SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 issue3BJCVS implants electronic submission of articlesReflections on the creation of a new surgical technique author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.20 no.3 São José do Rio Preto July/Sept. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382005000300002 

EDITORIAL

 

Temas para discussão e discordância

 

 

Adolfo Saadia*

 

 

Desenvolvo este tema expondo conceitos que, proponho, sejam o começo de um foro de discussões e chegar a temas comuns a nossos países, aos médicos e à saúde da população, que é o objetivo de nossa profissão.

Há muito tempo, quem escreve estas linhas preocupa-se em recuperar a memória de nossos ancestrais americanos dentro da ciência médica. Levando-se em conta que a partir de nossas universidades e hospitais iniciaram-se e desenvolveram-se modelos da ciência, da prática médica e investigação que foram solidárias, mostrando caminhos para gerações de profissionais, não só para nossos países latino-americanos, mas também para os países de outros continentes. Um exemplo disso é o sanitarista argentino, neurocirurgião de renome Ramon Carillo, falecido no Brasil, em 1956, país onde ensinou seus conceitos, criando há mais de meio século um esquema sanitário exemplar aos médicos-professores que iniciaram a atual cirurgia cardiovascular, como Zerbini, Albanese, Jatene, Favaro, isto para iniciar uma longa lista de extraordinários médicos desta nossa América.

Esta preocupação de destacar e recuperar a memória com tantos esquecimentos injustos, é retomar as condições do humanismo médico, que foi tradição nas nossas universidades e em nossos mestres, lamentavelmente esquecido nos últimos tempos, em troca de uma nova maneira de trabalho. Esta, valendo-se da tecnologia e de recursos econômicos necessários para o progresso, trocou valores que nunca deveriam ter sido modificados: a relação médico-paciente, sem discriminações sociais, com tempo disponível para uma boa comunicação e simpatia, o melhor efeito terapêutico e tantos outros atos de compaixão com os sofridos clientes.

Muitos médicos só se lembram destas situações quando eles, por motivos de saúde, necessitam de uma palavra amiga e acolhedora do médico que o assiste.

Recuperar a memória é destacar a vida e o trabalho criativo dos mestres que desenvolveram o que é hoje a nossa cirurgia, num avanço vertiginoso que eles nunca imaginaram.

O que hoje é uma simples rotina, não faz muitos anos eram complicadíssimas técnicas desenvolvidas em longas horas em salas de cirurgia.

Em nossos países, os nomes mencionados e tantos outros trabalhadores da área da saúde são parte recente da história e da cultura das gerações atuais e futuras.

Não só devem ser reconhecidos pelo que representam no desenvolvimento da cirurgia, pois essencialmente formam um modelo de caráter Ético no processo da vida médica e a isso devo acrescentar, especialmente, como é meu desejo reencontrar os valores Éticos-Morais, que nos deixaram como exemplo nossos mestres, e que estão perdidos em uma confusão de valores, trocando-os por outros que deveriam deixar de lado.

Devemos educar não só para a técnica de trabalho, mas também para a cultura e o discernimento, de tal maneira que não fiquemos presos a um esquema que deturpe nossos próprios critérios, misturados em uma informação difícil de depurar, ou com uma linguagem que nos faz perder a riqueza primitiva e nossas línguas.

A informação deve permitir a elaboração de um pensamento racional e não só para uma seleção publicitária obscura e enganosa.

Estes conceitos não pretendem ser um neochauvinismo, mas sim, como afirmei, recuperar tradições nativas que são de grande riqueza para nossos acervos culturais.

Em minhas conversas com Domingo Braile propus-lhe que nas publicações de medicina e cirurgia não deveriam faltar capítulos relacionados com estes temas que são simplesmente uma parte importante da Medicina Antropológica e a Ética de nossos tempos.

A saúde e a vida, as idéias, a criatividade que nos permitiram fazer com pouco, muito do que possuímos nesta faixa contínua que é a vida e que sempre gira sobre fatos anteriores sem uma previsão final.

Em nossa maneira de pensar, devemos tomar consciência da importância que pode ter nossa participação social, polindo nossa falta de razão, a fadiga e o individualismo, tão comuns nos intelectuais e transformá-los em um pensamento humanístico e, por que não, de sonhos cheios de utopias adiantando-nos intuitivamente ao futuro que hoje aparece como uma vertiginosa luz de novas criações.

Nestes conceitos não cabem a mesquinhez, a corrupção, a impunidade, o autoritarismo daqueles que detêm o poder, sem capacidade de autocrítica, ou aptos para corrigir erros, que são sintomas da ignorância, mãe dos vícios sociais que nos fazem retroagir e freiam o desenvolvimento.

Nossos inimigos mais ferozes são a impunidade e a corrupção, que são inimigos da democracia e do progresso, aos quais só pode opor-se como insígnia a Ética, não importando qual seja o setor: econômico, político ou profissional.

A Ética deve ser o único farol orientador, pois com sua aplicação nos permitirá compreender também a verdadeira democracia para resolver com justiça a iniqüidade sem mesquinhez. É o único caminho certo para se chegar até os reais direitos humanos.

Estou convicto de que estes temas não devem ficar circunscritos à área profissional médica, pois estamos imersos nos mesmos problemas de toda uma sociedade.

Estou também convencido de que muitos não concordam que numa revista científica estes assuntos sejam tratados. Precisamos na discordância melhorar nossas democracias que começam e que se discutam nestes foros as diferentes opiniões. Porém, que se discutam calorosamente.

Esta é a proposta.

Obs: Na nossa revista "Revista Argentina de Cirugia Cardiovascular" – Colégio Argentino de Cirujanos Cardiovasculares – criamos desde de seu primeiro número um capítulo dedicado a temas relacionados com a Ética, a Medicina Antropológica e Bioética.

 

 

* Cirurgião Cardiovascular. Membro Titular da Asociación Médica Argentina e da Sociedade Argentina de Cirujia. Membro Emérito do Colegio Argentino de Cirujanos Cardiovasculares (CACCV). Membro Editor de "Revista Argentina de Cirujia Cardiovascular" e do Boletim Periódico do CACCV.