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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.10 n.1 Porto Alegre  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721997000100014 

Resenha

 

Mente e prática social: uma antologia de Sylvia Scribner

 

Isolda de Araújo Günther,1,2
Universidade de Brasília

 

 

O livro, Mente e Prática Social: uma Antologia de Sylvia Scribner, (Tobach, Falmagne, Parlee, Martin, & Kapelman, 1997) registra, cronologicamente, o curso de vida de uma pesquisadora extraordinária, através de trabalhos previamente publicados ou não. Os temas de suas pesquisas incluíram estudos relacionados com raciocínio, memória, Q.I., classe social e diagnóstico psicológico, escolaridade formal, letramento, livro-texto, teoria desenvolvimental, saber e fazer no trabalho, pensamento e cultura.

Sylvia Scribner direcionou seus trabalhos científicos a audiências diversificadas: além de professores de psicologia e psicólogos comunitários é de interesse para antropólogos, sindicalistas, profissionais de saúde mental, cientistas sociais, analistas de políticas educacionais. Foi pioneira na combinação de estudos etnográficos e estudos experimentais com o propósito de determinar a relação entre educação formal e informal, letramento e atividades lógicas, bem como suas consequências cognitivas.

A leitura do prefácio sugere que esta editoração foi uma maneira de lidar com a perda da pesquisadora, morta em julho de 1991, quatro meses após "a ciática [que a acompanhava há vários anos] ter sido diagnosticada como câncer" (p.10). Contém um segundo prefácio, escrito por Barbara Rogoff 3 e um ensaio, apresentando a vida de Sylvia Scribner na perspectiva da própria filha, Aggie Scribner Kapelman.

O livro é organizado em cinco partes. Além de uma apresentação geral escrita por Mary Brown Parlee, cada secção é precedida por uma introdução. Os focos temáticos são os seguintes: 1) Psicologia Como Prática Social, mostrando a perspectiva dialética adotada por Scribner de que o comportamento humano e os processos sociais são mutuamente transformativos; 2) Pensamento e Sistemas Culturais, cujos artigos salientam a necessidade de integrar as análises psicológicas e antropológicas dos processos cognitivos; 3) Letramento: Mente e Sociedade, contendo artigos escritos num espaço de mais de dezesseis anos, argumentando que o pensamento deve ser investigado em seu contexto cultural e que pesquisa e políticas sociais devem ser inerentemente relacionadas; 4) Desenvolvimento Cognitivo: Perspectiva Socio-Histórica, focalizando questões desenvolvimentais segundo a teoria da atividade, mostrando, em síntese, que de acordo com esta perspectiva o indivíduo, o ambiente e a sociedade são integrados para produzir uma unidade de análise; 5) Pensando no Trabalho, abrangendo doze anos de pesquisa, com o objetivo de compreender a relação entre saber e fazer, posição que desafiou a tradicional dicotomia entre pensamento prático e teórico dominante na ciência cognitiva.

Encontra-se, ainda, uma cronologia da vida da autora, mesclada com os eventos que fizeram parte do contexto social e histórico da sua vida, uma bibliografia incluindo os livros e artigos publicados, apresentações a convite, relatórios e demais trabalhos não publicados, um índice de nomes e de assuntos. O acervo indicado será depositado nos Arquivos da História da Psicologia Americana na Universidade de Akron, em Akron, Ohio.

Acrescentarei alguns dados que considerei fascinantes em sua biografia.

Sylvia Scribner nasceu em 22 de setembro de 1923 em New Bedford, Massachussetts, formando, juntamente com sua irmã mais velha Shirley, a primeira geração de uma família de imigrantes. Aos 7 anos começou a escrever poesia, publicando, aos nove anos, no jornal da cidade. Com 10 anos ganhou uma medalha pelo poema "Ser um Homem". No curso secundário trabalhou no jornal da escola, atuando, também, como debatedora. Obteve como prêmio por suas poesias, uma bolsa de estudos integral para cursar a universidade. Enquanto universitária ganhou vários prêmios e foi, nos anos trinta, vice presidente da União dos Estudantes Americanos. Formou-se em economia em 1943, indo trabalhar no Sindicato dos Eletricitários, Trabalhadores de Rádio e Trabalhadores Manuais da América. Nesta função atuou em questões ligadas ao trabalho da mulher na indústria, isonomia de pagamento para homens e mulheres, melhoria das condições de trabalho. Administrou programas educacionais para o sindicato, ajudando a desenvolver o primeiro plano de saúde para sindicalizados através de um estudo comparativo com outros países. Tornou-se interessada desde aí, no processo aprendizagem/adaptação ao am- biente.

Casou em 1953 com David Scribner, advogado trabalhista. Seu primeiro filho nasceu em 1954. Em 1958 nasceu a filha. Por volta de 1960 houve uma mudança nacional na política do sindicato, o que determinou que procurasse outro emprego. Passou a trabalhar como Diretora Associada do Programa de Saúde Mental do Instituto Nacional de Educação para o Trabalho em New York. Nessa função organizou grupos de pesquisa interdisciplinar com profissionais de várias universidades, ajudando-os a elaborar e implementar projetos. Em 1961, trabalhando em tempo integral e com filhos pequenos, matriculou-se no horário noturno como aluna de pós-graduação na New School for Social Research, concluindo o mestrado em Psicologia Social em 1966. Como prêmio pelo trabalho de mestrado obteve uma bolsa de estudos para dedicar-se à psicologia em tempo integral durante o ano acadêmico de 1966-1967. Nesta época começou a interessar-se pelo trabalho de Vygotsky. Chama atenção o pioneirismo de suas posições teóricas uma vez que em 1968, ano em que Martin Luther King Jr. foi assassinado, fervia o debate sobre os artigos de Arthur Jensen 4, que defendeu o determinismo genético da inteligência. Em 1970, aos quarenta e sete anos, obteve o Ph.D. com a tese "Um Estudo Transcultural de Percepções de Saúde Mental". De acordo com o relato da filha, não obstante todas as suas realizações acadêmicas e reconhecimento, Scribner manifestou a preocupação de que seria incapaz de conseguir emprego pela idade avançada e pelo fato de ser mulher.

Pouco após a conclusão do doutorado, reconhecendo a semelhança entre o próprio trabalho e o desenvolvido por Michael Cole, escreveu-lhe uma carta contendo a seguinte passagem:

"A partir da minha rota especulativa e da sua rota teórica parece termos chegado a construtos semelhantes. Concordamos que no input estamos lidando com sistemas culturais e tecnologia – não com mentalidades e capacidades – e no output estamos lidando com certas habilidades mentais específicas tais como estruturação inten-cional de tarefas cognitivas – não inteligência" (p.4).

Cole convidou-a imediatamente para trabalhar como Pesquisadora Associada Senior no Laboratório de Cognição Humana Comparativa na Rockefeller University. Neste período o trabalho de Scribner focalizou o estudo da relação raça/inteligência, classe social e diagnóstico psicológico, buscando conceitos e métodos que possibilitassem a compreensão do pensamento de outras pessoas, sem impor as categorias analíticas da prática psicológica da época. Uma de suas poesias desta fase expressa isto com muita clareza:

 

Não Significa Nada

As palavras que eu uso
e abuso
nada têm em comum
com minha visão
não o que elas significam
mas o que elas dizem
é como eu lido com elas todo dia
e se você pensa
que algo importante
se perde entre...
.........................
as entrelinhas?

Muito bem.

 

Em 1972, iniciou trabalho transcultural na Libéria, África Ocidental. Primeiramente, investigou entre os Kpelle atividades cognitivas como raciocínio, memória, classificação (ver Cole & Scribner, 1974). Em 1973 iniciou pesquisa entre outro grupo cultural liberiano, os Vai, que têm uma forma original de escrita, transmitida de uma geração de homens à outra. Como grande segmento da população não é formalmente educada na escola, através deste trabalho transcultural pôde chamar atenção, de maneira pioneira, para o aspecto prático do pensamento ao distinguir o uso empírico e teórico da lógica.

Scribner buscava oportunidades de ser contratada como professora. Poucas mulheres, entretanto, tinham, nos anos setenta, contrato de professor nas conceituadas instituições de ensino norte-americanas. No ano de 1974, ainda na Rockefeller University, vinculou-se como professor visitante à Escola de Pós-Graduação da Yeshiva University também em Nova York. Nesse período estava editando com outros pesquisadores o trabalho de Vygotsky (Cole, John-Steiner, Scribner, & Soubermann, 1978). Em 1978, foi contratada como Diretora Associada e Chefe do Programa de Ensino Aprendizagem do Instituto Nacional de Educação em Washington. Em 1979, estabeleceu contatos com o Centro de Linguística Aplicada também em Washington, onde foi contratada como Cientista Senior e prosseguiu desenvolvendo intenso trabalho científico.

Em 1981, aos cinquenta e nove anos, conseguiu seu primeiro contrato como professora do quadro permanente. Passou a trabalhar como Professora de Psicologia do Desenvolvimento na Escola de Pós-Graduação da City University of New York, onde atuou até 1991, pouco antes de sua morte.

As Editoras destacam, no prefácio, que pensaram em publicar este livro imediatamente após a morte da pesquisadora, para que seu trabalho fosse prontamente acessível e acrescentam,

"Esperamos que este volume congregue a unidade da vida e do trabalho de Sylvia Scribner como cientista, professora, colega, empregada de sindicato, poeta, ativista por justiça e paz, esposa, mãe, amiga"(p. xi).

Recomendo esse livro não apenas para os profissionais da área cognitiva. Sua leitura, além de mostrar a evolução do pensamento de Sylvia Scribner, mostra, também, a coerência de uma profissional devotada à compreensão da natureza das pessoas e do seu trabalho, que continuará servindo como fonte de inspiração para psicológos, educadores, antropólogos e demais cientistas sociais. Concluindo, gostaria de contrastar o fato de que Sylvia Scribner obteve o Ph.D. aos quarenta e sete anos e seu primeiro contrato de professor aos 59 anos, com a situação do Brasil, que faculta aposentadoria a professores e pesquisadores nessa mesma faixa etária.

 

Referências

Cole, M. & Scribner, S. (1974). "Culture and Thought: A Psychological Introduction". New York: John Willey & Sons.

Cole, M., John-Steiner, V., Scribner, S., & Soubermann, E. (1978). L. S. Vygotsky: Mind in Society. Cambridge: Harvard University Press.         [ Links ]

Jensen, A. R. (1968). Social Class, Race, and Genetics: Implications for Education. American Educational Research. 5, 1-42.         [ Links ]

Tobach, E., Falmagne, R. J., Parlee, M. B., Martin, L. M. W., & Kapelman, A. S. (1997). (Eds.) Mind and Social Practice. Selected Writings of Sylvia Scribner. 424 pp. ISBN 0-521-46767-5. New York: Cambridge University Press.         [ Links ]

 

 

1 Afiliação Institucional: Pesquisadora Associada Senior, Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento, Universidade de Brasília. Este trabalho foi realizado no Children’s Environment Research Group da City University of New York e contou com apoio de bolsa de pós-doutorado do CNPq.
2 Endereço para conrespondência: Children’s Environment Research Group, 25 West 43rd Street, Room 611, New York, NY 10027. Tel. (212) 642.2970 Fax 642.2971. E-mail: hgunther@email.gc.cuny.edu.
3 Autora entre outros, do livro, Apprenticeship in Thinking: Cognitive Development in Context. New York: Oxford University Press, 1990.
4 Jensen defendeu a teoria de que há duas classes de habilidade mental: a) nível I, envolvendo aprendizagem básica e memória; b) nível II, envolvendo inteligência - compreensão analítica, raciocínio, abstração e pensamento conceitual. Para ele as habilidades de nível I são igualmente distribuídas na população. Entretanto, as habilidades de nível II são mais bem desenvolvidas entre americanos brancos de classe média e alta e menos desenvolvidas entre pretos e pobres.