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Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.26 no.1 São José do Rio Preto Jan./Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382011000100026 

HOMENAGEM

 

Iseu Affonso da Costa, pioneiro da cirurgia cardíaca brasileira: meu pai, nosso orgulho!

 

 

Francisco Diniz Affonso da Costa

Membro Titular da SBCCV

 

 

 

Fazer homenagem póstuma a meu pai me leva a sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que me remete para a dor e a tristeza da perda irreparável, me enche de alegria e orgulho homenageá-lo, em nome da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular.

Iseu de Santo Elias Affonso da Costa, filho de Francisco Jejuhy Affonso da Costa e Iva Pereira Corrêa, nascido em Paranaguá, em 27 de outubro de 1926, mudou-se com a família para Curitiba quando ainda era adolescente. Após iniciar o curso de Medicina na Faculdade de Medicina do Paraná (1945-1947), formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em 1950. Uma característica marcante de sua personalidade era a erudição, tanto em cultura geral, como também do conhecimento científico. No curso de Medicina, isso se traduziu com os prêmios Paulo Montenegro e Prof. Edmundo Vasconcellos, por obter as melhores notas da turma no 4º ano e nas disciplinas de cirurgia, respectivamente.

A residência médica foi feita em São Paulo, onde foi o primeiro discípulo do Professor Euryclides de Jesus Zerbini, e por quem sempre cultivou admiração especial. Desta fase, ele me contou algumas passagens, histórias marcantes e até "heroicas" dos pioneiros da cirurgia cardíaca nacional.

Para aprimorar seus conhecimentos na então emergente especialidade de cirurgia cardiovascular, foi bolsista Heller, na Escola de Medicina da Universidade de Stanford; bolsista da Fundação Alexander Von Humboldt, em Düsseldorf e em Munique; e professor visitante na Universidade da Califórnia, em Irvine.

Sua carreira profissional sempre esteve ligada às atividades acadêmicas. Terminada a residência médica no Hospital das Clínicas da USP, iniciou suas funções docentes como instrutor de ensino no curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1957. Neste mesmo ano, tornou-se livre-docente de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental, com a tese "Contribuição experimental para o estudo do emprego de próteses de nylon e homoenxertos conservados em álcool etílico, na substituição de segmentos da aorta torácica". Curiosamente, passados mais de 50 anos, nosso grupo de pesquisa na PUCPR ainda investiga o efeito do álcool etílico como tratamento anticalcificante em próteses biológicas e na tecnologia de descelularização e engenharia de tecidos com homoenxertos valvares, e muitas de nossas "conclusões" já estavam demonstradas no seu trabalho original.

Em 1961, foi transferido, como professor assistente, para a cadeira da 2ª Clínica Cirúrgica. Galgou todos os cargos da carreira universitária, até que em 1978, foi aprovado em concurso para Professor Titular, apresentando a tese "Substituição da valva mitral pela prótese de Lilehei-Kaster". Aposentou-se da Universidade em 1994. Durante sua vida acadêmica, apresentou temas em 165 eventos científicos no país e exterior e atuou como conferencista, relator ou dirigente 174 vezes. Foi autor ou colaborador de 64 trabalhos médicos e cinco capítulos de livros.

Tendo sido residente em cirurgia torácica e cardiovascular na UFPR, pude apreciar de perto o seu cotidiano no Hospital de Clínicas. Dedicava, de forma rotineira, todas as manhãs para o ensino. Além de operar, dava aulas na graduação e pós-graduação, passava visitas nas enfermarias e participava de reuniões clínicas e cirúrgicas, sem contar as atividades burocráticas, tais como a Chefia da Disciplina de Cirurgia Torácica e Cardiovascular, Chefia do Departamento de Cirurgia, Coordenador do Mestrado em Clínica Cirúrgica, Coordenador do Setor de Ciências da Saúde, entre outras. Carismático, teve a admiração dos seus pares, residentes, estudantes e dos funcionários do hospital. Chamava a atenção sua capacidade de relacionamento direta, interessada e harmoniosa com todos a sua volta, independente do outro ser um professor do alto escalão universitário ou um funcionário com atribuições mais simples. Essa atitude era ainda mais marcante com os pacientes, com quem ele adorava falar em alemão, polonês, e até mesmo em latim. Observá-lo nas enfermarias era uma constante aula da importância do relacionamento médico/paciente, algo que parece estar se perdendo na prática médica atual.

Foi um dos pioneiros da cirurgia cardíaca no Paraná e responsável por estruturar, em 1967, o serviço de cirurgia cardíaca do Hospital de Caridade da Santa Casa de Curitiba, e, em 1975, o serviço de cirurgia cardíaca infantil do Hospital Pequeno Príncipe. Apesar de ter se envolvido em todas as subespecialidades da cirurgia cardíaca, teve especial interesse nas doenças valvares e no transplante cardíaco. Com sua orientação e apoio, pudemos desenvolver a Cardioprótese e o Banco de Valvas Cardíacas Humanas da Santa Casa de Curitiba. Foi, também, um grande incentivador da implantação da Aliança Saúde PUCPR-Santa Casa, homologada em 27 de agosto de 1999. Desde então ele ocupou, até a sua morte, o cargo de vice-provedor da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba.

Além da cirurgia cardíaca, teve intensa atuação em atividades culturais e associativas. Foi presidente da Associação Médica do Paraná, de 1973 a 1975; vice-presidente da Associação Médica Brasileira; Conselheiro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular; Presidente da Sociedade Paranaense de Cirurgia Cardíaca; Presidente do Conselho Cultural da Fundação Santos Lima e Acadêmico fundador da Academia Paranaense de Medicina. No Conselho Regional de Medicina-CRM-PR, deixou sua marca quando, junto com o Dr. Carlos Ravazzani, fizeram a exposição permanente "Pioneiros da Medicina do Paraná", inaugurada em 2003.

Localizada no primeiro andar do prédio, os 30 painéis trazem um rico registro histórico da Medicina no Estado. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná há mais de 30 anos, era o seu 2º vice-presidente. Era um apaixonado pela história paranaense e, em especial, pela história da Medicina. Escreveu numerosos artigos sobre a história da Medicina paranaense, publicados em jornais da capital e em boletins do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e da Academia Paranaense de Medicina, além dos livros: "Szymon Kossobudzki - Patrono do Ensino da Cirurgia no Paraná" (1989), "História da Cirurgia Cardíaca Brasileira" (1996), "O Ensino da Medicina na Universidade Federal do Paraná", junto com Eduardo Corrêa Lima (1997-2007) e "Patronos da Academia Paranaense de Medicina" (2003-2010) e os opúsculos "O primeiro alemão de Curitiba" e "Os descendentes de Julia Guilhermina Muller Caillot e José de Santo Elias Affonso da Costa" (2007). Recebeu o título de Professor Emérito da UFPR, em 1993; Diploma de Honra ao Mérito pelos serviços prestados, conferido pelo Hospital de Clínicas da UFPR, em 1995, e o título de Cidadão Honorário de Curitiba, em 1999.

Dedicado à família, foi exemplo de patriarca. Cuidou de todos, e foi sábio em suas orientações, sem a necessidade de impor suas ideias. Quando um dos filhos fazia algo que lhe parecesse errado, ele não chamava a atenção, mas simplesmente fazia um comentário jocoso, que marcava mais do que uma repreensão. Assim, liderou a família de forma natural, e sempre teve todos a seu lado.

Para suas realizações, contou sempre com o amor e apoio incondicional de sua esposa Arlete, companheira inseparável por 52 anos. Poliglota, coxa-branca, possuidor de um senso de humor refinado, gostava de um bom papo, e também de cinema, música clássica, pintura, charuto, cachimbo, apreciador de um bom vinho e uma dose de um bom uísque. Vítima de um AVC faleceu em Curitiba, em 4 de novembro de 2010, aos 84 anos. Estou convicto de que foi um homem feliz, e cumpriu plenamente sua missão. Deixa viúva Arlete Diniz Affonso da Costa, três filhos, Francisco, Julia e André, e quatro netos Ana Cláudia, Ana Beatriz, Pedro e Antônia. Em nome deles, o nosso amor eterno. Em nome da SBCCV, o muito obrigado por sua liderança autêntica, pelo legado e ensinamentos de vida.