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Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.22 no.4 São José do Rio Preto Oct./Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382007000400004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Plastia tricúspide utilizando anuloplastia baseada na proporção entre os segmentos do anel da valva tricúspide normal

 

 

Fernando AntonialiI; Domingo Marcolino BraileII; Glória Maria Braga PotérioIII; Gustavo Calado de Aguiar RibeiroIV; Cledicyon Eloy da CostaI; Maurício Marson LopesV

IMembro especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular; Cirurgião cardíaco na equipe da Clínica Cardio Cirúrgica Campinas
IILivre docente FAMERP e UNICAMP; Diretor de Pós-Graduação da FAMERP; Editor da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular
IIILivre docente da UNICAMP; Chefe do Departamento de Anestesiologia da FCM UNICAMP
IVMembro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular; Cirurgião cardíaco na equipe da Clínica Cardio Cirúrgica Campinas
VMembro Especialista da Sociedade Brasileira de Cardiologia; Cardiologista na equipe da Clínica Cardio Cirúrgica Campinas

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Determinar a proporção existente entre os segmentos do anel da valva tricúspide (VT) normal e aplicála na realização da anuloplastia tricúspidea "in vitro" e "in vivo".
MÉTODOS: Imagens digitais do anel tricuspídeo de 30 corações de cadáveres humanos, sem formolização e sem insuficiência tricúspide (IT), foram analisadas e a proporção entre os segmentos ântero-posterior e septal foi determinada. Esta proporção foi utilizada na anuloplastia da VT com anel maleável de pericárdio bovino (PB), em 15 corações de cadáveres com IT e dilatação do anel valvar. A mesma proporção e técnica foi utilizada na realização de anuloplastia tricuspídea, em 11 pacientes com IT funcional, entre os quais, sete possuíam IT importante e quatro, moderada; cinco apresentavam insuficiência cardíaca (IC) classe IV (NYHA) e seis, classe III.
RESULTADOS: Nas valvas continentes de cadáveres, a razão média entre o segmento ântero-posterior e septal foi 2,43±0,212. O tamanho médio dos anéis maleáveis PB utilizados "in vitro" foi 71,5±5,2mm e mediana 70mm. Todas as valvas ficaram continentes após a anuloplastia tricuspídea "in vitro". O tamanho médio do anel maleável PB utilizado "in vivo" foi 73,4±6,5mm e mediana 72mm. Ocorreu um (9,1%) óbito. Na avaliação com 6 meses de pós-operatório, sete pacientes não possuíam IT e três possuíam IT leve; seis pacientes apresentavam IC classe I, três, classe II e um, classe III.
CONCLUSÃO: O uso da proporção de 2,43:1 entre os segmentos ântero-posterior e septal, como um parâmetro na anuloplastia da VT, utilizando anel maleável de pericárdio bovino, demonstrou resultados iniciais favoráveis.

Descritores: Coração, anatomia & histologia. Valva tricúspide. Doenças das valvas cardíacas. Procedimentos cirúrgicos cardíacos.


 

 

INTRODUÇÃO

Embora as recomendações para o tratamento da insuficiência tricúspide funcional tenham se tornado mais enfáticas [1,2], poucos trabalhos recentemente foram publicados sobre o assunto. King et al. [3], há mais de 20 anos, demonstraram que a correção tardia da insuficiência tricúspide está relacionada a elevados índices de morbimortalidade.

Em 2005, Dreyfus et al. [4] relataram, inclusive, que o tratamento do anel tricuspídeo dilatado, independentemente do grau de insuficiência tricúspide, implica em melhor evolução da classe funcional dos pacientes no pós-operatório tardio.

As principais técnicas cirúrgicas para correção desta valvopatia incluem a bicuspidização defendida por Kay et al. [5], a redução do segmento ântero-posterior sem órteses demonstrada por De Vega [6] e a anuloplastia com utilização de órteses, chamadas de anéis, que podem ser rígidas [7], semi-rígidas [8] e maleáveis [9].

Além disso, há divergências sobre qual a melhor técnica a ser realizada, com autores defendendo desde o uso de órteses com formato tridimensional [10] a outros que preconizam a bicuspidização da valva tricúspide como um procedimento de baixo custo e eficácia comprovada [11].

McCarthy et al. [12], estudando cerca de 800 pacientes submetidos a plastia tricuspídea, demonstraram que o uso de órteses para moldar o anel tricuspídeo implica em menor taxa de regurgitação residual e maior durabilidade. No entanto, mesmo neste grande estudo, os autores não esclarecem qual a melhor maneira de medir a valva tricúspide, a fim de escolher o tamanho da órtese a ser utilizada na plastia.

Recentemente, dois trabalhos sobre a anatomia da valva tricúspide foram publicados em nosso meio e relatam as proporções entre os segmentos do anel tricuspídeo normal [13,14]. Ambos sugerem utilizar estas medidas como parâmetros para a anuloplastia da valva tricúspide.

Neste sentido, este estudo visa avaliar os resultados da anuloplastia tricuspídea "in vitro" e "in vivo", utilizando como parâmetro de medida a proporção encontrada entre os segmentos ântero-posterior e septal do anel tricuspídeo normal.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo dividido em três etapas:

• determinação da proporção entre os segmentos ânteroposterior e septal do anel tricuspídeo normal;
• aplicação desta proporção em anuloplastias da valva tricúspide com procedimentos "in vitro";
• aplicação desta proporção para anuloplastias em pacientes com insuficiência tricúspide funcional.

Método para determinação da proporção entre os segmentos ântero-posterior e septal do anel tricuspídeo normal

Esta determinação ocorreu por meio de um estudo descritivo com 30 corações de cadáveres adultos, não formolizados e que preencheram os critérios de inclusão:

• Período máximo de 6 horas post-mortem;
• Ausência de lesões congênitas ou adquiridas;
• Valvas tricúspides sem deformidades em suas cúspides, cordoalhas e músculos papilares;
• Valvas tricúspides continentes.

A continência valvar tricuspídea foi confirmada por injeção de água sob pressão no interior do ventrículo direito, estando a valva pulmonar fechada. Foram realizadas fotos digitais da valva tricúspide com o anel valvar íntegro. A análise computadorizada das imagens digitais foi efetuada utilizando o programa UTHSCSA Image Toll for Windows versão 1.28.

As comissuras ântero-septal e póstero-septal foram marcadas com tinta resistente à água, conforme padronização de Silver et al. [15]. Com estas marcações e o programa de computador foram realizadas as mensurações dos segmentos ântero-posterior e septal. Cada medida computadorizada foi realizada por cinco vezes e, após excluir o maior e o menor valor, foram calculados os tamanhos médios de cada segmento para cada coração. Com estes valores médios, calculou-se a proporção entre os segmentos.

Esta metodologia está mais detalhada em estudo recentemente publicado pelo mesmo grupo de pesquisadores [14].

Método para realização e avaliação do procedimento de anuloplastia tricuspídea "in vitro"

Esta etapa do estudo foi realizada com 15 corações de cadáveres adultos, não formolizados e que preencheram os mesmos critérios de inclusão anteriores, mas possuíam valvas tricúspides incontinentes e com anel dilatado.

As marcações das comissuras ântero-septal e pósteroseptal também seguiram a padronização conforme Silver et al. [15]. A medida do segmento septal foi feita de forma manual e com régua milimetrada. Utilizando a proporção, previamente calculada entre os segmentos ântero-posterior e septal, confeccionaram-se as órteses para a anuloplastia.

Estas órteses foram feitas com anéis maleáveis de pericárdio bovino, produzidos pela empresa Braile-Biomédica, com a extensão padronizada em 90mm. A secção da órtese foi realizada no tamanho adequado para cada valva insuficiente após determinar este valor, multiplicando-se o tamanho do segmento septal por 2,43. As órteses foram fixadas no segmento ântero-porterior do anel tricuspídeo dilatado, reduzindo-o de forma proporcional ao segmento septal. A fixação foi feita com fios de poliéster e pontos em U separados.

Após a realização da anuloplastia, foi feita nova avaliação da continência da valva tricúspide, seguindo o mesmo método padronizado e utilizado na primeira etapa deste estudo.

Aspectos éticos do estudo com órgãos de cadáveres

As duas primeiras etapas do trabalho foramdesenvolvidas junto ao Serviço de Verificação de Óbitos (S.V.O.) e autorizadas junto ao comitê de ética e órgão responsável - SETEC Serviços Técnicos Gerais da Prefeitura Municipal de Campinas.

Método para realização da anuloplastia tricuspídea em pacientes com insuficiência tricúspide funcional

Casuística

No período de maio de 2005 a junho de 2006, 11 pacientes com insuficiência tricúspide funcional, classificadas como moderadas ou mais pelo ecocardiograma pré-operatório, foram submetidos a anuloplastia tricuspídea utilizando anéis maleáveis de pericárdio bovino preservados em glutaraldeído. Estes pacientes possuíam outras cardiopatias cirúrgicas, mas não tinham intervenções prévias na valva tricúspide.

As características pré-operatórias dos pacientes estão representadas na Tabela 1.

 

 

Técnica cirúrgica

Todos os procedimentos cirúrgicos foram realizados pela equipe da Clínica Cardio Cirúrgica de Campinas, seguindo o mesmo padrão: circulação extracorpórea (CEC) com bomba centrífuga, oxigenador de membrana, canulação bicaval e cardioplegia sanguínea intermitente anterógrada e retrógrada. Após a instalação da CEC, o átrio direito era aberto e a valva tricúspide analisada, sendo excluídos os casos que possuíssem alterações degenerativas dos folhetos valvares. Primeiramente, eram realizados os outros procedimentos necessários, como revascularização miocárdica, MAZE, trocas de valvas mitral e aórtica, sendo a plastia tricuspídea o último procedimento a ser realizado. Na Tabela 2, estão representados os outros procedimentos concomitantes à anuloplastia tricuspídea.

 

 

Para realização da anuloplastia tricuspídea, localizavamse as comissuras ântero-septal e póstero-septal, seguindo a padronização de Silver et al. [15] e media-se o segmento septal com fragmento de fio cirúrgico e régua milimetrada. Da mesma forma que foi realizada a etapa do procedimento "in vitro", seccionava-se o anel maleável no tamanho adequado, utilizando a proporção estudada e o tamanho do segmento septal. Com pontos em U separados e de fio poliéster, fixava-se a órtese ao segmento ântero-posterior do anel, reduzindo-o, proporcionalmente, ao segmento septal. O teste da valva tricúspide era feito com infusão de soro fisiológico no ventrículo direito através do próprio orifício valvar, mantendo-se o tronco pulmonar comprimido e com a utilização de seringa de 60ml conectada a tubo de PVC flexível (1/4 de polegada).

Avaliação pós-operatória

O seguimento dos pacientes foi feito de forma concomitante aos cardiologistas e com seis meses de pósoperatório, todos realizaram ecocardiograma transtorácico e avaliação clínica quanto à classificação funcional da New York Heart Association (NYHA).

Comitê de ética e consentimento informado

A realização deste estudo foi autorizada pelos comitês de ética dos hospitais de atuação da equipe e os pacientes assinaram consentimento informado.

Análise estatística

Para análise estatística, a insuficiência tricúspide foi graduada em cruzes, sendo leve igual a 1+, moderada 2+ e importante 3+. Para comparação entre o pré e pós-operatório, admitiu-se valores médios fracionados, tanto para a insuficiência tricúspide como para a classe funcional.

As variáveis contínuas foram expressas pelas médias, desvios padrão e medianas. Para análise descritiva das variáveis categóricas, foram calculadas as freqüências absolutas (n) e relativas (%). As comparações entre pré e pós-operatório foram feitas com o Teste t de Student. O erro alfa admitido foi de 5%.

 

RESULTADOS

Proporção entre os segmentos ântero-posterior e septal do anel tricuspídeo normal

Os valores médios do segmento septal foi 30,6±3,7 mm (mediana 31,3) e do ântero-posterior foi 74±9,4 mm (mediana 72,1). A razão média entre o segmento ântero-posterior e o septal foi 2,43±0,212 (mediana 2,44).

A proporção entre o segmento ântero-posterior e o segmento septal, do anel da valva tricúspide normal em humanos, foi considerada igual a 2,43:1.

Resultados da anuloplastia "in vitro"

O tamanho médio do anel maleável de pericárdio bovino utilizado "in vitro" foi 71,5±5,2 mm (mediana 70). O número médio de pontos em U utilizados para a fixação da órtese foi 10,13±1,05 (mediana 10).

Todas as valvas ficaram continentes após a anuloplastia tricuspídea "in vitro".

Resultados relacionados ao tratamento cirúrgico da insuficiência tricúspide funcional

Dados técnicos

O tamanho médio do anel maleável de pericárdio bovino utilizado nos 11 pacientes submetidos a anuloplastia tricuspídea foi 73,4±6,5 mm (mediana 72). O número médio de pontos em U utilizados para a fixação da órtese foi 10,9±1,11 (mediana 11).

Mortalidade e morbidade

Houve um (9,1%) óbito no primeiro dia de pós-operatório relacionado a SIRS e falência hepática. Este paciente estava em classe funcional IV (NYHA), possuía hepatite C, hipertensão pulmonar, fibrilação atrial e duas cirurgias cardíacas prévias para plastia mitral e troca por prótese biológica.

Houve outro caso de SIRS, que evoluiu com insuficiências renal e respiratórias agudas, que foram revertidas e dois casos de choque cardiogênicos revertidos com utilização de BIA. Houve dois casos de infecção incisional profunda resolvidas. Não ocorreram casos com necessidade de marca-passo.

Seguimento pós-operatório

Na avaliação clínica com 6 meses de pós-operatório, dos pacientes que estavam em classe IV (NYHA) no préoperatório, havia um caso em classe III, dois estavam em classe II e um em classe I. Entre os pacientes em classe III no pré-operatório, apenas um evoluiu para classe II e os outros para classe I (Figura 1). Houve diferença estatística entre a classe funcional dos pacientes no pré (3,4±0,52) e pós-operatório (1,5±0,71), p<0,001. Exceto pelo óbito hospitalar, não ocorreram outros falecimentos.

 

 

Avaliação ecocardiográfica

A avaliação ecocardiográfica no pós-operatório antes da alta hospitalar demonstrou oito pacientes sem insuficiência tricúspide e dois com insuficiência leve. Na avaliação realizada com 6 meses de pós-operatório, houve um paciente que passou a apresentar insuficiência leve, totalizando três, e o outros sete pacientes mantiveram-se sem alterações (Figura 2). Houve diferença estatística entre a insuficiência tricúspide, graduada em cruzes, no pré 2,6±0,52 e pós-operatório 0,3 ±0,48 (p<0,001).

 

 

DISCUSSÃO

A causa mais freqüente de insuficiência tricúspide é a insuficiência tricúspide funcional [16,17], decorrente da dilatação do anel valvar e freqüentemente relacionada a doenças valvares envolvendo a valva mitral e/ou a valva aórtica. A correção das valvopatias à esquerda, sem concomitante resolução da insuficiência tricúspide através de abordagem cirúrgica desta valva, tem-se mostrado uma conduta que ocasiona maior morbi-mortalidade tardia. Isto ocorre em função da progressão da disfunção ventricular direita e elevados índices de reoperação [3].

Outro aspecto importante é que o diagnóstico ecocardiográfico da insuficiência tricúspide funcional nem sempre é feito corretamente nos exames pré-operatórios e a não correção desta valvopatia implica em progressão da incontinência valvar e piora da capacidade funcional dos pacientes [18]. Dreyfus et al. [4] demonstraram que a realização de anuloplastias em anéis tricuspídeos dilatados, independente do grau de insuficiência tricúspide, melhora a classe funcional no pós-operatório tardio. Neste trabalho, os autores consideraram como indicação para a anuloplastia, o diâmetro do anel tricuspídeo ser igual ou superior a 70mm - medida feita de forma linear entre as comissuras ântero-septal e ântero-posterior - e compararam um grupo com correção apenas da valvopatia mitral e outro com tratamento concomitante das valvas mitral e tricúspide. Após um seguimento médio de cinco anos, houve diferença estatística entre os grupos quanto ao grau de insuficiência tricúspide e à classe funcional (NYHA).

Neste sentido, o tratamento da insuficiência tricúspide funcional se impõe como conduta obrigatória quando há indicação [19] e como, nestes casos, a troca da valva tricúspide é uma conduta de exceção, faz-se necessária maior atenção dos cirurgiões cardiovasculares em relação às técnicas para plastia valvar. Embora ainda seja aceita a técnica de bicuspidização [5,11], há uma tendência na literatura em confirmar a redução do segmento ântero-posterior, com ou sem utilização de órteses, como a técnica de melhor resultado. A proporção de redução do anel tricuspídeo deve ser baseada em estudos anatômicos de valvas normais, mas, tanto o estudo clássico de Silver et al. [15], como em nosso meio, o trabalho de Jatene et al. [20], foram realizados com corações formolizados, o que altera a relação correta entre os segmentos do anel tricuspídeo [21]. Infelizmente, são poucos os trabalhos científicos que estudaram a valva tricúspide sem os efeitos da formolização e que possam informar qual deveria ser a adequada proporção de redução do segmento ântero-posterior.

Recentemente, dois trabalhos foram publicados nesta revista e estudaram corações sem formolização [13,14]. Buscando um estágio que mais se aproximasse da condição fisiológica, as medidas, no estudo desenvolvido pelo nosso grupo, foram realizadas em corações com distensão do VD e valva tricúspide continente [14]. A proporção encontrada entre o segmento ântero-posterior e o segmento septal, em corações com valva tricúspide normal, foi de 2,43:1.

A preocupação com a aplicação prática destas medidas e proporções entre os segmentos do anel valvar tricuspídeo foi a maior motivação desta linha de pesquisa em nosso grupo. Desta maneira, a primeira etapa deste estudo atual foi realizada com parte dos dados encontrados no estudo anterior [14], definindo como 2,43:1 a proporção para ser utilizada na anuloplastia tricuspídea.

Na segunda etapa deste estudo, a anuloplastia foi aplicada em 15 corações de cadáveres humanos que apresentavam valva tricúspide com dilatação do anel e incontinentes. Como todas as valvas se tornaram continentes, ao se reduzir o segmento ântero-posterior na proporção de 2,43:1 em relação ao segmento septal, podese afirmar que a principal causa de insuficiência nestas valvas era a dilatação do anel tricuspídeo. Desta forma, foi reproduzida em um procedimento "in vitro" uma técnica de anuloplastia possível para a insuficiência tricúspide funcional.

A escolha do anel maleável de pericárdio bovino como órtese a ser utilizada está relacionada à sua praticidade e à prévia utilização, em nosso meio, em valvoplastias mitrais [22]. A confecção prévia de anéis com extensão de 90mm permitiram, após ser realizada a medida do segmento septal, multiplicar o valor encontrado por 2,43 e seccionar o anel no tamanho adequado para ser utilizado.

Cabe ressaltar, neste momento, duas precauções tomadas nas realizações das anuloplastias. A primeira está relacionada à localização precisa das comissuras ânteroseptal e póstero-septal, a fim de realizar a correta medida do segmento septal. Silver et al. [15] demonstraram as características mais encontradas nestas comissuras e, neste estudo, foram seguidas estas recomendações. O segundo cuidado deve ser tomado com os pontos em U que, para reduzirem o anel valvar, devem ser mais extensos e próximos no tecido nativo e, mais estreitos e afastados na órtese utilizada.

A terceira etapa deste estudo foi realizada com a aplicação da proporção de 2,43:1 entre os segmentos ânteroposterior e septal na anuloplastia tricuspídea em 11 pacientes. Todos pacientes possuíam insuficiência tricúspide funcional associada a outras cardiopatias cirúrgicas, todos estavam em classe funcional III ou IV (NYHA) e 45,5% dos casos eram reoperações. Esta casuística de alto risco cirúrgico é semelhante a outros estudos sobre anuloplastia tricuspídea e todos demonstram índices elevados de morbi-mortalidade [3,10-12,19,23,24].

Apesar da pequena amostra de pacientes estudada, houve redução significativa da insuficiência tricúspide e da classe funcional (NYHA). Sem dúvida, a melhora da classe funcional não está relacionada somente ao tratamento da insuficiência tricúspide e sim ao tratamento cirúrgico completo. Deve-se observar que, em todos procedimentos, houve tratamento concomitante da valva mitral, intimamente relacionada a melhora da classe funcional. O pequeno tempo de seguimento e o número reduzido de pacientes não permitem maiores conclusões neste estudo, mas decidiu-se apresentar estes dados como resultados iniciais. Estudos futuros permitirão avaliar a durabilidade desta técnica e os fatores que podem influenciar resultados tardios.

Embora outros estudos maiores demonstrem bons resultados na anuloplastia da valva tricúspide - seja sem utilização de órteses, como na técnica de De Vega e suas variações [6,25], ou com órteses rígidas e maleáveis [7-9] - todos relatam possuírem medidores específicos para cada técnica e poucos mencionam qual a proporção de redução do anel. A proporção estudada e aplicada neste trabalho também pode ser útil para outras técnicas que visem reduzir o segmento ântero-posterior do anel valvar tricuspídeo. Sem dúvida, não há mais espaço para avaliar a anuloplastia da valva tricúspide com duas polpas digitais ou com medidores da valva mitral.

 

CONCLUSÃO

Concluindo, o uso da proporção de 2,43:1 entre os segmentos ântero-posterior e septal, como um parâmetro na anuloplastia da valva tricúspide utilizando anel maleável de pericárdio bovino, demonstrou resultados iniciais favoráveis.

 

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Endereço para correspondência:
Fernando Antoniali
Rua José Lins do Rego, 665 casa 34 Pq. Taquaral
Campinas - SP CEP: 13087-080
Fone: (19) 3241-3659 / 9790-5667 Fax: (19) 3232-3856
E-mail: ferantoniali@uol.com.br

Artigo recebido em 3 de março de 2007
Artigo aprovado em 14 de setembro de 2007

 

 

Trabalho realizado na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas – UNICAMP/Clínica Cardio Cirúrgica Campinas, Campinas, SP.