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Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.20 no.3 São José do Rio Preto July/Sept. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382005000300003 

EDITORIAL

 

Reflexões sobre a criação de uma nova técnica cirúrgica

 

 

Prof. Dr. José Honório Palma da Fonseca*

 

 

A experiência da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), no desenvolvimento das endopróteses, permitiu que vários aspectos interessantes fossem abordados e debatidos, tendo em vista ter sido uma idéia criativa e inovadora. Determinou mudanças drásticas de condutas estabelecidas, permitindo o desenvolvimento de novas técnicas e desencadeando de forma pioneira o treinamento de médicos interessados neste campo.

Um dos primeiros pontos a ser colocado em evidência é a necessidade do envolvimento de um conjunto de profissionais que formem um grupo de estudos dedicado ao assunto. Este seguramente foi um ponto forte do nosso projeto, fazendo que cada profissional, utilizando a visão e experiência de muitos anos na especialidade, enriquecessem-na, permitindo basicamente que esta nova ciência fosse desenvolvida de forma mais rápida e com riqueza de detalhes. O cirurgião cardiovascular, assim como o cirurgião vascular e o hemodinamicista, dedicam-se por vezes ao tratamento da mesma doença, porém com instrumentos e conceitos diferentes, um observa o paciente, mais pela óptica anatômica, enquanto outro o faz através de achados radiológicos, um realizando mais diagnósticos e o outro mais terapias, tendo assim visões distintas em relação à mesma doença.

Analisar o surgimento de uma nova técnica pressupõe que exista um problema mal resolvido, algo que nos incomoda ou aflige, no nosso caso representado pela presença de doenças como a dissecção e os aneurismas da aorta, cujo tratamento cirúrgico vinha acompanhado de mortalidade e morbidade incrivelmente altas. Tal problema foi que alavancou, impulsionou e incentivou a procura de novas opções, mais práticas e seguras no tratamento destas anomalias. Pacientes graves como estes, nos quais o uso de uma abordagem clássica não determina resultados encorajadores, desperta sentimentos novos de frustração, gerando a ansiedade para dispor de algo diferente, que possa propiciar a resolução dos problemas de forma mais aceitável. Neste caso, o que se deu não foi propriamente a mudança de uma técnica cirúrgica, mas sim a mudança de um conceito clássico na literatura médica. Desde quando se realiza a correção dos aneurismas e dissecções aórticas, há praticamente 50 anos, sempre a aorta doente foi abordada diretamente, por toracotomias e ou laparotomias. Hoje, a intervenção proposta se faz pela manipulação de cateteres à distância e isto sem dúvida representa uma drástica mudança.

Todo novo tratamento em seres humanos deve seguir regras e normas éticas que foram muito bem reguladas pelas diversas Comissões que exaustivamente estudaram e continuam estudando o assunto.

"Manter-se dentro dos limites propostos e ao mesmo tempo ousar sem prejudicar é a fórmula delicada do desenvolvimento da ciência."

Todos sabemos que uma nova técnica ou um novo material para ser utilizado em seres humanos passa por diversas fases de pesquisas padronizadas em laboratório, finalizadas com experiências em animais. Contudo, o momento crucial para o cirurgião pesquisador é quando se decide pelo início do uso clínico do produto, desenvolvido e testado, mas ainda não empregado no ser humano.

Aspectos éticos angustiam o pesquisador, enquanto sentimentos de dúvida, incerteza, permeiam a mente do paciente que se agarra com confiança às palavras do médico, sempre baseadas nas evidências científicas, na responsabilidade e na primordial intenção de curar.

Em algumas áreas da medicina, quando da realização de um procedimento invasivo, sempre existe a possibilidade de ocorrer algo fatal, ou que determine limitações à vida do paciente. É claro que o ato médico de uma operação é muito diferente da realização de um exame diagnóstico, considerando-se que existem no primeiro muito mais variáveis potencialmente graves (anestesia, incisões, dissecações, suturas etc).

Quando uma proposta terapêutica baseia-se na grande vivência e experiência de um sólido grupo, esta proposta tem grande chance de dar bons e compensadores resultados. Todo trabalho científico, na realidade, surge, na maioria das vezes, de uma seqüência lógica, não nasce do nada e sim lastreado em conhecimentos já adquiridos e sedimentados. Analisando particularmente o caso das endopróteses vasculares sob ponto de vista mundial, podemos observar a enorme força desta idéia, pela grande quantidade de casos relatados, em um curto espaço de tempo, na literatura médica consultada.

 

 

* Cirurgião Cardiovascular, Professor Livre Docente da Disciplina de Cirurgia Cardiovascular do Departamento de Cirurgia da UNIFESP-EPM.