SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 issue4Myocardial revascularization in anomalous origin of the right coronary artery: case reportCase 8/2007: partial anomalous pulmonary venous connection into the right atrium with absence of interatrial communication author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • text in English
  • English (pdf) | Portuguese (pdf)
  • Article in xml format
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

Print version ISSN 0102-7638On-line version ISSN 1678-9741

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.22 no.4 São José do Rio Preto Oct./Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382007000400022 

COMUNICAÇÃO PRÉVIA

 

Variáveis capnográficas pré e pós-tromboendarterectomias pulmonares

 

 

Marcos Mello MoreiraI; Renato Giusepe Giovani TerziII; Reinaldo Wilson VieiraIII; Orlando Petrucci JuniorIV; Ilma Aparecida PaschoalV; Pedro Paulo Martins de OliveiraVI; Karlos Alexandre de Souza VilarinhoVII; Domingo Marcolino BraileVIII

IMestre; Pós-graduando do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM UNICAMP)
IIProfessor Titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas; Professor Convidado FCM UNICAMP
IIIProfessor Adjunto da Disciplina de Cirurgia Cardíaca da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas; Coordenador Disciplina de Cirurgia Cardíaca UNICAMP
IVDoutorado; Professor Assistente FCM UNICAMP
VProfessora Livre-Docente da Disciplina de Pneumologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas; Chefe Disciplina de Pneumologia – UNICAMP
VIMestre em Cirurgia - FCM UNICAMP; Médico Assistente da Disciplina de Cirurgia Cardíaca – UNICAMP
VIIMestrando em Cirurgia - FCM UNICAMP; Médico Assistente da Disciplina da Cirurgia Cardíaca – UNICAMP
VIIIProfessor Livre Docente da FAMERP e UNICAMP; Diretor Adjunto de Pós-graduação da FAMERP; Editor da RBCCV

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este relato de dois casos com os resultados da fração tardia de espaço morto (fDlate), fração do espaço morto alveolar end-tidal (AVDSf), gradiente artério-alveolar de CO2 [P(a-et)CO2] e slope da fase 3 do espirograma, submetidos à tromboendarterectomia pulmonar por tromboembolismo pulmonar (TEP). O TEP foi diagnosticado pela cintilografia pulmonar, tomografia helicoidal computadorizada e por arteriografia pulmonar. O cálculo da fDlate, AVDSf e P(a-et)CO2 baseou-se na capnografia volumétrica associada à gasometria arterial. A fDlate préoperatória do primeiro paciente foi de 0,16 (cutoff de 0,12) e a AVDSf = 0,30 (cutoff de 0,15). Já a fDlate do segundo paciente resultou falso-negativa (0,01), embora a AVDSf resultasse positiva (0,28). A fDlate pós-operatória do primeiro paciente foi de -0,04 e a AVDSf de 0,16; a fDlate do segundo paciente foi de 0,07 e a AVDSf = 0,28. A associação destas variáveis com os exames por imagem reforça a importância deste método como ferramenta diagnóstica não-invasiva no diagnóstico de TEP.

Descritores: Embolia pulmonar. Troca gasosa pulmonar. Capnografia.


 

 

INTRODUÇÃO

Sabe-se que podem ocorrer mortes inesperadas por tromboembolismo pulmonar (TEP) e que a anticoagulação é freqüentemente efetiva em reduzir a possibilidade de um novo fenômeno embólico e a morte. Por este motivo, em pacientes com suspeita de TEP, seriam desejáveis métodos não-invasivos e disponíveis a serem incorporados como parte da avaliação à beira do leito. Técnicas à beira do leito para avaliar pacientes com TEP baseiam-se em alguns parâmetros respiratórios derivados do espaço morto alveolar. Porém, estas variáveis têm algumas limitações pelas dificuldades de diferenciar pacientes com TEP daqueles com outras doenças pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC). Para superar esta dificuldade, Eriksson et al. [1] descreveram um método gráfico para extrapolar o gradiente artério-alveolar (P(a-et)CO2) a uma virtual expiração tardia, denominando esta variável de fração tardia de espaço morto (fDlate). Os autores realizaram um estudo em 38 pacientes com suspeita de TEP e observaram que a fDlate era superior a 0,12 em indivíduos normais e, em pacientes com DPOC, a fDlate era inferior a 0,12. Outra variável capnográfica, a fração do espaço morto alveolar end-tidal (AVDSf) [2], calculada pela expressão matemática PaCO2 - PetCO2 / PaCO2, "corrigiu" o resultado falso-negativo da fDlate. Neste relato de dois casos, foi possível correlacionar os resultados de imagem com a fDlate, a AVDSf e o gradiente artério-alveolar de CO2 [P(a-et)CO2], antes e após a tromboendarterectomia cirúrgica da artéria pulmonar.

 

MÉTODO

Paciente 1

Paciente de 69 anos, do sexo masculino, deu entrada na UTI após internação na enfermaria com história de dispnéia, palpitações e tosse seca; negava pneumopatia e tabagismo. Ao exame físico, o pulso era arrítmico, apresentava hepatomegalia discreta. A gasometria arterial revelava hipoxemia (PaO2 = 48,8 mmHg) e hipocapnia (PaCO2 = 31mmHg). O ecocardiograma mostrou aumento moderado do ventrículo direito, hipertensão de artéria pulmonar com a pressão sistólica estimada em 76 mmHg e trombo no átrio direito com dimensões aproximadas de 30 X 20 mm. Com a hipótese diagnóstica inicial de TEP, foi iniciada a anticoagulação plena com heparina não-fracionada. O paciente foi mantido em oxigenioterapia com máscara de Venturi. A cintilografia pulmonar de ventilação/perfusão mostrou múltiplas áreas de hipoperfusão compatíveis com embolização pulmonar difusa.

A tomografia computadorizada helicoidal (TCH) demonstrou a presença de trombos nas artérias pulmonares direita e esquerda, estendendo-se até seus ramos segmentares posteriores. Considerando a história de mais de duas semanas de evolução e por estar mantendo estabilidade clínica e hemodinâmica, suspeitou-se de embolia crônica, extensa, sendo contra-indicada a trombólise química. Após a avaliação hemodinâmica, foi realizada tromboendarterectomia pulmonar [3].

Paciente 2

Paciente de 42 anos, sexo masculino, portador da síndrome anticorpo antifosfolípide, tabagista há 15 anos (um maço/dia), apresentava ao exame físico dispnéia aos pequenos esforços e normotenso. A gasometria arterial revelou hipoxemia com PaO2 = 64,9mmHg, PaCO2 = 31,4mmHg e sO2 = 92,9%. O ecocardiograma mostrou hipertensão de artéria pulmonar com a pressão sistólica estimada em 75 mmHg, trombo volumoso (17 x 67 mm) aderido à parede anterior do ventrículo direito (VD), obstruindo sua via de saída. A cintilografia pulmonar demonstrou falha de perfusão nos segmentos basais do pulmão esquerdo e direito. A TCH mostrou falha de enchimento em VD, compatível com trombo em artéria interlobar descendente esquerda, com áreas de infarto pulmonar em lobo inferior esquerdo. Este paciente foi considerado para tratamento cirúrgico em virtude da obstrução de VD, além de apresentar trombo na artéria pulmonar direita, evidenciado pela arteriografia. A artéria pulmonar esquerda estava livre de êmbolos.

A capnografia volumétrica foi registrada com o Monitor de Perfil Respiratório CO2SMO Plus 8100á Dixtal/Novametrix. Os dados capnográficos foram gravados por um período de três a cinco minutos, com os pacientes em ar ambiente e, em seguida, foi colhida uma gasometria arterial [4]. A fDlate foi calculada após a determinação PetCO2 tardia, ou seja, extrapolada a 15% da Capacidade Pulmonar Total (CPT), de acordo com Eriksson et al. [1].

PaCO2 é a pressão parcial de CO2 no sangue arterial; Pet (15%CPT) CO2 é a pressão parcial de CO2 no ar expirado extrapolada para 15% da CPT. CPT (Capacidade Pulmonar Total), obtida de tabela previamente publicada e baseada na idade, peso e altura do paciente [3].

Para cálculo da AVDSf [2] foi utilizada a seguinte expressão:

Técnica operatória

No paciente 1, foi realizada arteriotomia pulmonar com tromboendarterectomia dos seus ramos direito e esquerdo, com o auxílio de circulação extracorpórea em hipotermia profunda e parada circulatória total. Após arteriorrafia e aquecimento do paciente, a circulação extracorpórea foi interrompida. O paciente teve alta no sexto dia de pósoperatório. No paciente 2, foi retirado trombo volumoso com aproximadamente 70 mm de diâmetro, que ocluía a via de saída do VD e tromboendarterectomia na artéria pulmonar direita, com auxílio de circulação extracorpórea, sem uso de hipotermia profunda e o paciente recebeu alta no 13º dia pós-operatório. Antes da alta, ambos foram submetidos à nova cintilografia pulmonar de perfusão, que evidenciou melhora significativa no paciente 1. No paciente 2, observou-se discreta melhora da perfusão nos terços médio e superior de ambos os pulmões, piora nos segmentos dos lobos inferiores e melhora da dispnéia aos pequenos esforços. Os valores pré e pós-cirúrgicos da fDlate, AVDSf, P(a-et)CO2 e slope 3 podem ser vistos na Tabela 1.

 

DISCUSSÃO

Verschuren et al. [5] observaram que, após trombólise química para TEP, o valor do Slope 3 aumentou, o que refletiu melhora da perfusão e conseqüente diminuição do espaço morto alveolar e da P(a-et)CO2. Em outro estudo, Thys et al. [6] observaram melhora da AVDSf e P(a-et)CO2 após mesmo tratamento. Com o procedimento cirúrgico observamos o mesmo, tanto para o paciente 1, com confirmação pela cintilografia de controle, quanto para o paciente 2. O paciente 2 apresentou coerência nas variáveis capnográficas, quando comparadas à cintilografia de controle, embora referisse melhora clínica.

Em resumo, o paciente 1 apresentou diagnóstico de TEP pelos valores do fDlate e AVDSf, que se confirmaram pelas imagens no pré e a melhora das mesmas no pós-operatório, bem como as variáveis capnográficas. O paciente 2 apresentou diagnóstico por TEP pelas duas variáveis capnográficas estudadas e métodos de imagem no pré operatório, contudo, no pós-operatório, a fDlate demonstrou melhora e o AVDSf não, o que foi confirmado pelos métodos de imagem, havendo então uma falsa melhora do fDlate. Assim, as duas variáveis capnográficas devem ser utilizadas em conjunto para uma melhora da especificidade e sensibilidade do método.

Paschoal et al. [7], comparando dados capnográficos de uma amostra de 108 pacientes com suspeita de TEP e 114 voluntários saudáveis, identificaram o valor do Slope 3 dos voluntários foi de 7,80±2,36. O primeiro paciente apresentou um valor médio de Slope 3 (Tabela 1) pouco maior que o do grupo controle, o que pode explicar o fato da variável AVDSf resultar maior quando comparada com a fDlate, ao passo que o segundo paciente apresentou o dobro do valor do Slope 3, o que explica o fato de uma fDlate falso-negativa. A fDlate está diretamente relacionada ao Slope 3, o que não acontece com a variável AVDSf e a P(a-et)CO2. Tal situação sugere que, quando um paciente apresentar Slope 3 maior que o valor do grupo controle, deva ser considerada a AVDSf e a P(a-et)CO2, a fim de, evitar provável resultado falso-negativo para a fDlate. De qualquer forma, ao se aplicar as duas variáveis, obteve-se 100% de sensibilidade para TEP.

Em recente estudo utilizando dados clínicos, D-Dímero e a AVDSf, Rodger et al. [8] afirmam que, ao aplicar duas variáveis deste protocolo em pacientes que chegam à Sala de Emergência com suspeita de TEP, pode-se reduzir em 36% a solicitação de exames de imagem.

Por outro lado, em países em desenvolvimento, os exames por imagem nem sempre estão disponíveis. Por esse motivo, métodos não-invasivos que possam excluir a possibilidade de TEP reduziriam, de forma considerável, o número de pacientes submetidos, desnecessariamente, aos exames por imagem, mesmo em hospitais onde estes exames estão disponíveis. Os exames não invasivos poderiam também ser usados em pequenos hospitais onde estes exames por imagem não estão disponíveis, objetivando selecionar pacientes a serem transferidos para instituições de referência para investigação por imagem.

Nos casos relatos, foram apresentados dois pacientes com diagnóstico de TEP confirmado pela imagem e pela capnografia volumétrica quando esta foi utilizada criteriosamente, levando em consideração as informações até aqui conhecidas.

Limitações do estudo

A amostra de apenas dois pacientes, sem dúvida, é uma limitação, mas o que está sendo colocado no trabalho é uma proposta de diagnóstico que deva ser melhor estudada no futuro.

 

REFERÊNCIAS

1. Eriksson L, Wollmer P, Olsson CG. Diagnosis of pulmonary embolism based upon alveolar dead space analysis. Chest. 1989;96(2):357-62.         [ Links ]

2. Rodger MA, Jones G, Rasuli P, Raymond F, Djunaedi H, Bredeson CN, et al. Steady-state end-tidal alveolar dead space fraction and D-dimer: bedside tests to exclude pulmonary embolism. Chest. 2001;120(1):115-9.         [ Links ]

3. Moreira MM, Terzi RGG, Vieira RW, Petrucci Jr O. Fração tardia do espaço morto (fDlate) antes e após embolectomia pulmonar. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2005;20(1):81-4.         [ Links ]

4. Grimby G, Söderholm B. Spirometric studies in normal subjects. III Static lung volumes and maximum voluntary ventilation in adults with a note on physical fitness. Acta Med Scand. 1963;173:199-205.         [ Links ]

5. Verschuren F, Heinonen E, Clause D, Roeseler J, Thys F, Meert P, et al. Volumetric capnography as a bedside monitoring of thrombolysis in major pulmonary embolism. Intensive Care Med. 2004;30(11):2129-32.         [ Links ]

6. Thys F, Elamly A, Marion E, Roeseler J, Janssens P, El Gariani A, et al. PaCO(2)/ETCO(2) gradient: early indicator of thrombolysis efficacy in a massive pulmonary embolism. Resuscitation. 2001;49(1):105-8.         [ Links ]

7. Paschoal IA, Moreira MM, Pereira ST. Noninvasive evaluation of pulmonary disease using volumetric capnography in adult patients with chronic pulmonary obstructive disease. J Cystic Fibrosis 2007;6(suppl. I):S38.         [ Links ]

8. Rodger MA, Bredeson CN, Jones G, Rasuli P, Raymond F, Clement AM, et al. The bedside investigation of pulmonary embolism diagnosis study: a double-blind randomized controlled trial comparing combinations of 3 bedside tests vs ventilation-perfusion scan for the initial investigation of suspected pulmonary embolism. Arch Intern Med. 2006;166(2):181-7.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Orlando Petrucci Jr.
Rua João Baptista Geraldi, 135
Res Barão do Café - Barão Geraldo
Campinas – SP. CEP 13085-020
E-mail: orlandopetrucci@gmail.com

Artigo recebido em 26 de julho de 2007
Artigo aprovado em 9 de outubro de 2007

 

 

Trabalho realizado no Hospital de Clínicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Campinas, SP.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License