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Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.26 no.1 São José do Rio Preto Jan./Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382011000100003 

EDITORIAL

 

O Cirurgião

 

 

Domingo Braile

Editor da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

 

 

O médico sempre existiu e sempre existirá! Nas sociedades mais primitivas lá estava ele a exercer sua arte, decorrente de um impulso interior, independente de qualquer interesse ou vontade própria. Podemos citar como exemplos, sem o interesse de ser completos: pajés, curandeiros, xamãs, carimbambas, abençoadeiros, rezadores, feiticeiros, parteiras e Barbeiros Cirurgiões.

Estes últimos são o antigo repositório dos conhecimentos que ao longo dos anos acabou por criar uma grande especialidade dentro da Medicina. Guarda com ela relações estreitas, mas depende de habilidades absolutamente peculiares daqueles que a exercem.

O Barbeiro Cirurgião levava consigo os toscos instrumentos de trabalho existentes na época e seu próprio hospital, geralmente uma carruagem puxada a cavalos. Vagava de cidade em cidade, oferecendo seus préstimos àqueles que sofriam de males incuráveis pela medicina não invasiva daqueles tempos.

Seus conhecimentos eram passados de geração em geração por mestres que ensinavam a seus discípulos as técnicas por eles desenvolvidas ou aprendidas ao longo de suas vidas. As doenças que podiam ser tratadas cirurgicamente eram poucas e sempre acompanhadas de enorme risco e grande sofrimento, pois, infecções e hemorragias eram uma constante e a anestesia era ainda apenas um sonho.

Os Barbeiros Cirurgiões nem sempre eram bem sucedidos em seus procedimentos e a morte dos pacientes não era um evento raro. Quando tal ocorria fugiam na calada da noite, antes que fossem massacrados pelas famílias e amigos do falecido. Um dos requisitos indispensáveis para que pudessem safar-se da morte, eram os cavalos que puxavam seus Hospitais Ambulantes: Tinham que ser muito fortes e velozes para que a fuga fosse bem sucedida!

Com a evolução, estes homens dotados de qualidades inatas que lhes permitiam penetrar as entranhas dos seus semelhantes, foram sendo admitidos nas escolas médicas, passando a fazer parte da elite daqueles que se dedicavam a dominar os conhecimentos da anatomia, fisiologia e patologia, os pilares mestres que transformariam a medicina empírica, em ciência.

Mas a arte continuou a fazer parte do cotidiano dos cirurgiões, pois, por mais que ele seja conhecedor das ciências se lhe faltarem as habilidades, jamais terá sucesso.

O advento da anestesia geral, ocorrido em 16 de outubro de 1846, pela insistência do dentista prático, William Thomas Green Morton, permitiu que o cirurgião John Collins Warren, do Massachusetts General Hospital, em Boston, extirpasse um tumor do pescoço do jovem Gilbert Abbot de 17 anos, que dormiu durante todo o procedimento, sem sentir qualquer dor. Estava aberto o campo da Cirurgia Moderna como a conhecemos hoje.

Neste curto período de apenas 160 anos, quase nada na evolução milenar da humanidade, a cirurgia atingiu limites nunca antes imaginados. A entubação endotraqueal, tão simples no conceito, mas tão difícil de ser admitida, permitiu adentrar o tórax dos pacientes e tornar a anestesia mais segura e reprodutível.

A possibilidade das operações do coração a céu aberto, com circulação extracorpórea desenvolvida por John Gibbon em 1953, foi um marco definitivo da cirurgia como ciência. A possibilidade mais recente de realizar operações vídeo assistidas com mínimas incisões avança célere para tornar o cirurgião cada vez menos agressivo e o paciente mais tolerante às intervenções.

Existe um aforismo antigo, que jamais deve ser esquecido: o organismo não permite grandes invasões e reage a elas com a síndrome de resposta inflamatória, muitas vezes mortal, ou de difícil controle. Fica clara, portanto, a importância das operações minimamente invasivas, um novo e grande avanço da cirurgia.

Todo este progresso foi conseguido a duras penas e com grandes investimentos na pesquisa e desenvolvimento de equipamentos que se tornam cada vez mais tecnologicamente complexos. Tornou-se imperativa a construção de Salas Hibridas, onde o cirurgião possa exercer sua atividade com auxilio de toda a tecnologia necessária.

São teatros operatórios de dimensões apropriadas nos quais é possível dispor de aparelhos de imagem de alta resolução, equipamentos de radioscopia e videoscopia, com seus sistemas de iluminação, ultrassonografia e ecocardiografia simples ou tridimensional, assim como de equipamentos avançados para monitoração online de todas as constantes vitais.

São indispensáveis sistemas de anestesia confiáveis e automatizados e todos os dispositivos de suporte a vida, como bombas de circulação extracorpórea, oxigenadores, aparelhos para ecmo e ecla. São estes apenas alguns dos auxílios que permitirão ao cirurgião trabalhar sem limitação de iluminação e visibilização de todos os vasos, órgãos e estruturas do corpo humano, usando os procedimentos mais indicados de acordo com a necessidade do paciente.

Poderá o operador utilizar-se de uma intervenção endovascular definitiva, ou complementa-la com cirurgia minimamente invasiva, ou ainda converte-la em um procedimento a céu aberto, oferecendo o máximo de segurança e de resultado positivo ao enfermo, que nele depositou toda sua confiança.

Como decorrência, a equipe multidisciplinar de saúde deve ser cada vez mais treinada e conhecedora das ciências puras, para trabalhar com o grande arsenal de aparelhos que existem no hospital moderno. Estes equipamentos representam a expressão dos avanços tecnológicos que permearam de maneira maiúscula o século XX e o milênio em que vivemos.

O futuro da Cirurgia passa por incorporação de técnicas cada vez mais avançadas provenientes, dos mais variados campos da investigação científica, desde a criação do CCD (Charge-coupled device-que vemos em qualquer câmara fotográfica digital) até as fantásticas conquistas necessárias para tornar realidade as viagens espaciais.