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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.10 n.2 Porto Alegre  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721997000200014 

Obituário

Jacobo A. Varela (1911-1997)

Aroldo Rodrigues1
California State University, EUA

 

 

Jacobo Varela faleceu no dia 30 de maio de 1997, após alguns meses de luta contra o câncer. Engenheiro civil por formação, com Mestrado nesta área pela Universidade de Princeton, Varela dedicou os últimos 40 anos de sua vida à aplicação do conhecimento existente em psicologia social à solução de problemas sociais.

Filho de um diplomata que representou seu país nos EEUU, Varela nasceu em Montevideo, Uruguai, no dia 13 de maio de 1911. Boa parte de sua adolescência e juventude foi passada nos Estados Unidos, onde fez seu treinamento de pós-graduação em engenharia. Depois de graduar-se, Varela regressou ao Uruguai onde trabalhou como engenheiro até meados da década de 50.

Um verdadeiro Renascentista, com profundo conhecimento de ciências naturais, matemática, filosofia, música e literatura, e dotado de uma mente verdadeiramente privilegiada, Varela decidiu inteirar-se da complexidade do comportamento humano e começou a estudar psicologia autodidaticamente. Ele se familiarizou com a psicologia através de longas leituras de livros e artigos especializados, além de manter contato direto com vários psicólogos americanos de grande notoriedade (por ex.: J. P. Guilford, Leon Festinger, Stanley Schachter, Phillip Zimbardo). Nos primeiros anos da década de 60, Varela dedicou-se com afinco ao estudo da psicologia social e da personalidade, viajando com frequência aos Estados Unidos onde estudou com especialistas nos problemas interpessoais de seu interesse, para os quais ele estava ansioso por encontrar soluções. Entre os tópicos que Varela singularizou para estudo aprofundado se encontram: (a) as contribuições de Guilford acerca da estrutura do intelecto e da medida das habilidades mentais; (b) a teoria da dissonância cognitiva de Festinger; (c) a teoria da reatância psicológica de Brehm; (d) os estudos de Sherif sobre latitude de aceitação e de rejeição; (e) os estudos de Asch sobre conformismo.

Uma vez suficientemente familiarizado com a psicologia, Varela começou a praticar o que denominou Tecnologia Social e que definiu como "a atividade que conduz ao planejamento de soluções para problemas sociais através da combinação de achados oriundos das diferentes áreas das ciências sociais".

Varela era totalmente fascinado por este tipo de atividade. Tornou-se um eloquente propagandista da Tecnologia Social em universidades e reuniões científicas. Em 1971, a Academic Press publicou seu livro Psychological Solutions to Social Problems. Pouco tempo depois, Varela iniciou sua carreira de professor-visitante em várias universidades. Ele ministrou, a meu convite, seu primeiro curso sobre Tecnologia Social no Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em 1973.

No ano seguinte, por intermédio de Leon Festinger, tornou-se professor-visitante na Universidade de Columbia. Em seguida, lecionou por dois anos na Universidade de Vancouver. Terminou suas atividades de professor-visitante na Universidade de Wayne State, onde lecionou Tecnologia Social por dois anos, regressando em seguida a Montevideo. Em 1987, logrei conseguir sua visita ao Mestrado em Psicologia da Universidade Gama Filho para um curso intensivo de uma semana. Após este evento, a disciplina Tecnologia Social foi, por vários anos, incluída no Curriculum do Mestrado em Psicologia Social desta Universidade. Na Venezuela, a Universidad Central também adicionou a tecnologia social ao seu elenco de disciplinas de pós-graduação.

Em suas aulas Varela pedia aos estudantes que apresentassem problemas específicos de natureza interpessoal e planejassem soluções para os mesmos, utilizando os conhecimentos das ciências sociais, principalmente os provenientes da psicologia social. Alguns projetos conduzidos por alunos foram publicados no American Psychologist em 1977 e em outras revistas. 

Discussões teóricas da Tecnologia Social foram apresentadas por Varela em livros e revistas, tanto nos EEUU como na América Latina. Em 1981, ele recebeu o Prêmio Interamericano de Psicologia por suas notáveis contribuições na área.

Varela foi um visionário. Ele acreditava firmemente que as ciências sociais já produziram um corpo de conhecimentos confiável, o qual quando aplicado competentemente à solução de problemas específicos pode trazer grandes benefícios à sociedade. Ele considerava sem sentido o debate sobre a relevância da "ciência pura", de vez que, para ele, qualquer descoberta, relevante ou não, tem o potencial de eventualmente ser utilizada pelo tecnólogo na solução de problemas concretos. Ciência e aplicações da ciência, para Varela, caminham juntas, sendo ambas necessárias e igualmente importantes. Referindo-se ao exemplo do progresso nas comunicações, ele disse: " Frequentemente descobertas científicas foram feitas por alguém que não tinha a menor idéia de como elas iriam ser usadas. A progressão do telégrafo para o telefone e para o rádio constitui um exemplo. Morse e Bell eram inventores. Os cientistas que lhe deram apoio foram Faraday, Henry, Mawell, Hertz e outros. Sem estas descobertas puramente científicas, as invenções que se seguiram não seriam possíveis".

A citação acima resume bem o credo e a missão de Jacobo Varela. Ele dedicou os últimos 40 anos de sua vida à promoção do bem estar humano através da tecnologia social. Lembro-me quando num Congresso em Caracas em 1975 lhe perguntaram quais os anos mais felizes de sua vida. Varela respondeu : "Los que tengo por adelante"! Ele justificava essa resposta dizendo que era tal a sua confiança na eficácia da tecnologia social que ele esperava passar o resto de sua vida planejando soluções para problemas sociais -- uma tarefa que ele amava e à qual se dedicou em tempo integral.

Varela foi realmente um grande homem. Eu sempre o vi como um Leonardo da Vinci dos tempos modernos, tal a facilidade com que falava acerca de ciência, arte, matemática, literatura, história, em pelo menos quatro idiomas, todos falados com perfeição. Em minha opinião, Varela não foi reconhecido pela comunidade acadêmica durante sua vida como merecia. Espero que o seja após a morte. Aliás, termino essa nota relembrando o que disse em um de seus escritos: "A história está repleta de exemplos de novas idéias que não foram imediatamente aceitas pelos especialistas de um setor. Talvez o melhor exemplo seja a lei da gravitação universal de Newton . . . hoje reconhecida como um dos maiores avanços científicos já ocorridos. Todavia, quando Newton morreu aos 85 anos, nenhum cientista importante do Continente havia reconhecido seu trabalho. É irônico que o primeiro europeu a reconhecer a importância do trabalho de Newton, sete anos depois de sua morte, foi Voltaire, o qual não era um físico-matemático. Voltaire, por sua vez, queixou-se à Mmme de Pompadour acerca da falta de reconhecimento ao seu talento. Ela tentou consolá-lo dizendo que aqueles que promovem grandes adiantamentos nunca são reconhecidos até que morram ou deixem de ser uma ameaça aos vivos."

Por seu trabalho pioneiro em Tecnologia Social e por disseminá-la e usá-la para promover o bem estar humano, Varela merece o reconhecimento e a admiração de todos aqueles que acreditam na integração entre ciência básica e suas aplicações e se utilizam de ambas em seus esforços para melhorar a condição humana. Varela deixa três filhos, José Pedro, Ximena e Adrian.

 

 

1 Endereço para correspondência: Department of Psychology, California State University at Fresno, Fresno, CA 93711 - e-mail address: aroldor@csufresno.edu