tendo como parâmetros a normalização dos dados hemodinâmicos. A infusão do volume residual do reservatório venoso no paciente seguiu os mesmos parâmetros acima mencionados.

Após a retirada da cânula arterial, aplicou-se técnica desenvolvida pelo Serviço para recuperação e hemoconcentração do sangue residual do circuito (Figuras 3 e 4). Por esta técnica, o sangue residual da câmara arterial do oxigenador de membrana foi totalmente aspirado para o reservatório venoso com a inversão da linha arterial e, em seguida, hemoconcentrado, com auxílio do módulo de cardioplegia até a remoção de 30 a 40% de líquido. Este sangue concentrado foi reinfundido na veia safena do paciente com vazão entre 100 e 150 ml/min, utilizando-se o módulo de cardioplegia, controlado pelo valor obtido da pressão do átrio esquerdo em cm de água por meio de cateter introduzido nessa cavidade, normalmente variando de 10 a 15 cm.

 

 

 

 

A administração de protamina calculada na proporção 1:1 foi iniciada antes da infusão dos últimos 300 ml do concentrado do volume remanescente da câmara arterial do oxigenador. Na UTI foi administrado mais 1/3 da dose calculada, a qual foi infundida durante 4 horas.

Estudo Estatístico

A comparação entre essas variáveis dos Grupos A e B foi efetuada por meio do teste "t" de Student não pareado bicaudal, com correção de Welch quando havia diferença estatisticamente significativa entre os desvios padrão. O nível de significância considerado foi p £ 0,05. A necessidade de transfusão de sangue foi analisada comparando-se os pacientes dos grupos A e B que não receberam sangue e entre aqueles que receberam sangue durante CEC, após saída de CEC, no pós-operatório imediato e 24 horas após procedimento cirúrgico. Nessas comparações utilizou-se teste exato de Fisher. Todos os cálculos e análises foram efetuadas por meio do programa GraphPad Instat versão 3.00 (GraphPad Software, San Diego, Califórnia, Estados Unidos).

 

RESULTADOS

Os valores das taxas de hematócrito inicial, durante a CEC, e final entre os grupos A e B não apresentaram diferença estatisticamente significante.

A diurese nos pacientes do grupo A variou de 50 a 1800 ml (532,43 ± 351,22 ml), enquanto que no grupo B de 0 a 1600 ml (506 ± 327,2 ml). A diferença não foi significante entre os grupos. Comparando-se a média do volume urinário dos pacientes de ambos os grupos que não receberam sangue (grupo A - 561,11 ± 355,86 ml; grupo B - 535 ± 291,37 ml) com a daqueles que foram transfundidos (grupo A - 522,50 ± 352,54 ml; grupo B - 428,28 ± 308,87 ml), verifica-se maior volume naqueles que não receberam sangue, porém sem diferença estatística significante.

As quantidades de sangue utilizadas durante CEC, após saída de CEC, no pós-operatório imediato e 24 horas após o procedimento cirúrgico, encontram-se na Tabela 1.

 

 

Durante e após saída de CEC, as diferenças entre os grupos A e B foram significantes com valores menores no grupo B (P = 0,0001 e P = 0,0014, respectivamente). No período pós-operatório e 24 horas após o procedimento cirúrgico, não houve diferença significante entre os grupos.

A diferença na quantidade de plasma utilizada após saída de CEC foi significante entre os grupos A e B (P = 0,0001) - Figura 5. Durante a CEC, no período pós-operatório e 24 horas após o procedimento cirúrgico, não houve diferença significante entre os grupos.

 

 

O balanço positivo de líquidos na saída de CEC dos pacientes do grupo A variou de 460 a 3010 ml (1576,6 ± 538,41 ml) e do grupo B, de - 1210 a 3650 ml (780,43 ± 923,54 ml). Comparando-se as médias dos grupos A e B constatou-se diferença significante com valores menores para o grupo B (P = 0,0001) - Figura 6.

 

 

O tempo de CEC dos pacientes do grupo A variou de 34 a 155 min (80,81 ± 23,6 min) e do grupo B, de 29 a 222 min (87,73 ± 32,98 min), não havendo diferença significante entre as médias dos grupos A e B.

Durante a CEC, 18 pacientes do grupo A (n = 70) e 41 do B (n = 70) não receberam transfusão de sangue. Constatou-se diferença significante entre os grupos com menor necessidade de transfusões no grupo B (P = 0,0001).

Após saída de CEC, 40 indivíduos do grupo A e 62 do B não receberam sangue, sendo a diferença significante também favoravelmente ao grupo B (P = 0,0001). No pós-operatório imediato não houve transfusão sangüínea em 66 pacientes do grupo A e em 62 do B, não havendo diferença significante. Em 34 indivíduos do grupo A e 42 do B não houve transfusão de sangue 24 horas após procedimento cirúrgico, sendo a diferença não significante.

Durante a CEC, o volume médio de sangue recebido pelos pacientes do grupo A foi 428 ± 114 ml (n = 52), e do grupo B, 353 ± 142 ml (n = 29). A diferença entre os grupos foi significante (P = 0,05).

Após saída de CEC, os indivíduos dos grupos A e B receberam 367 ± 143 ml (n = 30) e 425 ± 404 ml (n = 8) de sangue respectivamente, sendo a diferença não significante.

No pós-operatório imediato, o volume de sangue transfundido no grupo A foi 500 ± 204 ml (n = 4) e no grupo B, 375 ± 134 ml (n = 8), não havendo diferença significante.

Nos grupos A e B, 24 horas após procedimento cirúrgico, o volume de sangue transfundido foi 393 ± 209 ml (n = 28) e 410 ± 148 ml (n = 36), respectivamente, sendo a diferença não significante.

Nos pacientes do grupo A, a duração do período de internação na UTI variou de 1 a 11 dias (3,7 ± 1,8 dias). No grupo B, esse período variou de 0 a 23 dias (3,3 ± 2,7 dias). Não houve diferença significante.

Nos pacientes do grupo A, a duração do período pós-operatório variou de 5 a 32 dias (8,4 ± 3,8 dias) e do grupo B, de 1 a 35 dias (8,7 ± 5,3 dias), sendo a diferença não significante.

 

COMENTÁRIOS

A nova técnica de hemoconcentração utilizada durante as operações cardíacas com CEC pelo Serviço mostrou-se factível, não apresentando dificuldades na montagem do circuito de CECou em sua aplicação, permitindo a execução do procedimento sem intercorrências. Também não proporcionou risco adicional de complicações intra e pós-operatórias para o paciente.

A necessidade de transfusão de hemoderivados foi menor nos pacientes submetidos à cirurgia cardíaca com CEC empregando-se hemoconcentração. Nas operações desses pacientes, as quantidades de sangue utilizadas durante e após CEC, e de plasma após CEC, foram significativamente menores em relação aos indivíduos em que o hemoconcentrador não foi usado. Além disso, o balanço de líquidos, após CEC, com hemoconcentrador, foi menor quando comparado ao obtido sem esse equipamento

A velocidade de filtração para a hemoconcentração a ser efetuada durante a CEC é dependente do hematócrito, do volume do reservatório venoso e, antes da infusão do volume residual (sangue arterial e venoso), do oxigenador no paciente.

Dos métodos utilizados de hemoconcentração o modificado, quando comparado ao convencional, tem sido mais eficaz na remoção do excesso de líquido [13]. Entretanto, o aproveitamento do sangue remanescente no oxigenador é realizado acrescentando-se solução cristalóide ao reservatório venoso para empurrar o sangue da câmara arterial.

É importante destacar que o volume de sangue contido no tubo arterial e no filtro de linha arterial (aproximadamente 300 ml) é desprezado, podendo ocorrer tanto na hemofiltração convencional como na modificada. Esse sangue poderia ser reaproveitado, pois, segundo WALPOTH et al. [7] e BOLDT et al. [17], o sangue submetido à hemofiltração durante a CEC apresenta boa qualidade.

Diversas formas de aproveitamento do sangue residual vêm sendo utilizadas em serviços de cirurgia cardíaca em todo o mundo, incluindo-se desde técnicas que desprezam todo o volume de sangue arterial do oxigenador, passando por aquelas em que solução cristalóide é adicionada para empurrar o sangue arterial [13], e àquelas em que ocorre transferência do volume de sangue arterial para o reservatório de cardiotomia para infusão em acesso venoso por meio de equipo apropriado. Em alguns serviços, utiliza-se ainda cell saver para a lavagem das hemácias por meio de centrifugação [17].

Nos casos em que o volume de sangue arterial do oxigenador (aproximadamente 1.300 ml) é desprezado, perde-se a oportunidade de reinfundir sangue de boa qualidade [7]. Nas demais situações, o sangue não é totalmente reaproveitado, havendo perda de quantidade considerável (aproximadamente 500 a 700 ml). Quando o sangue é empurrado com solução cristalóide, ocorre hemodiluição e redução do hematócrito de 25% a 30% para 12% a 18%. Usando-se cell saver, somente as hemácias são reaproveitadas, perdendo-se plaquetas e plasma com seus elementos de coagulação [18].

Diferentemente das técnicas acima mencionadas, no presente estudo a inversão do tubo arterial para aspiração do sangue do tubo, filtro e câmara arterial para o reservatório venoso, possibilitou nova hemoconcentração do volume remanescente (800 ml) por meio de derivação na linha da cardioplegia e na da saída do sistema de cardiomicroplegia para a entrada do hemoconcentrador por meio do rolete do módulo de cardioplegia. Assim, foi possível a remoção de 30% a 40% de soluto, elevando o hematócrito do sangue remanescente de 25% a 30%, durante CEC, para 35% e 40%, antes da reinfusão.

A quantidade de sangue transfundida durante CEC foi menor nos pacientes do grupo B, resultou principalmente na redução do uso de sangue de doador na bomba de CEC.

Diversos autores mencionam vantagens da redução do uso de sangue durante CEC, como a redução da demanda nos bancos de sangue [19], do risco de doenças (hepatite e síndrome da imunodeficiência adquirida) [20], da reação à transfusão e dos distúrbios de coagulação [21].

Após a CEC, as quantidades de sangue e plasma transfundidas foram menores nos pacientes do grupo B. Nessa fase, o menor volume de sangue utilizado pelos pacientes desse grupo foi devido a não necessidade de efetuar transfusão sangüínea, durante o procedimento de revisão de hemostasia e fechamento cirúrgico do paciente, pois a taxa de hematócrito final dos indivíduos do grupo B apresentou média igual a 33,7% (29 a 42%), próxima aos padrões utilizados pelo Serviço. A menor quantidade de plasma utilizada nesse grupo foi devido a possibilidade do emprego de maior volume de solução cristalóide.

O balanço de líquidos na saída de CEC apresentou valores significantemente menores nos pacientes do grupo B. Isso se deveu ao fato de que o hemoconcentrador foi eficaz na retirada do excesso de líquidos provenientes da composição do perfusato do circuito de CEC.

O volume e a necessidade de transfusão sangüínea, durante e após saída de CEC, nos pacientes que receberam ou não sangue no perfusato, foi menor no grupo B, reforçando a importância da técnica de hemoconcentração no sentido de minimizar o uso de hemoderivados.

Apesar da aplicação bem sucedida dessa técnica, vale ressaltar que a mesma pode ser melhorada ainda mais. Uma sugestão seria o preenchimento do tubo, filtro e câmara arterial, durante a aspiração do sangue residual, com solução cristalóide por meio da cânula arterial, sendo a entrada do filtro de linha arterial pinçada, visando evitar retorno de elementos filtrados durante a CEC como microagregados plaquetários e partículas. Assim, maior quantidade de sangue poderia ser hemoconcentrada, aumentando-se o volume a ser reinfundido e mantendo-se o sistema totalmente preenchido, impossibilitando sua aeração e não impedindo eventual retorno para CEC. Talvez, um inconveniente seria o acréscimo de 5 a 10 minutos para o término da hemoconcentração.

Métodos alternativos que reduzam a necessidade de transfusão de sangue e hemoderivados durante cirurgias cardíacas com CEC são necessários. Nos EUA, transfusões efetuadas nas operações cardíacas utilizam cerca de 20% dos estoques dos bancos de sangue [20]. Recentemente, transfusões de sangue têm sido relacionadas a complicações pós-operatórias em cirurgias cardíacas tais como infecção no esterno, pneumonia, disfunção renal, septicemia grave e mortalidade hospitalar. Além disso, as transfusões têm sido associadas ao aumento da taxa de mortalidade a longo prazo [22].

Analisando retrospectivamente 1915 pacientes submetidos a operações cardíacas com CEC (164 receberam transfusão de sangue no período intra-operatório, 303 no pós-operatório e 192 em ambos), ENGOREN et al. [22] constataram que o período de permanência hospitalar foi 10 ± 12 dias para aqueles que foram transfundidos e 5 ± 2 dias para os pacientes que não receberam sangue. Além disso, a mortalidade até 5 anos após a operação foi significativamente maior nos indivíduos que receberam transfusão (15% versus 7%).

Portanto, além de amenizar a demanda nos bancos de sangue e reduzir custos, a diminuição das transfusões sangüíneas pode resultar na redução de complicações pós-operatórias e, principalmente, da mortalidade a longo prazo em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca com CEC.

 

CONCLUSÕES

Esta nova técnica de hemoconcentração usada durante operaçõescardíacas com circulação extracorpórea em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca foi eficaz na remoção de líquidos e permitiu maior aproveitamento do sangue remanescente do oxigenador e menor necessidade de transfusão de hemoderivados.

 

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Endereço de correspondência
Prof. Dr. Dulcimar Donizete de Souza
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto
Av. Brig. Faria Lima 5416
São José do Rio Preto - SP - Brasil - 15090-000
E-mail: dulcimards@hotmail.com

Artigo recebido em novembro de 2003
Artigo aprovado em setembro de 2004

 

 

Trabalho realizado no Hospital de Base da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

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