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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.1 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000100006 

Uma análise semiótico-fenomenológica das mensagens auto-reflexivas de filhos adultos de alcoolistas1

Elizabeth Hill
Maple Woods Community College,
Kansas City - Missouri - EUA

Gustavo Gauer
William B. Gomes2
Instituto de Psicologia - UFRGS

 

 


Resumo
O propósito deste estudo é interpretar as mensagens auto-reflexivas de filhos adultos de alcoolistas (FAA) por meio de uma análise semiótico-fenomenológica. O ser humano tem múltiplas percepções a respeito da miríade de fenômenos que ocorrem em relacionamentos consigo mesmo e com os outros. Confere-se a validade de tais percepções deslocando-se de um nível de percepção para outro, podendo então contemplar a percepção anterior. Em outras palavras, é preciso sair da floresta para poder observar as árvores. Continuando a metáfora, o FAA encontra dificuldade em sair da floresta. Para este estudo foram entrevistados seis FAAs. O procedimento de análise dos dados inicia com (1) a leitura da descrição das reações dos participantes da pesquisa a um excerto da biografia de um outro FAA, seguindo-se (2) a descoberta das mensagens auto-reflexivas dos participantes e (3) a interpretação de perspectivas diretas, metaperspectivas e meta-metaperspectivas das mensagens auto-reflexivas. Os resultados da análise corroboram o trabalho de psicólogos clínicos que têm identificado o mundo-vivido do FAA como um sistema fechado. De um ponto de vista pragmático, os resultados sugerem que as mensagens auto-reflexivas podem ser a chave que fecha e abre o sistema interacional defeituoso do FAA.
Palavras-chave: Alcoolismo; relações familiares, adultez; comunicação; fenomenologia.

A semiotic-phenomenological analysis of the self-reflexive messages of adult children of alcoholics

Abstract
Interpreting the ACoA’s (adult children of the alcoholic) levels of perceptions through their self-reflexive messages is the primary objective of this study. Humans have multiple perceptions regarding the myriad of issues that occur in relationships with self and other. In order to check the validity of those perceptions, the individual must move to a higher level of perception in order to look back at the previous perception. In other words, we have to get out of the forest in order to see the trees. To continue the metaphor, the ACoA has difficulty leaving the forest. Six ACoAs were interviewed. The purpose of this study is to interpret the self-reflexive messages of ACoAs through a semiotic-phenomenological analysis. This process begins by (1) reading the description of the ACoA’s reactions to an excerpt from another ACoA’s autobiography, (2) uncovering the self-reflexive messages of the ACoAs, and (3) interpreting the direct, meta, and meta-perspectives of the self-reflexive messages. The results of the analysis support the work of clinical psychologists who have identified the lived-world of the ACoA as a closed system. From a pragmatic point of view, the results suggest that self-reflexive messages may be the key that close and open the dysfunctional interactional system of the ACoA.
Key words: Alcoholism; family-relations; adulthood; communication; phenomenology.


 

 

Estudos têm demonstrado que viver em um "ambiente alcoolista" afeta negativamente os descendentes de alcoolistas. Para cada alcoolista, cinco ou seis pessoas são afetadas pelo alcoolismo (Hecht, 1973). Crianças filhas de alcoolistas experimentam tensão e competitividade com seus colegas; as crianças mais velhas têm dificuldades em construir e manter amizades (Cork, 1969). Estudo semelhante ao de Cork foi realizado por McLachlan, Walderman e Thomas (1973), acrescentando-se um grupo-controle de filhos de pais não-alcoolistas. Os resultados confirmaram a hipótese de que a família inteira é afetada pelo alcoolismo e beneficia-se do tratamento do membro alcoolista. O modelo oferecido por pai ou mãe alcoolista pode distorcer o processo de socialização da criança, que passa a adotar, intencionalmente ou não, mecanismos inadequados ao lidar com relacionamentos interpessoais (Jacob & Leonard, 1986). O problema tem se tornado tão grave que, nos Estados Unidos da América, já se discute a possibilidade do uso da escola pública no auxílio dos filhos de alcoolistas, mesmo sem contar com a participação dos pais no tratamento (O’Rourke, 1992). Crespi (1995), após revisão de estudos sobre a situação atual de filhos adultos de alcoolistas, sugeriu que futuras pesquisas levem em consideração a pertinência do relacionamento interpessoal no sistema familiar.

Apenas dois estudos exploraram a relação entre alcoolismo e comunicação (Balmert, 1987; Nagel, 1988). Neste ponto é necessário diferenciar o estudo estrutural da comunicação (Alexander, 1988) de um estudo funcional ou de competências específicas (Segrin & Meness, 1995). Estudos em comunicação estrutural concentram-se no desvelamento de padrões e estilos comunicativos que organizam as relações entre percepção e expressão (Lanigan, 1992). Estudos em comunicação funcional voltam-se para o desenvolvimento de competências em habilidades sociais de filhos adultos jovens de alcoolistas e o alcoolismo de seus pais. Por exemplo, Carter, Nochajski, Leonard e Blane (1990) examinaram diferentes dimensões de competência comunicativa em filhos de alcoolistas, de depressivos e de bebedores sociais. Os filhos de alcoolistas apresentaram déficits em todas as dimensões de competência comunicativa, tais como clareza comunicativa e auto-referência.

Examinemos, ainda que brevemente, os dois estudos sobre comunicação estrutural em filhos de alcoolistas. Balmert (1987) investigou o fenômeno de filhas de pais alcoolistas que casam com alcoolistas. As participantes da pesquisa foram convidadas a reconstruir o diálogo e as ações ocorridos durante um episódio de grande importância nos seus relacionamentos com o pai e com o marido. Das conclusões que emergiram do estudo, cabe ressaltar as seguintes: 1) as mensagens que as filhas receberam dos pais afetaram suas vidas e suas percepções dos relacionamentos com eles; 2) as mensagens que essas mulheres receberam de seus maridos afetaram suas vidas e suas percepções dos relacionamentos com eles e 3) essas mulheres tinham uma tendência a comunicarem-se dentro de padrões rígidos quando interagiam com seus pais e maridos. Note-se o que disse Balmert (1987, pp. 23-24):

As participantes continuam a passar por episódios problemáticos por não serem capazes de escapar um pouco da sua rigidez. Esta rigidez, contudo, não implica a presença de uma personalidade "perturbada", mas sim, que elas aprenderam um repertório lógico limitado que dificulta para elas a manutenção de conversações satisfatórias com pessoas significativas. Essa distinção traz uma importante implicação pragmática. A definição do problema influencia o modo como tentamos corrigí-lo.

Nagel (1988) investigou como os alcoolistas ajustam ou modificam suas identidades através de metanarrativas, contando estórias sobre suas vidas em reuniões de Alcoólicos Anônimos. O estilo que eles desenvolveram para falar de suas vidas como alcoolistas foi chamado pelo autor de "auto-generativo", e poderia ainda ser chamado de auto-reflexivo. A oportunidade para os alcoolistas conferirem suas realidades pessoais aumenta com as narrativas, já que outros estão ouvindo o que eles dizem. Conforme seguem falando de suas vidas, eles adotam uma perspectiva mais saudável de seus mundos-vividos através da adoção de uma metanarrativa. Essa metanarrativa funciona como uma mensagem auto-reflexiva, pela qual os participantes puderam rever os roteiros de suas vidas e iniciar o movimento de mudança, de volta à sociedade (Nagel, 1988).

Os estudos mencionados falham, contudo, em esclarecer alguns aspectos importantes da relação entre alcoolismo e comunicação. Eles não indicam o que acontece no desenvolvimento dos papéis: por que o filho adulto de alcoolista tem dificuldade em construir relacionamentos, como o pai/mãe alcoolista afeta a vida do filho, e por que a metanarrativa é mais positiva que a narrativa original.

Como membro da família, o filho de alcoolista tem um ponto-de-vista quanto aos acontecimentos. Entretanto, nesse sistema defeituoso, as perspectivas não são livremente discutidas ou compartilhadas com pessoas de dentro ou fora da família. O único modo de conhecer a semelhança ou divergência entre perspectivas nossas e dos outros é a comunicação explícita. No entanto, o FAA não consegue comunicar-se explicitamente e finda por "empilhar" perspectivas num sistema fechado. A entrada de nova informação nesse sistema fechado não ocorre, na maioria das vezes, até que o filho de um alcoolista seja um adulto. Só então, reconhece que as regras inferidas de suas experiências infantis não são eficazes para relacionamentos onde o assunto central não é o álcool (Black, 1981). Até esse momento, a criança ou adolescente vive em silêncio, abstraindo, de cada evento ou mensagem, a hipótese e a eventual regra que influenciarão seu comportamento verbal e não-verbal.

A abstração (Alexander, 1988), em uma criança, ocorre quando ela, ao perceber eventos e/ou mensagens, categoriza os estímulos e completa a informação sensória (que é incompleta) através de inferências, para dar-lhes sentido. Nesse ponto, quando a criança deveria fazer perguntas para conferir sua realidade percebida com as de outros, o processo de abstração é sabotado. Por conseguinte, uma das inferências que a criança deriva da comunicação é que a informação sobre seu progenitor alcoolista é privada ou secreta. A criança, então, tenta entender o comportamento do pai ou mãe alcoolista e a sua própria reação a ele através de um processo de fatores semânticos, especificamente mensagens auto-reflexivas, sem dividir suas perspectivas com outros nem considerar a eventual incorreção desta sua interpretação dos fatos. A criança passa a aceitar dados inferenciais como fatos (confunde "o mapa com o território").

Smith e Williamson (1985) identificaram os múltiplos níveis de perspectivas numa transação interpessoal, quais sejam (1) a perspectiva direta, a correspondência entre a perspectiva e o tema em questão; (2) a metaperspectiva, a compreensão que uma pessoa tem da compreensão de outra sobre o tema em questão; (3) a meta-metaperspectiva, a compreensão de alguém sobre a compreensão que uma outra pessoa tem da compreensão de uma terceira pessoa sobre o tema em questão. Esse modelo serve para esclarecer como o filho de alcoolista constrói seu sistema fechado de auto-alienação graças às características de sua comunicação com o progenitor alcoolista. Esses múltiplos níveis da experiência (perspectivas) comparam-se com o método fenomenológico, constituído de três passos: descrição, redução e interpretação. Assim, no intuito de compreender um fenômeno, o pesquisador olha para a fala como apresentada pelo participante de uma pesquisa. Essa fala (acta) é a perspectiva direta (data) da experiência do participante. De acordo com o modelo de Smith e Williamson, o pesquisador, como parte da díade comunicacional, também tem uma perspectiva direta daquela fala. Baseado nessa fala, o pesquisador reduz o fenômeno às suas estruturas essenciais. Esse processo de reflexão, a redução, é o data do qual um sentido, uma interpretação, será entendido. A interpretação (capta) é a meta-metaperspectiva, um ponto-de-vista acerca do relacionamento e do sentido entre a perspectiva direta e a metaperspectiva.

O presente estudo procura identificar e explicar as relações entre o FAA e os mecanismos defeituosos usados em seus relacionamentos interpessoais. A pergunta central do estudo é a seguinte: como o FAA chega à sua percepção de si mesmo? Há um consenso entre teorias de personalidade e teorias de comunicação interpessoal de que o auto-conceito desenvolve-se através da interação com outros. Pesquisas previamente mencionadas já mostraram que o comportamento do progenitor alcoolista afeta o filho. A questão que ainda permanece é a seguinte: como os FAAs perpetuam suas auto-imagem negativa e comunicação defeituosa? Este estudo procura responder à questão interpretando as percepções que o FAA tem de si mesmo através de mensagens recebidas da família, amigos e sociedade. Estas percepções confirmam e/ou desconfirmam o seu auto-conceito, enquanto simultaneamente realimentam as mensagens auto-reflexivas dele a respeito de suas percepções de si e dos outros.

 

Método

O delineamento de uma pesquisa qualitativa deve indicar inicialmente como será procedida a articulação entre os critérios de evidência (o material de atualização empírica) e os critérios de julgamento (as assunções de análise e crítica). Uma boa maneira de iniciar uma pesquisa de orientação fenomenológica é revelar qual a sua lógica abdutiva, ou seja, a lógica que está servindo como força propulsora da própria pesquisa. O Novo Dicionário da Língua Portuguesa define abdução como "um raciocínio cuja conclusão é imperfeita e portanto apenas plausível" (Ferreira, 1996, p. 6). Já o verbo abduzir é definido como "afastar-se de um ponto" (Ferreira, 1996, p. 6). O grande defensor da pertinência da lógica abdutiva foi o filósofo americano Charles B. Peirce (Mora, 1986). Ele enfatizou que em qualquer situação de pesquisa temos de emitir juízos que são apenas plausíveis (inferência hipotética). Em fenomenologia existencial (Lanigan, 1992), entendemos esta condição como a experiência consciente de determinados aspectos do nosso mundo vivido. Tecnicamente, a lógica abdutiva é indicada na equação "Regra + Resultado = Caso", o que quer dizer que, em um mesmo contexto (regra), comparações internas (resultado) estabelecem identidades entre dois fenômenos (caso). Para um exemplo da articulação destes princípios lógicos em uma pesquisa qualitativa recomenda-se Lanigan (1997).

A lógica abdutiva explicita a condição existencial do pesquisador, que é a sua localidade ou perspectiva diante do objeto que deseja estudar. Note-se que é a definição de um ponto do qual o pesquisador deve se distanciar para buscar evidências para o seu julgamento. Assim, torna-se necessário avançar para o segundo passo da pesquisa, que é a invenção de condições de evidência. Neste caso a lógica será indutiva e é indicada pela equação "Caso + Resultado = Regra". Em outras palavras, um conjunto de descrições de determinadas pessoas que vivem uma condição existencial comum (o caso, de filhos adultos alcoolistas) serão comparadas internamente (para obtenção de resultados comparáveis) em um mesmo contexto (como uma mesma regra de comparação - instrumento).

As descrições obtidas serão analisadas através de uma lógica dedutiva e indicada pela equação Regra + Caso = Resultado, o que quer dizer que a regra fenomenológica orientará a leitura das descrições (caso) para compreensão e interpretação da condição vivencial em questão, ou seja, as dificuldades comunicativas dos FAA (Resultado). No entanto, a validação da pesquisa qualitativa requer ainda uma outra análise lógica que é a lógica adutiva, cuja a equação "Regra + Resultado = Caso" corresponde a uma condição onde, em diferentes contextos (vivências de FAAs - Regra), comparações externas (dife-rentes instrumentos e depoentes - Resultados) estabelecem a identidade de dois fenômenos (Caso).

Condição existencial da pesquisa (Lógica Abdutiva - particular e a priori)

A primeira autora é uma filha adulta de alcoolista e, como tal, participou de grupos de apoio, onde, conversando com outros FAAs, notou a coincidência de sentimentos de baixa auto-estima entre eles. Por mais que eles se apresentassem articulados, atraentes e bem-sucedidos, deixavam escapar mensagens auto-reflexivas, as quais comunicavam repetidamente que ele/ela não era um ser humano aceitável. A maioria dessas mensagens parecia ser originárias de seu progenitor alcoolista ou de outros membros de sua família disfuncional.

Durante as reuniões, os FAAs dissipavam as mensagens negativas uns dos outros, mas cada membro tinha um diferente nível de introvisão. Havia diferenças entre as auto-imagens dos indivíduos que se arriscaram a ter contato com o mundo fora da família e daqueles que não o fizeram, e entre aqueles que apenas receberam mensagens negativas e os que as substituíram por outras, positivas. A primeira autora, particularmente, recebeu mensagens positivas de seus pais ao longo de seu crescimento; seu auto-conceito não sofreu a agressão que os de outros pareciam ter sofrido. Além disso, ela compartilhou seus sentimentos e percepções sobre o pai alcoolista com outras pessoas, antes de freqüentar o grupo, e graças a isso aprendeu que sua situação não era incomum.

A primeira autora propôs uma analogia vendo os indivíduos como que trancados num closet de sentimentos negativos sobre si mesmos e sobre seus pais. Eles caracterizavam seu sofrimento silencioso com a expressão "não fale, não confie", como indicado pela literatura contemporânea a respeito do problema dos FAAs. Tecnicamente, a analogia é uma inferência hipotética na qual a regra "trancados em si mesmos e sobre seus pais" associada ao ato (resultado) "sofrimento silencioso ‘não fale, não confie’" desvelava um caso "mensagens de filhos adultos de pais alcoolistas". Para continuar explorando as idéias provenientes da inferência hipotética indicada, o passo seguinte constitui-se na invenção de uma situação de pesquisa para verificar a hipótese.

A pesquisa (Lógica Indutiva e Dedutiva)
Participantes da Pesquisa (Sujeitos)

Seis filhos adultos de alcoolistas concordaram em ser entrevistados, sendo cinco mulheres e um homem. Os participantes, nascidos e residentes nos Estados Unidos da América, conheciam a entrevistadora através de grupos de apoio ou mesmo do ambiente universitário, e, ao saberem do tema da pesquisa, confiaram a ela a informação de que eram filhos de alcoolistas, propondo-se a colaborar. Cada um deles era proveniente de uma família na qual o pai era alcoolista. As idades dos participantes variaram entre vinte e dois e quarenta e dois anos. A opção por entrevistar adultos pode ser justificada pela afirmação de Woititz (1983), de que filhos de alcoolistas não reconhecem plenamente seus padrões comunicativos básicos até que cheguem à casa dos trinta anos de idade. Por essa época eles já teriam passado por vários relacionamentos malsucedidos e estariam começando a perguntar-se: "Por quê?". Não houve preferência por mulheres, que apenas estavam disponíveis em maior número para as entrevistas. Em todo caso, Stewart e D’Angelo (1988) constataram que mulheres são geralmente mais dispostas a discutir e analisar seus relacionamentos do que os homens.

Todos os participantes reconheceram que tinham um pai ou mãe alcoolista e, em diferentes graus, que o comportamento ou do pai ou da mãe afetou o seu próprio comportamento. Três dos sujeitos já haviam participado de algum tipo de grupo de apoio ou auto-ajuda; os outros três nunca procuraram qualquer tipo de ajuda externa para explorar os efeitos do alcoolismo em suas vidas. Os participantes receberam pseudônimos para proteger suas privacidades. Nomes foram escolhidos ao invés de números para que as descrições soassem mais realísticas. A Tabela 1 agrupa os dados dos participantes.

 

Tabela 1 - Participantes da Pesquisa

Pseudônimo

Sexo

Idade

Ocupação

Estado Civil

Terry

M

42

Anestesista

Solteiro

Zelda

F

22

Estudante universitária

Solteira

Dot

F

33

Professora

Solteira

Olivia

F

31

Professora universitária

Casou-se 3 vezes

Bette

F

31

Professora universitária

Solteira

Sara

F

42

Professora universitária

Solteira

 

Instrumento (Inventando uma situação para indução)

Um trecho de Keeping Secrets, a autobiografia da atriz americana Suzanne Somers (1988) serviu como uma chave para o sistema comunicacional fechado dos participantes. Essa porção do texto (cuja tradução é apresentada no anexo 1) foi cuidadosamente selecionada pelo seu conteúdo, caracteristicamente auto-reflexivo. Somers discute no trecho o medo que tinha de que suas amigas descobrissem o alcoolismo do pai (metaperspectiva) e o que elas, então, pensariam sobre ela própria (meta-metaperspectiva). Sem confirmar a veracidade de seus temores, ela evitava compartilhá-los, por presumir que a resposta seria negativa. Tais mensagens auto-reflexivas levaram a uma retroalimentação que inibiu sua comunicação interpessoal e fez diminuir ainda mais sua auto-estima.

Procedimento

O presente estudo está baseado numa tradição teórica em fenomenologia existencial, levando em conta que um conceito, quando aplicado à experiência de vida individual, dá sentido à relação entre atividade e pensamento. Como afirma Lanigan (1988, p.6), "a fenomenologia se interessa pela natureza e pela função da consciência". Neste estudo em particular, consciência dos FAAs é explorada em busca da descoberta das camadas de mensagens auto-reflexivas que resultam num código, o qual os prende num sistema fechado. Os padrões de comunicação do FAA estão envolvidos na tensão entre atividade e pensamento. A fenomenologia existencial, enquanto um método reflexivo para o estudo da experiência consciente e a teoria semiótica, enquanto uma ciência objetiva do discurso, atendem à dialética entre a consciência (reflexão) e a experiência (evidência) do FAA na relação com o pai ou mãe.

Solicitou-se aos participantes que, após ter lido as experiências de vida de uma outra FAA, Suzanne Somers, refletissem sobre sua própria infância. Os "auto-relatos" foram obtidos através de uma entrevista conversacional informal como a descrita por Patton (1990) e gravados em audioteipe. As entrevistas duraram aproximadamente uma hora. Os teipes foram ouvidos inúmeras vezes e transcritos para estabelecer-se o capta para posterior investigação e entendimento.

Critério de Análise/Síntese (Lógica Dedutiva)

As marcações analíticas das transcrições obedeceram ao critério lógico da fenomenologia semiótica, que é uma conjunção da compreensão do pesquisador e da expressão narrativa do participante. As narrativas foram demarcadas através dos três passos do método fenomenológico (descrição, redução e interpretação) enquanto regra de desvelamento para o caso. Isto é: mensagens e comportamentos auto-reflexivos referentes à relação com o progenitor alcoolista e com o progenitor co-dependente. A descrição fenomenológica olha para a experiência consciente, pondo entre parênteses pressupostos que possam influenciar a percepção desta experiência. A redução fenomenológica serve para determinar estruturas da experiência descrita. A interpretação fenomenológica é o sentido da relação entre descrição e redução, no intuito de obter um correto entendimento dos códigos usados na descrição. Esse processo constitui uma análise semiótica ou hermenêutica. O método é sinérgico, cada parte juntando-se à próxima, culminando num todo que é maior que a soma das partes.

 

Resultados

Os resultados serão apresentados em três partes. A primeira, mostrará sucintamente como foram procedidas as elaborações das descrições. A segunda, fará o mesmo com as reduções. A terceira será mas extensa pois apresentará a interpretação fenomenológica, como um confronto entre a descrição e a interpretação.

Descrição Fenomenológica

Na primeira etapa do método da fenomenologia semiótica descreve-se a experiência consciente como sendo uma articulação dos signos existentes, isto é, o conteúdo expresso da forma que ele aparece na estrutura lingüística (Gomes, 1997). Neste passo, o pesquisador coloca entre parênteses seus pressupostos para concentrar-se na perspectiva que o participante tem da sua própria experiência, com base nos dados da entrevista (data). Essa perspectiva, de acordo com Kvale (1983), preserva o sentido global de cada entrevista. A Tabela 2 define os temas principais de cada entrevista, como evidenciados nas descrições. O Anexo 2 traz a síntese de uma descrição, como exemplo desta etapa no movimento de análise e síntese dos dados, enquanto constituição do capta.

 

Tabela 2 - Trechos esclarecedores e focos das entrevistas como apontados nas descrições

Participante

Foco da Entrevista

Terry

Adolescência com o pai alcoolista; brigas com os colegas; comportamento agressivo; enurese noturna.
"Às vezes eu sentia que não era bom o suficiente para ser amigo deles (meus amigos), ou não era esperto o suficiente, ou não era rico o suficiente."
"(a situação em casa com o pai alcoolista) não era da conta deles (amigos)."
"(a agressividade com os amigos) era uma atuação daquilo que estava acontecendo em minha casa, muito abuso físico."

Zelda

Relacionamento com os pais na adolescência; situação da irmã; relação atual com os amigos.
"Eu apenas assumia que (a situação com o pai alcoolista) não era grande coisa, que não havia nada de errado e também eu achava que não era problema dos outros, e que eu não devia incomodar os outros com os meus problemas."
"Eu dou às pessoas pedaços e fragmentos de coisas que eles querem mais, saber mais sobre você, mas você não conta tudo."

Dot

A maneira que ela e a mãe lidavam com o comportamento alcoolista do pai; a condição do pai.
"...você espera, pelo menos eu esperava, você meio que assume que se não dissesse nada a ninguém, então ninguém saberia, o que é mesmo ridículo..."
"(eu não contava aos outros sobre a minha família) porque eu temia que eles me julgassem por aquilo e sentissem pena de mim (...) É difícil explicar às outras pessoas... É muito difícil..."

Olivia

Isolamento dos amigos durante a adolescência; a escola que freqüentou e as deficiências do sistema educacional.
"Eu sabia que quando eu descesse do ônibus escolar à noite, era como se eu fosse de um mundo para outro."
"... eu acho que não tive um pensamento sério sobre mim mesma até os meus dezoito anos. Minha vida inteira era unicamente concentrada no papai."

Bette

Anos mais difíceis com o pai (da pré-adolescência ao início da adolescência); o diário que escrevia na época.
"...eu não percebia (a situação em casa) como sendo disfuncional, ou algo com o que eu devesse me preocupar (...) Eu, é claro, pensava que (minha úlcera aos doze anos de idade) era minha culpa..."
"Eu achava que havia pessoas no mundo com problemas sérios, e que os meus problemas não eram sérios..."

Sara

Adolescência e início da idade adulta; mensagens da mãe proibindo-a de compartilhar informações sobre a família.
"... mesmo se eu não negasse os sentimentos para mim mesma, eu os disfarçava (...) agindo como se estivesse tudo OK a maior parte do tempo."
"Eu acho que não contei a ninguém sobre o alcoolismo dele (meu pai) até alguma época na faculdade, e mesmo então foi para pessoas que eu tinha certeza que nunca o encontrariam..."
"A raiva era freqüentemente tanto comigo mesma quanto com ele (meu pai), porque eu queria ter controle, (...) eu queria ser capaz de parar, você sabe, a bebida. E eu ficava irritada por não poder, por não poder mantê-lo sóbrio (...) Eu me sentia bem mal sobre mim mesma. Eu tive, mesmo do meu pai, que era afetuoso... eu tinha sentimentos de ser amada, mas eles sempre se confundiam com sentimentos de não ser amada, ou sentimentos, bem, puxa, se alguém ama você, então por que faz o que faz?"

 

Redução Fenomenológica

As reduções derivam de cada uma das descrições fenomenológicas. O propósito da redução é determinar quais partes da descrição são essenciais à experiência consciente do FAA enquanto vivendo num sistema fechado. As reduções estão resumidas na Tabela 3. O Anexo 3 traz um exemplo de redução. 

 

Tabela 3 - Resumos das reduções das descrições oferecidas pelos participantes de suas experiências com o progenitor alcoolista

Participante

Redução

Terry

A descrição apresentada por Terry exemplifica as transformações isomórficas inadequadas de mensagens codificadas, resultando em auto-reflexividade descontrolada. Presumindo que seus amigos soubessem da sua situação familiar, ele escolheu permanecer em silêncio, acreditando em sua percepção da realidade. A interação entre Terry e seus pais alternava abuso e coexistência silenciosa.

Zelda

A descrição da experiência de Zelda é centrada na fantasia. Seu modus operandi é ouvir e não falar, temendo a perda de seus amigos, estando, contudo, sempre pronta a ajudá-los.

Dot

A descrição oferecida por Dot revela um certo grau de negação. Ela admite preferir não "olhar para trás", com medo do que pode vir a descobrir.

Olivia

O centro da descrição de Olívia é o trauma, que resultou numa inabilidade para confiar nos outros, o que, por sua vez, sabotou sua habilidade para construir relacionamentos. Ela passou a manter distância física e emocional no intuito de proteger-se de eventuais novos traumas.

Bette

A descrição exemplifica o poder das meta-metaperspectivas em perpetuar uma severa orientação intensional da realidade. O efeito cíclico daquelas provocou em Bette sentimentos de desvalia, de que ela não era capaz de lidar efetivamente com sua própria vida.

Sara

Combinam-se na descrição da experiência de Sara mensagens diretas que alimentam um processo auto-reflexivo ao longo de sua adolescência e início da idade adulta. O medo de que outros descobrissem seu segredo familiar levou-a a um estado de contínua negação consciente.

 

Interpretação Fenomenológica

O passo final da análise fenomenológica é interpretar a relação entre a descrição e a redução para definir o código que emerge como resultado das mensagens verbais e não-verbais trocadas entre o filho e o progenitor alcoolista, e entre o filho de alcoolista e o público, que levaram-no a não comunicar-se com outros (Wilden, 1980). Esse código consiste em quatro fenômenos diferentes: (1) um conjunto de sinais ou unidades de transmissão com o propósito de comunicação; (2) um conjunto de reações semânticas; (3) um conjunto de possíveis respostas comportamentais no ponto da interpretação; e (4) uma regra com partes combinadas de dois ou mais dos conjuntos citados que corresponde a uma dada resposta (Eco, 1979).

As estruturas essenciais das experiências do FAA são derivadas de suas mensagens auto-reflexivas descrevendo suas reações às memórias de Somers e, em última instância, às suas próprias lembranças. Essas estruturas essenciais podem consistir em mensagens recebidas, noções conotativas e/ou respostas comportamentais aos eventos que cada um vivenciou.

Cada participante descreveu suas percepções e reações ao ambiente alcoolista em termos de si mesmo e da presumida opinião de outros. Todos afirmaram inequivocamente que não falaram com ninguém a respeito de seus sentimentos, reações ou observações de suas vidas familiares, até que saíram de casa, exceto no caso de Zelda, que recentemente revelou alguns de seus sentimentos. Os seis sujeitos admitiram "pensar" sobre o que estava acontecendo, mas nunca compartilhar seus pensamentos. Teoricamente, eles vivem num sistema fechado que parece resultado de um processo de isomorfismo intensional [do latim intensio(-onis), referindo-se a um determinado modo de compreensão]; o FAA não confere sua realidade com a realidade percebida por indivíduos que vivem fora da sua família ou que têm algum tipo de informação externa. Pelo contrário, ele confunde seu mapa com o território presente e imediato e continua a abstrair sua situação e condição daquela única fonte de informação.

Foi demonstrado que a auto-reflexão aumenta a efetividade da comunicação (Lau, 1983), mas o FAA, particularmente, parece intensionalmente orientado, confundindo "o mapa com o território" e não procurando verificar suas mensagens auto-reflexivas. Eles formam conclusões intensionalmente, que podem ser, e geralmente são, errôneas. Entre estas conclusões intensionalmente errôneas foram mencionadas: 1) não falar com pessoas de fora da família sobre o pai alcoolista, 2) entender que o problema era seu e que ninguém mais se preocuparia com isso, 3) sentir-se permanentemente constrangido com a situação, e 4) sentir pouco respeito pelos professores e temer que a sua vida pudesse ser igual à de seus pais e parentes. Note-se que foi mencionado por um entrevistado que todas as irmãs de sua mãe casaram-se com alcoolistas.

Em cada situação, as revelações eram abortadas por pressuposições tais como: 1) o que os outros pensariam, 2) não é da conta de ninguém, 3) seria embaraçoso e 4) seus problemas não mereciam atenção. Houve o reconhecimento de que a mãe comunicou, verbalmente ou não, o desejo de ver suprimida qualquer informação sobre o pai alcoolista. Em uma situação específica, a filha adolescente, tendo dito ao médico da família que o pai ocasionalmente bebia muito, foi desmentida pela mãe. Os participantes desta pesquisa, conforme expresso nas entrevistas, jamais apresentaram em sua história de vida qualquer discussão sobre suas observações e sentimentos com os pais, amigos ou professores. Interpreta-se, então, que se o filho aprendeu a não confiar nos pais, seria muito mais arriscado ainda confiar em "estranhos" e correr o risco de maiores dissabores.

Os entrevistados interpretaram, a partir das mensagens recebidas, que a condição do pai alcoolista ou a revelação de seus próprios sentimentos não devem vir a público. Interpreta-se, então, que o filho de alcoolista abduziu, criou uma regra para "interpretar uma mensagem referente a um contexto ou circunstância não-codificado" (Eco, 1979). No caso, o "contexto ou circunstância não-codificado" é o alcoolismo do pai. A mensagem tornou-se uma regra, conquanto foi repetida e repetida. O FAA aprendeu através das mensagens recebidas que não deveria discutir problemas familiares com o público, ou, em alguns casos, ele não percebia nada a respeito de sua família que fosse especial a ponto de precisar ser compartilhado.

A meta-mensagem ou mensagem auto-reflexiva é de desconfiança. Ao público, em geral, não deve ser confiada informação a respeito da família. A família luta para sobreviver emocionalmente e, em alguns casos, fisicamente, deixando a criança sentir que seus problemas pessoais são insignificantes em comparação com outros, ou mesmo que são merecidos. Na comunicação consigo mesmo e com os outros, a palavra-chave para o FAA é, portanto, confiança. O FAA aprendeu a não confiar na mensagem recebida do progenitor, que é o modelo que ele tem no aprendizado sobre a interação com adultos, figuras de autoridade, enfim, com as pessoas. Essa falta de confiança no progenitor deságua nos relacionamentos em geral; o FAA vê o público como uma ameaça. Se o público fica sabendo do seu segredo familiar, o FAA crê que a família ou ele mesmo será machucado ou constrangido adiante. Conforme o filho continua a viver e lidar com o alcoolista, ele pode passar a desconfiar dos seus próprios sentimentos, já que ouve mais e mais vezes que aquilo que vê, que ouve ou no que acredita, não existe. A negação da doença pela família persiste e o FAA começa a duvidar das suas próprias interpretações dos eventos que observa envolvendo sua família.

O FAA aprende a não confiar, a não depender dos outros, a não esperar por medo de ser desapontado, a não confiar seus sentimentos aos outros por medo de ser rejeitado, a não acreditar em promessas dos pais ou de outros e a não acreditar nos próprios sentimentos. Ele aprende a temer as conseqüências das suas próprias ações e a exposição ao público. Sua confiança em si mesmo e em sua família foi danificada ou destruída.

 

Discussão (Lógica Adutiva)

Esses achados oferecem explanações e respostas aos achados anteriores dos estudos mencionados na introdução. Em cada um deles, a adição dos achados do presente estudo sobre mensagens auto-reflexivas num sistema fechado clarificam ou oferecem uma alternativa na exploração dos problemas da família de um alcoolista.

Este estudo reafirma a observação de Korzybsky (1948) de que abstrações auto-reflexivas intensionalizadas, não-testadas, levam a um comportamento mal-adaptado e falhas de avaliação; o autor diz que a forma como as pessoas usam a linguagem em suas avaliações de si mesmas e de seus mundos é o mais importante determinante de sua habilidade para responder adequadamente ao mundo. O filho de alcoolista, como revelado neste estudo, usa linguagem inadequada, respondendo a níveis de abstrações mais altos e não conferindo seus significados com abstrações de nível mais baixo. A natureza auto-reflexiva da linguagem contribui para trancá-lo num mundo silencioso, sem se arriscar a comparar suas descrições da realidade com as dos outros, principalmente outros de fora da família alcoólica. O filho de alcoolista não percebe o perigo de ver o mundo de um nível de abstração, uma metaperspectiva, uma inferência que ao longo do tempo se torna uma regra, um código para comportamento comunicativo. Esse reconhecimento não ocorre até que ele compare os altos com os baixos níveis de abstração.

Os achados deste estudo confirmam a necessidade de grupos de apoio continuado para alcoolistas e seus filhos e reconhece a necessidade de intervenção em famílias de alcoolistas ou simplesmente disfuncionais. É apenas através da conferência de seus mapas com o território que o filho de alcoolista pode começar a modificar sua linguagem e ajustar seus comportamentos, quebrando padrões defeituosos de comunicação e comportamento e substituindo-os por linguagem "adequada" e comportamento "sadio".

O presente estudo defende que a teoria da comunicação deve interagir com outras disciplinas. Ela oferece um meio para explorar como aprendemos, como entendemos, por que nos sentimos como nos sentimos, e como integramos conhecimento. A associação, por exemplo, da teoria da comunicação e da psicologia clínica oferece aos profissionais um outro acesso ao entendimento e ao aconselhamento do filho de alcoolista, adulto ou não, ou a qualquer indivíduo vindo de um ambiente disfuncional. Abre-se ainda a porta para a pesquisa continuada na área de Comunicação em Saúde e apóia-se a área como um campo de estudo legítimo dentro da teoria e metodologia da comunicação discursiva. Desta forma, aponta para a necessidade de estudos e de atenção a estas vítimas do alcoolismo. Novas pesquisas trarão, também, informações importantes para a crítica à presente interpretação e ao desenvolvimento de programas de atendimento clínico a estas pessoas. Reconhece-se, assim, a necessidade de se estabelecer o movimento entre o particular (por exemplo, este estudo) e o universal (por exemplo, outros estudos sobre os FAAs) para confirmação destes achados e da interpretação sugerida.

Embora os dados deste estudo tenham sido colhidos nos Estados Unidos, os achados provavelmente são válidos para outras populações, inclusive a brasileira. Programas de recuperação e atendimento a alcoolistas e seus familiares, como Alcoólicos Anônimos e grupos de encontro de parentes de alcoolistas envolvem processos comunicacionais, os quais foram aqui discutidos. Esses programas são considerados bem-sucedidos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Este estudo trata de processos comunicacionais que ocorrem na família do alcoolista. De qualquer forma, uma futura replicação do estudo no Brasil poderia ser de grande importância para o estudo dos temas do alcoolismo e da comunicação discursiva e mesmo para a confirmação dos achados e uma comparação entre as populações.

 

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Recebido em 14.08.97
Revisado em 08.10.97
Aceito em 01.04.98

 

 

ANEXO 1

Tradução do trecho da autobiografia de Suzanne Somers (1988) utilizado como instrumento neste estudo.

A adolescência foi uma época excitante e confusa para mim. Matriculei-me na Mercy High School em setembro de 1960, a mesma escola que minha irmã havia freqüentado. Eu tinha quase quatorze anos de idade. A Mercy era uma escola católica somente para meninas, dirigida pelas Irmãs da Piedade. Sandy matriculou-se na Capuchino, a escola pública de San Bruno. Era frustrante estar separada dela. Sandy era minha única amiga e a única pessoa de fora que "sabia" de tudo.

Mercy foi um verdadeiro choque cultural para mim. A escola era uma velha mansão reformada. O terreno era de tirar o fôlego; lindos bosques de carvalhos, jardins de rosas meticulosamente cultivados, fontes, estatuária. Eu nunca tinha visto algo tão lindo. O prédio da escola parecia uma completa fantasia. Os corredores tinham paredes revestidas de carvalho, lustres pendendo do teto. O teatro era o antigo salão de baile com balcões e um maravilhoso palco. Eu o adorava. Minha mãe voltou a trabalhar para ajudar a pagar a escola.

Eu estava emocionada com minha nova vizinhança. Que oportunidade. Aqui eu estava com pessoas totalmente novas. Uma nova cidade. Ninguém sabia que meu pai era o bêbado da cidade, e eu estava empenhada em que ninguém nunca viesse a saber. Agora eu poderia ter alguma dignidade. Eu não estava preparada para a riqueza à qual estava agora exposta. Minhas colegas eram trazidas e levadas em limousines pelos choferes das suas famílias. Todo mundo tinha um Cadillac. Todas as meninas compravam suas roupas na Saks e I. Magnin. Muitas ganharam jóias de presente de formatura; seu primeiro anel de diamante ou rubi. Eu estava intimidada. Eu me resguardava bastante. Eu não tinha amigas. Como poderia eu fazer amigas? Eventualmente, você tem que convidar as amigas para ir à sua casa. Eu nunca faria isso. Se soubessem a verdade, jamais haveria a chance de alguém gostar de mim. Ocasionalmente alguma das garotas oferecia um "chá" (elas eram boas em chás lá na Mercy). Eu me sentia oprimida pela opulência das casas das minhas colegas.

A maioria delas morava em Hillsborough, uma região rica da Peninsula, onde Bill havia crescido. Longas entradas para carros, jardins, mansões de muitos quartos com pessoas ou mesmo equipes cuidando de todas as suas necessidades. Então, é assim que a outra metade vive, pensei. Eu queria aquilo. Eu queria que meu maior problema na vida fossem cólicas menstruais. Parecia que, contudo, as meninas ricas tinham cólicas severas todo mês. Uma de minhas colegas gritava e chorava, contorcendo-se de dor no chão, a cada mês. Seus pais corriam até a escola, como se ela tivesse malária, para levá-la para ficar na cama até que a dor diminuísse. Aquilo nunca aconteceu comigo. Não me era permitido ficar em casa, a não ser que minha doença se mostrasse drástica e indiscutível, como catapora. Eu fui convidada a algumas "festas do pijama". Eu morria de vontade de ir, mas e se eu molhasse a cama em uma dessas casas chiques?

Mamãe decidiu me ajudar a fazer algo a respeito de minha enurese noturna. Ela chamou a Nite-dry Company. "Molhar a cama é só um hábito", disse o representante. "Nós descobrimos como acabar com esse hábito. Você põe essa tela coberta com uma fronha em cima da cama. A tela é tão sensível à umidade que uma só gota vai ativar o alarme e a lâmpada. Você vai acordar, desligar o alarme, correr até o banheiro, urinar, lavar o rosto com água fria (para ter certeza de que está acordada), trocar a fronha da tela, apagar a luz e voltar a dormir. Após algum tempo, você estará condicionada a acordar antes de urinar; e então você não irá mais molhar a cama"; disse ele, orgulhoso.

Eu não estava convencida, mas queria tentar. A idéia de molhar a cama na casa de uma amiga me horrorizava. E se eu ainda molhasse a cama quando casada? Eu tinha que tentar, por mais louco que aquilo parecesse.

Não teria sido maravilhoso se o vendedor da Nite-dry realmente entendesse o meu problema? Essa molhação de cama era o indício de algum trauma enterrado; um grito por ajuda e atenção. Não teria sido maravilhoso se ele tivesse sugerido (além da máquina) que eu também procurasse terapia ou um assistente social ou Alateen? Se aquele homem estivesse corretamente informado, ele poderia ter me ajudado não só a curar o efeito, mas também a causa. Mas ninguém entendia de terapia naquela época. Você só iria ao psiquiatra se fosse esquizofrênico, suicida ou tivesse um trauma de guerra. Ninguém imaginava que você pudesse ficar traumatizada por viver com um alcoolista.

Para minha surpresa, em apenas dois meses, o hábito de uma vida estava quebrado. A geringonça maluca da tela e alarme funcionou! Até que enfim eu parei de molhar a cama, mas a doença iria achar outra saída.

A Mercy era uma escola academicamente forte. Eu havia conseguido boas notas na St. Robert’s Grammar School, mas agora nossas discussões de noites inteiras estavam realmente afetando negativamente meu desempenho acadêmico. Nós tínhamos quatro horas de tema de casa por noite. Eu não conseguia ficar acordada. Eu caía no sono na aula e era acordada com uma pancada nos dedos.

"Senhorita Mahoney, isso será um demérito", dizia severamente irmã Jean.

Nós estávamos num sistema de deméritos. Sete deméritos e você era expulsa. Os deméritos eram dados por má conduta, tema de casa perdido ou desrespeito ao uniforme (sem saias curtas, sem sapatos sujos, sem maquiagem). Eu não conseguia manter em dia os temas de casa. Eu adorava o francês. Minha professora disse que eu tinha um excelente sotaque. "Por que você não faz o seu tema de casa?", ela perguntava. Não havia um lugar tranqüilo na casa para memorizar as palavras francesas. Eu comecei a colar. Eu não queria ser expulsa daquela maravilhosa escola. Eu aprendi a espiar por trás do meu cabelo para o lado, olhar o trabalho de quem estivesse sentada por perto e copiar as respostas. Eu achava que qualquer uma era mais esperta que eu. Eu estava mantendo uma média C. Suficiente para me manter na escola, mas nada para ganhar a simpatia dos professores. Eu me tornei mais e mais isolada. Eu não estava somente "por fora", mas também sendo conhecida como "a idiota" ou "estúpida".

Onde poderia eu ir, à noite, para encontrar quatro horas de tranqüilidade para estudar? Mesmo se eu sentasse no meu closet, poderia ouvir o barulho de meu pai bêbado através da porta. Eventualmente, eu saía para ver se estava tudo bem.

Meu closet era um lugar muito importante para mim. Eu me sentia segura lá dentro. Segura. Eu tenho estado escondida no meu closet por toda minha vida. Ele me protegia da violência. Papai estava geralmente bêbado demais para se lembrar de me procurar lá dentro. Era o lugar onde eu podia sentar e fantasiar; eu gostaria que a vida fosse diferente... Eu gostaria que mamãe e papai não brigassem... Eu gostaria de ser mais esperta... Eu sonhava dentro do meu closet.

Até hoje eu me sinto melhor quando estou num ambiente pequeno. Eu agora vejo a mim mesma como uma garotinha triste em seu closet, mas eu estava segura lá dentro. Eu podia sentar na tranqüilidade e na escuridão e tentar pensar nas coisas. Eu sempre me senti tão responsável. Eu senti que era tarefa minha tentar "manter a paz", não deixar mamãe e papai brigarem; não deixá-los fazer algo horrível um ao outro.

Eu queria muito ser uma boa estudante. Era muito humilhante ser considerada uma idiota. Isso afetou negativamente minha auto-estima. (p. 69-72).

 

ANEXO 2

1. Exemplo de Descrição de um Participante

Zelda (um pseudônimo) tem vinte e dois anos de idade e estuda numa universidade do meio-oeste norte-americano. Aluna e posteriormente amiga da pesquisadora, ela revelou que era uma FAA quando aquela falou deste trabalho. Zelda vive com a mãe, o pai (alcoolista) e uma irmã mais nova.

2. Exemplo de Descrição Fenomenológica de uma entrevista

Após ler o relato de Somers, Zelda descreveu o excerto como um filme, algo que não era real, mas imediatamente disse que poderia tê-lo relatado ela mesma, e "isso é o que o traz de volta à realidade". No excerto Somers fala sobre esconder-se no closet para escapar dos rompantes do pai. Zelda concorda com Somers que closets são um bom lugar para ficar, pequenos, pacíficos, próprios para se "ficar longe de tudo e de todos", sonhar e fantasiar.

Em conversas anteriores com a pesquisadora, Zelda revelou que não falou com outras pessoas sobre sua situação familiar. A pesquisadora insistiu no assunto e Zelda disse que nunca soubera que sua situação familiar era diferente. "Eu não conhecia o outro lado da vida em família. Eu apenas assumi que não era grande coisa. Que não havia nada errado e também eu não pensei que fosse problema dos outros e que eu não deveria incomodá-los com meus problemas." Mesmo assim, Zelda gosta de ajudar os outros, mas pessoalmente prefere permanecer independente e auto-suficiente. Sua mãe tem um papel ativo em sua vida, mas Zelda vê isso como irrelevante, "ela é mesmo para estar ali".

As brigas entre os pais da participante costumavam ocorrer depois que ela estava deitada, "Eu acho que eles pensavam que eu estava dormindo". Zelda cresceu e entrou na universidade, passando a ficar acordada até mais tarde, estudando. Seu meio de escapar da rixa familiar era enterrar a si mesma no estudo, programas de computador e em seus próprios pensamentos. Ela resumiu esta tendência dizendo "Eu evito isso. Eu evito um monte de coisas."

Quando perguntada se compartilhava com alguém algum dos seus pensamentos sobre sua família e o comportamento de seu pai, Zelda respondeu: "Além de você, não". Entretanto, recentemente algumas coisas surgiram durante uma conversa com uma amiga da família cujo marido é um alcoolista em recuperação. Essa conversa em particular levou à crença de sua mãe de que o comportamento do pai não afetava Zelda ou sua irmã. Tal revelação confundiu Zelda, que passou a questionar-se sobre seu crescimento, se ele fora realmente tão ruim quanto ela pensava. Essa asserção de sua mãe não era usual. Sua mãe costumava caracterizar o comportamento alcoólico do pai como uma doença, algo que era problema dele, não uma condição que tivesse qualquer impacto sobre suas vidas, apesar de conceder que a experiência pudesse ter um impacto sobre Zelda e sua irmã vários anos atrás, mas, atualmente, "tudo está numa boa".

Esta discussão sobre a influência do comportamento do pai nas suas vidas não era comum, já que ela e sua mãe raramente conversavam sobre a condição dele. As conversas costumam ser unilaterais: a mãe fala e Zelda escuta. "Eu não falo muito... eu ouço mas ajo como se não estivesse ouvindo, se é que isso faz sentido. Eu faço isso um monte." Dois amigos próximos à família e vários parentes sabem do comportamento alcoólico do pai de Zelda. Ela afirma que os amigos "não sabem o quão sério é isso, se é sério enfim" e que sua avó, a mãe de seu pai, parece evitar o assunto. O avô de Zelda, pai de seu pai, foi alcoolista, mas fez uma promessa quando ferido durante a Segunda Guerra Mundial de que largaria o álcool se sobrevivesse. Ele sobreviveu e manteve a promessa. O pai de Zelda nasceu um pouco depois desse evento.

A entrevista move-se para uma discussão sobre sua irmã e como ela entende a situação. Zelda não está certa sobre o quanto sua irmã está ciente sobre o comportamento do pai, apesar de que ela (a irmã) acha que ele age "estranho" às vezes e imagina porque ela teve de parar com certas atividades por questões financeiras. Entretanto, ela está ciente que seu pai bebe muito e que há um problema. A mãe fala com a irmã bem como com Zelda, mas esta afirma que "não fala muito."

Além da pesquisadora e de outra amiga próxima que freqüenta a casa de Zelda, ela admite que nenhum de seus amigos sabe sobre o alcoolismo de seu pai. No ginásio ela passava a maior parte do tempo sozinha. Apesar de ser próxima de uma professora, o relacionamento não era recíproco no que diz respeito a auto-exposição. A professora revelou informações a Zelda sobre seu pai alcoolista e a vida com ele, mas Zelda apenas ouvia, nunca compartilhando seu conhecimento de causa sobre o assunto. Quando perguntada sobre por que as pessoas parecem dispostas a abrir-se com ela, esta respondeu: "Todo mundo fala comigo. Eu meio que me resguardo". Pedida uma clarificação da expressão "resguardo", Zelda explicou que "Eu dou às pessoas pedaços e fragmentos de coisas que eles querem mais, saber mais sobre você, mas você não conta tudo." Ela prefere não dizer porque tem medo de perdê-los como amigos. Ela pensou na possibilidade de que eles não entendessem ou pensassem que ela era..."meio estranha. Porque a nossa família é meio estranha. É isso que sempre me disseram, mesmo durante o primário, principalmente porque somos alemães. Eu costumava ter muito disso durante o primário. Eles me chamavam de todos os tipos de nomes, então eu sempre me tive como sendo meio diferente."

Conseqüentemente Zelda manteve-se a distância segura de seus amigos, nunca chegando perto demais, então ou agora, a fim de evitar a revelação de seus segredos familiares.

 

ANEXO 3

1. Exemplo de Redução Fenomenológica de uma Descrição

Uma redução da descrição da experiência de Zelda com seu pai alcoolista centra-se na fantasia. Zelda, até recentemente, nunca havia compartilhado ou revelado quaisquer de suas reações ou sentimentos acerca de sua família disfuncional. Ela não havia compartilhado suas realidades percebidas, que conseqüentemente não foram confirmadas ou desmentidas. Recentemente, sua mãe começou a desconfirmar suas percepções, o que confunde Zelda. Acreditando que o problema é seu, Zelda continua permanecendo calada, nunca solicitando a confirmação de seus próprios sentimentos.

A única fonte de feedback para Zelda, até recentemente, tem sido sua mãe, que agora acredita que o comportamento do pai não afetou a ela ou à sua irmã, ao menos não atualmente. Ouvindo isso, Zelda questiona sua própria percepção dos eventos passados e imagina se a vida com seu pai era realmente tão ruim quanto ela pensava.

O modus operandi de Zelda é ouvir e não falar, com medo de perder amigos, porém estando sempre pronta a assisti-los. Em resumo, as abstrações, mensagens auto-reflexivas que trancaram Zelda em seu mundo de fantasia incluem:

Quer manter uma distância entre si mesma e os outros.

O lar não é um lugar agradável.

Prefere estar sozinha num lugar seguro.

Sua vida não é do modo como gostaria que fosse, exceto em seus sonhos.

Ela não tem controle sobre sua vida familiar; ela tem controle sobre seus sonhos.

Achava que a família era normal e apenas tinha que lidar com isso.

Se incomodava com os eventos, mas tinha medo de contar a outros fora da família.

Quer ser necessária e apreciada; não sente-se assim atualmente.

Não quer se machucar; evita emoções.

Questiona se seus pais estavam preocupados ou cientes de seus sentimentos; não sente que seus sentimentos contam para seus pais.

Retrai-se em seus próprios pensamentos, por segurança.

Permanece não se envolvendo por auto-preservação.

Duvida de suas percepções de realidades passadas, as quais nunca foram confirmadas.

Quando as percepções de realidade da mãe não se casam com as suas, Zelda presume que está errada. Não confia em seus próprios sentimentos e percepções.

Prefere não perturbar sua noção de realidade comparando-a com outras, em particular a da mãe. A mudança é assustadora.

Não sabe o quanto é séria, ou não, a situação de sua família.

Deseja estar perto dos outros.

Teme perder amigos ao revelar muito sobre si mesma ou sua família.

Acredita que as pessoas vão achá-la estranha e serão rudes com ela.

Evita laços estreitos visando evitar revelar segredos de família.

 

 

1 Este trabalho fez parte de um programa de colaboração para a formação de pesquisadores em fenomenologia semiótica, coordenado pelo professor Richard Lanigan, da Southern Illinois University, Carbondale, EUA.
2 Endereço para correspondência: Prof. William B. Gomes. Instituto de Psicologia - UFRGS. Rua Ramiro Barcelos 2600/119. 90035-003 Porto Alegre RS. Tel. 051 3165115; Fax.: 051 3304797 E-mail: gomesw@vortex.ufrgs.br