SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.10 issue1Theoretical and methodological reflexions on community psychologyKohlberg and the "Just Community": developing ethical sense and citizenship in the schools author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.10 n.1 Porto Alegre  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721997000100004 

Capta versus data: método e evidência em comunicologia1

 

Richard L. Lanigan 2
Southern Illinois University

 

 


Resumo
Metodologia é uma preocupação básica com os tipos de evidência, estruturas de análise e regras de julgamento para validade. Este artigo compara os métodos de pesquisa da fenomenologia e do positivismo. Pesquisa qualitativa é um foco no uso objetivo das lógicas normativas de mensuração na experiência empírica. A evidência de amostra analisada é tomada dos dados de discurso relatados por A. R. Luria no seu livro Cognitive Development publicado originalmente em russo em 1974. A aplicação da Teoria da Comunicação (fenomenologia) é contrastada com a teoria da informação (positivismo). Após, a evidência de Luria é analisada por suas lógicas internas (dedução, indução, abdução e adução). É realizada uma comparação externa entre os resultados de Luria e um instrumento diagnóstico comum para medir o desenvolvimento da linguagem em crianças.
Palavras-chave:. Comunicações, fenomenologia, cognição, positivismo.

Capta versus data: method and evidence in communicology

Abstract
Methodology is a basic concern with types of evidence, structures of analysis, and rules of judgment for validity. This article compares the research methods of phenomenology and positivism. Qualitative research is a focus on the objective use of normative logics of measurement in empirical experience. The sample evidence analyzed is taken from discourse data reported by A. R. Luria in his book Cognitive Development originally published in russian in 1974. The application of Communication Theory (phenomenology) is contrasted with that of information theory (positivism). Then, the Luria evidence is analyzed for its internal logics (deduction, induction, abduction, adduction). An external comparison is made between the Luria findings and a common diagnostic instrument for measuring language development in children.
Key-words: Communication, phenomenology, cognition, positivism.


 

 

Comunicologia é o estudo do discurso humano em todas as suas formas, abrangendo desde a fenomenologia do gesto e fala até mediações semióticas tais como arte, cinema e televisão, além da recente moda do telefone celular. Esta moderna conjunção da intensão3 humana (fenomenologia) e da extensão humana (semiótica) como uma problemática de corporeidade e discurso (comunicologia) inicia-se com Edmund Husserl, o reconhecido fundador da fenomenologia. Husserl é o primeiro estudioso a sugerir a importância central de pesquisa em focalizar nosso pensamento crítico sobre o comportamento humano e a conduta cultural que nós chamamos comunicação. Como ele disse em sua conferência em Londres em 1922 sobre "Método Fenomenológico e Filosofia Fenomenológica", o seu objetivo é dar uma série de conferências que expliquem "uma fenomenologia sociológica transcendental referindo-se a uma multiplicidade manifesta de sujeitos conscientes comunicando-se uns com os outros" (Kaelin & Schrag, 1989, p. 425). Não podemos esquecer que a monumental Sprachtheorie de Karl Bühler (Teoria da Linguagem: A Função Representacional da Linguagem) publicada em 1934, inicia-se com o objetivo de Husserl em mente.

"O novo modelo de linguagem humana, que deveria ser consistentemente ordenado em manter com as concessões feitas nas Meditações Cartesianas, é tão rico quanto aquele necessário pela teoria da linguagem e aplicado ao lado dela, na prática, desde Platão; é o modelo organon da linguagem. Nós iniciaremos nossa apresentação dos princípios da ciência da linguagem com ele". (Bühler, 1934/1990, p. 13; ver Lanigan, 1988, pp. 223-245).

Merleau-Ponty (1964, p. 86) resume a problemática de Husserl e a temática de Bühler do seguinte modo: "logo que distinguirmos, ao lado de uma ciência objetiva da linguagem, uma fenomenologia da fala, iniciaremos uma dialética através da qual as duas disciplinas entrem em comunicação." É exatamente esta dialética que eu proponho explorar como uma questão de método e evidência na prática da ciência humana da comunicologia. Na primeira parte da minha análise eu examinarei a questão do método, mais precisamente a questão dialética da metodologia, na qual o método como um procedimento está comprometido com o pensamento (logos) como julgamento per se, ou seja, um "sistema fora do observador" (Wilden, 1987, p. 315). Como um segundo tópico de interesse, eu proponho examinar a questão do que é manifesto na aparência, ou seja, a relação dialética do que é pensado (data) e do que é vivido (capta) como a experiência da consciência: evidência, ou seja, o "observador no sistema" (Wilden, 1987, p. 315). Para ilustrar minha análise eu utilizarei o que é considerado um clássico relato de pesquisa (Luria, 1976, pp. 48-994) na história do desenvolvimento cognitivo, isto é, o uso etnográfico (não etnometodológico) de evidência da prática de discurso na qual a educação formal e a mudança social são influências assumidas na habilidade humana de "generalização e abstração." Esta evidência foi originalmente obtida num estudo entre 1931-32 no Uzbekistan e em Kirghizia na União Soviética (URSS). Como um referente transcultural, eu também utilizarei um outro "instrumento" etnográfico, isto é, um problema com gravuras amplamente distribuído nos Estados Unidos aos pais com objetivos de avaliarem o desenvolvimento cognitivo de suas crianças através de sentidos lingüísticos. Em resumo, eu sustentarei a tese de que "toda linguagem é comunicação, mas muito pouca comunicação é linguagem" na qual "linguagem não é o problema na nossa compreensão da realidade, o problema é discurso (Rede)" (Wilden, 1987, pp. 132, 137). Também é importante observar inicialmente que a dialética do método e evidência depende de uma outra dialética entre teoria da comunicação e teoria da informação, na qual a dialética é "uma transformação da organização" (Wilden, 1987, p. 274). Em particular, estaremos interessados pelas transformações da linguagem e da comunicação como lógicas do fenômeno: Fenomenologia.

 

A Regra do Método

Além da sua importância histórica como um estudo etnográfico, o livro Cognitive Development: Its Cultural and Social Foundations escrito por Luria em 1974 continua a receber atenção dentro da disciplina da comunicologia. Partes do livro de Luria tem sido reimpressas em um livro texto amplamente utilizado, editado por John Corner e Jeremy Hawthorn com o título de Communication Studies: An Introductory Reader (1989). Este livro já passou por três edições entre 1980 e 19895. Uma seleção no livro texto é o capítulo 7 "Educação, Generalização e Abstração" (1989, pp. 57-58; reimpresso de Luria, 1976, pp. 58-60). Este é o texto que eu também estarei utilizando. Apesar de requisitar uma extensa citação, possui a vantagem de permitir que o leitor veja a "evidência" original na sua totalidade e como foi metodologicamente forçada pela interpretação de Luria. Eu também estou interessado no fato de que a experiência vivenciada do leitor, ao lidar com o discurso narrativo, permita-lhe ver simultaneamente o ponto de vista do pesquisador e a perspectiva aposicional (não oposicional) do respondente. Aposição no discurso ocorre onde "um segundo termo explica um primeiro termo" na mesma expressão ou diálogo (Lanigan, 1992, p. 231; Wilden, 1987, p. 234). Por exemplo, na sentença "The bag was a purse"6, nós entendemos que o primeiro termo "bag" é desmarcado (não tem sentido de gênero) até nós ouvirmos o segundo termo marcado "purse" ao qual é culturalmente atribuído o gênero feminino pelos americanos (EUA). Então, a aposição dos termos faz com que o termo "bag" se torne marcado como diferente no sentido do discurso (ainda que seu caráter lingüístico não tenha se modificado). Um exemplo mais familiar desta aposição culturalmente negativa é a frase "bag lady."7 Mas, antes de vermos o tópico da evidência, será útil examinar as perspectivas aposicionais como um aspecto metodológico. Parte do legado mutilado do racionalismo e do positivismo, no "método científico" da modernidade, é a falha em distinguir a natureza semiótica da prática de pesquisa humana entre comunicação e linguagem.

Como muitas outras práticas humanas, a pesquisa é amplamente uma atividade simbólica na qual a "evidência" é mediada ao converter experiência ("observação") em consciência ("medição"), denominando-a "humanística" ou "naturalística." A pós-modernidade veio a favorecer esta metodologia e nomear a evidência então produzida como capta (quod erat inveniendum; aquilo que era para ser descoberto). Capta é aquilo que é tomado como evidência; é a metodologia da descoberta (Lanigan, 1992, p. 215). Neste contexto nós podemos definir razoavelmente pós-modernidade como uma preocupação com a descoberta da referência simbólica enquanto experiência iniciada na consciência ("compreensão" no sentido epistemológico). O benefício da pesquisa com a descoberta é de que um julgamento qualitativo possibilita exatidão e abstração na descrição (representação). A lógica da fenomenologia empregada aqui funciona como um teste de exatidão no julgamento da pesquisa. Em outras palavras, consideramos a qualidade do exemplo que está sendo usado como uma definição (isto é, um exemplar) por incluir fenômenos em uma tipologia (nossa consciência do fenômeno) de experiências similares do que é usualmente referido como uma classe de intensão de objetos (Alexander, 1988, p. 88). Conforme Paul Ricoeur (1977, p. 146; ver Lanigan, 1994) resume, "a fenomenologia diz que podemos compreender intuitivamente a essência do fenômeno em questão na base de um exemplo bem escolhido." O livro de Luria (1976) é um ótimo exemplo dessa metodologia, apesar de que suas conclusões estão presas desde o início por suposições contaminadas, anteriores ao fato, sobre "resultados corretos".

Ou, no lado oposto da metodologia, a simbologia da prática de pesquisa pode ser "evidência" que é mediada ao converter consciência ("medição") em experiência ("observação") e chamando-a "científica" ou "realística". A modernidade tem apoiado fortemente esta segunda metodologia e designado a evidência então produzida como data (quod erat demonstrandum; aquilo que era para ser demonstrado). Data é aquilo que é dado como evidência; é a metodologia da invenção (Lanigan, 1992, p. 215). Em tal contexto, a modernidade pode ser funcionalmente definida como uma preocupação com a invenção da referência simbólica como consciência cedida à experiência ("conhecimento" no sentido epistemológico). A vantagem comparativa de pesquisa com a invenção é que um julgamento quantitativo permite precisão e generalização em atribuição (predição). Um recente exemplo popular dessa metodologia é o best seller de Hawking (1988) Uma Breve História do Tempo: Do Big Bang aos Buracos Negros.

Para os nossos objetivos imediatos, precisamos distinguir entre a metodologia pós-moderna e a metodologia moderna ao comparar o que eu chamo de paradigma fenomenologista (pós-moderno) e paradigma positivista (moderno). A diferença está, basicamente, na ordem com que o pesquisador faz a mediação entre consciência e experiência (Figura 1). Na prática da pesquisa, isso significa distinguir entre a ordem da experiência (OE) e a ordem da análise (OA), ou seja, o encontro com evidência (OE) do modo como aparece para a consciência versus o método (OA) de experienciar a evidência. Nas duas ordens de julgamento trata-se de combinar o experienciador (pesquisador) com a atividade de estar experienciando (pesquisando) o fenômeno sendo experienciado (o que é pesquisado). Visto que o fenomenólogo está considerando a lógica inerente no fenômeno, ele utiliza um método que inicia (OE) consigo mesmo como o (1) experienciador que (2) experiência o (3) evento ou coisa experienciada. Ele não finge não estar na situação (a assim denominada "objetividade") ou ser onipotente (a assim chamada "autoridade"). Ao contrário, o fenomenólogo inicia com a experiência humana, a sua experiência como uma regra de julgamento. Essa regra simplesmente preserva os fatos contextuais da situação, a saber, de que a ordem 1-2-3 era experienciador/experienciando/experienciado. Visto que existe uma lógica 1-2-3 neste fenômeno, a experiência ("observação") veio à consciência daquela forma ("medição"). Com o objetivo de analisar e descrever o fenômeno (OA), a ordem deve ser revertida na seqüência 3-2-1 de experienciado/experienciando/experienciador, ou seja, como a experiência é tomada (capta), como uma pessoa a descreve.

 

Paradigma do fenomenólogo

[experiência = aquilo que é tomado em análise: Capta]

OE-----------------------------------------------------à

[experienciador > experienciando > experienciado]

ß -----------------------------------------------------OA

[experienciador < experienciando < experienciado]

Paradigma do positivista

[experiência = aquilo que é dado anterior a análise: Data]

OE-----------------------------------------------------à

[experienciador > experienciando > experienciado]

OA-----------------------------------------------------à

[experienciador > experienciando > experienciado]

Figura 1. Procedimento comparativo de pesquisa envolvendo a Ordem da Experiência (OE) e a Ordem de Análise (OA) em Lanigan (1992, p. 20).

 

Em outras palavras, o fenomenólogo está se movendo (OE) a partir da sua experiência ("observação") para descobrir um fenômeno na consciência ("medição") e então retornando como um julgamento usando a verdadeira lógica descoberta do fenômeno na qual a consciência do pesquisador do fenômeno (OA) é uma medida da observação (experiência). Somente iniciando com a OE e revertendo-a em OA pode o pesquisador ter garantia tanto da precisão quanto da abstração na descrição (representação). O exemplo óbvio desse processo é o fenômeno educacional que chamamos aprendizado, no qual a ordem da experiência (o que o professor diz; mensagem transmitida) é revertida em ordem de análise (o que o estudante ouve; mensagem decodificada) e então o discurso é aprendido (lembrem-se que neste exemplo estamos somente nos inteirando sobre o fenômeno de como o professor e o estudante estão usando o discurso [aprendendo uma lógica ou código] e não sobre o que eles estão falando!). Precisão e abstração estão diretamente representadas pela qualidade da descrição que tanto o professor quanto o estudante fazem. Na situação de aprendizado, esperamos que a resposta do estudante seja redundante na relação (comunicação), não a mera repetição de palavras (linguagem). Este é um ponto importante para ser lembrado quando compararmos as respostas dos sujeitos do estudo de Luria com as respostas que Luria assume como corretas.

O paradigma positivista, por comparação, assume que a ordem da experiência (OE) e a ordem de análise (OA) são ordens paralelas de julgamento. Desde que assume-se que todos os experienciadores sejam objetivamente os mesmos (ironicamente, uma suposição muito subjetiva), todas as formas de consciência ("medição") terão a mesma experiência ("observação"). Por esta razão, em qualquer julgamento da pesquisa, a ordem de análise sempre seguirá a mesma ordem da experiência: experienciador/experienciando/experienciado. O pesquisador está simplesmente pesquisando o que é pesquisado, mas misteriosamente colocamos de lado a questão do como! O paradigma positivista hipostatisa sua lógica do método; a lógica é o que o experienciador/pesquisador causa ao fenômeno. A lógica é dada (data) ao fenômeno a fim de predizer se a atribuição permanecerá ou não. No exemplo do trabalho de Luria, nós veremos esse ponto de vista exemplificado no pesquisador que julga certas respostas como erradas pois elas não correspondem a sua expectativa de correção (ou seja, usar certas palavras). A "realidade" propagada deste problemático ponto-de-vista na ciência contemporânea está bem demonstrado em Hawking (1988). No contexto do discurso (Lanigan, 1977, 1988, 1992) e nos estudos de mídia (Sobchack, 1992), existem críticas paralelas do positivismo na sua prática continuada pelas "ciências sociais" contemporâneas.

Há um último ponto a se considerar quanto a metodologia fenomenológica. Todos fenomenólogos utilizam-se de um conjunto de técnicas analíticas para realizarem suas pesquisas e esses procedimentos agrupam-se em três amplas categorias: (1) considerações existenciais de capta e data, (2) considerações semióticas de capta e data e (3) considerações hermenêuticas de capta e data (Spiegelberg, 1982, pp. 678-719). Em meu próprio trabalho, eu sigo uma versão sincrética do modelo de Spiegelberg usado por Maurice Merleau-Ponty no qual as três grandes categorias de considerações capta/data são aplicadas sistematicamente (Lanigan, 1991). Eu proponho utilizar essa mesma metodologia para a minha análise do trabalho de Luria. O método consiste no uso progressivo, mas sinérgico, da (1) descrição fenomenológica com o foco sobre o fenômeno como um sistema de signos (discurso), da (2) redução fenomenológica com o foco sobre os significantes (expressão do sentido; frase revelatória) no sistema de signos e da (3) interpretação fenomenológica com o foco sobre os significados (percepção do sentido; "speakability" 8) no sistema de signos (Lanigan, 1988, 1992). Como Ricoeur (1977, p. 147; minha ênfase) resume a metodologia: "O que o fenomenólogo denomina de ‘essência da experiência’, então, é o que poderíamos denominar a speakability dessa experiência, o fato de que é aberta à linguagem e que alguma expressão pode ser mais apropriada do que outras para dizer o que significa."

Estamos agora na posição de aplicar esses pressupostos metodológicos em um exemplo discursivo. Tal aplicação nos dará esclarecimentos seguros sobre a natureza da evidência no modo em que ela é usada no discurso da ciência de tal forma que poderemos contrastar uma compreensão da ciência humana com um suposto conhecimento na ciência positiva.

 

A Regra da Evidência

Evidência constitui a relação dialética do que é pensado (data) e vivido (capta) como a consciência da experiência. Antes de podermos explorar as muitas dimensões desta dialética, é útil termos em mente um exemplo ao qual possamos continuamente referirmo-nos. Como anteriormente mencionado, o exemplo que eu proponho utilizar provém do livro Desenvolvimento Cognitivo (Luria, 1976). Nessa evidência de pesquisa, Luria tenta demonstrar a diferença discursiva entre (1) "pensamento situacional concreto" (p. 54) ou um "processo de pensamento gráfico", que é "baseado na experiência prática do indivíduo" (p. 52) na comunicação e (2) "pensamento conceitual ou categórico", o qual é "a experiência compartilhada de sociedade transmitida através de seus sistemas lingüísticos" como o "instrumento principal para abstração e generalização" na linguagem (p. 52). A prolongada citação de Luria (1976, pp. 58-60) segue e reproduz o texto exatamente como impresso em negrito (pesquisador in situ) e itálico (comentários analíticos do pesquisador). Comentários dos respondentes ("sujeitos") são mostrados entre aspas.

Sujeito: Sher, sessenta anos, camponês analfabeto do vilarejo de Yardan. A tarefa é explicada através do exemplo, camisa-botas-boné-rato, e são mostradas ao sujeito as seguintes figuras: martelo-serra-tora-machadinha.

"Todos eles combinam aqui! A serra tem que serrar a tora, o martelo tem que martelá-la e a machadinha tem que cortá-la. E, se você quiser cortar a tora realmente bem, você vai precisar do martelo. Você não pode tirar nenhuma dessas coisas. Não há nenhuma que você não precise!"

Substitui a classificação abstrata pelo pensamento situacional.

Mas no primeiro exemplo eu lhe mostrei que o rato não combinava.

"O rato não combinava! Mas aqui todas as coisas são muito parecidas [ukhshaidi]. A serra serra a tora, e a machadinha corta, você somente tem que bater mais forte com o martelo."

Mas um cara me disse que a tora não pertencia aqui.

"Por que ele disse isso? Se nós dissermos que a tora não é como as outras coisas e colocá-la à parte, nós estaríamos cometendo um erro. Todas essas coisas são necessárias para a tora."

Considera a idéia de utilidade mais importante que a de similaridade.

Mas aquele outro cara disse que a serra, o martelo e a machadinha são parecidos de alguma forma, enquanto que a tora não.

"E daí que eles não sejam parecidos? Eles todos trabalham juntos e cortam a tora. Aqui tudo funciona certo, aqui está tudo bem."

Veja, você pode usar uma palavra - ferramentas - para esses três, mas não para a tora.

"Que sentido faz usar uma palavra para eles todos se eles não vão trabalhar juntos?"

Rejeita o uso do termo generalizante.

Que palavra você usaria para essas coisas?

"As palavras que as pessoas usam: serra, martelo e machadinha. Você não pode usar uma palavra para elas todas!"

Você poderia chamá-las ferramentas?

"Sim, você poderia, exceto de que a tora não é uma ferramenta. Ainda assim, do jeito que o vemos, o tronco tem que estar lá. De outra forma, para que serviriam as outras?"

Emprega predominantemente o pensamento situacional novamente.

Os exemplos citados indicam que não tivemos sorte escolhendo esses sujeitos para realizarem o ato abstrato de classificação. Mesmo quando eles encontraram alguma similaridade entre os vários objetos, eles não vincularam importância particular ao fato. Como uma regra, eles operaram numa base de "utilidade prática", agrupando objetos em esquemas práticos mais do que categorizando-os. Quando nos referimos a um termo genérico que poderiam usar para designar um grupo distinto de objetos, eles geralmente desconsideravam a informação ou a consideravam irrelevante. Ao invés disso, eles aderiram a idéia de que os objetos deveriam ser agrupados em arranjos práticos. Eles continuaram a fazer dessa forma mesmo quando apresentamos objetos que, em nossa perspectiva, seriam difíceis de serem agrupados juntos por algum esquema prático genuíno. Quando clarificamos o princípio de classificação abstrata, eles atentavam para a nossa explicação, mas não a consideravam. Os exemplos seguintes ilustram essa tendência.

Sujeito: Abdy-Gap., sessenta e dois anos, camponês analfabeto de uma vila isolada. Depois que a tarefa é explicada, apresenta-se a seguinte série: faca-serrote-roda-martelo.

"Todos eles são necessários aqui. Cada uma dessas coisas. O serrote para cortar a lenha, os outros para outros usos."

Avalia objetos em termos de "necessidade" ao invés de classificá-los.

Não, três dessas coisas pertencem a um grupo. Você pode usar uma palavra para elas que não pode ser usada para a outra.

"Talvez seja o martelo? Mas ele também é necessário. Você pode pregar os pregos com ele."

O princípio de classificação é explicado: três dos objetos são "ferramentas."

"Mas você pode afiar coisas com uma roda. Se é uma roda de uma araba [tipo de um arado puxado por bois], por que eles colocaram aqui?"

A habilidade do sujeito para aprender o princípio de classificação é testada através de outra série: baioneta-rifle-espada-faca.

"Não há nada que se possa deixar de fora daqui! A baioneta é parte da arma. Um homem tem que usar o punhal no seu lado esquerdo e o rifle no outro lado."

Novamente emprega a idéia de necessidade para agrupar objetos.

O princípio de classificação é explicado: três dos objetos podem ser usados para cortar mas o rifle não.

"Ele vai ferir de uma distância, mas realmente perto ele pode também cortar."

É dada para ele a série dedo-boca-orelha-olho e dito que aqueles três objetos se encontram na cabeça, o quarto no corpo.

"Você diz que o dedo não é necessário aqui. Mas se está faltando uma orelha para um cara, ele não pode ouvir. Todos eles são necessários, todos eles se encaixam. Se está faltando um dedo para um homem, ele não pode fazer coisa alguma, nem mesmo mover uma cama."

Aplica o mesmo princípio como na resposta precedente.

O princípio é explicado novamente.

"Não, isto não é verdade, você não pode fazer isso deste jeito. Você deve manter todas essas coisas juntas."

Dificilmente alguém poderia encontrar um exemplo mais definitivo para mostrar que para algumas pessoas a classificação abstrata é um procedimento totalmente estranho. Mesmo quando nós explicamos o princípio de classificação cuidadosamente, os sujeitos persistem na sua própria abordagem (Luria, 1976, pp. 58-60 9).

Este exemplo de Luria nos permite ver o processo simbólico no qual o pensamento é representado em palavras assim como em figuras. Na tentativa em explicar o processo de classificação cognitiva, os pesquisadores utilizaram de exemplos lingüísticos e figurativos. Não é necessário mostrar que este tipo de classificação lingüística está ainda em uso contemporâneo pela ciência social positiva como pode ser encontrado em qualquer "teste padronizado" correntemente em uso, por exemplo, a seção "verbal" do Graduate Record Examination (GRE).

Entretanto, um processo de "testagem" mais sutil ocorre nas classes escolares como um dispositivo de aprendizagem. É tão difundido que formas de "entretenimento" do "instrumento" estão prontamente disponíveis aos pais que são encorajados a "diagnosticarem" o nível cognitivo de seus filhos. O exemplo que posteriormente eu discutirei é de natureza figurativa, apesar de que também existem versões puramente lingüísticas. Observem que Luria utiliza os protocolos lingüísticos e figurativos intercambiavelmente, apesar de que isso eqüivale a uma mudança de códigos. Em tais transformações intersemióticas, um sistema de signos é critério para o outro. Então, a primazia da imagem tanto visualmente como uma figura (ou fotografia) quanto oralmente/audivelmente como fala anterior a linguagem como um símbolo (mediação secundária; Wilden, 1987) tem recentemente sido sustentada com sucesso por Barry King (1992).

 

Primeiro Exemplo: Sher

Voltemo-nos agora a análise dos sujeitos de Luria e seus discursos. Iniciaremos com Sher, o camponês analfabeto de sessenta de dois anos do vilarejo de Yardan.

Descrição fenomenológica: Lembrem-se de que para Sher foi dado (data) pelo pesquisador o seguinte sistema de signos como exemplo: camisa-botas-barrete-rato. Então para Sher foi dado (data) o sistema de signos: martelo-serrote-tronco de madeira-machado. Enquanto Sher estava satisfeito ao aceitar o fato de que o rato é "o de fora" (o nome significante usado no Terceiro Exemplo, o qual eu também utilizarei), ele não concorda com o tronco de madeira como sendo o de fora. Além disso, ele é obstinado em seu julgamento (retórica discursiva) de um contexto de comunicação ("o de dentro") de que o tronco de madeira pertence ao sistema de signos, "Todos eles servem aqui!" Sendo analfabeto, Sher não é influenciado pela lógica inerente na semântica, sintaxe ou pragmática da escrita como um sistema de signos (linguagem gramatológica), por essa razão a descrição do pesquisador é de que Sher "substitui classificação abstrata pelo pensamento situacional." Usando a técnica da suspensão, podemos temporariamente colocar de lado a descrição do pesquisador (OA) como não pertencendo a experiência do respondente (OE). Suspender [epoqué] significa temporariamente deixar fora de consideração uma parte da experiência, porque essa parte não é de fato experienciada [OE], na verdade é uma parte da análise [OA] aplicada externamente à experiência real (uma moldura de análise; o mapa não é o território). Então, suspender significa isolar a suposição de tal forma que ela não funciona inapropriadamente como um critério para o julgamento inicial da experiência e então não é dada como uma suposição especulativa a contribuir para as condições de aparecimento.

Redução fenomenológica: A experiência de Sher é a do discurso como um fenômeno oral (fala) e esta experiência (mais do que o item de exemplo oferecido inicialmente pelo pesquisador) é tomada (capta) existencialmente como definindo sua experiência, o significante do fenômeno. O sistema de signos de Sher move-se da parole (falar) à langue (linguagem) 10. De acordo com Roman Jakobson, isto eqüivale a dizer que: (1) a expressão lingüística é o exemplo lógico ou a norma lingüística para todos os outros atos de fala na mesma categoria, (2) o uso individual da linguagem precede o uso social, (3) a fala individual é centrífuga [aplica-se a outras situações experienciais] antes da linguagem ser centrípeta [aplica-se a situações paralelas não-experienciais] (Lanigan, 1988, p. 59). Se você reler a citação de Luria, você encontrará que todos os respondentes continuamente e consistentemente referem-se ao que o pesquisador diz (frase revelatória) como uma representação definidora (significante); até mesmo os pesquisadores utilizam-se do sistema de signos de discurso (por exemplo, "mas o que o outro cara disse..."). Somos levados a considerar se, de fato, as entrevistas de pesquisa não ensinaram os pesquisadores a supremacia da forma oral no discurso sobre a forma escrita na linguagem!

Interpretação fenomenológica: No caso de Sher, os pesquisadores concluíram que ele "rejeita o uso do termo generalizante" e "emprega predominantemente o pensamento situacional." Essas conclusões interpretativas assumem que a ordem da experiência (OE) e análise (OA) devem ser as mesmas e que Sher falha em reconhecer similaridade. Esta é a falácia do procedimento positivista. Quando nós iniciamos com a descrição de Sher (sistema de signos) e seguimos para a sua redução da evidência como capta (significante), nós prontamente podemos ver o que ele selecionou como o fenômeno de sentido (significado). Lembre-se do que os pesquisadores disseram a partir de sua frustração: Veja, você pode usar uma palavra - ferramentas - para esses três mas não para o tronco. Sher responde: "Qual o sentido que faz usar uma palavra para eles todos se eles não vão trabalhar juntos?" Ao invés de rejeitar o termo generalizante dado pelas suas (dos pesquisadores) experiências de linguagem, Sher insistiu em uma abstração (classificação) tomada (capta) da sua experiência de discurso. A frase revelatória (significante) aqui é "trabalhar juntos", que é a regra existencial, semiótica e hermenêutica de julgamento constituindo a experiência consciente do discurso de Sher.

 

Primeiro exemplo: Teoria da comunicação

Podemos agora ampliar o comportamento de Sher no contexto da teoria da comunicação. Sher se baseia na sua condição existen-cial de compreensão quando confrontado com o teste de Luria (uma condição semiótica) o qual é uma nova experiência para se ocupar e lidar (uma condição hermenêutica). Como todo nós fazemos, Sher tem que decidir (1) em aceitar a teoria de informação da explanação do pesquisador da tarefa, onde o contexto de escolha para escolher é dado (data), ou (2) em aceitar a teoria de comunicação da sua própria explicação da tarefa, onde ele toma (capta) sua própria escolha de contexto para escolher o que faz sentido. Como a maioria de nós em situações onde somos confrontados com uma nova experiência, Sher escolhe a teoria de comunicação. A tipologia dessa experiência consciente é facilmente confirmada ao lembrar a nossa confusão inicial ao lidar com um teste com escala semântica diferencial ou a experiência em tentar explicá-lo pela primeira vez a uma criança (este será o nosso Terceiro Exemplo abaixo).

Uma vez que Sher escolhe a teoria da comunicação, sua metodologia é eidética. Uma abordagem eidética reconhece que os julgamentos que fazemos funcionarão como um modelo de realização do procedimento de pesquisa no qual nossos procedimentos devem se conformar tanto (1) com uma abordagem analítica baseada na lógica da dedução quanto (2) com uma abordagem crítica baseada na lógica da adução (Lanigan, 1992, p. 207). Colocado de forma simples, Sher escolhe o modelo analítico (o que Luria chama "abstração") para solucionar seus problemas de sentido. Sher usa a boa e velha dedução para solucionar seus problemas, onde dedução, seguindo C. S. Peirce é: Regra + Caso = Resultado (Lanigan, 1992, p. 216). Sher usa sua própria experiência vivida (Regra) em ver o martelo-serrote-tronco de madeira-machado (Caso em questão) todos a "trabalhar juntos" (o Resultado significativo). De fato, Sher abstraiu da sua experiência e executou a tarefa de "classificação." Como Alexander (1988, p. 107) comenta, "o abstrato, então, não é algo que flutua misteriosamente em nossos pensamentos que não sabemos de onde vem. Ao contrário, é algo amarrado à experiência."

Como a outra pessoa envolvida no projeto de pesquisa, Luria (1976) confia no segundo modelo eidético de explicação como uma base para interpretação e toma (capta) Sher em estar usando uma perspectiva crítica que Luria chama "pensamento situacional concreto" (p. 54) ou um "processo de pensamento gráfico" que é "baseado sobre uma experiência prática individual" (p. 52). Como Pierce o define, a abordagem crítica usa a lógica da adução: Regra + Resultado = Caso [universal e a priori] (Lanigan, 1992, p. 217). Ou seja, Luria vê Sher usar sua própria experiência vivida (Regra; "concreto") todos a "trabalhar juntos" (o Resultado significativo; "situacional") em explicar o martelo-serrote-tronco de madeira-machado (Caso em questão; "pensamento").

Como é sempre o caso na pesquisa fenomenológica, nós imediatamente intuímos que a descrição, redução e interpretação que recém concluímos clamam (movimento sinérgico) por um resultado de pesquisa, uma outra nova e interessante descrição de Sher e Luria em seu trabalho cognitivo. Novamente empregamos o procedimento fenomenológico de pesquisa: descrição, redução e interpretação.

(1) Descrição fenomenológica: Tanto Sher quanto Luria iniciam sua abordagem ao problema utilizando um modelo eidético de resolução de problema: teoria da comunicação junta os fenômenos usando uma lógica e...e 11 de inclusão para criar tipologias (classes intensionais). Isto é, Sher escolhe o contexto de análise: "Dedução: no mesmo contexto [Regra] dois fenômenos [Caso] são internamente comparados [Resultado]; a análise requer suficiência como um padrão de julgamento" (Lanigan, 1992, p. 216). Ao contrário, Luria escolhe o contexto crítico: "Adução: em contextos diferentes [Regra], uma comparação externa [Resultado] estabelece a identidade de dois fenômenos [Caso]; o criticismo requer necessidade como um padrão de julgamento" (Lanigan, 1992, p. 217).

(2) Redução fenomenológica: Tanto Sher quanto Luria encontram-se no mesmo continuum de pensamento que vai desde o "abstrato" (Sher) ao "situacional" (Luria). O processo total é um que vai de simples abstração à alternância imaginativa de abstrações. De acordo com Alexander (1988, p. 108), "é um processo de (1) focalizar a atenção sobre algum aspecto dentro da experiência, (2) manter este aspecto como objeto de nosso pensamento imediato e (3) possivelmente lembrar-se dele posteriormente."

(3) Interpretação fenomenológica: Dentro de suas respectivas, mas separadas, perspectivas sobre o fenômeno, tanto Sher quanto Luria estão usando uma classificação lógica que é essencialmente eidética, ou seja, uma consciência da experiência definida como uma "escolha de contexto" ou realização (o que pode ser pensado por uma pessoa; linguagem) opondo-se à atualização (o que pode ser vivido por uma pessoa; comunicação). O capta está no discurso. Referindo-se ao item martelo-serrote-tronco de madeira-machado, Luria pergunta: Você poderia chamá-las ferramentas? Sher responde: "Sim, você poderia, exceto de que o tronco não é uma ferramenta. Ainda assim, do jeito que o vemos, o tronco tem que estar lá. De outra forma, para que serviriam as outras?" Deste modo, Sher recusa-se a deixar sucumbir sua dedução, de que ferramentas "trabalham juntas" no tronco de madeira, em relação a adução de Luria de que Sher "rejeita [o] uso de [um] termo generalizante" ao insistir (como um bom pesquisador faria) de que sua (a de Sher) observação do tronco de madeira seja explicada! Isto quer dizer que para Sher "o nome de uma coisa é uma palavra" na comunicação, enquanto que para Luria "o nome de uma pessoa ou coisa é um substantivo" na linguagem (Wilden, 1987, p. 169).

 

Primeiro exemplo: Teoria da informação

Dada a suposição geral de uma orientação positivista na análise de Luria, será útil, neste ponto, elaborar esta perspectiva como um contraste contextual para a nossa discussão até agora realizada da fenomenologia como uma metodologia de ciência humana. Dito em outras palavras, é uma questão de contrastar a teoria de comunicação como um procedimento eidético (modelo de realização) com a teoria de informação como um procedimento empírico (modelo de atualização). Lembre-se de que nós suspendemos qualquer consideração de que uma teoria é melhor do que a outra, ou de que só há uma teoria correta. Ao invés disso, estamos obtendo uma descrição essencial ao explicar qualquer perspectiva usada dentre as possibilidades lógicas como sugeridas pelo fenômeno per se. No exemplo de Sher, explicamos o fato de que a teoria da comunicação sempre necessita da teoria de informação (Wilden, 1987; Lanigan, 1988, 1992). Quer dizer, temos de lidar com o fato teórico de que no discurso humano e na constituição de sentido como um fenômeno empírico, a análise (dedução) freqüentemente desenvolve-se a partir de um experimento (lógica da indução) e criticismo (adução), do mesmo modo como freqüentemente desenvolve-se à partir de um método experiencial (lógica da abdução).

No livro de Luria (1976, p. 52), um experimento é conduzido no discurso para testar o "pensamento categórico ou conceitual" o qual é "a experiência compartilhada de sociedade transmitida através de seu sistema lingüístico" como "o principal instrumento para abstração e generalização." Rigorosamente falando (Lanigan, 1992, p. 217), um experimento usa uma lógica indutiva: Regra + Resultado = Caso. Em outras palavras, "com dois fenômenos [Caso], uma comparação interna [Resultado] estabelece o mesmo contexto [Regra]; a experimentação requer atualidade como um padrão de julgamento." Como um exemplo dessa indução, lembre-se da instrução de Luria para Sher: "A tarefa é explicada através do exemplo, camisa-botas-barrete-rato, e são mostradas ao sujeito as seguintes figuras: martelo-serrote-tronco de madeira-machado." Sher recusa a indução que estabeleceria o resultado de linguagem hipostatizado por Luria, ou seja de que uma resposta culturalmente correta é "a experiência compartilhada de sociedade transmitida através de seu sistema lingüístico." Para Sher, o pensamento experimental por indução não é o "principal instrumento para abstração e generalização." Luria tenta o outro procedimento empírico como uma estratégia alternativa; ele tenta o método experiencial. A abordagem experiencial usa a lógica da abdução: Regra + Resultado = Caso (particular; a posteriori). Tal abdução é definida pelo fato de que "no mesmo contexto [Regra], uma comparação interna [Resultado] estabelece a identidade de dois fenômenos [Caso]; a experiência requer possibilidade como um padrão de julgamento" (Lanigan, 1992, p. 218). Na particular experiência de aprendizado (a posteriori) do teste, Sher recusa a abdução oferecida por Luria. Luria declara: Mas no primeiro exemplo [camisa-botas-barrete-rato] eu lhe mostrei que o rato não combinava. Sher responde: "O rato não combinava! Mas aqui todas as coisas são muito parecidas [ukhshaidi]. O serrote serra o tronco, e o machado corta, você somente tem que bater mais forte com o martelo." Para Sher, o caráter essencial de possibilidade não existe tanto entre os dois diferentes protocolos como fenômenos de discurso. Em resumo, a escolha de um contexto (teoria de informação) é recusada por Sher tanto na sua forma indutiva quanto na sua forma abdutiva. Sher recusa-se a aceitar, como empírico, o discurso oferecido por Luria que hipostatiza uma prática cultural. Ao invés disso, Sher insiste em um modelo eidético derivado de sua consciência passada a qual é sua experiência vivida como uma norma cultural. Luria sugere de que Sher não é um exemplo isolado, ao invés disso ele representa uma tipicalidade de comportamento em comunicação. Isto nós vemos confirmado no protocolo de Abdy-Gap.

 

Segundo exemplo: Abdy-Gap

Lembre-se de que Abdy-Gap tem sessenta e dois anos e também é um camponês analfabeto. Seu comportamento comunicativo é quase idêntico aquele de Sher.

Descrição fenomenológica: Para Abdy-Gap é dado (data) o seguinte sistema de signos pelo pesquisador: faca-serrote-roda-martelo. Sob a hipostatização do positivismo, a "roda" é "o de fora." Mas não para Abdy-Gap: "Mas você pode afiar coisas com uma roda. Se é uma roda de uma araba [tipo de um arado puxado por bois], por que eles colocaram aqui?" Luria tenta uma segunda vez com o item do teste: baioneta-rifle-espada-faca. O assumido "de fora" é o rifle; mesmo para um positivista, este é um pouco mais difícil uma vez que todos os itens (através de muitas dimensões culturais) são instrumentos para matar.

Redução fenomenológica: Abdy-Gap, como Sher, está usando uma pura dedução para analisar sua experiência onde "no mesmo contexto [Regra] dois fenômenos [Caso] são internamente comparados [Resultado]; a análise requer suficiência como um padrão de julgamento" (Lanigan, 1992, p. 216). Abdy-Gap busca seu dicionário semântico de memória discursiva para condições de uso suficientes de uma roda e vem com duas: (1) uma roda de afiar para usar na faca, serrote e martelo, ou (2) uma roda de arado que não tem nada a ver com "afiar" [significante; frase revelatória]. A Regra para afiar usada para comparar os dois casos da roda, roda ou"pedra de amolar" versus roda de carroça, demonstra que a roda de carroça não tem suficiente utilidade com a faca, serrote ou martelo. Abdy-Gap não vai melhor ao julgamento de Luria quando o item do segundo protocolo é usado para explicar "classificação abstrata." Luria observa: "o princípio de classificação é explicado: três dos objetos podem ser usados para cortar mas o rifle não."

A resposta crítica de Abdy-Gap é instrutiva: "Ele [rifle] vai ferir de uma distância, mas realmente perto ele pode até cortar." Não sabemos se Abdy-Gap era um soldado ou possivelmente a vítima de um combate mão-à-mão, mas ele sabe que a coronhada de um rifle cortará o seu rosto e quebrará o seu crânio, isto é, se a baioneta/espada/faca anexada a ele não apunhalar você até a morte primeiro! Lembre-se da regra adutiva para o método crítico: "em contextos diferentes [Regra], uma comparação externa [Resultado] estabelece a identidade de dois fenômenos [Caso; universal e a priori]; o criticismo requer necessidade como um padrão de julgamento" (Lanigan, 1992, p. 217). Conforme o exemplo de discurso, "Ele (rifle) vai ferir de uma distância, mas realmente perto ele pode até cortar" estabelece uma Regra de diferentes contextos (tanto distante quanto realmente perto) com uma comparação externa de Resultados (tanto ferir quanto cortar) que estabelece a identidade essencial dos fenômenos (cortante).

Interpretação fenomenológica: Lembre-se da conclusão de Luria sobre o fracasso de Abdy-Gap em aprender à partir de uma comparação dos dois protocolos: "Dificilmente alguém poderia encontrar um exemplo mais definitivo para mostrar que para algumas pessoas a classificação abstrata é um procedimento totalmente estranho. Mesmo quando nós explicamos o princípio de classificação cuidadosamente, os sujeitos persistem na sua própria abordagem" (Luria, 1976, pp. 58-60). Infelizmente, Luria falha ao perceber que a dedução adotada por Abdy-Gap é simplesmente uma alternativa para a indução que Luria deseja que ele utilize. Como uma conseqüência, quando Luria passa ao segundo protocolo ele fracassa em ver que ele está forçando Abdy-Gap a reduzir seu pensamento universal e a priori (adução) a um estilo de pensamento particular e a posteriori estilo (abdução). Em outras palavras, "no mesmo contexto [Regra], uma comparação interna [Resultado] estabelece a identidade dos dois fenômenos [Caso]; a experiência requer possibilidade como padrão de julgamento" (Lanigan, 1992, p. 218). Para Abdy-Gap, (1) a Regra é que e "faca-serrote-roda-martelo" e "baioneta-rifle-espada-faca" como protocolos de discurso indicam sua experiência consciente de coisas mantidas unidas por "pensamento situacional concreto;" (2) o Resultado é uma comparação interna onde ambos "afiar" e "cortar," significam uma atividade humana (prática humana incorporada; hábito); e (3) o Caso é a realização (insight de Abdy-Gap!) de que ambas, consciência (sentido expresso nos protocolos) e experiência (linguagem percebida como afiar e cortar), são idênticas. Então, e provavelmente para a frustração de Luria, a ordem da experiência (OE) na linguagem (protocolos do pesquisador como uma experiência) denomina a ordem de análise (OA) no sentido (protocolos do respondente como consciência). Novamente a conclusão de Luria após lidar com Abdy-Gap: "Dificilmente alguém poderia encontrar um exemplo mais definitivo para mostrar que para algumas pessoas a classificação abstrata é um procedimento totalmente estranho" (Luria, 1976, p. 60). Certamente temos um exemplo definitivo, apesar da explanação de Luria sobre ele ser uma pressuposição do pior tipo - uma que ignora a lógica do fenômeno que está ao alcance da mão na experiência do teste per se. Tanto Sher quanto Abdy-Gap não somente são bons em abstração, também são bons em mudar lógicas quando a situação do discurso é mudada pelos pesquisadores. Lembre-se a definição de Alexander (1988, p. 108) da atividade de abstração: "É um processo de (1) focalizar a atenção sobre algum aspecto dentro da experiência; (2) manter esse aspecto como o objeto de nosso pensamento imediato, e (3) possivelmente lembrar-se dele posteriormente." Tanto Sher quanto Abdy-Gap fizeram justamente esse 1-2-3 (OE) e 3-2-1 (OA)! Enquanto Luria quer encontrar pensamento "conceitual" ou "categórico" que "é a experiência compartilhada de sociedade transmitida através de seu sistema lingüístico," ele deveria admitir que "discurso implica primeiro a participação do sujeito na sua linguagem através da sua fala, como um indivíduo. Usando a estrutura anônima de la langue, o sujeito forma e transforma a si mesmo no discurso que ele comunica para o outro... Sem estar consciente disso, o sujeito então faz sua marca em la langue" (Kristeva, 1989, p. 11). Como Wilden (1987, p. 161) resume: "Em comunicação e comportamento, entretanto, mediação tem uma orientação: um código media seus mensageiros e suas mensagens, mas mensageiros e mensagens não podem comumente trocar níveis com o objetivo de mediar seu código." Vamos agora testar nossa própria experiência consciente de discurso (ou seja, a tese da tipicalidade como uma confirmação de precisão) ao examinarmos o que é proposto para ensinar crianças nos Estados Unidos sobre linguagem e comunicação.

 

Terceiro exemplo: Giggles ’N Games

O fenômeno educacional chamado "Giggles ’N Games" é parte de uma série de "instrumentos" de uma página de papel e lápis. Estes materiais são preparados para os pais monitorarem a linguagem utilizada como uma medida do desenvolvimento cognitivo em crianças com "10-11-12 e mais anos." A página de exemplo das séries que eu estou usando consiste de jogos de palavras em várias formas de expressão e percepção, incluindo (1) palavras com letras "misturadas" que devem ser desembaralhadas na ordem correta (por exemplo: "norc-no-eht-boc" torna-se "corn on the cob;" 12 nenhuma explicação do protocolo é dada para o problema semiótico da presença/ausência dos travessões "-"), (2) um bloco de letras aleatórias consistindo em dezenove colunas e vinte e uma linhas no qual você "encontra" e circula palavras inteiras no plano horizontal, vertical ou diagonal e (3) o problema de figuras que é reproduzido como Figura 2. Os autores do instrumento criaram uma situação bastante semelhante às duas seqüências de protocolos que Luria usou com Abdy-Gap. Ou seja, a página de exemplo tem dois problemas com jogos de palavras e uma resposta de jogo de palavras na frente. Quando você vira a página, você tem as respostas dos dois jogos de palavras da página anterior, mais o problema de palavras que havia sido respondido na frente. Então, a criança é confrontada com um total paradoxo fenomenológico sobre por onde iniciar: (1) frente ou verso da página [paradoxo lógico]; (2) problema ou resposta [paradoxo moral]; (3) letras formando palavras ou palavras divididas em letras [paradoxo da coerência] e (4) sentido como ilustrado ou inscrito [paradoxo semiótico].

 

n1a02f2.gif (9182 bytes)

Figura 2: Giggles’N Games (Cross the Odd One Out)

 

Eu peguei o exemplar de um pacote gratuito disponível na sala de espera do consultório do nosso médico local. O autor, o editor, ou qualquer outra fonte de autoridade ou responsabilidade pela publicação não é dada nem nas páginas individuais dos jogos nem no pacote. A existência do "instrumento" no consultório médico constitui um argumento para a objetividade baseado em um contexto cultural de autoridade (qual a forma de onipotência não sabemos). Presumimos a autoridade sendo cultura como (1) escrita em linguagem a qual classifica as formas de percepção e (2) "educação formal" a qual legitimiza as formas de expressão - exatamente como Luria a hipostatiza em sua obra! Tudo isto para dizer que a noção positiva de cultura versus natureza é uma suposição que o fenomenólogo deseja suspender.

Descrição fenomenológica: Na primeira linha da Figura 2, nós temos uma ilustração do que Luria denominou o "processo de pensamento gráfico." Ou seja, quatro objetos são ilustrados: lâmpada-lanterna-vela e castiçal-abajur (todos mostrando raios de luz emanante). Devemos assumir que todos são fontes de luz com uma forma desviante. O "de fora" é a "vela e castiçal", conforme indicado na página de respostas por um "X" desenhado através da imagem (aqui nós precisamos suspender nosso conhecimento da técnica de "apagar" de Derrida). Na linha dois, encontramos mais quatro objetos desenhados em linha: tênis-boné de "baseball"-camiseta-sacola [ou "bolsa"? 13]. O "de fora" é a sacola (riscado na página de resposta). Devemos presumir de que todos são tipos de roupas, novamente um com forma desviante. Utilizo a palavra normativa "desviante" visto que é um conceito sociológico padrão de experiência em sociologia que é ideologicamente difundido na cultura americana (EUA) e é incorporado no protocolo teste. Na linha três, vemos os seguintes desenhos: bolo com cobertura-maçã com folhas-pedaço de torta-rosquinha com cobertura. O de fora é a "maçã" (novamente confirmado por uma imagem riscada).

Redução fenomenológica: Percebemos certos problemas de realidade na nossa experiência consciente dessas imagens, mais precisamente seu presumido status de teoria de informação: o contexto de escolha é dado. Na linha um, não se espera que nos preocupemos com tais condições incomuns tais como (1) uma lâmpada sem a tomada, (2) uma lanterna mantida na horizontal sem a mão humana para fazer isso, (3) uma chama de vela sem um pavio para suportá-la, (4) um abajur sem uma mesa para suportá-lo no espaço. À seguir, na linha dois, somos levados a ver (1) um tênis sem nos preocuparmos se ele serve no pé direito ou esquerdo, ou mesmo se ele necessita um pé humano; contudo, é um tênis estereotipicamente masculino pela sua classificação como "esporte" e de uso desleixado como "desamarrado," (2) um boné de "baseball" sem uma cabeça para definí-lo em termos de gênero como uma peça do vestuário masculino, (3) uma camiseta sem um corpo com definição de gênero e (4) uma sacola que, pelo seu tamanho e desenho comparativos, sugere ser uma "bolsa", atribuindo-lhe assim o gênero feminino. Finalmente na linha três, somos levados a perceber que (1) um bolo com cobertura está completo enquanto encontra-se suspenso em pleno ar e sustentado somente por um prato de papel, (2) uma maçã fresca pendurada em uma árvore imaginária, (3) um pedaço de torta assada por um cozinheiro que não sabia onde colocar os furinhos para a saída do vapor, o que não é problema visto que a torta não parece ter um recheio identificável, e (4) uma rosquinha também flutuando no espaço, aparentemente um bolo de acordo com sua densidade ilustrada.

Se o artista ou pesquisador tivesse utilizado uma perspectiva da teoria da comunicação, todas as sugestões dos contextos ausentes na Figura 2 recém discutidos seriam supridos nos desenhos. Esta nova evidência contextual não modificaria a estrutura do protocolo, mas especificaria a natureza cultural normativa da evidência de uma maneira explícita relacionada à experiência humana como praticada no mundo cotidiano. Resumindo, a redução fenomenológica nos sugere de que certos fenômenos específicos estão sendo utilizados para definir a indevidamente chamada resposta "correta" para os problemas. Retornando a linha um, espera-se que o respondente selecione a "vela e castiçal" como o de fora, porque não usa eletricidade como a fonte de energia para a luz, e por causa de uma demonstração contrastante de práticas humanas oposicionais, por exemplo, ligar um interruptor em oposição a riscar um fósforo. Revisando os objetos na linha dois, o respondente deveria selecionar a "bolsa" como a imagem desviante visto que os outros itens do vestuário são considerados masculinos. Uma estrita regra de gênero está sendo ensinada como uma questão de ideologia cultural. Na terceira linha de imagens, a "maçã" fresca é a de fora porque o bolo a torta e a rosquinha são todos "guloseimas" assadas que são culturalmente mais desejáveis que um pedaço de fruta. Uma outra preferência ideológica pela nutrição não saudável está sendo ensinada no consultório médico!

Interpretação fenomenológica: Se nós aceitamos as implicações ideológicas das três linhas de imagens que nos são oferecidas na Figura 2, então somos forçados, pela regra do "contexto de escolha" na teoria da informação, a alcançar certas conclusões positivísticas interpretativas como dadas (data). Em outras palavras, imagens na linha um requerem que formemos uma única identidade de características intensionais entre (1) lâmpada, (2) lanterna e (3) abajur, todos exibindo emanantes raios de luz, ou seja, a característica de "luz elétrica." A desviante "vela e castiçal" produz luz pela combustão e é então uma "luz química."

As figuras na linha dois demandam que formemos uma outra essência intensional entre (1) tênis desamarrado, (2) boné de "baseball" e (3) camiseta, baseado na suposição de gênero de que meninos usam estas roupas, especificando assim a característica de "gênero masculino." À desviante "sacola" é atribuído o gênero de "roupa feminina," uma categoria ela mesma implicada como desviante visto que uma bolsa é inapropriadamente usada (uma "sacola" não é uma roupa). Aqui precisamos suspender a implicação semântica de termos desviantes como "bag lady." 14

Como nos lembramos, o grupo de imagens na linha três da Figura 2 é (1) um bolo com cobertura, (2) pedaço de torta e (3) uma rosquinha com cobertura, os quais partilham a característica intensional de serem massas que são "assadas." A desviante "maçã com folhas e haste" é um artefato natural, não um cultural, e é por isso excluída, ainda que pareça ter sido apanhada por alguém.

De outro lado, quando interrogamos as implicações ideológicas das três linhas de imagens que nos são oferecidas na Figura 2, somos auxiliados pela regra da "escolha de contexto" na teoria da comunicação a atingir certas conclusões fenomenológicas interpretativas como tomadas (capta). Iniciando com a linha um, nós imediatamente intuímos o uso de uma definição negativa visto que nosso "dado" ou a regra da tarefa designada é uma de exclusão e oposição digital. Michel Foucault mostrou o quanto difundida esta forma de controle cultural e dominância social é como uma prática cognitiva no discurso (Lanigan, 1992, pp. 142-154). Se nós utilizamos alguma variação livre imaginativa para considerar o uso de inclusão e aposição combinatória como uma regra de resolução dos problemas, então nós revelamos a suposição do protocolo de teste. Ao invés de "o de fora," nós podemos tomar (capta) "o de dentro." Nós podemos de fato concluir junto com a física contemporânea que não podemos experiencialmente concluir o que a luz (eletricidade) é, mas podemos descrever a sua essência com tais termos como "incandescência" os quais diferenciam entre luz elétrica ou luz química porque eles estão incluídos na experiência do calor a qual está, ela própria, incluída em forças ainda mais essenciais (Hawking, 1988, p. 156). Portanto, a "vela e o castiçal" são essenciais a luz, não por generalização, mas por abstração baseada na experiência consciente de uma tipologia combinatória! Na verdade, Foucault denominou este fato fenomenológico a "lei da comunicação," ou seja, você precisa ter o contexto combinatório em mente antes mesmo de que você possa esperar fazer escolhas que excluam características do mesmo grupo de características que compõe a tipologia essencial (Lanigan, 1992, p. 145) Em uma palavra, você precisa compreender "luz" em todas as suas formas intensionais de aposição antes de você jogar fora o castiçal em oposição (nas suas formas extensionais)!

O mesmo tipo de interpretação pode ser feito sobre os itens retratados na linha dois da Figura 2. Você precisa compreender o sentido da abstração "gênero" antes que você possa selecionar entre as imagens aposicionais e decidir que algumas são masculinas enquanto outras são femininas. Mas primeiro você precisa compreender que vestuário ou roupa é essencialmente um artefato humano que não está ligado à característica de gênero. Pode estar ligado por característica de espécie como entre humanos e animais, mas mesmo esta sugestão especula além do capta imediato do terceiro exemplo. Na linha três, uma interpretação similar é apropriada. Antes de podermos excluir a "maçã" fresca, nós devemos reconhecer que ela, junto com o bolo, torta e rosquinha, estão combinados como essencialmente um fenômeno comestível, antes de podermos chegar a tais classificações culturais como "fresca" ou "assada" como é demonstrado por Lévi-Strauss (1969) no seu livro The Raw and The Cooked.

Para concluir minha ilustração da metodologia fenomenológica e suas condições para o uso da evidência, deixem-me afirmar de que a investigação de Luria (1976, p. 49) sobre "generalização e abstração" está correta onde ele sugere como uma hipótese aberta que "a habilidade para mover-se livremente, trocar de uma categoria para outra, é uma das principais características do ‘pensamento abstrato’ ou o ‘comportamento categórico’ essencial para ele." O que os três exemplos mostraram é que existe ao menos mais uma característica essencial. Esta é a habilidade motivada (não causal) de trocar de uma lógica para a outra como um código chamado discurso o qual é a essência semiótica da comunicação entre humanos. A "escolha de contexto" - característica primária da teoria da comunicação que, por sua vez, exige a característica secundária do "contexto de escolha" da teoria de informação - é uma descrição (representação) essencial da experiência consciente como discurso per se. Este discurso marca nosso comportamento de sentido como exclusivamente humano, no senso em que Edmund Husserl e Karl Bühler pensaram para a ciência humana da comunicologia (Wilden, 1987, pp. 301-302; Roman Jakobson em Lanigan, 1992, p. 236). Talvez Paul Ricouer (1977, p 158) ofereça a melhor síntese de pesquisa da ciência humana da fenomenologia como comunicologia: "a preocupação pelo destino da comunicação... já está em trabalho na posição epistemológica na qual coisas em geral e entidades sociais em particular não são nada mais do que os sentidos que elas tem para um sujeito e uma comunidade de sujeitos." Ou na versão de Anthony Wilden (1987, p. 124) da tese: "a mediação da comunicação por outros particulares, pelo Outro ou por Outros, e por outrem em geral é essencial para nossa humanidade."

 

Referências

Alexander, H. G. (1988). The language and logic of philosophy. Lanham, NY: University Press of America.        [ Links ]

Bühler, K. (1990). Theory of language: The representational function of language. Em D. F. Goodwin (Trad.), Foundations of Semiotics (Vol. 25). Philadelphia: John Benjamins. (Trabalho originalmente publicado em 1934)        [ Links ]

Corner, J., & Hawthorn, J. (Eds.). (1989). Communication studies: An introductory reader (3ª ed.). London/New York: Edward Arnold.        [ Links ]

Hawking, S. (1988). A brief history of time: From the big bang to black holes. New York: Bantam Books.        [ Links ]

Kaelin, E. F., & Schrag, C. O. (Eds.). (1989). American phenomenology: Origins and developments. Analecta Husserliana (Vol. 26). Boston: Kluwer.        [ Links ]

King, B. (1992). Semiotic determinism and the photographic sign: Towards a theory of textual determinism after post-structuralism. Trabalho apresentado no encontro da Commission on Semiotics and Communnication, Speech Communication Association, Chicago, IL.        [ Links ]

Kristeva, J. (1989). Language, the unknown: An initiation into linguistics (A. M. Menke, Trad.). New York: Columbia University Press.        [ Links ]

Lanigan, R. L. (1977). Speech act phenomenology. The Hague/Boston: Martinus Nijhoff.        [ Links ]

Lanigan, R. L. (1988). Phenomenology of Communication: Merleau-Ponty’s thematics in communicology and semiology. Pittsburgh: Duquesne University Press.        [ Links ]

Lanigan, R. L. (1991). Speaking and semiology: Maurice Merleau-Ponty’s phenomenological theory of existential communication (2a ed.). Approaches to Semiotics (Vol. 22). Berlin/New York: Mouton de Gruyter.        [ Links ]

Lanigan, R. L. (1992). The human science of communicology: A phenomenology of discourse in Foucault and Merleau-Ponty. Pittsburgh: Duquesne University Press.        [ Links ]

Lanigan, R. L. (1994, no prelo). A good rhetoric is possible: Ricoeur’s philosophy of language as a phenomenology of discourse in the human sciences. Em L. E. Hahn (Ed.), Paul Ricoeur. The Library of Living Philosophers. Peru, IL: The Open Court Publishing Co.        [ Links ]

Lévi-Strauss, C. (1969). The raw and the cooked: Introduction to a science of mythology (Vol. 1) (J. Weightman & D. Weightman, Trad.). New York: Harper and Row.

Luria, A. R. (1976). Cognitive development: It’s cultural and social foundations (M. Lopez-Morillas & L. Solotaroff, Trad.). Cambridge: Harvard University Press. (Publicado originalmente em russo em 1974. Tradução para o português: Luria [1990]. Desenvolvimento cognitivo: Seus fudamentos culturais e sociais [L. M. Barreto, M. K. Oliveira, M. M. M. Andrade & R. H. Maciel, Tradutores]. São Paulo: Ícone.)

Merleau-Ponty, M. (1964). Signs (R. C. McCleary, Trad.). Evanston: Northwestern University Press.        [ Links ]

Ricoeur, P. (1977). Phenomenology and the social sciences. The Annals of Phenomenological Sociology, 2, 145-159.        [ Links ]

Sobchack, V. (1992). The address of the eye: A phenomenology of film experience. Princeton, NJ: Princeton University Press.        [ Links ]

Spiegelberg, H. (1982). The phenomenological movement: A historical introduction (3ª ed. rev.). Phaenomenologica (Vols. 5/6). The Hague/Boston: Martinus Nijhoff.        [ Links ]

Wilden, A. (1987). The rules are no game: The strategy of communication. London/New York: Routledge & Kegan Paul.

 

 

Recebido em 28.02.97
Revisado em 20.03.97
Aceito em 03.04.97

 

 

1 Artigo pub licado originalmente em inglês na Revista Human Studies (1994, pp 109-130) com o título "Capta versus data: Method and evidence in communicology". Traduzido e reproduzido com permissão. Tradução de Christian Haag Kristensen, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Revisão técnica e edição de W. B. Gomes.
2Endereço para correspondência: Richard L. Lanigan, Department of Speech Coomunication, Southern Illinois University, Carbondale, Illinois - Estados Unidos, 62901-6605.
3 N. do T. Do latim intensio(-onis)
4 N. do Ed. Vide a tradução para o português em Luria (1990, pp. 65-133).
5 N. do A. Não é certo que a quarta edição conterá as seleções de Luria. Como um revisor para a mais recente edição, eu tenho insistido para que elas permaneçam pela sua utilidade pedagógica em criticar o positivismo (1992, correspondência pessoal com o editor). Enquanto as seleções são uma excelente ilustração de evidência etnográfica de campo, as conclusões teóricas são questionáveis da forma que o presente artigo demonstra.
6 N.do T. Na tradução para o português há uma perda no sentido da intenção do autor, que deseja enfatizar que "bag" tanto pode designar uma bolsa quanto um saco, sacola ou maleta (não havendo uma definição de gênero), e que apenas ao caracterizá-lo como "purse" é que fica claro que o objeto em questão trata-se de uma bolsa de mão, tipicamente feminina.
7 N. do T. Expressão pejorativa, referindo-se a mulheres sem lar que vagam nas suas pedindo dinheiro e carregando seus pertences em sacolas plásticas.
8 N. do T. O que é dizível.
9 N. do Ed. Para uma outra tradução em português vide Luria 1990, pp. 79-82.
10 N. do T. O autor utiliza os termos franceses para contrapor a idéia de mensagem (relação diacrônica; expressão lingüística ou o aspecto individualizante e centrífugo da linguagem) à idéia de código (relação sincrônica; norma lingüística ou o aspecto unificador, social ou centrípeto da linguagem); ver Lanigan, 1992.
11 N. do T. O autor contrapõe duas construções lingüísticas para identificar dois processos lógicos distintos. Ao utilizar a expressão "e...e" indica a lógica binária ou inclusiva, que constitui diferenciação de possibilidades por combinação. De outra forma, quando emprega a expressão "ou...ou", o autor indica a utilização da lógica digital, que constitui diferenciação de probabilidades por exclusão; ver Lanigan, 1992.
12 N. do T. Milho na espiga.
13 N. do T. Novamente o autor utiliza-se da ambigüidade entre as palavras "bag" e "purse".
14 N. do T.: novamente o autor menciona a expressão "bag lady" atribuindo um sentido pejorativo.