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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.1 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000100004 

Ansiedade, sexo, nível sócio-econômico e ordem de nascimento1

Jorge La Rosa2
Pontifícia Universidade Católica - RS

 

 


Resumo
O objetivo do estudo foi verificar o efeito do sexo, nível sócio-econômico (NSE) e ordem de nascimento em ansiedade traço-estado. Participaram 437 estudantes do 1° e 2° graus, de ambos os sexos, de níveis sócio-econômicos médio-alto e baixo, primogênitos e não-primogênitos. No que se refere à ansiedade estado (AE), observaram-se efeitos principais de sexo e NSE. As mulheres apresentaram escores mais altos que os homens, e também os sujeitos de NSE baixo com relação aos de NSE médio-alto. Houve interação entre NSE e ordem de nascimento. Os estudantes primogênitos de NSE médio-alto evidenciaram menor AE que os primogênitos e não-primogênitos de NSE baixo. Em outra interação, as mulheres primogênitas de NSE baixo apresentaram maior AE que os homens de NSE médio-alto, primogênitos e não-primogênitos, e, também, que as mulheres primogênitas de NSE médio-alto. Nos resultados de ansiedade-traço, as mulheres obtiveram pontuação mais alta que os homens, e também os sujeitos de NSE baixo com relação aos de NSE médio-alto. Não houve interações. Discutem-se os resultados enfatizando-se a importância do sexo, nível sócio-econômico e ordem de nascimento nos níveis de ansiedade traço-estado.
Palavras-chave: ansiedade, sexo, nível sócio-econômico, ordem de nascimento.

Anxiety, sex, socioeconomic status, and birth order

Abstract
The objective of this study was to verify the effect of sex, socioeconomic status (SES) and birth order on state-trait anxiety. The subjects were 437 primary and secondary school students of both sexes, firt-borns and non-first-borns, belonging to both upper-middle and lower socioeconomic levels. Regarding state-anxiety (SA), main effects of the variables sex and SES could be observed. Women presented higher scores than men, and so did the subjects from lower SES in relation to the subjects of upper-middle SES. There was an interaction between SES and birth order. Students who were first-borns of the upper-middle SES showed lower SA than first-borns and non first-borns of lower SES. In another interaction, female first-borns of lower SES showed higher SA than males of upper-middle SES, both first-borns and non-first-borns, and also higher than female first-borns of upper-middle SES. The results of trait-anxiety showed taht women obtained higher scores than men, as well as subjects of low SES did in relation to subjects of upper-middle SES. There were no significant interactions. The results are discussed by emphasizing the importance of sex, socioeconomic status and birth order on levels of state-trait anxiety.
Key-words: anxiety, sex, socioeconomic status, birth order.


 

 

A ansiedade tem sido estudada nos diversos continentes e relacionada às mais diferentes variáveis. O volume de estudos publicados (veja-se, por exemplo, o PsycLit) não deixa dúvida quanto à importância do construto e ao interesse dos pesquisadores. As tensões e o estresse fazem parte, e cada vez mais, do cotidiano do homem contemporâneo.

Há estudos que relacionam a ansiedade com maturidade de julgamento moral (Biaggio, 1989; 1992), com o uso de drogas (Siegel & Ehrlich, 1989), com depressão (Stavrakaki & Gaudet, 1989), com alcoolistas que tentam suicídio (Roy, Lamparski, DeJong, & Moore, 1990), com desempenho negativo no vestibular (Coes, 1991), com obesidade mórbida (Black, Goldstein, & Mason, 1992), com aculturação e ajustamento (Moyerman & Forman, 1992), com criatividade (Asthana, 1993), com currículo escolar de escola elementar (Bokhorst, Groossens, & Ruyter, 1995), com preocupações (Silverman, La Greca, & Wasserstein, 1995), com a primeira relação sexual (Sprecher, Barbee, & Schwartz, 1995), com relações sexuais sem envolvimento emocional (Townsend, 1995), com migração (Westermeyer, Schaberg, & Nugent, 1995) - para citar algumas das múltiplas associações que os estudiosos têm estabelecido com a ansiedade.

Segundo Spielberger (1972) pode-se distinguir ansiedade como um estado e como um traço de personalidade. A primeira se carateriza por ser um estado emocional transitório, marcado por sentimentos de tensão e apreensão, e por um aumento da atividade do sistema nervosos autônomo (incremento do ritmo cardíaco, elevação da pressão arterial, respiração mais rápida e profunda, ...). Ansiedade como traço se refere a diferenças relativamente estáveis entre os indivíduos no que respeita à ansiedade, e que ocasiona uma elevação maior ou menor do estado de ansiedade, como conseqüência da exposição a situações percebidas como ameaçadoras, tanto física como psicologicamente. Esperar-se-ia, portanto, que um indivíduo com elevada pontuação em ansiedade-traço manifestasse maior escore em ansiedade-estado do que um sujeito com baixa pontuação, quando submetidos a situações ameaçadoras.

Ansiedade e sexo

Guida e Ludlow (1989) em um estudo transcultural com 1690 alunos norte-americanos e chilenos da escola elementar, de níveis sócio-econômicos baixo, médio e alto, encontraram diferenças em ansiedade de teste (reação emocional desagradável diante de uma situação avaliativa na sala de aula) primeiro na amostra total, entre homens e mulheres, com os mais altos escores das últimas, e posteriormente nas respectivas culturas, dentro de um mesmo estrato social, em que as mulheres apresentaram pontuações mais altas em cinco comparações. Houve uma exceção, o caso dos chilenos de nível sócio-econômico (NSE) alto, no qual não houve diferenças entre os sexos, o que os autores não explicam, preferindo considerar uma inconsistência. Guida e Ludlow utilizaram o Test Anxiety Scale for Children (TASC).

Silverman et al. (1995) realizaram um estudo com 273 crianças brancas, hispânicas e norte-americanas-africanas de 7 a 12 anos e que cursavam da segunda à sexta séries em escola pública de uma região metropolitana, com o objetivo de explicitar as preocupações dos sujeitos e possíveis relações destas com ansiedade. As áreas mais comuns de preocupações das crianças se relacionavam à saúde, à escola e à segurança pessoal. As meninas, em geral, manifestaram mais preocupações que os meninos, observando-se, ainda, resultado semelhante quando comparadas as meninas brancas e as hispânicas com os meninos das respectivas etnias. Não se registraram diferenças entre os meninos e meninas de raça negra. As áreas de preocupação em que as meninas superavam os meninos eram as relativas à escola, aos colegas, a eventos futuros e à aparência.

No que concerne às relações entre preocupações e ansiedade, elas foram constatadas, de modo que quanto mais preocupação, maior ansiedade - e tais achados foram observados pelos quatro instrumentos para avaliar a ansiedade (Social Anxiety Scale for Children - Revised, Revised Children’s Manifest Anxiety Scale, Test Anxiety Scale for Children e Childhood Anxiety Sensitivity Index), considerando, também, o número de preocupações, a intensidade e a freqüência.

Inderbitzen e Hope (1995) em uma pesquisa com 428 adolescentes da décima série, examinaram as relações entre ansiedade social, ansiedade e depressão, segundo escalas de auto-relatório, verificando que os sintomas de ansiedade social são distintos dos sintomas de depressão e de uma ansiedade não específica. Observaram, ainda, que as adolescentes quando comparadas com os pares masculinos, manifestaram mais altos índices de ansiedade social, ansiedade e sintomas depressivos.

Ansiedade e nível sócio-econômico

Asthana (1993) em um estudo com 400 meninas de 13 a 15 anos, de alta e baixa criatividade encontrou que as meninas com alta criatividade eram menos ansiosas, ainda que apresentassem um nível moderado de ansiedade. Verificou, também, que entre as de baixa criatividade, a ansiedade não era influenciada pelo status sócio-econômico, o que não ocorreu entre as de alta criatividade, onde as de NSE alto eram menos ansiosas que as de NSE baixo. Os resultados evidenciam uma associação positiva entre uma moderada ansiedade e criatividade, o que está de acordo com a posição de Spielberger (1980) de que uma certa ansiedade é necessária para impulsionar o indivíduo à ação. As menos criativas são mais ansiosas, o que permite especular que menos criatividade implica em menos flexibilidade, mais rigidez, menos tolerância à ambigüidade, fatores produtores de estresse.

Guida e Ludlow (1989) na pesquisa transcultural que realizaram com sujeitos norte-americanos e chilenos, identificaram um efeito principal de NSE, segundo o qual os de NSE mais altos manifestaram menos ansiedade de teste do que os de NSE mais baixos. Registraram, ainda, uma interação entre NSE e cultura, na qual os estudantes estadunidenses de NSE alto e médio apresentaram menos ansiedade de teste do que os chilenos de correspondentes NSE. Já os norte-americanos negros de NSE baixo obtiveram maiores escores do que os chilenos de mesmo NSE, o que indica que os negros nos Estados Unidos enfrentam problemas especiais em educação, podendo levá-los a maiores níveis de ansiedade quando comparados com sujeitos brancos de mesmo NSE, ainda que de países menos desenvolvidos.

Murphy, Olivier, Monson e Sobol (1991) examinaram a relação de ansiedade e depressão com o status social, utilizando dados longitudinais obtidos com 593 adultos, em 1952, os quais foram novamente avaliados em 1968. Observaram que a depressão era maior nos sujeitos de NSE baixo, quando comparados com os de classes sociais mais altas. Notaram, ainda, que a relação entre pobreza e depressão não só permanecia estável através do tempo, mas tendia a se incrementar.

Ansiedade e ordem de nascimento

Em um estudo com 404 crianças de 7 a 12 anos, Gates, Lineberger, Crockett e Hubbard (1988) verificaram a relação da ordem de nascimento com depressão, ansiedade e autoconceito. Os primogênitos evidenciaram menores escores em depressão do que o segundo, terceiro, quarto e do que os filhos mais jovens. Os primeiros-nascidos apresentaram, ainda, menor traço de ansiedade do que os terceiros, e uma mais alta auto-estima do que os segundos e do que os mais jovens. Os resultados da pesquisa associam caraterísticas mais saudáveis aos primogênitos, quando comparados com os outros irmãos.

Kushnir (1984), ao trabalhar com uma amostra de 351 crianças de ambos os sexos, primogênitos e não-primogênitos, e com seus pais, observou que a inexperiência destes com o primeiro-nascido ocasionava uma maior ansiedade em relação à saúde do(a) filho(a), quando comparados com os experimentados e tranqüilos pais dos nascidos posteriormente. O autor sugere que tal preocupação e os comportamentos protetores decorrentes podem predispor os primogênitos a perceberem as doenças e as situações dolorosas como mais tensionantes, quando relacionados com os nascidos posteriormente, e a se tornarem mais preocupados a respeito de seu bem-estar físico geral.

Touliatos e Lindholm (1980), em um estudo com 2991 crianças do jardim de infância à oitava série, não encontraram qualquer efeito devido ao tamanho da família ou à ordem de nascimento. Não observaram, em particular, relação entre a ordem de nascimento, ansiedade, imaturidade e desenvolvimento de psicoses. As diferenças eram insignificantes, mesmo quando se consideravam o sexo, a série e o nível sócio-econômico.

O objetivo do estudo foi contrastar homens e mulheres primogênitos e não-primogênitos, de níveis sócio-econômicos médio-alto e baixo, e verificar possíveis interações, no que se refere à ansiedade traço-estado, conforme a concepção de Spielberger, em um planejamento 2 X 2 X 2. Não se formularam hipóteses, ainda que a literatura pudesse fundamentá-las.

 

Método

Sujeitos

Participaram do estudo 437 estudantes do 1° (8ª série) e 2° graus, dos quais 204 eram de nível sócio-econômico (NSE) baixo, 233 representavam o NSE médio-alto, 169 eram primogênitos, 268 não o eram, 231 eram homens e 206 mulheres. A média de idade era 16,75 anos e o desvio padrão 3,019. Os sujeitos de NSE médio-alto eram um pouco mais jovens que os de NSE baixo. As tabelas a seguir especificam as amostras.

 

Tabela 1. Homens segundo a ordem de nascimento e nível sócio-econômico

Ordem de Nascim.

NSE médio-alto

NSE baixo

Total

Primogênitos

Não-primogênitos

59

64

34

74

93

138

Total

123

108

231

 

Tabela 2. Mulheres segundo a ordem de nascimento e nível sócio-econômico

Ordem de Nascim.

NSE médio-alto

NSE baixo

Total

Primogênitos

Não-primogênitos

45

65

31

65

76

130

Total

110

96

206

 

Os sujeitos de NSE baixo freqüentavam cursos noturnos de duas escolas públicas situadas em um bairro popular e em bairro de classe média, respectivamente, trabalhavam durante o dia, percebendo um salário que não chegava em média a dois salários mínimos mensais. As profissões exercidas pelos pais eram as de carpinteiros, porteiros, zeladores de prédios, metalúrgicos, motoristas, vigilantes, garagistas ... A maioria das mães eram do lar, e quando exerciam trabalho remunerado o faziam na condição de domésticas, serviço de limpeza, atendentes de enfermagem, costureiras ... A escolaridade, em geral, de ambos os genitores, restrigiam-se a três ou quatro anos da escola primária e não eram raros os casos de analfabetismo ou semi-analfabetismo.

Os indivíduos de nível sócio-econômico médio-alto, por outro lado, eram de duas escolas particulares bem conceituadas quanto ao padrão de ensino, cobravam altas mensalidades e localizavam-se, uma em um bairro residencial de classe média-alta, e a outra em uma zona próxima ao centro da cidade. Os pais dos alunos possuíam, em geral, instrução superior e eram dentistas, advogados, industrialistas, médicos, empresários, engenheiros, granjeiros ... As mães, na maioria, acompanhavam os pais no nível de escolaridade e exerciam profissões semelhantes. Os sujeitos freqüentavam a escola durante o dia, na condição de alunos de tempo integral.

Instrumentos e procedimentos

Aplicou-se um questionário de variáveis demográficas, o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE; ver Biaggio, Natalício & Spiel-berger, 1977), editado pelo Centro Editor de Psicologia Aplicada (CEPA), cuja validade e fidedignidade foram confirmadas por um estudo recente (La Rosa, 1993), e mais dois instrumentos de avaliação de personalidade.

O Inventário de Ansiedade consta de duas escalas de auto-relatório, cada uma com vinte afirmações, uma que avalia a ansiedade-estado e a outra o traço de ansiedade. A primeira solicita que o indivíduo descreva como se sente em determinado momento, enquanto que a descrição de como geralmente se sente é tarefa da segunda.

Há itens nas escalas de ansiedade traço-estado que indicam uma direção contrária à ansiedade (Ex.: "Sinto-me satisfeito"), são os itens invertidos e que devem ser recodificados, de modo que 1 = 4, 2 = 3, 3 = 2, 4 = 1.

Antes da aplicação dos instrumentos, em sala de aula, para grupos de 10 a 40 alunos, foi dito aos sujeitos que se tratava de pesquisa para avaliar caraterísticas de personalidade, e que não haveria, portanto, respostas certas ou erradas, mas diferentes maneiras de ser. Solicitou-se aos estudantes que respondessem os questionários dizendo como eles eram, e não como gostariam de ser. Qualquer dúvida relativa aos instrumentos deveria ser verbalizada. E se agradecia a colaboração dos participantes.

Análises estatísticas

As seguinte análises foram implementadas:

- tabulações cruzadas (Crosstabs) para verificar a distribuição de freqüência da amostra;

- análise de variância (anovas) para verificar possíveis diferenças entre os grupos constituídos a partir do sexo, nível sócio-econômico e ordem de nascimento (2 X 2 X 2), no que se refere à ansiedade-estado e traço de ansiedade;

- análise de variância (oneway) seguida do teste de Scheffe para identificar diferenças entre os grupos em que F resultou significante nas anovas das interações.

Utilizou-se o pacote SPSS (Nie, Hull, Jenkins, Steinbrenner, & Bent, 1975) para realização das análises estatísticas, e os cálculos foram feitos pelo computador.

 

Resultados

A análise de variância revelou um efeito principal de sexo, F (1, 435) = 9,528, p = 0,002, e de nível sócio-econômico, F (1, 435) = 12,584, p = 0,001 em ansiedade-estado. As mulheres apresentaram escores (X = 39,31) significativamente mais altos que os homens (X = 36,55), e os de NSE baixo obtiveram maior pontuação (X = 39,62) que os de NSE médio-alto (X = 36,29). Houve, também, uma interação de NSE com ordem de nascimento, F (1, 433) = 3,623, p = 0,058, e outra de NSE, sexo e ordem de nascimento, F (1, 429) = 9,589, p = 0,002. A análise de variância (oneway) dos grupos resultantes da interação de NSE com ordem de nascimento proporcionou um F (3, 433) = 7,228, p = 0,0001, e o teste de Scheffe indicou que o grupo de primogênitos de NSE médio-alto (X = 34,71) evidenciou menos ansiedade-estado que os grupos de NSE baixo, primogênitos (X = 40,37) ou não (X = 39,67). Na tríplice interação de NSE, sexo e ordem de nascimento, a análise de variância (oneway) resultou em F (7, 429) = 5,744, p = 0,0001, e o teste de Scheffe revelou que as mulheres primogênitas de NSE baixo (X = 44,03) apresentaram mais ansiedade-estado que os homens de NSE médio-alto primogênitos (X = 34,55) ou não (X = 35,53), e que as mulheres primogênitas de NSE médio-alto (X = 34,51).

No que concerne ao traço de ansiedade, houve, também, efeito principal de nível sócio-econômico e de sexo. Os sujeitos de NSE baixo (X = 41,26) obtiveram maiores escores que os de NSE médio-alto (X = 38,30), com F (1, 435) = 10,827, p = 0,001. As mulheres (X = 41,67), por seu turno, alcançaram maior pontuação que os homens (X = 37,90), com F (1, 435) = 18,533, p = 0,0001. Não se verificaram interações.

 

Discussão

As mulheres apresentaram escores significativamente mais altos que os homens em ansiedade-estado e em traço de ansiedade, o que é apoiado por diversos estudos em diferentes culturas (Guida & Ludlow, 1989; Inderbitzen & Hope, 1995; Pajares & Kranzler, 1995; Silverman et al., 1995; Simpson, Parker, & Harrison, 1995; Steer, Beck, & Beck, 1995). Tal achado explicar-se-ia pelo mais alto nível de expectativas éticas que envolve o comportamento feminino, já que a cultura é mais permissiva com os homens e mais restrita com as mulheres. Um outro aspecto a considerar são as pressões no sentido da profissionalização e ingresso no mercado de trabalho, como afirmação pessoal e busca de independência econômica, requisitos importantes da personalidade da mulher no limiar do novo milênio, o que implicaria em engajar-se em comportamentos competitivos, comumente estressantes e eventualmente conflitantes com feminilidade. Uma outra consideração é que o projeto de constituição de uma família encontra-se na maioria das adolescentes, o que significa, para a quase totalidade, uma dupla jornada de trabalho, a de fora de casa e a que envolve as atividades domésticas, incluindo as funções de esposa e mãe. Tais perspectivas que se convertem na mais dura realidade, são desgastantes e produtoras de tensões.

Silove, Manicavasagar, O’Connell e Morris-Yates (1995) propõem que a ansiedade de separação pode ser particularmente dependente de fatores genéticos nas mulheres, as quais a apresentam consistentemente em mais altos níveis, o que poderia redundar em maior ansiedade na vida adulta. Os autores argumentam, ainda, que a mulher define sua personalidade muito mais em termos de relação que o homem, consequência do fato universal de serem as responsáveis pela segurança, cuidado e proteção das crianças pequenas. Sugerem, outrossim, que tal função de preservar a integridade das relações conflitua com a necessidade de ser competitiva nas situações de trabalho, o que incrementaria os níveis de tensão.

Um outro dado do estudo é que os sujeitos de NSE baixo obtiveram pontuação mais alta em estado de ansiedade e em traço de ansiedade, quando comparados com os de NSE médio-alto, o que é apoiado pela literatura (Asthana, 1993; Guida & Ludlow, 1989; Moyerman & Forman, 1992; Murphy et al., 1991; Rivera, de las Cuevas, Monterrey & Rodriguez-Pulido, 1993; Roy et al., 1990; Sharma & Ram, 1987). Parece haver algumas razões para que os indivíduos de NSE baixo sejam mais ansiosos que os de NSE médio-alto. Uma primeira ponderação é a de que os sujeitos de NSE baixo enfrentavam uma dupla jornada, uma laboral, exercida durante o dia, e uma outra noturna, dedicada aos misteres da aprendizagem, tendo, por conseqüência, um tempo insuficiente para o descanso e para a realização das tarefas escolares, o que redundaria em tensões multiplicadas. Uma outra consideração é a própria situação econômica dos alunos, percebendo um exíguo salário que não permite atender as necessidades de alimentação, vestuário, transporte, material escolar, lazer, ... sem poder contar com os auxílios da família, de situação também precária. Enfrentam, tais sujeitos, diuturnamente, em primeiro lugar, os desafios da própria manutenção e sobrevivência e, posteriormente, a perspectiva de um futuro incerto em que as chances de ascensão social são mínimas - quer dizer, a sua situação sócio-econômica tende a se cristalizar. Diante de tais horizontes, entende-se que os níveis de estresse aumentem e que se reflitam tanto no desempenho profissional como na jornada escolar. Outras são as circunstâncias dos sujeitos de NSE médio-alto: alunos de tempo integral, sem necessidade de labutar pela própria sobrevivência, com as necessidades básicas atendidas e possibilidade de aspiração do supérfluo, experimentam uma situação sócio-econômica consolidada, e uma animadora perspectiva do amanhã. Serão, certamente, vencedores como seus pais. Parece, na medida em que tais dados forem confirmados por outras pesquisas, que o nível sócio-econômico é um fator crucial para a saúde emocional, e que uma melhor distribuição de renda concorrerá, também, para diminuição dos níveis de ansiedade nas classes populares.

Em uma das interações, o grupo de primogênitos de NSE médio-alto obteve menor pontuação em estado de ansiedade que os grupos de NSE baixo, primogênitos ou não, o que significa não haver uma relação direta entre ordem de nascimento e ansiedade, mas há uma mediada pelo NSE. Ser primeiro-nascido, como tal, não implica em menor ansiedade, a não ser que seja de uma família de NSE médio-alto, indicador provável de menor ansiedade se comparado com indivíduos de NSE baixo, independente da ordem de nascimento. Os não-primogênitos de NSE médio-alto, desde um outro ponto de vista, não manifestaram menos estado de ansiedade que os primogênitos ou não de NSE baixo.

Já na tríplice interação de nível sócio-econômico, sexo e ordem de nascimento, as mulheres primogênitas de NSE baixo evidenciaram maior estado de ansiedade que os homens de NSE médio-alto, primogênitos ou não, e que as mulheres primogênitas de NSE médio-alto, o que significa que primogenitura redunda em mais ansiedade ao se tratar de mulheres de NSE baixo. Uma possível explicação seria a multiplicidade de encargos das meninas mais velhas nas famílias de baixa renda, nas quais auxiliam e substituem a mãe no cuidado dos irmãos menores e em outras tarefas domésticas, o que significaria uma experiência precoce das tensões oriundas de tais responsabilidades, além de se constituir em um tempo subtraído de suas atividades lúdicas, com descaracterização da infância.

Em resumo, o sexo e o nível sócio-econômico se mostraram fatores potentes para discriminar os grupos quanto à ansiedade-estado e traço de ansiedade, o que não ocorreu com a ordem de nascimento, que, contudo, interagindo com o nível sócio-econômico e com sexo demonstrou ser um elemento discriminador. Chama-se a atenção, em particular, para a importância do nível sócio-econômico na sua relação com o estresse, de sorte que uma melhor distribuição de renda não significa somente mais justiça social - o que já seria suficiente - mas, também, mais saúde emocional - o que denota, aliás, a unidade do ser humano. Uma sociedade mais justa representará, também, uma comunidade mais feliz.

 

Referências

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Recebido em 10.05.97
Revisado em 07.10.97
Aceito em 13.11.97

 

 

1 Trabalho apresentado no I Congresso Regional de Psicologia para Profissionais na América, na cidade do México, D.F., de 27 de julho a 2 de agosto de 1997. O estudo contou com o apoio do CNPq e da FAPERGS. Cleon dos Santos Cerezer e Maria Carolina Tarrago Chisté participaram como bolsistas.
2 Endereço para correspondência: Av. Iguaçu, 300 Ap. 702, CEP 90470-430 Porto Alegre, RS. E-mail: jolarosa@music.pucrs.br