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Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.25 no.4 São José do Rio Preto Oct./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382010000400006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação e recondicionamento pulmonar ex vivo

 

 

Paulo Manuel Pêgo-FernandesI; Alessandro Wasum MarianiII; Israel Lopes de MedeirosII; Artur Eugenio de Azevedo PereiraII; Flávio Guimarães FernandesIII; Fernando do Valle UnterpertingerIII; Mauro CanzianIV; Fabio Biscegli JateneV

IMD, PhD; Associate Professor, Department of Thoracic Surgery, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP, University of São Paulo School of Medicine - São Paulo, Brazil
IIMD; Doctoral Student. Postgraduate Program in Thoracic and Cardiovascular Surgery, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP, University of São Paulo School of Medicine - São Paulo, Brazil
IIIMedical Student of the Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP, University of São Paulo School of Medicine - São Paulo, Brazil
IVMD, PhD, Medical Assistant. Department of Pathology, Heart Institute - Incor, University of São Paulo School of Medicine -São Paulo, Brazil
VMD, PhD, Full Professor. Department of Thoracic Surgery, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP, University of São Paulo School of Medicine - São Paulo, Brazil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Apenas 15% dos pulmões doados são aproveitados para transplante. Um novo método de Perfusão Pulmonar Ex Vivo (PPEV) foi desenvolvido e pode ser usado para avaliação e recondicionamento de pulmões "marginais" e rejeitados para o transplante. Esse trabalho relata nossa experiência com a avaliação funcional da PPEV.
MÉTODOS: Foram estudados pulmões de 12 doadores considerados inapropriados para transplante pulmonar. Após a captação, os pulmões são perfundidos ex vivo com Steen Solution, uma solução de composição eletrolítica extracelular com alta pressão coloidosmótica. Um oxigenador de membrana ligado ao circuito recebe uma mistura gasosa (nitrogênio e dióxido de carbono) e "desoxigena" o perfusato, mantendo uma concentração de gases semelhante a do sangue venoso. Os pulmões são gradualmente aquecidos, perfundidos e ventilados. A avaliação dos órgãos é feita por gasometrias e medidas como a resistência vascular pulmonar (RVP) e complacência pulmonar (CP).
RESULTADOS: A PaO2 (FiO2 100%) passou de um valor médio de 193,3 mmHg no doador para 495,3 mmHg durante a PPEV. Após uma hora de PPEV, a RVP média era de 737,3 dinas/seg/ cm5 e a CP era de 42,2 ml/cmH2O.
CONCLUSÕES: O modelo de avaliação pulmonar ex vivo pode melhorar a capacidade de oxigenação de pulmões "marginais" inicialmente rejeitados para transplante. Isso denota um grande potencial do método para aumentar a disponibilidade de pulmões para transplante e, possivelmente, reduzir o tempo de espera nas filas.

Descritores: Transplante de pulmão. Preservação de órgãos. Lesão pulmonar.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde que foi realizado o primeiro transplante de pulmão em humano, na década de 60, houve grande aprimoramento nas técnicas cirúrgicas e anestésicas, além do desenvolvimento de novos métodos de preservação pulmonar e drogas imunossupressoras. Tais mudanças fizeram do transplante uma terapia efetiva e bem estabelecida para várias pneumopatias em estágio terminal. Infelizmente, o aumento do número de transplantes não acompanhou o grande aumento do número de pacientes incluídos nas listas de espera. Essa desproporção, causada principalmente pela escassez de doadores, resulta em aumento da mortalidade em lista [1].

Atualmente, apenas 15 a 20% dos pulmões disponibilizados para transplante (doadores em morte encefálica) são realmente utilizados [2]. Dados nacionais mostram uma realidade ainda pior. No estado de São Paulo, em 2006, somente 4% dos pulmões doados para transplante foram usados. No mesmo período, a taxa de aproveitamento de fígado e rins foi superior a 90%, segundo dados da Secretaria de Saúde do Estado [3]. Os motivos de recusa mais frequentes foram a gasometria insatisfatória (30,1%) e a presença de infecção (23,7%). Isso se deve à maior suscetibilidade dos pulmões aos efeitos deletérios da morte cerebral (insuficiência endócrina, instabilidade hemodinâmica, hipotermia, resposta inflamatória) e às complicações da internação em UTI (ventilação mecânica prolongada, pneumonia nosocomial, barotrauma, infusão excessiva de cristaloides).

Nos últimos anos, várias estratégias foram propostas para tentar aumentar o número de pulmões transplantados, incluindo transplante intervivos, uso de doadores com coração parado e doadores "marginais". Essas estratégias, entretanto, ficaram limitadas a um pequeno número de pacientes, em decorrência de limitações técnicas e éticas, não tendo o impacto esperado sobre o número de transplantes [4].

A perfusão pulmonar ex vivo (PPEV) é um novo método que possibilita a inspeção cuidadosa dos pulmões removidos, além de medidas hemodinâmicas e ventilatórias, e avaliação da troca gasosa. Essa técnica foi usada pela primeira vez em humanos, quando um pulmão de um doador com coração parado foi transplantado por Steen et al. [4], na Suécia, em 2000. A PPEV começou, então, a ser aplicada para recondicionamento de pulmões rejeitados para o transplante. Esses pesquisadores publicaram no início de 2009 [5] os seis primeiros transplantes de pulmões inicialmente rejeitados (PaO2 média nos doadores = 158,25 mmHg) e recondicionados através da PPEV (PaO2 média após PPEV = 515,25 mmHg).

Este trabalho demonstra um estudo com avaliação funcional da PPEV, e tem por objetivo avaliar a sua aplicação em pulmões humanos rejeitados para transplante e a sua capacidade de recondicioná-los, ou seja, de melhorar a troca gasosa.

 

MÉTODOS

Para a pesquisa foram utilizados pulmões de doadores em morte cerebral notificados pela Central de Transplante do Estado de São Paulo, no período de abril a julho de 2009, sendo incluídos aqueles que estivessem em hospitais daárea de cobertura das Organizações de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital das Clínicas da FMUSP e da Santa Casa de Misericórdia, e que fossem rejeitados pelas equipes de transplante pulmonar com base nos critérios de seleção padronizados pela International Society of Heart and Lung Transplantation (ISHLT). Foram excluídos os casos em que os familiares ou responsáveis recusaram participação na pesquisa. Todo o protocolo, incluindo o termo de consentimento livre e esclarecido, foi aprovado pelaComissão de Ética da nossa instituição.

A captação segue a técnica rotineiramente empregada pela equipe de transplante pulmonar, descrita brevemente a seguir.

O doador é posicionado em decúbito dorsal horizontal, com coxim sob as escápulas. Realiza-se a esternotomia mediana com abertura do pericárdio e das pleuras mediastinais. Na presença de aderências pleuropulmonares, estas são desfeitas neste momento. Realiza-se dissecção e reparo das veias cavas superior (VCS) e inferior (VCI). Disseca-se a janela aorto-pulmonar, liberando-se o plano posterior entre a aorta e a artéria pulmonar direita, para permitir a colocação de pinça hemostática na aorta. Uma sutura em bolsa é realizada com fio de polipropileno 4-0 no tronco pulmonar e introduz-se a cânula de perfusão. Após a heparinização do doador com 250 a 300 U/kg, aplicase 0,5 mg de alprostadil (prostaglandina E1) no tronco da artéria pulmonar.AVCS é ligada e a VCI é seccionada acima do diafragma. Após pinçamento da aorta ascendente, inicia-se a perfusão pulmonar com 50 a 60 ml/kg de Perfadex (Vitrolife, Gothenburg, Suécia) a 4ºC. A aurícula esquerda deve ser aberta para que ocorra drenagem da solução dos pulmões. Como alternativa à secção da aurícula esquerda, o átrio esquerdo pode ser aberto junto às veias pulmonares, sem, no entanto, comprometê-las. Solução salina gelada deve ser colocada nas cavidades pleurais para o resfriamento dos órgãos, enquanto todo o sangue do doador é aspirado.

Durante todo o processo de perfusão, a ventilação é mantida, a fim de permitir perfeita distribuição da solução de preservação e evitar atelectasias. Terminadas as perfusões, as cânulas são retiradas e inicia-se a extração dos órgãos. As veias pulmonares de cada lado devem estar unidas através de um cuff atrial, com a presença de tênue camada de musculatura do átrio esquerdo. A VCS é seccionada logo abaixo da ligadura, liberando-a da artéria pulmonar direita. A aorta é seccionada próximo ao local de pinçamento, o tronco pulmonar seccionado antes da sua bifurcação e o coração é retirado definitivamente. Inicia-se a liberação dos pulmões através dos ligamentos pulmonares. Gentilmente, libera-se todo o tecido mediastinal anterior ao esôfago, até 2 ou 3 anéis acima da carina. Procedemos à retirada em bloco das estruturas torácicas, incluindo todo o pericárdio e estruturas adjacentes, a fim de evitar lesões à traqueia, artéria e veias pulmonares. Liberados os pulmões e dissecada a traqueia distal, esta é pinçada, com os pulmões insuflados, seccionada neste nível, sendo o bloco, então, retirado do campo operatório. Os pulmões são imersos em soro fisiológico gelado e transportados em gelo.

Após 10 horas de isquemia fria, inicia-se a PPEV. O sistema de perfusão é formado por conjunto de tubos, reservatório venoso, oxigenador de membrana todos do modelo infantil (Figura 1). Completam o sistema um trocador de calor e uma bomba centrífuga (Braile Biomédica, São José do Rio Preto, SP, Brasil). Durante nossa experiência inicial, duas modificações técnicas foram importantes para a melhora do protocolo: a utilização do sistema de circulação extracorpórea infantil, que possibilitou considerável redução no volume do perfusato, e o uso da bomba centrífuga para um controle mais preciso do fluxo de artéria pulmonar [6].

 

 

O bloco pulmonar é colocado em uma caixa rígida transparente (Vitrolife, Gothenburg, Suécia). Uma sonda orotraqueal é introduzida e fixada na traqueia. Uma cânula de perfusão (Vitrolife, Gothenburg, Suécia) é introduzida no tronco da artéria pulmonar (Figura 2). Esta cânula possui uma sonda embutida para acoplamento em um transdutor de pressão, possibilitando monitorização contínua da pressão de artéria pulmonar (PAP). O retorno da solução pelas veias pulmonares é realizado diretamente para a caixa de contenção, sendo drenado para o reservatório venoso por gravidade. O sistema é preenchido com 1500 ml de Steen Solution (Vitrolife, Gothenburg, Suécia). Esta é uma solução de composição eletrolítica extracelular, que contém albumina e dextran. Optamos por não usar sangue na circulação, a exemplo do que faz o grupo de Toronto, as hemácias circulantes sofrem danos mecânicos durante a perfusão, o que pode agravar a injúria de isquemia-reperfusão.

 

 

Usamos como fluxo de perfusão, 40% do débito cardíaco (DC) estimado (DC = 3 X área de superfície corpórea). Iniciamos a PPEV com a solução na temperatura de 20ºC e um fluxo inicial de 10% do calculado. A temperatura é gradualmente elevada até 37ºC nos primeiros 30 minutos. O fluxo também sobe lentamente, atingindo 30% do calculado em 30 minutos, e alcançando o fluxo máximo por volta de 60 minutos. Se a PAP atinge 20 mmHg antes do fluxo máximocalculado, este é mantido em um valor mais baixo. É imprescindível que a PAP seja mantida abaixo de 20 mmHg para minimizar a formação de edema. Quando a temperatura chega a 32ºC (geralmente após 20 minutos do início da PPEV), a ventilação é iniciada. Nesse momento, um fluxo de gás (CO2 7% + N2 93%) é administrado ao sistema através do oxigenador de membrana para "desoxigenar" o perfusato, de forma que o mesmo, ao entrar na artéria pulmonar, tenha uma composição gasosa semelhante ao sangue venoso. Manobras de recrutamento até uma pressão máxima de 25 cmH2O podem ser realizadas para desfazer eventuais atelectasias.

O ventilador é mantido com os seguintes ajustes: volume corrente de 6 a 8 ml/kg, frequência de 7/min, FiO2 de 100% e PEEP de 5 cmH2O, esta estratégia de ventilação é protetora para evitar quaisquer traumas adicionais. Após 60 minutos de PPEV, o perfusato que sai pelas veias pulmonares é colhido para análise gasométrica. Os seguintes parâmetros são analisados: PaO2, PaCO2, resistência vascular pulmonar (RVP) e complacência pulmonar (CP). A RVP era calculada pela PAP menos a pressão de átrio esquerdo (sempre zero já que não havia átrio e a drenagem das veias pulmonares era livre) multiplicado por 80 e dividido pelo fluxo de perfusão. A CP era calculada pelo volume corrente dividido pela diferença entre a pressão de via aérea (Pplatô) e a PEEP.

A análise dos dados foi feita com o programa SPSS 17.0. Dados referentes a variáveis contínuas foram expressos como média (± erro padrão da média). Um teste t de medidas pareadas foi usado para comparar as medidas antes e depois da PPEV. Valores de P < 0,05 foram aceitos como significantes.

 

RESULTADOS

Foram incluídos no estudo pulmões de doze doadores com idade média de 50,4 anos (± 6,9), sendo seis homens e seis mulheres. A principal causa de óbito foi o acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico (sete casos). A maioria dos doadores (10 casos) foi recusada para transplante pulmonar por gasometria insatisfatória, ou seja, PaO2 < 300 mmHg com FiO2 de 100% e PEEP de 5 cmH2O. O tempo médio de permanência intubado sob ventilação mecânica foi de 6,1 dias (± 1,2). As características dos doadores estão descritas na Tabela 1.

A PaO2 média (com FiO2 100%) colhida do doador logo antes da captação foi de 193,3 mmHg (± 42,16). Após 60 minutos de PPEV, a PaO2 média (com FiO2 100%) era de 495,3 mmHg (± 13,27). A diferença entre as duas amostras (PaO2 in situ vs. PaO2 ex vivo) foi significativa (p < 0,001) (Figura 3). A pressão parcial (média) de O2 no perfusato que entrava na artéria pulmonar (venoso) durante a PPEV era de 83,3 mmHg (± 12,66), demonstrando que a mistura gasosa aplicada ao sistema realmente "desoxigenava" o perfusato. A Tabela 2 mostra os valores individuais de PaO2.

 

 

 

 

A resistência vascular pulmonar média durante a PPEV foi de 737,3 dynes/seg/cm5 (± 130) e a complacência pulmonar média foi de 42,2 ml/cmH2O (± 7,42).

 

DISCUSSÃO

A reduzida taxa de aproveitamento de pulmões doados para transplante é responsável pelo aumento da mortalidade nas filas de espera pelo órgão. Em todo o mundo, somente 15% dos pulmões doados são extraídos e implantados. Várias estratégias, como o uso de doadores "marginais", foram propostas para tentar aumentar o número de transplantes, mas nenhuma foi realmente efetiva.

A perfusão pulmonar ex vivo surge como um método capaz de fazer uma avaliação mais precisa desses órgãos, incluindo medidas hemodinâmicas e ventilatórias, além de recuperá-los, tornando possível o seu uso em pacientes da fila de espera. Isso é particularmente útil no caso de pulmões rejeitados por uma gasometria insatisfatória (PaO2 < 300 mmHg), reflexo de uma troca gasosa inadequada.

Em nosso estudo, 10 doadores foram rejeitados por uma gasometria ruim. Os outros dois apresentavam gasometria satisfatória: um deles foi rejeitado por pneumonia (presença de secreção purulenta na broncoscopia) e outro pela ausência de um receptor compatível. Após a PPEV, houve melhora significativa do índice de oxigenação (PaO2/FiO2) em todos os casos. Os dez casos rejeitados por gasometria ruim passaram a ter uma PaO2 acima de 400 mmHg, o que possibilitaria seu uso para transplante (na ausência de outras contraindicações). A explicação para o sucesso do método parece estar no fato de que a perfusão é feita em normotermia (a perfusão hipotérmica aumenta a RVP), de forma lenta e gradual (a PAP é mantida sempre abaixo de 20 mmHg), o que evita a formação de edema. Além disso, a alta pressão coloidosmótica da solução de perfusão (Steen Solution) permite a mobilização e remoção de fluido alveolar e intersticial, reduzindo o edema pulmonar.A PPEV também possibilita a inspeção e palpação de todo o pulmão e, por meio de manobras de recrutamento, pode-se desfazer áreas de atelectasia persistente. Sem a interferência das estruturas rígidas da caixa torácica e diafragma, todo o volume fornecido pelo ventilador é distribuído diretamente aos pulmões, melhorando a relação ventilação/perfusão.

Em 2006, Wierup et al. [7] publicaram estudo com metodologia semelhante, sendo que dos seis doadores estudados, três atingiram PaO2 > 400 mmHg após PPEV, dois ficaram com PaO2 entre 300 e 400 mmHg, e um caso permaneceu com a PaO2 < 300 mmHg. Nesse estudo, a RVP média durante a PPEV foi de 400 dynes/seg/cm5. Nossos casos tiveram uma RVP média mais alta (737 dynes/seg/cm5); isso pode ser explicado pelo maior tempo de isquemia fria em nossa amostra (10 horas contra 7 horas no estudo de Wierup et al. [7]), além de uma seleção mais ampla de doadores. Nosso estudo incluiu pacientes com pneumonia e intubação prolongada (tempo médio de ventilação mecânica de 6 dias contra 2 dias de Wierup et al. [7]).

Ingemansson et al. [5], em 2009, publicaram seis casos de transplante pulmonar, cujos órgãos foram inicialmente rejeitados e recondicionados por meio da PPEV. A sobrevida em 90 dias foi de 100%. Um paciente morreu em decorrência de sepse depois de 95 dias e outro por rejeição após 9 meses. Quatro pacientes estão vivos e bem, sem sinais de bronquiolite obliterante 24 meses depois do transplante [5]. Cypel et al. [8], em Toronto, desenvolveram uma estratégia de perfusão e ventilação pulmonar ex vivo que permitiu que a PPEV fosse mantida em normotermia por 12 horas sem formação de edema, com uma RVP, pressão de via aérea e capacidade de oxigenação estáveis em todo o período. Essa nova metodologia possibilita não só a avaliação e preservação pulmonar ex vivo, mas também a aplicação de novas terapias farmacológicas ou moleculares, na tentativa de recuperar pulmões doados e rejeitados para transplante. Possíveis aplicações incluem o uso de perfusatos com alta pressão osmótica e beta-adrenérgicos para acelerar a remoção de edema, além da perfusão com antibióticos em altas doses para tratar pneumonias e fibrinolíticos para remover trombos na circulação pulmonar.

A PPEV tem grande potencial para o recondicionamento de pulmões doados e rejeitados para transplante. Esse método pode aumentar o número de pulmões aceitos para transplante por recuperar casos recusados devido a PaO2 insatisfatória. Novos estudos são necessários para determinar possíveis alterações histológicas nos órgãos submetidos à PEV.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Central de Transplantes da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, à Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital das Clínicas da FMUSP,à Organização de Procura de Órgãos (OPO) da Santa Casa de São Paulo, à Braile Biomédica, à Farmoterápica e à Vitrolife.

 

REFERÊNCIAS

1. de Perrot M, Snell GI, Babcock WD, Meyers BF, Patterson G, Hodges TN, et al. Strategies to optimize the use of currently available lung donors. J Heart Lung Transplant. 2004;23(10):1127-34.         [ Links ]

2. Botha P, Trivedi D, Weir CJ, Searl CP, Corris PA, Dark JH, et al. Extended donor criteria in lung transplantation: impact on organ allocation. J Thorac Cardiovasc Surg. 2006;131(5):1154-60.         [ Links ]

3. Fernandes PM, Samano MN, Junqueira JJ, Waisberg DR, Noleto GS, Jatene FB. Lung donor profile in the State of São Paulo, Brazil, in 2006. J Bras Pneumol. 2008;34(7):497-505.         [ Links ]

4. Steen S, Sjöberg T, Pierre L, Liao Q, Eriksson L, Algotsson L. Transplantation of lungs from a non-heart-beating donor. Lancet. 2001;357(9259):825-9.         [ Links ]

5. Ingemansson R, Eyjolfsson A, Mared L, Pierre L, Algotsson L, Ekmehag B, et al. Clinical transplantation of initially rejected donor lungs after reconditioning ex vivo. Ann Thorac Surg. 2009;87(1):255-60.         [ Links ]

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7. Wierup P, Haraldsson A, Nilsson F, Pierre L, Scherstén H, Silverborn M, et al. Ex vivo evaluation of nonacceptable donor lungs. Ann Thorac Surg. 2006;81(2):460-6.         [ Links ]

8. Cypel M, Yeung JC, Hirayama S, Rubacha M, Fischer S, Anraku M, et al. Technique for prolonged normothermic ex vivo lung perfusion. J Heart Lung Transplant. 2008;27(12):1319-25.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Paulo Manuel Pêgo Fernandes
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44, 2ª andar, Bloco II, Sala 9
São Paulo, SP, Brasil - CEP 05403-900
E-mail: paulopego@incor.usp.br

Artigo recebido em 20 de agosto de 2010
Artigo aprovado em 22 de outubro de 2010
Este estudo recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e empresas Farmoterápica e Braile Biomédica.

 

 

Trabalho realizado no Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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