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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.10 n.1 Porto Alegre  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721997000100011 

Crenças e valores dos adolescentes acerca de família, casamento, separação e projetos de vida

 

Adriana Wagner 1
Denise Falcke
Eliane Böttcher Duarte Meza
Pontifícia Universidade Católica - RS

 

 


Resumo
Este é um estudo descritivo, resultado de um projeto piloto, que avalia e compara o que pensam os adolescentes de famílias originais e reconstituídas em relação à "família", ao "casamento" e à "separação" e quais são os seus "projetos de vida". A amostra foi de 60 adolescentes, 30 de famílias reconstituídas (FR) e 30 de originais (FO), de ambos os sexos, entre 12 e 17 anos. Utilizou-se um instrumento de 12 "Frases Incompletas" que os jovens completaram com a primeira idéia que lhes ocorreu. Analisou-se o conteúdo destas respostas, elaborando-se categorias por temas afins. Posteriormente, aplicou-se o teste estatístico qui-quadrado considerando-se as variáveis grupo (FO e FR) e sexo. Das variáveis estudadas, observou-se uma tendência dos adolescentes de FO considerarem suas famílias mais "unidas e companheiras" que os de FR (x2=8.43, p=0,07). Encontrou-se, também, diferença significativa em relação ao que os adolescentes esperam do casamento; os filhos de FO esperam mais felicidade e os de FR, mais amor (x2=13.38, p=0,003). Comparando-se sexos, houve diferença significativa com relação ao casamento e à separação. As meninas acreditam que as pessoas se casam porque se amam (97%) e que se separam porque deixam de se amar (56,25%), enquanto que os meninos atribuem causas mais diversificadas para o casamento e pensam que a separação ocorre porque os casais não se acertam. Não houve diferença significativa com relação aos projetos de vida. Apesar das mudanças estruturais da família, nota-se que alguns valores, crenças e projetos de vida parecem ficar imunes, estabelecendo-se, independentemente, dessas transformações.
Palavras-chave: Adolescentes, família, casamento, separação, projetos de vida.

Beliefs and values of adolecents about family, marriage, divorce, and vital projects

Abstract
This is a descriptive study, which evaluates and compares what adolescents from intact families and remarried families think about "family", "marriage" and "divorce", and what are their "life projects"are. The participants were 60 adolescents, 30 from intact families (IF) and 30 from remarried families (RF), of both sexes, ages 12 to 17, was used. An instrument composed of 12 incomplete sentences, which the teenagers were asked to fill out with the first idea that came to their minds, was employed. The content of these responses was analyzed and categories were established. Chi-square was used to examine the variables group (IF and RF) and sex. The results showed that IF adolescents tended to consider their families as more "united" than the RM adolescents. A significant difference was also found regarding the adolescents’ expectations about marriage. IF adolescents expected more happiness and RF adolescents expected more love. There was a significant gender difference related to marriafe and divorce. Girls believed that people get married because they love each other (97%) and divorce because they cease loving each other (56.25%), while the boys gave several other reasons for marriage, and believed that divorce happens because couples do not get along anymore. There was no significant differences regarding their life projects.
Key words: Adolescents, family, marriage, divorce, life projects.


 

 

O adolescente, na inquietude de conhecer a vida, vê o mundo multiplicado na sua dimensão. Seus sonhos e suas fantasias refletem um universo imenso e eterno. A busca do equilíbrio entre o real e o imaginário é uma das tarefas mais importantes desta fase do ciclo evolutivo vital, onde a família desempenha uma função de importância crucial.

O contexto no qual o jovem se desenvolve é o cenário que colore, complementa e estrutura o seu processo de crescimento. As experiências do sujeito construídas na família, na escola, no bairro e em todos os seus círculos sociais, contribuirão diretamente na sua formação enquanto adulto, fazendo-o capaz de tomar decisões, relacionar-se, trabalhar, escolher um cônjuge, etc. (Osório, 1991; Aberastury & Knobel, 1992; Kaplan & Sadock, 1993; Blos, 1994).

Entre estes aspectos, a família é o palco onde entram em cena, às vezes de forma dramática, as mais genuínas experiências de afeto, prazer, dor, medo, e tantas outras emoções que favorecem o mais inesquecível dos aprendizados. Integrar todas as demandas da fase adolescente, num palco onde o cenário se encontra multifacetado e em pleno processo de modificação, significa, muitas vezes, deparar-se com um agravamento das crises inerentes à adolescência e ao ciclo evolutivo do sistema familiar.

A família transformou-se, a partir de um modelo que era legitimado pelo casamento (sendo o poder maior delegado ao pai/ma-rido), para uma união estável entre homem e mulher ou qualquer um dos pais e seus descendentes (Brasil, 1988). A troca deste cenário implica em mudanças importantes na vivência, percepção e construção que o adolescente faz de seus aspectos sócio-afetivos e projetos de vida.

A partir do reconhecimento de novas formas de configuração familiar, observa-se, cada vez mais, a formação das chamadas famílias reconstituídas, ou recasadas (Carter & McGoldrick, 1995; Penso, Costa & Carneiro, 1992), ou substitutas (Smith, 1995), conforme denominam os estudiosos do tema. Neste trabalho, consideramos famílias reconstituídas aquelas em que os pais são separados de seus primeiros cônjuges (oficial ou não-oficialmente) e atualmente mantêm uma relação estável com outro(a) companheiro(a), coabitando em domicílio conjugal na companhia de seus filhos do primeiro casamento, por, no mínimo, seis meses.

Pode-se encontrar, de maneira abundante, estudos na literatura dedicados a explicar e analisar os padrões de funcionamento e as demandas do modelo da família nuclear tradicional. Da mesma forma, são inúmeras as pesquisas dedicadas a fornecer informações quanto aos efeitos da separação conjugal nas crianças e adolescentes. Conhece-se que estes vivenciam a separação de seus pais como um choque, como algo doloroso e angustiante (Wallestein, 1985; Urribarri & Urribarri, 1986). Além dos problemas que estes sujeitos podem apresentar com respeito às suas relações interpessoais, estes efeitos também podem estar associados a um casamento precoce ou medo quanto ao seu futuro casamento (Schwartzberg, 1981; Patten-Saward, 1984; Barber & Lyons, 1994; Tasker & Richards, 1994). Poucos se sentem aliviados com a decisão do divórcio, pois, para eles, isto significa o colapso da estrutura que proporciona apoio e proteção e é somente com a maturidade que irão considerar a separação dos pais como algo necessário (Wallestein, 1985; Urribarri & Urribarri, 1986). Algumas pesquisas mostram também que com o divórcio, determinadas crianças amadurecem mais cedo, pois recebem responsabilidades adicionais na falta da convivência de um dos progenitores, têm maior independência e, conseqüentemente, aumenta o seu poder de decisão (Walsh, 1993). É perfeitamente compreensível também que a maioria dos filhos sentem-se muito melhor com os pais separados ou em novas uniões, do que num casamento infeliz, que ocasiona tensões e desconfortos dentro da família (Maldonado, 1987).

No entanto, ainda não se conhece com maior profundidade a demanda das famílias reconstituídas pelo recasamento e os efeitos desta nova configuração na adolescência de seus filhos. Ainda que exista uma escassez de estudos nesta linha, constata-se que a taxa de divórcios e separações cresce proporcionalmente ao número de recasamentos. Cada vez mais, crianças e adolescentes estão vivendo com padrastos ou madrastas, sem coabitar o mesmo teto de seus dois progenitores (Mussen, Conger & Kagan, 1988).

Algumas pesquisas comparativas entre filhos de famílias divorciadas e famílias originais revelam que:

- existem mais problemas de ajuste psicológico e social nos filhos de famílias divorciadas do que nos de famílias originais (Walsh,1993);

- ainda que os adolescentes de famílias divorciadas apresentem atitudes de amor para com seus pais, os de famílias originais tendem a ser mais carinhosos (Parish & Necessary, 1994).

Por outro lado, nota-se que as conseqüências do divórcio nos filhos estão diminuindo, à medida que este está se tornando, a cada dia, mais comum e aceitável. Em seu estudo, Mazur (1993) constatou que não existem diferenças entre as opiniões de crianças, com pais divorciados ou não, sobre casamento, divórcio e recasamento.

Ainda que a complexidade do relacionamento do núcleo familiar reconstituído seja maior, devido a fatores relativos às experiências prévias de vida matrimonial dos cônjuges, à necessidade de harmonizar visões educacionais de filhos já existentes e à interferência dos ex-cônjuges sobre os respectivos filhos, o recasamento pode ser a construção de uma forma relacional nova e, não simplesmente, a repetição e a tentativa de reconstrução de uma relação rompida (Maldonado, 1987; Penso, Costa & Carneiro, 1992).

Especificamente ao que se refere às famílias reconstituídas com filhos adolescentes, encontram-se na literatura padrões de relacionamento peculiares que caracterizam estes núcleos familiares. Diante dos novos parceiros da mãe e do pai, a reação inicial dos adolescentes costuma ser bastante ambivalente. Inicialmente, aparece a relutância em aceitar os novos parceiros dos pais, o que, algumas vezes, se deve ao medo de começar a gostar destas novas pessoas e voltar a perdê-las, caso elas desfaçam o relacionamento conjugal. Por outro lado, o jovem também sente-se ameaçado e enciumado pelo fato de ter seus pais menos disponíveis para ele. Nesta mistura de sentimentos, o fato de refazer-se o vínculo conjugal de um de seus progenitores, também faz diminuir a esperança do adolescente em ver seus pais unidos novamente (Maldonado, 1987; Barber & Lyons, 1994; Carter & McGoldrick, 1995; Teyber, 1995).

O reflexo da influência familiar nas crenças e valores do adolescente pode ser observado também numa pesquisa feita pela agência DMB&B ("O Planeta Teen", 1995) que consultou 6547 jovens entre 15 e 18 anos, das classes A e B de diferentes países, e constatou que, no Brasil: 72% dos jovens querem terminar os estudos, 70% desejam ter sucesso na carreira, 60% almejam ser um adulto feliz, 64% querem fazer faculdade, 71% esperam encontrar um bom emprego, 59% querem ter uma boa casa ou apartamento, 53% desejam casar, 47% querem ter filhos e 57% esperam encontrar alguém para amar. Estes dados revelam que, enquanto filhos, somos muito pouco originais pois parece que os projetos de vida se repetem de geração à geração, como ilustra Belchior na sua canção "(...) Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais (...)" (Belchior, 1988 - Como Nossos Pais).

O papel crucial da família, como responsável pela construção dos projetos de vida do adolescente, assim como dos seus valores e crenças, se dá na medida em que ela é o palco onde se vive e aprende as primeiras cenas, buscando o equilíbrio entre o real e o imaginário. Desse modo, à luz da compreensão sistêmica, onde cada sujeito somente pode ser entendido no seu contexto familiar, considerando que qualquer mudança na família afeta todo o sistema, procuramos entender neste estudo quais as relações existentes entre as crenças e valores dos adolescentes a partir da configuração dos seus núcleos familiares.

 

Método

Participantes

Trabalhou-se com uma amostra de 60 jovens porto-alegrenses, sendo metade oriundos de famílias originais e metade de reconstituídas, 32 meninas e 28 meninos, com idades entre 12 e 17 anos e pertencentes a um nível sócio-econômico médio. Foram selecionadas escolas junto a SEC com base nos bairros classificados como de nível sócio-econômico médio, a partir do mapeamento e critérios fornecidos pelo IBGE (média mensal do salário mínimo do chefe do domicílio/Censo 91). Considerou-se para fins deste estudo, Famílias Originais (FO) aquelas em que os pais mantêm o primeiro casamento, coabitando em domicílio conjugal, mantendo a mútua assistência econômica, sustento, guarda e educação dos filhos; e Famílias Reconstituídas (FR) aquelas em que os pais são separados de seus primeiros cônjuges (oficial ou não-oficialmente) e atualmente mantêm uma relação estável com outro(a) companheiro(a), coabitando em domicílio conjugal na companhia de seus filhos do primeiro casamento.

As configurações das famílias reconstituídas ficaram assim distribuídas:

- 67.65% dos sujeitos moram com a mãe, o padrasto e os irmãos;

- 32.35% dos sujeitos moram com o pai, a madrasta e irmãos;

- A média de pessoas que coabitam nas famílias, tanto originais como reconstituídas, é de 5 por residência.

Instrumento e Procedimentos

Inicialmente, pediu-se ao sujeito que preenchesse uma ficha com dados biodemográficos de identificação e caracterização do seu núcleo familiar. Feito isso, solicitou-se que o sujeito respondesse doze frases incompletas, com a primeira idéia que lhes ocorresse. As sentenças formuladas, tinham o propósito de avaliar os valores, crenças e atribuições dos adolescentes com relação à "família", ao "casamento", à "separação", além de conhecer os seus "projetos de vida". O instrumento estava construído da conforme Quadro 1.

 

Quadro 1: Instrumento

V. Completa as Frases Iniciadas Abaixo. Preencha Rapidamente os Espaços em Branco com a Primeira Coisa que Aparece em Tua Mente:
1. Minha família é ...........................................................................................................................

2. O que eu mais gosto da minha família é .................................................................................

3. O que eu menos gosto da minha família é .............................................................................

4. Gostaria de mudar na minha família ........................................................................................

5. Penso que casar é ......................................................................................................................

6. As pessoas se casam porque ..................................................................................................

7. Quando eu me casar, espero que ............................................................................................

8. Os casais se separam porque ..................................................................................................

9. Acho que a separação é ...........................................................................................................

10. O que eu mais espero da minha vida é .................................................................................

11. Na minha vida adulta gostaria de ..........................................................................................

12. Tenho planos de ......................................................................................................................

 

A coleta foi realizada na própria escola onde foram selecionados os sujeitos. O instrumento foi aplicado de forma individual e coletiva, segundo a situação favorecia (conforme os alunos eram liberados pelos técnicos e professores para participar da pesquisa, assim como, o número de sujeitos que comportava a sala concedida no local).

 

Resultados

Considerou-se a primeira resposta dada pelo sujeito a cada frase. As respostas foram agrupadas em categorias por conteúdos afins. Este trabalho foi realizado por três juízes que, no primeiro momento, trabalharam individualmente. Posteriormente, fez-se um levantamento geral das categorias encontradas pelos juízes onde então, a partir das semelhanças dos agrupamentos, chegou-se a um consenso de classificação das categorias. O nome atribuído a cada agrupamento, foi escolhido com base na resposta que obteve maior freqüência ou pelo conteúdo a que se referiam (no caso de não haver predominância de uma mesma resposta).

Analisando-se os resultados de forma comparativa, foram levantadas a freqüência e a porcentagem das respostas. Após, aplicou-se o teste estatístico qui-quadrado, a fim de verificar possíveis diferenças no conteúdo das respostas dadas pelos dois grupos (FO e FR).

As respostas dos adolescentes de FO e FR, com relação à variável "Família", ficaram assim distribuídas:

A categoria com maior freqüência de respostas foi aquela que caracteriza a família como sendo legal/normal (50%) seguida da categoria unida/feliz/afetiva (35%) e, por último, com 15% das respostas, os sujeitos referiram que sua família era complicada. Não houve diferença significativa entre os grupos de adolescentes de FO e FR.

Com relação àquilo que os jovens mais gostam na sua família, mais da metade das respostas (53,32%), sem que houvesse diferença sig-nificativa entre grupos (FO e FR), indicaram que o com-panheirismo/união e afeição são características bastante valorizadas pelos adolescentes. Em terceiro lugar, os jovens apontaram a liber-dade/diversão (23,33%) como aspectos positivos de sua família. É curioso observar, no entanto, que há uma tendência (x2=8.43, p=0,07) dos adolescentes de FO considerarem suas famílias mais unidas e companheiras do que os adolescentes de FR.

Entre as características que mais desagradam o grupo de adolescentes de FO e FR em suas famílias, as brigas apareceram em primeiro lugar (58,33%), seguidas de falta de liberdade/crítica/desatenção (21,66%). Poucos foram os adolescentes que disseram que nada (6,66%) os desagrada nas suas famílias. De modo contrário, a categoria nada obteve o maior número de respostas (28,33%) à pergunta "O que eu gostaria de mudar na minha família é...". A esta mesma questão, as brigas (25%), e o modo de pensar e agir da família (21,66%) foram mencionados por mais de 45% dos jovens.

Com relação ao "Casamento", os valores e crenças dos adolescentes foram reunidos da seguinte forma:

 

Tabela 1: Resultados sobre Família

Frases

Categorias

Grupo (%)

Sexo (%)

FO

FR

Masculino

Feminino

Minha família é...

legal/normal

46.7

53.3

50.0

50.0

unida/feliz/afetiva

43.3

26.7

42.9

28.1

complicada

10.0

20.0

7.1

21.9

TOTAL

100

100

100

100

O que eu mais gosto da minha família é...

companheirismo/união

40.0

13.3

25.0

28.1

afeição

20.0

33.3

28.6

25.0

liberdade/diversão

26.7

20.0

17.9

28.1

membros específicos

10.0

20.0

21.4

9.4

outros

3.3

13.3

7.1

9.4

TOTAL

100

100

100

100

O que eu menos gosto da minha família é...

nada

10.0

3.3

7.1

6.3

brigas

60.0

56.7

53.6

62.5

falta de liberdade/
crítica/desatenção

20.0

23.3

17.9

25.0

membros específicos

3.3

3.3

3.6

3.1

outros/não respondem

6.7

13.3

17.9

3.1

TOTAL

100

100

100

100

Gostaria de mudar na minha família...

nada

30.0

26.7

35.7

21.9

brigas

16.7

33.3

28.6

21.9

modo de pensar e agir

26.7

16.7

14.3

28.1

membros específicos

16.7

10.0

10.7

15.6

outros/não respondem

10.0

13.3

10.7

12.5

TOTAL

100

100

100

100

 

Percebe-se na Tabela 2 que quase a metade das respostas (48,33%) definem o casamento como união/compromisso/formação de família, seguidas daquelas que pensam que casar é legal/algo que confirma o amor (38,33%). Encontrou-se também 11,66% das respostas com atributos de desesperança, tais como: "um saco, besteira, chato, difícil e perda de tempo". Como o principal motivo para que as pessoas se casem, os adolescentes apontaram o amor (80%), seguido da necessidade de formar família (11,66%), para ter satisfação pessoal (6,66 %) e outros (1,66 %).

 

Tabela 2: Resultados sobre Casamento

Frases

Categorias

Grupo (%)

Sexo (%)

FO

FR

Masculino

Feminino

Penso que casar é...

legal/algo que confirma
o amor

33.3

43.3

32.1

43.8

união/compromisso/
formação de família

50.0

46.7

57.1

40.6

atributos de desesperança

13.3

10.0

10.7

12.5

outros/não respondem

3.3

-

-

3.1

TOTAL

100

100

100

100

As pessoas se casam porque...

amor

83.3

76.7

60.7

96.9

formar família

13.3

10.0

21.4

3.1

satisfação pessoal

3.3

10.0

14.3

-

outros

-

3.3

3.6

-

TOTAL

100

100

100

100

Quando eu me casar espero...

felicidade

80.0

50.0

60.7

68.8

amor

-

26.7

14.3

12.5

eternidade/não acabe

13.3

13.3

10.7

15.6

outros

6.7

10.0

14.3

3.1

TOTAL

100

100

100

100

 

Buscando diferenciar as expectativas que os adolescentes têm com relação ao casamento, encontrou-se que aqueles oriundos de famílias originais esperam encontrar significativamente (x2=13.38, p=0,003) mais felicidade no casamento que os de famílias reconstituídas (FO=80%; FR=50%) enquanto que este último grupo deseja encontrar mais amor no matrimônio (FO=0%; FR=26,7%). As demais categorias encontradas referiram a eternidade/não acabe (13,33%) e outros (8,33%).

Considerando-se a variável sexo, encontrou-se uma diferença significativa no que diz respeito ao que meninos e meninas pensam sobre o motivo pelo qual as pessoas se casam (x2=14.77,p=0,002). Na grande maioria (97%), as meninas acreditam que as pessoas se casam porque se amam enquanto os meninos atribuem causas mais diversificadas, tais como: por amor (60,7%), para formar família (21,4%), para obter satisfação pessoal (14,3%) ou outros (3,6%).

No que se refere ao tema "Separação Conjugal", os sujeitos da amostra, em geral, pensam igualmente que a separação é uma vivência desagradável (53,33%) ainda que apareçam muitas respostas (46,6%) referindo ser uma forma de resolver problemas. Eles acreditam que as pessoas se separam porque falta amor (45%) e porque os casais não se acertam (55%). Entretanto, considerando a variável sexo, para as meninas, a causa principal é a falta de amor (56,25%) enquanto que os meninos, majoritariamente, pensam que o motivo principal é o fato dos casais não se acertarem (67,86%), com uma diferença significativa entre os dois grupos (x2=3.55, p=0,05), conforme pode-se observar na tabela abaixo:

 

Tabela 3: Resultados sobre Separação

Frases

Categorias

Grupo (%)

Sexo (%)

FO

FR

Masculino

Feminino

Os casais se separam porque...

falta amor

46.7

43.3

32.1

56.3

não se acertam

53.3

56.7

67.9

43.8

TOTAL

100

100

100

100

Acho que a separação é...

vivência desagradável

50.0

56.7

57.1

50.0

forma de resolver problemas

50.0

43.3

42.9

50.0

TOTAL

100

100

100

100

 

Os "Projetos de Vida" independem da situação familiar dos adolescentes. A amostra investigada tem como planos futuros: realização profissional (30%), ser feliz (26,11%), realização pessoal (25,55%), constituir família (17,22%) e outros (1,11%), conforme aparece na Tabela 4.

 

Tabela 4: Resultados sobre Projetos de Vida

Frases

Categorias

Grupo (%)

Sexo (%)

FO

FR

Masculino

Feminino

O que eu mais espero da minha vida é...

ser feliz

60.0

36.7

42.9

53.1

realização pessoal

20.0

33.3

28.6

25.0

realização profissional

13.3

23.3

21.4

15.6

constituir família

6.7

6.7

7.1

6.3

TOTAL

100

100

100

100

Na minha vida adulta gostaria de...

ser feliz

10.0

20.0

17.9

12.5

realização pessoal

36.7

23.3

28.6

31.3

realização profissional

33.3

40.0

42.9

31.3

constituir família

20.0

16.7

10.7

25.0

TOTAL

100

100

100

100

Tenho planos de...

ser feliz

16.7

13.3

14.3

15.6

realização pessoal

26.7

13.3

14.3

25.0

realização profissional

23.3

46.7

39.3

31.3

constituir família

30.0

23.3

28.6

25.0

outros

3.3

3.3

3.6

3.1

TOTAL

100

100

100

100

 

Conclusões

A partir da análise dos resultados, pode-se pensar que a configuração familiar não é a principal responsável pela formação das crenças e valores dos adolescentes no que se refere à "Família", ao "Casamento", à "Separação" e aos seus "Projetos de vida". Atualmente, o fato de ser filho de pais separados, ou pertencente a uma família reconstituída, não é fator discriminatório do jovem, como ocorria em décadas passadas. O número crescente de separações e reconstituições das relações conjugais com outros companheiros fez com que o conceito de família se tornasse mais extenso, banindo o modelo clássico, até então institucionalizado, conforme fica legitimado a partir da Constituição de 1988.

Observa-se na literatura, no entanto, que os adolescentes, que sofreram um processo de separação de seus pais e vivenciaram a reconstituição do relacionamento afetivo destes com novos companheiros, tendem a diferenciar-se em seus relacionamentos interpessoais. A vivência da perda, a tristeza e a separação, provavelmente, são os fatores que movem estes adolescentes a esperar mais amor quando virem a se casar, talvez como forma de assegurar uma relação mais duradoura para suas vidas.

Nota-se também que, apesar das mudanças dos valores sociais, ainda persiste, entre os adolescentes, a idéia romântica com respeito ao relacionamento conjugal. É consensual, entre os jovens, que as pessoas se casam por amor e se separam porque este acabou. A predominância desta crença nas meninas, corrobora as diferenças educativas entre os sexos. Parece que os aspectos relacionados aos sentimentos e à subjetividade ainda se encontram mais associados ao sexo feminino enquanto que a praticidade e a objetividade seguem vinculadas aos padrões de relacionamento do sexo masculino.

Apesar das mudanças estruturais da família, ao longo do tempo, alguns valores crenças e projetos de vida parecem ficar imunes, estabelecendo-se independentemente destas transformações. Porém, as diferentes configurações familiares necessitam ser avaliadas na sua idiossincrasia, a fim de que se possa conhecer e compreender novas formas de relacionamento, funcionamento e vinculação familiar, que não necessariamente atendam ao modelo original historicamente reconhecido. Provavelmente, o padrão disfuncional, de acordo com o qual em muitas ocasiões é vista a família reconstituída, é explicado, em grande parte, pelo equívoco de analisar este novo núcleo familiar baseado em pressupostos do modelo original. É necessária a mudança de paradigma a fim de explicar outras formas de padrões de relacionamento familiar que potencializem a saúde e se encontrem longe daquilo que comumente rotula-se de anormalidade.

Desse modo, a complexidade deste fenômeno requer outros estudos que se proponham a compreender e avaliar variáveis tais como o contexto sócio-econômico-cultural ao qual a família pertence, aspectos relativos ao relacionamento familiar e os tipos de vinculação e papéis existentes entre os membros da família, a fim de conhecer-se, de forma mais aprofundada, os diferentes funcionamentos que se estabelecem segundo as possíveis e diversas configurações dos grupos familiares.

 

Referências

Aberastury, A. & Knobel, M. (1992). Adolescência Normal. Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Barber, B. & Lyons, J. (1994). Family processes and adolescent adjustment in intact and remarried families. Journal of Youth and Adolescence, 23, 421-436.         [ Links ]

Belchior, A. C. (1988). Como os Nossos Pais. Elis Regina. 1 disco compacto: digital, audio. 836844-2. São Paulo: Polygram.         [ Links ]

Blos, P. (1994). Adolescência: Uma interpretação psicanalista. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

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Recebido em 15.10.96
Revisado em 15.01.97
Aceito em 05.03.97

 

 

1 Endereço para correspondência: Av. Ipiranga, 6681, Prédio 17, Sala 338, CEP 90619-900, Porto Alegre - RS. E-mail: wagner@music.pucrs.br