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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.10 n.2 Porto Alegre  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721997000200013 

Resenha

A ecologia do desenvolvimento humano:
experimentos naturais e planejados

Paola Biasoli Alves1,2
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Falar sobre a Ecologia do Desenvolvimento Humano e sobre Urie Bronfenbrenner é, basicamente, ressaltar que estamos nos desenvolvendo contextualmente, apoiados em quatro níveis dinâmicos e interrelacionados: a Pessoa, o Processo, o Contexto e o Tempo. Antes porém, há que se dizer que esta é uma abordagem teórico-metodológica cuja principal referência, Bronfenbrenner, é um pesquisador vivo, com intensa atividade científica e acadêmica, portanto, é uma Abordagem em constante construção, fortemente ligada a história de seus autores.

Nosso objetivo aqui é descrever o livro A Ecologia do Desenvolvimento Humano: Experimentos Naturais e Planejados, cuja leitura é fundamental para a compreensão deste modelo teórico e para o planejamento de pesquisas que tenham como objetivo uma visão ecológica do desenvolvimento. Pontuado este objetivo, é interessante trazer alguns dados acerca da vida de Bronfenbrenner, permitindo aos leitores uma proximidade maior entre autor e modelo teórico.

Urie Bronfenbrenner nasceu em 29 de abril de 1917, em Moscou, num momento de profundas transformações sociais e políticas (o início da ascenção comunista). Veio ainda criança para os Estados Unidos, sendo criado dentro da tradição judaica, convivendo desde então, em um ambiente multicultural, tendo contato com diferentes grupos étnicos e culturais durante sua escolarização (Krebs, 1995). Acentuando seu contato com diferentes modos de viver e pensar, Bronfenbrenner morava com os pais em uma instituição rural para o tratamento de pessoas com retardo mental, com idade variando entre três e oitenta anos. Formado em Psicologia e Música pela Universidade de Cornell, durante os cursos de graduação e, posteriormente, em sua vida acadêmica, estiveram presentes autores como Kurt Lewin, Ted Newcomb e David Levy, entre outros. Todos eles com importantes colaborações na formulação e desenvolvimento dos pressupostos da Abordagem Ecológica, que tem seu início na década de setenta (Krebs, 1995).

Em seu livro, Bronfenbrenner apresenta uma proposta ecológica de desenvolvimento, na qual existem aspectos fundamentais, diferentes dos da psicologia clínica (diádica) e científica (laboratorial e psicodiagnóstica) realizada até então. A Abordagem Ecológica do Desenvolvimento privilegia os aspectos saudáveis do desenvolvimento, os estudos realizados em ambientes naturais e a análise da participação da pessoa focalizada no maior número possível de ambientes e em contato com diferentes pessoas - díades, tríades, etc (Bron-fenbrenner, 1996). O desenvolvimento humano é, então, definido como "o conjunto de processos através dos quais as particularidades da pessoa e do ambiente interagem para produzir constância e mudança nas características da pessoa no curso de sua vida" (Bronfenbrenner, 1989, p.191). O livro valoriza os processos psicológicos e sua relação com as multideterminações ambientais, sem negligenciar a importância dos fatores biológicos no decorrer do desenvolvimento. Dividido em quatro partes, apresenta: Uma Orientação Ecológica, onde o autor pontua os conceitos básicos sobre os quais irá tratar; Elementos do Ambiente, que discute a importância das relações interpessoais, a vivência em diferentes sistemas e o desempenho de papéis; A Análise dos Ambientes, tratando os temas da inserção de ambientes naturais como ambientes de pesquisa, e a visão ecológica de desenvolvimento possível dentro de instituições (creches, escolas, etc); e Além do Microssistema, que traz discussões aprofundadas sobre três sistemas ecológicos: mesossistema, exossistema e macrossistema, sempre apontando para a dinâmica de interação entre estes contextos. No decorrer destas quatro partes, Bronfenbrenner cita 14 definições, oito proposições e 50 hipóteses, esclarecendo os direcionamentos teóricos da Abordagem e comentando estudos sobre desenvolvimento realizados por diversos pesquisadores.

Entre as definições trazidas por Bronfenbrenner, existem algumas que são essenciais, para serem apresentadas e discutidas em conjunto com a visão ecológica do desenvolvimento em pesquisa. Primeiro, dentro de um projeto de pesquisa, há que se definir qual será a pessoa em desenvolvimento focalizada. A partir daí, busca-se com-preender a forma como ela está inserida e se desenvolvendo nos diferentes sistemas ambientais, que são dinâmicos e vivenciados concomitantemente.

Tomemos como exemplo uma criança que nasce em uma família nuclear (com pai e mãe), em situação econômica adequada3. Ao nascer, ela passa a fazer parte deste ambiente familiar, onde receberá os cuidados básicos necessários. Este é para ela seu primeiro sistema, o microssistema, que é definido como sendo o ambiente onde a pessoa em desenvolvimento focalizada estabelece relações face-a-face estáveis e significativas. Neste sistema, é fundamental que as relações estabelecidas tenham como características: reciprocidade (o que um indivíduo faz dentro do contexto de relação influencia o outro, e vice-versa), equilíbrio de poder (onde quem tem o domínio da relação passa gradualmente este poder para a pessoa em desenvolvimento, dentro de suas capacidades e necessidades) e afeto (que pontua o estabelecimento e perpetuação de sentimentos - de preferência positivos - no decorrer do processo), permitindo em conjunto vivências efetivas destas relações também em um sentido fenomenológico (internalizado).

A participação da criança em mais de um ambiente com as características descritas acima a introduz em um mesossistema, que é definido como um conjunto de microssistemas. A transição da criança de um para vários microssistemas abrange o conhecimento e participação em diversos ambientes (a família - nuclear e extensa -, a escolinha, a vizinhança, etc), consolidando diferentes relações e exercitando papéis específicos dentro de cada contexto. Num sentido geral, este processo de socialização promove seu desenvolvimento. Esta passagem, chamada por Bronfenbrenner de transição ecológica, é mais efetiva e saudável na medida em que a criança se sente apoiada e tem a participação de suas relações significativas neste processo.

Ao tratar do exossistema, Bronfenbrenner considera os ambientes onde a pessoa em desenvolvimento não se encontra presente, mas cujas relações que neles existem afetam seu desenvolvimento. As decisões tomadas pela direção da escolinha, os programas propostos pelas associações de bairro, as relações de seus pais no ambiente de trabalho são exemplos do funcionamento deste amplo sistema. Além do exossistema, Bronfenbrenner descreve o macrossistema, que abrange os sistemas de valores e crenças que permeiam a existência das diversas culturas, e que são vivenciados e assimilados no decorrer do processo de desenvolvimento. É importantíssimo dizer que a relação entre estes quatros sistemas, quando analisada aparece profundamente coerente, demarcando a interação dinâmica entre eles.

Segundo Bronfenbrenner, a pesquisa que se pretende ecológica deve conter dados relativos ao maior número de sistemas dos quais a pessoa focalizada participa. Desta forma, a Abordagem Ecológica do Desenvolvimento privilegia estudos longitudinais, com destaque para instrumentos que viabilizem a descrição e compreensão dos sistemas da maneira mais contextualizada possível. Contudo, nada impede o pesquisador de se interessar somente por aspectos de um único microssistema da pessoa focalizada. Seu estudo terá características ecológicas na medida em que a realização da pesquisa e a discussão dos resultados não ignorem aspectos relativos aos demais sistemas e suas possíveis influências dentro do processo estudado.

O livro A Ecologia do Desenvolvimento Humano: Experimentos Naturais e Planejados traz para os leitores uma visão de desenvolvimento humano plenamente contextualizada. Bronfenbrenner explicita a necessidade dos pesquisadores estarem atentos para a diversidade que caracteriza o homem - seus processos psicológicos, sua participação dinâmica nos ambientes, suas características pessoais e sua construção histórico-sócio-cultural. Aponta para uma série de estudos realizados, onde faz críticas sociais e salienta aspectos éticos, fundamentais na estruturação de um projeto de pesquisa e na divulgação dos dados.

Originalmente publicado em 1979, e com a versão em português completando um ano, é um livro a ser conhecido e que traz uma visão de pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento ampla, instrumentalizando teórica e metodologicamente pesquisadores interessados nas mais diversas relações pessoa-ambiente, em diferentes contextos sócio-culturais. No conhecimento da Abordagem Ecológica do De-senvolvimento, esta é uma primeira leitura, que traz conceitos básicos. No decorrer das obras do autor, estes conceitos vêm sendo aperfeiçoadas e novos pressupostos são apresentados e discutidos, tornando os quatro núcleos de análise do desenvolvimento (Pessoa, Processo, Contexto e Tempo) teoricamente acessíveis e contextualizados dentro do modelo ecológico de pesquisa.

 

Referências

Bronfenbrenner, U. (1996). A Ecologia do Desenvolvimento Humano: Experimentos Naturais e Planejados. Porto Alegre, Artes Médicas.         [ Links ]

Bronfenbrenner, U. (1989). Ecological system theory. Annals of Child Development, 6, 187-249.         [ Links ]

Krebs, R. J. (1995). Urie Bronfenbrenner e a Ecologia do Desenvolvimento Humano. Santa Maria, Casa Editorial.         [ Links ]

 

 

Recebido em 28.06.97
Revisado em 17.07.97
Aceito em 12.08.97

 

 

1 Afiliação institucional: mestranda do Curso de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membro do CEP-RUA, bolsista da CAPES.
2 Endereço para correspondência: UFRGS, Instituto de Psicologia, CEP-RUA. Rua Ramiro Barcelos, 2600 sala 104, Cep: 90035-003. E-mail: paolabia@vortex.com.br
3 Deve ficar claro aqui que este é um exemplo básico, que não deve ser tomado como norteador e/ou limite das aplicações da Abordagem Ecológica