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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.10 n.1 Porto Alegre  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721997000100008 

Serendipidade e situação psicanalítica de pesquisa no contexto da apresentação psicanalítica de pacientes

 

José Luiz Caon 1
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 


Resumo
O autor distingue e confronta a escuta clínica psicanalítica e a escuta cotidiana social. Toma, como modelo, a noção de "azimute" e a expressão "em todos os azimutes" para ilustrar que, em psicanálise, a observação clínica do pesquisador psicanalítico se realiza a partir de uma escuta eqüiflutuante, em todos os azimutes, isto é, em todos os sentidos e em todas as direções. Recorre, também, à noção freudiana de "Nachträglichkeit", traduzida pelos psicanalistas franceses por "après-coup" e pelos psicanalistas lusófonos brasileiros por "só-depois" (Magno, 1983) e "no relance", (Caon, 1996). Em consonância com o método - psicanalítico de observação, o autor resgata inequivocamente uma noção do termo inglês "serendipity", serendipidade, apresentada insuficientemente em alguns manuais de metodologia da pesquisa psicológica. (Bachrach, 1974, p. 5-6 e 8-14; McGuigan, 1976, p. 56) O autor propõe a serendipidade como atitude e dispositivo fundamentais para a sltuação psicanalítica de pesquisa e reafirma a cientificidade do método psicanalítico.
Palavras-chave: serendipidade, situação psicanalítica de pesquisa, apresentação psicanalítica de pacientes.

Serendipity and psychoanalytical research situation in the context of psychoanalytical presentation of patients

Abstract
The author characterizes and opposes psychoanalytic clinical listening and everyday socia listening. He takes, as a model, the notion of "azimuth" and the expression "in every azimuth" in order to illustrate that, in the field of psychoanalysis, the clinical observation of the researcher is carried out through an evenly suspended listening, "in every azimuth", i. e., in every means and in every direction. The author also utilizes the Freudian notion of "Nachträglichkeit", translated by French psychoanalysts by "aprèscoup" and by Brazilian as "só-depois" (Magno, 1983) and "no relance" (Caon, 1996). In accordance to the psychoanalytic method of observation, the author rescues unequivocally a notion from the word "serendipity", presented timidly in several handbooks of methodology of psychological research. (Bachrach, 1974, p.5-6 e 8-14 and McGuigan, 1976, p. 56) The author proposes "serendipity" as a fundamental attitude and device for the psychoanalytic research situation and reaffirms the scientificity of the psychoanalytic method
Key-words: Serendipity, psychoanalytic situation of research, psychoanalytic presentation of patients.


 

 

Masson refere-nos que Freud tinha o livro Sprachwörterbuch, de Lipperheide, onde aparece, após o verbete finden, o seguinte provérbio: "Man findet häufig mehr, als man zu finden glaubt". (Encontramos habitualmente mais do que acreditamos encontrar). (Masson, 1986, p. 62, n. 5). Na literatura francesa, Corneille, em Le Menteur, Ato 4, Cena I, pusera na boca de Dorante o seguinte dizer: "On trouve bien souvent plus qu’on ne croit trouver". (Encontramos freqüentissimamente mais do que acreditamos encontrar).

No texto freudiano, três vezes, há referência a essa idéia de descoberta inopinada. Inicialmente, em duas cartas a Fliess: "... und manchmal findet der Sucher mehr, als er zu finden wünschte. ("... e, muitas vezes, o pesquisador encontra mais do que deseja encontrar"); "bei Lipps habe ich die Grundzüge meiner Einsicht ganz klar wiedergefunden, vielleicht etwas mehr, als mir recht ist. 'Der Sucher fand oft mehr, als er zu finden wünschte’." ("Em Lipps, reencontrei, com toda a clareza, os fundamentos de minha concepção, talvez algo mais do que me cabia por direito. O pesquisador encontrou muitas vezes mais do que desejava encontrar" . Por fim, ao historiar o movimento psicanalítico, novamente Freud diz: "Man merkte zuerst nur, daß man die Wirkung aktueller Eindrücke auf Vergangenes zurückführen müß te. Allein 'der Sucher fand oft mehr, als er zu finden wünschte’." ("Observou-se unicamente, em primeiro lugar, que se devia reconduzir, para o passado, o efeito da expressão atual. Somente, que 'o pesquisador encontrava freqüentemente mais do que desejava encontrar."

A descoberta casual é sempre surpreendente. Entretanto, ela e muito mais surprendente quando é identificada, não no ato de descoberta, mas num momento sucedâneo, que pode ocorrer imediatamente ou muito tempo depois. A escuta psicanalítica é uma dessas descobertas que, somente depois de muito tempo e de forma lentamente construtiva, pôde ser identificada. Ora, a escuta psicanalítica não é apenas uma descoberta. Ela é precipuamente uma invenção. Primeiramente, iniciada por Freud, no século passado e desenvolvida por ele durante os anos que precederam a Primeira Grande Guerra, recebeu um desenvolvimento extraordinário com Lacan, no período subseqüente à Segunda Grande Guerra. Parece que também o fracasso da escuta diplomática deflagra as hostilidades da guerra. Então, não é de estranhar que durante o período do fracasso da escuta diplomática, também a escuta psicanalítica não tenha tido grandes transformações construtivas.

No que se refere às casualidades dos achados científicos, Lacan também refere-se à descoberta casual ao dizer-nos que "em todo novo que se descobre, há um acaso feliz, uma feliz conjunção dos deuses." (Lacan, 1953-1954, p. 30). Entretanto, vale insistir: os achados e as descobertas podem acontecer e ficarem não identificados. É preciso que um pesquisador singularmente se detenha perante os achados e as descobertas que, para o olhar da maioria, não passam de eventos corriqueiros e triviais.

Não deixa de ser interessante reconsiderar a oposição entre descoberta e invenção. A descrição e o deslindamento das linhas divisórias e interfaces entre descoberta e invenção e sua aplicação à pesquisa psicanalítica, em seu todo e, especialmente às noções de inconsciente e de escuta psicanalítica, foram tema de recente trabalho da pesquisadora psicanalítica Marta D'Agord, para quem: "... Freud inaugurou mais do que um invento, um paradigma de pesquisa, pode-se afirmar que a psicanálise é uma invenção que não cessa de ser reinventada, também, que o inconsciente é uma descoberta que não cessa de ser redescoberta" (D’Agord, 1995, p. 73).

De fato, diferentemente da escuta clínica psicanalítica, nossa escuta quotidiana social, quando dirigida pela atenção, centra-se num aspecto do falado ou do lido. Assim, a escuta do dia a dia, como essa que estou recebendo agora pelo leitor, é uma escuta orientada por um viés restritivo preestabelecido. Se pudermos dizer que a escuta clínica psicanalítica é uma escuta dirigida pela atenção, essa atenção deve ser entendida como uma atenção muito especial, pois que ela ab-roga todo princípio centralizador e seletor que limita essa mesma escuta. Geralmente, na comunidade psicanalítica, referimo-nos a escuta clínica psicanalítica com os termos de "escuta de atenção flutuante ou eqüiflutuante."

Nossa língua incorporou, do árabe, o vocábulo "azimute" (azsamt) que significa "o caminho". Aurélio, 1993, descreve a noção de azimute: "Distância angular, medida sobre o horizonte, a partir de um ponto de origem, geralmente o sul, no sentido dos ponteiros do relógio ou no sentido inverso, até o círculo horizontal que passa por um determinado astro. O idioma francês criou uma expressão linguageira com o termo azimute: "Dans tous les azimuts" significa "em todas as direções", "em todos os sentidos". Uma defesa militar "dans tous les azimutst" é uma defesa capaz de intervir em todas as direções. Analogamente, uma escuta "em todos os azimutes" indica uma escuta aberta em todas as direções. Curiosamente, o adjetivo azimuté, no francês familiar, significa demente, desbussolado, louco. Vê-se, pois, que a expressão "em todos os azimutes" é uma expressão linguageira que indica, de forma palpável e plástica, a situação da escuta clínica psicanalítica. Assim, uma escuta "em todos os azimutes" é uma escuta que, além de eqüiflutuante, está aberta em todos os sentidos e em todas as direções.

Após essas considerações, o leitor esta preparado a se interrogar comigo sobre as condições de possibilidade de realização da escuta clínica psicanalítica. Em outras palavras e falando em termos de pesquisa científica, podemos nos perguntar: "Quais as condições necessárias para que se possa sustentar teoricamente a observação clínica psicanalítica?"

Os pesquisadores da comunidade científica concordam que a observação deve ser controlada. Também admitem que, respeitadas as exigências de competência do observador e de viabilidade do observado, o exercício dessa observação deve estar, em princípio e na prática, ao alcance dos outros pesquisadores. Entretanto, há tempo que os pesquisadores científicos de diferentes áreas confidenciam freqüentemente entre eles e, às vezes, declaram publicamente terem topado com uma situação muito específica em que o controle da observação só poderá ser considerado não no lance da observação, mas no seu relance, ou como nos diz Magno, no "só-depois". Essa situação que se assemelha à da expressão ex-post facto, empregada em metodologla cinetífica, remete à noção freudiana da situação de "Nachträglichkeit", que os psicanalistas franceses, começando por Lacan, traduzem pela expressão "après-coup", e que, em português, podemos seguir dizendo "só-depois", ou "no relance".

Essa situação de "só-depois", ou de "no relance" é o resultado de uma experiência ou fenômeno que pressupõe que o pesquisador se lançou e se entregou a um tipo de espera passiva, aparentemente inintencional. A palavra inglesa "serendipity", traduzida no contexto da pesquisa científica por "serendipidade", indica, extremamente bem, essa experiência. Porém, é preciso apontar, desde já, a dupla acepção do termo "serendipidade", ressalvando-lhe aquela que o gênio da língua inglesa destacou e desenvolveu. É neste sentido que resgatamos a noção rica e fecunda de serendipidade e a propomos para a consideração dos pesquisadores científicos em geral e, especialmente, à dos pesquisadores psicanalíticos.

Deparamo-nos com esse termo, nos estudos da disciplina de Metodologla da Pesquisa Psicológica, no Curso de Psicologia, na década dos 70. Em primeiro lugar, no livro Introdução à pesquisa psicológica, (Bachrach, 1974, pp. 5-6 e 8-14) e depois no livro Psicologia experimental, uma abordagem metodológica, (McGuigan, 1960/1976, p. 56). O achado da palavra "serendipity" ou serendipidade, ele mesmo, foi, para mim, um exemplo de serendipidade.

Bachrach é um pesquisador que se orienta pelo princípio seguinte: "em geral não se faz pesquisa da maneira pela qual os que escrevem livros sobre pesquisa dizem que elas são feitas," (l974, p. XIII e 5). Esse autor leva em consideração a oposição entre pesquisador causal e pesquisador casual. Embora não o cite, ele se refere ao bacterilogista francês Louis Pasteur (l822-1895) de quem é conhecido o dizer, repetido na comunidade dos pesquisadores: "No campo da observação, o acaso favorece apenas as mentes preparadas." Parece que foi Walter B. Cannon (l945) que teria popularizado entre os pesquisadores a palavra "serendipidade" (serendipity), na obra The way of an investigator. Entretanto, sabemos que ele a tomou emprestada a Horace Walpole (l676-1745) quem, por sua vez, a teria encontrado no conto, "The Three Princes of Serendip" onde se descreve e se ilustra uma certa faculdade particular dos três protagonistas do conto. Providos dessa capacidade, eles podiam fazer acidentalmente descobertas inintencionais.

A língua inglesa não tinha palavra para expressar essa faculdade. Assim, o autor do conto inventou a palavra aparentemente intraduzível "serendipity." Embora diga-se que o nome árabe para Ceilão é Serendib, ainda não se conseguiu encontrar a conexão entre esse nome e essa faculdade de realizar acidentalmente descobertas e achados não intencionados.

Por um lado, a leitura do texto de Bachrach (1965/1974) permite-nos concluir que o pesquisador deve ser cuidadoso (causal) e serendipidoso (casual). Por outro lado, Macguigan (1960/1976) restringe o espírito de obediência à hipótese preestabelecida, quando, no Capítulo 3, tendo por titulo "A hipótese", tece considerações em torno do acaso, da serendipidade e das hipóteses supervenientes:

"As hipóteses ... nos ajudam a ver quais, dentre o número infinitamente grande de respostas, merecem nossa atenção. Contudo, no decorrer de um experimento, não devemos fechar os olhos para outros eventos. Na verdade, a fim de atingir seu objetivo, o psicólogo deve estar atento a tudo que esteja acontecendo além daquilo que primariamente está exigindo sua atenção, pois, às vezes, uma observação casual de alguma coisa irrelevante ou mesmo diferente da hipótese que está sendo testada, pode levar à formulação de uma hipótese ainda mais importante. (..) 'Serendipidade' é um termo que se tornou bastante popular. A palavra foi tirada do livro Three Princes of Serendip, do fisiologista Cannon (l945). A história de Walpole diz respeito a uma busca fútil de algo e ao descobrimento de uma série de coisas valiosas que não se pretendia encontrar." (McGuigan, 1976, p. 56).

Observemos, desde já, que esse autor fala claramente de descobrimentos feitos acidentalmente e de forma inintencionada. Ele se coloca entre os que defendem a inintencionalidade dessas descobertas acidentais.

Entretanto, o Webster's Encyclopedic Unabridged Dictionary of English Language apresenta esta definição para o vocábulo serendipity":

"the faculty for making desirable discoveries by accident. Horace Walpole so named a faculty possessed by the heroes of a tale called The Three Princes of Serendip ".

O enunciado abalizado do Websters permite-nos identificar a existência de uma querela estabelecida em torno do significado dado à palavra serendipidade.

A pesquisa psicanalítica, como veremos, inclina-se a abraçar o sentido dado pelo Websters.

Verificamos que, no recente artigo de George B. Kauffman (Mirador Internacional, Livro do Ano, 1991), a intencionalidade do pesquisador em situação de serendipidade é fortemente refutada. Diz: "Infelizmente, parte de seu emprego atual é incorreto." Kauffman cita a carta de Walpole, onde se diz que os heróis do conto de fadas "sempre estavam fazendo descobertas, por sagacidade e acasos, de coisas que não estavam procurando." (p. 148). Além disso ele ainda acrescenta:

"No entanto, apesar da insistência de Walpole de que a descoberta seja não só acidental, mas também inintencional, a palavra serendipity é usada com freqüência hoje na língua inglesa [e na língua portuguesa], como um sinônimo pretensioso de 'descoberta acidental'. Mesmo alguns dicionários não condensados dessa língua não incluem a segunda condição, definindo-a em vez disso, simplesmente, como a capacidade de fazer por acaso descobertas desejáveis." (p. 149)

Um desses dicionários, como vimos, é o Webster. Como pesquisador psicanalítico, não posso seguir a não ser o gênio e o espírito da lingua inglesa, manifestado na definição do Webster. Para o pesquisador psicanalítico, nenhuma descoberta acidental é inintencional, pois que ela é determinada pelo inconsciente.

Certos autores, como R. M. Roberts (1989; citado por Kauffman, 1991), (Serendipity: Accidental Discoveries and Science, 1989), propõem o nome de pseudoserendipidade às "desco-bertas acidentais de meios para conquistar um objetivo visado." Kauffman, como vimos, afirma, no seu ilustrativo artigo, que o significado de serendipidade implica acidentalidade e inintencionalidade. Conseqüentemente, oferece exemplos em que as descobertas pintam ser genuinamente acidentais". Entretanto, no fim do seu artigo, ele faz justiça à descoberta casual e nos deixa uma preciosa reflexão, cuja citação, embora longa, merece ser transcrita por causa de sua penetrante instrução:

"... uma dose de sorte - na hora certa e no lugar adequado - é inerente às descobertas casuais. A descoberta acidental é provavelmente mais comum do que geralmente se pensa, em grande parte porque os cientistas relutam em admitir que se beneficiam do acaso, muito embora ele sempre esteja presente na atividade cotidiana de todas as pessoas. Diante dos critérios editoriais da maioria das publicações científicas, que requerem que os artigos sejam escritos de modo impessoal e objetivo, quase sempre os cientistas relatam seus trabalhos numa seqüência lógica, na qual o resultado final parece proceder diretamente da hipótese inicial. Assim, em geral eles omitem os detalhes pessoais e os eventos fortuitos, alguns dos quais podem ser de suma importância. O prêmio Nobel Ronald Hofmann está entre os que sustentam que os artigos científicos devem ser 'humanizados', não só para refletir a realidade de modo mais correto, mas também para tornar o relato mais inteligível aos leitores não especializados na disciplina e destruir o estereótipo, errôneo mas comum, da ciência como uma atividade entediante e desapaixonada. Uma tal mudança também tornaria óbvias as descobertas nas quais o acaso está envolvido. As origens da descoberta acidental, como as da criatividade, estão no poprio indivíduo, em seus traços de personalidade e hábitos de trabalho, mais do que na situação externa. A característica dominante nos cientistas que convertem acidentes em descobertas é a curiosidade - um desejo ardente de compreender o acidente que foi observado. Outra caraterística correlata é a percepção - o registro do fenômenos inesperados, em vez de rejeitá-los como triviais ou incômodos." (Kauffman, 1991, p.162). 2

Sublinhamos a metade do penúltimo parágrafo dessa longa citação, porque, curiosamente, Kauffman, "malgré lui", é quem apóia fortemente minha proposta de entendimento metapsicológico de serendipidade. Então, se, nas palavras de Kauffman, "as origens da descoberta acidental, como as da criatividade, estão no próprio indivíduo, em seus traços de personalidade e hábitos de trabalho, mais do que na situação externa" e se "a característica dominante nos cientistas que convertem acidentes em descobertas é a curiosidade - um desejo ardente de compreender o acidente que foi observado", então estamos certos quando afirmamos que a mente preparada do observador, na concepção de Pasteur, corresponde, na concepção da pesquisa psicanalítica, ao desejo do pesquisador. Não se fazem descobertas por acaso, inocentemente. Repetimos, citando Kauffman contra Kauffman, mas a nosso favor: "As origens da descoberta acidental, como as da criatividade, estão no próprio indivíduo, em seus traços de personalidade e hábitos de trabalho, mais do que na sltuação externa. "Dito de outra maneira, concluímos que essas descobertas acidentais mas desejadas são formações do inconsciente.

Outro prêmio Nobel, Albert Szcnt Gyorgyi, citado por Kauffman, 1991, nos diz que "a descoberta consiste em ver o que todos viram e em pensar o que ninguém pensou" (p. 163). E Joseph Henry, também citado por Kauffman, 1991, escreve: "As sementes das grandes descobertas pairam constantemente ao nosso redor, mas só criam raízes nas mentes bem preparadas para recebê-las" (p. 163). Por fim, Royston M. Roberts, ainda no artigo de Kauffman diz: "a pessoa que só vê o previsto e rejeita como ‘errado’ os resultados inesperados não fará descobertas" (p. 163).

Cabe agora observar que esse estado mental de serendipldade corresponde justamente ao primeiro momento da prática de investigação realizada pelo pesquisador psicanalítico na situação psicanalítica de pesquisa em geral e, em particular, na situação de apresentação psicanalítica de pacientes. Ele corresponde à especulação metapsicológica inaugurada por Freud desde os primórdios de suas pesquisas psicopatológicas tendo se referido, ex professo, a esse momento inicial da pesquisa psicanalítica, nos seus textos "Jenseits des Lustpinzips (l920g) (Além do princípio do prazer) e "Die endliche und die unendliche Analyse" (l937c) (Psicanálise finita e não-finita).

Sem a produção da especulação metapsicológica, o segundo momento da pesquisa, que é o momento duma crítica impiedosa, dar-se-ia no vazio e tornaria estéril a pesquisa. A prática crítica sem a prática de especulação metapsicológica tornar-se-ia parecida às mós do moinho que nada tendo para moer acaba moendo reciprocamente a elas mesmas. Pelo que se observou e é o que afirmamos, o pesquisador psicanalítico não considera totalmente inintencional a descoberta acidental que lhe cai sob os olhos. Ela pode ser inintencional do ponto de vista da exterioridade e do comportamento. Mas, do ponto de vista do determinismo psíquico e do desejo do pesquisador, ela não é nada acidental. Não é isenta e desprovida de causalidade psíquica. É por isso que o pesquisador psicanalítico, quando não analisante ou paciente, respectivamente na situação psicanalítica de cura, onde é o psicanalista, e, na situação psicanalítica de pesquisa denominada apresentação psicanalítica de pacientes, onde é o entrevistador, deve se ater tenazmente às regras técnicas psicanalíticas da abstinência e da escuta eqüiflutuante. Acrescenta-se a elas a contrapartida da regra básica segundo a qual ninguém será capaz de dirigir uma psicanálise de um outro e uma entrevista psicanalítica de um outro se ele mesmo não tiver se submetido, como paciente e analisante, à experiência psicanalítica da analisabilidade.

Além disso, o pesquisador psicanalítico que se orienta pelo princípio do determinismo psíquico, demonstrado clara e exaustivamente pelo fundador da psicanálise, no último capítulo de A psicopatologia da vida quotidiana, (Freud, 1901b), não pode seguir a interpretação, mesmo aparentemente moderada, proposta por Kauffman, no início do artigo. Como dissemos, para o pesquisador psicanalítico, uma descoberta acidental corresponde a uma formação do inconsciente. Desta maneira, ela é sempre psiquicamente determinada e, portanto, inconscientemente intencionada.

Tendo situado e descrito o espírito e a situação de serendipidade em que se move o pesquisador, resta-nos apresentar igualmente, mas de forma extremamente breve, o que entendemos por situação psicanalítica de pesquisa e por apresentação psicanalítica de pacientes. Uma e outra são a nosso ver, dispositivos didático-pedagógicos de pesquisa com ensino, montados a partir do dispositivo da situação psicanalítica da cura. O que funda e ordena a situação psicanalítica da cura e a situação psicanalítica de pesquisa é a transferência, como tive oportunidade de mostrar e de demonstrar na tese, La psychopathologie dans la recherche psychanalytique (Caon, 1993) e no trabalho, "O pesquisador psicanalítico e a situação psicanalítica da pesquisa" (Caon, 1994). Entretanto, a transferência recebe um destino na situação psicanalítica de pesquisa e outro na situação psicanalítica de cura. Nessa, a transferência é identificada e liquidada até onde o permitem os dispositivos da técnica da cura e até onde o permite a psicanálise pessoal do profissional da escuta psicanalítica. Na situação psicanalítica de pesquisa, a transferência é identificada e instrumentalizada a partir dos dispositivos e procedimentos próprios do aparelho pedagógico-didático da pesquisa psicanalítica.

Nesses estudos, evidenciamos que o trabalho do pesquisador psicanalítico e o trabalho do diretor da pesquisa psicanalítica se fundam num contrato de trabalho suficientemente explicitado e não meramente numa vaga transferência de trabalho. Vale recordar, nesse momento, que o verbo simbolizar, num dos seus mais fortes sentidos, em grego, quer dizer fazer contratos. Desta forma, fazer contratos é simbolizar. Curiosamente, a constituição mais fundamental da Igreja Católica, feita de doze contratos, popularmente conhecida como "Credo", denomina-se, desde sua origem, "Símbolo dos Apóstolos", isto é, o contrato dos fundadores.

Seguindo o pensamento democrático dos gregos, podemos comparar a instrumentalização da transferência na situação psicanalítica de pesquisa com o processo de fazer leis e segui-las. Ele não difere do princípio segundo o qual os sábios helenos dizem: "Os cidadãos livres fazem livremente as leis e as obedecem. Os escravos obedecem ao seu dono." Ora, sabemos que a transferência, abandonada a ela mesma, é uma forma anacrônica de escravização ao outro e que o amor de transferência entregue a ele mesmo é infelicidade e miséria de alma nos laços sociais íntimos e nas relações humanas institucionalizadas. As claques, diferentemente das assistências benfazejas e críticas, como bem o demonstraram primeiro Freud e, depois, a constante pesquisa psicanalítica, sustentam-se pela sugestionabilidade e pela hipnotizabilidade, duas manifestações bastante primitivas de processos psíquicos muito simplificados, embora extremamente poderosos, que nós chamamos de transferência. As claques, diferentemente das assistências benfazejas e críticas, são capazes de transformar um ensino indepente e crítico em fofoca, malediscência e delação. Transformam o potencial linguageiro do idioma, fecundo e inventiva na boca e na pena do pesquisador psicanalítico, em devastação linguareira, esterilizadora e improlífica. Isso aconteceu ao discurso de Freud e, principalmente, ao de Lacan. Por que não haveria de acontecer com o discurso de ensino com pesquisa dos seus sucessores? As audiências benfazejas, profundamente críticas e nada indulgentes, diferentemente das claques, sustentam-se com o clamor da paixão pela pesquisa e pela busca da verdade que dilaceram o coração do pesquisador que abandonou o consolo da cosmovisão estábilizadora. Mas, diferentemente da audiência benfazeja, a claque sustenta-se de oportunismo. A claque, principalmente quando se institucionaliza no poder, só transferência, corrompe e uniformiza. A audiência benfazeja, transforma o veneno transferencial em simbólização, sublimação e cultura, e em diferenciação e orquestração das diferenças. As audiências vienenses, no tempo de Freud, as audiências francesas, no tempo de Lacan, constituem esse protagonista extraordinariamente fiel e presente, sem o qual Freud e Lacan teriam sucumbido e seu discurso teria caído no vazio.

A apresentação psicanalítica de pacientes foi e é a peste lacaniana mais corrosiva, uma pedra de escândalo no ensino com pesquisa de Lacan. É uma atividade com que nos familiarizamos, há algum tempo, aqui, em Porto Alegre, conduzida durante um curto tempo, por Contardo Luigi Calligaris, na Clínica Pinel, num curso então organizado por Martha Brizzio e Valter Doege, do qual surgiu o livro ditado: Introdução a uma clínica diferencial da psicose. Marcel Czermak que realiza apresentações psicanalíticas de pacientes no Hôpital Henry Rousselle, no Centro Hospitalar Sainte-Anne, em Paris, abriu-nos as portas para a sua prática e forneceu-nos alguma bibliografia. Assistimos também a outras apresentações psicanalíticas de pacientes conduzidas por diferentes psicanalistas. Pudemos, dessa maneira, apreciar os seus diferentes estilos.

Antes de voltarmos de Paris, onde encerramos nossos estudos doutorais, afirmamos, perante o júri, a validade do dispositivo da apresentação psicanalítica de pacientes, na conclusão de nosso trabalho científico que nos elevou ao posto de pesquisador psicanalítico da Université Denis Diderot Paris VII, em Paris, e, agora, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, GEEMPA, Unisinos e na Associação Psicanalítica de Porto Alegre, instituição psicanalítica que co-fundamos. Nosso ensino, agora ensino com pesquisa, é feito dentro das instituições com as quais somos críticos mas sempre um de seus participantes mais adultos, pois acreditamos que uma instituição moderna, como a Universidade e a APPOA, têm vocação de ser diferentes de uma instituição eclesiástica medieval. Então, perante aquele júri, apresentamos, na conclusão, o seguinte:

"Tomemos o exemplo da alucinação. Nem a pintura nem o desenho nem a linguagem figurativa podem reproduzi-la. Não se pode gravar as imagens de nossos sonhos com uma câmera, ou as vozes onírtcas com um gravador, nem as sensações de nossos sonhos com um galvanômetro. Que termômetro poderia medir os graus de calor ou de frio que experimentamos durante o sonho? Ao contrário, pode-se aceitar que a alucinação seja o ato psíquico de transpor a realidade em estado de irrealidade? A reprodução do ato psíquico onírico ou alucinatório - seguindo o caminho inverso, pelo desejo ou pela descrição discursiva, o que vem a ser pôr a irrealidade em estado de realidade - não reitera de forma alguma alucinação. Vê-se que a alucinação e outras produções do inconsciente semelhantes constituem um psicopatológico irreproduzível e irrepresentável. Mas, isso não quer dizer que não seja de forma alguma demonstrável. Que seria então o psicopatológico que o paciente e o psicanalista mostram ao público quando da apresentação de pacientes? Supõe-se que ele não mostra a não ser o psicopatológico de cada um dos participantes da assistência. Ao drama social externo dos protagonistas corresponde o drama interno dos participantes da assistência. No dispositivo da apresentação psicanalítica de pacientes, cada qual vê o psicopatológico como em sonho, como uma imagem exterior. No contexto, dispositivo psicanalítico da apresentação de pacientes é um dispositivo do tipo ‘to páthei máthos’, isto é, ‘aprendizagem pelo sofrimento’, e, desta forma, esse dispositivo é, tecnicamente, operativamente e fundamentalmente metapsicológico. Em ‘Personagens psicopatológicos no palco’, (Freud, 1942a [19095-06]), encontramos uma passagem que apóia nossa afirmação: 'Ora, a série das possibilidades se amplia e o drama psicológico se tornará drama psicopatológico, quando a fonte do sofrimento em que devemos participar e do qual extraímos prazer não é já o conflito entre duas moções dotadas de um grau de consciência aproximadamente igual, mas entre uma moção consciente e uma moção recalcada. Condição de gozo é, aqui, que o espectador seja também neurótico. Somente o neurótico, com efeito, pode encontrar prazer e não mera repugnância na revelação e na admissão em certo modo consciente da moção recalcada. No não neurótico, ela tropeçaria meramente com uma repugnância, e o predisporá a repetir o ato do recalcamento. Nesse, com efeito, este último teve êxito: imediatamente, mediante um gasto único de recalcamento, a moção recalcada ficou plenamente neutralizada. em troca, no neurótico, o recalcamento sempre está a ponto de fracassar; é lábil e requer um gasto sempre renovado, gasto que justamente lhe é poupado por aquela moção. Então, no neurótico, persiste uma luta com aquele que pode ser o tema nesse tipo de drama. Porém, o autor da peça provocará no neurótico não somente um gozo por liberação [e catarse], mas também e invariavelmente uma resistência". (Freud 1942a, [1905-06] AE.- I/7I, 179-180).

E mais adiante, ainda dissemos, para rematar a conclusão:

"Falou-se de assistências sobretudo francesas e parisienses que, desde Charcot até Lacan, apoiaram uma experiência quotidiana de pesquisa de ponta. Parece que a apresentação psicanalítica de pacientes é a continuação de uma tradição onde um público benfazejo e estimulante é o testemunho e o apoio desse pesquisador que lhes fala como analisante sem medo de se situar num primeiro momento, do lado da histérica. Essa experiência deveria ser adotada para a pesquisa do psicopatológico na Universidade e nas instituições psicanalíticas".

A apresentação psicanalítica de pacientes é uma atividade que, enquanto ato clínico, implica simultaneamente ato psicoterapêutico e ato de pesquisa. Como tal, é um exemplo de serendipidade no sentido em que Freud dizia que o pesquisador encontra mais daquilo que deseja e sonha encontrar. Entretanto, nessa atividade também acontece aquilo a que nos referimos quando dizíamos que nem sempre a descoberta é identificada no lance. Não fossem as retomadas das apresentações psicanalíticas de pacientes em discussões clínicas sucedâneas, muitos achados e ensinamentos provindos diretamente do discurso dos pacientes ficariam perdidos.

Entretanto, a apresentação psicanalítica de pacientes também se parece ao dispositivo esquiliano de aprendizagem do tipo "tó páthel máthos", isto é, a aprendizagem pelo sofrimento e pela experiência que é, igualmente, um meio de transmissão da psicanálise. Serendipidade e "tò páthei máthos" estão simultaneamente presentes na atividade de apresentação psicanalítica de pacientes.

Enquanto ato psicoterapêutico, a apresentação psicanalítica de pacientes se sustenta pelo fato de ela estar inserida no processo de cura dirigido por um profissional que apresenta seu paciente a um psicanalista. Pede-se que o psicanalista escute psicanaliticamente, de um outro lugar, o paciente, na presença do profissional responsável ou profissionais responsáveis pelo tratamento do paciente. Esse profissional ou profissionais responsáveis pelo tratamento do paciente são acompanhados, via de regra, por uma assistência que, como tal, constitui o quarto protagonista deste dispositivo da situação psicanalítica de pesquisa.

Enquanto ato de pesquisa, cabe observar que os psicopatólogos são todos aqueles que estudam e pesquisam o psicopatológico e sobre ele têm um discurso. Desta maneira, a psicopatologia ordinária e o discurso ordinário dos psicopatólogos sobre o psicopatológico. Eles são os agentes desse discurso, através do qual eles se comunicam, pouco importando se o paciente participa desse discurso.

Entretanto, o psicopatológico ou o sofrimento mental - como a dor física que agita e provoca o saber médico - agita e provoca o discurso dos psicopatólogos. O trabalho e o discurso do psicopatológico são formações do inconsciente e, como tais, são a expressão do paciente em mostrações e demonstrações. As demostrações fulguram em figurações e formações visuais. As demonstrações multiplicam-se em falações, escritos, discursos e formações de escuta.

Entre os profissionais, a quem as mostrações e as demonstrações psicopatológicas pedem identificação e reconhecimento, encontra-se o psicanalista. Entretanto, esse, devido à sua técnica inabitual, não pode ser visto ou acompanhado durante o seu trabalho. Podemos imaginar uma cirurgia sendo observada, filmada, televisionada; podemos imaginar uma sessão de terapia famülar sendo observada, filmada. Mas não podemos ver, escutar, auscultar, acompanhar uma sessão de psicanálise, pois a essência da técnica exclui qualquer terceiro. O psicanalista está destinado a não poder compartilhar com outrem o ato psicanalítico da situação psicanalítica de cura. Todo seu trabalho, em princípio, é transmitido aos outros, no discurso cotidiano da comunicação e da compreensão. Geralmente, só os que passaram ou passam pela experiência psicanalítica, quer como pacientes, quer como psicanalistas, poderão ter um entendimento científico desse discurso, ao refundá-lo perante a comunidade dos pesquisadores científicos em geral. O presente texto, oferecido aos pesquisadores da comunidade científica, é um esforço de refundação da experiência psicanalítica.

Jacques Lacan firmava sua prática de psicanalista em três grandes momentos: o consultório, o seminário e a "présentation de malades". No que se refere à apresentação pública de pacientes, Jacques Lacan teria ocupado o espaço que ficara vacante desde a morte de Charcot. Dizia na sua "Leçon" de 15 de novembro de 1887:

"Cest pour ne pas vous tromper que je me jette à l'eau et que je procède un peu, devant vous, comme je le fais dans ma clinique particulière" (É para não vos enganar que eu me lanço na água e procedo um pouco, diante de vós, como o faço na minha clínica particular.)

Assim, Charcot (1887), justificava as entrevista e exame clínico iniciais dos pacientes perante os alunos e colegas. Charcot não hesitava lançar-se em situações imprevistas onde as descobertas poderiam aparecer e denunciar o método e a prática do pesquisador. Ora, a serendipidade como tivemos a oportunidade de examinar é uma situação dessa natureza. A apresentação psicanalítica de pacientes é, como já afirmamos, uma situação de serendipidade.

Curiosamente, os lacanianos brasileiros, como já indiquei, pouco desenvolvem a apresentação psicanalítica de pacientes. Neste aspecto, o conselho de Charcot: "C'est pour ne pas vous tromper que je me jette à l'eau et que je procède un peu, devant vous, comme je le fais dans ma clinique particulière", parece ter produzido poucos efeitos. Depois ter ter escrito uma pequena nota no boletim da APPOA, também traduzi um trabalho sobre apresentação psicanalítica de pacientes, a partir de um paciente fóbico entrevistado por Lacan no Hôpital Henry Rousselle, no Centro Hospitalar Sainte-Anne, em Paris.

A descrição mais detalhada do dispositivo desta atividade, necessitaria de espaço mais longo de exposição. Meu trabalho presente propôs-se apresentar aos pesquisadores da comunidade em geral e aos profissionais da escuta psicanalítica em particular, pela via da serendipidade, a atividade da apresentação psicanalítica de pacientes. Assim sendo, realço nessa atividade, o seu aspecto de pesquisa psicanalítica do psicopatológico e seu potencial de transmissão da psicanálise.

Enquanto dispositivo de pesquisa psicanalítica do psicopatológico, a apresentação psicanalítica de pacientes é um campo exemplar de serendipidade, entendida como essa faculdade de fazer acidentalmente descobertas desejadas. O desejo do psicanalista, enquanto pesquisador psicanalítico, será sempre o desejo de que o paciente (analisante) se analise. Entretanto, o desejo de reconhecimento que só pode ser dirigido a uma audiência benfazeja a quem se transmite a psicanálise não deixa de ser menos importante e, talvez, seja mesmo a alma dessa atividade denominada apresentação psicanalítica de pacientes. "Y participent ceux qui peuvent me pardonner" (Participam ali aqueles que podem me perdoar), nos ensina Lacan (Allouch, 1988, p. 98). Nós nos inserimos na linha daqueles que como Erik Porge, sustentam que "Les présentations de Lacan ont été un lieu de transmissi on de la psychanalyse." (As apresentações de Lacan foram um lugar de transmissão da psicanálise), (Porge, 1985, p. 26).

Finalmente, "mutatis mutandis", não poderíamos concluir a não ser com a justificativa de Charcot: " C'est pour ne pas vous tromper que je me jette à l'eau et que je procède un peu, devant vous, comme je le fais dans ma clinique particuhère." Com o presente texto, demos continuação aos estudos doutorais de Paris, de onde escrevemos para os leitores e pesquisadores da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, uma significativa apresentação do que é a apresentação psicanalítica de pacientes, a qual mereceu, dessa associação, apenas um modesto lugar de reconhecimento para o que consideramos uma real contribuição para a pesquisa psicanalítica de ponta no Brasil. Naquela época, esse lugar intitulava-se "Variações". "Variar", no nosso linguageiro, significa endoidecer, delirar, pirar, enlouquecer, desvairar. De qualquer forma, a serendipidade permite ao pesquisador psicanalítico encontrar e aprender, na academia dos alucinados, aquilo que as instituições universitária ou para-universitária psicanalítica recusam como irracional e inconciliável (unverträglich), porque insuportável (unerträglich). Se a clínica psicanalítica é esse real impossível de ser suportado (Miller, 1977), a pesquisa psicanalítica não pode esperar consolações substitutivas, principalmente quando sua realização e transmissão têm necessariamente de passar pelas instituições acadêmicas universitárias ou acadêmicas psicanalíticas.

 

Referências

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Recebido em 10.05.96
Revisado em 10.07.96
Aceito em 29.09.96

 

 

1 Endereço para correspondência: Rua Riveira, 600 - 90640-160 - PoA - RS - Brasil.
Tel. (05l) 331 5150 - E-mail: Caon@Vortex.Ufrgs.Br.
2 (Sublinhado do autor do presente texto).