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Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.26 no.3 São José do Rio Preto July/Sept. 2011

https://doi.org/10.5935/1678-9741.20110033 

RELATO DE CASO

 

Migração de fio de kirschner transfixando artéria aorta torácica ascendente

 

 

Danilo Felix Daud; Marcos Menezes Freitas de Campos

Pós-graduação; Médico; Cirurgião Torácico do Hospital Geral de Palmas - TO

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A migração de pinos e hastes metálicas ortopédicos para a cavidade torácica é rara e pouco descrita na literatura médica, embora seja potencialmente fatal, principalmente quando atingem o coração ou grandes vasos intratorácicos. Reportamos um caso de migração de fio de Kirschner, implantado na clavícula direita há 10 anos, transfixando a aorta torácica em sua porção ascendente, sendo retirado por toracotomia póstero-lateral esquerda.

Descritores: Fios ortopédicos. Dor no peito. Migração de corpo estranho.


 

 

INTRODUÇÃO

As fraturas de clavícula e desarticulações esterno-claviculares são frequentes após lesões traumáticas do tórax. Em alguns casos, os cirurgiões ortopédicos necessitam utilizar hastes metálicas para fixar e estabilizar estas fraturas [1].

Fios de Kirschner são frequentemente usados para realizar osteossínteses.

A migração destes fios através dos tecidos, apesar de rara, é bem conhecida e diversas complicações significativas da fixação da clavícula já foram descritas, com a migração destes para a cavidade torácica, causando perfuração de medula espinal, esôfago, pulmão, traqueia, artéria inominada, coração, pericárdio e grandes vasos [2-5].

 

RELATO DE CASO

Descrevemos o caso de um paciente do sexo masculino, de 47 anos de idade, com antecedente de acidente automobilístico e fratura de clavícula direita havia 10 anos, tratada cirurgicamente com a fixação da mesma com uso de fio de Kirschner.

Sem retornar ao serviço de ortopedia por período prolongado, o paciente procurou o atendimento médico no hospital de referência em Araguaína, Tocantins, com manifestação de dor torácica desde aproximadamente quatro meses.

A radiografia de tórax realizada demonstrou a presença de uma imagem metálica de aproximadamente 10 cm de comprimento, em projeção central (Figura 1). No hospital de referência foi indicada toracotomia exploradora e, durante a sua realização, na presença do corpo estranho transfixante à aorta, a equipe cirúrgica local decidiu por interromper o procedimento e encaminhar para o Serviço de Cirurgia Torácica do Hospital Geral de Palmas, Tocantins.

 

 

Na complementação do estudo de imagem, a tomografia computadorizada do tórax revelou a presença da haste em posição mediastinal, e com a informação da toracotomia realizada anteriormente concluiu-se a situação de corpo estranho transfixante à porção ascendente da aorta (Figuras 2 e 3).

 

 

 

 

Pela toracotomia póstero-lateral esquerda, abordou-se a transfixação. Com liberação da porção ascendente na face posterior, dissecção da porção descendente da aorta torácica e reparando os orifícios de entrada e saída com pontos em U preparados com reforço de feltro foi possível remover o fio de Kirschner em segurança e sem sangramento. Considerando o tempo de permanência do fio na luz da aorta, houve a formação de camada de fibrina em torno do corpo estranho, sendo que uma manobra de torção do fio foi necessária para remoção sem lacerar a parede do vaso, como também o pinçamento momentâneo da artéria carótida como prevenção quanto ao eventual êmbolo de fibrina.

O paciente apresentou evolução clínica satisfatória, e radiografia de tórax realizada 48 horas após a cirurgia confirmou ausência de corpo estranho. O paciente recebeu alta hospitalar no 4º dia pós-operatório e permaneceu em acompanhamento ambulatorial, sem as queixas de dor torácica prévias.

 

DISCUSSÃO

A migração de pinos e hastes ortopédicos colocados ao redor dos ombros para o interior da cavidade torácica tem sido pouco reportada, mas é uma complicação bem conhecida desde que foi descrita pela primeira vez, em 1943 [6]. Alguns autores publicaram revisões de literatura, como Lyons & Rockwood, em 1990 (47 casos) [7],e Freund et al., em 2007 (68 casos) [2], demonstrando a quantidade de casos desta complicação se acumulando ao redor do mundo.

O tempo decorrente da cirurgia ortopédica na clavícula para a migração para o tórax da haste metálica utilizada varia de um dia até 21 anos [7]. Seu mecanismo ainda não está claro, porém a movimentação do ombro, os movimentos respiratórios, a pressão negativa intratorácica, a força gravitacional e a reabsorção óssea local estão provavelmente envolvidos.

Apesar de a literatura mostrar migração mediastinal e perfuração de coração, grandes vasos, esôfago, traqueia, pulmão, entre outros, não encontramos nenhum caso descrito de haste metálica transfixando a artéria aorta ascendente e permanecendo naquela posição sem repercussões hemodinâmicas.

O uso de pinos e hastes metálicas utilizados para fixar fraturas e desarticulações na região dos ombros são procedimentos comuns na prática ortopédica, com bons resultados quando utilizados em casos apropriados. O relato de complicações contribui para as observações sequenciais ao tratamento.

 

REFERÊNCIAS

1. Marchi E, Reis MP, Carvalho MV. Transmediastinal migration of Kirschner wire. Interact Cardiovasc Thorac Surg. 2008;7(5):869-70.         [ Links ]

2. Freund E, Nachman R, Gips H, Hiss J. Migration of a Kirschner wire used in the fixation of a subcapital humeral fracture, causing cardiac tamponade: case report and review of literature. Am J Forensic Med Pathol. 2007;28(2):155-6.         [ Links ]

3. Wu YH, Lai CH, Luo CY, Tseng YL. Tracheoinnominate artery fistula caused by migration of a Kirschner wire. Eur J Cardiothorac Surg. 2009;36(1):214-6.         [ Links ]

4. Mamane W, Breitel D, Lenoir T, Guigui P. Spinal migration of a Kirschner wire after surgery for clavicular nonunion. A case report and review of the literature. Chir Main. 2009;28(6):367-9.         [ Links ]

5. Nakayama M, Gika M, Fukuda H, Yamahata T, Aoki K, Shiba S, et al. Migration of a Kirschner wire from the clavicle into the intrathoracic trachea. Ann Thorac Surg. 2009;88(2):653-4.         [ Links ]

6. Mazet R. Migration of a Kirschner wire from the shoulder region into the lung: report of two cases. J Bone Joint Surg Am. 1943;25:477-83.         [ Links ]

7. Lyons FA, Rockwood CA Jr. Migration of pins used in operations on the shoulder. J Bone Joint Surg. 1990;72(8):1262-7.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Danilo Felix Daud
508 Norte, QI 04, Alameda 06, lote 15; Plano Diretor Norte
Palmas, TO, Brasil - CEP: 77006-654
E-mail: danilodaud@uol.com.br

Artigo recebido em 3 de maio de 2010
Artigo aprovado em 21 de julho de 2010

 

 

Trabalho realizado no Hospital Geral de Palmas - TO, Brasil.

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