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Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

Print version ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.27 no.1 São José do Rio Preto Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.5935/1678-9741.20120022 

ESPECIAL 100 ANOS PROFESSOR ZERBINI

 

Euryclides de Jesus Zerbini - 100 anos

 

 

Ricardo C. LimaI; José Wanderley NetoII

IChefe do Departamento de Cirurgia do PROCAPE/Faculdade de Ciências Médicas/UPE. Recife, PE, Brasil

IIChefe do Departamento de Cirurgia Cardiovascular da Santa Casa de Misericórdia de Maceió e Professor Adjunto da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL, Brasil

 

 

HOMENAGEM AOS 100 ANOS DO NASCIMENTO DO PROFESSOR ZERBINI

 

 

"Operar é divertido, é uma arte, é ciência e faz bem aos outros"

Euryclides de Jesus Zerbini

A cirurgia cardíaca brasileira esteve sempre presente no cenário da cardiologia mundial, com vários e importantes atores que foram e ainda são responsáveis por esse brilhantismo. Entretanto, um em especial teve destaque marcante e seu nome não só está, como deverá permanecer sempre presente e lembrado por todos os amantes da cardiologia e do povo brasileiro em geral.

Euryclides de Jesus Zerbini é esse ator mor que se estivesse entre nós estaria completando, em 10 de maio de 2012, 100 anos de existência. Natural de Guaratinguetá, Estado de São Paulo, nasceu em modesta casa na área rural, no dia 10 de maio de 1912. Seu nascimento foi prematuro e de tão pequeno se acomodava muito bem numa caixa de sapato. Cresceu numa família de cinco filhos e o pai italiano, naturalizado brasileiro, professor de curso primário, foi o responsável pela decisão de Zerbini cursar Medicina. Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), adquiriu excelente reputação e, em 1933, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, conheceu o famoso cirurgião Alípio Corrêa Netto, o qual se tornou seu mentor e inspirador de toda a sua carreira. Graduouse em medicina em 1935 e se especializou em cirurgia geral. A intervenção cardíaca era ainda algo raro na Medicina e o coração era o tabu dos cirurgiões.

Quatro anos após sua formatura, foi indicado pelo professor Alípio Corrêa Netto como primeiro assistente da disciplina e chefe da Divisão Médica da Faculdade de Medicina da USP.

Foi na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo onde Zerbini realizou sua primeira cirurgia cardíaca, num paciente de seis anos de idade, em estado de choque, em tamponamento cardíaco após traumatismo torácico. Ele abriu o pericárdio, retirou o fragmento do coração e ligou a artéria descendente anterior, que se encontrava lesada. Embora, nos dias atuais não seja a conduta indicada, o caso foi publicado no Journal of Cardiac Surgery, em 1943, tendo sido uma grande contribuição naquela época.

Após período de um ano nos Estados Unidos da América (EUA), Zerbini retorna ao Brasil e realiza a segunda cirurgia de Blalock-Taussig, seguido da primeira cirurgia de ligadura de canal arterial, num homem de 18 anos e a primeira cirurgia de coarctação da aorta no País. Introduz a hipotermia no tratamento de defeitos congênitos do coração, tipo comunicação interatrial. Mas, com o desenvolvimento da máquina coração-pulmão artificial por Walton Lillehei, Zerbini juntamente com sua esposa, Dra. Dirce Costa e os estudantes Adib Jatene, Delmont Bittencourt e Geraldo Verginelli seguem para Minneapolis, EUA, para visitar o serviço do Dr. Lillehei e aprender sobre os primeiros passos da cirurgia com circulação extracorpórea.

Zerbini inicia o uso da máquina coração-pulmão artificial, somente um ano após o trabalho pioneiro de Hugo Felipozzi realizando a primeira cirurgia com circulação extracorpórea no Brasil. Em 1958, começa seu esforço no tratamento da tetralogia de Fallot e, dez anos após, já tinha uma experiência de 480 pacientes operados. Nessa época, foi convidado para ministrar a "Honored Guest Lecture", na American Association for Thoracic Surgery, com o título: "The surgical treatment of Fallot complex: late results".

A fase inicial da cirurgia cardíaca aberta foi marcada por uma altíssima mortalidade (30%) para diferentes doenças. Juntamente com Rui Gomide do Amaral, identificou os distúrbios do equilíbrio ácido-básico, causados pela circulação extracorpórea, como o principal vilão, adquirindo o primeiro medidor de pH do Brasil.

No início de 1960, surgiram as primeiras válvulas cardíacas artificiais. As válvulas mecânicas começaram a ser produzidas no Brasil, por iniciativa de Adib Jatene, entretanto, essas próteses, por necessitarem de anticoagulação, representavam um grave problema de manuseio médico. Na tentativa de resolver tal dificuldade, Zerbini, Puig e Verginelli introduziram no Brasil a válvula biológica, de dura-máter homóloga. Os resultados foram excelentes e possibilitou o seu uso em todo o país e também no exterior. Apesar da solução referente à anticoagulação ter sido resolvida, essa válvula apresentava problemas técnicos e logísticos, tendo sido descontinuada, dando início às válvulas de pericárdio bovino e às de porco, confeccionadas por diversos laboratórios no país.

No final dos anos 60, o mundo recebia notícia de grande impacto referente ao primeiro transplante de coração realizado na África do Sul, por Christian Barnard. Logo após, somente cinco meses após o feito magistral de Barnard, em 25 de maio de 1968, Zerbini realizava o 17º transplante de coração do mundo (Figura 1) e, em 26 de setembro do mesmo ano, realizava, também com sucesso, o 2º transplante. Teve um grande reconhecimento de toda a sociedade brasileira, tornando-se um verdadeiro ídolo, vindo a ser homenageado pelos governos em seus diversos níveis, sociedades médicas e a própria gente do povo.

 

 

A cirurgia cardíaca brasileira brota a partir de uma série de eventos importantes, tendo vários cirurgiões de grande prestígio no exterior vindo ao Brasil e visto o trabalho pioneiro e avalassador empreendido por Zerbini e seu grupo. Denton Cooley foi um dos cirurgiões que estiveram por mais de uma vez em São Paulo, visitando o serviço do Professor Zerbini. Isso levou também a um desenvolvimento interno, sendo Recife e Curitiba as duas cidades brasileiras a realizar cirurgia cardíaca aberta com circulação extracorpórea fora do eixo Rio-São Paulo. Também a interiorização da cirurgia cardíaca foi feita por um dos seus principais discípulos, Professor Domingo Braile, que implantou, em 1963, de forma vitoriosa, um serviço de cirurgia cardíaca em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Também um dos mais destacados discípulos, Professor Costabile Gallucci, criou o centro de cirurgia cardíaca na Escola Paulista de Medicina, UNIFESP, vindo esse centro se tornar conhecido em todo o mundo, em decorrência dos trabalhos do Professor Ênio Buffolo na cirurgia coronária sem auxílio da circulação extracorpórea.

Dois grandes legados deixados por Zerbini foram a criação da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV) e o Instituto do Coração de São Paulo (INCOR). A SBCCV é uma sociedade ativa, com mais de 1.000 sócios, que realiza um grande congresso anual, onde são apresentados trabalhos de importante relevância científica, além de ser responsável pela certificação do título de especialista em cirurgia cardiovascular. A SBCCV também possui a Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (RBCCV), considerada a melhor publicação da área em toda a América Latina, como também tem o reconhecimento da comunidade científica internacional com sua indexação no Medline. Recentemente, a RBCCV teve a divulgação pelo ISI Thomson Reuters de seu primeiro Fator de Impacto (FI). O índice de 0,963 foi altamente expressivo em se tratando de uma primeira avaliação, segundo seu editor-chefe, Prof. Domingo Braile. O INCOR, por sua vez, está diretamente ligado à Universidade de São Paulo, sendo responsável pela formação de recursos humanos de qualidade na área médica/cardiologia e também com produção científica de alta qualidade, com inúmeras publicações em periódicos nacionais e internacionais (Figura 2).

 

 

O outro grande legado deixado pelo Professor Zerbini foi a capacidade da cirurgia cardíaca brasileira procurar seu próprio caminho para sobrevivência, criando e desenvolvendo sua própria tecnologia. Vários eminentes nomes da cirurgia cardíaca brasileira contribuíram para essa semente plantada por Zerbini, entre eles: Delmont Bittencourt, Geraldo Verginelli, Adib Jatene, Dagoberto Conceição, Rubens Arruda, Domingo Braile, Antonio Freitas Netto, Euclides Marques, Seigo Tsuzuki, Noedir Stolf, Otoni Gomes, Miguel Barbero-Marcial, Sérgio Almeida de Oliveira, Luiz Boro Puig, Magnus Rosa de Souza, Ruy Gomide do Amaral, Domingo Junqueira de Moraes, Waldir Jazbik e Marcos Cunha. Hoje, várias indústrias genuinamente brasileiras estão instaladas no Brasil, produzindo para o mercado interno e externo, entre elas: Biocor, Labcor, DMG e Braile Biomédica. Os produtos ofertados por essas indústrias suprem todo o mercado nacional de cirurgia cardíaca.

Tudo que Zerbini fez, o fez bem. Foi um árduo trabalhador, sendo reconhecido pelos discípulos e levando a SBCCV criar o prêmio intitulado: "O operário do Coração", porque era assim que ele se considerava. Repetia com frequência: "Omnia vincit labor" - nada resiste ao trabalho. Trabalhou até os últimos dias de sua vida, sempre preocupado com a transmissão do conhecimento da cardiologia (Figura 3).

 

 

Após aposentar-se da sua carreira universitária, permaneceu ativo e atuante operando em seu serviço privado no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo e viajando pelo Brasil inteiro ensinando e motivando as pessoas a continuarem sua obra. Foi grande a sua contribuição para introdução dos transplantes de coração no Norte e Nordeste. Sua última participação em eventos científicos foi em Maceió no IX Encontro dos Discípulos do Prof. Zerbini, em agosto de 1992 (Fig. 4).

 

 

Era o ano em que completava 80 anos de vida e participou com entusiasmo e vigor de toda programação cientifica e atividades sociais. Foi seu último concerto. Mais que um médico era um artista que cativava e encantava a todos. Meses depois apareceu a doença que o tirou fisicamente de nós. Suas idéias ficaram e nos sustentam.

 

REFERÊNCIAS

1. Araujo CA. Dr. Zerbini: O operário do coração, 1st ed. São Paulo, Brazil: Bandeirante; 1988. p.220.         [ Links ]

2. Iseu A. Costa: Historia da cirurgia cardíaca Brasileira, 1ª ed. São Paulo, Brasil: Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular; 1966. p.186.         [ Links ]

3. Zerbini EJ. The surgical treatment of the complex of Fallot. J Thorac Cardiovasc Surg. 1969;58(2):158-77.         [ Links ]

4. Zerbini EJ, Bittencourt D, Pileggi F, Jatene A. Surgical correction of aortic and mitral valve lesions. Results in a series of 105 patients who underwent a valvular replacement with the Starr prosthesis. J Thorac Cardiovasc Surg. 1966;51(4):474-83.         [ Links ]

5. Puig LB, Verginelli G, Belotti G, Kawabe L, Frack CC, Pileggi F, et al. Homologous dura mater cardiac valve. Preliminary study of 30 cases. J Thorac Cardiovasc Surg. 1972;64(1):154-60.         [ Links ]

6. Gomes OM, Conceição DS, Nogueira D Jr, Tsuzuky S, Bittencourt D, Zerbini EJ. Variable-column buble oxygenation. A new system for buble oxygenation. J Thorac Cardiovasc Surg. 1975;69(4):606-14.         [ Links ]