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Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

Print version ISSN 0102-7638On-line version ISSN 1678-9741

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.24 no.2 São José do Rio Preto Apr./June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382009000200026 

CORRELAÇÕES CLÍNICO-CIRÚRGICAS

 

Conexão anômala parcial de veias pulmonares com comunicação interventricular: a rara e possível dificuldade na definição anatômica de isomerismo atrial esquerdo

 

 

Ulisses Alexandre CrotiI; Domingo Marcolino BraileI; Arthur Soares Souza JrII; Antônio Soares SouzaII

IServiço de Cirurgia Cardiovascular Pediátrica de São José do Rio Preto - Hospital de Base - Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto - São José do Rio Preto, SP, Brasil
IIServiço de Radiologia Pediátrica do Hospital de Base - Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e Ultra-X Diagnóstico por Imagem de São José do Rio Preto - São José do Rio Preto, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

DADOS CLÍNICOS

Criança com 9 meses, 7 kg, sexo masculino, natural de Fronteira, MG. Nascido a termo com 3,3 kg, no 10º dia de vida foi observado sopro cardíaco, porém encaminhado ao cardiologista pediátrico com 5 meses por cansaço às mamadas, transpiração excessiva e ganho de peso inadequado. Com a clínica orientando para cardiopatia congênita com hiperfluxo pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva (ICC) presente, foi solicitado radiografia de tórax, eletrocardiograma e ecocardiograma, os quais foram complementados pela tomografia computadorizada de múltiplos detectores (TCMD).

Em uso de digital e diurético, no exame físico apresentava-se em bom estado geral, afebril, acianótico e taquidispneico. Ictus cordis posicionado à direita, ritmo cardíaco regular em dois tempos, sopro sistólico ejetivo ++/4+ em borda esternal direita média. Ausculta pulmonar com estertores bolhosos esparsos. Abdome flácido, fígado a 3 cm do rebordo costal esquerdo. Pulsos palpáveis e simétricos nos quatro membros.

 

ELETROCARDIOGRAMA

Ritmo sinusal, frequência 150 bat/min. PR 80ms, QRS 80ms e QT 200ms. Onda P negativa em D1 e AVL característica de situs inversus totalis. Possível sobrecarga de ventrículo direito (Figura 1).

 

 

RADIOGRAMA

Discreto aumento da silhueta cardíaca com ápice para a direita, índice cardiotorácico de 0,71. Sinais de aumento da trama vascular pulmonar com características de hiperfluxo. Nota-se compressão na parede lateral direita da porção distal da traquéia, sugerindo arco aórtico à direita. Fígado horizontalizado (Figura 2A). No perfil, observa-se aumento da cavidade ventricular anterior (contato maior que 2/3 com o esterno) e, nos hilos pulmonares, duas artérias epibrônquicas e brônquios com o mesmo comprimento (Figura 2B).

 


 

ECOCARDIOGRAMA E TOMOGRAFIA

O ecocardiograma diagnosticou situs inversus totalis em dextrocardia, comunicação interatrial (CIA) ostium secundum de pequeno tamanho, comunicação interventricular (CIV) ampla, estenose valvar pulmonar de grau discreto por espessamento das válvulas e fusão comissural, veia ázigo dilatada drenando na veia cava superior (VCS) localizada à esquerda próxima ao átrio direito (AD) também posicionado à esquerda. Presença de veia drenando anormalmente na região posterior do AD posicionado à esquerda, o que sugere serem veias pulmonares esquerdas, caracterizando conexão anômala parcial de veias pulmonares esquerdas (CAPVP) no AD. Ao Doppler havia gradiente médio entre o ventrículo direito e o tronco pulmonar (TP) de 24 mmHg e ausência de gradiente significativo pela CIV.

A TCMD, além da CAPVP, concluiu que havia isomerismo atrial esquerdo, com as veias pulmonares que drenavam o pulmão à esquerda e a VCS desembocando no átrio à esquerda, que apresentava características de átrio esquerdo (AE), e as veias pulmonares que drenavam o pulmão à direita desembocando no átrio à direita também com características de AE. A veia cava inferior (VCI) continuava-se como veia ázigo, a qual drenava na VCS posicionada à esquerda. Também havia uma CIA e o arco aórtico era à direita (Figuras 3A e 3B).

 


 

DIAGNÓSTICO

A clínica de ICC na presença de CAPVP e CIV foram soberanas e suficientes para indicar a correção cirúrgica, porém os dados conflitantes quanto ao situs ficou evidente com o exame físico, o eletrocardiograma e o ecocardiograma, que sugeriam situs inversus totalis. A radiografia com brônquios de mesmo comprimento e fígado horizontalizado era favorável a isomerismo atrial esquerdo, indo de encontro com os achados da TCMD que demonstravam dois brônquios com configuração de esquerdos, simétricos, selados; duas artérias pulmonares epibrônquicas e ambos os pulmões bilobulados, além da presença de poliesplenia e interrupção da VCI, que constitui dado extremamente fidedigno de isomerismo atrial esquerdo. Também o fato de haver duas veias pulmonares esquerdas drenando para o átrio posicionado à esquerda apontava para isomerismo atrial esquerdo, o qual foi confirmado durante a operação.

Importante salientar que o aspecto externo do apêndice atrial não é o melhor selo de morfologia direita ou esquerda, devendo-se valorizar a presença de trabeculações na parede inferior do átrio para caracterizá-lo como direito ou ausência delas para designar um átrio como esquerdo [1].

 

OPERAÇÃO

Com o cirurgião posicionado à esquerda do paciente, como já descrito anteriormente para pacientes com situs inversus totalis [2], após a toracotomia transesternal mediana e abertura do saco pericárdico foi possível observar as características externas do coração, sendo de difícil definição se o átrio posicionado à esquerda era anatomicamente direito ou esquerdo (Figura 4).

 

 

Independentemente do aspecto externo, a operação consistiu em confecção de bolsas circulares em aorta com fio de polipropileno 5-0 e em VCS e veias supra-hepáticas com fio de polidioxanona 6-0. Heparinização com 4 mg/kg e introdução de cânulas de diâmetros adequados para o peso.

Iniciada a circulação extracorpórea convencional, hipotermia a 25ºC, pinçamento aórtico, abertura do átrio posicionado à esquerda, encontrado duas veias pulmonares do pulmão esquerdo drenando neste átrio, sendo uma veia pulmonar mais alta e próxima à grande VCS à esquerda e a outra próxima do septo interatrial e mais medial com relação à posição da VCS e as veias supra-hepáticas. A parede interna do átrio era lisa, sem trabeculações, sugerindo estarmos realmente diante um isomerismo atrial esquerdo (Figura 5).

 

 

Observada a CIA pequena em posição alta no septo interatrial, ressecada toda a lâmina da fossa oval e verificado que havia possibilidade de redirecionamento de fluxo de todas as veias pulmonares para a valva mitral.

O TP, posicionado à direita e anterior, foi aberto anteriormente e a valva pulmonar era totalmente normal, com três válvulas, sem espessamentos ou fusões e com diâmetro adequado para o peso da criança. A via de saída do ventrículo direito, posicionado à direita, também era absolutamente normal e de calibre adequado. O TP foi suturado com polipropileno 5-0.

A CIV era muscular de via de entrada do ventrículo direito. Para evitar qualquer risco de bloqueio, foram passados oito pontos em "U" de polipropileno 6-0 ancorados em almofadas de pericárdio bovino, todos distantes das bordas e superficialmente na parede do ventrículo direito, que estava anterior e à direita. A CIV foi fechada com grande placa de pericárdio bovino como habitualmente. A valva tricúspide necessitou três pontos ancorando a válvula septal à anterior para manter-se totalmente competente e sem estenose.

O redirecionamento de fluxo de todas as veias pulmonares foi possível com uma grande placa de pericárdio bovino, que foi suturada da borda mais alta do septo interatrial, posicionando-se em direção inferior à VCS e anterior às veias pulmonares que drenavam do pulmão esquerdo, de tal forma que permitia a orientação do fluxo das veias pulmonares para a valva mitral e o sangue da VCS e supra-hepáticas para a valva tricúspide.

O átrio posicionado à esquerda foi fechado com polipropileno 5-0 após a retirada adequada de ar das cavidades esquerdas e direitas. O tempo de perfusão foi de 111 minutos e isquemia miocárdica, 82 minutos.

A evolução na Unidade de Terapia Intensiva foi habitual, com drogas inotrópicas nas primeiras 48 horas. A alta hospitalar ocorreu no 9º dia de pós-operatório em uso de digital e diurético. O ecocardiograma realizado 3 meses após a operação, apesar das dificuldades técnicas, demonstrou fisiologia normal reconstituída sem defeitos residuais.

 

AGRADECIMENTO

À Profª Dra. Vera Demarchi Aiello, pelas orientações e discussão do caso.

 

REFERÊNCIAS

1. Sharma S, Devine W, Anderson RH, Zuberbuhler JR. The determination of atrial arrangement by examination of appendage morphology in 1842 heart specimens. Br Heart J. 1988;60(3):227-31.         [ Links ]

2. Croti UA, Braile DM, Kozak MF, Kozak ACLFBM. Correlação clínico-cirúrgica. Caso 1/2005 - Serviço de Cirurgia Cardíaca Pediátrica - Hospital de Base da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2005;20(1):94-5.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Ulisses Alexandre Croti
Hospital de Base - FAMERP
Avenida Brigadeiro Faria Lima, 5544
CEP 15090-000 - São José do Rio Preto, SP, Brasil
E-mail: uacroti@uol.com.br

Artigo recebido em 5 de maio de 2009
Artigo aprovado em 1 de junho de 2009

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