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Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.21 no.1 São José do Rio Preto Jan./Mar. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382006000100002 

EDITORIAL

 

Medicina Baseada em Evidências

 

 

Wilson Daher*

 

 

A tendência atual da prática clínica vem sendo norteada pela corrente chamada "Medicina Baseada em Evidências"(M.B.E), idealizada pelo epidemiologista britânico Archibald.L. Cochrane, desde 1972. Sabemos que seu enfoque é objetivar a ciência médica de uma forma cada vez mais positivista, baseado em dados consistentes de metanálises à disposição para pesquisas, de tal forma que a medicina seja, cada vez mais, olhada e exercida pelos parâmetros cientificamente comprovados de dados advindos de fontes fidedignas.

Tem sido uma constante a discussão em torno do tema, já que nos vemos invadidos, atualmente, pelo exercício amplamente tecnicizado da profissão médica, o que de certa forma contraria aqueles profissionais que ainda primam pelo exercício clínico solitário à beira do leito(Klinus) do paciente, embasado em seus conhecimentos de fisiologia e fisiopatologia. O conflito gerado entre a antiga e a nova geração de médicos, reside exatamente neste ponto, em que a medicina deixaria de ser, também, arte, para deixar-se guiar tão somente pelos parâmetros científicos metanalíticamente estabelecidos.

Não é propósito deste trabalho questionar se ainda existe espaço para a medicina como arte, embora o autor reconheça que, dada a singularidade de cada paciente, estatísticas por mais bem-vindas que sejam, jamais espelharão o universo pessoal de cada indivíduo, com sua própria subjetividade e sua singular biologia.

A medicina nasceu como arte e, como tal, desde os artesanatos usados para o alívio da dor e cura das doenças, ela vem se afastando cada vez mais deste campo para embrenhar-se pelos caminhos da chamada verdade científica, naturalmente sujeita sempre aos naturais questionamentos de quem a exerce.

Se hoje a M.B.E. é uma realidade que veio para ficar, não é justo que desprezemos os que nos precederam. É óbvio que no contexto da evolução da história da medicina, ninguém desprezaria nomes como o químico Pasteur, Kock, Lister, Loeffler, Chagas, Halsted e tantos outros que admitimos terem contribuído decisivamente para retirá-la dos porões da ignorância e transformá-la em ciência explicativa daquilo que antes era mítica ou filosoficamente avaliado. Outros há, porém, que não contavam com premissas para estabelecer novas idéias. Sua performance vinha embasada em um decisivo fator, chamado por nós de intuição privilegiada, por ser apanágio de uns poucos iluminados, que deixavam de lado o exercício da ciência como mera contemplação, para observar e intuir o que muitos séculos depois seria verificado como fato científico.

Da intuição ao fato científico, caminho que a nosso ver desembocou na estruturação da M.B.E, muitos sacrifícios foram feitos. Os autores tiveram que lutar, por tempo indeterminado, contra a arrogância, a intolerância, a raiva e a inveja de seus pares que, com raras exceções temiam ser destronados do patamar em que a classe médica os colocava. Quem não se lembra da intolerância de Virchow, em meados do século XIX, não aceitando a teoria da infecção por contato, de Semmelweiss, malgrado todas as evidências de seus excelentes resultados na diminuição de óbitos por Febre Puerperal? E por quê? Porque, se aceita a proposta de Semmelweiss, cairia por terra sua sagrada teoria da patologia celular, que preconizava a célula como fonte de todas as doenças.

Semmelweiss foi um exemplo de personagem dotado da intuição privilegiada, pois sem nenhuma premissa em que pudesse apoiar-se, "viu" a infecção entrando nas entranhas das parturientes, pelas mãos sujas dos médicos e estudantes, que as examinavam logo em seguida ao trabalho de dissecação no necrotério. Pouco tempo depois, sua intuição (sentimento e percepção irracional de que algo está acontecendo) foi transformada em fato científico, por Pasteur, que evidenciou ao microscópio os assassinos invisíveis, que hoje sabemos ser estreptococos.

Muito antes de Pasteur, no entanto, já ao final do século XV, em Verona, Itália, o médico e poeta Girolamo Fracastoro, intuiu a infecção por contato direto ou indireto, por meio de sementes invisíveis, às quais denominou seminária prima. Embora ridicularizado por acreditar naquilo que não via, o papa Clemente VI o apoiou e baixou decreto, proibindo as prostitutas e cortesãs contaminadas, de exercerem sua profissão, com o que diminuiu a incidência de sífilis, tuberculose, etc.

Poderíamos citar um sem número de profissionais da área de saúde que contribuíram intuitivamente para o futuro fato científico, até a culminância da Medicina Baseada em Evidências: Horace Wells, no século XIX, e a intuição do óxido nitroso como anestésico; William Harvey, no século XVII e a intuição privilegiada de imaginar que o retorno venoso só poderia se dar por meio das micro-anastomoses artério-venosas, mais tarde comprovado microscopicamente por Malpighi, etc.

Evidência (do latim evidentia) significa clareza, visibilidade, virtudes indispensáveis para o exercício lógico, racional da medicina e é assim que é imaginado doravante. Parece não haver mais espaço para o trabalho solitário do médico e suas opiniões pessoais alheias às evidências já catalogadas. No entanto, como lido em um trecho do livro de Lima Barreto, de 1920 (Diário de um hospício), escrito à época de sua internação psiquiátrica para tratamento do alcoolismo, ainda hoje podemos perceber gerações de médicos manipulados pelo "já feito e já determinado", sem que nada entre de sua avaliação pessoal:

"Eu tinha receio de que ele (aquele jovem médico) quisesse experimentar em mim o remédio novo, com sua pressa e seu açodamento. Não o via capaz de exercer sua própria crítica, para que pudesse transformar em idéia própria aquela que era, até então, algo provindo nem sei de onde, mas que aos seus olhos se transformavam em verdade. Foi então que me senti ali a desgraça e o próprio desgraçado...."

Neste trecho de Lima Barreto, tão atual, salienta-se a evidência da necessidade de transformar verdades estabelecidas, em seu próprio pensamento (ou não) e pensamos ser este o ponto exato em que ciência e arte jamais devam afastar-se sob pena de a medicina transformar-se em verdadeira tecnocracia e nós, médicos, em simples depositários da famosa educação bancária a que se referia Paulo Freire, na segunda metade do século passado, em sua obra "Pedagogia do oprimido".

 

 

* Doutorando. Médico psiquiatra. Prof. História da Medicina da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto S FAMERP