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Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

Print version ISSN 0102-7638On-line version ISSN 1678-9741

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.22 no.2 São José do Rio Preto Apr./June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382007000200007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Índice de risco de mortalidade por endocardite infecciosa: um modelo logístico multivariado

 

 

Mário Augusto Cray da CostaI; Darley Rugery Wollmann Jr.II; Antonio Carlos Ligoski CamposIII; Cláudio Leinig Pereira da CunhaIV; Roberto Gomes de CarvalhoV; Dalton Francisco de AndradeVI; Danton Richilin Rocha LouresVII

IDoutorado; Cirurgião Cardiovascular da Santa Casa de Ponta Grossa
IIMédico
IIIDoutor
IVDoutor
VDoutor
VIPós-doutorado
VIIDoutor

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Os objetivos do presente trabalho foram identificar variáveis preditivas de mortalidade hospitalar em endocardite infecciosa e criar fórmula matemática para cálculo do risco de óbito e um escore de risco, comparando os dois métodos com a curva ROC.
MÉTODO: Foram estudados, retrospectivamente, 186 casos consecutivos de endocardite infecciosa (EI) confirmados, divididos em dois grupos: alta (137) e óbito hospitalar (49). A partir das razões das chances obtidas em análise multivariada, foram criados: uma fórmula para cálculo do risco de óbito e um escore de risco.
RESULTADOS: Fatores preditivos de maior mortalidade (análise multivariada) e o escore de risco com seus respectivos pesos foram: idade > 40 anos (RC = 4.16-95%I.C. [1.63,10.80] - 4 pontos), insuficiência cardíaca classe IV ou choque cardiovascular (RC = 4.93 - 95%I.C. [1.86,13.05] - 5 pontos), sepsis não-controlada (RC =5.97 - 95%I.C. [1.95,18.35] - 6 pontos), distúrbio de condução (RC = 5.07-95%I.C. [1.67,15.35] - 5 pontos), arritmia (RC = 8.17 - 95%I.C. [2.60,25.71] - 8 pontos), valva com grande destruição ou abscesso ou prótese (RC = 4.77-95%I.C. [1.44,15.76] - 5 pontos), e vegetação grande e móvel (RC = 4.36-95%I.C. [1.55,12.90] - 4 pontos). Pacientes com escore entre 0 e 10 tiveram 5,26% de MT e maior que 20: 78,9%.
CONCLUSÕES: Quanto maior o escore, maior é a mortalidade, complemente-se, ainda, que a estimativa de mortalidade obtida por cálculo ou pelo escore é semelhante. É possível utilizar software para facilitar a aplicação do escore e calcular risco de mortalidade por endocardite infecciosa.

Descritores: Endocardite. Mortalidade. Prognóstico.


 

 

INTRODUÇÃO

Na era pré-antibiótica, a endocardite infecciosa (EI) determinava a morte de praticamente todos os pacientes acometidos [1]. Ao longo do tempo, alguns fatos mudaram a evolução da doença: a evolução de técnicas microbiológicas, o desenvolvimento da antibioticoterapia e da cirurgia cardíaca e, mais recentemente, do ecocardiograma. Todavia, ainda hoje, a letalidade por endocardite infecciosa é alta, variando de 13 a 40% [1].

Ao considerar a grande variabilidade da mortalidade por endocardite infecciosa e os grandes espectros de apresentações clínicas e gravidade, faz-se imperiosa a criação de metodologia que permita classificar os pacientes de acordo com a gravidade e risco de mortalidade da doença. Para ser facilmente usado pelo clínico, um modelo preditivo deve ser ao mesmo tempo simples e estatisticamente preciso [2]. A literatura mundial ainda não dispõe de um modelo preditivo, criado sob forma de escore, para avaliar a EI nas diversas formas de apresentação. Tal escore permitiria vários tipos de análise: estratificar pacientes de acordo com a gravidade e o prognóstico; acompanhar a evolução e resposta do paciente à terapêutica instituída; comparar a evolução de pacientes semelhantes submetidos a tratamentos diversos; avaliar o desempenho dos diversos serviços no tratamento da doença; avaliar a mortalidade esperada e a observada; avaliar (de modo indireto) a relação custo/benefício de determinados procedimentos para pacientes em várias etapas da enfermidade [3].

São objetivos do presente trabalho: 1) identificar variáveis preditivas de mortalidade hospitalar em endocardite infecciosa, 2) criar fórmula para cálculo do risco de óbito e um índice de risco, usando análise multivariada, 3) estratificar a amostra de pacientes estudados em classes de risco de óbito de acordo com o escore, 4) comparar os dois métodos utilizando a Curva ROC (Receiver Operating Characteristic).

 

MÉTODO

Pacientes

Foram estudados, retrospectivamente, 186 casos consecutivos de EI, considerados definitivos pelos critérios da Duke University, em 179 pacientes (alguns pacientes tiveram mais de um episódio de infecção) internados no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, entre janeiro de 1988 e dezembro de 1998 [4]. As idades variaram de 7 a 70 anos, com média de 33,9 anos, 60% dos casos (112) eram de pacientes do sexo masculino. Os principais fatores predisponentes para EI foram presença de prótese (56 casos) e moléstia reumática (45 casos). Setenta e três por cento dos pacientes apresentaram algum grau de insuficiência cardíaca, sendo que, 20,4% estavam em classe IV e 5,4% em choque cardiovascular. Aproximadamente um quinto (20%) dos pacientes desenvolveram sepse não-responsiva à antibioticoterapia.

Em 40% dos casos, as hemoculturas e/ou culturas das vegetações foram negativas. Os microrganismos mais comumente isolados foram Streptococcus viridans e Staphylococcus aureus. A valva aórtica nativa foi a mais acometida, seguida pela valva mitral; as próteses aórticas e mitral apresentaram incidência muito semelhante. Em torno de 30% dos casos, a EI ocorreu em próteses. Em 26,9% dos casos, havia uma valva nativa complicada por destruição do aparelho valvar ou por abscesso. Complicações neurológicas, renais e pulmonares ocorreram em 13,4%, 14,5% e 19,2% dos casos, respectivamente.

Sessenta e quatro por cento dos pacientes foram submetidos à cirurgia na fase aguda (antes da cura da EI), e 36% foram tratados somente com medicamentos. A indicação cirúrgica mais comum foi disfunção valvar importante.

A avaliação dos pacientes constou de anamnese e exame físico, seguida de avaliação por exames complementares: hemograma, dosagem de creatinina, parcial de urina, hemocultura e cultura do material cirúrgico retirado (nos pacientes operados), radiografia de tórax e eletrocardiograma (ECG). Todos realizaram ecocardiograma bidimensional transtorácico com Doppler. No período de 1988 a 1992, foi utilizado um ecocardiógrafo Interpec XL com Doppler convencional. No período de 1992 a 1998, passou-se a utilizar o ecocardiógrafo HP Sonos 1000 com mapeamento de fluxo em cores, tendo sido, na mesma ocasião, introduzida a técnica transesofágica, utilizada sempre que houve dúvida diagnóstica pela técnica transtorácica. Tomografia computadorizada de crânio (TAC) foi realizada nos pacientes com evidência clínica de complicações neurológicas. Ultra-sonografia abdominal foi efetuada nos pacientes com suspeita de complicações em órgãos abdominais.

O tratamento clínico constou de antibioticoterapia, tratamento da insuficiência cardíaca, quando presente, e das complicações ou outras doenças associadas.

Todos os que sobreviveram receberam pelo menos quatro semanas de antibioticoterapia parenteral, nos pacientes com EI em prótese o tempo preconizado de antibioticoterapia foi de seis semanas.

Indicação cirúrgica

Os critérios considerados para indicação cirúrgica foram divididos em maiores e menores; considerados maiores aqueles que encontram forte suporte na literatura como critério de indicação cirúrgica [5]: a) insuficiência cardíaca refratária a tratamento clínico; b) lesão orovalvar quantificada como grave ou moderada pelo ecocardiograma, causando insuficiência cardíaca; c) sepse não-responsiva à antibioticoterapia; d) abscesso visto no ecocardiograma; e) distúrbio de condução de aparecimento recente; f) infecção por fungo; g) recorrência de EI, definida como novo surto de infecção, pelo mesmo microrganismo, no período de dois meses após um episódio de EI considerado curado [6]; e menores, aqueles em que há discussão na literatura com relação ao peso como critério de indicação cirúrgica: a) presença de eventos embólicos; b) vegetações grandes e móveis vistas no ecocardiograma, definidas como presença de massa cardíaca, maior ou igual a 10 mm, oscilante em valva ou estruturas de suporte, ou em trajeto de jato regurgitante, ou em material implantado, na ausência de explicação anatômica alternativa[7]; c) infecção em prótese.

A indicação cirúrgica foi baseada na presença de um critério maior ou na presença de dois ou mais critérios menores. A cirurgia mais freqüentemente realizada foi a troca de valva aórtica, muitas vezes associada a outros procedimentos. Plastia de valva mitral com vegetectomia foi realizada em um caso e, em quatro casos, foi feita vegetectomia com plastia de valva tricúspide.

Definição das variáveis

Os pacientes foram acompanhados até o momento da alta hospitalar e divididos em dois grupos (variáveis dependentes): grupo 1 - pacientes que receberam alta; grupo 2 - pacientes que evoluíram para óbito.

As variáveis independentes, ou seja, variáveis potencialmente preditivas de mortalidade, foram divididas, didaticamente, em 6 grupos:

1. Variáveis epidemiológicas: sexo, idade, fatores predisponentes;

2. Variáveis clínicas: insuficiência cardíaca, choque cardiovascular (pacientes com necessidade de uso de droga vasoativa para manter pressão e débito cardíaco adequados) e presença de sepse não-responsiva à antibioticoterapia (persistência de febre por mais de três dias ou hemoculturas persistentemente positivas, após o início da antibioticoterapia adequada);

3. Variáveis laboratoriais: agente etiológico, número de leucócitos e de bastonetes;

4. Variáveis eletrocardiográficas: presença de qualquer tipo de distúrbio de condução ou arritmia no ECG;

5. Variáveis ecocardiográficas: classificação ecocardiográfica (a. sem complicação, b. com complicação: presença de ruptura de cordoalha, perfuração de cúspide ou abscesso e c. prótese) tamanho das cavidades cardíacas, encurtamento percentual, presença de vegetação com 10 mm ou mais;

6. Variáveis relacionadas a manifestações à distância: complicações neurológicas (as embolias, os eventos hemorrágicos e as infecções metastáticas em SNC confirmados clinicamente e por exames complementares: tomografia computadorizada de crânio, exame de líquor); insuficiência renal (pacientes com valores de creatinina maiores que 2,0mg/dl); infecção pulmonar, confirmada clínica e radiologicamente.

Podendo ainda, dentro de cada grupo, existirem variáveis qualitativas e quantitativas.

As variáveis quantitativas foram estudadas sob a forma quantitativa e, posteriormente, transformadas em variáveis qualitativas, submetidas à nova avaliação estatística. A transformação em variáveis qualitativas foi feita por meio da categorização dos casos em intervalos numéricos. O ponto de corte dos intervalos baseou-se nos valores das medianas dos pacientes que evoluíram para óbito e/ou nos valores de normalidade para a variável.

Análise estatística

A análise estatística aplicada constou de seis etapas: (1) análise descritiva; (2) análise inferencial univariada, que incluiu os testes de Qui-quadrado, Exato de Fisher, regressão logística e "U" de Mann-Whytney, foram considerados como estatisticamente significativos os valores de p=0,05; (3) análise inferencial multivariada, utilizou-se a regressão logística por meio do procedimento stepwise pelo método forward, para serem incluídas no modelo as variáveis independentes deveriam ser significantes no nível de p=0.20, para permanecerem no modelo as variáveis independentes deveriam ser significantes no nível de p=0,05; (4) criação e análise estatística de escore de risco de óbito, calculados os valores das razões de chance, foram eles arredondados para valores inteiros, que passaram a constituir o peso da variável para construção de um escore de risco de mortalidade [2]; (5) elaboração de fórmula para cálculo do risco de óbito e (6) desenvolvimento de curva ROC (Receiver Operating Characteristic). Acerca da interpretação da curva ROC, considera-se que quanto maior a área abaixo da curva, maior é a acurácia do método, no caso, escore e cálculo da probabilidade de óbito. Um bom modelo é aquele que mais se aproxima de 100% da área do gráfico, curvas que ocupem 50% ou menos da área do gráfico, indicam que a acurácia do modelo não é maior que o resultado que seria obtido por obra do acaso.

 

RESULTADOS

Quarenta e nove (26,3%) pacientes da série morreram. A mortalidade dos operados foi de 31,9% e dos tratados clinicamente, de 16,4%. A causa mais comum de óbito foi o choque cardiogênico.

Análise univariada

A Tabela 1 mostra a análise univariada das variáveis qualitativas; foram determinantes de maior mortalidade: idade de 40 anos ou mais, IC classe IV ou choque cardiovascular, sepse não-responsiva à antibioticoterapia, presença de distúrbio de condução ou arritmia, presença de destruição valvar ou abscesso ou prótese, átrio esquerdo (AE) aumentado e presença de IRA (Tabela 1). As variáveis contínuas são demonstradas na Tabela 2, apresentaram diferença estatística, as medianas de idade e de tamanho de AE.

 

 

Análise multivariada

Foram incluídos no modelo multivariado as seguintes variáveis: idade, classe funcional (NYHA), sepse, complicações renais, complicações neurológicas, leucócitos, arritmias, distúrbios de condução, AE aumentado, classificação anátomo-patológica, vegetações grandes e móveis. Não foram preditivas de maior mortalidade apenas complicações renais, complicações neurológicas, número de leucócitos e AE aumentado (Tabela 3).

 

 

Cálculo da probabilidade de óbito

A probabilidade de óbito, pode ser calculada da seguinte forma:

• Passo 1: cálculo do valor de Y

Onde: I = variável idade maior que 40 anos; CF = variável classe funcional IV ou choque; A = variável presença de arritmia; DC = variável presença de distúrbio de condução; CA = variável classificação anatomopatológica (valva com grande destruição ou prótese); S = variável presença de sepse não-responsiva à antibioticoterapia; V = variável presença de vegetação grande e móvel.

Para efetuar-se o cálculo, necessita-se redefinir todas as variáveis do modelo, como assumindo os valores 0 (ausência, base) e 1 (presença, risco). Por exemplo, os pacientes com menos de 40 anos deverão ter o valor 0 na variável idade; e os pacientes com 40 ou mais anos deverão ter o valor 1.

• Passo 2: Calcular probabilidade:

Obs: O símbolo exp representa a função exponencial.

Índice de risco de mortalidade

A Tabela 4 apresenta o índice de risco de mortalidade. A ausência do fator de risco corresponde ao escore zero; a presença, ao valor do peso da variável na determinação do risco de óbito.

 

 

A Tabela 5 demonstra o índice de risco aplicado à casuística, mostrando que com escore de até 10 a mortalidade é pequena; escore maior que 10 está relacionado a risco elevado e valores maiores que 15 estão relacionados à mortalidade extremamente alta.

 

 

Desenvolvimento da curva ROC

A Figura 1 apresenta a curva ROC, mostrando a superposição da curva do índice de risco e do cálculo da probabilidade de óbito. As áreas sob as curvas foram 0,835, para o índice, e 0,872, para a probabilidade de óbito, mostrando que muito pouco da performance preditiva é perdida quando se usa o índice de risco.

 

 

DISCUSSÃO

A mortalidade por EI vem diminuindo, mas persiste ainda elevada, variando de 13 a 40% [1]. As causas determinantes de pior prognóstico ainda não estão bem definidas na literatura. Estudos diferentes mostram fatores diferentes como preditores de mortalidade. Até o presente momento, não há na literatura um estudo suficientemente amplo que aborde a EI sob seus diversos aspectos, considerando todas as formas da enfermidade, ou seja, a EI do lado direito e esquerdo, a EI de valva nativa e de prótese, relacionando mortalidade com aspectos epidemiológicos, clínicos, laboratoriais, eletrocardiográficos, ecocardiográficos e manifestações à distância. Também não há uma fórmula para cálculo do risco de óbito ou um índice preditivo de mortalidade, que englobe todos os aspectos da moléstia e permita, de forma rápida e prática, predizer o risco de óbitos dos pacientes com EI.

A mortalidade global do Serviço, no período, foi de 26,3% e está dentro da mortalidade prevista na literatura [1,5,8]. Aqui, 64% dos casos de EI foram tratados cirurgicamente, proporção maior do que o observado na literatura [9,10]. Durante o período estudado, nenhum paciente com indicação cirúrgica deixou de ser operado pelos riscos da intervenção, demonstrando ampla utilização do tratamento cirúrgico, mesmo em situações adversas.

Pacientes com 40 anos ou mais tiveram maior mortalidade tanto na análise univariada (p<0,0001, r.c.=4,61) quanto na análise multivariada (p=0,0030, r.c.=4,16) como em outros estudos [11-15]. Outros autores, todavia, não encontraram essa diferença em relação à idade [1,9,16].

Nesta série, como em outras, não houve diferença de mortalidade em relação ao sexo e aos fatores predisponentes para EI [1,9,17]. Alguns autores tiveram maior mortalidade em pacientes com EI em prótese [12,17].

Neste trabalho, observou-se maior mortalidade nos pacientes com insuficiência cardíaca classe IV e em choque cardiogênico, quando comparados aos sem insuficiência cardíaca ou com insuficiência cardíaca até classe III, tanto em análise univariada (p<0,0001, r.c.=5,16) quanto multivariada (p=0,0010, r.c.=4,93). A maioria dos estudos mostra alguma influência da insuficiência cardíaca sobre a mortalidade [1,10-12,15,18,19].

Houve diferença de mortalidade em relação à presença de sepse persistente, em análise univariada (p=0,0125, r.c.=2,68) e multivariada (p=0,0020, r.c.=4,77), como o observado em outros estudos [11,12,19].

No que diz respeito ao agente infeccioso, não houve diferença de mortalidade no presente trabalho, embora alguns outros tenham demonstrado maior mortalidade em EI por Staphylococcus aureus [8,11,12,20,21].Outros autores corroboraram os resultados do estudo ao não observar relação entre agente infeccioso e óbito [1,2,9,10,16,22].

Não houve, nesta série, diferença de mortalidade em relação a número de leucócitos, corroborando os achados de Conlon et al. [17]. Wallace et al. [9] e Aoun et al. [22] observaram maior mortalidade em pacientes com mais de 10.000 leucócitos/mm3. Aqui, os valores da contagem relativa do número de bastonetes nos pacientes que morreram foram maiores, não obstante sem diferença estatística.

Observou-se maior mortalidade em análise univariada (p=0,0069, r.c.=3,11) e multivariada (p=0,0040, r.c.=5,07) nos pacientes com distúrbio de condução, como em outros estudos [11,13,14]. Também houve maior mortalidade em análise univariada e multivariada nos pacientes com arritmias. Kimose et al. [14] verificaram pior prognóstico, em longo prazo, nos pacientes com arritmias supraventriculares [14]. Wallace et al. [9] mostraram maior mortalidade em pacientes com ritmo anormal.

No que diz respeito à classificação anatomopatológica, houve maior mortalidade, em análise univariada (p=0,0002, r.c.=5,33/ p=0,0008, r.c.=4,57) e multivariada (p=0,0100, r.c.=4,77), nos pacientes com valva apresentando grande destruição ou abscesso e prótese. Alguns autores demonstraram que a presença de abscesso ou destruição do anel foram determinantes de maior mortalidade [11,14,17,19,23]. Alguns estudos apresentaram maior mortalidade em endocardite protética [12,13].

A presença de disfunção valvar importante não alterou a mortalidade, o que é ratificado por Karalis et al. [24]. Contudo, a presença de vegetações grandes e móveis estive relacionada à maior mortalidade em análise multivariada (p=0,0050, r.c.=4,36), mas não em análise univariada.

Vale dizer que houve maior mortalidade, em análise univariada (p=0,0037, r.c.=3,38), nos pacientes com AE maior que 40 mm. Não há referência na literatura a aumento de AE e maior mortalidade por EI. Outras medidas ecocardiográficas não se relacionaram com maior mortalidade.

Ao se estudarem as complicações à distância da EI, observou-se que complicações neurológicas não estiveram associadas à maior mortalidade. Outros estudos demonstraram maior mortalidade em pacientes com embolias e com complicações neurológicas [1,8,20]. Para John et al. [25], a presença de complicações neurológicas não aumentou a mortalidade.

A presença de insuficiência renal aguda esteve associada à maior letalidade em análise univariada (p=0,0318, r.c.=2,64). Conlon et al. [17], em estudo desenhado para avaliar a insuficiência renal na EI, demonstraram que o surgimento de IRA no curso da doença é um fator preditivo de maior mortalidade em análise multivariada. Outros ratificam os achados de Conlon et al. 9-11,18,19]. Por outro lado, Oyonarte et al. [1] não observaram relação entre os níveis de creatinina e a mortalidade. A presença de complicações pulmonares não tem sido implicada como causa de maior mortalidade na maioria dos estudos.

 

CONCLUSÃO

A análise multivariada permitiu identificar sete variáveis preditivas de mortalidade: idade igual ou maior que 40 anos; IC classe IV ou choque; presença de arritmias; presença de distúrbios de condução; presença de valva com grande destruição ou abscesso ou prótese; sepse não-responsiva à antibioticoterapia e vegetação grande (maior que 10 mm) e móvel. As razões das chances de cada variável foram arredondadas e transformadas em um índice de risco de óbito (Tabela 4). A partir dele, identificaram-se quatro grupos de risco, iniciando por pacientes com escore até 10, com 5,26% de mortalidade e terminado com pacientes cujo escore foi maior que 20 e os óbitos, 78,9%, mostrando que é possível, de forma objetiva e rápida, mediante um índice, predizer mortalidade em EI. Também foi possível calcular o risco de óbito, individualizado para cada paciente, por meio do cálculo de probabilidade. A curva ROC obtida do escore e do cálculo da probabilidade de óbito se superpõem, demonstrando a confiabilidade dos dados. Não há na literatura nenhum estudo semelhante, que tenha criado índice de risco ou fórmula para cálculo da probabilidade de óbito em EI.

Para ganhar validade externa, o escore deverá ser testado em um estudo prospectivo multicêntrico.

 

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Endereço para correspondência:
Mário Augusto Cray da Costa
Avenida Anita Garbaldi, 1555
Vila Liane - Ponta Grossa - PR - Brasil
CEP 84015-050
Fone/Fax (42) 3222-9444
E-mail: drmarioaugusto@uol.com.br

Artigo recebido em 8 de agosto de 2006
Artigo aprovado em 22 de maio de 2007

 

Trabalho realizado no Hospital de Clínicas Universidade Federal do Paraná - Brasil.

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